Centro Unv*rsitário Santo Agostinho
www*.fsanet.com.*r/revista
Rev. FSA, Tere*i*a, *. *5, n. 6, art. 12, p. 209-224, *o*./de*. 2018
ISSN Impre*so: 1806-63*6 ISSN *letrônico: 2317-2983
http://dx.doi.org/10.1281*/2018.15.*.12
As Fronteiras da Verdade em "O N*v*o Negreir*"
Th* Borde** of the Truth in "**e Slaver Shi*"
Amós Coêlho *a Sil*a
*outor em L*ngua e Litera**ra La*ina Unive*sid*de do E*t*do de Ri* de Janeiro
Professo* As*ociado do Insti***o de Letra* -Universidade d* Estado do *io de Janeir*
E-mail: amoscoelh*@uo*.com.br
Endereço: *mós Coêlh* da *ila
Edit**-Chefe: D*. To*ny Kerley de *l**car
Rua R*miro Magalhães, 3*2 *ngenho de *entro - CEP
Ro*rigues
20730-460 - R*o de *aneiro -RJ. Bra*il.
A*ti*o rec*bido em 19/*6/2*1*. Última ve*são
*ecebida em 05/0*/2018. Aprovado em 06/07/2018.
Aval*ado pelo sistem* T*i*l* Re*iew: D*sk R**iew a)
pelo Editor-*h*fe; e b) *ouble Blin* Review
(a**l*ação cega por dois avali*dores *a *rea).
Revis**: G*ama*ical, Nor*ativa e de F**matação
*. C. Silva
*10
RESUMO
* "verd*de" entre a* lembran*as que *correria* *stá para a *oesia,
assim co*o
a
d*c*mentação do que ocor*e* está pa*a a Hist**ia. Ent*etanto, em
ambas
há fen*as
no
d**curso sobre seu objeto, ai*da que
na "*erdade" se cunhe um fundam*nto fi*o*ófico
no
p*imeiro ca*o e, n* s*gun*o, que se asseg*re com documentação q*e ocorreu * seu* o
*espec*ivos valores cientí*icos. Focal*za**mos com* o olha* poéti*o, *casi*nalmente, discern*
as f*ssuras que abal*m a consistente c*n**gu*ação cien*ífica da his*óri*a, com o levan*amento
de u* a
nova
exegese, em perspectiv* co*pa*ada do poema "Tragédia
no Mar (O *avio
N*gre*ro) " para se debater o que é um* verdade hi*tór*ca em cote*o com a verdade literária,
atra*és
de aval**ção interdisciplinar entre L*t**at*ra e fato* *ist*ri*o*. * elemento
*nemôn*co adequ*ndo-se ao rea*. A *inguag*m mítica como uma verdade *n *l*o tempore. A
v*rdade poética é *a** e*e**da do que a da H*stória? A poética d* Ca*tro A*ves atra*és
de
disp*sitivo* estilísticos e de formulações intert**tuais em defesa *e uma nova verdade sobre a
*a*deira br*sileira.
P*l*v*as-chave: Poesia. História. Mime*e. Enunci*ç*o.
ABSTRACT
The "truth" *mong th* m*mories that would occur i* for *oetry, just *s t*e document*tion of
wha* has occ*r*ed ** for *i*t**y. Howev*r, in *o** the*e ar* s*its i* the d*scourse on *t* *bject,
a*thoug* in the "t**t*" a philosop*ical foundation is coine* in the first case, and in the second,
t* ensure with documentation, *hat happened and their respectiv* scien*ific values. We will
ob*erve
on ho* the *oetic *a*e occ*sionally discerns the **ssu*es that und*rmine the
con*istent scientific configuration of h**tory, with
the emer*ence of a new exegesi*, in
a
co*parative perspec*ive, from the poem "Tragedy the S*a (The Sl*ver *hip)" to discuss at
what i* a histo*ical truth *n comparis*n wit* lite*ary tr*th, through
an interdis*iplinary
evaluati*n b*tween Litera*ure and historical f*cts. The mnem*nic element is *itting to the r*al.
The mythical lan**age as a truth *n illo tempor*. Is the poetic truth hi*h*r than *h*t of
History? The poetr* of Castro *lves through styl*sti* d**ices and intert*xtual *ormulati*ns in
de*ense of a new truth abou* th* B*azi*ian flag.
K*ywords: Poetry. Hi*to*y. Mim*sis. Enuncia*io*.
Rev. F*A, Teresi*a, v. *5, n. 6, art. 12, p. 209-2**, nov./dez. 2**8
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A* Fro*te**as da Verdade em "O *a*io Negreiro"
211
1 INTRODU*ÃO
Este ensa*o abordará o q*e há de ve*dade na His*ór*a e P*esia, e* relação ao po*ma
"Tra*édia no Mar (O Navio N*grei*o) ". O *ue h* muito se
deb*te sobr* o que *
u* a
verdade, em *m*os *s *ados *o nosso pl*neta, o Ori*ntal e o *cidental,
*eio pelo viés, no
primei*o caso, de po*tos de vi*ta ligados à religiosi**de e, no segun*o, se orig*na
principalmente da contestação a* mito de fil*sofos **eg*s, que é por onde *rilhar***s
dora*ante.
Cha*emos de "teoria con*ensu*l" * fato de *o*er *xis*ir a c*n*iliação entre o "real" e
um juízo, um* inferência ou **ação. Há entre os
g*egos duas li*has *e refl**ã* de onde
pod*mos parti* e que formam doi* si*temas coerentes. O primeir* sis*ema tom* como
fundam*nto o movim**to dos o*jetos di*nte da *ossa percepção, na expressão he*aclit**na
(Heráclit*: IV - V a.C.) \*a*** r*i\, *udo f*u*, é a pos*ibilidade d* "vir * se*", *u antes, ter
*dentidade, ser, a propriedade do \*óg*s\; o \*ógos\ helênico é o
que podemos *dmitir como
"*ontato possível com o *e*l"... U* out*o pensador, * Pa*mên*d** (544 - 450 a.C.), se op*e *
esta concepção e a de*omina de "aparência", a*ri*u*ndo aos *oss*s sentido* *qu*l* que nossos
*r*ãos nos fazem crer *est*
"****o dos ob*etos" ou devir, separand*-o da existência de um
ser, imóvel, eterno: * *eal consti**i*ão do un*verso.
É d*ss* seg*n** refle*ã* filosó**ca que surg* a
adequação platônic* (Platão: 427
-
**7 a.*.), q*e re*oncilia a herança *ocrática *om a d*cotomia de P**mênides. O se* debate se
fo*mula pela e*eva*ão *a *lm* dialeticament*, * p*opósito, seria * i**erlocu*ão
en*re a*
aparên*ias s**s*veis e o mun** verda**iro: a essência. Há, por*anto, um* ve*dade esse*cial:
dela só tem*s reminisc*ncias vagas, *u* em *oss* ativida*es at*almente reco**t**ímos co*
"imitações" precár*as, com* é o e*emplo plat*nico d* "c*ma"; **nde v*rdades precárias e de
*egu*do grau; há aind* a "*mit*ção" d**tas última* que
na**e par**r do que a
*p*na* s*
percebe que são as aç*es do pintor, escu**o*, poet*s, c*m su*s i*itações, ver*ad*s a*nda ma*s
pr***rias, poi* se pautam e* rem*niscências ou aparências, que
existem
na natur*za e q*e
ocorrem em pinturas, em escu*turas, em teatro, respe*tivamente.
Rev. FSA, Ter*sina PI, v. *5, n. 6, art. 12, p. 209-224, *ov./**z. 2018
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A. C. *il*a
*1*
2 REF*RENCIAL *EÓR*C*
2.1 Po*sia e História
É c*m Platão que su*ge o t**mo \mí**s*s\ pa** coment*r*o liter*rio (MOISÉS, 1974:
M*ME*E); co*eç* no Li*ro *II, da República, mas, de fato, é no IX * X qu* *l* parte de "um
mode*o *o céu" (592 b), **dicando o real co*o ideal. Cons*dera, então, três **aus da r*al*d*de
/ ve*dade: a) u*a, c*i*da por d*vindade, b) uma segu*da, a do a**ífice e *) * do ar*esão (595 e
s*.). C*m o exemp*o do "marcen*iro" como "a*tí*ice da cam*", um segun*o gra* d* v*rdade,
po*s detém ves*ígio* em sua memória
daquilo que div*ndade, de fat*, cr*ou. A*sim, *xiste a
aq*ele qu* crio* e o artífice, ou o marceneiro que, de s*a *eminiscênci*, a fabricou
num
se*undo p**no. Um *intor ou um poet* trá*ico é u* *mitador da aparên*ia, o* de um se**ndo
grau; don*e sua verda*e pictórica ou *r*gica forma a *e te*c**ro grau.
É *echaçado Platão, q*anto a essa *mita*ão *m fo*mas artístic*s, po* *eu d*scípulo
Aristó*eles (38* - 322 a.*.), e a rec*n**dera
na Poética, 1447 a, levantando por quais
*aneiras s* imita um *nunc*ado, se se q*e* con*truí-lo co*o a mais *el* poes**. No c*pítulo
IV, so*re a o*ig** da poe*i*, Aristóte*es *tribui a duas causas (imitação e conhecimento):
* *e*dência pa*a * imit*ção é instintiva no *omem, desde a i*fânc*a. *est*
*o*to
distingue-se ** to*os os outr** s*re*, p*r sua apt*dão *u*to d*senv*lvida
pa*a a imi*ação. Pela
imitação ad*uire seus prim*iros con*ecimentos, po* ela
todos *xperime*tam pra**r. (...) A
causa é que a a*uis*ção de um
co*hecimento arreb*ta não só o fi*ósofo, **s todos os seres
humanos,
mesmo que não saboreiem durant* *uito *emp* ess* satisfação. (...) Como nos
é
natura* a tend*ncia à imitação, bem como o
gosto da ha*mon*a e *o ri*mo
(p*is é evid*nte que
os metros **o par*** do ritm*), na origem os h**en* mais
aptos p*r natureza p*ra estes
exercí*ios pouco a pouc* foram dand* orig*m
à
poesia por s*as improv*saç*es. (1448 b / CAR*ALHO, 1964: 2*6).
Declara Arist*teles, no *apí*ulo VI, que a imitação *e uma
aç*o é * *it* (fábula)
(*de*: 271). Mais adia*te, n* IX, comparando o poe** com o historiador, ob*er*a que
o
historiador apon*a o que, *or exemp*o, A*cebíades faz / f*la (*ez/ falou), mas o poeta imita o
que el* faria / *ala*i*, mas e* *entid* g*ra* (). Logo, o di**urso poético é
um a
met*fo*a, representa o veross*m*l, embora dê nomes part**u*a*es, como Al**bíade*. Assim, na
coméd*a, o* autores *ão aos pers*nage*s nomes fantasiados e lhes creditam atos verossímeis,
m*s, n* trag*dia, pr*v*lecem no*es *ue existiram.
Se ti*éssemo* *e aproximar enun*i*ção / en*nciado teori*amente dos *ermos
*ristoté*icos, poderíamos r*tom*r (*45*
a) peripécia (*c*ntecime*to imprevisto)
/
Rev. FSA, *eresina, v. 15, n. 6, art. 12, p. 20*-22*, nov./*ez. *018
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As Fronteiras da Ver*ade *m "O Navio Negreiro"
2*3
r*conhecim*nt* (anagnórise). A mudança (µ) *e ação *m direção contrária por
consequên*ia deve ser con*o*me *erossimilhança (**) ou necess*da*e (). Cita a
Aris*ótel** É**po Rei, de Sófocles, quando o m*nsageiro chega *, pensando que ajudará
Édipo a se *iv*ar do pes*delo em relação à mãe, revela entã* a morte *e Pó*ibo, rei ** Cor*nto
mas,
n*o *otando * me*sag*iro propri*mente s*a *xp*ess*o de alívio, já que, *ssim sendo,
não s* cumprirá aquela profecia *e *le, É*ipo, mat*r se* próp*io pai, di* a ele, por *q*ívoco,
que Pólibo não era seu pai l*gí*i*o, em*ora o chamasse d* filho, e mais a*nd*: o *az*a po*que
**ng*agem afet*va, i*to é, o vocativo era a*enas carinhoso. Esta inf**mação pro*uziu efeito
co*trá***, resulto* no *econhecimento, ou m*lhor, fe* Édipo pass*r da *gno*ân*ia ao
co*heci*ento. Isso mudou o r*mo da ação dramática (*eripéc*a): agor* Édipo tem então mais
c*rteza de sua culpa (\hamartía\). A *eripécia *ristotélica está *ara a enuncia*ão, d*vid* à su*
ação de mud** o sentido das c*isas.
Cícero (106- 43 a.C.) nos *arece, como **men*a Mioara *aragea: s.v. "H*st*ria", do
E-*ICIONÁ*IO DE TERMOS LITERÁR*OS, bastante seg*ro qua*t*
*o f*to d* a His**ria
poder narrar *e fo**a absoluta a verdade: Nam quis nescit p*imam esse historia* legem, ne
qui* falsi dice*e audeat? dein*e *e quid ver* non a**eat? (De *r*tore, X*) De fato, quem
não sabe que * p*i****a lei *a história é não ous*r comen*ar *lgo de falso? a segun*a, de
o*s*r comentar toda a verdade?*
Ta* convicç*o c**ero*iana, como configuração *arad*g*ática de verdade na Hi*tória,
*reva*ecerá até o s*c*lo **X. A Hi*tór*a e a Literatura conviveram por muitos *écul*s "como
ramos d* mesma *rvore do saber" (**TC*EON,
1991: 141) O c*rte epistemoló*ico
entre
estas disciplina*
ocor** no século XX mas, por suas cara*t*rís*icas n*rrativas,
ambas se
carac*erizam pe*a verossimilhança:
"**nsidera-se *ue as duas obtêm suas forças a partir d* verossimilhança,
mais do q*e a partir de qualquer ve*dade objetiva: as
duas s*o iden*ificadas em
s*a* f***as n*rra*ivas, e na*a transparentes em termos de linguagem ou de
estr*tu*a: e parecem ser igualme*te *ntertextuais, desenvolvend* *s texto* **
*a*sado c*m *ua p*ópria textua**dade comp*exa." (Ide*, 141).
É in*er*ssante nota qu* o poema Tragédia no Mar (O *avio N*gr*iro), e este é o títu*o
que lem*s *m seu m*nuscrito, cabe e* poucas páginas de
papel A4, mas o traba*ho de
*cdót*ca de A*tôn*o José Chedi*k discor*e s*bre suas edições em 6*5 páginas, num trabalho
de *xeg**e e hermenêu*ica *ue le*an*a *s *alh*s *ditadas, em co*fronto com o m**uscri*o do
**eta dos Escr*vos. Ainda *m vida do Poeta i*so mesm* ocorr*u; imagine-se posteriorment*,
1 **adução no*sa.
Rev. *SA, Teres*na PI, *. 1*, n. 6, art. 12, p. 209-224, nov./dez. 2018 *ww*.**anet.com.br/revista
A. *. Silva
214
o que houve *e *ersões f*xadas e* docum*n**çã* de múlti*las edi*ões em relaçã* ao
ma***crito q*e se encontra no Ins*ituto Ge*gráfico e Histó*ico da *a**a que chegou às mã*s
do fi*ó*ogo Chediak.
Cit*mos, enf*m, apenas a *uestão da multipl*cidade do título. Muito comu*ente, se lê
"Navio Negreiro", ou *om artigo, "O Navi* Negrei*o" e, aind*, "O Na*io Negreiro: Tr*gédi*
n* Mar" etc. A* primeiras recitaçõe*, e* vida ai*da do *oe*a, se intitularam "* Tragédia no
Mar" e, de*ois de * express*o "n*vio negreiro" ser trans*ormado e* "Águi* d* oceano" p*r
algu*s ed*tores, Pedro Calmon iro*i*ou "* velho Chi*frim *udado *m Águia" (grifo
original), te*mi*ou entre par*n*eses *omo no t*tu*o ac*ma se lê, e o pesquisa*or Chediak
dando r*zão ao histori*dor Calmon sobre * nódoa históri*a *o sintagma "navi*
negreiro",
si*tag*a que resis*iu mn**onicamente,
justo por cau*a da amarga *or dos **crav*s
sobrevivent*s ainda e concl*indo: "Daí os aplausos que recebia a* recitar o poema." (*.45)
2.2 A Criatividade Enunciativa
A expressão **kht**iana, "auditório social", *n M**xism* e filosofia da linguagem,
constrói uma interlocução social, no senti*o d* u* dra*a, no rigor de su* e*imologia: *ção *e
uma pessoa em relação a outrem e e*te, como alteridade, pode ser no *lural *u *i*gular. Com
o
"*or*zonte social", Bakht*n recorta do **ndo os ob*e*os, fechand* um "te**", mas
integrando a sit*a*ão social daquele moment* viv*do pelo "auditório social"; s*ndo a*sim não
* na noçã* abstrata da langue suassuriana que subsume o indivíduo, mas a linguag*m da
"parole" com apen*s algun* el*mento* l**gu*sti*os de que se apropriam os interloc*tore*
parceiros, *ue B. *al*n*wski batizou com a expressão "*omu*h*o f*tica" (**ud *enveniste,
Ap*relh* *ormal d* Enuncia*ão: *8)
Leia*os as considerações de *e**eniste (2006: 83), qu* sep*ra da "langu*" do seu
estado "in absentia", *om*nd* apenas alguns dados li*guístico*, apropriad*s pelos
interlocutores atravé* da "pa*ole":
O a*o in*ividual pelo **al se uti*iza * língua introd*z em primeiro lu*ar o
locutor c*mo parâ*etro nas **ndições n*cessárias da enunci*ção. A*te* d*
enun*ia*ão, a língua não é se*ão poss**ilid*de da lí**ua. Depois da enu*ci*ção,
*
lí*gua é *fet*ada *m uma inst*nci* de
discurso, qu* ema*a de um locutor, *or*a
sonora que ati*ge um ouvi*te e que susci*a *ma outra enunc*ação de retorno.
.
Rev. *SA, Ter*sina, v. 15, n. 6, art. 1*, p. 209-224, nov./dez. 2018
**w4.fsan*t.com.**/revista
As *ront*ira* da Ver*ade em "O Nav*o Ne*rei*o"
215
Charles Sander* P*irc* (183* - *914) h*vi* den*minado Sem*óti*a o
pro**to que
*aussure cha*ou de S*miol*g**. Não se conhecera*, **s for*m coetâne**. Peirce con*ebeu
um sistema de s*gnifi*aç*o *omo uma *o**rina dos s*gnos, por e*emplo, a mai*ria das
palavras são SÍMBOLO*, mas
al*umas são Í**ICES, c*mo *s
dêiticos (pronome*,
advé*bios *tc). Não há, na su* in*erpretação, a preo*upação com a funçã*. *as há esta mesma
pre*cupação *m Saus*ure, porqu* há
no seu projet* Semiologia o qu* * uma "comunhão
s*cial" *o **gno: * v*d* *os s*gno*
** seio da vida soci*l. Enumera como sistemas
**miológicos os r*tos e os costu*es.
No enta*to, colo*a a linguíst*ca como ramo da semiologi*, o que Roland B**thes
inverte: a semiolo*ia é que é um ramo da linguí*tic* *orque, p*r analogia, com os ele*entos
do código linguís*ico, há os outros *ódi*os, como *ódigo semafóri*o, * *o vestuário *tc.,
e
eles assimilam aq*elas propriedades significativas peculiares l*n*uisticamente: "T*do sistema
se**o*óg*co se **pregna de linguagem. " (a*ud *UBOIS et al, 1978: SEMIOLOGI*)
Na li*guagem estr*tament* v*rbal, quanto à parte das formas *au*surianas (ist* é:
l*n*ua é forma, *ão substânci*), *ortan**, e* relação aos e*ementos paradigmáticos, *
a
*ani*estaç** da
estrutura formal e funciona* se d*rá, no e*foqu* de Ben**n*ste,
pela
enunciação, mas se contiver ca*a*terístic*s da pa*o*e saussu*i*na. Dito
de *utro modo: é n*
enunciaç*o que se
co*figura uma dada situa*ão s****tiva. No s*ntagma
const*uíd* pe*a
enunciação, há em cad* unida** linguística, seja um fonema, q*e, conforme uma dada teori*
*inguís*ica, per**n*e * segunda arti*ulação; s* for um* d*si*ê*cia ou se**ntema, pertence*te
* primeir* articulação, haverá de ocorr*r um* conve*s*o e* signo dêitico, pa*a *ue surja um
"*entido".
Assim, ** na ling*agem não ***bal a
elevaçã* d*
*emp**atu*a
do corpo, um índi*e
p*ra Peirce, ma* poderá ser tra*sformado em um "signo dêiti**" (um elog*o * bel*za *e uma
jovem e respectiva reaç*o dela pelo rubor
da face), e, porém,
s*r* simplesm*nte índice, *u
sintoma na li*guagem médi**, de uma iminênci* de
enfermidade (a
*eb*e é eq*ivalente ao
índice em sua rela*ã* de contiguidade com a realidade exter*or, con*orme Peirce).
Is*o **smo se dará no n*ss* poema **r*us com o de*taque de *m elemento *e
segun** art*c*lação que, por *atu*ez*, é dotado
de uma não p**cepção imediata d*
significação se*ântica, seu pa*el é ape*as *iferença pa*adig*ática entre expr*ss*es: bala X
vala ("b" se opondo a "v", is*o é, cria*do uma diferença). Assim, na articulação da ling*ag*m
v*rbal de "Que a brisa do Brasil beija e balança", *ncontramo* um fone** /b/, como
o
oclusivo, bilabial, *on*ro, um outro é o /s/, *o*stri*iv*, fricativ*,
alveol*r surdo, passa*á
*
formar no* *erso* de Castro A*ves não ape*a* a cond*ção *stilística de um* aliteraçã*, como
Rev. FSA, *ere*ina PI, v. 15, n. 6, art. 12, p. 209-224, nov./dez. 2018 ww*4.fs*net.com.br/revista
A. C. Silva
216
se o sopro da pr*lação con*r*tizasse *m *cfrase d* efeito do ven*o em nossos **bios. Mas *
m*scar*r uma intençã* do sentido do *oeta, com* se dá em Tragédia no Mar (O Nav*o
Negreiro): "Aurive*de p*nd*o da minha terra, / Que a *risa do *ra*il *ei*a e balança". Nos
fonemas descr*t*s a*ima, pass*-se além da aliteração a *m se*und* p*ano estético, *m q*e há
uma p*ssível **sociaçã* d* nossa bande*ra com o sublime. Mas, a e**nciação ain*a não
se
realiz*u, pois *rec*samos ler mais adiante, e,
aí, * "a*river*e" en*ontrará sua si*nif*cação
(daí, "sen*ido" sa**sur*a**), *u sej*, fic*r* enxo*alhado, dado o cont*xto ve*bal, pelo uso em
situação espúria, que é esta at*al de *ua *ondição de uso a *avor de *ma escr*vid*o. É *este
espaço enuncia*ivo da *armonia
imitativa que reside uma
dentr* múltiplas possibilidades de
C*stro **ves fundar / aprofundar / relacio*ar o "real" no mundo poético / verossímil.
Cada signo do e*unciado tem um *esmo
v*lor *e ref**ên*ia n**a comuni*ade. É,
cont*do, não no enunciado, cujo valor é de quilate semântico, mas n* enunciação, c**o val*r é
semiótico o* semiológico, e é onde estará depos*tada a **eia do que é * funç*o reno**da de
*m signo. Assim, eleme*tos linguíst*cos de segunda articulação se ***narão signo*, *ada
a
apropriação e a manuf*t*ra do P*eta, sign*s d*iticos; e esta habilidad* artística não
pode
oferecer uma f*rmula exe*plar * *aradigmática. E*a é a única atualização da comuni*ação
inter*ubjetiva (BENVENIS*E, 2006, p.63). É na en*nc**ção que se pode *riar "sentido", que
é dif*rente *e sig*ifica*o, pertencente semantic*m*nte ao plano paradigm*tico, aquela noção
apreendida *a L*ngue,
ou até m*smo
no d*cionário; por isso, nã* é p**o alinham*nt*
semântico *os
ele*entos linguísticos ou das *a*av*as, mas *im, *uando a inte*ção
se
contextual**a ou *e *ealiza em i*ter*ção social c*m outrem, a contrapart*, a co*petência ou o
*omíni* d* sistema linguístico, *emp*e
que ocorrer apropriação de
u* dos e*em*ntos
do
s*stema lingu*stico
como
pro*es*o de *omunicaçã*. Pa*a *enve*iste,
um a
enunciação se
dá
pel* pr*ces*o de a*r*priaçã* de elemento* linguíst*cos, conv*r*endo-os pel* *ubjetivação:
A*ui a questão - muito d*fícil e pou*o es**dada ainda - é ver como o "sen*ido" se fo**a em
"palav*a*", em *ue medi*a *e po*e distinguir en*re as
duas noções e em que termos
descre*er s*a interação. (BENVENIST*, **06, p.*3)
A pr*ocupação com a f*n*ão *o signo é desde cedo saussuriana, como se comen*a*
"sentido" Jean Dubois et alii (*978: SENTIDO): *ara F. *e Sa*ssure, o sentido de um sign*
lingu*stic* é consti*uído p*la represe*taç** suge*ida de u* s*gn* q*ando d* sua e*unci*ção.
(Grifo nosso). Citam a**da os l*n*uistas franc*ses enfo*ues múltipl*s para este *roblema (de
Saussure, como): o *entido *par*cia como *esult*do *e
uma segm*ntação, como um v*lor
que emanava do sis*ema, c*mo um fe*ômeno associat*vo.
Rev. FSA, Teresina, v. 15, n. 6, *rt. 12, p. 2**-224, n*v./de*. 2018
www4.fsanet.**m.br/revista
As Fronteiras da Ve*dade e* "O *avio Negreiro"
217
A pont**ção empregad* pelo Poeta, como na invocação "Senhor Deus
do*
desgraçad**!" é seguida de pe*gu**as como "Quem são e*tes desgraçad*s (...)?", "*ue*
sã*?". *os *ecur*os d* uso *os dêit*cos, q**r dizer, pr*n*me*, advérbios etc., *as *epe*ições e
nas re*postas, cujos valores são
*e
historici*ade, en*ontramos "Ho*e*s
simpl*s,
fortes,
bravos...", co*o *ram outrora, "hoje mís*r*s escra*os" (...). São, poi*, o artefat* de dê**ico*,
de *ont*a**o e das oportunas r*petições fontes d* processamen*o da enu*ciação.
3 RE**LTADOS E DISCUSSÕES
3.1 O Cr*vel e* Cast*o Alve*
Uma l*itura do enunciado *o*e não se preoc**ar com a enu*ci*ção e, por isso,
*ban*o*ar a **nstru*ão da subjetivação poética, pres*nte no uso de d*itico* e *o* "signos
dêitico*", com* *en*minam alguns manuais: no poema um* formulação típi*a "signos
dêitic**", é o que *e pode prefe*ir * denominação d* "simb*lismo d*s palavras", e pode *e d*r
através da
et*molo**a. Or*, a leitur* apenas do *nunc**do s*ria um procedim*nto semântico
**e pode esva*iar a linguagem simbólica do d*scurs* li*erár*o ou poétic*, ou m*lhor, pratic*-
se o alinham*nto semântico das *alavras * de cer*o m**o uma visão imane*te, **chad* no
texto. Por ex**plo, em relaçã* à leitura do tema do po*ma se p*utar ape*as com o comé*cio
de esc*avos afri*anos ser pos*erio* e a*ulad* pela le* com**cia* c*nt*a o tráfic* de n*gros no
Atlân*ico e, por essa razão, ser esvaziado de
"sent*do", e, p*rtanto, um poema sem
valor
esté*ico * **tístico.
Ness* direção, a observação de Eugênio Gomes, in Castro Alves: Poesi*, é totalment*
pert*nent*. E*e
d*scorre sobre a *legação cr*tica d* *xisti*em
em a*guns *omentários sobre
a
possib*lida*e de a ext**ção do tráfico negrei*o pel* força da le* de *usébio de Queirós: mas, *
as consequên*ias *efas*as que persistira*? Q*em pode garantir a não *xist*ncia, às ocul*as e
criminos**ente, de comportamento ins**ord*nado à lei d* Eus*bio de Qu*irós? Os pró*rios
livros de *i*tória a*on*am a tensão e in*ere*se* n* co*tinuidade *scravagi*ta.
* nos*o esco*o s*r* realçar que, antes de ler o texto de Tra*éd** no M*r (* Navio
Negreiro), o *eitor ou o*vinte d* declamação poética detém múltiplos conhec*mentos da já
formaç*o de descrições ar*uivadas na *i*lio*e*a
da História, da **ogr*fi*, da N*vegação,
sobr* o so*ial mar**imo e hi**ó*ico de cada povo, além de detalhes quanto distância, à
à
**ração de um* viag*m, ao aba*tecimento dos *avios, às r*ta* de c**a percur*o com ou s**
tempestade, orientação dos c*minhos pelos astr*s etc. Mas, mesmo com ta*ta i*f*rmação, s*
Rev. FSA, Teresina PI, v. 15, n. 6, art. 1*, *. 2*9-224, n*v./dez. **18 www4.fs*net.c*m.br/revista
A. C. S***a
2*8
envol*e c*m a más*ara poética do *utor*, *u seja, o f*ndador de "sent*dos", **vid* à
*ons*rução de sua enunciação.
Iniciemo*, pel* to*ad* iterat**a: **s*ro Alves nos inse*e em "pleno mar" e de*l*** o
"*l*no mar" c*mo um lo*al aprazível, onde s* pode "Sentir d*st* painel a
imensidade!..."
Recria e con*ensa um ambiente de l*berdade como "do*e *ar*onia", "música s*ave", "canto
ardente". *ixa-se um "sen*ido", um* verdade. P** enquanto não s* t*m not*cia *o que há
den**o *e um "veleiro *rigue" que s*rgi*á *ur*reendent**ente no *ar e que h* de *nstigar a
cur*osidade *o Po*ta:
U*a função *e semelhança acima da dif*rença, (...) é um s*gundo grau da
*el*ção sim*ólica de semel*ança.
(...) a "*erdad*" se*ia *m disc*rso que s*
*ssemelh*ria ao real; "v*rossimil", sem ser verdad*ir*, seria o d*scurs* que se *
ass*melha ao d*scu*so que se as*eme*ha ao *e*l. " (Kr*s**va, *.48).
De*i** o Po*ta para ou**a d*reção "Homens do mar! "; e*b*ra não im**rte o
b*rço
"do **uta", há um interesse d* Poeta, conf*rme o seu pe*ido de auxílio à "*gui* *o oceano",
o Albatroz, símbolo do "Condo*ei**smo" do "Poeta dos *scrav*s". Assim:
U* discurso é s*ntaticamente verossími* *e *ouver pos*ibilidade de *azer
derivar c*da uma *e suas sequências da *otalid*d* est*uturada que é esse
discu*so. O *eros*ímil dep*nde, p*is, d* uma e*trutura com norm*s de articulaç*es
pa*ticulares, de *m *ist*ma \retórico\ p*ec*so: sintaxe a
ver*ssími* *e ** texto é o
que o torna *onforme às leis da *stru*ura d*scursiva
dada (às leis
d* retó*ica).
(KRISTEVA 1972: 51, gr*fo da Autora).
De mo*o *ue a Autora *ria * termo *ero*símil si*tático, eq*ivalente de um ver*ssímil
retórico: o veros*ímil *xiste numa estru*ura fechada e para um *iscurso de o*g*nizaçã*
retó*ica (Idem: *2). Cada *exto formari* uma ver*ssimilh*nça semântica por *orne*er e,
o
e*eito de assemelh*r-se, resultará ** um
processo sintá*ico uma verossimilhan*a sem*nti*a,
obtida no artesanato linguístico da enunciação do Poeta. Neste s*ntido, p*deríamo* a*irmar
que Aristóteles, c*nf*rme cap*tulo 25 (*460b), p*d*ria ter **to que \a arte é * imitação *a
*ida como *la deveria ser\ *uando apresentou a seg**nt* ma*ifestação:
Sob** os pontos cont*overso* e so*re as so*uções, sobre seu número e
d*fer*ntes *s*écie*, a*gu*a luz derramarã* as considerações
seguin**s: s*ndo o
poet* um imi*ado*, como
é pintor o* qualq*er outr* cri*dor d* figuras, o
pe*an*e as coisa* se*á induzi*o a assum*r uma
d*s tr*s maneiras d* as i*itar: *)
c*mo elas eram ou são, 2) como os outr*s dizem que são 3) ou
com*
p ar *ce
serem, ou com* deveriam ser. (Idem: 216, a num*ra*ão introduzida é noss*).
2
"Autor" provém do la*im auctor,- oris: 'o qu* p*oduz, o que ger*, fu*dador, invent*r' (H*uaiss Eletr.)
R*v. *SA, *ere*i**, v. 1*, n. 6, art. 1*, p. 209-*24, nov./dez. 2018
www4.fsanet.com.*r/r*vista
As F*on*eiras da Verdade em "* **v** Negr*i*o"
219
Ca*tr* Alves *stá, c*m apropriaçõ** de *le**nt*s linguístic*s da l*ng*e de Sa*ssure,
a fundar \valor*s\:
Quand on *arle de la vale*r d\un mot, on pense g*néralem*nt e* ava*t tout à
la propriété qu\il a de représen*er une idée, et c\est là
en effet un d*s asp*c*s de
la
valeu* lingui*tique. *ais s\*l en est ain**, en
quoi cette
valeur d*ffèrent-elle d* ce
qu\on
a*pelle la significa*ion? Ces deux mots seraient-il* synonym*s? *o*s
ne
le
crey*ns p*s, bie* que la confu*ion soit f*c*le, d\autant qu\elle *st provoqueé, *oins
p*r l\analogie des *ermes *ue
*a* la *éli**t**se de la distinc*ion qu\ils marqu*nt.
(SAUS*URE 1962: *5*)*.
O comentário de Jean Dubo*s et al, no verbete "SENTID*", nos aj*da * elucidar este
passo: metáforas consagradas por F. de Sauss*r* ao sentid*
per*ite*, assim, * s*gu*nte
abo*dagem: o sentido provém d* uma *rtic**ação do pen*amen*o e d* mat*ria fônica no
i*terior de um sistem* l*nguístico que determina ne*ativamente *s unidad*s.
** seja, o *oeta * um criador de "senti*os" e e**es "senti***" são simbóli*os, c*mo
outrora n*s fundações de cida*es, como na Antiga Roma pel* áugure4. Basta que s* o*serve a
intertextualida*e à documentaçã* hist*ric*,
na part* II,
onde há refer*ncias, às avessas, às
ações
h**o*c*s *, portanto, se*iam d***ific*ntes, exe*plares, *e pers*nali*ades *i*tór*cas
*o
Velho Mundo, como a ação "heroica" es**nhola, italiana, inglesa e **ancesa, sendo que na
inglesa ainda se reforça, mencionando n*m*nal*ente: Nélson.
Com efeito, cantam-*e
os
louros d* pass*do / E os *ou**iros do *orvir... Es*ala*do-s* até (O)s mari*he*ros Helenos.
To**s eles sabem ach*r nas vagas / As melodias do céu... - tud* isso é o qu* não pertence à
Históri*, no se*t*** tradicional ou par*digmati*amente, p*is os greg*s f*ram pred*dore*:
incendiaram Tr*ia. Para um heleno, o estra*geiro *ra um bá*ba*o, s*m a men*r opo*tunid*de
de relações so*iais e frat*r*as. Muito menos os co**nizadores da Idade Moderna - como os da
**pan*a, da França * da **glaterra, ele* foram o*
*riadores do Novo Mundo, con*u** não
respe*taram a le* de hospita*i*ade, porque causaram a morte de Montezu*a e o massacre dos
astecas, *epoi* de ser of***cida * hospitalidade, no caso espec*fico d* Hernán Cortez; sem
falar do resultad* futuro da
colonizaçã* holande** e inglesa na África d* Sul
nos seu*
as*ectos de apartheid.
3
Quando se fala sob*e * *alor de u*a palav*a, ** pen*a em geral, e *ntes *e tudo. Na propriedade que tem *e
repres*nt** um* ideia, * nisso está, certamente, um dos *spectos do **lo* linguís*ico. Mas se assi* for, em *ue
*ifere o va*o* do que se c*a*a *ignificaç*o? Estes dois termos ser**m si*ônimos? Não o acreditamo*, em*ora a
confu**o *eja **c*l, por*ue e*a é pro*o*ada pela analogia das e*pressões
d* que *e*o detalhe *a dis*inção
que
ta*s termos m*rcam.
4 lat. au*ur,*ris 'áugure, adivinho' (Houais* Eletrôn.), **e é cognata de "a*c*or", tema indo-europeu *au*os-,
que de**vará em augustu*, César Augusto, o imperador de Roma: (a*gustus) qu\*n le vo** apppliq*é à Octa*ie,
av*c ** sens du grec *. Por*ant*, é um *ema religio*o, *e*astião significa o *levad*, * d*vino. (ERNOUT
et MEILLET: AUGEO, -ES, AUXI, AUCTUM, AUGERE)
R*v. FSA, Teres*na P*, v. 15, n. 6, art. 12, p. 20*-2*4, no*./*ez. *0*8 www4.*sanet.com.br/revista
A. C. Sil*a
220
No entanto, a condução dos f*tos co*struídos *o **s*ur*o *o*tico de Castro Alves -
alé* *e en*atiza* uma opos*ção / antíte*e com a s*gunda *arte, que é enal*ecimento dos
colonizado*es, prove*iente* do Velho Mundo, ou a*é mais radica*mente, *a*a a ênf*se: u*
**radoxo em rela*ão à Parte VI, *m que o Bras*l é que é apresentado *omo nave*ador
e
co*onizador escrava*ista: E existe um povo que * ban*eira emprest* / Para
*obrir tan*a
i*fâ*ia *
cobardia!... - quer dizer, discur*o poéti*o, então, com* um indic*tivo da
hist*ricidade na *onstrução
do verossím*l: nasce do \efeit*\
da se*elhança. (KR*STEVA,
1972: 51); *ontrá*io,
po*tanto, à Par** II,
dis*urso histó*ico paut*do ** normas * no bom
se*so.
A parte *II serve como es**gio para a derivação ** verossímil sintático, isto é, o Po*ta
fi*a surpr*so com o q*e vê, abr*-se **s IV e V *m panorama qu* s* ca*ac**riza como uma
ênfase à* se*uências *e hipérb*le que con*truirão a "*obardia brasileira". A apresentação da
ter*eira par** dá-se in medias res, *s e*cravos já e*tão dent*o do "vel*iro b*igue", na parte IV,
* o in**ante *m qu* se *orna**m prisioneiros e estã* *ob suplícios impostos *elo coman*ante
** navi*: Era um s**ho d*ntesco..., cena infame vil (...) - em a**ítese, ou antes, em *ara*oxo
*om a *rimeira parte: agora é a cruel escrav*zação. Segu*-*e a parte V, on*e se
na**a o
*er***so feito pe*os n*gros africanos
alg*m*dos a recordar, Ontem **ena *iber**de, (...)os
g*erreir*s *usados o que se deu in illo te**ore (*aquele tempo), momentos
em que se
usu**ar*m s*us rit*ais d* p*ss**em, as prov*s i*ici*ticas, *om* as da adol*s*ência * home*
guerreiro, cuj** signific*ção é de uma *ra primord*al, mas subtra*da pela *orça bruta. Cit*mo*
a do* versos "Ontem a Serra Le*a, / a guerra, a c**a ao leão,5 / o son* **rmido à toa", em
total *aradoxo *om a primeira
p**te, que é lo*a* d* v*ntura í*p*r: Bem fe*i* quem a*i pod*
nest'hora; mas, na V, o *ont**ste:
as*im que se cheg* à
invocação ao Senhor dos
Desg*açados! / Dizei-me vós, Senh*r D*us! Se é loucura... se é ve*dade / Tan** horr**
perante os cé*s... Segue-se
* ins*stênci* do Poeta dian*e da "*ndif**e*ça"6 (note-*e
a
p*ntua*ão do Poeta, con*orme o manuscrito):
"... Se a estrel* se c*la,
Se * vaga à p*essa resvala
Co*o um cúmpl*ce fug*z,
5
O profes*or Chediak **eg* a *omen*ar que as e*p*ess*es "II * guerra a *a*a, o leã*." e "II* A guerra a caça ao
leão." q*e foram e*itadas e obscurece*am a clare*a *o manuscrito", que **ans*rev*mos acima e *ue s*o, do
po*to de vista mític*, provas iniciáticas de guerrei*os.
6 Como se leu ant*riormente havia um mar inspirador de felicidade. *gora, *este pa*so, é um mar "cúm*li*e
fugaz". Registre-se *ambém * violência do escravag**ta: us*rpar o que uma mu*her tem de mais *a*rado: "o l*ite
do pranto" de se* beb*. Esta enunciação e*alta po* demais a subjetivação.
Rev. FSA, Tere*ina, v. 15, n. 6, art. **, *. 209-224, no*./dez. *018 www4.fsa*et.com.br/revista
As F*o**eiras d* Verda** em "O Navi* Negreiro"
*21
Pe**nte * noite con*us*...
*ize-o tu, severa musa!
Mu*a lib*rrima, audaz"
(...)
São mulhe*es desgr*çadas...
C*mo A*ar o foi também.
Que se**nt*s, alquebradas
De longe...bem longe vêm.
Trazendo com líbios passos
F*lhos e algemas *os braços,
N\alma - lágrim*s e fel.
Como *gar sofrendo ta*to
Q*em *em o leite do *ranto
Tem que dar para Ismael...
Destaquemos mais *m exemplo interessante de ecdótic* * etimologia. No**-se q** se
*ê em out*as edições "tíbio* pa*sos" (m** el*s eram da Lí*ia), mesmo * *espe*to
d*
s*g*ifi*ad* de "tíb*os", *u* detém * imagem de "titubear" e com a ideia de "*racos"7... o que
*eria de*eras intere*sante na e*pressão poética pela figura*ão *e uma ecfrase. N* ent*nto, *
P*et* *os Escra*os *uis ser o m*is fiel
*ossível *uanto realid*de escra*ocrata, q*a*do a
indicou a *rigem nacional *estes **cravos (o qu* é dever*s proveitoso na enunciaçã* p*l* fato
de *e tratar e*imologicamente da **ci*nalid*de): * m*e África.
4 CONSID*RA*ÕES FI**IS
Co*en*amos Ar*stóteles. Al*m di**o, é bem conhecida a *ecomendação *e se
e*col**r, de preferê*cia, a ver*s*im*lhança a *ar*i* do impo*sível, po*ém, crív*l. Ca*tro Alv*s
deslocou os fatos históricos e g*ogr*ficos e os c*nden*ou *u* novo pa*o*am*, proc*ssand*
uma outra
cosmovisão e se valendo de metáforas e metonímias,
*á *ue o po*ta difer*
do
historia*or, porqu* este relata o que aconteceu, ma* * poeta n*s apres*nta o que po***i* ter
aco*tecido.
7 Mor*is Sil*a (1813) registr*, como sent*do primeiro de tíbio. \T*pido, morn*\ e, *m sentido figurado,
"Remis*o, froixo, se* ener*ia. " Por tíbios passos ente*der-s*-iam, *oi*, froixos ou frouxos passos, vale dizer,
vaga*osos pas**s, o* mesmo froixos pa*sos. Po*tas românt*cos as*o*iaram escravos à Lí*ia e a *eserto, o*de os
*uma*os de regra não **rre* ou *nda* apres*ados. (*HE*IAK: *61. Gr*fos do Autor)
Rev. FSA, Te**sina PI, v. 15, n. 6, art. 12, p. 2*9-224, n*v./dez. *018 www4.fs**et.com.br/*evi*t*
*. C. Sil*a
222
Como *e *e*, *omos e* evid**cia *s av*nços linguístic*s, mas em co*aboraç*o *útua
da*uil* que uma c*r*ente comple**nta a
uma o*t*a;
d*sta*amos elementos compatíveis
*
e*te *sp*ço de a*ordagem *ob a *uz das mais recen*es pesqu*sas na Te*ria da Litera*ura e *a
L*nguística. Escol*emos dados regist**dos *a História e desenvolvemos *qu* * anál*se dos
dados mais importa*tes, ** perspectiva comp*rada, colhidos do *apeamento poé*ico
de
Cast*o Alve*, como n* *arte V: os a*ricanos foram o*rig*dos a aban*ona* *uas **ízes míticas
de ri*uais de *ass*gens e qu*, num mo*e*to da na****iva em flashba*k, foram s*bjug*d*s; na
Par** IV, sup*iciados *ediante chicote perante um
indiferente c*u límpi*o so*re
** m*r
tranquilo e azul; n* V*, ficou, desta IV parte, a mancha na nossa bandeira brasileira com o riso
ir*nico *t*a*és de ma**i*ões satâ*ic*s d*s *a*obras
do co*andante do navio. Assim, se
refere a esta mancha o Po*ta na V: "Ó *a*! Porque não pagas / Co\ a esp*nja de tuas va*as /
D* *e* manto este *orr*o?..."
De modo que s**ente * e*unciação constr**d* p*lo Po*ta dos Escravos as*inala *
condição de i*por*ância
da *ubjeti*ação que pr*vém da l*itura se*iótica, ultrapassando
a
linha *emân*ica das palav*a*, *ubric*ndo a repetição,
a
*osição
do ter*o no sintagma
e
pontuação *ráf*ca ou tom oral do "a*eus" *e "c*ianças l*ndas"
que se torn*ram "moças
*en*is", m*s com sonh*s s*la*ados como o da "virgem na *aba*a" a im*ginar s*b*e a "noite
nos véus..." A "noite no* véus..." não * ap*nas a
*e*lização de um ca*amento. É m*is que
isso: é a f*lici*ade dos laços afetiv*s, que foi escoa*o no nada.
REF*RÊNCIA*
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As Fronteir*s ** Verdade em "O Navio Neg*eiro"
223
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SI*VA, A. C. A* Fronteira* da Verdade em "* Navio N*greiro". Rev. FSA, T*resin*, *.15, n.6, art.
12, p. 209-224, nov./dez. **18.
*ev. FSA, T*re*ina PI, *. 15, n. 6, art. 12, p. 209-224, no*./dez. 2018
www4.fsanet.com.*r/re*ista
*. C. Silva
*24
Contribuição dos Auto*es
*. C. *i*va
1) concepção e planejamento.
X
2) aná*ise e *n*erpreta*ão do* dados.
X
3) elaboração *o rascu*ho ou na revisão críti*a *o c**teúdo.
X
4) *articipação *a aprovação da ve**ão final do manusc**t*.
X
Rev. FSA, Teresina, v. 15, n. 6, art. 12, p. 209-224, *ov./dez. 2018
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