www4.fsane*.com.br/revista
Rev. FSA, Teresin*, v. 12, n. 4, art. 3, *. 32-51, jul./ago. 2015
ISSN *m*r**so: 1806-6356 ISSN E*e*rô*ico: 2317-2983
ht*p://dx.doi.or*/10.128*9/2015.12.4.3
A Fé É Uma Festa: Elementos De Lud*cidade *a História Festa Do Senhor Do
Bon*i* De Salvad*r
F*ith Is * *arty: Playfuln**s Of Element* In The Party *isto*y *f Lord Of B*nfim
S al vad o*
*ranc*sco Anton*o Nu*es Net*
D*utor em *ultura e Sociedade p*la *niversidade Fe***al da Bahi*
Professor da Un*versidad* Federal do S*l da Bahia
Email: x*cc*7@hotmail.com
En*ereço: Fra*ci*co Anton** Nunes N*to
*raça Joana A*g**ica, 250, B*irro São José, Tei*e*ra de Frei*as - BA/Brasil, *EP: 45.988-058.
Edito*a-ch*fe: Dra. Marlen* Ara*jo *e Car*alho/Facu*da*e *anto Agos*inh*
Artigo recebi*o em 25/04/2015. Última versão rec*bida em 18/05/201*. A*r*v*do *m 19/0*/201*.
*valiado pelo sis*e*a Tri*le Review: a) *esk Revi** p*la Editora-Chefe; e b) Doub*e Blin*
R*view (aval**ç*o ce*a por doi* avaliador** da área).
R*visão: G*amatical, *orma*iva e de Fo*matação
* Fé É Um* Festa
33
R**UMO
O arti*o
discute como, *m de*o*rência da invenção d* c*lto ao S*nhor do **nfim
d*
Salvador e do aumento
*a part**ipação popular no contex*o dos fes*ejos a este Santo, as
práti*as de d*m*nstração *e fé, nasci*as
n* i*ter*or da igreja, g*nharam a praça
públic*,
o
largo da *así*i*a, onde *m
sem-número de fiéis *í dão conti*ui**de às su*s louv*ções
a*
S*nhor *o Bonfim. Neste sen*ido, *ste texto discu*e aspectos da his*ó**a d*sta práti*a cultural
r*lig*osa através *o trinômio *udicidade, fé e Festa, element*s e*tr*turantes que ancoram
e
dão se*tido à* man*festações de fé em Salvado*.
Palavras-c*ave: *é. Festa. Lu*icidade. Senhor do Bonfim.
ABST*ACT
The ar**cle discusses how as a result o* t** in*ention o* *ors*ip *o **e Lord of B*nfim
S*lvador a*d increased *o*ular pa*ticipation in the contex* o* t*e celebrati*ns this Saint, th*
f**t* d**onstration p*actices born insi*e t*e chu*ch won th* public sq*are, the *quare of the
Basilica where a multitud* *f believers the*e are continuing their pr*i*e of
the L*rd of
Bonf*m.
*n *he aspect, this paper discusse* aspects *f *he history of this re*igious *u*tural
practice through t*e tr*ad playful*es*, faith and P*rty, struct*ral ele*e*ts **at a*c*o* *nd give
*ean*n* *o ex*res*i*ns of *aith *n the Salva*o*.
*ey word*: Faith. *arty. pl**f*lness. Lord *f Bonfim.
Rev. FSA, Teresina, *. 12, n. 4, art. 3, p. 32-51, jul./ago. 2015
www4.fs*net.com.br/revista
F. A. Nunes N*to
34
1 INTRODUÇÃO
Com a invenção d* tradi*ão do culto ao do Senho* do Bonfim * par*ir do a*o *e 174*
(NUNES NETO, 2014) e em dec**rên*ia do númer* crescente de *iéis, as homenagens a Ele
conferidas to**ram
proporções ca*a vez maiores e mais s*gnifi*ativas no context* das
festividades religiosas *a Bahia. *pós * edificação e inaugura*ão da ig*eja do Senh*r
do
Bonfim *o ano *e 175*, o cult* e a devoção a este Senho* passou a realizar-s*, ta*bém, nos
espaç*s externos
da igreja. *este sentid*, decorrente do
*volumado núme*o
de pessoas
dos
div**sos grupos so*iais que se di*punham, em nome da fé, a r*n*er-lhe *o*enagens e das
trocas c*lturais s*mbólicas (BOURDIE*, 200*) q** então e
passara* ocorr*r, sobretu*o a
nos e*paços externos do temp*o, l*t*rgi* e ludicid*de passaram a pla*ma* o
des*obramento
c*nf*rido *o sagrad* e a* profano o
como i**tâncias **dissociáveis, *o*que "as ceri*ôni*s
s**radas centradas *o *emplo não constituem a to*alidade da f*sta deste tip*. Ela incl*i ainda
a re*li*açã* de out*os desempenh*s que t*m lugar nas imediaç*es do
*em*lo - g*ralmente
nu* largo" (S*RRA, 2*0*, p. 72).
Entre fi*a*s d* s*culo *VIII e iní*ios
do XIX,
*s celeb*ações lit*rgicas que
antecediam * Festa do Se*hor do Bo*fim, passaram a ocorrer **rante dez
di*s, inicia*do-se
na semana anterior à Festa com a* novenas. As *ovena* *nt*rcalavam-se co* os folg***s no
la*go e, no do*ingo, as celebraçõ*s lit*r*icas en*e*ra*am-s* com a* s*lenes missas, às quais
se seguia a *isputada quei** de fogos de artif*cio.
As celeb*açõ*s litú**i*as e as prát*cas de lud*cidade ganhara* ma*or impulso a partir
do ano d* 180*, confor*e consta em a*guns livre**s publi*ados pel* Irman*ade Devoção do
Senhor do Bonfim. *aquel* *ontexto, nas *ovena* e***a*a* para * B*m Jesu*, ouviam-se ao*
ser*õe* *os sacerdo*es. Os
devotos
enchiam a nave do t*mp*o c*ntritos, esperançosos
e
exta*iados pela o*atória empolada dos i*u*tr*s e b*rrocos pár*co* das *e**brações. As
nov*n*s, segundo consta no L*vro
de Despesas elab*ra*o *elo tes*ure*ro da Irma**ad*,
F*ancisco Jo*é *a Costa Abreu, pass*ram * *** *antada* a partir do ano de 1839, u*ilizando-se,
para isso, do novenário com**sto pelo it**a*icano D*mião Bar*os* de A*a**o.
No re*i*tro de c**tas feito p*r Francisco Agostinh* Guedes Cha**s r*l*tiv* aos anos
de 1835 e 1*36, encont*a-se o *agamento fe**o a Damião Ba*bosa de Araú*o que també* era
*io*o*is*a e participava **s *tos solenes e m*s**ais da i*reja *o Se*hor do B*nfim. * *o*ena
solene * * missa ** Festa
eram cantadas *or um
co*al *companha*o
de uma orquest*a
composta *or cerca de t*i*ta * qua*enta mús*cos. C*mo a igreja do **n**r do Bon*im, as
Rev. FSA, Teres*na, v. 12, *. 4, ar*. 3, p. 32-51, jul./*go. 201* w*w4.**anet.*om.br/revista
A Fé É Uma *est*
35
demais exis*e*tes *m Sal**dor passar*m a ocu**r a fu**ão de cen*r*s d* f*rmação musical
até a *egunda metade do **c*lo XX *ua*do, n* Ci*ade, surgiu a *ri*ei*a esco*a de ***ica na
Un*versidade *a Ba*ia (RUBIM, 1999).
Nos dias destinados às novenas, as *issa* eram celebradas às 8, 9 e 10 hor*s
da
manhã. Às sextas-fe*ras, dia, em Salvador, co*sagrado, *a tradição Católi*a, a* *enhor
d*
B*nfim n*s tradi*ões e
do C*nd*m*l* a Oxa*á, as miss*s da* 9
*oras *evestiam-se,
no
co*texto das nove*as de**inad** a* Sen**r do Bon*i*, de um ca*áter especial, to*na*do-a*
ma*s dis*ut*das entre
os fiéis desejosos de s*rem **n*agrados pela be*ç*o do Santí**imo
Sacramento, c*mo também pa*a ver mais de per** os memb*os *a *rman*ade por*ue
*r*
a
missa *a qual eles tomava* parte d* *iturgi*. *té me*dos do sécu*o *X, o ponto *lto da
Fest*, era os dia* de *ábado, dia
*m que
oco*ria c*m *o*pa e circ*nstância a* prin*ipais
missas das
novenas, as ap*esentações *os *ern*s e r*nchos e a i*umina*ão da *achada
do
templo; e o domingo, dia em
q*e, *lém das missa* solenes, acontec*a quei** de fo*os a
de
artifíci* que *nunci**a o final das celeb*açõ*s litúr**cas realiza*as no inter*or da igreja.
A h*s*ória das nov*nas *a **sta do Se*hor do Bonfim é ass*nalada pel* pres*nç* de
u* sem número de *aes**os
q*e delas partici*avam. Du*ante *uito t*m**, a orquestra foi
regida pelo professor e maj*r Esmeral*o Carnei*o das *irgens. Da *e*ma m*neira, a mi*sa
sole*e, d*rant* *lgu* tempo, estev* aos e*ca**os do M*n*enhor Lud*er* Pacheco. Nas
primeiras horas da noite de sábad* *o*nava-se di*í*il tr*nsitar no largo da i*reja do Senho* do
Bo*f*m, ta* * a*rupamento de pe**oa* na frente ** t*mp*o, *ois, nest*
dia, *c*nte*ia
o
o*erecime*to (ofe*tório). Após a última no*ena, o templo pe*manecia
*berto durant* toda
a
mad*ugada, en*uanto, d* *ado de fora, os
fe*tej*s prolonga*am-se nas
barraca* localizada*
nas ce**anias ao som das bandas de músicas, ranchos e ternos que f**iam s*as a*res*ntações
nos dois coretos arm*dos no *argo.
No ano de 1927, por ocasião da mis*a fe*ti*a, o A*ceb*spo D. Aug*sto Álvaro da Sil**
leu o ***ve Apos*ólico, em que o **pa *io XI elevou * igreja à con*ição de Basílic* Menor,
conferin*o-lhe
o priv*légi*
de todos os pri*ilégios d*s te*plos dessa c*tegoria. Es*a
cerimônia rev*stiu-se
d* um s*ngular aparato, à med*da que, n* mo**nt* em que
f*i
a*unciado, a con*içã* de Basílica, à igrej* *o Senhor
do Bonfim,
as *em*is igrejas
de
Salvador s*aram o* sinos em *ou*or a este acont*ci*ento e em sinal de júbilo ao Bom Je*us.
Ent*e os *e*as de**nvolv*d*s p*los sacerdo**s nos sermões das miss*s f*stivas, notamos, no
Diá*i* de Notícias, Diário da **h*a * A Tarde, a p**ferên*ia pelos que ve*sa*am sobre
*
beleza da r*ligi*o católica, cuja missão era fixar a paz no espírito human* e d* cond*ção do
*e*. FSA, Tere*in*, v. 12, n. 4, art. 3, p. 32-51, j*l./ago. 20** www4.fsanet.com.b*/r*vista
*. A. Nunes Neto
3*
Senhor do B*nfim c*mo desig*ador e zelador dos *est*n*s d* população b*i*na
que
as*egurava aos seus filh*s a tranquilidade na con*tr*ção *o P*ogresso.
Um* fina sint*nia u*ia o teor dos sermões d*ran*e as missas solenes *os *egimento* da
*rmandade Devoção do Senho* do Bon*im, uma vez
que se visava ampliar, atr*vés
da
evangel*z*çã*, número de fiéis. O*tr*s temas, co*o o *
desejo pela ma*uten**o **
paz
no
País e no mundo, também *ram proferidos. *o ano de 1938, por conta das delib*ra*ões lega*s
anunciadas pelo presidente Ge*úlio Va*gas *om rela**o ao *atrimôn*o *istóri*o d*ran*e
o
Estado N*vo, o cul*o *o S*nho* do Bonfim passou * integrar-se a es*e conjunto, à medida que
se e*p*rav* que
as g*raç*es fu*uras des*em conti*u*dade à prática religiosa de cult*ar
*
S*nto, *ara promover a p*eservação de *ma *d*nt*dad* rel**io*a naciona*.
As p*ssoas que contribu*ssem com espécie ou dona**vos para a *ealização das *ove***
recebia* um *iploma conferido p*los mem*ros da Irma*dad*. Nos *om*ngos da* ativ*dades
litúrgicas
*o Senhor do Bonfim, er* intens* prese*ça de fiéis. Nestes dia*, as missas eram a
celebradas e*tre 04 e 11 *oras da manhã. Dura*te muitos ano*, os d*as d* dom*ngo
costum**am ser visitad*s por caravanas do
inter*or de
outra* *ida*es baian*s, a maioria
*in*as do Se*tão e do *ecôncavo.
Os fiéis de *alvador ou de ou*ras ci*a**s b*ian*s que **r algum motivo nã* pod**m
comparecer à igreja do Bonfim nos di*s da Festa, a partir d* década de
30 *o século XX,
*assaram a con*a* com a tran*miss** das no*e*as pel* PR-A4, Rádio Sociedade da *a*i*. **
*no de *944, os membros da Me*a Admin*st*ativa da Irmandade *olic*t*ram à PR-A4 que
instalasse *lt*-falante* em **ver*os pontos das partes, Alt* e Bai*a *o Bonfim.
Nas novenas, a *assa d* fiéi* estava repr*s*nt**a por *ess*as de vários grupos sociais
que, diante *a Ima*em do Senhor d* Bonfi* e de joelhos, im**or*vam a sua graça *u a Ele
agradeci*m. Nos dias da Festa, os fiéis m*nife**avam sua fé através de alguns *e*tos. *entre
*s que mais se notabiliza*am regist*a-se o de
levar flore* *u velas par* enfeitar o santuário,
percorrer a pé e *escalço toda a extensão do *rajeto em sinal de penit*ncia, conduzir ex-votos
*m sina* da graça alca*ç*d* * *ubi* de j*elhos a l*deira da Colina. Este último gesto de fé, nos
último* de*ênios, não tem sido nota*o c*m frequência de outrora.
Aos
c**dados
d** **m*ros da *r*and*de, a igreja do **nhor do Bo*fim
era
*rnamen*ad* em grande esti*o e com luxo invariáveis *ara os *ia* destinados à Fes*a. O Altar-
*o* receb*a cuidados espe*iais e redobrados com ramalhetes de f*ores * teci*o dama*cé c*m
relevos de *uro vind*s d* Paris. Com a instalaç*o da energia elétrica em 1*02, o **cho onde
se l*cal*za a I*ag*m *o *om J*s*s passou a rec*ber profusa i**minaç*o, pr**orcionando *os
Rev. FSA, *eresina, v. 12, n. 4, a*t. 3, p. 32-5*, jul./ag*. 2015 www4.fsanet.com.br/revi*t*
* Fé É Uma Fe*ta
37
f*éis, dura*te as *i*sas
noturnas, maior visibili*ad*. ** contexto da ornamen*ação da igreja
para o* d*as festi*os, de ac*rdo co* a* *ot*cias div*lgadas *elo Diário de *otíc*** em 15 de
*aneiro de 1914, entr* as parte* interna e exter*as do t*m**o, se contavam mai* de dua* m*l
lâmpadas.
Cons*derado *omo um San*o sem tristeza e se* desesperança, Nele a crença * fé
sempre pareceu reunir vá*ias identidade* religi*sas, con*raç*ndo católicos, *ando*b*ecistas *
religiosos de outros *e*uiment*s. No a*o d* 1944, contexto da *egunda Guerra Mund*al, um
f*to basta*te *urioso aconteceu dura*te as nov*nas d* F*sta do Se*hor do *onf*m. O Bom
Jesus foi
condec*r*do
*elos memb*os da *rmand*de e por
demais fiéis
como *ad*oeiro das
Na*õ*s Uni*as e Orá*ul* das *itórias dos Povos L*vres. Naquele ano, n* contexto das
c*lebrações de jan*iro, ao lado da c*u*, no alto da igrej* do Senhor do *onf*m, colocara* a
let** "V", com a qual simbolizavam * vitória no
*onfro**o
arm*do mundial, no q*al havia
tomad* parte a Força Expedicionária Bra*ileira (FEB).
O tex*o está divido em três partes. Na primeira, apres**tam** como, ao longo da
histór*a d* *esta *o Senhor do Bonfim de Salvador, a introdução da música como linguagem
* es*é*ica *rtística torn*u *ossível i*ter*acear elementos musicais da litu*gia católica com os
ritmos pop*lares *e *r*gem afro-br*si*eira como o samba. Na *egunda, entr* *m anális*
a
*ategoriza*ão do **rgo da igreja como pa*c*-lugar onde as práticas cu*tur*is de demonstração
de fé to*nam p*ssívei*
os diál*gos entre o sagrado
e o profano aqui lidos não
dicotomicamente, mas com* elementos que coex*stem. Na *er*eira, a*r**en*amo* os Ternos e
Ranchos
como
expressõ*s est*tico-relig*osa* de
*e*onstração da fé ao Senhor do B*nfi*,
m*s q*e per**ra* fôlego a hist*ria d**ta prát*ca cultu*al *eligi*sa.
2 REFERENCIAL TEÓRI*O
*.* Música no Largo...
A*é me*dos do sécu*o XIX, após a participação *as *ov*nas, muitos romeiros e f*éis
costu*avam se ent*eter nas apresentações dos gru*os mu*icais *e ba*beiros e chap**istas. Os
*rim*iros eram assi* denominados po* conta do ofíc*o que
de*empenha**m; os segun*os
formavam um grupo *usic*l e*r*sso
d* Ch*pada Diamantina d*
propri**ade d* senhor*
*aymunda Porcin* de *esu*. Os *hapa*ist*s pa*odiavam a* mús*cas tocadas pe*as b*ndas
militare*, qu*ndo estas ainda *ão faziam
*arte
da progr*m*ção musical
of*cial
da Festa. Ao
Rev. *SA, Ter*sina, v. 12, n. 4, art. 3, *. 32-51, jul./ago. 2015
www*.*sanet.c*m.br/r**ista
F. A. Nun*s Net*
38
s*m da mú*ica chapad*sta *s ro*eiros e fiéis dirigi*m-*e ao *ort* *a Len*a, l*cal*dade aos
fu*dos *a igre** do Sen*or do Bonfim, *e onde *evav*m **ixes de madeira c** *ue fa*iam
fogue**as na frent* das casas dos romei*os, aí p*rm*n*cendo a*ó* * realizaç*o das nove*as.
Ao som es*abelecido por barbeiros e ch*padis*as no larg* *a praç* da *greja, inúmeras
pes*oas e*volv*am-se na
pagod*ir*. Não lhes faltavam *andeiros, atabaqu** e berimbaus,
junto a*s
quais u*a mult*dão, sob es*ímulos etílico*, adentravam a ma**ugada. No largo
*a
igr*j*, *nte* e *e**is d*s no***as, os barbeiros e *hapadistas constituía*-*e atrações musi*ais
quase úni*as, não fos*em os gr*pos de capoe*ra com seus berimbaus e as *equenas roda*-*e-
samba. Nas rodas reali*adas nas escadarias do te*plo, **grado e *rofano encarnavam-s* nos
corpos de homens e mu*heres que reque*rav*m no adr* em louvor ao Sen*o* *o Bonfim.
De a*ordo
com Revista Dois *éculos e Meio da Devoção de um Povo (1995), a
a
partir d* a*o de 1849, outros *rupos musica** c*mo *s do B**alhão de Infantaria
d*
Re*imento Militar e aqueles d* Corp* de Bombeiro* passar*m * participar dos festejos
do
se*ho* do Bonfim, tor*an*o-*e atraçõe* musicais qua** ofici**. N* lugar onde se *rmavam os
antigos palanq*e*, no
p*imeir* *ecênio do século XX, foram const*uíd*s dois *oder*os
cor**o* de alvenaria na frente das casas dos ro*e*ros. As fil*rmôni*a* militar*s *e revezav*m
naqueles c*retos. A mú*ica alegr* e jocosa praticada pe*os b****iros cha*adistas e
nos
*ala*qu*s e na praça até a metad* do séc**o XIX foi substituída pelo re*ertório que passou a
ser t**ado nos *ois cor**o* a*mados no larg* da igrej* pela b*n*a d* m*sica do C**égio dos
Órfãos *e S*o Joaqui*, pelas filarmônicas do 1º ao 9* Bat*lhão d* I*fa*taria do Regimen*o
*ilitar e do *orpo de Bombe**os da Ba*ia, bem co** *ela Filarmôn*c* *ecr**o do *onfim.
No Diário d* No*ícias, notam*s os sofistica*os programas dos repertór**s music*i* das
*il*rmônicas preparados para os *ias de sábado e domingo. Por exemp*o, *a edição q*e
circulou *o dia 12 de jane*ro de 1917 co**tatamos que o pr*grama musical es*av* defi*ido em
três partes. A primeira c*n*tava de: Tenneiizer, marcha composta
po* Wagne*; Ritorna
Firen*e, **brado, por L. Mar*he*ti; Ouv**t*re do Conc*rto n. 6, po* Adolpho Gi*and; Dan**s
Hú*g*ras, por Brahm*. A se*un*a parte apresenta: A**a, phantasia, por G. V*rdi; Conde de
Luxe*burgo, valsa n. *, por Fra*s L*har; Danças H*ngar*s, por Brahms; Amor *e M*scara,
phantasia por G. Verdi. J* na terc*ira parte, ouvia-se: Bleforé, maxixe baiano por W*nd*rl*y;
Flor de Abacate,
polka tango, arranjo de M. Ni*o; Champagn* e Reis
n* *apinha, tango,
arranjo de Ep*ph*nio.
Até a segun*a *etad* do *éculo XX, a* filarm*nicas se reve*a*am
na orde*
*e
apr*sentação a*sim como no* r*pertó*ios *ue apresentavam, *onservand* o tom solene *e bo*
parte do programa musical. Entretanto, há *ue s* notar que a introdução de composições
e
Rev. F*A, Teresin*, v. *2, n. 4, art. 3, *. 3*-51, jul./ag*. 2015 www4.fsa*et.com.br/re**sta
A Fé É *m* Fest*
39
estilos mu*icais brasil*iras nos *epertórios possibilitou a* público contempl*r a d*ve*sidade e
circularid*de de gê*er*s m*si*ais praticados nos coretos. M*s*o h*vendo um* programação
musical l*cal *sta*e*ecida, alguns *ru*os vindo* de outr** cidades *a*anas, habitu*lmente,e se
apresenta**m nos coreto*, como a Filarmô*ica Mi*erv* Cachoeirana em 1910, a Fila*m*nica
d* Naz*ré das Farinha*, em 1*14, e a União Ce*ilian* *e Al*g***has, e* 191*, a*plia*do a
programação m*sical. *estarte, a
quase rígida programação musical *ão im*ed*u outras
manife*tações *usicai* pra*ic*das ao longo de todo o *éculo *X no largo da igreja.
No contexto dos fest*jos do Senhor do Bonfim, costume*rame**e, tropas da Polícia
Militar da B*hia realizavam vistorias nos coretos, notificando * Mesa Administ*ativa *a
Ir*anda** as
*rre**laridad*s encontr*das. No ano de
1911, Silvestre de Faria, delegado,
escrivão e p*rito e membro ** Irma*dade ofereceu * importância de 69$95 aos policiai*,
tenta**o suborna-l*s, par* que os **smos *ão
notificassem as *rregularida*es estruturais
encontradas n** *oretos. Entr**anto, segundo noticiado no* p*riódi*os, os pol*ci*is não
aceitaram a propi*a.
Todavia, em que pese as estratégi*s de embot*ment* *a participação *usical popular,
ao longo da histó*ia da Festa *o Senhor do Bonfim, n* contexto dos fe*te**s realizados e*
nome deste Santo, no âm*ito da* prát*cas de *usicalidade, tornou-se i*c*nteste durante
m ui t o*
anos, no âmbito do largo
da igre*a, a
*resença de i*úmeros *rupos de
samba
e
samb*do**s, muitos d*le*
formados a* impro*iso da cena festiva. Neste
s*n*id*, paral*lo
*
uma quase rí*ida programação m**ica*, q*e em quase n*da s* relacionav* com o
universo
cultur*l so*eropolitano - *rosso *o*o peças de consertos m*sic*is europeus
- inserção a
e
parti*ipaç*o d* música p*pular de ori*em afro-brasil*ir* ou a*ro-baiana s* fe*, a*tes, p*r
intensos processos de resi*tê*cia, *trav*s *os quai* os sambas-de-*oda, as chu*as, a capo*i*a e
demais e**mentos cultur*is constitutivos d* uma identi*ade **iana passaram a configur*r de
mane**a lúdica u*a *ut*a
forma *e *sta* na Festa, mas não *penas,
de cultuar o Senhor
do
Bonfim.
Nes*e ce*ário de circularidade* **ltu*ais, a*nda no âmbito
da *n*er*ão das práticas
culturais populares, por exem*l*, os Ternos e Ranchos, sobretu*o estes últi*os, ta*bém
*odem ser lidos como imbri*ament*s, atr*vés dos
q*ais di*ersas pess*as d* *rupo* sociai*
d*st*n*os enc*ntra*am-se *li reunidas, fosse no la**o ou na* a*jacências da *greja, na* partes
Alta * Baixa da Ba*ílica do Senhor do Bonfim.
R*v. FSA, Te*esi*a, v. 12, n. 4, a*t. 3, p. 32-*1, j*l./ago. 2015
*ww4.fsanet.com.b*/revista
F. A. Nunes Neto
*0
2.2 D*coraçã* do Largo...
O costu*e de ornamentar o largo da *greja p**a os f*ste*os do Senhor do Bo**im já se
notava nos inícios do sé*ulo XX *t*avés da utilização de ba**eirolas, barr*cas e gambiarras,
conferindo ao lugar feiçõ*s festivas. **mo numa extens*o d** atividades do in*erior do
templ*,
o* fe*te**s v*rifi*ado* no l*rgo
ao l*ngo
d** anos nos p*r*it*m lê-los ao mesm*
te*po c*mo extensões *os rituais litúrgicos ca*ólicos veri*icado* no interior *a *greja
e
*ambém das prática* c*lturais dos negros d* S*lvador, *uitos dos *uais liga*os ao* *err*ir*s
de *a**omblé. Na praça, o en*relaçamento entr* o sagrado e o p*ofano p*rmitiu aos **éis do
Senhor do Bonfim exp*rien*iar, c*ncomi*ante*ente, os rituais lit*r*icos e as prát**as de
ludic*da*e aí verifica*os.
N*s *eri**icos A *arde, Diário da Bahia e Diário de N*tícias, consu*tados *o*r* a
temática dest* art**o, c*nstatamos que, do ponto de vista t*mático sobre os f*stejos ao Senho*
*o Bonf*m realizado*
no *argo da igreja, *rês c*nstar e*tre os mais desta*ad*s:
o
embandeira*ento ** lar*o, as barr*cas em seu* colo**dos *osaicos e a pres*nça de cronist**
e viajante* de outras nacionalidades que, *esde o *éc*lo XI*, para o loca* se d*rigiam,
esta*do em Salvad*r no contexto da Fe*ta do Sen*or do B*nf**. Donald Pierson o*se**ou:
[...] pr*tas
vestidas d* *aianas insta*am-se às margens da mul*idão, v*ndendo
c*cadas, bolos * outros qu*tutes, man*as amendoin*, umbu* e c*jus. N* adro, à
f*ent* *a ig*e*a d* Bonfim, er*uia*-se barracas, c*da uma delas trazendo o nome do
santo patr*no ou *o proprietário, ou uma inscriç*o co** "*é em Deus", "Salv* a
Nova Aurora", "A Baianinha". Nessas barracas podiam ser compra*os famosos
p*atos *aian*s *e o*igem africana *omo aberém, *aruru, **tapá, e*ó e aca*ajé, b*m
como bebidas e refrescos. *ma ba*da de mús**a composta de pretos u*ifor*izados,
per*en*entes ao corpo, tocava *ntermitente*ent*, de um *alanque levantad* n*
centro do adro (PIERSO*, 1971, *. 388).
O nome da* barracas cha**u a
atenção de Pierson. Enco**ram*s outros, co*o O
T*asmonta*o, Flor de Lí*ano, O Sportman (*o*os), Paz e *mo*, Recreio
Famil*ar, T*ro
*o
*lv* (jogos), Cent*o Esporti*o B*ian* (jogos), *en*r* Esportivo Brasileiro (jogos), Santa
Cr*z, R**rei* I*eal, É Verdade!, Boa *xperiênc*a!, Boa Id*ia, Varanda da Elite Baiana, A
Peleja, Ba-ta-clan, *é de Anjo, dentre out*os que se converti*m em locais *n*e pr*p*ietários
prome**am "l*va* tur*a de morenas e*col*idas a d**o". (A Tard*, *3 *e janeiro de 1923 e 19
de janeiro de 1924)
Tanto a decora**o do largo c*m as b*ndeiro*as quanto as ba*racas
que *li *xis**ram,
mais *xpressi**mente
até finais
dos anos 80 d*
século XX, seguiam *ais ou menos uma
padr*niz*ç*o estabe*ecida no colorido da decoraçã* *e *mbas (b*ndei**las e barr*cas),
R*v. FSA, Teresina, v. **, *. 4, a*t. 3, p. 32-5*, ju*./ago. 20*5 www4.fsanet.c*m.br/r**ista
A Fé * Uma Festa
41
co*pon** um g*a*de m*saico. O conjunto da decoração do l*rgo *e f*rm*va com a **e**n*a
imponente do Te*plo que, sobretud* n** *i*s *estivo*, encont*ava-se majestosame*te
iluminado. *ob*e o quesito iluminação, também no* jornais analisados, *otamos que este
*t*m, a*é a década de 8*
do século XX, integ*ava-se como p*rte im*ortante d* *enário e da
pro*r*maçã*, ao q*al,
no decor**r *a história
d*ssa Festa, f*ram *e*to* investim**tos
con*tantes.
N*s n*ites das cele*rações f*sti*as a* Senhor d* Bonfim, a fachada da igrej*
constituí*-se uma atraçã* co*içada e*tre os fiéis qu* a admi*avam c*mo *um *antás*ico cart**
postal. À *oite, a ilumi*ação da igreja possibil*ta*a-lhe ser *dmira*a desd* a Ba*a de Todos
*s Sa*tos até as p*oxi*idad*s *e It*p**ip*. A ins*a**ção *a energia **ét*ica em Salvador e sua
*t*lização ** ornam*ntaçã* *as festas populares *xercia gra*de fascíni* diante da popul*ção
**e, aos poucos, se acostumava com a intr*du**o destes novos e*ement*s modern*zadores no
c*tidiano da Cidade.
Nos dec**i*s iniciai* do século XX, o* tesoureiros d* Mesa A*ministrativa
da
Irm*ndade c*n*rat*ram os serviços de ilumi*açã* elét*ica da Co*panh*a El*tric* Light. De
acordo c*m Livro de Desp*sas d* Mesa, a Irmand*d* o
ga*tou, no ano de
1*10,
*om
o
fornecimen*o de en**g** elétrica junto àqu*la empresa, o valor *e 100*$000. N*quele ano, na
fachada da
*grej* foram colocadas cerca
*e m i l e
quinhenta* l*mpadas, a ma*or i*umina*ão
e*étrica p*aticada n* fachada de uma igr*ja, no
contexto das festi*idad*s religiosas
e
po*ulares no Brasil. Fee*icamente il*m*nado, o T*mplo *onferia *o luga* uma dimensão
*e
grand*osidade. *o ano de 1913, na fac*ada d* Templ*, na casa dos romei*os, no chafariz, **
coreto e nos arred*res do largo, foram colo*adas *amb*arras com aproximadamente duas mil
lâmpadas, tendo aumentado no a*o segui*te para c*r*a de três mil. A partir do a*o d* 1944 a
i*uminaç*o da fa*h*da da Ba**lica do Senho*
do Bonfim
*a*sou a ser *ornecida,
grat*itamente, pela Companh** En*rg*a Elétrica.
Pon** alto da decora*ão, as ba*dei*olas, em *eu apreciável colorido, c*nfe*iam a*
l*rgo d* i*re*a do Senhor do Bo*fim ares festivos e de cel**ra*ão. Tornou-*e comu* na
o*namentação do *argo, a*ém das b*nde*rola*, a utilizaçã* de *orboleta*, pa*mas, flam*eaux e
um *astro *ntr*meando
doi s
*ore*os
ca*r*chosamente erguidos no largo d* igreja no qual
bandas *e mú*ica, Ternos e Ra*chos realizavam suas apre*en*ações. No largo, a utili*ação de
guirlandas *e luzes multicore* d*spostas até a *ai*a do Bonfim pr*du*indo brilhan*e
*sp*tác*l*, *or*ou-se us*al en*re os organizadores da Festa. O
*is*oso emban*ei*amento
distribuía-** *e**e a pa*t* de baix* at* ao alt* da Co*ina. Durante m**to* an**, ao *ongo do
sécul* XX, os *or*dores
*as imediações da Bai*a do Bonfi* costumavam en*eitar a frente
Rev. *SA, Teres*na, v. *2, n. 4, *rt. 3, p. 32-51, jul./ago. 2015
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F. A. Nunes Neto
42
de suas c*sas c*m *andeirolas *om as co*es uti*izad*s pelos dec**adores da Festa, como n*ma
extensão da *esma.
As b*rracas com suas ban*eirolas, além de comporem o ce*ário dos *e*t*jos, eram os
*uga*es on*e os fiéis no* dias fest*v*s divertiam-se, beb*ndo, comendo a* iguar*as da culinária
*aiana, *or*e*an*o, na**r**do e entretendo-*e com outros fol*ares. A p*esença d*s **rracas
no largo da igreja
*ata do início do século X*. Entre*an*o, com o
aumento do número
de
participantes na Festa do
Senh*r *o Bonfim, a *nte*dên*ia Mun*c*pa* passou * conceder
licenças para *ue o* come**iantes, que *arti*ipa*am d*stes festejos, *rmassem sua barrac* n*
parte de baixo da Colina Sag*ada e nas rua* e vielas *d**cente*.
A arm*ção das barracas ob*deci* * mesma or*** todos os ano*. No a*o de 1904,
a
In*endência Municipa* liberou, aproximadament*, quarenta licenças *a*a os comerciantes que
des*jassem armar su* barr*ca n* Colina *agrada nas fest*vidades do Senhor do Bonfi*. *s
*a*r*cas comerci*liza* **bida* comidas *
variad*s, send* comu* a
ven*a *e
br*nqu*dos,
jogos brincadeiras para e
as cr**nças. Havia carrousel, ros**ff, jogo de roletas e quermesse.
Enquanto em algumas barraca* d* jog*s encontravam-se facilmente p*ofissionai* e ama*ores
e*vo**os em ap*stas e tr*paç*s, em *utras,
as cr*an*as se
entretin**m nos cavalinho* dos
pequenos parques de diversõ*s armados, *nualmente, no lado dire*to da *g***a.
Em 1913, os membros *a Mesa Ad*inistra*iva da Irm*nd*de comun*cara* aos
poderes mun*cipais que o Alto da Coli*a Sagr*da já nã* ma*s c*mport*va ba*racas. *m vista
disto, a pa*tir daquel* a*o, as licenças para m**tar barracas nos dias dos festejos pa**ara* a
ser conce*id** apenas para a *aixa do **nfim e cercanias, marco da p*o**feração d*s barraca*
por outros *s*aços da Festa que não apenas a Colina Sa*rada. No ano de 1948 já se co*tava*,
aproxim***ment*, cem barracas
armadas nas par*es Bai*a e Alta da Colina, cada uma com
seu nom* pitoresco.
Por todas a* ruas, pra**s, becos e vielas, torn*u-se comum u* co*tínuo ir e vir entre
as pessoas
que ali
a*o**iam à pro*ura
de d*v**sõe*. De todos
os *ugar*s e ângulos
os
fiéis
tinham co*o referê*ci* * mu*a popu*ar, maneira como muitos se ref*riam à igre** do *enhor
do *onfim. Uma form*dável *ul*idão ocup*v* diariame*t* o *argo, onde a* filarmônicas, os
terno* * os r*nchos exibiam-se. De vári*s p*rtes do Bra**l, *heg**a* fiéi* que
*inham
*g*adecer ao Senhor do Bon*im. Após as m*ssa* e *ovenas, di*puta*am espaço na* barracas *
tabuleiros, *un*o aos quais as Baianas, vesti*as com su** saias
de quatr* a*águas,
grandes,
rodadas * engomad**, vendiam os prat*s típicos da terra, como galinha de x*nxim, efó, c*rurú,
v**apá, acar*jé, abar* e bol*n** de estudante, cob*ados *ntr* 15 e *5 cruzeiros, *n*u*nto
a
cerveja custa*a 15 cr**e*ros e a gasosa, 3 cruzeiros.
Rev. FSA, Teresina, v. 12, n. 4, art. *, p. 32-51, jul./a*o. 20*5 www4.fsanet.co*.b*/rev**ta
* F* É Uma F*sta
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Os fregueses mais li*ertinos costumavam se expandi* em cor*ejamento* e **l*nt*i*s
*s sorridentes Baianas. D**ant* algun* anos, car*stia das be*idas e a* comid*s limitou a
o
co*sumo
dos fregueses. Com a d*ssemina*ão das *alas de projeção d* filmes em Sal*ador,
a*g*ns com*rci***es que partici*avam com sua* barracas n*s festas de largo pas*aram a ex*bir
film*s, o que se constitu*u em mais um atrativo ent*e os *regueses. Fre*uent*r as barra*as *os
*ia* dos festejos constituiu-se *rática *ultural in*egrante *as homenage*s e comemora*ões ao
Senhor do Bonfim. *ábito cultural *as fe*tividades *eligiosas,
[...] a i*stitu*ção d* barracas n** proxi*idades dos *emplos o*de ** celebr*m festas
*radicion*is que atraem ro**iros e devotos de pon**s longínquos é uma velha
tradiçã* que h*rdamos *e Portug*l. Nas ci*ad** e alde*as portugues*s *ue *el**ram
anualmente antig*s f*stas rel*giosas, h*uve sempr* e continu* em uso a instalação de
barracas onde a popu*ação se a**stece e tem garant*da * sua perman*ncia par*
assist*r as s*lenidades reli*ios**. Esse *ost*me,
*omo m**tos outros, foi adotad*
*ntre nós pelas mesmas r*zões. Aind* hoje, **r exe*plo, lut** os r*meiros que vão
durante o an* * Basílica do Bonf*m, co* as m*ior*s dificuldades para obter um café,
pa*a comprar u* *oce e para co*segui* *m c*po ** *gua pela di*icu*dade de casas
aprop*i*das. Se isso acontece **and* não h* *rande *oncorr*n*ia na Sagrada Colina,
o que se**a se *li não fossem instaladas barracas **ra*te *s dias *a gra*d* fe**a do
Senho* do *onf*m? Não s* tr*ta, pois, de *m *ostum* pern*cioso, mas de um*
*ecessida*e. O povo pre*isa de alim*ntar-se e para *onsegu*r essa aliment*çã* ter*
de recorrer aquele com*rcio ambula**e. A velha tradi*** das barracas deve s*r
mantid*s e, mais do que i**o, deve mer*c*r * a*oio e a a*s*stênci* d* poder *úbli*o
que deve ter o cui*ado ** zelar *elos interes*es do povo (DIÁRIO DA BAHIA, 18 de
*aneiro de 1942).
Em Salvad*r, n* contexto das celebr*ções fes**vas a* *enhor do Bonf*m, pelo que
*ude*os obse*var, na prátic* de a*mar e **e*uentar b*rra*as, nã* cabe dicotomi*ar sagrado e
profano como ins*ânc*as op*stas ou *ntagônicas, uma *ez que, mes*o
entr* os fiéis qu* se
bastava* *m s*u* dive*timentos *a* bar*acas, *ão se dir*g*ndo at* à ig*eja, isso não significa
*izer que *ão estivessem ali e* nome da fé *o *enhor do Bonfim. D**end* de o*tra maneir*,
a fé * crenç* entre os fiéis nã* a
era apenas demonstrada na
par*icipação
das miss*s, das
novenas e da ritualística da lavagem
do adro * das e*cadari*s. Até finais d*s a*os 80
do
século XX, co* seus b*nquinhos e mesas color**as, as
*arracas se conf*guravam como
e*e*entos f*ndamentais na orn*men*ação do largo.
Na ma*or part* delas, ao fundo, encontravam-se pequ*nos altares i***ovisados *m
mo*estas peanh*s, onde os seus propri*t**ios pre*tavam **verênci* ao seu Ori*á. Naq**les
*equenos a*ta**s particulares impro*isad*s notavam-se flores e l*mpadas c*lorida* que
*aziam alusão à cor
qu*
*de*tificava
os orixás de predileção dos barraqueiros como,
o
vermel*o [Iansã e Xangô], * azul escuro [Ogum], o azul *laro [Ieman*á ou Oxóssi], o dou*ado
[*xu*] e branco [Oxa*á]. No panteão dos orixás das tradições Ketu, Ango*a e Gêge na o
Bahia, estes orixás figu**m entre os mais **ltu**os. (*ERGER, 1*97)
Rev. FSA, Teresi*a, v. *2, n. 4, a**. 3, p. *2-51, jul./ago. *015 www4.**anet.*om.b*/r*v*sta
*. A. N*nes Ne*o
4*
A *omple*a dimensão de fé que se expressava *aqueles peq*enos al*ares era o
el*mento que *ermitia aos donos
de barraca* se*uir cultuando *o me*mo t*m*o, S**hor do
Bo*fi* e Oxalá,
en*uanto t*abalhav*m, divertiam-s* e estabe*eciam su*s *reces e pedid*s
entre um atend*mento * *utro. A part*r dos an*s 90 do século XX, os donos de *a*r*cas, que
*articipa*am das festas de lar** em *alvad*r, f*r*m submetidos a um* no*a lógi**
de
or*am*ntação. *sta destitu*u o m**aico de cores das m*sas, cadeiras * alta*es, s**stituindo-o
*elas mar*a* e s*ogans da* ce*v*jarias, *ue també* passar*m a p*trocin*r
os festejos
e
comercializar seu* pro*utos.
Novo e*emen*o d*s *estas p*p*la*es de *argo é *erificado com mais vagar em finais
dos anos 90 do século em qu*s*ão:
os v*ndedore* ambulantes *e bebida* e comidas
em
outros espaços qu* *ão apen*s nas
ba*racas tabu***r*s, aquel*s das caixas *e isop*r e
e
pequenas
c*urrasque*ras. Sobre
esses rearr*njos nas f*r*as de mercandejar nos fes*ejos
do
Sen*or do *onfim, daremos maior graf*a em o*tra *ar*e deste estudo.
2.3 Ternos e Ranchos: a fé perf*rmatiza**
Os *ernos e os Rancho* const*tuíam-se, at* os ano* 7* do século XX, atraçõ*s
sig*ificati*as da *est*, sendo comum en**e os *ié*s es*erar p*r ele*, pr*nci*alme*te, na noite
de sábado, q**ndo promoviam efusiv*s apre*enta*ões no
larg* *a igreja *res*a**o
hom*nagens ao *o* J**us. A pa*tir d** pis*as a*ertas por Nina Ro*rigues em *s afric*n*s no
Bra*il (1*32), Artur *a*os esboçou c**acteríst*c*s p*ra o* Ternos e Ranchos. Segundo ele,
[...] *a
*ah*a, o* pasto*is tomam *s no*es de ternos ranc*os (...) O tern* é a e
form* mais aristoc*átic*s d*s
pastoris baian*s. É formado de past**es e *astôras,
vestidos uniforme*en** de br*nco, dispostos dois a dois. *s pa**ôras conduzem um
p*ndeiro enfeitad* de fitas e os pa*tôres leva* uma fl*cha te**o na extre*idade
uma lante*na d* papel, ace*a. Vã* *rec**idos por dois ou tr*s músic*s e v*sitam as
*asas d*s *migos e ****ecidos cantan*o quadri*has. O* r*nchos p**priam*nte dito*
são mais populares (RAMOS, 1952, p. 119).
Nos jor*ais Diá*io d* No**c*as, Diário da Bahia e * T*rde, notamos mais de cem
Ternos e Ranchos nos festejos do Senhor do Bonfi* que n*s*a *rática
**l*ural rel*gi*sa
*a*s*ram a se faz*r presentes no final do século XIX. Alguns tiveram *ida bas*a*te curta ou
reconfigura*am-se mudando
* nom* *e *atismo e a
c*mpo*ição
dos inte**ante*. N*ste
sentido, esse **m*r* corr*sponde à totalida*e de ag*emiações que *art*ciparam *os fest*jos,
pelo me*os até o* anos 70 d* século XX, e receberam algum ti*o de m*nção nos peri*d**os
em c*rculação em Salv*dor. Presença *arcante, os Ternos e Ranch*s qu* encontramos
no
R*v. FS*, Te*esina, v. 1*, n. 4, art. 3, p. 32-51, ju*./ago. 2015 w*w4.*san*t.com.br/re*is*a
A *é É Uma Festa
45
process* de r*aliz*ção da p*s*uisa, foram os seguintes: Ro*eiros de *el*m, Soc*-b*i, Canna
Verde, Co*ós, Cordei*o, Primavera, Te*ra, Es*ados, Flores, Rosas, Ly*a, Estrela
do Or*ente,
Sol do O*iente, R*meiros do Orient*, Lua, Aur*ra Bo*eal, Auro*a, A*tros, *erra Sempre
V***, Avança, Symp*thico, *mmacul*da, Melindr*sas, Ciganas, Romeiro* da Pa*esti**,
Crysanth*mos, T*ês Reis Magos, Paz e Amor, E*per*, Juventud*, O*chide*s, Es*r*la *\Alva,
S*l, Pinicopeu, Lyri*
d* Vale, Lira de Prata, *osa Na*oleão, Concha de Ouro, Ari*ofe,
*andy, Sol d* Silve*ra, Leão *e Ouro, Açuc*na, Bacura*, Fadas, Bon*na, Saloias, Lu*,
Concha de Ouro, Rosa Menina, C*avina, Se*pr* Viva e Flores *e
Itapoan (Tern*s)
e
Burrinha, Pico-peu, Leão de Ouro, Mamãe Sacode, Ma*ãe Me Deixe, Padecentes da
C*nflagração Européia, Pes*adinha, Mal-me-Quer do Japã*, Manuelzinho C*o*ador, União
d*s **ores, Açucena, Cabocli*hos, Jaca*é,
Papagaio, Encre*c*, Cal**go, Carur*, Man*
Gostoso, *ai Não Volta, Barqui*ha, Pé de Anjo, C*rd*al d* *iro, *o*a*o, ***alinho, Serei*,
*ruvin*, B*rboleta, Giras*l, Urucu*aca, C*rdeal, Prim*v*ra, **u*ú Cheiros*,
Pura, Leão,
*r*b* Dand*, Peti*có, *eado, C*chorro, *nião
**s Fl*res, Lyra Chorosa, C**a*o, C**ra,
Avestruz, *ar*nja, ** Ba**tas, Pidão, O Chor*o, Farristas d* C*is*, Boi, B*m-T*-Vi, A*antes
da Lyra, Ma*du Ch*roso, O* G*r*an*as, Pidão Inf*ntil, Mandú Esperançoso, O Pav*o
(Ra*chos).
Face ao ca*áter *essas agremiações, os Ranchos, em *lguma *edida, po*em *er lidos
na história da* fe*tas populares de Sal*ador
como esp*cies de precursores da* associ*ç*es
carnavalescas, qu* ganharam o es*a*o
das *uas entre os an*s 50 e 60 ** sécu*o X* no
carnav*l, q*ando *s *lub*s F*ntoches da Eute*p*, Ba**ano de Tê**s, Po**uguês e o recém
*naugura*o H**el da Ba*ia se c*nstit*íam locais onde o carnaval da Cidade acontecia com
mais ferv*r, s*bre***o, entr* as
elites soteropo*i**nas. N*s*e
*entido, *ife*ente do c*ráter
alusivo dos Ternos *e *e*s a* nasciment* do Menino Jesus - porém **m pe*d*-lo de *ista -
*s Ranch*s pers*nificavam a pândega, o chis*e, * escárn*o, a zo*baria, o côm*co, o *iso * a
sá*ira outrora t*o f*rta*ente pres*ntes na* Fe*tas e nos feste*os populares de *ua de Salvado*.
*iferentemen*e do terno, o rancho, primava
[...] pela variedade de vestim**tas vistosas, ouropéias e la*tejo*la*, a sua músi*a é o violão,
a vio*a, o cavaquin*o, o canzá, o pra*o e as vêzes uma flauta; cantam *s seus pa*tôre* e
pastôtas por todas a r*a, chulas própr**s da ocasi*o, as **rsonagens * *estem-se de
diferen*es cores con*orme * bich*,
plan*a
ou mesmo obj*t* i*ani*ado *ue os pastôres
*evam à *apinha (...) Tod*s êles cantam * dançam
*as casas por din*eiro. S**s danças
consistem num lun** sa*ateado, *o q*al a fi*ura principal entra e* uma luta com o seu
condut*r qu* semp*e o venc*; depois jogam sempre danç*nd* e *a*tando, um lenço aos
donos da casa que r*stit*e*-no com o d*nhei*o amarrado numa das p*ntas e s*em
cantando, dançando, *a*en** palmas, a*rastando os p*s, num charivari i**ossível de
descre**r (*OUSA BRITO apud RAMOS, 1952, p. 120).
Rev. FSA, *eresina, v. 1*, n. 4, art. 3, p. 32-51, j*l./ago. 2015 www4.f*an*t.com.br/rev*sta
F. A. Nu*es Net*
46
Nina R*d**gue* (1932) entendia os r*nch*s de Salvador co** um elemento que unia
forte*ent* * *ahia a* C*ntinente Africano, * medid* em que, *o
tomarem como objetos-
símbolos de identificação animais, plantas, obj**os inanimados, den*r* outros, ass*melhavam-
se às t*ib*s af*ic*nas, entre as *uais o tót*m - ou o embl*ma totêmic* - era u* símbolo de
iden*ificação. Entretanto, em que medida é possív*l p*nsa* os elementos que i*ent**ica*am os
ranchos c*mo to*ens? Não teria Ni*a Rodr*gues escorregado na int**pret*ção? Te*ricament*,
do po*to de vi*ta das questões
postas p**os est*dos da Antropologia, *s toten* nas t*ibos
af*icanas eram, para além de um símbol* de identificação, um íc*ne s*grad*, através do *ual
a a*cestralidade de um gr*po convergia, ten** est* **upo que cultuá-los em certas ocasiões,
*everenciando-*s. Não me par*ce te* sido essa
a relação *ue os ran*hos mantiv*r*m co* os
sí*bolos que os ident*fi*avam, c*m os quais
estabeleci*m muito *ais um* re*ação c*istosa
do que pr*t*tora n* context* das fe*tas populares.
*resente* *a hi*tória dos festejos do *enhor
do Bonfim, o* Ternos e o* *anch*s
simbo**zav*m a r*lação entr* *eligio*idade e f**gares
*opula**s em Salva*or. Nas noites
*e
sábado, a*ós a p**ticipação n*s *o*enas,
*s
po*ulares costumavam *sperar
por aquela*
agremiações, vi*to que se compunham como parte integrante da *e*ta. As apresentações do*
T*rnos e Ranchos iniciavam-se a partir d*s 23 h*r** das *o*t*s d* sá*ad*, quando, uma
queima dos *o*os *e art*fício anunciava sua chegada à ladeira *a i*reja, de onde se dirigiam
para exibi*-se nos co**tos
do largo, d**i
passando *a*a frent* das casas d*s ro*eiros, onde
p*rmaneci*m até * *manhecer. G*ralme*te, as apr*sent*çõ*s pro*onga*am-se até os *inais da*
*anhãs *e domingo. At*avés d*s *eus emblemas aprese*ta*os de fo*ma tão *em humorada,
a* a*resentações dos **nc*o* confer*am *m* nota côm*ca aos folguedos.
Os Te*nos e os Ranchos **n*ive**m *ede *m
dive*sos bai**os e localidades
de
Salv*dor, onde prom*vi*m reuniões deliberativas *obre as pa*ti*ipações nas *es*as d* largo d*
cidad*. As sedes também funci*nav*m
co*o ponto
*e enc*ntro e conc*ntra**o de on*e
parti*m para *lgum* f*sta popul*r. N*s
perió*icos, en*ontramos os bairros ou localidades
*n*e e**o*trava*-se algu*as das sed*s dos ternos e ranchos de Salvador: Bonin*
(Fonte
Nova), U*i*o *as F*ores (Tanq*e da Conc**ção), Orchideas e Estrela D\Alva (I*apagipe),
P*im*vera e Aur*ra (Calçada), Arigof* (La*e*ra *o Alvo), Saloi*s e **r* Chorosa (Garcia),
*az e Amor (B*a Vista), Lu* (Tanque da Conceiçã*), B*tutas (La**ira *o Alvo), A*ucena,
*em-*i-**, Chry*anthemo e Bacurau (Quitan**nha *o Capim), Sol do Orient* (B*ix*
da
Soleda*e) e Pidão (Fo*t* de São Pedro). Por ocasião d*s feste*os ao Senhor do Bonfim,
os
ternos e ra*chos p*omoviam nas ruas adjace*t*s à i*reja, grande ani*ação. Após percorr*rem
Rev. FS*, Teresi**, v. 12, n. 4, art. 3, p. *2-51, j*l./a*o. 2015 www4.fsan*t.com.br/revista
A Fé * U*a Fest*
47
as ruas de Itapagipe, v*sitavam a ig*eja, emprestando *o* f*stejos
u* *
divertida a*egria.
Precedidos por *rupos musica*s, fo*mado po* tocador*s de violã*, pan*eir*s, *iolas e
*av*quinhos, a*i também real*zav*m serenatas *té * amanhec*r.
*ig*ra 1 - Terno L*ão de Ouro. A *a*de, janeiro de 1941
Sobre o* signi*ica*os do* nomes de batismo dos te**o* encontramos
alguma* n*ta*
cu*iosas nos jornais. Po* exe*plo, o Terno Estados era co*p*sto por moças ra*a*es que *
moravam na região de Itapagipe. O nome *stados *azi* alusão à recém inventa** R**úb*ica
brasileira. Cada mo** repre*enta*a um est*do da *nida*e da F*deração. À *rente, conduzi*do
um barrete frígio, via-se *m* criança represent*ndo a nascente Repúb*ica. O Te*no das *osas
*ra *omposto *or *0 *enhoritas *ra*a*as
de bran*o, *o*duzindo rosas como símbolo. O
A*igofe **ssuía es*e nome porque, ante* *a *rimeira G**r*a M*ndial, alcunhava-se pop*la* e
jo*osamente com* a**g*fe os jovens **pazes "m*l*ndros", "boêmios", "simpát*cos",
"fanfarrões" e "inco*se*ue*tes". O ter*o a*igo*e não é *e*istrado *os di*ionários. Por
exem*lo, negro *es*ido de
branco *as*ou a ser *hamado de *rigofe, *eia-se, b*m ve*tido
e
trajado. O terno do* Astros er* assim denom*nado por possuir *omo fig*r** simból*ca a Lua,
o Sol, a ***re*a, a *erra e a Aurora. (*IAN*A, 2*12)
Quando não conduzi*os em bondes alugado* com os parcos r*cu*sos para es*e fim, os
integ*antes dos Ter*os * Ranchos, a depe*de* da loca**z*ção de suas sedes, diri*iram-se a*é o
l*r** em plena caminhada,
quando, ent*o, er*m o*acionados *elo público. Durant* as
Rev. FSA, Teresina, *. 12, n. 4, art. 3, p. 32-51, jul./ago. *015
www4.fsanet.com.br/r*vi*ta
F. *. Nunes Neto
48
apresentaçõe*, entoavam loas e as
tradicion*is músicas obrig**órias. Durante a***ns anos,
acontecerem diversas querel*s envolvendo dirigentes e integrante* dos
ternos e ranc*os por
conta *as *úsi*as que
uns rei*indicavam propried*de em relação a** outro*. P** algum
tempo, p**a *ar**tir as
apresentaç*es dos ternos e ran*h*s en*olv*d*s em d*sse-que-disse,
soldad*s *o Reg*me*to P*licial pr*cisaram int*rvir nas ap*esentações das agr*mia*ões.
Difere*tement* dos Ternos, en*re os *u*is as formas de p*rtic*pação nos festejos era
refe*e*dada por uma espéc*e de encenação tea*ral de c*ráter fa****ar * relig**so, os *anchos,
"*ais liberai*, muitas vezes ve*da*e*ros fa*ranc*o*, chegar*m até da* t*abalho * polícia". *e
m*do ge*al, *s ternos * rancho* "simulavam u*a marcha de p**t*res p*ra o Oriente em *us*a
*o lug*r onde **sceu o Mess*as", confe*in*o aos festejo* d*sc*n*ração e *legr*a (V*ANNA,
1979).
*ouve também o**r** *isse-q*e-disses *n***vendo os Terno* e Ranchos no que*ito
estilo de m*sica *or ele* execut*das. A part*r *o* ano* 4* do sé**lo XX, qua*do o* Ranchos
intro**ziram mar*has
de carnaval em suas apresentaç*es, passaram a ser alvo de severa*
c*íticas entre os integra*te* *os
ternos que *n*endiam estar
havendo a carnavalização
do
sagrado,
principa*mente
quand* m*itos, além do **bado e d* domi*g*, *assaram se fazer a
*resent*s na Segunda-*e*ra d* Bonfim q*e, n*quele contexto d*s fe*t** p*pul**** e de largo
em Sa*v*dor, passou a toma* contornos de gri*o d* carna*a*, uma prévia desta *esta.
Na encen*çã* *a marcha para o Ori*nte realizad* entre os Tern*s, os personagen* que
a compunham e*am basicamen*e os m*g*s, as pa*toras, os pa*tores, os anjos, as s*maritanas,
as c**an*s, as s*loias, o
porta-caj*dos e porta-estandarte. * *unção da *orta-es*andart*, no
contexto das
apresenta*ões, era sim*la* uma adoração em f*ente * um presépio real
ou
imagin*r*o. N***e momen*o, a co*dutora
baixava os b*aç*s com o bastã* q*e estivesse
conduzindo em *m sinal de *um**da*e *u contemplação *e*ig*o*a. Por sua vez,
[...] as pastoras se apresent*vam com o tr*diciona* *estido de es*opi*ha bra*ca,
cha*éu de palha fabricado com p*lmito d* ou*icuri enfeitado co* fitas, tendo a cop*
coberta de algodão, com en*eites de velbutina preta, caj*d* com fitas, cesta no b*a*o
c*m flor*s e pequeno pandeiro de fo*ha-de-flandres. Os pa*t*res t*a*avam roupa
bra*ca, chapé* de ouri*uri en*e*tado, ostentan*o c*s*anho*as de jacarandá, *om f*tas
de cores (*UIRINO, *9*2).
Enqua*to *ar*iciparam d*s *estej*s *o *enho* do Bo*fim na* noit*s de sábado, da
Ba*xa do *onf*m até o gr*dil *a igre*a, tor*ou-s*
*omum a conc*r*ência entre
os fiéis que,
*pós particip** dos ritua*s litúrgic*s c*tólicos, perma*e*iam n*s co*etos e nas
casa* dos
romeir*s *ara pr*sti**ar a*
apresentações dos ternos * *anchos. De*t*e e*es,
havia
alg*ns
Rev. FSA, Te*es*n*, *. 12, n. 4, a*t. 3, p. 3*-51, jul./ago. 2015
*ww4.fsanet.com.br/revista
A F* É Uma Fes*a
49
compostos apenas por homens e *utr*s, apenas por mulhe*es. Out**s er** mistos, havendo,
também, aquele* com a *ormação majoritária d* c*ianças, com* o Pid*o I*fantil.
O* T*rnos e os Ra*ch*s era* cons*d**ados e**re os participantes *os f*stejos ao
Senho* do Bonfim como nota ch*que das noites de sá*ado. O númer* de co*pon*ntes *ariava
e*tre qu*ren*a e c*nquenta, exce*ão fe**a ao R*nch* Mamãe Sac*de q** era composto
por
oiten*a rapazes d*s el*tes lo*ais, *o*o n*ticiado em j*neiro de
19*2
pelo *ornal *iário de
Notícias. Com*unh*-se por uma banda musical c*m m*is vi*te *apazes * por um* bal*za-**r.
No repertório, músicas qu* estab*l*c*am críticas * municipalidade, so*retudo co* relação às
*éssim** condi*ões d* funcion*me*to e circ*lação *os ***des elé*ricos.
* partir de fi*ais dos anos 20 do sécu*o XX, os *ernos e os Ra*chos
passar*m
a
concorrer a prêmios simból*cos *epois de suas apr*sentações
*os coretos, *ferecidos pe*a
Comissão da P*aça d* Liberda*e e pelos membros da Ir*and*de como i*centivo. Estas
premiações visavam ma*ter viva a tradição
en**e o* in*egra*tes daquelas agremiações
de
par*icipar *a* festas pop*lares de Salvador. A partir *o *no de 1937, o senhor Adolpho Freir*,
tes*ure*ro da Me*a Administ*ativa d* Irma**ade, estabeleceu q*e, indep*ndente
da
*lassific*ç*o n** aprese**aç*es, to*os os Ter*os e Ranchos que compar*c*ssem, na* noites de
sábado, à F*sta, seriam premiados. Através d*st* gesto, os membros da Mesa Admin*strativa
da Ir*andade, por i*te*médio *o seu tesoureiro, buscavam e*timu*ar e *gra*ar aos
organ*zadores e aos componentes dos ter*os e do* ranch*s por su*s *arti*ipações, pois "sua*
mús**as, s*a ind*mentária e s*a c*reo*rafia, tudo faland* bem alto das t*ad*ções bahian*s,
pa*rim*nio sempre aumentado co* o pass*r dos an*s" (*iá*io de Notícias, 14 de janeir* de
19*3).
*o an* de *954,
ent*etan*o, por
não terem *ecebido nenhum
auxílio fi**nceir*,
*s
d*rigen*es dos Ternos e
dos Ranchos
declararam, e* entre*is*as aos jor*ais, que não
pa*ticipar*am dos fe*t*jo* ao *enhor do Bonfim, *otícia **e causou al*um ma*-*star, pois
Percy C*r*oso, Di**tor do Arquivo *unicipal, ó*gão
*a Prefei*ura, declarou,
em entrevista,
ter *eito o repasse do a*xíli* entr* *s d*rige**es *os ternos e ranc*os. Através do J*rnal D*ár*o
de Notíc**s, T*maz de *q*in* Bon*im, diretor de um dos Ternos, afirmou:
[...] Não cre*o houvess* tido e*te p*opala*o a*xílio. Já entr*i em ente*dimento com
vários d*rigente* de ternos * not*i o descon*en*amento dos mesmos pela *alta
de
auxílio e pela* ac*sações qu* lhes pesam, de vez que são *omen* hones*os. Ap**as
o terno R*sa Menina saiu às rua*, tendo *m auxílio de
$ 1000,00, o *ue **o dá
para na*a, e se disso de*endesse, o Rosa **nina tam*ém não sair*a às ruas. É o que
há muito vinha se prepa*ando e p*de se apresentar de *úbl*co Deus s*be como.
E
quanto às *cusaç*es que pes*m sobre os d*r*gentes
*e *erno*, *stou promovendo
uma *e*nião, para a qu*l aproveito a op*rtu*i*ade p*ra convidar t*dos os dirig*ntes
*e ternos para *arti*iparem *a mesma no próximo dia 25, na sede do t*r*o *lores de
*ev. FS*, T*r**ina, *. 12, n. *, *rt. 3, p. *2-51, jul./ag*. *015 www4.fsanet.*om.br/*evista
F. A. Nun*s Neto
50
Itapoã, a rua do *asso, nº 27, às 9 horas d* manhã (DIÁR*O DE N*TÍCIAS, 10 de
janeiro de 19*4)
.
N*quel* a**, exceto * Ro** Me*ina, nenhum Terno ou Ra*ch* compareceu *s festas
de largo de Sal*a**r, por falta d* inc*n*ivo financeiro p*r par*e da Pre*eitura. N*s entrelinh*s
da s ua
declara*ã*, P**cy C*r*oso d*u a
atender *ue o* dono* dos te*nos não *a*iam
em*r*ga*o dev*damente o dinheiro rep*ssado pela Pre*eitura. Du*ante a*gum t*mpo, os tern*s
e ranch*s, p*** se mantere*, real*zav*m *tividades *e**eativas, atrav*s da* quais visavam
an*ariar fundos para
custear
as despe*as. Dentre ** *ti*idades, a ve*dagem *e refresco,
a
uti**zação de m*alheiro* pa*a guarda* moed*s a*g*riada* *m aprese*taçõe* p*blicas, r*fas,
*arraca de que*me*ses, sorteio d* b*l*ios e pequenas viagens, foram as *ais *req*e*tes.
Ainda, deve-se r*gistrar que *s músico* ensaiavam de g*a*a, *pen*s pe*c*b*ndo alguma
gratificaç*o nos d**s *a* apres***ações.
N*ste sentido, por
**nta das que**la* ,*n*olvendo a Prefei*ura e as a**emiações,
a
**rtir de meado* dos anos *0 do século XX, registrou-se u* r*lativo dec*ínio na part*cipaç*o
dos te*n*s e ran*hos na* festa* populares de Sa*vador. S*bre
esse *a*o, *pinou Tom** d*
Aqu*n* B**fim:
[...] * *rincipal fator de **cad*ncia d*s ternos é a f*lt* de a*xí**o oficial e aqui en*re
nós, també* da imp*ensa que somente agora está bata*hando **la res*aur*ção desta
ve*ha *radição (DIÁRIO DE NOTÍCIAS, *0 de janeiro de 1954).
A pa*tir d* ano *e 196*, vis*ndo garan*ir na tradi*ão Festa e dos f*st*jos populares a
participaçã* dos Te*no*
e Ranchos,
o prefeito *eitor Dias
financiou a pa*tic*pação da*uelas
agremi**ões. Mesmo assim, naquel* *no, houve
*nexpr*ssiva pa*ti*ipação de **o mais que
dez Ter*os Ra**hos. No ano de 1966 os T*rnos e os Ranchos vo*taram à cond***o de e
atrações
prin*i*ais das noi*es de sábado por *onta d*s
incentivos *inanceiros advin*os *a
Su*erintendênc*a de Tur**mo
de Salvador - SUTURSA. Entretanto, nos ano* seguinte*, os
**nais vitais dos Tern*s e Ranchos *assar*m a pu*sar mais le*tamen*e, evi*enciando estarem
perdendo fô*ego * e*paço nas *estas tradicionais e popul*res de Salvado*.
3 CONSIDERAÇ*ES FIN*IS
No co*te*** das práticas culturais religiosas soter*polit*nas,
*é e fes*a não
s*
configuram *omo elementos antagônicos, nem mesmo co*traditó*ios. N* história *a **sta do
Senhor
do Bonf*m, estas duas *nstâncias c*ad**am-*e com * *m t*rceir* elemento,
a
lu*icidade, *ormando u*a espéc*e de tríade, através d* qual as
d*v*rsas distin*as m*n*iras e
Rev. FSA, Teresina, v. **, n. 4, a*t. 3, p. 32-51, jul./a*o. 2*1*
www4.fsanet.com.br/revista
* Fé É Um* Festa
51
de demon**ração da cr*nça a este *anto, *ssim co*o as formas de cul*uá-lo são tanto
estruturantes como emb**mátic*s de um jeito ba*ano de, enquanto **v*renciam, de maneira
alegre e graciosa, *ão se*tido à manutenç*o d* cu*to *o universo m*gico e re*ig**so, seja no
interior d* *lg*m* igre*a, terreiro de candomblé ou em *m* praç* ou lar*o em sua cer*ania, o
q*e n*s possibi*ita dizer sobre um modo p*rti*ularmente baiano de promover p*o*ícuas
nuances e som*ream*nto* e*tre * fé e a festa.
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A Tarde/ *ês **neiro/a*os co*sultad*s: 1923, 1924 e 19*1.
Diário d* Bahia/ mês *aneiro/ano c*nsultado: 1942.
*iá*io de Notíci*s/mês ja*eiro/ano* *ons*ltados: 1*14, 1*17, 1922, 1953 e 19*4.
R*v. FS*, Ter***n*, *. 12, n. 4, art. *, p. 3*-51, jul./ago. 2015
www4.fsan*t.c*m.br/revist*
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