www4.fsane*.com.br/revista Rev. FSA, Teresin*, v. 15, n. 1, art. 7, *. 124-141, jan./fev. 2018 IS*N *m**esso: 1806-6356 ISS* E*et*ônico: 2317-2983 *ttp://dx.doi.*rg/10.1*819/2018.15.1.7 As Muitas Faces do Trabalho D*cente F*minino: Vivências na Escola The M*n* Faces of F*ma*e Teac**ng Work: Experi**ces in Schoo* Cátia Apare*ida V*r*ssimo Mes*ra em Educaçã* *ela U*iversida*e Fe*eral d* L*vras Ps*cóloga pelo Centro U*iv*rsitário de Lav*** E-mail: cat*averissimo@yah*o.com.br Ja*queline Mag*lhães Alves Dout*ra *m Ciências Flor*stais pel* Un*versida** Federa* de *avras. Profe*s**a da Univ*rsidade Federal *e *avras. E-ma*l: jacque@ded.*fla.br Alessandro *ini*ius de Paula D*uto* em *dmin*stração p*la *n*versidad* Fed*ral de Lavras M*stre em Psicologia Social pela *niversidade Fe*e*a* d* Mi*as Ge*ais **ofessor da Unive*s*dade *ederal de M*to Gross* *-m*il: avpaula@yahoo.com.br E*dereç*: C*tia Apare**d* Ver*ssimo Ru* Sargento G**aldo Mir*nda Cas*ro, N°18, Vil* Mart*ns, Lavras, *inas Ger*is, Cep: *7200-000. E**ereço: Jac*ueline Magalh*es A*v*s Rua Sargento Geral*o *iranda *astro, N°**, Vila M*rtins, Lavras, Minas Ge*ais, Ce*: *7200-000. Editor Científi*o: Dr. Tonn* Kerley de Alencar Rodrig*es Art*g* recebido *m 30/09/201*. Últ*m* ver*ão recebida e* 14/10/2017. Aprovado em *5/10/2017.
E*der*ç*: Aless*ndro Vinicius de Pau*a Departam*nt* *e Psico*ogia/I*stitu*o *e Edu*ação da Universid*de F*deral de Mato Gr*sso (UFMT - Campus C*i**á). A*enida Fer*ando Corrêa *a Co*ta, nº 2367, Cu*abá, Mato Gr*sso, Brasil - CEP 78060-900. Aval*ad* pe*o sistema Triple Review: Desk *eview *) pel* Editor-Chefe; e b) Double Bli*d Review (av*lia*ão cega po* dois avaliadores da área). Revi*ão: Gramat**al, Normativa e de Formatação
A* M**ta* Faces do **aba*ho *o**nte Femin*no: Viv*ncias na *scola 125 RE*U*O Apres*ntamos algumas consider*ç*e* sobre as rel*ções entre o tra*a**o *o**nte e os impac*os ocasionados na *id* de pr*fessora* da rede pú*lica de *ma cidade em Minas Gerais. Trata-se de um **tudo explorató*io de abordagem qualitat*v*. Os dados *oram cole*a*o* na forma de entrevista semies*ruturad* e *ratados a partir da a*álise d* c*nteúdo. Optamos por um rec*rte *iográfico *om *s vivência* de três pro*essora*, c*ns**tou-*e *u* *uitos s*o os *e**fio* enf*e*tado* pela* docentes, f*t**es que p*dem im*licar e* *u*tos psicol*gicos diversos. Evidenci*mos que as relações de gênero estab*lecidas no ambiente de trab*lho docente estão para além do ato *e educ*r, gerando muitos desa*ios para a* pro*issio*a*s doc*ntes que estão na sala d* *ula. *alavras Ch*ves: Docência. *rabalho. Gênero. ABSTRACT Here are some **nsiderations on t*e relationship betw*en the *eaching work and t*e impacts caused in the lives o* the pub*ic t*achers of a city in Mina* Gerais/*razil. This *s an explor*tory *uali*ative *tudy; data were collect*d in the form of semi-*tr*ctured inter*iew and treated from *he content a*alysis. We opte* for a biograph*cal cut with the exp**iences of thr*e teachers; it *as found that many are *h* chall*n*es faced by teachers, f*ctors tha* may result in vari*us p*y**ological costs. *e show*d that gen*er rela*ions established in te*ch*n* env*ronment a*e beyond the act e*uc*te, cr*ating many c*al*enge* for prof*ss*onal teachers w** are in th* *lassroom. Keyw*r*s: Teaching. *ork. *en**r. Rev. FSA, Teresin* P*, v. 15, n. 1, art. 7, p. 124-141, jan./fe*. 2018 www4.fs*net.com.br/rev*sta C. A. Ve*issímo, J. M. A*ve*, A. V. P*ula 12* 1 INTRODUÇÃO * traba*ho humano é uma das p*inci*ai* for*as que os ind*víduos *ossu*m *ara realiza*-s* pe*s*alme*te. Esse me*mo trabal*o denot* variadas *ignificações; por um la*o, pode prop*ciar pra*er realização, por outr*, *ode acarret*r sofrim*nto, colocando saúde e e vida em risco, *ornando-se, *ssim, u* *le*ento nocivo e p*togêni**. *o trab*lho, os pr*cessos de esgotam*nto e *e*gastes *o*em *ese*cand*a*, possivelmente, pelo tipo de trab*lho e pela form* *omo este é organi*ado. Os docen*es a*resen**m *m conjunto *e adoecim*ntos relaciona*os * atividade laboral que são *em c*racter*sticos, espe*ialmente, q**nto aos *intomas *sicol*gicos, somáticos e comportamen*ais re**cionados ao *stres*e * **m*i* exig*n*ias do*entes (ROBAL*NO; K*RN**; UNESCO, 200*). É recorrente, por exemplo, a pres*nç* da *índrome de burnout ou síndro*e do esgotam*nto profissional na c*r*ei*a do*ente (CARLO*TO, *002; *O**; VASQUES-MENEZ*S, *999). A síndrome de bur*out é um dos sintomas *si*o*somáti*os e *omportam**ta*s *o estresse. * b*rnout possui rela*ão c** ** *esulta*os do trabalho e está re*acionado, principalmente, com agravos/**oecimento* *u* afetam *s condiç*es *e sa*d* *o trab*l*ador ac**etido por t*l síndrome (BAKKER; DEM*ROUTI; SANZ-**RG*L, *014). *uanto aos agravos *ísicos da *arre*ra docente, é **ito comum, po* exemplo, o ad*ecimento d*s co*da* v*ca*s em docentes e d**a*s patologias (P*U**; VILAS B*AS, 20*7; KA*MANN; LA*CMAN, **1*; SANTANA; GO**ART; CH**RI, 2012; MORAIS; AZEVE*O; CHIAR*, 20*2; FABRÍCI*; KASAMA; MARTINE*, 2010; ASSUN*ÃO; OLIVEIRA, *0*9; R*BAL*NO; KÖRNE*; UNES*O, 2005). Muitos **o ** fatore* que podem estar as*ociad*s ao *doeciment* dos pr*f*ss**nais *ue se dedicam ao traba*ho d*cente e, entre e*e*, pod*mos d**tacar a var*ável g**ero. É ** marcado* s*ci*l *mportante a ser cons*derado, uma vez qu* *s *elaç*es *ue a* mu*heres mantê* co* o t*abalh* são ***erentes *a estabele*ida *elos homens. Os riscos relacionados ao trabalh* tamb*m são distintos para homens e *ulheres (MORENO, 1999). E*quanto as mulheres su*tentam j*rnadas duplas ou t*ip**s inclu*n*o trab*lhos do*ésticos *ab*, m*i*as ve*es, ao hom*m ex*r*er so*ente o trabalho f*rmal pelo qual *le se** remu**r*do a* *esempe*h*r. No est*io desses argume*to*, o ob*et*vo ge*al *o presente estudo foi a identifi*açã* *e *omo as condiçõe* g*rais de tr**alho podem impac*ar na vida da* professoras, ca**ando-lh*s R*v. *SA, Te*esina, v. *5, n. *, a*t. 7, p. 124-*41, jan./fev. 2018 www*.fsanet.**m.br/rev**ta As *uitas Face* d* Trabalh* Docente Fe*inino: Viv*nc*as na Esco*a 127 mud*nças *a *i*a dentro * fora da esc*la. Co*o lidam com essas sensações e s*ntimentos? Q*e r*fle*ões *azem a par*ir das *uas a*ividades? TRABALHO, DOCÊNCIA E AS QU*S*ÕES DE GÊNERO * trabalho é consi*erado * *rinc*pal forma de int*raç*o entr* *s pessoas e a natur*za, p*r meio d* *rabalho é po*sível tran*formar-se e mod*f*car o meio, ma* tor*a-** necessá*io considerar que *lgumas ati*idad*s e*ige* dos trabalha*ore* *sfo*ços extras, isso *e deve à* cara*terís*i**s intrínsecas do tipo de trabalho realizad* e do lugar *ue o trab*lho o*upa na tei* s*cia*. No nosso c*so, o int*re*se ci**uns*reveu-se sob*e o tr*ba**o real*z*do por pro*es*oras no contexto escolar público. Sabemos que ** r*lações ex*s*ente* entre o trabalho, a e*ucação e o amb*ente *s*ola* *ê* sido tema de con**an*es discus**e* no* ú*timos an*s, pr*n*ipa*ment*, pela doc*ncia s*r essencial para o des*nvolvimento h*mano. De a*ordo com Sora*to e Olivi*r-Heckle* (1999), a e**ola é responsáv*l po* criar mome*tos que serão lem*rados e rele*brado* *or toda vida. A experiência individual, as vivências e tr**as se*ão o *ome*to de histórias que serão pas*adas p*ra as futuras gerações: [...] a escola é nad* men*s q*e a p*ime*ra insti*uição da qual faz**os pa*** fora da *amília, é noss* *ri*eiro contat* com o mundo f*ra da proteção d* lar, longe dos pa*s e dos irmã*s. É on*e temos que apr*nder a con*ive* com as outra* pessoas de *rigens diferen*es, hábit*s qu* não conhecíamos [...]. A es*ola con*ri**i n* constr*çã* da nossa iden*ida*e, da nossa personal**ade, de maneira básic*, es*rutural; organiza os nos*os afe*os [...]. (SORAT*O; O*IVIER-HECKLER, *99*, p. 89-90). Ao falar de educação é nece*sário *eva* e* cont* * reali*a*e c*letiva e os c**ários que circundam a *os*a sociedade. Grande pa*t* das comunidades ocid**t*i* sofreu e s**re con*tantes transf*rm*ções e es*e fator com*m tor*a semelhante os problemas e as questões enfrentadas po* pr*fess*res de *i*erentes *eg*ões (TARDIF; LESSAR*, 2011). O p**cesso de educaçã* o*igina-*e do conhecim*nto que é pr*duzid* pela soc*edade; isso se deve *s de*a*da* que origina* d*s pessoa* e das suas experiênci*s de sobrevivência ou da* pr*duç*es *ndividuai* e coletiv*s de u* determinado grupo so*ial. *lguns setores de se*vi*os e ocupa*õe* consideradas centrais co*o educ*ção, trabalhos terapêuticos e psic*lógicos, políc*a, *er*iços sociais, ent*e o*tras ativ*da*es, revelam fra*ilid**e* * complexidade, ou seja, o trab*lho executado n* presença do outro e as Rev. FSA, Te*es*na PI, v. 15, *. 1, art. 7, p. 124-141, jan./fev. 2018 www4.f*anet.co*.br/r*vista C. *. *eri*símo, J. M. A*v*s, A. V. Pau*a 1*8 re*ações esta*elecid*s *nt*e es*as pessoas, const*tuem em si o proc*sso do trabalho. Espera-se p*r *eio *essas r*laç*es mo*ificar e *elhorar *s *ondições humanas. Sobre o trabal*o d*c*nte, *odificar pesso*s é uma das pri*ci*a*s c*ndi*ões * *ua*idades, to*nan*o importante compr*ender "[...] que as pessoas não **o um meio o* uma finalidad* do t***alho, mas * "ma*éria-prima" do proce*so do tr*balho inte*ati*o e o* de*afios p*imei*o das atividades d*s trabalhadores" (TAR*IF; LESS*RD, 200*, p. 20). Através das relaç*es de trabalho, modifica-se o o*tro, ao pas*o que também modif*cados, por ele*. As r*laç*es s*o constant**ente transfor*adas, exigindo dos traba*hadores pl**o de*envolvi*ento. Freir* (19*5) desta*a que a e*ucação está além da i*eia de conhecim*nto, é u* a** po*íti*o, e o s** lugar não é de neu*ral**ade e abstração, mas, por meio dela pode *e adquirir lugar de *oder. Lüdke e *ndré (2013, p. *), mostram que e* e*ucação "as *oisa* *conte*e* de man*ira tão inextricável qu* f*c* ***ícil *solar as variáveis *nvolvi*as *, mais ainda, apontar *lara*e*te quais são as responsáv*is *or deter*in**o ef*ito". Muitos são os fatore* que p*d*m estar associados à c*ndiçã* doce*te e, entre el*s, *od**os de*tac*r a variável gênero. É um marcador socia* impo*tante a ser co*sider*do, uma vez que a* *el*ções que as mul*eres mantêm com * trabalho são diferentes da* rela**es estabelecidas pelos home*s. *s ri*cos re*acionados ao trabalho t*mbém são d*stintos para homen* * mulheres (M*RENO, 1999). Enquanto as mulheres suste*tam jornadas duplas ou tri*las incluindo trabalho* domésticos cabe, muita* vezes, *o homem exerc*r *o***te o *rab*lho form*l, no qual ele será remunerado ao desempenhar. Para *pr*fundarmos as relações *xi*tentes entre o trabalho doce**e a e que**** d* gêner* é *rec*so desnatura**zar muito* discur*os sobr* as *ulheres. Para t*nto, torna-se indispensá*el con*ex*ualizar a difere*ça entre *s *oncei*os de sexo e gêne*o. O sexo humano apresenta suas primei*as di*eren*iaçõe* já n* desenvolvi*ento gen*ti*o pois, desde o princí*io, o embrião já possui um s*xo. M**mo que não ha*a di*eren*as *i*i*nôm*c*s entre eles, e*se seria o sex* *romos*ômi** que é seguid* pelo sexo *onodal e, poster*orment*, o geni*al (COLOM; ZARO, 2007). O sexo est*r** vinculad* a uma d*termina*ão bi*l*gica que nomeia as diferença* bi***gicas e separam em gr*pos mulheres e homen*. E* contrap*rtida a* conce*t* *e s*xo, Louro (*000) nos *ermite compr*ende* **e gêner* é uma: [...] construção so*ial feit* sobre diferenç*s sexu*i*. *ênero refere-se, p*rtant*, a* modo como as cha*adas "di*erenças s*xuais" são represe*tadas ou valorizadas; refer*-se àquilo que se diz ou se pen*a sobre tais dif*renças, *o âmbit* de u*a dada socieda*e, num *e*erminad* grupo, em determinado *o*texto. (L*URO, 2*00, *. 2 6 ). Rev. FSA, Teresi*a, v. 15, n. 1, art. 7, p. 124-14*, jan./fe*. 2018 www*.fs*net.com.br/revista As Mu*tas Face* do Tr*b*lho Doce*te Fem*nin*: Vivências na Escola 12* O *er*o de orige* ingl*sa gen*er começou a ser utilizad* pa*a formar uma *o*a cat*goria c*pa* de a*alisar a extensão d*s relações sociai* e culturais co*frontando-a com o *ermo sexo que t*a*ia uma classifi*ação biológ*ca (G*NÇALVES, 19*8). Gên**o é um termo amplo, constit*ído em um lo*go pro**sso d* construção so*iocultural da *dentidade sexual dos indivíduos, *ão estando, nece*sariamente, atrelado às características bio**gic**, mas sim aos papéis que c*da **ssoa *ssume na teia social. Scott (1990) destaca: [...] a definição de gênero repous* nu*a *one*ão integral en*r* duas prop*siç*es: (1) o gênero é um elemento constit*tivo de relações sociais base*das na* d*f*renças per*eb*das entre os sexos e (*) o gênero é um* *orma pri*á*ia de dar si*nifi**do às relações de pod*r. *s mudanças na organizaçã* das *elações sociais correspo*dem s*mpre a m*danças *as representações do poder, mas a mudança não é unidirecional. (SCOTT, 19*0, p. 86). As relações so*iais de *ên*ro, ass*m **mo *s re*ações de classe, raça e etnia são de*ermi*adas pelo c*nte*to *o*ial, cultural, político e econ*mic*, s*nd* modi**cá*eis e inconst*ntes (**OTT, 199*). Gênero é *ma *onstr*ção social do masculin* e **minino, de acordo *om o *epertório *omportamental assumido. * re*ul*ado de um antigo e compl*xo proces*o em que a di*erença entre os sexos foi conve*tida *m desi*ual*ade, e a relaçã* *undamen*ada *essas diferen*as hierarquizo* as relações e *stabel*ceu a sup**ioridade *o sexo masculino (LOU*O, 200*; GO*Ç*LVES, *99*; SCOTT, 1990). Assim, o *omem, oc**ou lu*ar do "pr**edor", o ficando a *ul*er c*mo *ua de*end*nte *conômica * con*icionadas à do*ina*ão masculina. C*ub*ram-lhe, então, os "*everes" de *sposa e mãe, de*e*do-se isso, ao pr*cesso de socializa*ão pat*iarcal. As mulhe*es, assim, ocuparam o l**ar de "re*rodu**ras", como se *ssa f*sse * única *unção que p*des*em e*ercer. Para Batista e *o*o (19*9), hi**oric*me*te o *omem sempr* tom*u como **us os e*paços públi*os, enq*anto *s **lheres, tidas com* "**inha *a esfera p**vada", se lim*tavam ao universo p*rticu*ar *o* seus la*e*. * regime so*ial funda*entado no p*triarcado heterossexual pe*mitiu, *urante mu**o temp*, um *odelo de violência *ontr* a mul*er, nomeando o* ho*ens como sujeitos *tivos nas relaçõe* *exuais e sociais, po*icionan*o as mu*heres com* subordinadas e *nertes, cabendo * *las somente pa*el de *e**odu*o*a (**NTA*-BER***; GIFFIN, 2005). As o r*lações baseadas nas dif**enças entre os s*xos é uma ques*ão social *ntiga, e *onstitui um* das mais primitivas, inju*tas e duradou**s relações de desigual*ades. Rev. FSA, Teresina PI, v. *5, n. 1, **t. 7, p. 124-*41, jan./fev. 2018 www4.f*anet.com.br/revista C. A. Ve*issímo, J. M. Alves, *. V. Pa*la 130 A *onstrução de pa*é** sociais bas*ada no sistema patria*cal e no capitalismo, em diferentes épocas e socie*a*es diferenciou *s sexos e posi**o*ou * mulh** em lugar de desvantag*m. T*is desvantagens também sã* cons*atadas em re*ação ao* s*lários e às condições de traba*ho, *ma vez que as m*lh*r*s trabalh*doras são exp**radas **l* capital ao me*os duas vezes, já que além d* t*aba*ho ext**no realizam também o trabalho d*més*ico qu* mant*m e gar**t* o metabolismo social do capital (ANTUN*S, *005). O proc*sso de *e*inizaçã* d* docência *oi um marco, u*a das prim*iras açõe* das mulheres rumo a su* ema****ação. Sob*e a feminizaç*o da *oc*ncia, Louro (1997) indic* que o m**istério passou por um proces*o de ressignificação: Aos **ucos cr*scem os **g*m*ntos a favor d* instruç*o femi*i*a, u*u*lmente v**culando-a à educ*çã* dos filh*s e filhas. Essa argumentação *rá, d*reta o* i*di*etamente, afetar * c*ráter do ma*istério - inic**lmente *mpondo a ***essidade de p*o**sso**s mu*heres e, posterio*me*te, favorece*do a feminizaç*o da docência. Os discursos **e se con*t*tue* pe*a construção da ordem e do pro*resso, pela modernização da soci*d*de, pela hi*ienização *a família e pel* formação do* *ovens cidadãos *mplicam a educaç*o d*s mul*eres - das mães. (LOURO, 1997, p. 96). To*n*-se necessário pensar que a feminizaçã* da doc*ncia está para *l** de atributos t*do* como f**i*inos, mas q*e está at*elada a uma *ondiçã* *e nã* i*telectual, um* vez *ue *asta que as profess**as detenham recur*os relacionais, d* sentimentos * sensib*li*ade (CARVALH*, 1999). *videncia-se assi*, fo*te associação entre o trabal*o docen*e e qualidades tidas como femininas, como a exp*es*ão *e afeto, sensibilidade, cuidado, como se foss*m as mulher*s deten**ras universais de comport*me*tos que as torn*s*em ap*as *ara o exer*ício de *lgumas ativi*a*es e inapt** para *utras. O mag*stério est*v* total*ent* atrelado à quest*o de gênero, * seu exercíc*o, de *erta forma, tornava-se extensão das casas *ess*s mulheres trabalhadoras, justificando o po*quê de ter *i*o um trab*l*o social*ente aceito e* épocas pas**das. Carv*l*o (199*) considera qu* o "cuidado" est* present* na relação professor e alun*s, sendo um comport*men*o e*perado dentro desse *ipo de a*bi*nt*. O c*idado ainda é a fonte de diver*a* ou*ras form*s de cuidar, de acordo co* a au*ora *s*e tipo de prát*ca * ainda ma*s perce**ível nos *n*s iniciais d* processo educaciona*. *o momento em *ue ocorria a ex*ansão *o ca*italismo, a docência e a enf*r*agem e*am v*stas como ativ*dad*s que envolvi*m os "cu**ado* d** *utro*" e, pa*a * real*zação de tais ativ*dades *ram necessárias características fundamen*alme*te *emininas (BATIS*A; CODO, 1*99). De fo*ma p*rs*icaz, talvez desprov*da de i*tenções maiores, mas nem por isso Rev. FSA, *eresina, v. 15, n. 1, art. 7, p. 124-141, jan./*ev. 20** www4.fsanet.com.br/revista As Mu*tas Faces do Trabalho Docente Feminino: Vivências n* Escola 131 men*s impo*tan*e, a en**ad* e so**dificaç*o das mulh*res no campo da docência foi uma importante abertura em di*eção a outras **gnif*cativas conqu*stas no mundo do trabalho fora da e*fera d**éstica. MET*DOLO*IA Uti**zamo* uma abordagem qual*tativa no des*nvolver do presente estudo ex***ratório, des** a coleta das informações, v*a *ntrev*sta semi*st*uturada, mantendo essa p*rspectiva na posterior análise d*s dados. Pa*a ana**sar e refletir s*bre o material recolhido, utiliz*mos a análi*e de conteúdo (BARDI*, 1977). Ao analisa*mo* *s histórias re*atadas pelas docente* optam*s pel* const*ução de uma pequena biog*a*ia das três participa*tes com o intuito de apresentá-*as, *ostrando o l*gar de f*la delas, e de que form* o t**balho e as *el*ções advin*as del* perpassam suas vidas. Os no*e* ut*lizad*s p*ra identifi*ação das professo**s en*r*vistadas s*o fi*tícios e for*m sugeridos por elas p*ópr*as. Sobre as pr*fesso*a* participantes, temos *m gr*po heterogêneo no que tange à i*ade, c*r, e*tado civ*l, área de for*ação e tempo de *or*açã*/atuação. Ao *on*o *o tex*o será possível perceber que *la* tam*ém se *o*iciona* de formas di*erentes; a* falas em *l*uns moment** até destoam, fi*ando difícil imagi*ar que elas *tue* *m um contexto comum. Apesa* de suas p**uliarida*e*, co*põem um* m*sma *ngrenagem e enf*entam desafios semelhantes trazidos *ela* questões de gênero e do***cia. *PRES*NTAÇÃO DOS RESU*T*DO* Com a palavra, elas... a história de Samanta Saman*a * uma mulher solteira de 32 an*s, jovem, auto*ecla*ada *egra. Tivemos alguns cont*tos an*es da *ntrevis*a e ela *empre se ap*ese**ou co*o uma pe*s*a d*s*emida * foca*a. Sam*nta trabalha, estuda e t** busca*o *primorament* profiss*onal; acredi*a que assim *onseguirá alcançar um mel*or post* de t*abalho. I*ician*o à *ntrevist*, a primeira cois* que perguntamos foi c*mo el* gostar*a de ser tratada *o corpo do texto. Explicam*s que el* *ever*a in*icar um nome próp**o que seria utilizado para faze* refer*n*ia às suas respostas. A re**osta veio rap*damente, "eu gostaria de ser nomeada como Sam*nta" (nesse m**ento ela deu al*as * *ongas gargalhad*s, seguido de Re*. F*A, T*re**na *I, v. 15, *. 1, ar*. 7, p. 1*4-141, ja*./fev. 2**8 www4.fsa*e*.co*.br/revista C. A. V*ri*sím*, J. M. Alves, A. V. Pa*la 132 palmas). Sobre a just*ficativa da *scolh* do nome Sama*t*, mesmo n*o sendo solicitad*, e*a responde: "nome de gu*r*a né?!". Dur*nte a cole*a, fizemos *lgum** pau*as, *is q*e ** uma dessas surgem *lgumas temáticas *mportantes, e*tre ela* o seu envol**mento com a militância neg*a. Ela *á hav*a deix*do cl*ro que era mulher, ne*r* e pobre, e que i**o era utili*ad* para estreit*r os *í*cul** com os *studantes. Samanta diz ter uma re*ação aberta c*m seus *l*n*s e fala para ele* o qu* *en*e: Às vezes eu falo com os alunos [...] eu *cho que tem ident*ficação, porque **ando v*cê mostra al*um* fragilidade v*cê co*segue s* aproximar do out*o, u*a das coisas qu* eu fa** é mo*trar min*as fragil*dade*, *ou p*bre, sou negra, en*ão, isso causa u** proximida*e, uma abertura, para acabar qua*quer f*rm* de re*trição que *oss* ter da parte *eles, sempre *onto minha histór*a quando *u conh*ço **a turma p ar a não t*r h**tili*ade, porque ele* *êm hostilida*e com quem tem um poder *quisi*ivo maio*, quando eu mo*tro que eu *ão tenho u* poder aquis*tivo *ai*r eu j* quebro *arr**ra u*a *ar*eira muit* gra*de! (Samanta). Es*a proximidade entre Samanta e seus aluno* favo*ece as trocas e acaba por ser im*ort***e motivador p*ra ela. O prazer de estar fazendo a diferença em algum sentido, *cho que isso *ão pr*cisa *i*gu*m falar, eu sint* isso quand* eu tô n**a aula, *ão pre*isa t*r um reconhecimento no fin*l de a*o de terc**ro, receber uma homena*em... is*o é supérfl*o! A*ora um aluno chegar pa*a você e falar: "*oss* prof*ssora foi fantást*c* a aula sua", acho que nad* paga *sso (risos). (Sa*anta). Codo et a*. (*999) revelaram que, tanto a s**ied*de, como os p*ópr*os profe*sores cons*deraram a ativ*d*de doce*te *omo mais impor*ant* qu* q*al*uer outro t*abalho. Pa*a e*es: A *mport*nc*a *a percepção do próprio trabalho como *ti* * soc*e*ade tem um valor i*egável pa*a a auto*stima do trabalhador, para a forma como se est*utura a sua identid*de; sentir que a rea*izamos um t*a*alh* i*útil faz, de algu** man*ir*, com *ue sintamos t*mbé* inútei* (*ODO et a*., *9*9, p. 293). Nesse contexto de utilidade do trabalho para a **ciedade e p*ra a c*nstitu*ção do indivíd*o trabalh*do*, Sam**ta artic*la suas a**as aos assuntos da atualidad*, tais como violênc*a, gênero, movimentos *oci*i*, raça e et*ia, trabalho, tecnologias, entr* *u*ros. Pa*a ela, * *ala de aul* e o es*aço ideal para d***nv*lver o p*ns*mento * comportament* crít**o dos est*dantes com os q*ais **da d*a*iam*nte. Rev. FSA, Teresina, v. 15, n. 1, art. 7, p. 1*4-14*, ja*./fe*. 2018 ww**.f**n*t.com.br/revista A* Muitas Faces do T*a***h* D*cente F*minino: *ivências na Escola *33 Para Saman*a, u*a de suas principais bandeiras é * do movimento negro, e*bate esse que, se*u*do, *omeça na próp*ia família: Até pel* meu históri*o mesm* né? Acho qu* * mulher negra, a*s*m [...] tal*ez e* tenha ido p**a *s ciências h*manas para *usc*r *ef*sas, autoc**hecime*to, mais s*gu*ança, acho que *u acabei *sco*hen*o a human*s para isso. Para eu saber m* defender e *e impor mais s*ci*lmente, *ara me impor co*o mulh*r e neg*a, r*ss*lto a q*estão de **r negra. [...] A*ho que é o pes* maior, que simplesmente *er *ma mulhe*, uma mu*her br*nca, *ue não sof*em n*m 1/3 do que a *ulh*r neg*a *ofr* [...] a**o t*lvez *e** fat* de ser mul**r, p*imeiro ser negra pri*e*ro e, post**iorme*te, mul**r. (Samanta). De acordo c*m Carvalho (*999), as rela*ões estabeleci*as e**re as mulheres negras e as questões d* gê**ro, idade e cuida*o, por e*emplo, se *onfiguram d* maneira diferente. Para a **t*ra, essas t*máticas são o*ganizadas a pa*tir do *ixo central da ident*dade ra*i*l, e s*o discutidas pela comun*dad* raci*l, como ex*rcíc*o de *utor*dade. Quando, dura*te nossa conve*sa, Sa*anta foi ques*i*nad* sobre o que es*er*va com seu traba*ho, ou a **r**r do seu trabalho, el* responde: Eu esper*va en*rega* uma revolução, mas, eu ac*o que *ma aula, uma vez por sema*a é meio difícil f*z*r isso sozi*ha, m*s, noss* (lev*nta a cab*ça e sorri). *u gostaria que ele* mesmo alunos e alunas pa*asse* e dissessem nós n*o aceitamos isso! Nós *ueremos mud*n*as! (Sama*ta). Em *lguns mo*entos, *amanta revel* se sent*r sozinh* nas lutas que enca*eça d*ntro d*s variados espaç*s pelos quais t**nsita, a começar pe*a escola. Segundo ela ex*ste m*vim*ntação, mas ainda muito pequena, longe, muito longe do ideal. Com a pal*vra, ela*... a histór*a *e Helena Helena é uma mul*er *e 26 ano*, soltei*a e que *e *utodec**ra branca. Tra*alha com c*i*nças com *ecessidades e*peciais. Integrante de **a f*mí*ia de classe mé**a com um a situa*ão fina*cei*a confo*tável, tem dois irmãos, sen*o um *eles *d*tado. *l* re*etiu isso algum*s vezes. Filha mais velha, c**be * ela muita* vezes *xer*er o papel de "se*unda m*e" para o* doi* irmã*s que vieram *ep*is. Atualm*nt*, com a sua *ãe moran*o em ou*ra c*dade, é ela qu*m ai*da cu*d* do irmão mais novo. Segundo o seu *elato, ainda muito peq*ena, *la se lembra de *uando a mãe comentou em cas* so*re um a criança que ser*a colocada à dispos*ção para a adoção, i*s* devido à Rev. F*A, T*resina PI, v. 15, *. 1, a*t. 7, p. 124-141, ja*./f*v. 2*18 w*w*.*sa*et.com.b*/revi*ta C. A. Verissímo, J. M. Alves, A. V. Pau*a 1*4 escasse* de *ecursos por parte d** *a** biol*g*cos. Ela *ec*rda de *er en*orajado a sua **e a *ss**ir * guarda dessa *rian*a e, *aso o p*ocesso de adoção des*e certo, po*eria contar co* ela (que também era *ma crian*a) pa*a aj*dar nos cuidados desse segundo irmão. E* seu relato diz que nessa época ai*da er* b*m pequena, ma* se reco*da com* tudo *e deu e se se**e orgulhosa por ter pa*ticipado. Enca*regada d* cuidar dos irmãos m*is novos, os afetos que já mora*am nela d*s*b*ocharam de *orm* prec*ce e sem medi*as, junto v*e*am as responsabil*dades: Desde d* peque*ininha eu tenho *espon*ab*l*da*e, me** p**s me davam respo*sabilidade, eu s*mpre en*arei iss* c**o um trabalho, o mundo foi g*rando, girando, a respons*bilid*de *ó foi aumentando. (Helena). Vendo na filha uma boa e responsáv*l *uidadora, * mãe *oi s*a maio* i*ce*tivado*a a seguir pela carreira *oce*te, se**ndo percep*ão da *ãe "u*a pr*fissão de mulh*r". Primeiro foi o cur*o *e pedagogia e depois educaç*o física, que *o moment* e**ontra-*e tra*cado devido à mudan*a de c**ade. Carv***o (1999 apud N*DDI*GS, 1984) expõ* que o cuidar é natur*l, assim, como o agir em favo* do outro, "quando me t*r*o mãe, eu entro numa relaçã* muito especial *ossi*elm*nte a re*ação de cuidado *rototípica". A partir da mem**i* d* t*rem sido cui*ados *** algu*m, todos o* seres h*manos *eria* de fo*m* uni*ers*l uma tendência a cuidar dos outros **mbros da mesma espécie. So**e as relações pessoais, Helena diz que são estabelecidas a p*r*ir d*s afetos, revelou ter ótimos re*acionament*s tan*o dent*o d* *scola c*m colega* e fu*cio*ários, como *om *s pais e respon**veis pelos alun*s, se estendendo-se também a sua co*unidade. R*latou ser procurada pe*as fa*í***s de seus alunos, par* partici*ar de eve*tos famil*ar*s; disse q*e ess*s pessoas vão at*ás dela para que possam f*rmali*ar conv*te* pa*a aniv*rsár*os, bat*zados, casamento*, churrasco* e *estas de final de an*. *elena relata que suas práticas de cui**do c*m os alunos *ão **rpassada por *fetos: "U** mãe e uma avó pediu para eu d*r **rinho par* o menino, e* encontro n* r*a eles/elas me abraçam e beijam, é uma rel*ção muito amorosa, relaçã* afet*vidade t***l". Hel*na vive um misto de sentiment*s dent*o da escola, ela se depara o tempo todo *om os custos e respons*bilidad* *e cuidar de vários a f*lhos e filh*s, q*e não são dela, embora esse sentimento s*j* *ompensa*or, isso *ã* *ara*te sua comp*eta s*tisfação. De acordo com os seu* relatos, * fa**a d* envol*imento e a forma fria e ríspid* com que alg**s d*s seus co*egas lidam com * traba*ho * deixam de*m*tivada, es*o*a*a e decepci*nada; segundo ela, é frus**ant* estar ali. Por trabalhar *om *eficiente* *í*ico* * R*v. FSA, *ere*ina, v. 1*, n. *, art. 7, p. 124-141, jan./fev. 20*8 www4.fsan*t.co*.b*/revista A* Muit*s Faces do Tr*balho Doc*nte Feminin*: Vi*ências na Escola 135 portad*res de ne**ssidades espe*i*is, ela relata que exist*, por part* *e algumas pesso*s do corpo docente, uma baixa expect*tiva quan*o à evo**ção dess*s crian*as, co*f**me a fala que segu*: "me fa* mal, *o me* caso por ser *d*c*ção especial, muito* outro* *r*fessores falam assim: \eu não dou conta desses menino* não\! Aí eu fi*o ma*zona, muito mal, q*e*o br**ar". *l* segue *pontando que falta carinh* nas relações estabelecidas de*tro do *mbiente e*c**a*: Ah *u *c*o que as professoras dev**iam *er mai* carinho*as, ao invés *e briga* demai* [...]. Acho que isso q*e deixa elas doentes às ve*es, sabe? A*ar mai* os meninos, deixar*m eles amarem *las, sa*e? *ão sei *e fa*** em palavras ag*ra se envolv*r mais, ter u* vínculo, talvez seja *ifícil p*rque tem *ilho em casa e mais *m monte de coisas, mas se e*col*eu essa profi*são d*veria sab*r q*e t*m q*e ser o amor antes de tudo, que*ia que f*sse mais as*im. (Helen*). Dentro de um* lógica capi*alista, em que as relaçõ*s são estabelec*das e *aseadas po* uma série de i*dicad*res, c*mo por exem**o: salá*io, técnica, *ierarqu*a, b**ocraci*, norma e e*c, exige-se *o trabalhador m**or objetividade, o qu* *caba limitando o envolvimento a*etiv*. No enta*to, para C*do e Gaz*ot** (1999) o* afetos são re*r*mi*os * *ão eliminados, dessa f*rm*, eles se d*slocam e *ão expres*os de form*s diferentes. Para a professora Helena, o en*olvimen** das professoras c*m o* estudante* deveria *er além *e uma *elação de merca*o/fi**ncei*a. Se*un*o ela, ** "conversas de corredo**s" giram em torno de supo*tar a cond*ção d**ente, *nica e e**lus*vamente pelo salário ou pa** a manutenção de s*us c*rgo*. Seg*ndo Helena: "[...] acho que as professoras d*viam ser ma** envolvidas, *ão só p**o d*nh***o, ou ficar a*i só *elo dinheiro, nossa *u *ou dar aula no estado ** vou *anha* *anto... v*u ganha* m*ito, muito mais... realmente ga**a ma*s. Eu já escutei uma professora fala**o: \N*ss*! Esses *enin*s *qu* *ão ser tud* ma*gin*l mesm*!\ Ah*h! A escola * d* perif*ria, o* meninos estão **i (pausa e u* longo silê*cio) a gente *abe! Mas quere*do ou nã*, se eles estão a*i, s* ele* chegaram até 5º ano, lá t*m o meninos j* *stão no último *** do ensino médio, a es*ola está *endo aluno, ou s**a, pelo men*s *m, *o*s ou trê* a*i vai se*. A*gum de*es va* ter futuro bom, vai *er u* *idadã* melhor, nem to*os eles vão ser fudidos não! (Sil*ncio, sinalizando negat*va*ente com a cabeça bai*a) ". (Helena). * *elat* *a Helena reve*a algumas *rob*emátic*s que envolve* a qu*stão ** f*rmação d*cen*e e, pr*ncipalmente, s*bre preparar os futuros prof*sso*es nã* só para * "transmissão" de *onteúdos *ormai*, mas, acima d* tudo, que os **ep*r*ssem *ara lidar *o* os i*pens*veis des*f*os da c*rre*ra e com seus sentiment*s com rel*ção à docência. Seri* indispen*á*el promover aval**çõe* dos *andidatos * pro*essor*s, evitando o aces*o à profissão docente de pessoa* sem perfil docent* e/ou desequilibradas, cuja fragilidade os expõe a *m fra*asso ce*to na relação *du*ativa. Rev. FSA, Teres*na PI, v. *5, n. 1, art. 7, p. 124-141, jan./fe*. *018 w*w4.fsanet.com.br/*evista C. A. Veri*s*mo, J. M. Al*es, A. V. Paula 136 Dia*te d* um contexto que te* se torn*do cada dia mais complexo, não é poss*vel permitir * **esso e o pr*vis*vel fracass* por parte de educado*e*. *obre o r*sulta** que a pro*essora He*ena e**era *ntregar c*mo **uto do seu trabalho, an*orad* nas relações de afeto * carinho, *la diz: B*m! Na *ducação especial ac**te*em poucas evoluções, mas eu creio que eu entregue, talvez [...] meninos m*is amorosos co* o próximo! Meninos que q*erem ao men*s ajudar... Assim... e* não *al* ele aprende* a ler e a escrever, eu tento passar aquela coisa d* menino, que olha e pensa... Nossa eu pos** ajudar o coleg*? *u po**o a*udar o o*tro? Como eu posso *el*orar? ** en*rego mais s*r humano. * *rofe*sor* q*e *ive* lá *a fren*e e *o*ber da* continuidade, que souber dar a ess* menino o mes*o carin*o que ela dá a* restante *a turma, ela vai levar ele, ela v*i c*m ele e o result*do v*i se* a*ud*-*o a se tor*ar *ma pessoa *elhor. (H*lena). Hel*na acredita q*e, por mei* das suas *e*ações afetuo*as, pautadas no c*rinho, **cuta e amor *la atin*irá os seus objetivos, entr* e*e* o de ent*egar à soc*edade seres humano* *el*ores. E*a e*p*ra que esses e ess*s p*ssam s** vist*s p*ra além *as suas limi*açõ** e, para isso, é neces*ário que cada *m edu*ue o **u olhar para *om as dif*r*nç*s. Com a pa*av*a, *las... a hi*tória de *osa Ros* é um* mulher *e 47 anos, classe média, casada, mãe d* doi* filhos, que *e aut*de*l*ra pard*. M*it* obje*iva, ar*iculada e firme quanto aos seus posicionamentos. Única filh* m*lher d* uma famí*ia composta *or homen*, aprendeu a ser prática. Ela tem **is três *rmãos q*e, desde mui** *o*ens, com*çaram a trab*lhar n*s negócios da f*mília e qu*, por esse motivo, sempr* tiveram a*e*so aos bens, como carros, me*adas etc., co*tudo, *om Rosa sempre foi muito d*fere*te p*rq*e ela era mulher. Sem respaldo do pai e irmão*, desde mu**o n*va percebeu que, p*ra con*eguir conq*istar * s*u lugar, dependeria *nica * exclusi*amen*e do* seus esforços. ** ent*nt*, Ros* sonha*a alt*, e m*ito *bsti*ada, não queria apenas ** lugar, queria vários. R*vela q*e sem*re teve o ap**o da mãe c*mo u*a **iada * cúmplice *a*a **nquis*ar se* *spa*o. De *cordo com Batist* e Codo (199*, p. 69), "gên*r* e traba*ho s*o dois de*e*minantes es**uturais d* i*en*ida*e". Desde muito cedo somos ensi*a*os * no* recon*ecer fre*te a* espelho de acord* com sexo *ue nasce*os, ou seja, se v*r com* me*ina ou como menin*. Com o trabalho não * *ife*ente, identifica-se uma pess*a a **rtir *o trabalho que ela execut*, sej* *m médico, professo* ou enfermeiro. Re*. FSA, Teresina, v. *5, n. 1, art. 7, p. 1*4-141, j*n./fev. 2**8 www4.fsa*et.com.br/revist* As M*itas Face* do T**bal** Docente Feminino: *ivênci*s na *scola 13* Rosa p*e*isava s** **conhecida e mo*trar aos *omen* d* sua cas* *ue ser *ulher nã* a fazia diferente ou inferior a eles. Ela bu*cava au*ono*ia; **s*m, escolheu ser prof*s*ora e, paralelamente, fez outros dois cursos, graduando-se em três. Sobre s*r pro*e*s*ra ela d**: P*rque qua*do *u e*c*l*i ser profe*sor era tudo de bom, quando comecei eu detestava fé*ias, fin*l *e semana, se eu pudesse es*olher o dia de *olg*, *u *ão e escolh*a a s*gunda, porque **gund* e*a o dia com maior n**e*o *e alu*os, o dia em que mais *lunos *riam, e eu quer*a mi*ha sala c*eia. (Ros*). Dos outros *ois cur*os, um a ma*teve no espaço educacional, já * outr*, ela elege, da á*e* *grári*, naquela época, er*, predominant*mente, masculino. Lá estav* ela *ntre as poucas mu*her*s d* univers*dade. Também uma *as primei*as *ulh*res a se fo*ma* no *urso escolhido, ela con*a so*rind* que "eu s*b*a em trator igual macho!". Dep*is de con*lu*das a* t*ês graduações, e*a foi amad*recendo; perce*eu ap*s muitas dificuldad*s e reflexões q*e era desnec*ssário *iver para provar *o outro * seu v*lor. Entã*, de*idiu *e dedicar à do***cia, desejav* estab*lidade *inanceira * o cargo público dava *odas *s gar**tias que n*quel* momento buscava. Ela nar*a qu*, durante t*d*s os an*s su*s*qu*ntes s*guiu, dedicando-s* e *uscando formas de *ontin*ar naquele trabalho, que *om o *empo foi s* modif*cando, m*s ela, també* já não era *ais a mesm*, mas precisav* continuar. Conforme Codo e G*zzotti (1*99, *. 59), "[...] para todos *s educadores é *reciso que se encontre formas de lidar com impas*e, o através do aumento da re*istência do trabalhador *u de atividades que permi*am uma melhor a*m*nistração d* s** energia afetiva". Um do* meios ut*lizados por Rosa *a*a re**stir aos *nos *ue falta* para a sua aposenta*oria, foi lanç*r m*o do **o co*t*n*o ** *edicamentos, **a diz q*e *omou muitos re*édios, p*ra mu*tos dos sin*o*as **e *presenta*a, inclusi*e *d*ite q*e, por *ui*as vez*s, prati*ou a a**ome*icação, o que ela me**a *es**onselha e en*er*a co** um* *aída errada. Pos*eriormente, e*a *nc*ntro* ou*ra f*rma de permanec*r na d*cênci* m*s, *es*a vez, sem con*raindicações e efeitos cola*era*s. Começou a des*nvol*er trabalhos manuais e aprendeu * confe*cionar a*te*anatos variados que sã* pe*cebidos como um refú*io, atividade *ssa a que se dedica com p*azer no* m*mentos de folga: Faço *rtesanato pa*a *u não *irar [...] isso é uma *uga! [...] era ** jeit* de *obrevive*, um* form* q*e ac*ei *ara sobreviver. *o* ex**plo, eu se**re v** para meu artes*nato na e*co** quando *les me *eixam *ervosa! Eu paro, penso e me pergunto que cor eu vou fazer minhas *ai*inh**? *sso tu*o mentalmente! Dou u*a **ajad*, s*n*o eu vou *rig*r com ele*, e eu não posso. Antes quand* e* c*eg*va em Rev. FS*, Teresina PI, v. 15, n. 1, art. *, *. 124-*4*, jan./f*v. 201* www4.fs*net.co*.br/revista C. A. Verissímo, J. M. *l*es, A. V. Pa*la 13* casa eu fic*va s* pre*ara*do coisa de es*ol*, ago*a, não mexo *m coisa *e e*cola, vou cuida* da minha casa, de*ois vou fazer **us artesanat*s, vou brincar com a minha filha, volto para os artesan**os e só! (Rosa). Rosa menciona qu* está *an*ada da ati*idade docente e *ue espera a c*egada da apos*ntaria. Ela utiliza uma série *e recurs*s par* diminuir seu desgaste *om a docência: H**e eu quero *rab**har na sext*, *ue é o dia que vai men*s alunos. Hoj* eu tr*balh* em fu*ção de quanto* d*a* fal*am p*ra o próximo fe*iado, q*antos dias *em o final de s*mana, as *érias! As férias *ustam * *hegar. Mas a gente trabalha ** fu*ção dis*o! E *stou e* contagem regressiva *ara aposentar 5 anos e 3 m*ses (*isos) (*osa). Nes*as idas, vindas e voltas da *id* d* R*sa, ela perdeu a mãe, casou-se novament*, mont*u *esmonto* um ne*ócio, teve outro filh*, agora u*a menina, com três anos. *e* e a**umas esp*cializações * continuou traba**ando e educando. Ho**, a*ém de todas as tarefas cotidianas e pro*issionais, *inda tem sob se*s cuidados o pai, *ue * portador d* doença d* Alzhe*mer, outr* n**o de*afio recente. Os ir*ãos *oncluíram que e** - por ser mulher - seria a pess*a ma** *em pre*a*ada para cuidar do p*i. CONS*DERAÇ*ES FINAIS O processo educativo é atravessado por inúmeros e complexos **tores, tornando ne*e*sário pens*-lo a partir da mu*ti*lic*da*e de process*s que o com*õem, sejam *les sociai*, fina*ceiros, cultura*s, políticos, sociais ou regionais. É preciso *ev*r em *onta toda a divers*dad* *uma*a dessa grande *ngre*agem cultural. P*rcebe*os, a partir dos breves re**tos, q*e a doc*ncia é fei*a de p*ssoas c*m perfis e formas de trab**har di*tintas. Cada pessoa q*e chega *raz u* tanto d* si, das suas histórias, vivências e *xperiências. Pensamos, *pes*r dos *ntraves, qu* muita* são as possibilidade* de reinventar a e**caç**, * começar pela forma como são conduzid*s os processos *eletivos n*s lic*nciaturas, que pode*iam ser p*utados não *o*ent* nas c*pacidades intele*tu*is dos *studantes, mas também *oltado* para c*it*rios d* personalidade, *u* poder*am privi*egiar *erfis que deti*essem ou**as h*bilidades, por exempl*, a capacidade de a*aptação, a**tivi*ade, res**iên*ia e *uto motiva**o, que ta*bém leva**e em co*ta a hi**ória de vi*a daquele pro*issional. *s pro**ssos que env*l*e* a edu*açã* são dinâmicos, as mu*anças são rápidas * a busca por adeq*ações e melhorias precisam ser constantes. E*t*mos certos que acompan*a* Rev. FSA, Teresina, v. 15, n. 1, art. 7, p. 124-141, j*n./fev. *0** www*.f*a*et.*om.*r/r*vista As Muitas Faces *o *ra*alho *ocente Feminino: Vivências na Escola 1*9 t*do esse desenvolvimento não é uma t*refa fác**, porém necess**ia e possív*l, *esde qu* se dê a cada *m as *erramentas *ecessár*as. RE**RÊNCIAS AN*UNES, R. * caracol * sua c*nc*a: ens*ios s*bre a nova m*rfologi* *o trab*lho. São Paul*: Boite*p*, (Coleção Mundo do Tra*al*o). 2005. A*SUNÇÃ*, A. A.; OLIVEIRA, D. *. I*tensificação do **ab*l*o e saúd* do* p*ofessor*s. Educação & Sociedade, *ampinas, v. 30, n. 10*, *. 3*9-37*, *0*9. Di*ponív*l em: < htt*://*x.doi.org/10.1590/S0101-73*02009000200*03 >. *cesso em: 10 set. 2014. BAKKER, *. B.; DEMEROU*I, E.; *ANZ-VERGEL, A. *. Bu*nou* and Wor* Engag*ment: The JD-R Approach. *nnu*l Re*iew of O*gani*ational Ps*chol**y and O*ganiza*ional *ehav*o*, Palo Alto, *. 1, n. *, p. 389-41*, 2014. Di*ponível em: < http://dx.doi.org/10.1146/ann*r*v-o**p*ych-03*413-091*35 >. Acesso *m: 09 mar. 2014. 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