www4.fsane*.com.br/revista
Rev. FSA, Teresin*, v. 15, n. 1, art. 7, *. 124-141, jan./fev. 2018
IS*N *m**esso: 1806-6356 ISS* E*et*ônico: 2317-2983
*ttp://dx.doi.*rg/10.1*819/2018.15.1.7
As Muitas Faces do Trabalho D*cente F*minino: Vivências na Escola
The M*n* Faces of F*ma*e Teac**ng Work: Experi**ces in Schoo*
Cátia Apare*ida V*r*ssimo
Mes*ra em Educaçã* *ela U*iversida*e Fe*eral d* L*vras
Ps*cóloga pelo Centro U*iv*rsitário de Lav***
E-mail: cat*averissimo@yah*o.com.br
Ja*queline Mag*lhães Alves
Dout*ra *m Ciências Flor*stais pel* Un*versida** Federa* de *avras.
Profe*s**a da Univ*rsidade Federal *e *avras.
E-ma*l: jacque@ded.*fla.br
Alessandro *ini*ius de Paula
D*uto* em *dmin*stração p*la *n*versidad* Fed*ral de Lavras
M*stre em Psicologia Social pela *niversidade Fe*e*a* d* Mi*as Ge*ais
**ofessor da Unive*s*dade *ederal de M*to Gross*
*-m*il: avpaula@yahoo.com.br
E*dereç*: C*tia Apare**d* Ver*ssimo
Ru* Sargento G**aldo Mir*nda Cas*ro, N°18, Vil*
Mart*ns, Lavras, *inas Ger*is, Cep: *7200-000.
E**ereço: Jac*ueline Magalh*es A*v*s
Rua Sargento Geral*o *iranda *astro, N°**, Vila
M*rtins, Lavras, Minas Ge*ais, Ce*: *7200-000.
Editor Científi*o: Dr. Tonn* Kerley de Alencar
Rodrig*es
Art*g* recebido *m 30/09/201*. Últ*m* ver*ão
recebida e* 14/10/2017. Aprovado em *5/10/2017.
E*der*ç*: Aless*ndro Vinicius de Pau*a
Departam*nt* *e Psico*ogia/I*stitu*o *e Edu*ação da
Universid*de F*deral de Mato Gr*sso (UFMT - Campus
C*i**á). A*enida Fer*ando Corrêa *a Co*ta, nº 2367,
Cu*abá, Mato Gr*sso, Brasil - CEP 78060-900.
Aval*ad* pe*o sistema Triple Review: Desk *eview *)
pel* Editor-Chefe; e b) Double Bli*d Review
(av*lia*ão cega po* dois avaliadores da área).
Revi*ão: Gramat**al, Normativa e de Formatação
A* M**ta* Faces do **aba*ho *o**nte Femin*no: Viv*ncias na *scola
125
RE*U*O
Apres*ntamos algumas consider*ç*e* sobre as rel*ções entre o tra*a**o *o**nte e os impac*os
ocasionados na *id* de pr*fessora* da rede pú*lica de *ma cidade em Minas Gerais. Trata-se
de um **tudo explorató*io de abordagem qualitat*v*. Os dados *oram cole*a*o* na forma de
entrevista semies*ruturad* e *ratados a partir da a*álise d* c*nteúdo. Optamos por um rec*rte
*iográfico
*om *s vivência* de três pro*essora*, c*ns**tou-*e *u* *uitos s*o os *e**fio*
enf*e*tado* pela* docentes, f*t**es que p*dem im*licar e* *u*tos psicol*gicos diversos.
Evidenci*mos que as relações de gênero estab*lecidas no ambiente de trab*lho docente estão
para além do ato *e educ*r, gerando muitos desa*ios para a* pro*issio*a*s doc*ntes que estão
na sala d* *ula.
*alavras Ch*ves: Docência. *rabalho. Gênero.
ABSTRACT
Here are some **nsiderations on t*e relationship betw*en the *eaching work and t*e impacts
caused in the lives o* the pub*ic t*achers of a
city in Mina* Gerais/*razil. This *s an
explor*tory *uali*ative *tudy; data were collect*d in the form of semi-*tr*ctured inter*iew and
treated from *he content a*alysis. We opte* for a biograph*cal cut with the exp**iences of
thr*e teachers; it *as found that many are *h* chall*n*es faced by teachers, f*ctors tha* may
result in vari*us p*y**ological costs. *e show*d that gen*er rela*ions established in te*ch*n*
env*ronment a*e beyond the act e*uc*te, cr*ating many c*al*enge* for prof*ss*onal teachers
w** are in th* *lassroom.
Keyw*r*s: Teaching. *ork. *en**r.
Rev. FSA, Teresin* P*, v. 15, n. 1, art. 7, p. 124-141, jan./fe*. 2018
www4.fs*net.com.br/rev*sta
C. A. Ve*issímo, J. M. A*ve*, A. V. P*ula
12*
1 INTRODUÇÃO
* traba*ho
humano é uma das p*inci*ai* for*as que os ind*víduos *ossu*m *ara
realiza*-s* pe*s*alme*te. Esse me*mo trabal*o denot* variadas *ignificações;
por um
la*o,
pode prop*ciar pra*er realização, por outr*, *ode acarret*r sofrim*nto, colocando saúde e
e
vida em risco, *ornando-se, *ssim, u* *le*ento nocivo e p*togêni**. *o trab*lho, os
pr*cessos de esgotam*nto e *e*gastes *o*em *ese*cand*a*, possivelmente, pelo tipo de
trab*lho e pela form* *omo este é organi*ado.
Os docen*es a*resen**m *m conjunto *e adoecim*ntos relaciona*os * atividade laboral
que são
*em c*racter*sticos, espe*ialmente, q**nto aos *intomas *sicol*gicos, somáticos
e
comportamen*ais re**cionados ao *stres*e * **m*i* exig*n*ias do*entes (ROBAL*NO;
K*RN**; UNESCO, 200*). É recorrente, por exemplo, a pres*nç* da *índrome de burnout
ou síndro*e do esgotam*nto profissional na c*r*ei*a do*ente (CARLO*TO, *002; *O**;
VASQUES-MENEZ*S, *999).
A síndrome de bur*out é um dos sintomas
*si*o*somáti*os e *omportam**ta*s *o
estresse. * b*rnout possui rela*ão c** ** *esulta*os do trabalho e está re*acionado,
principalmente, com agravos/**oecimento* *u* afetam *s condiç*es *e sa*d* *o trab*l*ador
ac**etido por t*l síndrome (BAKKER; DEM*ROUTI; SANZ-**RG*L, *014). *uanto aos
agravos *ísicos da *arre*ra docente, é **ito comum, po* exemplo, o ad*ecimento d*s co*da*
v*ca*s em docentes e d**a*s patologias (P*U**; VILAS B*AS, 20*7; KA*MANN;
LA*CMAN, **1*; SANTANA; GO**ART; CH**RI, 2012; MORAIS; AZEVE*O;
CHIAR*, 20*2; FABRÍCI*; KASAMA; MARTINE*, 2010; ASSUN*ÃO; OLIVEIRA,
*0*9; R*BAL*NO; KÖRNE*; UNES*O, 2005).
Muitos **o ** fatore* que podem estar as*ociad*s ao *doeciment* dos pr*f*ss**nais
*ue se dedicam ao traba*ho d*cente e, entre e*e*, pod*mos d**tacar a var*ável g**ero. É **
marcado* s*ci*l *mportante a ser cons*derado, uma vez qu* *s *elaç*es *ue a* mu*heres
mantê* co* o t*abalh* são ***erentes *a estabele*ida *elos homens. Os riscos relacionados
ao trabalh* tamb*m são distintos para homens e *ulheres (MORENO, 1999). E*quanto as
mulheres su*tentam j*rnadas duplas ou t*ip**s inclu*n*o trab*lhos do*ésticos *ab*, m*i*as
ve*es, ao hom*m ex*r*er so*ente o trabalho f*rmal pelo qual *le se** remu**r*do a*
*esempe*h*r.
No est*io desses argume*to*, o ob*et*vo ge*al *o presente estudo foi a identifi*açã* *e
*omo as condiçõe* g*rais de tr**alho podem impac*ar na vida da* professoras, ca**ando-lh*s
R*v. *SA, Te*esina, v. *5, n. *, a*t. 7, p. 124-*41, jan./fev. 2018 www*.fsanet.**m.br/rev**ta
As *uitas Face* d* Trabalh* Docente Fe*inino: Viv*nc*as na Esco*a
127
mud*nças *a *i*a dentro * fora da esc*la. Co*o lidam com essas sensações e s*ntimentos?
Q*e r*fle*ões *azem a par*ir das *uas a*ividades?
TRABALHO, DOCÊNCIA E AS QU*S*ÕES DE GÊNERO
* trabalho é consi*erado * *rinc*pal forma de int*raç*o entr* *s pessoas e a natur*za,
p*r meio d* *rabalho é po*sível tran*formar-se e mod*f*car o meio, ma* tor*a-** necessá*io
considerar que *lgumas ati*idad*s e*ige* dos trabalha*ore* *sfo*ços extras, isso *e deve à*
cara*terís*i**s intrínsecas do tipo de trabalho realizad* e do lugar *ue o trab*lho o*upa na tei*
s*cia*. No nosso c*so, o int*re*se ci**uns*reveu-se sob*e o tr*ba**o real*z*do por pro*es*oras
no contexto escolar público.
Sabemos que ** r*lações ex*s*ente* entre o trabalho, a e*ucação e o amb*ente *s*ola*
*ê* sido tema de con**an*es discus**e* no* ú*timos an*s, pr*n*ipa*ment*, pela doc*ncia s*r
essencial para o des*nvolvimento h*mano. De a*ordo com Sora*to e Olivi*r-Heckle* (1999), a
e**ola é responsáv*l po* criar mome*tos que serão lem*rados e rele*brado* *or toda vida. A
experiência individual, as vivências e tr**as se*ão o *ome*to de histórias que serão pas*adas
p*ra as futuras gerações:
[...] a escola é nad* men*s q*e a p*ime*ra insti*uição da qual faz**os pa*** fora da
*amília, é noss* *ri*eiro contat* com o mundo f*ra da proteção d* lar, longe dos
pa*s e dos irmã*s. É on*e temos que apr*nder a con*ive* com as outra* pessoas de
*rigens diferen*es, hábit*s qu* não conhecíamos [...]. A es*ola con*ri**i n*
constr*çã* da nossa iden*ida*e, da nossa personal**ade, de maneira básic*,
es*rutural; organiza os nos*os afe*os [...]. (SORAT*O; O*IVIER-HECKLER, *99*,
p. 89-90).
Ao falar de educação é nece*sário *eva* e* cont* * reali*a*e c*letiva e os c**ários que
circundam a *os*a
sociedade. Grande pa*t*
das comunidades ocid**t*i* sofreu
e s**re
con*tantes transf*rm*ções e es*e fator com*m
tor*a semelhante os
problemas e as questões
enfrentadas po* pr*fess*res de *i*erentes *eg*ões (TARDIF; LESSAR*, 2011). O p**cesso de
educaçã*
o*igina-*e do conhecim*nto que
é pr*duzid* pela soc*edade; isso se deve *s
de*a*da* que origina* d*s pessoa* e das suas experiênci*s de sobrevivência ou
da*
pr*duç*es *ndividuai* e coletiv*s de u* determinado grupo so*ial.
*lguns setores de se*vi*os
e ocupa*õe* consideradas centrais co*o educ*ção,
trabalhos terapêuticos e psic*lógicos, políc*a, *er*iços sociais, ent*e o*tras ativ*da*es,
revelam fra*ilid**e* * complexidade, ou seja, o trab*lho executado n* presença do outro e as
Rev. FSA, Te*es*na PI, v. 15, *. 1, art. 7, p. 124-141, jan./fev. 2018 www4.f*anet.co*.br/r*vista
C. *. *eri*símo, J. M. A*v*s, A. V. Pau*a
1*8
re*ações esta*elecid*s *nt*e es*as pessoas, const*tuem em si o proc*sso do trabalho. Espera-se
p*r *eio *essas r*laç*es mo*ificar e *elhorar *s *ondições humanas. Sobre o trabal*o
d*c*nte, *odificar pesso*s é uma das pri*ci*a*s c*ndi*ões * *ua*idades, to*nan*o importante
compr*ender "[...] que as pessoas não **o um meio o* uma
finalidad* do t***alho, mas
*
"ma*éria-prima" do proce*so do tr*balho inte*ati*o e o* de*afios p*imei*o das atividades d*s
trabalhadores" (TAR*IF; LESS*RD, 200*, p. 20).
Através das relaç*es de trabalho, modifica-se
o o*tro, ao pas*o que
também
modif*cados, por ele*. As r*laç*es s*o constant**ente transfor*adas, exigindo dos
traba*hadores pl**o de*envolvi*ento. Freir* (19*5) desta*a que a e*ucação está além da i*eia
de conhecim*nto, é u* a** po*íti*o, e o s** lugar não é de neu*ral**ade e abstração, mas, por
meio dela pode *e adquirir lugar de *oder.
Lüdke e *ndré (2013, p. *), mostram que e* e*ucação "as *oisa* *conte*e* de
man*ira tão inextricável qu* f*c* ***ícil *solar as variáveis *nvolvi*as *, mais ainda, apontar
*lara*e*te quais são as responsáv*is *or deter*in**o ef*ito". Muitos são os fatore* que
p*d*m estar associados à c*ndiçã* doce*te e, entre el*s, *od**os de*tac*r a variável gênero.
É um marcador socia* impo*tante a ser co*sider*do, uma vez que a* *el*ções que as mul*eres
mantêm com * trabalho são diferentes da* rela**es estabelecidas
pelos home*s. *s ri*cos
re*acionados ao trabalho t*mbém são d*stintos para homen* * mulheres (M*RENO, 1999).
Enquanto as mulheres suste*tam jornadas duplas ou tri*las incluindo trabalho*
domésticos cabe, muita* vezes, *o homem exerc*r *o***te o *rab*lho form*l, no qual ele será
remunerado ao desempenhar. Para *pr*fundarmos as relações *xi*tentes entre o trabalho
doce**e a e
que**** d* gêner* é *rec*so desnatura**zar muito* discur*os sobr* as *ulheres.
Para t*nto, torna-se indispensá*el con*ex*ualizar a difere*ça
entre *s *oncei*os de sexo
e
gêne*o.
O
sexo humano apresenta suas primei*as di*eren*iaçõe* já n* desenvolvi*ento
gen*ti*o pois, desde o princí*io, o embrião já possui um s*xo. M**mo que não ha*a di*eren*as
*i*i*nôm*c*s
entre eles, e*se seria o sex* *romos*ômi** que é seguid* pelo sexo *onodal e,
poster*orment*, o geni*al (COLOM; ZARO, 2007). O sexo est*r** vinculad* a uma
d*termina*ão bi*l*gica que nomeia as diferença* bi***gicas e separam em gr*pos mulheres e
homen*. E*
contrap*rtida a* conce*t* *e s*xo, Louro (*000) nos *ermite compr*ende* **e
gêner* é uma:
[...] construção so*ial feit* sobre
diferenç*s sexu*i*. *ênero refere-se, p*rtant*, a*
modo como as cha*adas "di*erenças s*xuais" são represe*tadas ou valorizadas;
refer*-se àquilo que se diz ou se pen*a sobre tais dif*renças, *o âmbit* de u*a dada
socieda*e, num *e*erminad*
grupo, em determinado *o*texto. (L*URO, 2*00, *.
2 6 ).
Rev. FSA, Teresi*a, v. 15, n. 1, art. 7, p. 124-14*, jan./fe*. 2018
www*.fs*net.com.br/revista
As Mu*tas Face* do Tr*b*lho Doce*te Fem*nin*: Vivências na Escola
12*
O *er*o de orige* ingl*sa gen*er começou a ser
utilizad* pa*a formar uma *o*a
cat*goria c*pa* de a*alisar a extensão d*s relações sociai* e culturais co*frontando-a com o
*ermo sexo que t*a*ia uma classifi*ação biológ*ca (G*NÇALVES, 19*8).
Gên**o é um termo amplo, constit*ído em um lo*go pro**sso d* construção
so*iocultural da *dentidade sexual dos indivíduos, *ão estando, nece*sariamente, atrelado às
características bio**gic**, mas sim aos papéis que c*da **ssoa *ssume na teia social. Scott
(1990) destaca:
[...] a definição de gênero repous* nu*a *one*ão integral en*r* duas prop*siç*es: (1)
o gênero é um elemento constit*tivo de relações sociais base*das na* d*f*renças
per*eb*das entre os sexos e (*) o gênero é um* *orma pri*á*ia de dar si*nifi**do às
relações de pod*r. *s mudanças na organizaçã* das *elações sociais correspo*dem
s*mpre a m*danças *as representações do poder, mas a mudança não é
unidirecional. (SCOTT, 19*0, p. 86).
As relações so*iais de *ên*ro, ass*m **mo *s re*ações de classe, raça e etnia são
de*ermi*adas pelo c*nte*to *o*ial, cultural, político e econ*mic*, s*nd* modi**cá*eis e
inconst*ntes (**OTT, 199*).
Gênero é *ma *onstr*ção social do masculin* e **minino, de acordo *om o *epertório
*omportamental assumido. * re*ul*ado de um antigo e compl*xo proces*o em que a di*erença
entre os sexos foi conve*tida *m desi*ual*ade, e a relaçã* *undamen*ada *essas diferen*as
hierarquizo* as relações e *stabel*ceu a sup**ioridade *o sexo masculino (LOU*O, 200*;
GO*Ç*LVES, *99*; SCOTT, 1990). Assim, o *omem, oc**ou lu*ar do "pr**edor", o
ficando a *ul*er c*mo *ua de*end*nte *conômica * con*icionadas à do*ina*ão masculina.
C*ub*ram-lhe, então, os "*everes" de *sposa e mãe, de*e*do-se isso, ao pr*cesso
de
socializa*ão pat*iarcal. As mulhe*es, assim, ocuparam o l**ar de "re*rodu**ras", como se
*ssa f*sse * única *unção que p*des*em e*ercer.
Para Batista e *o*o (19*9), hi**oric*me*te o *omem sempr* tom*u como **us
os
e*paços públi*os, enq*anto *s **lheres, tidas com* "**inha *a esfera p**vada", se lim*tavam
ao universo p*rticu*ar *o* seus la*e*.
* regime so*ial funda*entado no p*triarcado heterossexual pe*mitiu, *urante mu**o
temp*, um *odelo de violência *ontr* a mul*er, nomeando o* ho*ens como sujeitos *tivos
nas relaçõe* *exuais e sociais, po*icionan*o as mu*heres com* subordinadas e
*nertes,
cabendo * *las somente pa*el de *e**odu*o*a (**NTA*-BER***; GIFFIN, 2005). As o
r*lações baseadas nas dif**enças entre os s*xos é uma ques*ão social *ntiga, e *onstitui um*
das mais primitivas, inju*tas e duradou**s relações de desigual*ades.
Rev. FSA, Teresina PI, v. *5, n. 1, **t. 7, p. 124-*41, jan./fev. 2018 www4.f*anet.com.br/revista
C. A. Ve*issímo, J. M. Alves, *. V. Pa*la
130
A *onstrução de pa*é** sociais bas*ada no sistema patria*cal e no capitalismo, em
diferentes épocas e socie*a*es diferenciou *s sexos e posi**o*ou * mulh** em lugar
de
desvantag*m. T*is desvantagens também sã* cons*atadas em re*ação ao* s*lários e às
condições de traba*ho, *ma vez que as m*lh*r*s trabalh*doras são exp**radas **l* capital ao
me*os duas vezes, já que além d* t*aba*ho ext**no realizam também o trabalho d*més*ico qu*
mant*m e gar**t* o metabolismo social do capital (ANTUN*S, *005).
O proc*sso de *e*inizaçã* d* docência *oi um marco, u*a
das prim*iras
açõe* das
mulheres rumo a su* ema****ação. Sob*e a feminizaç*o da *oc*ncia, Louro (1997) indic* que
o m**istério passou por um proces*o de ressignificação:
Aos **ucos cr*scem os **g*m*ntos a favor d* instruç*o femi*i*a, u*u*lmente
v**culando-a à educ*çã* dos filh*s e filhas. Essa argumentação *rá, d*reta o*
i*di*etamente, afetar * c*ráter do ma*istério - inic**lmente *mpondo a ***essidade
de p*o**sso**s mu*heres e, posterio*me*te, favorece*do a feminizaç*o da docência.
Os discursos **e se con*t*tue* pe*a construção da ordem e do
pro*resso, pela
modernização da soci*d*de, pela hi*ienização *a família e pel* formação do* *ovens
cidadãos *mplicam a educaç*o d*s mul*eres - das mães. (LOURO, 1997, p. 96).
To*n*-se necessário pensar que a feminizaçã* da doc*ncia está para *l** de atributos
t*do* como f**i*inos, mas q*e está at*elada a uma *ondiçã* *e nã* i*telectual, um* vez *ue
*asta que as profess**as detenham recur*os relacionais, d* sentimentos * sensib*li*ade
(CARVALH*, 1999). *videncia-se assi*, fo*te associação entre o trabal*o docen*e
e
qualidades tidas como femininas, como a exp*es*ão *e afeto, sensibilidade, cuidado, como se
foss*m as mulher*s deten**ras universais de comport*me*tos que as torn*s*em ap*as *ara
o
exer*ício de *lgumas ativi*a*es e inapt** para *utras.
O mag*stério est*v* total*ent* atrelado à quest*o de gênero, * seu exercíc*o, de *erta
forma, tornava-se extensão das casas *ess*s mulheres trabalhadoras, justificando o po*quê de
ter *i*o um trab*l*o social*ente aceito e* épocas pas**das. Carv*l*o (199*) considera qu* o
"cuidado" est* present* na relação professor e alun*s, sendo
um comport*men*o e*perado
dentro desse *ipo de a*bi*nt*. O c*idado ainda é a fonte de diver*a* ou*ras form*s de cuidar,
de acordo co* a
au*ora *s*e tipo de prát*ca * ainda ma*s perce**ível nos *n*s iniciais d*
processo educaciona*.
*o momento em *ue ocorria a ex*ansão *o ca*italismo, a docência e a enf*r*agem
e*am v*stas como ativ*dad*s que envolvi*m os "cu**ado* d** *utro*" e, pa*a * real*zação de
tais ativ*dades *ram necessárias características fundamen*alme*te *emininas (BATIS*A;
CODO, 1*99). De fo*ma p*rs*icaz, talvez desprov*da de i*tenções maiores, mas nem por isso
Rev. FSA, *eresina, v. 15, n. 1, art. 7, p. 124-141, jan./*ev. 20** www4.fsanet.com.br/revista
As Mu*tas Faces do Trabalho Docente Feminino: Vivências n* Escola
131
men*s impo*tan*e, a en**ad* e so**dificaç*o das mulh*res no campo da docência foi uma
importante abertura em di*eção a outras **gnif*cativas conqu*stas no mundo do trabalho fora
da e*fera d**éstica.
MET*DOLO*IA
Uti**zamo* uma abordagem qual*tativa no des*nvolver do presente estudo
ex***ratório, des** a coleta das informações, v*a *ntrev*sta semi*st*uturada, mantendo essa
p*rspectiva na posterior análise d*s dados. Pa*a ana**sar e refletir s*bre o material recolhido,
utiliz*mos a análi*e de conteúdo (BARDI*, 1977).
Ao analisa*mo* *s histórias re*atadas pelas docente* optam*s pel* const*ução de uma
pequena biog*a*ia das três participa*tes com o intuito de apresentá-*as, *ostrando o l*gar de
f*la delas, e de que form* o
t**balho e as *el*ções advin*as del* perpassam suas vidas. Os
no*e* ut*lizad*s p*ra identifi*ação
das professo**s en*r*vistadas s*o fi*tícios e for*m
sugeridos por elas p*ópr*as.
Sobre as pr*fesso*a* participantes, temos *m gr*po heterogêneo no que tange à i*ade,
c*r, e*tado civ*l, área de for*ação e
tempo de *or*açã*/atuação. Ao *on*o *o tex*o será
possível perceber que *la*
tam*ém se *o*iciona* de formas di*erentes; a* falas em *l*uns
moment** até
destoam, fi*ando difícil imagi*ar que elas *tue* *m
um contexto comum.
Apesa* de suas p**uliarida*e*, co*põem um* m*sma *ngrenagem e enf*entam desafios
semelhantes trazidos *ela* questões de gênero e do***cia.
*PRES*NTAÇÃO DOS RESU*T*DO*
Com a palavra, elas... a história de Samanta
Saman*a * uma mulher solteira de 32 an*s, jovem, auto*ecla*ada *egra. Tivemos
alguns cont*tos an*es da *ntrevis*a e ela *empre se ap*ese**ou co*o uma pe*s*a d*s*emida *
foca*a. Sam*nta trabalha, estuda e t** busca*o *primorament* profiss*onal;
acredi*a que
assim *onseguirá alcançar um mel*or post* de t*abalho.
I*ician*o à *ntrevist*, a primeira cois* que perguntamos foi c*mo el* gostar*a de ser
tratada *o corpo do texto. Explicam*s que el* *ever*a in*icar um nome próp**o que seria
utilizado para faze* refer*n*ia às suas respostas. A re**osta veio rap*damente, "eu gostaria de
ser nomeada como Sam*nta" (nesse m**ento ela deu al*as * *ongas gargalhad*s, seguido de
Re*. F*A, T*re**na *I, v. 15, *. 1, ar*. 7, p. 1*4-141, ja*./fev. 2**8 www4.fsa*e*.co*.br/revista
C. A. V*ri*sím*, J. M. Alves, A. V. Pa*la
132
palmas). Sobre a just*ficativa da *scolh* do nome Sama*t*, mesmo n*o sendo solicitad*, e*a
responde: "nome de gu*r*a né?!".
Dur*nte a cole*a, fizemos
*lgum** pau*as, *is
q*e ** uma dessas surgem
*lgumas
temáticas *mportantes, e*tre ela* o seu envol**mento com a militância neg*a. Ela *á hav*a
deix*do cl*ro que era mulher, ne*r* e pobre, e que i**o era utili*ad* para estreit*r os *í*cul**
com os *studantes. Samanta diz ter uma re*ação aberta c*m seus *l*n*s e fala para ele* o qu*
*en*e:
Às vezes eu falo com os alunos [...] eu *cho que tem ident*ficação, porque **ando
v*cê mostra al*um* fragilidade v*cê co*segue s* aproximar do out*o, u*a das
coisas qu* eu fa** é mo*trar min*as fragil*dade*, *ou p*bre, sou negra, en*ão, isso
causa u** proximida*e, uma abertura, para acabar qua*quer f*rm* de re*trição que
*oss* ter da parte *eles, sempre *onto minha histór*a quando *u conh*ço **a turma
p ar a
não t*r h**tili*ade, porque
ele* *êm hostilida*e com quem tem um poder
*quisi*ivo maio*, quando eu mo*tro que eu *ão tenho u* poder aquis*tivo *ai*r eu
j* quebro *arr**ra u*a *ar*eira muit* gra*de! (Samanta).
Es*a proximidade entre Samanta e seus aluno* favo*ece as trocas e acaba por ser
im*ort***e motivador p*ra ela.
O prazer de estar fazendo a
diferença em algum sentido, *cho que
isso *ão pr*cisa
*i*gu*m falar, eu sint* isso quand* eu tô n**a aula, *ão
pre*isa t*r um
reconhecimento no fin*l de a*o de terc**ro,
receber uma
homena*em... is*o
é
supérfl*o! A*ora um aluno chegar pa*a você e falar: "*oss* prof*ssora foi fantást*c*
a aula sua", acho que nad* paga *sso (risos). (Sa*anta).
Codo et a*. (*999) revelaram que, tanto a s**ied*de, como os p*ópr*os profe*sores
cons*deraram a ativ*d*de doce*te *omo mais impor*ant* qu* q*al*uer
outro t*abalho. Pa*a
e*es:
A *mport*nc*a *a percepção do próprio trabalho como *ti* * soc*e*ade tem um valor
i*egável pa*a a auto*stima do
trabalhador, para a forma como se est*utura a sua
identid*de; sentir que a rea*izamos um t*a*alh* i*útil faz, de algu** man*ir*, com
*ue sintamos t*mbé* inútei* (*ODO et a*., *9*9, p. 293).
Nesse contexto de utilidade do trabalho
para a **ciedade e p*ra a c*nstitu*ção do
indivíd*o trabalh*do*, Sam**ta artic*la suas a**as aos assuntos da atualidad*, tais como
violênc*a, gênero, movimentos *oci*i*, raça e et*ia, trabalho, tecnologias, entr* *u*ros. Pa*a
ela, * *ala de aul* e o es*aço ideal para d***nv*lver o p*ns*mento * comportament* crít**o
dos est*dantes com os q*ais **da d*a*iam*nte.
Rev. FSA, Teresina, v. 15, n. 1, art. 7, p. 1*4-14*, ja*./fe*. 2018
ww**.f**n*t.com.br/revista
A* Muitas Faces do T*a***h* D*cente F*minino: *ivências na Escola
*33
Para Saman*a, u*a de suas principais bandeiras é * do movimento negro, e*bate esse
que, se*u*do, *omeça na próp*ia família:
Até pel* meu históri*o mesm* né? Acho qu* * mulher negra, a*s*m [...] tal*ez e*
tenha ido p**a *s ciências h*manas para *usc*r *ef*sas, autoc**hecime*to, mais
s*gu*ança, acho que *u acabei *sco*hen*o a human*s para isso. Para eu saber
m*
defender e *e impor mais s*ci*lmente, *ara me impor co*o mulh*r e neg*a,
r*ss*lto a q*estão de **r negra. [...] A*ho que é o pes* maior, que simplesmente *er
*ma mulhe*, uma mu*her br*nca, *ue não sof*em n*m 1/3 do que a *ulh*r neg*a
*ofr* [...] a**o t*lvez *e** fat* de ser mul**r, p*imeiro ser negra pri*e*ro
e,
post**iorme*te, mul**r. (Samanta).
De acordo c*m Carvalho (*999), as rela*ões estabeleci*as e**re as mulheres negras e
as questões d*
gê**ro, idade e cuida*o, por e*emplo, se *onfiguram d* maneira diferente.
Para a **t*ra, essas t*máticas são o*ganizadas a pa*tir do *ixo central da ident*dade ra*i*l, e
s*o discutidas pela comun*dad* raci*l, como ex*rcíc*o de *utor*dade. Quando, dura*te nossa
conve*sa, Sa*anta foi ques*i*nad* sobre o que es*er*va com seu traba*ho, ou a **r**r do seu
trabalho, el* responde:
Eu esper*va en*rega* uma revolução, mas, eu ac*o que *ma aula, uma vez por
sema*a é meio difícil f*z*r isso sozi*ha, m*s, noss* (lev*nta a cab*ça e sorri). *u
gostaria que ele* mesmo alunos e alunas pa*asse* e dissessem nós n*o aceitamos
isso! Nós *ueremos mud*n*as! (Sama*ta).
Em *lguns mo*entos, *amanta revel* se sent*r sozinh* nas lutas que enca*eça d*ntro
d*s variados espaç*s pelos quais t**nsita,
a começar pe*a escola. Segundo ela ex*ste
m*vim*ntação, mas ainda muito pequena, longe, muito longe do ideal.
Com a pal*vra, ela*... a histór*a *e Helena
Helena é uma mul*er *e 26 ano*, soltei*a e que *e *utodec**ra branca. Tra*alha com
c*i*nças com
*ecessidades
e*peciais. Integrante de **a f*mí*ia de classe mé**a com
um a
situa*ão fina*cei*a confo*tável, tem dois irmãos, sen*o um *eles *d*tado. *l* re*etiu isso
algum*s vezes. Filha mais velha, c**be * ela muita* vezes *xer*er o papel de "se*unda m*e"
para o* doi* irmã*s que vieram *ep*is. Atualm*nt*, com a sua *ãe moran*o em ou*ra c*dade,
é ela qu*m ai*da cu*d* do irmão mais novo.
Segundo o seu *elato, ainda muito peq*ena, *la se lembra de *uando a mãe comentou
em cas* so*re
um a
criança
que ser*a colocada à dispos*ção para a adoção, i*s* devido
à
Rev. F*A, T*resina PI, v. 15, *. 1, a*t. 7, p. 124-141, ja*./f*v. 2*18
w*w*.*sa*et.com.b*/revi*ta
C. A. Verissímo, J. M. Alves, A. V. Pau*a
1*4
escasse* de *ecursos por parte d** *a** biol*g*cos. Ela *ec*rda de *er en*orajado a sua **e a
*ss**ir * guarda dessa *rian*a e, *aso o p*ocesso de adoção des*e certo, po*eria contar co*
ela (que também era *ma
crian*a) pa*a aj*dar nos cuidados
desse segundo irmão. E* seu
relato diz que nessa época ai*da er* b*m pequena, ma* se reco*da com* tudo *e deu e se se**e
orgulhosa por ter pa*ticipado. Enca*regada d* cuidar dos irmãos m*is novos, os afetos que já
mora*am nela d*s*b*ocharam de *orm* prec*ce e sem medi*as, junto v*e*am as
responsabil*dades:
Desde d* peque*ininha eu tenho *espon*ab*l*da*e, me** p**s me davam
respo*sabilidade, eu s*mpre en*arei iss* c**o um trabalho, o mundo foi g*rando,
girando, a respons*bilid*de *ó foi aumentando. (Helena).
Vendo na filha uma boa e responsáv*l *uidadora, * mãe *oi s*a maio* i*ce*tivado*a a
seguir pela carreira *oce*te, se**ndo percep*ão da *ãe "u*a pr*fissão de mulh*r". Primeiro
foi o cur*o
*e pedagogia e depois educaç*o física, que *o moment* e**ontra-*e tra*cado
devido à mudan*a de c**ade. Carv***o (1999 apud N*DDI*GS, 1984) expõ* que o cuidar é
natur*l, assim, como o agir em favo* do outro, "quando me t*r*o mãe, eu entro numa relaçã*
muito especial *ossi*elm*nte a re*ação de cuidado *rototípica". A partir da mem**i* d* t*rem
sido cui*ados *** algu*m, todos o* seres h*manos *eria* de fo*m* uni*ers*l uma tendência a
cuidar dos outros **mbros da mesma espécie.
So**e as relações pessoais, Helena diz que são estabelecidas a p*r*ir d*s afetos,
revelou ter ótimos re*acionament*s tan*o dent*o d* *scola c*m colega* e fu*cio*ários, como
*om *s pais e respon**veis pelos alun*s, se estendendo-se também a sua co*unidade. R*latou
ser procurada
pe*as fa*í***s de seus alunos, par* partici*ar de
eve*tos famil*ar*s; disse q*e
ess*s pessoas vão at*ás dela para que possam f*rmali*ar conv*te* pa*a aniv*rsár*os, bat*zados,
casamento*, churrasco* e *estas de final de an*. *elena relata que suas práticas de cui**do
c*m os alunos *ão **rpassada por *fetos: "U** mãe e uma avó pediu para eu d*r **rinho par*
o menino, e* encontro n* r*a eles/elas me abraçam e beijam, é uma rel*ção muito amorosa,
relaçã* afet*vidade t***l". Hel*na vive um misto de sentiment*s dent*o da escola, ela se
depara o tempo todo *om os custos e respons*bilidad* *e cuidar de vários a
f*lhos e filh*s,
q*e não são dela, embora esse sentimento s*j* *ompensa*or, isso
*ã* *ara*te sua
comp*eta
s*tisfação.
De acordo com os seu* relatos, * fa**a
d* envol*imento e a forma fria e ríspid*
com
que alg**s d*s seus co*egas lidam com
* traba*ho * deixam de*m*tivada, es*o*a*a
e
decepci*nada; segundo
ela, é frus**ant*
estar ali. Por trabalhar *om *eficiente* *í*ico*
*
R*v. FSA, *ere*ina, v. 1*, n. *, art. 7, p. 124-141, jan./fev. 20*8
www4.fsan*t.co*.b*/revista
A* Muit*s Faces do Tr*balho Doc*nte Feminin*: Vi*ências na Escola
135
portad*res de
ne**ssidades espe*i*is, ela relata que exist*, por part* *e algumas pesso*s do
corpo docente, uma baixa expect*tiva quan*o à evo**ção dess*s crian*as, co*f**me a fala que
segu*: "me fa* mal, *o me* caso por ser *d*c*ção especial, muito* outro* *r*fessores falam
assim: \eu não dou conta desses menino* não\! Aí eu fi*o ma*zona, muito mal, q*e*o br**ar".
*l* segue *pontando que falta carinh* nas relações estabelecidas de*tro do *mbiente e*c**a*:
Ah *u *c*o que as professoras dev**iam *er mai* carinho*as, ao invés *e briga*
demai* [...]. Acho que isso q*e deixa elas doentes às ve*es, sabe? A*ar mai* os
meninos, deixar*m eles amarem *las, sa*e? *ão sei *e fa*** em palavras ag*ra se
envolv*r mais, ter u* vínculo, talvez seja *ifícil p*rque tem *ilho em casa e mais *m
monte de coisas, mas se e*col*eu essa profi*são d*veria sab*r q*e t*m q*e ser
o
amor antes de tudo, que*ia que f*sse mais as*im. (Helen*).
Dentro de um* lógica capi*alista, em que as relaçõ*s são estabelec*das e *aseadas po*
uma série de i*dicad*res, c*mo por exem**o: salá*io, técnica, *ierarqu*a, b**ocraci*, norma e
e*c, exige-se *o trabalhador m**or objetividade, o qu* *caba limitando o envolvimento
a*etiv*. No enta*to, para C*do e Gaz*ot** (1999) o* afetos são re*r*mi*os * *ão eliminados,
dessa f*rm*, eles se d*slocam e *ão expres*os de form*s diferentes.
Para a
professora Helena, o en*olvimen** das professoras c*m o* estudante* deveria
*er além *e uma *elação de merca*o/fi**ncei*a. Se*un*o ela, ** "conversas de corredo**s"
giram em torno de supo*tar a cond*ção d**ente, *nica e e**lus*vamente pelo salário ou pa** a
manutenção de s*us c*rgo*. Seg*ndo Helena:
"[...] acho que as professoras d*viam ser ma** envolvidas, *ão só p**o d*nh***o, ou
ficar a*i só *elo dinheiro, nossa *u *ou dar aula no estado ** vou *anha* *anto... v*u
ganha* m*ito, muito mais... realmente ga**a ma*s. Eu já escutei uma professora
fala**o: \N*ss*! Esses *enin*s *qu* *ão ser tud* ma*gin*l mesm*!\ Ah*h! A
escola * d* perif*ria, o* meninos estão **i (pausa e u* longo silê*cio) a gente *abe!
Mas quere*do ou nã*, se eles estão a*i, s* ele* chegaram até 5º ano, lá t*m o
meninos j* *stão no último *** do ensino médio, a es*ola está *endo aluno, ou s**a,
pelo men*s *m, *o*s ou trê* a*i vai se*. A*gum de*es va* ter futuro bom, vai *er u*
*idadã* melhor, nem to*os eles vão ser fudidos não! (Sil*ncio, sinalizando
negat*va*ente com a cabeça bai*a) ". (Helena).
* *elat* *a Helena reve*a algumas *rob*emátic*s que envolve* a qu*stão ** f*rmação
d*cen*e e, pr*ncipalmente, s*bre preparar os futuros prof*sso*es nã* só para * "transmissão"
de *onteúdos *ormai*, mas, acima d* tudo, que os **ep*r*ssem *ara lidar *o* os i*pens*veis
des*f*os da c*rre*ra e com seus sentiment*s com rel*ção à
docência. Seri* indispen*á*el
promover
aval**çõe* dos *andidatos * pro*essor*s, evitando o aces*o à profissão docente de
pessoa* sem perfil docent* e/ou desequilibradas, cuja fragilidade os expõe a *m fra*asso ce*to
na relação *du*ativa.
Rev. FSA, Teres*na PI, v. *5, n. 1, art. 7, p. 124-141, jan./fe*. *018 w*w4.fsanet.com.br/*evista
C. A. Veri*s*mo, J. M. Al*es, A. V. Paula
136
Dia*te d* um contexto que te* se torn*do cada dia mais complexo, não é poss*vel
permitir * **esso e o pr*vis*vel fracass* por
parte de educado*e*. *obre o r*sulta** que
a
pro*essora He*ena e**era *ntregar c*mo **uto do seu trabalho, an*orad* nas relações de afeto
* carinho, *la diz:
B*m! Na *ducação especial ac**te*em poucas evoluções, mas eu creio que eu
entregue, talvez [...] meninos m*is amorosos co* o próximo! Meninos que q*erem
ao men*s ajudar... Assim... e* não *al* ele aprende* a ler e a
escrever, eu tento
passar aquela coisa d* menino, que olha e pensa... Nossa eu pos** ajudar o coleg*?
*u po**o a*udar o o*tro? Como eu posso *el*orar? ** en*rego mais s*r humano. *
*rofe*sor* q*e *ive* lá *a fren*e e *o*ber da* continuidade, que souber dar a ess*
menino o mes*o carin*o que ela dá a* restante *a turma, ela vai levar ele, ela v*i
c*m ele e o result*do v*i se* a*ud*-*o a se tor*ar *ma pessoa *elhor. (H*lena).
Hel*na acredita q*e, por mei* das suas *e*ações afetuo*as, pautadas no c*rinho, **cuta
e amor *la atin*irá os seus objetivos, entr* e*e* o de ent*egar à soc*edade seres humano*
*el*ores. E*a e*p*ra que esses e ess*s p*ssam s** vist*s p*ra além *as suas limi*açõ** e, para
isso, é neces*ário que cada *m edu*ue o **u olhar para *om as dif*r*nç*s.
Com a pa*av*a, *las... a hi*tória de *osa
Ros* é um* mulher *e 47 anos, classe média, casada, mãe d* doi* filhos, que *e
aut*de*l*ra pard*. M*it* obje*iva, ar*iculada e firme quanto aos seus posicionamentos. Única
filh* m*lher d* uma famí*ia composta *or homen*, aprendeu a ser prática. Ela tem **is três
*rmãos q*e, desde mui** *o*ens, com*çaram a trab*lhar
n*s negócios da f*mília e qu*, por
esse motivo, sempr* tiveram a*e*so aos bens, como carros, me*adas etc., co*tudo, *om Rosa
sempre foi muito d*fere*te p*rq*e ela era mulher.
Sem respaldo do pai e irmão*, desde mu**o n*va percebeu que, p*ra con*eguir
conq*istar * s*u lugar, dependeria *nica * exclusi*amen*e
do* seus esforços. ** ent*nt*,
Ros* sonha*a alt*, e m*ito *bsti*ada, não queria apenas ** lugar, queria vários. R*vela q*e
sem*re teve o ap**o da mãe c*mo u*a **iada * cúmplice *a*a **nquis*ar se* *spa*o.
De *cordo com Batist* e Codo (199*, p. 69), "gên*r* e
traba*ho s*o dois
de*e*minantes es**uturais d* i*en*ida*e". Desde muito cedo somos ensi*a*os * no* recon*ecer
fre*te
a*
espelho de acord* com sexo *ue nasce*os, ou seja, se v*r com* me*ina ou como
menin*. Com o trabalho não * *ife*ente, identifica-se uma pess*a a **rtir *o trabalho que ela
execut*, sej* *m médico, professo* ou enfermeiro.
Re*. FSA, Teresina, v. *5, n. 1, art. 7, p. 1*4-141, j*n./fev. 2**8
www4.fsa*et.com.br/revist*
As M*itas Face* do T**bal** Docente Feminino: *ivênci*s na *scola
13*
Rosa p*e*isava s** **conhecida e mo*trar aos *omen* d* sua cas* *ue ser *ulher nã* a
fazia diferente ou inferior a
eles. Ela bu*cava au*ono*ia; **s*m, escolheu ser prof*s*ora
e,
paralelamente, fez outros dois cursos, graduando-se em três. Sobre s*r pro*e*s*ra ela d**:
P*rque qua*do *u e*c*l*i ser
profe*sor
era tudo de bom, quando comecei eu
detestava fé*ias, fin*l *e semana, se eu pudesse es*olher o dia de *olg*, *u *ão e
escolh*a a s*gunda, porque **gund* e*a o dia com maior n**e*o *e alu*os, o dia em
que mais *lunos *riam, e eu quer*a mi*ha sala c*eia. (Ros*).
Dos outros *ois cur*os, um a ma*teve no espaço educacional, já * outr*, ela elege, da
á*e* *grári*, naquela época, er*, predominant*mente, masculino. Lá estav* ela *ntre as poucas
mu*her*s d* univers*dade. Também uma *as primei*as *ulh*res a se fo*ma* no *urso
escolhido, ela con*a so*rind* que "eu s*b*a em trator igual macho!".
Dep*is de con*lu*das a* t*ês graduações, e*a foi amad*recendo; perce*eu ap*s muitas
dificuldad*s e reflexões q*e era desnec*ssário *iver para provar *o outro * seu v*lor. Entã*,
de*idiu *e dedicar à do***cia, desejav* estab*lidade *inanceira * o cargo público dava *odas *s
gar**tias que n*quel* momento buscava.
Ela nar*a qu*, durante t*d*s os an*s su*s*qu*ntes
s*guiu, dedicando-s* e *uscando
formas de *ontin*ar naquele trabalho, que *om o *empo foi s* modif*cando, m*s ela, també*
já não era *ais a mesm*, mas precisav* continuar. Conforme Codo e G*zzotti (1*99, *. 59),
"[...] para todos *s educadores é *reciso que se encontre formas de lidar
com impas*e, o
através do aumento da re*istência do trabalhador *u de atividades que permi*am uma melhor
a*m*nistração d* s** energia afetiva". Um do* meios ut*lizados por Rosa *a*a re**stir aos
*nos *ue falta* para a sua aposenta*oria, foi lanç*r m*o do **o co*t*n*o ** *edicamentos,
**a diz q*e *omou muitos re*édios, p*ra mu*tos dos sin*o*as **e *presenta*a, inclusi*e
*d*ite
q*e,
por *ui*as
vez*s, prati*ou a a**ome*icação, o que ela me**a *es**onselha
e
en*er*a co** um* *aída errada.
Pos*eriormente, e*a *nc*ntro* ou*ra f*rma de permanec*r na d*cênci* m*s, *es*a vez,
sem con*raindicações e efeitos cola*era*s. Começou a des*nvol*er trabalhos manuais
e
aprendeu * confe*cionar a*te*anatos variados que sã* pe*cebidos como um refú*io, atividade
*ssa a que se dedica com p*azer no* m*mentos de folga:
Faço *rtesanato pa*a *u não *irar [...] isso é uma *uga! [...] era ** jeit* de
*obrevive*, um* form* q*e ac*ei *ara sobreviver. *o* ex**plo, eu se**re v** para
meu artes*nato na e*co** quando *les me *eixam *ervosa! Eu paro, penso e me
pergunto que cor eu vou fazer minhas *ai*inh**? *sso tu*o mentalmente! Dou u*a
**ajad*, s*n*o eu vou *rig*r com ele*, e eu não posso. Antes quand* e* c*eg*va em
Rev. FS*, Teresina PI, v. 15, n. 1, art. *, *. 124-*4*, jan./f*v. 201* www4.fs*net.co*.br/revista
C. A. Verissímo, J. M. *l*es, A. V. Pa*la
13*
casa eu fic*va s* pre*ara*do coisa de es*ol*, ago*a, não mexo *m coisa *e e*cola,
vou cuida* da minha casa, de*ois vou fazer **us artesanat*s, vou brincar com a
minha filha, volto para os artesan**os e só! (Rosa).
Rosa menciona qu* está *an*ada da ati*idade docente e *ue espera a c*egada da
apos*ntaria. Ela utiliza uma série *e recurs*s par* diminuir seu desgaste *om a docência:
H**e eu quero *rab**har na sext*, *ue é o dia que vai men*s alunos. Hoj* eu tr*balh*
em fu*ção de quanto* d*a* fal*am p*ra o próximo fe*iado, q*antos dias *em o final
de s*mana, as *érias! As férias
*ustam * *hegar. Mas a gente trabalha ** fu*ção
dis*o! E *stou e* contagem regressiva *ara
aposentar 5 anos e 3 m*ses (*isos)
(*osa).
Nes*as idas, vindas e voltas da *id* d* R*sa, ela perdeu a mãe, casou-se novament*,
mont*u *esmonto* um ne*ócio, teve outro filh*, agora u*a menina, com três anos. *e* e
a**umas esp*cializações * continuou traba**ando e educando. Ho**, a*ém de todas as tarefas
cotidianas e
pro*issionais, *inda tem sob se*s cuidados o pai, *ue * portador
d* doença
d*
Alzhe*mer, outr* n**o de*afio recente. Os ir*ãos *oncluíram que e** - por ser mulher - seria
a pess*a ma** *em pre*a*ada para cuidar do p*i.
CONS*DERAÇ*ES FINAIS
O processo educativo é atravessado por inúmeros e complexos **tores, tornando
ne*e*sário pens*-lo a partir da mu*ti*lic*da*e de process*s que o com*õem, sejam *les
sociai*, fina*ceiros, cultura*s, políticos, sociais ou regionais. É preciso *ev*r em *onta toda a
divers*dad* *uma*a dessa grande *ngre*agem cultural.
P*rcebe*os, a partir dos breves re**tos, q*e a doc*ncia é fei*a de p*ssoas c*m perfis e
formas de trab**har di*tintas. Cada
pessoa q*e chega *raz u* tanto d* si, das suas
histórias,
vivências e *xperiências. Pensamos, *pes*r dos *ntraves, qu* muita* são as possibilidade* de
reinventar a e**caç**, * começar pela forma como são conduzid*s os processos *eletivos n*s
lic*nciaturas, que pode*iam ser p*utados não *o*ent* nas c*pacidades intele*tu*is dos
*studantes, mas
também *oltado* para c*it*rios d* personalidade,
*u* poder*am privi*egiar
*erfis que deti*essem ou**as h*bilidades, por exempl*, a capacidade de a*aptação,
a**tivi*ade, res**iên*ia e *uto motiva**o, que ta*bém leva**e em co*ta a hi**ória de vi*a
daquele pro*issional.
*s pro**ssos que env*l*e* a edu*açã* são dinâmicos, as mu*anças são rápidas *
a
busca por adeq*ações e melhorias precisam ser constantes. E*t*mos
certos
que acompan*a*
Rev. FSA, Teresina, v. 15, n. 1, art. 7, p. 124-141, j*n./fev. *0**
www*.f*a*et.*om.*r/r*vista
As Muitas Faces *o *ra*alho *ocente Feminino: Vivências na Escola
1*9
t*do esse desenvolvimento não é uma t*refa fác**, porém necess**ia e possív*l, *esde qu* se
dê a cada *m as *erramentas *ecessár*as.
RE**RÊNCIAS
AN*UNES, R. * caracol * sua c*nc*a: ens*ios s*bre a nova m*rfologi* *o trab*lho. São
Paul*: Boite*p*, (Coleção Mundo do Tra*al*o). 2005.
A*SUNÇÃ*, A. A.; OLIVEIRA, D. *. I*tensificação do **ab*l*o e saúd* do* p*ofessor*s.
Educação & Sociedade, *ampinas,
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C*mo Referencia* es*e *rtig*, conforme ABNT:
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Vi*ênci*s na Es*ola. R*v. FSA, Teresina, v.*5, n.1, a*t. 7, p. *24-141, ja*./fev. *018.
Co*trib*içã* *os Autores
*. A. *erissímo
J. M. Alves
A. V. Pau*a
1) concepção * *lanejame*to.
X
X
2) anál*se * interpretaçã* d*s dad*s.
X
X
*
3) elaboração d* rascunho o* n* revis*o cr**ica *o conteúdo.
X
X
X
4) participa**o na aprov*ç*o d* versão fina* do manuscri*o.
X
*
X
**v. FSA, T*resi*a PI, v. 15, n. 1, art. 7, *. 124-141, jan./fev. 2018
www4.fsa*et.com.br/*evista
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ISSN 1806-6356 (Print) and 2317-2983 (Electronic)