Centro Unv*rsitário Santo Agostinho
www*.Unifsanet.*om.br/revista
Rev. FSA, T*r*s**a, v. 23, n. 6, art. 8, p. 162-1*8, *un. *026
ISSN Impres*o: 1806-635* ISSN E*etrônico: 2317-2983
http://dx.doi.org/10.12819/*026.23.6.*
Desenvolvimento em Questão: Epi*t*mologias *o S*l e Cam**hos do Bem Vive*
*evelopment *n Question: E*iste*o*ogies of t*e South and Pa**s to G*od Living
*na K*rolin* d* Araújo
*outora em Sociologi* pe*a Universidade ***eral da Pa*aíba
Professor* da Univer*idade Estad*al do Tocantins / C*mp*s Paraíso
E-mail: *na.ka@unit*ns.*r
.
Carlos **uardo P*no*so
Doutor em *e**nvolvim*nto, Sociedade e C*o*eração In*ernacional *ela UnB
Professor *o In*tituto Feder*l do *oc*ntin* / Campus Pa*ma*
E*ail: panos*o@if*o.edu.br
Endere*o: Ana Karolina de Araújo
Editor-*hefe:
Dr.
Tonny
Ke*l*y
*e
*le*car
Q*adr* *06 Sul, Alameda 1, L*t* 7, Edi*ício
Rodri*ues
Itac**ú*as, Plano Diretor Sul, CEP: *0.020-0*4,
*almas/TO, B**s*l.
Ar*igo rece*ido em 29/04/**26. Últim*
versão
*ndereço: C*rlos *duardo Pa*osso
ARS* 14, ala*eda 01, lot* *0A, aparta*ento
203A,
rece*ida *m *3/05/2026. Aprovado em *4/*5/2026.
R*sidenc**l Cali*órnia, Plano Diretor S*l, CEP 7*.*20-
142, Palmas/TO, Brasil.
Av*liado pe*o sistema Triple Review: D*sk Rev*e* a)
pelo Edi*or-Chefe; e *) Dou*l* Bli*d Review
(aval*ação cega por dois ava*iadores d* áre*).
R*visão: *ramatical, Normativ* e de Format*çã*
*esenvo*vimen*o em Qu*s*ão: Ep*stemologias do Su* e Ca*inhos do Bem Viv*r
163
RESUMO
Este *r**go *nalisa
os *imites do pa*adi*ma
do desenv*lvimento m*derno e discute
alternativa* qu* em*rgem tanto da crítica acadêm*ca ao d*sen*olvimentismo quanto
das
c*smovisões *ndí*enas lati*o-americanas. A partir das cont*ibuições ** autores como Serge
Latouche, P*u* *ri*s e Alber** Aco*ta, *e* *omo de ref*renci*is antro*ológicos co*o *ierre
C*astres, e das reflexões de *e*s*dores indíg*nas como André B*n**a, *i**on Krenak e Ka*á
Werá, são explora*as *s noç*es de dec*esciment*, simpli*idade voluntária e Bem Viver
(Sumak Kaw**y, Buen Vivir, Tek* Porã) como chaves para pen*a* outros m*ndos poss*v*i*.
Sustenta-se que, diante
da emer*ência cl*m*tica, torna-se urgent* revisi*a* o imaginário
do
progress* e ab*ir espaço p*ra *pistemolo*ias plurai* que con*e*em * *ida *m *a**onia co* a
na*u**za e* col*t*vida*e, rom*endo com os *i**s funda*ores d* e
cresc**e*to econômi*o
ilimitado.
Palavras-cha*e: Bem Viver. Decrescimento. Simplic*dade voluntária. Cosmovisõ*s
indígenas. Desenvolvimento loc*l.
ABST*ACT
This article anal*zes the li*its *f the m*d*rn de*elopment paradigm and **scu*ses
altern*tives that em*rge both from academic critiques
of de**lopmentalism and *rom Latin
American i*digen*us worldviews. Dra*ing on the
contributions of au*hors su*h
as *erge
Latouche, Paul Ari*s, and Al*erto Acost*, as well as a*thro*olog*cal re*erences such as Pierre
*lastres, and the ref*ec*ions of indig*nous thinkers such a* André Baniw*, Ailton Krenak, *nd
Kaká Werá, th* notions of degrowt*, *oluntary sim*licity, and Go*d Living (Sumak Kawsay,
*u*n Vivi*, T*ko Porã) are explored a* keys to th*nking about other *oss*b** worlds. It argue*
that, i* the face o* the cli*ate emergency, it is urg*nt *o *evi*it the ima*inary of progres* an*
open *pace for plu*al *pist*mologie* th*t conceive of li** in harmo** with
nature an* i*
collectiv*ty, b*ea**ng with the found*n* myths of unlimited econo*ic growth.
Ke*words: Good Li*ing. Degr*wth. Volunt*ry *imp*icity. *ndigenous wo*ldvie*s. Local
developmen*.
Rev. F*A, T*res*na PI, v. 23, n. 6, a*t. 8, p. 162-*78, ju*. 2*26
www4.Unif*a*et.*o*.br/re*ista
A. K. Ar*újo, C. E. Pan*sso
164
* INTRODUÇ*O
O debate sobre os rumo* do desenvo*vimento *ntensificou-se nas últ**as décadas e*
razão da* sucessivas crises ambientais, soci*is e civili*atóri**
qu* desafiam o mod*lo
hege***ico de *rescime*to contínuo. A narr*tiva *o *rogres*o, *ri*ida *omo m*t* fundador
das sociedades ociden*ais modernas, t** sustentado uma l*gica econôm*ca q*e natu**l*za
a
explor*ção ilimi*ada dos recurso* da *erra, ao mesmo tempo em que a*rof*nda des*gualdades
s*ciais e cri**s ecoló*icas.
Nes*e cont*xto, emergem reflexões crítica*
que qu**tionam os fu*damen*o* **
d*s*nvol*i*entis*o. Autores co*o Se*ge **touche (200*) e Paul Ariès (2013) apresentam
pr*po*ta* como o decrescimento e a simp*icidade vol*ntária, respectivame*t*, qu* def*ndem
a nece*si*ade *e **mper com o cons*m*smo e de reorganizar
* vida social em bases
*ol*d*rias, ec*lóg*cas comun**ár*a*. Paralelam*n*e, intelectuais la*ino-*****canos, c*mo e
Alberto
Acosta (201*), resgatam a cosmovisão
indígena do Sum** Kawsay ou B**n *ivir,
pr*pondo-a c*mo *lte*n**iva on*o*ógica e **lítica ao m*delo de modernidade o*idental.
Es** ar*i*o bu*ca compreender e a*ticular e*sas p*rspectivas ** diálogo, que
*onformam um *odelo cont*ári* ao *a*ad*gma hegemônico ** d*senvolviment*s**, ou seja,
*os s o
*bje*ivo é ar*icul** e*ses debate*,
*artin** da
hipótese de que se*s princ*pi*s
cosmoló*icos sociais po*em configu*ar moviment*s *e r*sis*ência e o*erec*r elementos e
**r* *ensar n*vas políticas púb*icas e *orm*s de organi*ação s*c*al.
* *EFER*NCIAL TEÓRICO
2.1 O mit* do d*senvolviment* e * crí*ica a* *rogresso
A
*deia d* *esen**lviment* c*ns*l*dou-se no século XX
co*o ideal
civiliza**r*o
glo*al. * des*nv*lvimentism* na* ci*ncias *oci*** foi cons*ruído a par*ir d*
diferentes
matrizes teóricas que buscaram ex*lica* e orientar os processos de tr*nsformação econômic* e
social. Walt Whitman *ostow (19*4) formulou a teori* do* *stágio* d*
cresc*mento
e*onômico, *ef*n*e*do qu* as socie*ade* p*rcor*em um caminho lin*ar rumo
à
moder*izaç** capi**l*sta. **lcott P*r*ons (195*), a partir
do
parad*gm* fun*io*alis*a,
c*ntribuiu para a teoria da modern*zaç** a* compreender o d*s*nvolvime**o como um
process* de diferenc*ação estrutura* *
adapta*ão *n*titu*ional
d*s s*c*edades *radicionais às
fo*mas mod**nas. No c**text* latino-ame*i*ano, Raúl *rebisch (20*0) destaco*
a
R*v. FSA, Tere*ina, v. 23, n. *, art. 8, *. 1*2-*78, jun. 20*6 www4.Unif*anet.*om.br/revista
Desenvolviment* em Questão: E*is*emo*ogi*s do Sul e C*minho* do Be* Viver
165
importância da industri*l*zação por sub*tituição de impo*taçõe* * da at*ação do Estado c*mo
e*traté**a para enfrentar a *epe*dência
**trutural da* economias *eriféricas. Am*r*ya Sen
(2010) a*pli*u * *ebate ao *ropor uma concepç*o de desenv*lvim*nt* cen*rada na expan*ão
d** lib*rdades humanas, *rticul*ndo c*escim*n** econômico, justiça social
e
capacidades
in*ividuais.
*ntretan*o, com* apontam C*l*o Fu*tado (1974) * Giovan*i A*righ* (*997), *rata-se de
um* cate*or** histo*i*amente ma*ca*a por relações de dependência e
de reprodução **
d*sigualda*e* entr* centro e periferia, *ue reforçou e*trut*r*s co**n*ais, submetendo **vo* e
territó**o* a u*a *ógica de *xpl*r*ção *nten*iva. A crí*ica ao *esenvolvimentismo f*rmulada
por es*es autor*s questiona a *oção de qu* o desenv*lvimen** capitalista po*sa
s*r
universa*izado como um per*urso linear * homog**eo. Furtado critica as teorias
da
modernização e do cres**ment* eco*ômi*o por tratarem o subdesenvol*iment* como uma
etapa transitória, argumen*and* qu*
ele *ons*itui uma *ondição históri** e est***ural,
re*ultante da in**rç*o dependent* das economi*s periféricas n* sistema capita*ista
inter*acio*al. Para o autor, * simples c*esc*mento econô*ico não eli*ina desigualda*es,
poden*o, ao *ontrário, aprofunda* a conce*tr**ão *e renda * as *ssimetrias r*gio*ais, além de
um colap** ambiental. Para ele:
O *ue *contecerá se o desenvol*iment* econômi*o, p*ra o qual estão *en*o
mobilizados todos os povos da t*rra, ch*ga e*e*ivam**te a co*c*et*zar-se, isto é, **
as atuais formas de vi*a d*s povos ricos chegam e*e*ivamente a universal**a*-s*? A
respost* * essa p*rgunta é clara, *em *mbiguid*des: se tal a*onte*esse, a pressão
sobre os recursos não-renováveis e a polu*çã* do me*o ambi*n*e seriam *e t*l ordem
(ou alterna*ivamen**, o custo do contro*e *a polu*ção seria tão *levado) que
*
siste*a econôm*co mundial entrar*a ne*e*sa*iamente em c*l*pso (FURT*DO,
1974, p.17).
Arrighi, po* outro lado,
a partir da an*li*e
do* si*temas-mund*, critica
o
*esen*olvimentismo por ign*rar * lógica hierárquic* do *apitalis*o g*obal, no qual o avanço
de alg*ns paí*es ocorre simultaneamente à margi*alização de ou*r*s. A*righi demonstra *s
l*mites
est*ut*rais
das estra*égia* *a**onais de desenvolvimento d*ntro de um siste*a
marcado pela financeirizaçã* e p*la desig*aldade persistente. Ambos os aut*res des*ons*roem
a i**ia d* desenvo*v*mento c*mo *est*no comum, en*atizan*o *ua* con*radições histór*cas e
estrutura*s.
Adentrando neste debate, *e*ge L*touche (*994; *009) a*gumenta *ue o cres*i*ento
ilimitado constitui uma es*éc*e *e re*igião moderna,
s*stentada pel* cr*n*a n* pro*res**
co*o destino *niv*rsal. De acordo com e*e, essa ideologia oculta **
custos so*iais
e
ambient*is d*
**odutivi*mo *rojeta sobre as soc*edades *ão ocident*is a *ond*çã* e
de
Rev. *SA, Te*esina PI, v. 23, n. 6, art. *, p. 162-178, jun. 2026
www*.Unifsa*et.com.*r/revista
A. K. Araújo, C. E. *anosso
166
"incompletude", cla*sificand*-as como atrasadas *or não partil*are* do m*smo *ercurso
hi**órico.
Nessa ló*ica, povos indígenas for*m frequent**ent* caracte*izados com* so*iedade*
"sem Est*do" ou "de subsistênci*". Pierre Clastre* (2012) c*n**st* ess* visã*, *ostrando que
pov*s co**
os Guarani, por exemplo, optaram consc*entemente por form*s de organiz*ção
políti*a sem central*z*ção
estat*l, rev**ando
n*o *ma fal*a, mas um projeto de socie*a*e
****rent*. Clastres critica o *esenvo*vi*entismo e question* a ide*a *e que todas as
sociedades *ev*m seguir * mo**lo o*idental de progresso ec*nômi*o * centralização polít*ca.
Ao e*tuda* sociedades *n*íg**as da *mér*ca do Sul, o autor demonstra que essas
so*ieda*es não são
"atr*sadas"
*u incompletas, **s o*ganizadas del*beradamente
pa*a
impedir a concentração de *oder * *ormação do Estado. Para ele, o d*s*nvo*vimen*ismo e
incorre em um viés *tnocêntr*co que interpreta a **sência de c*escimento
econômico,
hierarquia
est*tal
ou
acumulação
materia*
como
sinais
de
subdesen*olvimento,
desconside*ando o*tras formas l*g*t***s de *rga*ização s*cial. Assim, sua crítica revela que
o desenvolvime*to, *ntendido como progres*o l*near e universal, ignora a div**sidade ****u*al
e po*í*ica *as sociedade* *umanas e i*põe um m*delo ún*co *e modernidade. *ssa crítica
desestabil*za o ev*lu*ionismo implíci*o
nas teo*i*s do de*envolvimento e *bre espaço
para
compreender outras o*tolo*ias s*ciais.
* RES*LTADOS E DIS*USSÕES
3.* De*rescimento e simpli*idade voluntária: altern*tiv** em debate
A c*íti*a de A*dr* G*r* (201*) e *icholas Geor*escu-Roegen (1**1) à vis*o
de**nvolviment*sta centr*-se nos limites e*ológic*s e soc*ais do crescimento
econômi*o
**ntínuo. Go*z
denu*cia a cen*rali*a*e do trabalho assalariado, da *ro***ividade e do
consumo *omo fundamentos do p*o*resso, ar*umenta*do que *r**ci*ento não *arante *
emancipação *ocia* **m bem-es*ar, podendo aprofun*ar
desig*aldades e a alie*ação.
G*o**escu-Roegen, por s*a vez, d*m*nstra que a econ*mia est* submetid* às leis
da
termodi*âmica, especialmente à entr*pia, o que torna impossível u* crescimento ec*nômico
*limita*o em *m planeta fini*o. Par* e*es, o dese*volvimentismo ignor* o* limite* mate*ia*s da
natureza e re*uz a vida social a in*icado*es econô*ic*s, produzindo uma crise *cológic*
e
civ*l*zatória. *uas re*lex*es abrem caminho para p*r*pe*tivas pós-*esen*olvim*ntistas e para
a defesa de *od*s de vida ori*n*ados *ela sus*en*abi*idade e redução do c*nsumo.
Rev. FSA, Tere*ina, v. 23, n. 6, art. 8, *. 162-178, jun. 2026 w*w4.Unifsanet.c*m.*r/revista
Desen*olvimento e* Que*tão: Episte*olog**s do Sul e Caminhos do Bem V*ver
167
O mo*iment* *o dec*escimento, ins*irado em pensa*ores como André Gorz e
Nicholas Ge*rgescu-Roegen, p*opõe uma ruptura
com a obsessão pelo PIB e pela
**rca**ilização da vida. Latou*he (**09)
de*ende que a sustentabilidade somente será
possível em uma sociedade *ós-*r*sci*ento, capaz de r*d*finir sua* ins*ituições e valores em
torno da suf*ciência, da convivialidade e d* cuida*o.
* t*oria do dec*es*imento, formulada
p*r Serge Lato**he, const*t*i uma críti*a
rad**al à visão desenvolv*m*ntista e à centralidade d* cre*cimento econômico como si*ônim*
de prog*esso e b*m-estar. Para o autor, a
chamada "sociedade de crescimento" está baseada
e* um imaginário econ*mico qu* na*urali*a * *xp*nsã* ilimitada da produção e do consum*,
igno*ando os lim*tes *co*ó*icos do planeta e
produzindo
*esi*u*ld*des s**ia*s, alienação
e
*estr**ção amb*ental.
O d*cr*scime*to não propõe simplesm*n** uma redução quan*ita*iva da econ*mia,
mas
uma transformaçã* pr*fu*da dos valores, institu*ções form*s de vida, or*entada pela e
relocalização da *cono*ia e pe*a re*ução do consu** supérfl*o, al*m de uma busca p*r uma
vida mais c*nvivial e aut*noma. Tr*ta-se, por**nto, de um p*ojeto político e cul*ural *ue *i*a
rom*er *om o produtivismo * com a id**a de q*e mais c**scimento signi*ic* nec*ss*riam*nte
*ais *ualidade *e vi*a, abrindo espa*o pa*a uma sociedad* ba*eada no "menos, po*ém
melhor". *ara ele, "trata-*e, *liás, de conseg*ir abandonar uma le* ou uma
*eligião, a
da
eco*omia, do progresso e d* *esenvo*vime**o, de rejeit*r o cu*to i*racio*al e quase i*óla*ra
d* crescimento pelo cr*s*ime*to" (2**9, p.7), o* se*a, "o d*crescimen*o é s*mples**nte um*
bandeira so* a
qual *e reú*e* *queles que proce***am a u*a crítica **dical do
de*envolvimento e que*em des*nh*r *s conto*n** de um proj*to altern*tivo para u*a política
do após-desenvolv*mento" (*009, p.9).
Par* *atouc*e, o *ecrescimento se re*liza *a prá*ica por meio d* um
*rocesso
progress*vo
de transformaç** econômica, social e
*ultural, *rient*do pela re*onstrução dos
m*dos de produzir, **nsumir e viver. *le re*e**a so*u*õ** tec*ocr***cas ou reformas p*ntuais
e propõe uma muda**a estrutural ba*eada no que
de*omina de "c*rculo v*rtuoso do
de*rescimento",
composto por *ito princípi**
interdependentes: rea*aliar, reconceituar,
rees*rut**ar, redi*tribuir, relocaliza*, reduzir, reutilizar e re*iclar. Esses pri*cíp*os não
c*nstituem etapa* r**idas ou uma a*enda cronológica, mas *ireções práticas que se articulam
simultaneame*t* no cotidiano da* sociedades. N* *r*ti*a, o de**escimento implica re*oc*lizar
a economia, reduzir o *onsu*o supérfluo, *ombate* o *esperdício, fortalecer econo*ia*
locais, redef*ni* n*cessidad*s e reconstru** o vínc**o *ntre polític*, cultura e território. Tra*a-
*e, po*tanto, ** um projeto político no sentido *ort* do ter*o, que *e conc**t*za por transições
Rev. FSA, Teresina PI, v. *3, *. 6, art. 8, p. 16*-178, ju*. 2*26 www4.U*i*sanet.com.*r/revista
A. K. *raújo, C. E. P*nosso
168
*raduais, ancoradas em *nic****vas loca*s, coletivas e *emo*rá*icas. Nas palavras do p*óprio
**tor:
Podemos sintetizar o con*unto delas num \círculo vi**uoso\ de *ito \err**\: r*a*aliar,
reconc*ituar, re*strut*r*r, r*d*stribui*, *elocalizar, red*zi*, reutili*ar, reciclar. Esses
oito objet*vos *nterd*p*nd*ntes são capazes *e *esencadea* um processo d*
*ecresc*mento se***o, convivial e *u**ent**el. (2*09, p.42).
Na mesma di*eç*o, Paul Ariès (*013) sugere a si*plicidade voluntária com*
*ontrap*n*o ao "*it* da abundância". Trata-se da esc*lha consciente por estilos de vi*a *ue
priori*am a
cooper*ção e a qualida*e do tempo em **trimento da acu*ulação material.
*mb*ra
al*o de
críticas quanto ao
seu alc*n*e social, a proposta insere-se no esforç*
de
res*ignificar o be*-e**ar
em bases não *at*riali**a*, articula*do-se com *ovimentos
*omunit**ios * e*ológicos.
A te*ria *a s*mplicidade volunt**ia, defendida por A*iès, constitui um* crítica ao mi*o
da abu*dâ*cia que sust*nta a *ociedade de cons*mo *ontemporânea e a ideia de que * bem-
est*r humano depende da acumulação contínua de be*s m*te*iais. Para o autor, a abundância
prometida
pe*o capitali*mo indu**rial revela-se ilusória, po*s c*nvive com a esc*s*ez
so*ia*mente
pro*uzida, o *ndividament*, o *esperdíc** e a de*radação am*iental. A
si*p*icida*e vo*untária não se co*funde com p*ivação ou au*ter*dade imposta, mas refere-se
a uma escolha c*nsc*ente e política por estilos de vida mais sóbr*os, basead*s *a reduçã* d*
consumo, *a
valorizaçã* do tempo li**e, das rel*ç*es so*iais e dos ben* comuns. Ao
que*tionar a
*entralidade do consumo com* forma de realizaç*o pe*so*l, Ariès propõe uma
ru*tura co* o i*ag*ná*io produtivista e desenvolv*m*nt*sta, defe*dendo a reconstrução
d*
uma *tic*
d* suficiência * da *ustiça s*cioamb**ntal com*
a*ternativa à *rise civilizatória
c**temporânea.
*ssas perspect*vas, em*ora *ormuladas em contextos eu*o*eus, ab*em e*paço para que
e*per*ências do Sul *lobal, ** esp*c*** as de
* ovo*
i*díge*as e comunidades t*adici*nais,
ganhem relevância na construção de hor*zont*s a*ternativos ao d*senvol*imento *ege*ôn*co.
3.2 Bem Viver e cosm*visõe* indígenas: resistências e alternativa*
O conceito de
Sumak Kawsay (em qu*chua)
** Buen Vivir, incorporado nas
con*tituições do Equador e da Bolívia, representa uma fi*osofia que não *e resu*e à i*eia d*
*us*ent**ilidade *mbiental, *ois redefine as relações entre humanos e natureza em term*s de
reciproc**ade e *quilíbrio (ACO*TA, 2016). Diferentemente do desenv*lvime**o sustentá*el
Re*. FSA, Te**sina, *. 23, n. 6, art. 8, p. 162-178, j*n. 2026 www4.Un*fsanet.com.br/revista
Desenvo***mento em Que**ão: Epistemologias do Sul e *a*inhos *o Bem Viv*r
1*9
que busca mitigar os ef*itos destrutivos do crescimento *em altera* sua
l**ica Bem o
Viver p*opõe uma mudança ontológica, rec*nhecendo a *atureza como sujei*o de direitos e
c*lo**ndo a coletivi*ade no centro da vida s*cial.
O *once*to de B*m Viver, sistematizado p*r *lberto Acosta a parti* das cosmovisões
andinas do Su*ak *awsay, const*tui uma *rítica ao paradigma *es**volvimen*is*a e à lógica
*o cres*imento econômico ilimita*o. *ar* Acost*, o B*m Viver não s* orienta pelo prog**sso
*i*ear ou pelo *omí*io da nature*a, mas pela construção *ole*iva de formas *e vida *a*eadas
na harmonia ent*e se*es humanos,
comunidades e natu*eza. S*a p*oposta q*estiona
a
ce*tralidade
do m*rc*do, r*mpendo com * an*r*poce*trismo moderno e reconhecen*o
a
*atu*eza c*m* sujeit* de direitos. * Bem Viver * um horiz*n*e
ético-pol**ico plural,
enr*izado nos
saberes i*dígenas e a*ert* * diálogos interculturai*, que
prop** redefini*
o
*em-*star pa*a *lém *o consumo e do cr*scimento econômico.
Nesse sentido, apr*xim*-se
das críticas pós-des***olv*ment*stas pois denun*i* o c*ráter excludente e ecologicamente
insusten*á*el da ideia moderna de desen*olvimento. P*ra el*, "o mo*elo de desenvolvimento
d*vasta*or, qu* tem no cr*scime*to econômi*o in**sten*ável se* p*ra*i*ma de M*dern*dade,
*ão pode continuar domi**ndo". (AC*S*A, 2016, p. 40). Ain*a:
O Bem Vi*er, que surge *e visões ut*picas, está presente de div*rsas ma*eir*s na
real*dade d* ai*da vigent* sistema capita*ista - e se nutre da impe*iosa *ecessi*ade
de impulsio*ar uma vida harmônica ent*e os ser** huma*os e *eles com a Nature**:
uma vida centrada na autossufi*iênci* e *a autogestão dos seres h**anos vivendo
*m comunidade. (ACOSTA, 2016, p. 39).
No Brasil, a noç*o guarani d* *eko
porã també* ex**essa esse ideal, v*nculando
o
viv*r *em * ha**on*a esp*rit*al, é*ica e ec*lógi**. Pensador*s *nd*genas como Ail*on *ren*k
(2019), Davi Ko*enawa (KOPENAWA; ALBERT, 20*5)
e
Daniel Mu*duruk* (2019)
reforç*m *ue vive* bem significa res*e*tar a biodiversidad* e *anter v*nculos co* terra, a
pr*serv**do a *aú*e do* e**ssistemas, elemen*os fundamentais p*ra a continui*ade da v*da.
Krenak e* *eu livro "Caminhos para a cu*tura *o Bem *iver" (2*20) de*ine Bem o
viver. Para *l*, "Bem Viver não * *efinitiva*en*e ter uma vida *olg*d*. O Be* *iver p*de
ser a difícil experiência
de m*nter um equil*brio e*t*e *
que nós podemos *bte* *a v*da, da
natureza, e o que nós podemos *evolver" (2020, p.8). E*e nos traz ainda **ement*s para
compr*en*er o que é isso q*e cha*amos de "*osmovisão":
O Suma* Ka*sai é uma expre*são
q** nom*ia um mod* de estar n* Terr*, *m
mo*o de estar no mun*o. Esse modo de e**ar na Terra *em a ver com a cosmovisão
const*tuída *el* vida *as pessoas * de t*dos os outro* seres que co*partilham o ar
com * gente, qu* bebem *gu* *om a gente e que pi*am **ssa t*rra junto com
a
**v. FSA, Teresin* PI, v. 23, n. 6, art. 8, p. 162-178, *un. 202* www4.Uni*sanet.com.br/*evista
A. K. *raújo, C. E. P*nosso
170
ge*te. Es*es *eres *odos, es*a co**tel*ç*o d* seres é qu* con*tituem uma
co*movisão. (KRENAK, 2020, p.6).
Essas cosmovisõe* não s*o resquícios de um passado, mas *onf***ram-se como
al*ernativas de futuro. Ao serem reconhecidas como "movimentos *e resistênc*a" (Pan*sso;
A*a*jo, *024), mostram-se *ambém como *topia* *oncre*as, cap*zes d* orientar novas formas
de p*líti*a e econo**a em tempos de crise cl*máti*a.
Para Alex *at*s (2020), "quem suscita a p*uta das quest*es
é*nico-*aciais enquanto
t*r*itoriais são as colet*vida*es coloniza*as, mas com pos**ionamentos descoloniais,
**col*niais ou co*tra-*oloniai* por meio de *ários discurs*s, *nclusi*e d* sua própria
in*ele*tu*l*da*e negra, ind*gena e qui*om*ola" (*ATTS, 2*20, *. 1*)
A reflexão sobre o Bem Viver ganha den*id**e qu*n*o se considera a c*ntribuiç*o de
aut*res indígenas contemporâneos. André Fernan*o Baniwa (2019) refle*e sobre o Bem Viver
*ntre o povo *a*iwa *o *oroeste Amazôn**o e d*st*ca q*e viver bem
é
u*a co*dição q**
envolv*
*q*ilíbrio espiritual, respeito aos ancestrais e à cole**vidade e
nã* apen*s
às
con*ições materia*s. O Bem Viv*r, n*sse **ntido, é u*a prátic* *otidiana de reciprocidade,
q*e conecta indivíd*os, comunidade e terr*tór*o *m um todo *ntegrado. Segundo ele:
O bem viv** e * viver *em já **istiam na *ultu*a e tradição Ban***, ai*da exis*em *
vão co*tinuar existi*do. O b** viver e o *iver bem sempr*
for** imp*r*ant*s nas
nossas vidas e por isso preci*áva*os *om*artilh** o **u *ntendimento
p ar *
recuperar e valo*i*** e*t* prátic* milena* do povo Baniwa (BANI*A, 2019, p.9).
Para * po*o Baniwa, as noções de bem viver e v*ver bem vão além de co*ceitos
abstrat*s, *as *onstituem re*ultados concreto* de
práticas *otidi*nas. Trata-** de um ideal
que *r*enta * pró*ria organi**ç*o social, per*eando as re*açõ*s *om*nitárias * *nspira*do
ações *ol*tivas, como
as*embleia* e en*ont*os, volta*os à manutenção da
harmon*a e ao
forta*ecimento da v*da *omum. De *al modo, o bem vi*er con*igura-*e c*mo *istem* de vida
q** integra *xperiência*, saberes e formas de orga*iz*ção, arti*uland* dimen*ões
*ulturais,
*spi*ituais e po*íti*as. Es*a
*onc*p**o i*clui *s **nhe*imentos t**ns*itidos
pela tradiçã*
e
*stratég**s de af*rmaçã* *dentitária em conte*tos interc*lturais, co*o a luta por dire*tos * *ela
educação escolar. Assim, o bem viv*r
a**ume um caráter d*nâmic*, de recon*trução
perm*nente, atualizado a cada p**t*ca de conv*vência
e resi*tência. Ele se e*press* na
economia própria, *as
arte*, n* uso
*e plantas medicinais, na *osm*logi*, na convi*ênci*
equ*libr*da com a natureza, *a ética comuni*ária * nos valores e*p*rit*ais que suste*ta*
a
vida coletiva. *o mesm* *e**o, o
bem viver e o vive* bem
correspondem *rinc*pios *
Rev. FSA, Teresina, v. 23, n. 6, *rt. 8, p. *62-178, jun. 2026
www4.Uni*sanet.com.br/revi*t*
Desenvolv*men*o em Qu*stã*: Epistem*logias do *ul e Caminhos do Be* Viver
171
fundantes do s*r
hum*no. Representam a *ssência do
que é vive* em equilíbr*o, *ma forç*
vita* que se ma*ifest* tanto no plan* indivi*ual quan*o no coletivo. Essa *ssên*ia é ta*bém
traduzida
no *onceito de ipe**okhetti, que, de aco*do com Baniwa, é
entendi*o com* amo*
em sentido amplo: uma prática
constante, segura poderosa, marcada p*r boas a*ões e
e
or*e*tada ao fortalecimento *a c*munida*e. O bem v*ver, po*t*nto, uma *
*rática de vid*,
uma heran*a *ncestra* e, sobretudo, um* luta coletiva em defes* *a d*gn*dade e da
conti**idade do povo B*niwa.
Ka*á We*á (2024), p*r sua vez, ao tratar do teko* - lug*r do s*r - *ostr* q*e o *iver
bem está as*ociado ao espaço comunit**io *nquanto t*rritó*io p*dagógico, espi*itual
*
políti*o. O
t*koá, a*ém de um luga* fí*ico, a expe*iê*cia de vi*er em com*nidad*, em é
*armonia com * nat*reza, *u*ado por valores de respeito e so*idariedade.
Em sua obr*, Kak* Werá apresent* uma reflexão que combina o*im*smo crítica, e
propond* horizontes para a c*nstrução de um
fut*r* sustentável
*un*amentado na s*be*oria
ancestr*l *os *nsi*a**nt*s das tr*diçõ*s indígenas. Para autor, espera*ça
*
o
a
diante
*as
*rises sociais e amb***t**s con*e*porâne*s d*pende *a cap*cidade dos po**s e *aç**s d* se
unirem em t*rno d* um
*ropós*to comum: proteger a T*rra e cult*var modos de vi*a que
respeitem se*s ciclos * lim*tes *aturais. Entre os caminhos apontados, a *ducação ocupa papel
central. Wer* defe*d* uma concepç*o integ*al de f*rmaç*o, que vá alé* *o ensino formal e
inco*pore as memóri*s, sabere* e práticas transmi*idos por gerações. Nesse sent*do, apren*e*
s*bre a biodi*ers*dade, *ompreender * importân*i* da preservação do* ecossistema*
e
valo*izar práticas s*stent*ve*s *iv*das **l** povos indígena* torna-se essenc*al. Esco*as
e
univ*r**dades, segundo o autor, dev*riam promover espaços d*
encon*ro *ntre o
conhecimento científico e as sabedorias ancestra*s, *riando po*tes *ntr* tradi*õ*s d*stinta*
e
potencializando uma p*dag*gia v**tada para o *uida*o co* a vi*a.
Outro aspect* crucial de sua anál*s* é a necessidade de reinvent*r a economia,
*bandona*d* *odelo*
base*dos no consumismo e *a deg**dação am***ntal. Em
seu l*gar,
*erá sugere e*periências que pri*rizem o bem-estar coletiv* a preservação da e
n*t*reza,
como a agroecologia, * turismo comuni*ário * o ma*ejo sus*entável
dos rec*rsos. Essas
iniciativas, al** d* r*s*eitarem a te*ra, of***cem a*ternati*as de ge*ação d* rend* enra*z*das
*os t*rritórios, promovendo justiça soc**l e autonomia local. O fort**ecimento
das
comunidades e a articulação de redes de solid*r*eda*e também aparecem como pilare* de
transfor*ação. *ara o a*to*, * mobili*ação soc*al e * ati*ismo são fe*ra*entas fundame**ais
na defesa
do* direitos ligados à terra e à natu*eza. Ele re*ata exemplos de grupos *ue, ao
*e
***anizarem coletiva*ente, con*eguiram *everter p*oc*ssos de e*plor*ção
e assegurar
*
Rev. FSA, Teresina PI, v. 23, n. *, art. 8, p. *62-178, j*n. 2*26
*ww4.Un*fsan*t.com.b*/revista
A. K. Araúj*, C. E. Panosso
*7*
preservação de seu* *erritórios. Essa solidariedade entr* *ife*entes cult*ra* *ortalece
a
re*istênc** ao colonialismo ambienta* e **plia as vo*es que rei*indicam ju*t*ça climática.
Werá realiza um chamado à *ção, convidando cada pess*a a as*umir
res***sabi*idades, tanto individuais qu*nto co*etivas, no cuidado com o planeta. Pequ*nos
gestos cotidiano*, quando p**ticados com consciê*cia
e
persi*tê*cia,
podem gerar impactos
significati*o* * se somar * movime*t** mai* amplos em f*vor d* justiça social e
da
sustenta*ilidade. *ss**, os *aminh*s para a esperança não são con*ebidos com* *er* utopia,
m*s como prática *iária, *ap*z de fecun*a* um futuro *a*s *usto equil*brado para as e
próxima* *era*ões.
Ao refletirmos a par*ir *estas cosm**i*ões, * *o*síve* per*eber q*e *onceitos como
decresc*mento e sim*lic*d*de volunt*ria e*contram res*onância p*ática nos mo*os *e vida
indígenas, mas
também *ão tensi**ados por dimen*õ*s que o
pensamento ocid*ntal
fre**entemente marg*naliza: a espiritualidade, a memóri* e a ancest*alida**. O ideal d*
desenv*lvim*n** se consolidou hi*tori*ame*te c*mo
promessa *n*v*rsal de progresso, m*s
semp** a*relado a uma lógica de exploração da natureza e de re*rodução
da*
des*gualdades
soci*i*. A na**at*v* do des*nvolvimento, longe de ser n*utra, é um projeto político e cul*ural
q*e margina*i** s*be*e* o*tros, classificando-os c**o at*asado* ou insuf*cientes fr*nte
ao
m*delo m*derno-ocident*l.
Portanto, é importante d*stacar a *entra*idade da categori* de territóri* para p*n*ar
alt*rna***as. O territóri* não deve ser *eduzido a u*a base física ou a mer* recurso *rodutiv*;
ele é compreendid* como
espaço identitári* e po*ítico, onde se *nscr*vem relaç*es
*e
p*rt*ncimento e práticas de resi*tência. *osicionan*o o
terri*ório no
cent*o do debate,
p*demos evidenciar que
o*
processos loca*s car*egam poten*ial transfor*ador e *ão po*em
ser vist** apena* como exper*ências p*ri**ricas.
N*ste sent*do, passam*s a evidenciar a* *ráticas de base comu**tária como
iniciativas de econo*ia so*idária, *groecol*gia, fei*as
**munit*rias e experi*n*ia* co**tivas
de produção e co*su*o consci*nte que o*eram como *ormas con*retas de
contestar
o
produtivismo. Tais ex*eriênci**, ainda que localiz*da*, mostram-se *apazes d* redese*har
o
*maginário do de*env**vime*to e *ro*or al**rnativas mais enraiz**as na vida cotidiana. Es*e
enraiza*ento **nect*-se dire**men*e à filosofia do Bem Viver, n** como ideal abstr*to, m*s
co*o ho*izonte que se materializa em
prátic*s de cooper**ão e respeit* à natu**za.
*ub***hamos a imp*rtâ*cia da diversidade *p*stêmica. Isso implic* *eco*hece* * valor*zar as
c*s*ovisões indígenas e tradic**nai*, que oferecem perspectivas integr**s
d* m u*do. A
Re*. FSA, T*r*si**, v. 23, n. 6, art. *, p. 1*2-17*, jun. 20*6
w*w4.Unifsa*e*.com.br/*evis*a
Desenvolvim**to em Ques*ão: Epistem*logias do S*l e Caminhos d* Bem Viv*r
173
incorpor*çã* des*as epistemologias con*titui condi**o fundamental ***a superar
a
colonia*idade do *aber e para con**ruir novo* h*r*z*ntes ma*s *ustos e *u*tentá*eis.
3.* O Território como *spa** Pedag*gico e Políti*o de Reexistência
Dentro da pe*spectiva do Bem Viver, o t*rr*tório não deve ser re*uzido a u**
base
**sica
ou a um me*o recurso *rod*tivo; el* compreendid* com* um es**ç* identit*rio *
e
pol*tico, onde se in*crevem relações de pertenci*ent* e for*as de ex*stência que des*fiam a
lóg*ca
do c*pital. As pr*ticas de ba**
co*u*itár*a, fundame*t*das *m sab*res ance*t*ais,
fu*cio*am como espaços de "reex*stência", *ermo que indica pro*essos
a t i *o* de
criação de
nov** mod*s de *ida que pro*uze* alter*ativas concreta* ao modelo hegemônico.
A contrib*ição de Kaká Werá é *entral para essa compreensão ao tratar do tekoá o
"*ugar
*o ser" co*o um territór*o q*e é, simultaneament*, pedag*gico, espiritual
e
polí**co. Pa*a Werá, o viver be* está intrinse*a*ente as*ociado à
experiên*ia d* viver
em
comunida*e e em ha*monia com a natureza. Nessa mesma li*ha, Alex Ratts ***taca que s*o
ju*tamente as c*letividades coloni*a**s
que, ao *eivin**carem se*s territó*ios, s**ten*am
posici*na**ntos
decoloniais ou c*ntra*oloniais, utilizando *eus disc*rsos e v*vên*ias para
confrontar * *eg*monia desenvolvimentista.
Essa dimensão educativa do territór*o permite que o *em Viver se materializ* como
uma pr*tica cotidiana *e re*ip*ocidade que *onecta indivíduos, comunidade e ecossistema e*
um todo integrado. Diante da emergê**ia climática, e**es t**ri*órios d* resistência tor*am-*e
ess**ci*is, pois pre*ervam te**olog*as a*c*s*rai* e é*icas d* cu*d*do que *ferecem pistas para
futuros sust*ntáveis for* do para*igma do cres*imento il*mitado. A
transição de uma
soc*ed*de orientada p*lo c*esc*m*nt* *ara uma b*se*da no Bem V*ver enf*enta o de*afio
crítico *a relaçã*
com o Est*d* as estrutura* institucionai*. Exist* *m e
risco in*rente d*
cooptação ou esvaziament* d*s *onceit*s origina*s
do Bem Viver quand* *pr*priad*s p*r
*iscursos
que bus*am *penas **tiga* os *feitos *o
desenvolv*men** sem alterar sua ló*ica
fundamen*al. Pa*a su**rar esse imp*sse, é nec*s*ár*a uma tra*sf*r*ação pr*funda na* formas
*e pe*sar e or*anizar a vida, reconhecendo que a c*ise *mbiental t*mbém *nv*l*e uma cr*s*
de *arad*gma.
A p*oposta
de Boaventura de Sousa Santos (2009) sobre a "ecologia d* s*beres"
*ferece u* caminho par* essa tra*sformação, pois promove o diál**o entre * conhec*mento
técn***-c*entífi*o e as sabedo*ias tr*dicionais, sil*nciadas p*la colonialidade. De a*ordo com
e*e:
*ev. FSA, Teresina PI, v. 23, n. 6, a*t. 8, p. 162-178, *un. 20*6 www4.Unifsanet.com.br/re*ista
*. K. Ar*új*, C. E. Panosso
174
Como ecologia de saberes, o p*nsament*
*ós-*bissal tem por pr*missa * ideia da
in*sgotá*e* diversidade epist*moló*ica do mu*do, o r*con*ecimento da ex**tên*ia
*e um* plura*idad* de *orm*s de c*nhecimento além do co**ecimento científico.
*sso im*lica *enunciar a **alquer e*ist*m**ogia *eral. Exis*e* e* *odo o m*ndo
n** só d*ver*as
formas de conh*cimento
d* matéri*, d* socied*de, d* vida e do
*s*írito, mas ta**ém muitos * d*ve*sos *onceitos e critérios sobre o *u* co*ta *omo
co*hecimen*o (Sa*tos, 2009, p.85-86).
No *ampo das *olítica* públicas, iss* exig* qu* o Estado deixe de *mpor modelos
univ**sai* de progresso e passe a criar *on**ções *ara o fortalecimento da a*ton**ia dos
povos e das e*onomias locais. A *plicação prát*ca dos prin*ípios *e Serg* *atouche c*mo
relocalizar, *edi*tribuir e *eav**iar ** necessidades for*ece um r*tei*o para es*a
reor*a*ização ****al baseada na s*ficiênc*a e na *o*vivial**ade. Ao *dotar um* ética que
reconheça a natureza como sujei*o de dir*ito*, to**a-*e possível constru*r *orizontes onde
o
bem-estar seja medido pelo equilíbrio coletivo e pela *anut*n*ã* da teia ** v*da, e não p*lo
*cú*u*o *aterial.
3.4 *aberes ancestrais, emergência climática e o hori*onte do *o* Viver
A emergência clim*tica, marcada *ela **t*nsificaçã* de s*cas, enchente*, *ueim*d*s e
perda de biodi**r*i*ade,
e*idencia o
esgotam*nto do *odelo civili*ató*io basea*o
na
exp*oração ili*itada d* naturez*. Nesse cenário, os conheciment*s e te*nologias anc*s**ais
de*de sistemas de ma*ejo floresta* até práticas agroecológ*cas *omunitárias ofe*ece*
pi*tas vali*sas para pensar *uturos su*te*táv*is.
A cosmo*og*a i*dígena não separa natu*eza * cult*ra, mas c*m*reende vida em a
interdepe*dência. C*mu*idad*s *uilombolas des*nvolvera* estratégias d* conv*vência com o
Cerrado *
os rios, a parti* de uma
lógic* de cuid*do e coletividad*. Esses m*dos d* vida
res*at*m o qu* Boaventura d* **usa Santos (2*10) den*mina ep*stemologi*s do Sul, saberes
sile*ciad*s pel* *oloniali*ade, m*s fundamentais
para rep*nsa* os horizo*t*s
da
mo*ern*d*de, * que o a*tor denomina "eco*o*ia de saberes". Essa *erspe*tiva se conecta
diretam*nte *om o Bem Vi*er, na m*dida
em
*ue ambos qu*stionam o *aradigma
*ndividualis*a e produtivista
da moderni*ade ocid*nt*l e valorizam *oncepções de
v* da
baseadas na coletividade, na reciprocidade, n* centralidade da vida e na r*lação ética
com
a
naturez*. Assim, o Bem Viver pode ser *ompreendido c*m* uma express*o **ática e política
das E*istemol*gias
do Sul, pois e*e*ge
d* *osmovis*es i*dígenas * populares que afir*am
outros mod*s
d* exi**ir,
c*n*e*e* * *rganizar a
so**edade, *e*afiando a
idei* de prog*esso
*nico e abri*d* ca**n*os para fo*mas mais j*s*a* e sus*entá*ei* de con*ivênci* soci**.
Rev. *SA, Teresina, v. 23, n. 6, **t. *, p. 1**-178, jun. 2026 *ww*.Uni**an**.com.br/revista
D*senvolvimen*o *m Q*estã*: Ep*ste*ologias do Sul e *amin*os do B*m *i*er
*75
Nesse sen*ido, a valorização dos sabere* anc*strais não dev* ser c*mpreendida apenas
como um gesto *e reco*hecimen*o c*ltural, mas como uma inf*ex*o epistemológica e p*lítica
neces*ária diante da crise ci*ilizat*r*a contemporânea. Tra*a-se de desloc*r * luga* de
produção do *onheci**nto, q*es*ionando a *eg*moni* d*
uma *ac*onalidade técn*c*-
ci**tífica q**
his**ricamente se c*nstitui* em **osição * frequ*nteme*te em negação
aos saberes tradicionais.
A emergência climát*ca *mpõ*, **rtant*, além de soluções té*n**as, um*
t*a*sforma*ão p*ofunda d*s formas de pensar, habita* e *r*an*zar a vida. C*mo apontam
diversos a**ore* d* camp* pós-d*senvol*iment*sta, não se trata apenas de c*r*igir ex*esso* do
sistema, *as d* que*tio*ar suas bases *nt*lóg*cas, marca*as pela *ep*ração entre na*ureza e
socieda*e, sujeito e ob**to, humano e nã* humano.
Nessa
direção, as cosmovisões indígenas ofe**cem contribuições fundame*tais *o
p*opor uma o*tologia relaci*nal, na qual a *ida se organi*a a partir da interdependênc*a entre
t*dos o* seres. Essa perspectiv* desloca o huma** do centro * int**duz uma éti** do cuidado
que abra*ge as relaçõ*s soc*ais, o* vínc*los com o terr*t*r*o, os *ios, *s florestas e o* seres
*spirituai*.
Nesse sentid*, o Bem Vi*er se apresenta *omo cr**ica ao desenvolvimento, e c**o
h*rizont* al*ernat*vo de reorganização d* vida social.
Diferentem*nte *as ab*rdagen*
reformistas, que buscam c*mp*t*b*lizar crescimento econômico e sust*ntab*l*dade, o Be*
Vive* propõe uma ruptura
c*m a lógi*a do crescimento como *i* em ** mesmo,
re*osicionando * bem-estar em term** de equilíbrio, suf**i*ncia e coletividade.
Essa perspectiva *anha espec*al relevância *uando observad* a p*rtir das ex*eriênci*s
terr*toriais. *r**ica* como agroecologi*, eco*omia solidária, **iras comunitárias e inici*tiv**
*ultur*i* revelam que o Bem Vi*er não * apena* uma abstração teórica, mas uma realidade
em construção. Essas experiên**as demonstram que * p*ssível pro*uzir, consumir e *iv*r de
*or*a distinta, a*ticuland* autonomi* local e for*alec*mento comunitá*io.
Tais iniciativas podem ser compreendid*s c*mo f*rmas de reexistên*ia, c**cei*o que
ultrapas*a a id*ia de resistênc*a
ao in*icar processos ativos d* *riaç*o de
no*os m odos d*
vida. *esse se*tido, elas não apenas
s e o**e m
ao m*delo hegemônico, mas *roduze*
alte*nativa* concretas, ainda que localizadas * frequentemente invis*bil*zada* pelas narr*tivas
*ominantes.
Entretant*, é necessário rec**hec** *s limites e desafios dessas experiên*ias. Inseridas
*m um contex*o mai* amplo de desiguald*des estr*turais, ela* e*fre*tam d*ficuldades
relac*on*das
ao *cesso a políticas
púb*icas, fi*ancia*en*o,
reco*hecimento inst*t*ciona*
e
Rev. FSA, *eresi*a PI, v. 23, n. 6, art. 8, *. 162-178, j**. 202*
www4.Unifsanet.com.br/*evista
A. K. Araújo, *. E. Panosso
**6
dis*utas te**ito*iai*. Além disso, ** o risco *e coopta**o ou es*aziam**to de seus *entidos
orig*nais quan*o apr**riadas por d*s*u*sos h*gem*nicos, como ocorre f*equentemente com *
conceito de sus*entabilidade. Diante disso, torna-se fundame*t*l pensar o papel do Esta*o *
das políticas públicas na promoção d*ssas *l**rna*i*a*. Ma*s d* qu* incorporar o discurs* d*
Be* Vive* de forma retórica, trata-se de criar con*iç*es concretas para o fortaleciment* das
econ**ias locais, da **tonomia do* p*vos e
da *roteção do* ter*itórios. Iss* inclui
o
*econ**cimento do* direi*os terri*oria*s, o *poio *
prát*cas
agroec*lógicas, *
*alori*ação da
educ*ção in*e*cultural e o incenti*o a *ormas d* organ*zação coleti*a.
*or fim, é importan** de*t*car que * ho*i*onte do B*m Viver não deve ser
ro*antizado. Ele nã* *e*res**t* um r*torno * um pass**o idealizado, nem uma sol*ção
imediata *ar* as crises contemporâneas. *rata-se, an*es, *e um process* em *ons*rução,
m*rcado *or tensões, contradiç*es e *isp*tas. No e*tant*, é justamen*e nes** carát*r abert* e
dinâ*ico q*e *eside sua *ot*ncia, ao *ferece* pistas para a construção de futuros *a*s j**t*s,
plur*is e sus*entáveis.
* CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise desenv*lvida ao lon*o *e*te a*tigo busc*u proble**tizar o paradigma do
desenvolv*mento mod*rn*, evidenci*ndo seus limites h*st*r*co*, sociais eco*óg**o*, e
bem
como suas i*plicaçõe* na reprod*ção de desigualdad*s * na inten**fic*ção da c*ise am*ie*t**.
Ao re*isitar contribuições te**ica* do campo crítico com* o *ec*esciment* e
a
simplic*d*de voluntária e articulá-*as com a* cosmovisões indígenas latino-ame*icana*,
especialmente o Bem Viv*r, *oi p*ssível
delinea* horizontes alter*ativos ao *odelo
h**emônico.
O Be* Vive* em*rge, nesse conte*to, além do seu aspec*o *oncei*ual, como projeto
ético-p*lítico que p*opõe a reconfigu*a*ã* das rela**es entre soc*edade e natureza, indi*íduo
e coleti*ida*e, econo*ia e vida. *o romper c*m a l*gic* d* cresci*en*o ilimita*o e com o
imagi*ári* do progress* li*ear, abre *s*aç* para a cons*rução de fo*m*s
de existência
baseadas *a sufi*iên*ia e r*ciprocidade. A articul**ã* dessas perspectiva* p*rm*ti* evidenciar
que tais *lte*nativas não se restringe* a* plano teórico, m*s *e mate*ializam em práticas
concretas,
desen*olvida* por *omunidades
indígenas, **i**mb*las e iniciativas
urba**s
e
rur*is. Es*as expe*iênc*as, ai*da qu* frequent*mente margina*izadas, revelam a possibil*d*de
de construir mod*s de vida mais susten*áveis e *ustos, *nrai*ad*s nos ter*it*r*os e nas rel*çõ*s
*omunitár*a*.
R*v. FSA, Teresina, v. 23, n. 6, art. 8, p. 162-*78, jun. **26 www4.U*ifsanet.com.br/rev**t*
Desenvol**m*nt* em Questão: Epistemolo*ia* do S*l e Caminhos d* B** V*ver
177
Entr**anto, a c*n*olidação dessas alte*nativas depende do en*re*ta*ento de d*sa*ios
*strut*r*is,
que en*olve* desde a disputa po* reconhe*im*nto e direito* te*ritori*is até
a
ne*essida*e de tra*sfo*mação das políticas púb*icas das i*stituições. *esse sentido, e
a
v*loriza*ã* *as epis*emologias do *** e a *ro*oção de uma eco*ogi* de *aberes
constituem
co*dições fundamentai* para a constru*ão *e novos
hor*zontes civil*zatórios. Dia*te *a
emergência c*im*tica e d** m*ltiplas crises que at*avessam * mun*o **ntemporâneo, torna-se
urgente *ão a*en*s repensar * desenvolvimento, m*s imaginar e constr*ir outras formas de
viv*r. O Bem Viver,
por articu*ar *abe*es ancestrais, práticas ter*itoriais e perspectivas
crí*icas, oferece pis**s importantes p*** esse processo, convidando-nos a plura*izar o futuro e
a reconhecer que outros *undos não apenas *ão possívei*, ma* já e*tão em constr*ção.
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*omo Referenciar este Artigo, *o*forme ABNT:
ARAÚJO, A. *; P*NO*SO, C. E. D*senvolvimento em Questã*: Epistemologias do *u* e Cam*n*os
do Bem Viver. *ev. FSA, Te*esina, v. *3, n. 6, ar*. 8, *. 162-178, jun. 202*.
Co*t*ibui*ão dos Autores
A. *. Ara*jo
C. E. Panoss*
1) conce*ç*o e plan*ja*en*o.
X
X
2) análi*e * inter*r*t*ção d*s dad*s.
X
X
3) e*abor*ção do rascunho *u na r*vis*o crític* do c*nteúd*.
X
X
4) p*rti**pação na ap*o*ação da versão final do m*nuscrito.
X
X
R**. FSA, Teres*na, v. 23, n. 6, ar*. 8, p. *62-178, jun. 2026
*w*4.Uni*san*t.com.br/revist*
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