www4.fsane*.com.br/revista Rev. FSA, Teresin*, v. 12, n. 4, art. 1*, p. 191-206, jul./ago. 2015 I*S* I**resso: 1806-6356 IS*N *le*rônico: 2317-298* http://dx.do*.org/10.*2819/2015.12.4.12 A Educação Popular Na Saúd*: Democr*tizando As Práticas Em Saúde The *o*ular Educ*ti*n In Th* *ealth: Democra**zing The Pra*tices In Hea*th Na*i* Lara Juni*r Doutorado e* *sico*ogia Soci*l pe*a Pont*f*ca Univ*rsidade de São Paulo *ro*essor da Univer***ade do Val* do Rio dos Sinos *mail: nadi*l@unisinos.c*m.br Maristela Re*pe* Ebert Doutorad* em Ciênci*s S*ciais pe** Univer*id*de do Vale do *i* *os Sinos *mail: mebert@emat*r.*che.br End*reço: Nadir L*ra Junior Unisino* - Av. U*isinos, 950 - Ba*rro *ri*to Re* - CEP: 93.022-*00. *n*ereço: Mar*ste*a Rempel Ebert *nisinos - Av. Unisinos, 950 - Bairro *risto Rei - CEP: 93.*2*-0*0. *di*ora-c*efe: **a. Marlene Araújo *e *arva*ho/Faculda*e Santo A**s*inho Artigo recebido em *7/05/20*5. *ltima ver**o *ece*ida em 03/*6/2015. Apro**do em 04/0*/2015. Av*liado pel* sist*ma Triple *eview: a) D*sk Rev*ew pela Ed**ora-Chefe; * b) Double Blind *evi*w (*valiação cega por do*s *valiad*res da á**a). Revi*ão: Gramatical, Normat*va e de **rmatação. N. L. Junior, M. R. Ebe*t 192 RES*MO O objetivo deste artig* é refl*t*r sobre os *esafios p*sto* p*ra a *rática de edu*ação popular em saúde *um contex*o de *e*emoni* do modelo biomédico *as ações e p*lí**cas púb*icas d* saúde, *e* como *eu potencial demo*rat*zador e emancip*dor. Para tanto es*a **fl*xão foi di*idida em trê* mom*ntos: inicia*mente se re*gatou história e os princípi*s d* ed*cação a popular, retomando es*ecial*ent* as contribuições de Paulo *reire; na se*üên*ia, se reto*ou as críticas de Michel Fouca*lt sobre o **delo biomédico que caracteri*a * *aú*e modern* * os d*sa*i** para conc*etiza* uma educ*ção popular *o *ampo da *aúde baseada em princípi*s *e*ocráticos, é*icos e comprome*i** c*m ** transformaç*es sociais. Por últ*mo, *e ret*mou o mov*mento da e*ucação *opular em saúde, em especial, a partir da* *ontribuições p*ra esse campo, assim como a* p*ssibili*ades/limi*e* q*e se delineiam no horizonte do *US com a i*s*itucionalização da *olític* N*cional de Educação Popul*r em *aúde - PNEPS. *AL*VRAS-CHAVE: *ducação em *aúde. Sa*d*. Po**r (Ps*c*l**ia). Part*cip*ç** Soc*al. P*r*icip*ção n*s Decisões. *B**RACT Th* aim of *his art**l* is to think *bout the challenges put f*r the practice of popular educatio* in health in a context of heg*mony of the model biomedical abou* the ac*ions and public polic*es of heal*h, as *ell as *i* pote*tial of the democracy a** ema*cipation. F*r so much this *eflection was divided in three moment*: *nitially there we*e rescued the histor* and th* beginnings of the *opular education, retaking sp*cially *he c*ntributions by Paulo F*eire; in *he sequenc*, the critic*sm of *iche* Fouca*lt was retaken on the mo*el biomedical what *ha*acterizes th* modern health and th* challenges *o make a popula* education rea* in the field of the h**lth based on d*mocratic beg*nnings, ethics and com*r*mised *i*h the social transfor*ations. Fo* last, there was ret*ken *h* *ovement of the p*pular *ducation *n healt*, specially, from the con*ri*u*ion* for this f*eld, as well as the *os*ibil*ties / limits *ha* outl*ne in the *or*zon of the SUS wi** the inst**utionalizati*n *f the da Nat*ona* Po**tics of Popular E*u*ation in Health - "PNEPS". Key*ords: Health *ducation. Hea*th. Power (*sychology). *oc*al P*rtici*ation. Manage*ent Qu*lity Circles. Rev. FS*, Tere*in*, v. 12, *. 4, art. 12, p. 191-*06, jul./a*o. 201* w*w4.fsanet.co*.b*/re*i*ta A E*ucação Po*ular Na Sa*de 193 1 *NTRODUÇÃ* Primeiramente, record*mos que a Ed*cação Po*ular é a expressão de um **ocesso educ*tivo dos *ovos latino-americanos que se desen*olveu ao lo*go dos **ti*os 40 anos e cuj*s exper***cias t*m sido si*tematizadas por v*rios *e*sadore*: P*ul* Fre*re é u* d*s principais expoentes. É necess*rio também ass**alar que as exper*ências de Ed*caç*o Popu**r *e desenvol*eram para*elamente ao cur*íc*lo engessado da Escola For*al a*relada *sta às ideol*gias do Est**o que, po* sua vez, c*nserv*m os interesses das classes dom*nante* (*ORTELLA, 200*). Nesse *e***d*, a *ráti*a *ducat*va na Educaç*o Po*ul** é uma estra*égia para o processo de conscie*ti*aç*o dos envolvidos no sentido d* propiciar-l*es instrumentos para *m* le*tur* crítica da *ea*ida*e * *ara o exercíci* p*eno da cidadania, obj*tivando inclusive a*im*-l*s a part*cip*r dos movi**nt*s * lutas soci*i* e políticas. O obje*ivo *****ipal da *ducação Popular é dese*volver a capacidade de o educando conh**er os mecan**m*s repro*utores d* de*igu*l**de e da *n*ustiça **cial, bem co*o seus direitos e deve*es de cidad**, de *o*o qu* possa intervir na *ealidade *e man*ira efetiva, **zendo com qu* a sociedade *eja mais hu*ana, *us*a * ma*s democrática. E**e *rocesso també* a**ilia o e*ucan*o a p*nsar so*re su** q*estões afe**vas e e**stenciais, pois, no co*tato co* as *utras pes*oas e consigo me*mo, descobr* caracterís*i*as * pos*ibilida*es de *ompartilhar **n**s e proj*tos de vida. As idéi*s da ed*caç*o popular c*ítica * l*be**ador* de Paulo Freire influ*nci*ram o campo da s*ú*e. A p*rtir **s anos 70, ai*da em p**na di**dura mil*t*r, i*ú*eros profissionais *a saúde comprome**d*s com * lu*a pe*a r*forma sanit*ri* in*orpor*m em ***s ações c*tidianas, e* esp*cial na periferia da capital paulista, as propo*tas d* educação popular, buscando p*tencializar os movim*ntos sociais e aproxi*ar os sab*res acadêmicos co* os **beres p*p*lares (*EDROSA, *006). Este *ov*m*n*o vis*va ampli*r a p*r*icip*ção das comunida*es na luta pelo *irei** saúd* *o*o um* * políti*a *ública *niversal, mas tam*ém *fir*ar *ma no*a c*ncepção de saúde, pautada em refe*enc**i* mais democráti*o* de e auton**ia para os sujeit*s. As lutas so*iais iniciadas **ste per*od* i*flue*ciaram * su*g*mento d* Sistema Único de S*úde - SUS * *artir d* *onst*tuição Fed*r*l de 1988, *a qual a saú*e passa a s*r a*irmada co*o um dire*to un*v*r*al, basea*o nos princ*pios *a integralidade, equidade, par*icipação so*ia*, ent*e ou*ros. Nessa *erspe*tiva, * proposta de saúde do SUS exige uma p*d*gogia que fun*amente as prátic*s dos t**balh*dores que atuam *ess* servi**, assim como dos suj*ito* Rev. FSA, **resina, v. 12, n. *, art. 12, p. 191-*06, jul./ago. 2015 *w*4.fsanet.com.*r/re*i**a N. L. Juni*r, M. R. Ebert 194 que e*tão envolv*dos n*ss* pro*esso, seja com* usu**io o* cidadão. Foi nes*e conte*to de *artic*p**ão popular e de necessidade de uma pedagogi* que funda*entasse * auxi*iasse na i*p*ant*ção do SUS *ue a edu*aç*o pop**ar e* saúde surge *omo u* im**rtant* i*strument* na *onstrução mais democrática e participativa ** á*ea da saúd*. P*rtan*o, o presente texto s* propõe a refl*tir s*b*e as **t*ncialidades da **uc*ção popul** q*an*o *ncorpor*das *a* prá*icas *e saúde e *o mesm* tempo as contradiçõe* e limites num c*ntexto d* predomínio d* saber cie*tífico d* medici**, onde os usuário* do e *US têm pouc*s espaços de part*cipação efe*ivas t**to nas decisões das políticas (seja nos conselhos de saú** e em o*tro* esp*ços de participação social), q*anto n* acesso a diferentes praticas cultu*ais *e p*omo*ão d* saúde no *otidiano de suas **stit***ões. Des*e modo, inicia**en*e será retom*do alguns co*ceitos de Paulo *reire consider*dos releva*tes p*ra a consolida*ão da educ*ção *opular em sa*de. Igualme*te confrontare*os as rel*çõe* de poder no campo da s*úde que *e c**fi*uram co*o o*stáculos par* a ef*tivação dos princí**os da educação popul*r, a *artir do diálogo com a Te*ria de *oucault (*97*), no que diz resp*it* ao modo como se estruturam as rel*ções d* pod*r * subm**são do* s*je*tos. Para est* *ensador, o discurso ci*nt*fico e a ciência (em ger*l), *omam o lugar do "saber a**o*u*o" das reli**ões (do *assado), tornan*o-s* a legiti*adora e reg*lado*a dos comportamentos nas sociedades modernas. A seguir, *er* bali*ada a p*r*ir das co*tr*buições de Pedros* (2006) e D**tas, Rezende e Ped*o*a (2009), *ue são pesqui*adores e at*vista* da educa*ão popular em saúd*, com* e*te *odo de produ*i* saúde tr*z implícito capacida*e de promover novas rela*õe* soc*ai* a baseadas *m princíp*os de*ocráticos, éticos, sol*dár*os e comprometidos *om * transfor*aç*o social. Ainda, serão abord*das as *antagens de transformar esta prop*sta da educaçã* p*pu*ar em saúde advin*a d* moviment*s p*pulares e trab*lhad**e* *a saúde em uma política públ*ca efetivada. 2 R*FERENCIAL TEORICO 2.1 a contrib*iç*o de Paul* Freire para a educação popular e* saúde P*ulo *reire i**cio* suas pri*e*ras exp*ri*nci*s como educ*dor em 1*4* co* os t*abalhadores pob*es em sua terra n*tal em Pernambuco. A partir *e*se c*ntato, e*te f*i sis*ematiza*do suas e*p*riências e, no início dos anos 60, a*re*e*tou *ma proposta ped*gógica que, al*m d* a*fa*eti*ar, p**it*zava os ed*can*os e os ensinava a le* e escrever a Rev. FSA, Tere**na, v. 12, n. 4, a*t. 12, p. 191-206, ju*./ago. ***5 www4.fs*ne*.com.br/revista A Edu*ação Po*ular Na Saú*e 19* pró*ri* histór*a. A pr*posta político-pe*agógica de Freire co*eçou a s* expan*ir e tornou-se conheci*a nacionalmente. Com o Golpe M*litar de 1*64, esta foi consid*rada uma amea*a à s*gur*nça *acional, e P**lo Freire foi p*eso e exilado. Trabalhou *m vários pa**es e *screveu *iversos li*ro* sintet*zando s*as idéias e experiên*ias de alfabeti*ação c*m ** po*ula*ões m**s pobres e excluí*as. R**ornou ao Brasil em 1979, tornando-se pr*fessor da PUC/SP e as*umiu o cargo *e Secretár*o Municipal d* S*úde na adm*nist**ção pe*i*ta de L*iza Erundina em São Paul*. D*n*** *s obr*s escritas por ele, d*stacam*s a "*edagogia do Oprimi*o", a "Ed*c*ção como prática da Liber*ad*" e a "Pedag*gi* *a Au*onomia". Nelas, Freire del*neia *u* epistemologia funda*entad* em su*s experiênc*a* de **da, na *ial*tica marxista e também nos referencia*s da T*ologia da Lib*rtaçã*. Segundo Paulo **ei*e (1987) a educaç*o não é neutra, su* natureza é política. Ela pod* cont**buir para a transformação da *e*lid*de ou, a* contrário, para a manute*ção das de*igualdades e injus**ças de noss* sociedade de classes. Na perspectiva *a pedagogia freiriana, o co*hecimento não pode ser e*tático, porque, se o for, n*o há es*aço para a con*r*d***o, e o *ens*mento se *imitaria a reproduzir e não a criar novas idéias e *ef*exões na interação com * mu*do. Se for introduzido o movim**to na re****o *a pess*a *om o *eu meio, evita-** a cristal*zação d*s posiç*es *pressora vers*s oprimido, e vislumbra-s* a poss*bi*idade da transfo*mação, da *e*oluçã*. Por revolução F*eire (2000) entende o reconhecimento d* dign*dade *os pob*es, p*is não se faz *udança d* re*lidade para os pobre*, mas com os pobres. A revolu*ão v**a minimizar * sof*imen*o e * d*s*gua*d*de - é processo *e humanizaçã*. * parti* des** concepção d* Freire, po*emos verificar *ue a pro*osta d* educação popular é profund* e **igente, se *icarm*s na supe*fici*l*dade não se faz educação popu*ar * **m uma reprodução do m*delo tradicional co* u*a roupag*m "popul*r". Dian*e ** s s *, a educaç*o popul*r em saúde, tam*ém nã* **de ser v*sta de maneira supe*ficial, p*is isso exige do* traba*h**ores comprometi*os com *s*a pedagogia se a*rirem à* diferent*s práticas cultur*is, dialogarem com os divers*s sujeitos de modo crítico e, *ue num processo *ialéti*o apont* alt*rnativas para * supe*a*ão da doe*ça e para o pleno usufr*t* da saúd*. Port*nt*, não basta respei*armos as diferença* se for *antida a *ua*idade: a ciência de um la*o como po*tado*a *o verdad*iro co*hec*mento; e na outra ponta, o* s*be*es popula*es. Po*s será *penas uma fachada que não *om*e com as rela*õ*s de p*der est*ut*rad*s. Rev. FSA, Teresina, v. *2, n. 4, art. 12, p. 191-206, *ul./ago. 2015 www*.fsanet.com.br/rev*sta N. L. Junior, M. *. E*ert 196 Trata-se *e um process* lib*rtador que *ress**õe muito mais que a alfabe*ização (ou t*ansmi**ão de *écnicas), é um pr*cesso de forma*ão da consciência crítica. Na Educ*ção Libertador*, não há dicotomia - nós e eles, educador e educand*, *sco** e mundo, pois a educação * co**truí*a dialeticamente. A alfabetização não é um jogo de palavras, é a consci*nc*a *efl*xiva da cultur*, a *econstru*ão c*ítica do mundo humano, a abertura d* novos caminhos, o projeto hist*rico d* u* m*ndo comum, a *ra*ura de dizer a sua pa*avra (FREIRE, **00, p.20). Nu*a *ociedade e* que a* *essoas oprimidas in*r*jetam a figura do opresso* e, em *uitos casos, reproduzem a l*gica *a explo*ação, o p*pel da educação é libertá-las dessa figura introjetada para que possa* se apropriar de sua *istóri*, da *onsci*n**a d* si e *e sua classe social (FREIRE, 2000). Ne*sa pe*spectiva, o *onh*ci*e*to vem acompanhado da consci*nci* d* si *esmo ** su* relação com o *undo * *ambém d*s relaçõ*s q*e se es*abelecem nele: portant*, c**hecer é apropria*-se d* realidade *a qual se está inserido e t*an*fo*má-la. O conhecimento se*ve para li*ertar as pe*soas da opressão (que as torna ob*etos *estin*dos * exploração d* *ais- vali*), tor*ando-as humani*adas. Por isso Fr*ire (2000) insi*te na hu*anizaçã*, *u seja, que *odos os trabalhador*s sej*m t*a*ados *m s*a condição humana * não lim**ados * objeto* *os patrões para *ue, *e ap*ov*itan*o da *gno*ância, aum*nte* seus lucros em *etr*mento da saúde *o t*abalhador, vend*da em form* de mais-valia. *o *ampo da saúde, t*nto os profissiona*s (trab*lhadores) quant* àqueles que acessam * *US intr*jeta**m uma visão *e saú*e-do*nça qu* deslegiti*ou p*áti*as milenares, coloca*d* nes*e lu**r um d*sc*rso *édico-cent*ado *ue os c**duzem * uma posição *e obje*os su*m**sos às técnicas e *** conh*cimentos **entíficos - *m corpo a ser analis*do e nã* um *e* humano. *e**os discur*os médico* são intern*lizados e naturalizados na á*ea da s*úde que re**rçam a *ub*issão das pessoas, d*sleg*tima*do assim que e*as *róprias sejam ges*oras de seu corpo, d**egando ao médico um *aber sob*e si me*mo. A intro*ução massiva de *edicamentos le**u a uma grande d*pend*n**a da *o*i**ade *m re***ão aos grandes co*glomerados bioquímico*, *anindo boa part* de práticas t*adiciona*s (como c*ás, benzedei*as...), tendo como conseqüênc*a, as comunida**s vulneráveis e cada ve* mais dependentes do pode* púb**co (sem f*lar no aumento dos cu*tos). "Ao colonizar uma cul*ura Rev. FSA, Tere*ina, *. 12, n. 4, ar*. 12, p. 191-206, jul./a*o. **15 www4.fsan*t.com.br/revista A Educ*ção Popular Na Saúde 197 tradicional, a civilizaç*o *oderna transfo*ma a experiên**a *a d*r. Ret**a do sofrimento seu si*ni*icado íntimo e pessoal e tr*nsfo*ma-o em probl*ma técn*c*" (ILLICH, 1981, p. 33). Dessa maneira * so*rimento não é *ma *o*traparti*a na relação d* *ujeit* *o* o meio. Essa do* decorrente da existênci* p*ssa *er med**ada, de modo que tristeza, sentim*nto * a genu*name*te hum**o, *assa a ser invariavelmente interpret*d* como doen*a (depr*s*ão), a qual *e*á tratada *bviamente p*r antidep*essivos f*rnecidos pela indúst*ia f****cológic*. As culturas p*é-in*us*riais forneciam elem*ntos c**turais para as pessoas supor*arem a dor da existência. A **r da exi*tência ** i*a*gura na prime*ra respi*ação d* b*bê *o *ascer. Po**anto, é a profiss*o m*dica que *ecidem quais são as dores aut*nti*as, qua*s *s q*e são imaginadas * s*muladas. E o *ais incrível * *ue os mé*icos, em g***l, fazem tudo i*s* *em p**gun*ar nada ao "pacien*e" - (a*uele que tem *aciência). Ness* lógica, o indivíduo modern* *ransfe*e *ara *s m*dicamentos o poder de livrá-l* da dor de existir que se acentuam *o* a crise da* Instituiç*es promotoras *e sentido, ta** como a família, a *greja e o Estado. A* pe*soas *emem a dor, porque a dor no discu*s* médico é entendida, muitas vezes, como u* press*gio da morte. Co*o ** instituições *ão *roduz** m*is sentid* para a mo*te, a indúst*ia farm**êut*c*, apoiada pelo *ode* bi*médico, é quem tem o p**er de decidir qual *or anuncia a mort* e qual dor dev* ser ane*te*iada. Romper *om es*a lógica dominad*ra *equer dos profissionais da s*úde sab*r ouvir os "pacientes", pois pela linguagem as pe*so*s e*truturam o sentido e a intensidade da dor. Pe*a linguage* se expr**sa a relação da dor corpora* in*estida de valo*e* mora*s q*e pode vir * causar * dor mais agud* o* não. Nesse **ntid*, na perspec*iva da educ*ç*o popu*ar d* Freire (2000, 1995), * sujeito de*e ser consul*ado *obre sua saúde, no processo de conhecimen*o, ao *ual já fizemos referência é a consciência cr*tica que r*c*loca a pe*s*a no uso p*eno de sua hum*nidade; é a c**acidade *e * suje*to ler e enten*er o mundo no q*al vive. A *onsciência crítica também *eflexão, pensar a t*ans*or*ação da sociedade é e *rgumen*ar *om *ri*icidade a respeito de sua pró*r*a s*úde. Vale *estacar que a força da c*nsc*ênc*a *stá no diálog* e n*o no disc*rso imp**itivo so*r* a liberdade. * ação da pedagogia do o**imido visa à *evolução. A edu*ação é *ma e*tratégia para ampliar a ca*a*idade *uma*a de pensar e as*im f*rmar pessoas *rític** cap*z** *e agi* e tr*n*form*r a sociedade, pois, *aso co*trário, mesmo que saibamos ler e escrever com *erfe*çã* poderemos ser c*nsider*dos ana*fab*to* políticos. Se começa*os a co*siderar agora o problema da alfabetiza*ão política, parece que nosso po*to de **rtida deve ser a análise do que é * analfabeto político. Se, do ponto de vista linguísti*o, o analfabeto * aquel* que *ão sa**r l*r e e**rever, o a*alfabeto *ev. FSA, Teresina, v. 12, n. 4, art. 12, p. 191-206, jul./ago. 2015 www4.fsan*t.com.br/revis** N. L. Ju*ior, M. R. Ebert 19* político - não importa se sabe ler o* escre**r ou não - é aq*ele o* aquel* *ue tê* uma percepção ingê*ua dos seres h*manos em suas relações com o mu***, uma percepç** ingênua da realidade soci*l *ue, par* ele ou el*, é u* fato dado, algo que é e não *ue está sendo. Neste sentido, muito* analfabe*os e s**ianalfabetos, d* ponto de vista linguístico, são, p*rém, politi*amente \letrados\, mu*to mais do que ce*to* *etrados erudi*os. E não há nisto nenhu*a razã* de es*anto. A *rática política daquel*s, *ua experiência nos co*flitos - no fundo a parteira rea* da *onsciência - *hes ens*na que os últimos não *pr**dem ou não *on*eguem apre*der no* seus livros (FREIRE,1995, p.9*). O *du*ador q*e a*ua na área da *aúde tem uma respo**abi*i*ade políti*o-pe*agógica uma *ez que sua ação não est* des*inculada da s*cieda*e: *anto pode reproduzir * lóg*ca da exclusão social como pod* ensi*ar * educand* a ler e a escr*ver a própria h*st*ria (*REIRE, 1995) * as*i* se ap*opriar da própria saúde e tam*ém *apa*itá-l* a *tuar de *aneira efet*va na cons*rução de *o*íticas púb**cas, assim como *erir a própria comu*idade onde *ora. * *mportância do educador s* torna fu**amental n* p*oc*sso de c*n*tru*ão da Educação P*pular, pois é ele que auxilia o educando * se t*rnar um "alfabetizado p***tic*" capa* de lutar por seu* d*re*tos e assim construir espaços democráticos d* d*scussão. 2.2 A educação popul*r em saúde e o *esaf*o de *romover práticas democr*ticas *ouca*lt (1979), a*irma q*e a ciência * mai* *spec*ficame*t* a m*d*cina s*cial *oder*a cumpre um papel intim**ente a*t*culado com o s*stema ca*italista e o *stado. Ela s*rge com o intuito de proteg*r a forç* de t*abalho p*ra a pr*du*ão indust*ial, mas antes ai*da como uma estratégi* de po*er para *isciplinar os c*rpos dos indivíduos. A ciê*cia tom** o lug*r da *eligião e passou * *itar modos de comportamento, va*ores e *e*ações "aceitáveis" com o p**prio corpo. Qu*r dizer, na época moderna os seres humanos pe*deram tant* * autonomia com* tr**alhadores (torna*-se força de tra*a*ho *eg**iá*el co*o me*cad*ria) com* o dir**to de deci*i* li*remente sobre *eu *róp*io corpo. Aqui*o que constituía diferen*es práticas *opula*es de cuidar *a *aúde-do*nça são reprimida* e *eslegitimadas em fa*o* de prát*cas ofici*is dissem*nada* *elo *st*do, a*t**ulada com os cient*stas. Neste contex*o os médicos c*nquist*m prestígi* *a Europa no séc. XIX no traba*ho de *ontr*le das *este* e epidemias. Por iss*, o* Estados cont**tavam seus *er*iços e impunh*m pa*a * pop**ação p*dronizações de comportamentos * práticas par* evita* d*e*ças e pestes col*tiv**. Pa*a Foucault (1979) as relações de po*er não são apenas *struturadas pe**s rela*ões econômi*as, *las se reprodu*em na* relaçõ*s cotidianas das *rá*icas sociais, s*ja no **mpo *a saúde, d* educação *tc., ro**lan*o, reprimindo e p*dronizando co**ortamento* e destinando Rev. FSA, Teresina, *. 12, n. 4, a*t. 1*, p. 191-*06, jul./ago. 2*15 w*w4.fsanet.co*.br/revista A *ducação Popular N* Saúde 19* aos qu* nã* *e adaptam uma esp*ci* *e afa*tamento do con**vio social po* meio das internações * o hosp*tal psiq*iátrico se t*rnou um ex*mplo a ess* respeito. A e*ucaç*o e* saúd*, incorp*rad* *o di*c*rs* médico, me*mo q*ando não form*lada explicitamente, acompanhou histor*came*te as práticas de saúde da medi*ina ***ial, orientan*o e normatizando comportamentos e disseminando a idéia de c*lpabilidad* pelo *doec*m*nt*. A educação em s*úde foi uma *aneir* *e cont*olar a* clas*es mais pobres, vejamos: A ed*caçã* e saúde, t**dicionalmente enten*ida c*mo um conju*to *e informações que as p*ssoas devem i*cor*orar *om a finalidade de *a*antir que sua vida sej* mant*da em condiç*es saudáveis, **presenta uma engenharia d** gru*os hegemôn*cos *ara cont*olar os pob*es e subaltern*s, *ejam os *sc*avos no tempo d* Imp*ri* o* as *lasses pop*lares nos *em*os r*publi*an*s, *endo, portanto, uma das práticas mais a*ti**s no *a*po da saúde públi*a (PEDROSA, *006, p. 83). *essa lógica da medicina social, o discurso nã* é promover a saúde, m*s evitar a doença; e *s indivídu*s *ass*m * ser visto a part** de ó*gã*s a s*r curados, tot*lme*te subm**so às de**s*es do profissional de saúde. Aliado a esta prática, o de**nvolvimen*o da m*crobio*ogia (vírus, bac*érias, etc.) * a d*sco**rta de va*inas e an**bióticos produziu outros ef*itos: a imposição d* obrigação de ser vac*nad*s *evando a *evoltas das populações inclu**v* no Bra*il no **ício do sé*ulo X*; a transformaçã* ** sa*de em me*ca*oria e *ltamente lucr*tiva. **rtanto, n*ste novo model* heg**ôni*o *ent*ado na cura de doenças (conhecido p*r bi*mé*ic* e hospi**l**ê*trico), as cultura* populares de cui*a** *o *o*po e da s*úde per*em espaço e muitos c*letivos fica*am *ltamente vulneráveis, seja por t*r perdido seus refer*nciais tradici*n*is, *eja pelo Esta*o não conseguir ga*antir uma po*ítica *ública de **esso a todos ne*t* novo *ode*o por ele pr**o*to. Todavia, e*tas prátic*s po*u*ar*s não fora* *limina*as por co*pl*to e surgem no *ecorrer *os a*os 6* diferen*es experiências na Améri*a Latina de *rganização d* sa*de em ou*ros moldes, com *artic*pação *as *om*nidad*s juntam**te com os *rofissiona*s de saúde. Este moviment* ta*bém surg* no Bra*il, em e*pec*al nos ano* 70 c*m o envolvi*ent* de mu*t*s pr*f**si*nais *e **úde * que vai cu**in*r no SUS. A Organizaçã* M*ndial da **úde du*ante o **ento internacional *e 1976 conc*uiu que hou*e piora nos indi*ado**s de saúde nas últimas décadas, e que a *ro**ssa de que o uso d* tecno*ogias de *onta resolv*ria os problemas não se co**r*tizou. Nes*a ocasião com*çam a ser divul*ados o*tros modos de organi*ar os si*t*mas *e saúde como da atenção p*imá*ia, in*luindo d*fere*tes *ráti*as, reconhecendo *ue a saúde é con*icio*ada por uma di*e*sid*de Rev. FSA, Ter*si*a, v. 12, n. 4, art. 12, p. 1*1-206, j**./a**. 2015 www4.fsanet.co*.br/revista N. L. Juni*r, M. R. E*ert 2*0 de situações. Em 1986, n* even*o realizado no Canadá, é *efendido um conc*i*o alargado *e sa*de pro*ond* a idéia d* promoção *e saúde que vê esta "*omo um recurso para a vid*", arti*ulando com a conc*pção de bem estar glo*al e garanti*o *or um co*junt* de fator*s como *mbiente saud*vel, ren*a, aspect*s culturais e soci*is, pr*cesso* de trabalho, etc. N* Brasil, neste p**íodo, impulsionad* pelo movimento de refo*ma sa*itá*ia e pelo processo de intensa mobilização social pela democratiz*ção do p*ís, em 198* o*orreu a 8ª Conferência N*ci*nal de S*úde, com *mpla p*r*icipaç** dos trabalha*ores de sa*d* e dos mov*mentos sociai*. Nesta Conferência se e**ab*le*eu os marcos de ** novo sistema d* saúde: c*mo u* direit* de cidadania; universal (i*dep*nden*e *e con*r*bu*ção); igualitári*; descentralizado (buscan** at*nder as di*ersid*des *ócus regional); *om par*icipaç*o da *ocie*ade nas deci*õe*; e buscand* ro*per com o *odelo au*oritá*io b*omédico de p*odu*ir sa*d* (enfatizando a necessidade de r*pensar a própria form*ção *os profission*is de saúde). De fato, muitos d*ss*s princípios foram in*orporados na legis*ação da saúde a par*i* da Constitui*ão *e 1988, e nas le*is*ações seguin*e* (Le* nº. 8.*8*/*99* Lei e nº. *.142/1*90). Todavia, o modelo biomédico * os *nteresse* de *ercado no campo da s***e **o se a*t*ram por *ma *egisl*ção. A*ós vários ano*, * pa*ti**pa*ão da socieda*e via *on*elhos *e saúde ainda é basta*te frágil, *s reivindicaç*es em outros espaç*s também *nfr*nta* limites. Aliás, nos anos 90, em m ui t os paí*es se percebeu refluxos dos movi*ento* s*ciais em fun*ão do cr*scime*to do *oder do mer**do e da ideologia do Es*ado Mínimo (Neo*iberali*mo), juntamente com o *umento do desemprego e perda *os direi*o* s*ciais (conq*ist* hist*rica) no mund* todo. Esta *o*juntura nos paíse* mais pobres t*ve efe*tos ainda mais p*rvers*s, d*s*ac*ndo * *e**ção dos investi*entos nas polít*cas soc*ais. No Br*s**, com eleição de um governo * considerado mais a esqu*rda, a p*rt*r de 2002, surgem políticas inovadoras como a Lei nº. 687/200* q*e trata da *rom*ção *a saúd* b*sc*ndo art*cular ação intersetori*is p*ra pr**over a saúd* no se*tid* mai* amplo, e a Lei de *ducação Permanent* n*. 1996/2007 que trata da forma*ão dos recur*os human*s. **esar d* esta *ltima lei avançar e* term** de ampli***o da partici*açã* da sociedad* nas decisões da ges*ão e na organização da for*ação, há muitas difi*u*dades. Não se rompeu com a l*gica mercantil *o cam*o da *aúde e t*mbém o modelo bi*médico continua sendo o pa**d*g*a *a produção d* saúd*. **ém di*so, até o m*mento n*o se av*nçou *feti*a*ent* na a*roximação com os diversos saberes * *ráticas populares nem co* *s movimentos sociais. Logo, pensar a Política Nacional de Ed*c*ção *opular em Saúde como uma polít*ca pública é *m des*fio qu* se **loca pa*a os gove*nan*es, m*s também pa*a a *ociedade em ge**l. Rev. FSA, Teresi*a, v. 12, n. 4, art. 12, p. 191-206, jul./ago. 201* www4.fsan*t.com.br/revista A Educa*ão Po*u*** Na Saúde 201 2.3 Os po*enciais/*imites d* política *ac*onal da e*ucaç*o popular em saú*e Pensar a educação popu*ar em s*úde par*ir *a p*rspec*iva d* Paulo *reire é pensar a q*e esta é em p*i*eiro lugar uma ação **lítica. Nesta direção, trata-se de uma p**íti*a que enfat*za ** diferentes o*hares e **áticas populares de saúde *o** conquist* da luta so*ial, e que su* r*alização efetiva depende da mobiliza*ão social e dos profissio*ais d* saúde co***omet*dos com uma educação crítica *ara ga*antir que seja incorporada realmen*e no fazer cotidiano d* saúde. A m**ilização social e a p*oblematiz*çã* do discurso médico devem estar em paut* e **ticulad* com as o*t**s lu*as sociais *ue ig*almente afetam as condições *e saúde e *em **ta*. Para P*drosa (2006), a institucionali*ação da pol**ic* de educa*ão popular em s*úde te* a v*ntagem de *p*oximar o d*b*t* sobre saúd* com os diferentes sabe**s, ci*ntíficos e populares, ma* ta*bém traz co**i*o os **s*os de *erd* de aut*n*mia dos diferentes col*tivos e de s*as p*á*icas. Para *xemp*ificar pode-*e citar o u*o medicinal *e c*lturas tradicionais que fa*em parte **s saberes popu*a*es, quando apropriados *ela ciên**a e pelo Estado, m*itas vezes, acabam favorecendo a in*ústria fa*macol**ica e não * própri* popu*a**o que gerou esse s*ber. P*r is*o ac*editasse qu* a *a*de deve ser um espaç* democ**t*co que reúna os cidadãos para que possam manifestar *uas idéias * nec*ssidades. Esta a*r*ndi**ge* r*quer i*strumentais que levem os s*jeitos envolvidos a transform*r a rea*idade que *s **s*fi*m *u *esagradam. Dantas, Rezen** e Pe*rosa (2*09) propõ*m pensar a e*ucação *m saúd* como um territ*rio vivo, onde coexistem d*ferente* cultu*as modos de e ver e v*ver que nos de*afiam *o *iálog* per***ente na busca d* alternativ*s coletiva* e individuais. Assim, *o contex*o de educ*ção popular em saú*e circulam diferentes p*áti*as e discurso*, onde * manifest*çã* ar*ís*ica como teatro, dança, músic*, etc. são *ão relevan*es quant* a manifesta*ão de escrit* e de fala. Para Dantas, Re*ende e Pedrosa (2*09), o d*reito inte*ral à saúde ga*antid* cons*itucional**nte co*o um direit* de todos *ão **m uma co*figuraç*o fechada, *stá em permanen** construção e recons**ução, cabendo ao Estado cumpri-la. *este *entido, * educaçã* popula* em **úde ao *e propor a dia*o*ar *om ** diferentes práticas * sa*eres ten*e a enriq*ecer o cam*o da saúde * fortalecer os sujeitos envolvidos (e não s*mente os **abalhadores de sa*de), *stimuland* o rompim*nto com * mode*o Rev. FSA, Teresi*a, v. 1*, *. 4, art. *2, p. 1*1-2*6, jul./**o. 2015 www4.fsanet.com.**/revista N. L. Junior, M. R. Eb*rt 202 heg*môni** biom*dico de **nce*er a saúde. Ou seja, segundo D**tas, Rezende e Ped*osa (*009, *. 10): A* tratarmos do campo da saúde coletiv* deparamo-n** com a inserç*o da sa**e e* um* **alidade so*ial *omplexa, daí a neces*i*ade de considerá-la c**o um *ampo **scipl*nar art*c*lado a uma totalidade socia* *erm*ada de contradições. A constituiçã* *e e*pa*os dia*ógic*s *ue **ssibilit*m a *nte*locuç*o d* saberes e *r*ticas *arec* configurar es** estratég*a de supera*ão dessas s*tuações-limi*es. O pos*ível caráter r*vo*uci*nário de ver a educação *opular como **tratégia de po*** não é apenas porque *colhe e l*da com estas di**rsidades *e*r*t*riais, m*s *orque o* s*jeito* se se*tem fortalecidos *ara ** envol*erem na luta p*la emancipação do paradigma d* medicina moderna de ver * sa*de como ausência de d*enças e c**o con**ole dos indiv*duos (e seu* cor*os) e dos *rabalhadore* (pre*erva**o *a força d* tra*alho) *uma perspecti*a de Foucault, democratizand* as r*laçõ*s socia*s e os processos *e promoçã* da vid*. Morin (2000) *firma que n** so*i*dade* autoritá*i*s os *ndiv*duos são *o*oniza*os, e*quanto numa sociedade *emocrát*ca eles se expressa* livremen*e, *onstruindo laço* * sol*dar*edades com * vid* colet*va (cidades). Nessa *erspectiva, uma vez que as pesso*s se sentem partic*pantes do processo democrático, as decisões em pr*l da c*letivi*ade se tornam *ai* coerentes, pois o in*ividu*lismo começa a dar espa** para * existência de o*tro sujeito, re*p*nsável * democrático, port*dor *os mesmos direito* e dever*s perante a sociedade. No entanto, Mo*ffe (1999) vai a*** dessa pro*ost* de Morin, poi* defende a constitui*ã* *e uma de*ocrac** radical *ue consid*re a m**ife*tação das *in**ias organizadas que l*tam p*r seus direitos, e que m*itas vez*s são op*imi*as ou as tornam invis**ei* pelo coletivo nas relações sociais. Diz ela, O que necessitamos é u*a hegemonia de *alores democráticos e *sto requer *ma multiplicaç*o de *rá*icas democr*ticas, institucionalizando-as em relações soc*ais, todavia, mais variadas, de modo q** se torne uma ma**iz d**oc*ática. [ . . . ] U* projeto de democ*ac*a rad**al * plural, pel* contrár**, requ*r a e*i*t*nci* de *ultip*ic*d*de, de p*uralidade e de conflito, e vê neles * razão de ser *a polít*ca (MOUFFE , 19*9, p.39). A edu*ação popular busca construi* es*aços onde cada *uje*to é *a*az ** fala e de *sc*ta, que per*nte uma *ificuld*de pode probl*matizar *uas ques*õ*s numa discus*ão democrática. *arte d* *rincípio q*e as pes*oas são capazes de mudar a r*a*i*ade e po* isso que q*em traz consigo idé**s e *ropos*as *i*erentes devem se* co*sider**as co*o i*tegran*es do proces*o de**crático de discus*ão e não serem *xclu*das. * *emocracia b*sca se su*t*nt*r em valo*es *u* consig*m privil*giar a p*rti*ipação *e todos no processo, apesar das dif*ren*es ideolog*as qu* po*s*m exist*r, *er*itin*o aflo*ar os Rev. FSA, Teresina, v. 12, n. 4, art. 12, p. 191-206, jul./ago. 2015 www4.f*a*et.com.*r/revist* A Educação P*pular Na *aúde 203 conflitos e diferenç**. Quando *os conf*itos, o outr* **s*a a ser v*sto como ini*igo qu* precisa ser el*minado de*aparece a democracia. *este sent*d*, a educação popular const*tuída pela *iver*idade de sentidos, sabere* e prá*ica* te*de ser um a potencial democratizador do ca*po da saú** co*etiva. A instituc*onali*ação da Pol*tica N*c*onal de Educação Po*ular *m Saúde n* SUS a*rav*s da Portaria F**era* n.º *761/*013 é f*uto d* lu*a do* ator*s identificados com e**a prática social. Para *stes o *omen*o é de tirar **te movim*nto *s**lhad* pelo país *a *a**inali*ade, d**do-l*e vi*ibilidade e stat*s no SUS. A P*rtaria *á *econhe*ime*to e visi*i*idade a esta **ática da p*o*oç*o do *iálogo e da troca de saberes, c*a*an*o a *tençã* de sua im*ort*ncia para o conju*to dos ge*tores, pr*stadores de s*rviç*, tr*balhadores, inst*tuições formador**, ou s*ja, envolve conjunto dos ato*es **plic*dos na construção o do SUS. *oda**a, assim como a gara*tia legal da part*cipação da soc*edade civi* (em esp*cial, u**ários) nos *onselhos gesto*es n*o garante * efe**vaç** dos direitos e a de*ocrati*açã* das deci*ões, se*e*hante a****gia pode ser co*siderad* com r*l*ção à po**tica d* educaçã* popular. Embora esteja oficializada, capa* de capt*r re*ur**s *ateriais e humanos *e *e e disseminar no cotidiano do sistema de saúde, o seu caráter revolucio*ário *ã* s* torna a**a*ivo nato *ar* ge*t*r*s, prestado*es e trabalhadores, em especial considerando as r*lações *e *oder que constitui o cam*o da saúde na p*rsp**t*va de Fouca*lt e *esmo das rela**es so*i*is opressoras da* *o*i*dade* capitalistas apo*tada p*r Freire (1987). *sto *em falar *a tendê*cia do Esta*o enges*ar as pol*ticas públicas, transformand* as pr*ticas da educ*ç** popul*r em formalidade* esvaziadas d* seu conteúdo original, qu*l se*a diversidade, a c*iat*vi*ade, a a au*onomia e a criti*idade (tra*sf*rma*ão social). *pe*ar *e ser recente a portari* já h* um mo*imento (* e*tratégias) de inserir a pol*tica no i*te*ior d* s*stema buscando *rticular *ntre si os dive*sos e*paços da educação po*ular, inclusiv* com repercu*são nos *erritórios loca*s. Entre*anto, *inda são *ui*o tím*das as inicia***as, de modo qu* conti*uam pre*ominando p*áticas de atores ide*tifi*ados **m a propos*a sem *ma articulação maior en*re a* diversas *n*tânci*s do *U*, re*lidad* esta também obse*v*da no território g*úcho. R*v. FSA, Teresina, v. 12, n. 4, art. *2, p. 1*1-206, jul./a*o. 2015 *ww4.fsa*et.com.br/re*ista N. L. Ju*ior, M. R. Ebe*t 204 3 CONCLU*ÃO Portanto, não adianta fal*r de acol*er *s diversidad*s se não estamo* dispostos a reconhecê-las como saberes legítim*. Ao reconhecer que trabalh*mos com uma população que *ão tem tido espaço e oport*nidade para se *r*anizar poli*i**mente a fim de reivind*car seus *ireitos na socie*a*e, bu**amos fun*ame*tar noss* prática numa educa*ão cidadã, que *ns*na (e **tim*l*) a* p***oas a se organ**arem p*r* lutar por seus *ireito* bási*os, tanto na *n*ti**i*ão educat*va, quanto *a* p*átic*s cot*di*nas do* serviç*s de s**de. P*nsamos que fazer d* *a*po ** saúde um amb*en*e de**cr**ico de discussã* é abrir a poss*b*li*ade p*ra * a da *essoa (e coletiv*) ser r*speit*d* e* su*s diferença*, pois juntamente com estas vê* à cr*atividade e a e*pont*neidade para criar e recriar um a*bient* mais agr*dá*el para viver e estar no *un*o. Para que esse proce*so de democra*ização possa ocorrer, é *reciso *e *ensar numa educação *ntegral em sa*d*, capa* de conciliar a* várias **ssib*li*ades de sa*er*s e cu*d*dos *om * corpo, eis o pote*c*al ** educaçã* *opu**r. Para Freire (2*00) se a ed*ca**o integ*al for *escon*iderada, caímos na fatalidade da verticalização das relaçõ*s (c*rac***ístic* do modelo biomédic*), s**ando *s*i* uma rel*ção *utoritá*ia de imposição de uma fal* d*t* co*o "portador* do saber". No processo d* *str*t*raçã* do no*so sabe* muita* vezes os profissionais de *a*de (repr*duzi*do institu*ion*lme*te) p*nsam a realid*de *ome*te entre d*as únic*s p*ssibilidades: - * certo e o errado! *ualquer circ**stância que s* mostre fora desses nossos padrões duais, não conseg** ser abstraída e, portanto, é e*imin*da. *e ao longo *e nos s a formaçã* nas univers*dades e na açã* prática do cotidiano do faze* saúde nã* for d*senvolvido certa flex*bilidade pera**e o novo qu* se a**esenta, cer**mente teremos pouc*s avanços na *ncor*oraç*o dos *iferentes sa*e*e* tra*ido* pelo moviment* da edu*ação popul*r. Estas difer*ntes qu*stões apontada* ao lon** dessa reflexão estão no ho**zo*te de po*si*ilida*es em disputas e pelos *iversos coletivos, e os c*min*os nã* estão p*ontos. Acolher os diferen*es *a*e*es trazidos pelo movimento de educa*ão po*u*ar numa p*rspe*tiva crítica é recon*ecer qu* a efetivação do SUS es*á *rt**ulada co* o conjunto da* lutas sociais po* *ais dignidade, dir**t*s sociais e promoção da própria vida. Ga*antir a par*icipação soci*l, a integralida*e e * diversida*e de sabe*es rem*tem à ref*e**o cr*tica de que a saúde *ão p*de estar a servi** do mercado e sob o olhar fra*men***o da me*i*ina social (biomédi*o). Sem r*mper c*m estas práticas não haverá êxito na proposta Rev. FSA, Teresina, v. 12, n. 4, ar*. *2, p. 191-206, jul./ago. 2*1* www4.fsane*.com.br/revista A *du*açã* Po*ular Na Saúd* 205 da pol*tica naci*nal de educ*ção p*pular e nem na ef*tivação do SUS como um direito social, human* e d* cid*dania. E por último, * apo**a na *ducação popul*r em s*úde tem o potenc*al de t*ansformar o próprio sig**fica*o para *línica na *rea d* saúde, q*e ao ser tomado pelo disc**so bio*édico foi alijada de *eu sent*do or*ginal. P*ra resgatar a etimologia dessa pa*avra Dunker (2000, p. 42) af*rma *ue "cl*nica, signi*ica do*rar-se, inclinar-se dia*te do leito do pac**nte * **terpretar os sinais significativos *e seu corpo. Em o*tras palav*as, ap*icar sobre este cor*o um dete*minado olh*r * der*var d*ste olhar um conju*to *e oper*ções". Nessa perspecti*a, para s* fazer *lí*ica é n*cessário uma se*i*logia *ue é a ciê*cia do* signos, ou seja, *lassifi**ção * organização dos sign*s índices, sintom*s e traços **e são *aptado* *elo *lha* clínico; ta**ém é pre*iso sabe* *azer d*agnós**co que é a c*pacidade de d*scernir a *espe**o do valor si*n*f*caçã* dos *ignos observados e * sucessão ao longo *o e tempo e assim *ubmeter a uma nosologia e por fim ao quadro da *o*nça; Etiologia na clíni*a *lássica é a relação de causa e efeito q*e for*e**rá s*b*í*io* pa*a a *rganização da patolo*i* - pr*ncíp*o regulatório do sistema. E por fim, dest*ca*os a importância de ver a terapêuti*a como pr**edêutica, ou s**a, ensinar o *u*eito a c*idar, mante* e ge*ir a própria *aúde. Por*anto, * *olítica Na*ional *a Educaç*o Pop*la* em Sa*de te* grande imp*rtância ** senti*o do Estado r*conhe*e* esta prática difere*ci*da de pr*mover *aúde, acolhen*o *utros saberes e m**os *e *uidado *nc*r*orando-o* no SUS. Entretanto, há q*e estar atento p**a *ão e**a*iar * conte*do revo**cionário que a educação *opular press*põ*, a qual se choca diretament* com os int*re*ses de merca*o e *om o *oder bi*médic* presente na produção *a sa*de n* país. RE*ERÊN*IAS CORTEL*A, M. S. A **cola e * conhec*mento. *unda*e*tos epist*mo*ógicos * políti*os. 4ed. São Paulo: Cortez, 2001. DANTAS, V. *. A.; *EZ**D*, R.; PEDR*SA, J. I. S. I*tegração *as políticas de saúde e educação. In: Bole*im 17 da Secr*t*r*a de *ducação a *istânci* * Ministério da Educação. Progra*a Salto pa*a o *uturo - Saú*e e educação: uma re*aç*o *os*ível e neces*ár**, a*o XIX, p.10-22, nov/2*09. Dispon*vel em: <htt*://tvbrasil.org.br/fot*s/*alto/ser**s/15*61117-S*udeeE*ur*l**ao.pd*>. Acesso em: 26 set.2014. DUNK**, C. I. L. *linica, linguagem e s*b*et*vidade. Di*túrbios da *o*unicação, v. 12, n.1, p. 39-60, 200*. Rev. FSA, *eresina, v. 12, n. 4, art. 12, p. 191-206, jul./ag*. 2015 w*w4.fsanet.com.br/revista *. L. *uni*r, M. R. Ebert FOUCA*LT, M. Microfísica d* poder. Rio *e Janei**: Graal, 1979. F*EIRE, *. Pe*agogia do oprim*do. Rio de Janeiro: Pa* e *erra, 1*87. _______. A importância do ato d* ler. 31ed. São *aulo: Cortez, 1995. _______. *e*a*ogia da a**onomia: sabe*es necessários à prát*ca educativa. *5 ed. *ão Paul*: Paz e Ter*a, 2000. ILL*CH, I. * exp*o*riação *a s*úde: nemes*s da medicina. *ªed. *io de Janeir*: No*a Fronte*r*, 19*1. MORIN, E. Os *ete sabere* n*cessários à educação do f*turo. 3*ed., S*o Pau*o: Cortez, 2000. MOUFFE, C. 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