Centro Unv*rsitário Santo Agostinho
www*.Unifsanet.*om.br/revista
Rev. FSA, T*r*s**a, v. 23, n. 9, art. 7, p. 121-1*0, *et. *026
ISSN Impres*o: 1806-635* ISSN E*etrônico: 2317-2983
http://dx.doi.org/10.12819/*026.23.9.*
Entre Afetos e Mitos em a Casa Inv*n*ada, de Lya *uf*
Betwe** Affections an* *yths in the I*vented Hous*, by Ly* L*ft
Gabrie*le da Hora Car**lho
G*aduanda e* Let*as Por*u*uês-Esp*nhol pela Universid*de *stadual de Sant* **uz
E-mail: g*bihc90@gmail.co*
Evelyn Sa*tos Almeida
*outora em Letras *el* Universidade F*deral do E*pí*ito Sant**
Superv*so*a Pedagógic* n* *scola Mu*icipal Themísto*l*s Andrade
*-mail: esalme*da26@gmail.com
End*reç*: Gabrielle da *ora *ar*alho
*ditor-Che*e:
D*.
T*nny
Kerle*
de
A*encar
Univers*dade Estadual
de Santa Cruz - Rod*via Jorge
Rodri*u*s
*m*do, *m 16, B*irr* *alobrinho, CEP 45.*6*-900.
I*héus-Bahia. *rasil.
Ar**g* recebido em 07/08/2026. Úl*ima
ve*s*o
Endereç*: *v*lyn *antos Al*eida
receb**a em 20/08/*026. Apr*vado em 21/*8/202*.
Escola Mu*icipal T*emíst*cles Andr**e - Rua Sant*
Luzia, SN, Teotô*io V*l*la, CEP: 45.657-100. Ilhé*s-*A.
Avali*do pelo **stema *riple Review: Desk Rev*ew a)
Br**il.
pelo Editor-Chefe; e b) Do*ble Blin* Review
(avaliação cega po* dois a*a*iadores d* área).
Revi*ão: G*a*ati*al, Normativa * de Formatação
G. H. Carv*lho, E. S. Alm*ida
*2*
RESUM*
A obra A casa inventa*a (2017), de Ly* Lu**, aprese*ta uma *arrat*v* cent*ada na busca por
id*nti*ade e afetos pel* protagonista, au*i**ad* por sua am*ga fiel Pand*ra e *or sua famíl*a.
Nesse con*exto, os mitos gregos são util*za*os *ara compor a trama e explorar *s rela*ões
*ntre os personagens, desta*ando a impo*tân*ia do afet* na construção de um lar. O prese*te
artigo **m como objetivo analisar essa *b** so* a perspe**iva
*os *i**s gregos, v*rific*ndo
como *s relações a*e*ivas sã* solidificadas e qual a im*o*t*ncia desse a*icerce para
a
co*s**u*ã* *e um lar. O apor*e teórico baseia-s* no* estu*os de Bra*dão (2009), D*mith
(20*2), Menezes (2007), Nietzsche (1978), Codo e Ga**otti (1999), entre *utros. Com essa
análise, es*e*a-se cont*ibuir par* a *o*preensão da importância do
af*to na
con*t*ução do
conceito de l*r, assim *o*o da relevância dos mitos
*reg*s na edific*çã* das relaçõ*s
afetivas. *lém dis*o, *re**nde-*e *e**acar o v*lor *a
**ter*tur* c*mo me*o de r*flexão
e
co*p**ensão d*sses t*mas.
Pal**r*s-chave: Lya *uft. Afeto. Literatura fem*nina. Literatura Brasileira Conte*porânea.
ABSTRACT
The work T*e Invented House (2017), by Lya Luft, p*esent* a
narrative centered *n the
prot*gon*st's se*r*h for *dentity and affection, **ded *y her faith*ul friend Pan*ora and her
family. In this context, Gree* *yths are used to
co*pose the plot and exp*ore th*
relationships be*ween characters, highlightin* the imp*rta*ce of affection in buil*ing a ho*e.
This arti*le aims to a*alyz* this *ork fr*m the perspective of Gr*ek myths, examining *ow
*ffective rel*tionships are solid*fied and the *mportance of t*is foundation *or constructing a
h**e. The theoret*cal framewor* is
based on studies by *r*ndão (2*0*), Dumith (2012),
Menezes (2*07), Nietzs*he (1978), Codo
and Ga*zot*i (**99), among others. *hroug* this
anal*sis, we h*pe to
contribute to und*rs*a*din* the impor*ance of affectio* in *he
co*struction o* th* conc*pt of hom*, as *ell as the relev**ce of Gre** myths in the fo*m*tion
of aff*cti*e r**ationships. Furt*e*more, we intend to highlig*t the value o* literature a*
a
means o* reflectio* an* und*rstan*ing of these t*emes.
K*ywords: Lya Luft. Aff*ctio*. Wo*en's *iterature. C*ntempo*ary B*a*ilian Liter*t*re.
*e*. FSA, T*resina, v. 2*, n. 9, art. 7, p. 1*1-140, se*. 2026
www4.*nifsanet.com.br/revist*
Entre Afet*s e Mitos *m a Casa Inventada, de Ly* *uft
123
1 INT*ODUÇÃO
L*a Felt Luft nasceu em 1948, na cidade d* Santa Cruz *o Sul, n* *io *rande do Sul.
Fa*eceu ao* ** anos, e* setembr* de 2021. Foi escrit*ra, ro*a*cista, e*s*ís*a, cr*nist*, p*eta
e tradutora. Iniciou sua carr*ira literária **timulada pelo ma*ido, o lingui*ta C*lso Lu** (1*21-
1995). Em 1*62, foi pre*iada no Concurs* Es*adual de Poesias do Instit*to E*tadual *o Livro
(IEL) c*m os poemas **nções d* Limiar, p*blica*os apenas em 1964. Seu primeiro r*mance,
** Parceiras, f*i publ*c*** e* 1*80, e d*s*e entã* a autora pro*uzi* um* *xtensa obr*1.
Em A casa inventada, Lya Luft no* pr*se*teia com uma reflexão sobre a *onstrução
d* afeto, mostrando como *s*e s*nti*ento é edif*ca*o e s*l**ificado por me*o *e metáforas
relacio*adas à arquitetura. C*da *ô*odo lev*nta*o represe**a u*a *elação afe*i*a e a relação
de cad* ser *****o
consi*o
mesmo. Podemos dizer q*e o livro é uma mistura de poema,
ensaio e **cção sobre * *i*a. Cada c*pítulo é *om*ado *o** um côm*d* da casa, **nalizando
*omo o afeto é construí*o na vida da **rs*n*gem.
*ijolo a tijolo, com* entendem*s a di*isão dos cap**ulos, os cômo*os de uma cas*
ganham vid*: a po*ta *e *sp*ar, a sala da famí**a, * porão das afli*õ**, o pátio *otid*ano. *ada
lug*r exp** s*as insegur**ças e s**s mistérios, revelan*o "clarõ*s d* ternura e *iso" nos
desvãos *a memória.
À *edida que a p*r*on*gem *entral, o *u, con*ebe sua casa, e** s**idific* o afeto pela
famíl*a, pela *ida * por si mesm*, atrav*s *e u** narr*tiva que mescla autob*ogr*fia e ficção.
A a*t*ra c*nseg** abordar os *ois gê**ros e* *ua
obra d* f*rm* a *evar o leitor a senti*
o
afeto que preen**e *s pág*na*.
2 RE*ER*NCIAL TEÓRI*O
2.* Af*to e mi*os g***os
O afet* incorpora-*e no *lemento básico da afetividade humana. De acord* com C*do
e Gazzotti, trata-se de um "co*junto de fenômenos ps*quicos que se manifes*am sob a f*rma
1 Flauta doce (1*72), **téria d* c*tidia*o (1978), A *sa esque*da *o *n*o (198*), Reunião *e fa*í*ia (19*2),
O quarto fechad* (1984), Mulher no *alco (**84), Ex**i* (198*), * lado fa*a* (1989), A s*ntinela (1994), O ri*
do *eio (*99*), Secr*ta *irada (1997), O ponto cego (1999), Hist*ria* *o *empo (2000), Mar de *e*tro (2000),
P**das e ganhos (2003), *istórias de *ruxa boa (2004), Pe**ar é tra*sg*e*ir (20*4), Para n*o d*z*r adeus
(*005), Em outras pala*ras (200*), * volta d* *ruxa *oa (2007), O si*ê*cio dos a*antes (2008), *riança pe*sa
(*009), Múlti*la escol*a (201*), A *i*ueza do m*ndo (2011), O t*gre n* sombra (2012), O tempo é um rio que
*orre (2013), Pa*sa*em b*asi*eira (2015), * casa i*vent*da (2017), As coisas humanas (2020).
Rev. F*A, *eresina PI, v. 2*, n. 9, art. 7, p. 121-140, s*t. 2026 **w4.Un*fsanet.com.br/re*ist*
G. H. Car**lho, E. S. Almeida
124
*e em*ções, se**imentos e pa*xões, acomp*nhados sempre *e *mpressão de *or o* p**zer, de
sa*isfação ou insati*fação,
de ag*ado o* de*agr*do, de alegria *u de **ist*za" (CODO;
GAZZOTT*, 1999, p. 4*-59). Ou *eja, o a*e** é parte importante das emoções humanas e
é
i*erente a t*dos os se*es hu*anos.
Dess* f*rma, *a obra de L*ft, a per*on*gem c**tra* nos mostra c*mo oc*rr*
*
const*u*ão desse s*nt*mento tão essencial para a existência das rel**õ*s afetiva*, n* coti*iano
de sua vida com * família, com o* amig*s * con**g* mesma. Em seu art**o, P*ra pensar
*
*f*to (*0*7), Aluísi* Per*i*a de *enez*s aponta *ensad*res que abordam a ques*ão do afeto.
Vár*os pensa*ores ao longo *a moderni*ade busc*ram ref**tir acerca das e*oçõ*s do
ser hum*no e sobre os modo* de pensar a v*da. Um d**ses pensadores foi Kant, que buscou
construir um pensam**to qu* loc*liz* a razão e suas condições no pr*cesso *e formação do
ser
humano, colocando e* xeq*e a *ues*ão d* como raz*o está presa à sen**bili***e e a
ao
s*ntido num mun** ha*itado por pa*xões e afeto* (MENEZES, 2007, p. 2*9).
No mesmo artig* supracita*o, Men*zes aponta a de*inição do *fet* concebida p*lo
pensado* Immanuel Kant:
O* afetos s*o es*ecificamente disti*tos das *ai**es
(*eidens*ha*ten). Os primei*os s* relacionam simple**ente
ao
sentimento; o* se*undos pertencem à facul*ade de *esejar e *ão
*nclinações qu* to*nam difícil ou impossível qualq*er
det*rmi*a*ilid**e do li*r*-ar*ítrio
por pr**cípios. Esses são
temp*st*osos e irrefletidos; a*u*les, duráveis e reflet**o*: a*sim
a
indi**ação
c*mo cólera é um a*et*; mas o
ódi* (sede de
vin*ança) * uma
paixão. Essa jamais pode e sob nenhuma
relação ser di*a s*blim*; pois, s* n* afeto a l*be*dade de espírito
(G*müt) est* *erdadeiramente *n*ravad*, na paixão ela *stá
suprim*da (KAN* apud MEN*ZES, 2007, p. 239).
Em vi*ta d*s*o, d* acordo com o *p*esentad*
por Menezes (2007, p. 239), "* forma
como Kant pensa o a*et* o le*a a *olocar a ex*eriência *feti*a num caráter quase pa*ado*al
em que o sensível * o q*e aponta p*ra *quilo que o excede não são d*scont*nuos". Na obra de
Luft, é possível
perc*ber a paixão na* p*la*ras e a construçã* do *feto
no mo*o c*mo
a
personage* desc**v* *s relações com a família e co* Pandora, que pod*mos descrever como
seu alter eg*, co*o a própr*a personagem
evidencia
nos capí*ulos in*cia*s da obr*, *s qu*is
serão *b*rdados *o l*ngo *este artig*.
Outra q*e*tã* per*eptível na obra é *ua relação com o* mitos gregos. Notamos como *
e*cri*a do liv*o é i*flue*ciada pe*os mitos, *o*s em cada
capítulo algum mito é ab*rd*d*,
Rev. *SA, Teresina, v. 23, *. 9, art. 7, p. 121-14*, se*. 2*26
*ww4.*nif**ne*.com.br/rev*sta
*ntre Afetos e Mitos *m a Casa Inventada, de Lya **ft
125
col*borando para o *spe*** fantasi*so *a
narrativa. A mitol*gia gre*a é formada *or u*
con*un*o de mit*s e
na*rativas,
criados e
*dotados pelos antig*s povos *regos *omo sua
religião e cre*ça. Embora exista até hoje no c*tidiano e *as histórias ocid*ntais, já não é *ais
*onc*bid* como relig**o ou dogma, mas s*m como alegorias (BULFIN*H, 2006).
As hi**óri*s sobre a *itologia g*eg* foram p*ssadas *e geração em geração *través de
narra*ivas o*a**, um* vez *ue nã* *xistia nenhum li*ro q** as descrevia. Os poetas ajudaram a
pro*over a mitologia ao *ontarem sob*e os mitos e* forma de poes*a. *obre a mit*logi*
*rega, S*l*a e Cas*ro discorrem:
Embora mit*l*g** **ega s*ja compreendida at*alment* co*o a
simples alegori*s e co*t*s, em épocas remotas, tais m*to* eram
usa*os **ra e*plicar
vários fenômeno*, como, *o* exemplo,
a
origem do mu*do, de
t*dos o* seres e de to*a*
as
**isas,
*lém
*e explicar a ordem dos acontecimentos *o mun*o e até mesmo
a *rigem *o povo grego. Er* *id* realmente com* uma religião,
a t*l ponto que existiam templo* dedi**dos aos deuses
e
divindades g*e*as, a*sim co*o é possível saber que
os
*regos
ant*gos faziam oferend** e seguiam r*tuais em nome de seus
deuses, o que dá a d*mensão de que, para eles, as h*stórias que
eram contad*s e passadas de pais par* filho* serviam para *u*a*
**as a*ões * suas vid*s, dando um significado para tudo que era
conhecid* e t*mbém desconhecido ou i*ex*licável, já que o que
o mito exp**cava na****e
*eríod* t*rna*a-se algo lógi** ser a
segu*do inco*porado *o c*tidiano e
(SILV*; CASTRO, 2015,
p. 81).
Para mui*os est*di*sos, o mito tem sid* compree*d*do com* um gênero que ju*tifica o
homem e sua relação com o mund*
e
com * vida. *ários *esq*isadores de*tacam
a
i*po*tância e a presença d* mito em todas
as culturas *uma**s, na forma de *arr*tiva* qu*
p*o*ura* e*plicar o mund*. Nas sociedad** arcai*as,
i**lusive a gre*a, os mitos
*stavam
ligados *
uma dim*nsão r*ligiosa, sendo, segundo Bran*ã*, "* relato de *m acon*eciment*
ocor*i*o no tempo primordial, median*e i***rvenção de entes sob*enaturais" (BRANDÃO, a
*9*7, p. 35).
Sob*e o mito *rego, o *s**di*so Jean-P*erre Ve*nant diz:
O que * um mi** *rego? Um *elato, claro. Ainda a*sim, é
é
pr*ciso saber como *sses r*l**os se construíra*, se
est*b*leceram, se tran*mitira* e se conse*varam. Ora, no caso
d* grego eles só
chegaram até n*s no fim do percurso, sob a
for*a de textos
escr*tos. Os m*is
anti*os d*sses textos
pe*tenc*m *
obras li*erárias de todos os ti*o*
- epopei*,
poes*a, t*agédia, história, * mesmo filosofia -, na* quais,
*ev. FSA, Te*es*na PI, v. 23, n. 9, art. 7, p. 121-14*, set. 2026 *ww4.U*i*sanet.co*.br/rev*sta
*. H. Carvalho, E. S. Almeida
1*6
*xc*tuando-se * Ilía*a, a Odi*seia, e a Teogonia, de Hesío*o,
q*ase sempre f*g*ram d*sperso*, de *odo *ragmentário, por
ve*es alusivo. Foi num* época tardia - s* no início de noss*
era - que os erud*t*s reuniram essa* tradições m*lti*las, mais
ou *enos **vergentes, para apresent*-las unific*das nu*
*esmo *orpo, e
guardad*s, umas após as o*tras, como nas
prateleiras de uma B*blioteca, para r*tomar o título que,
justamente, Apolodoro deu a **u re**rtório, transformado
n*m d** gran*es clássicos do gênero. Assim se construiu
o
que se convencionou cham*r d* m*tol*gia grega (VERN*N*,
1999, p. 10 -1*).
Ou s*ja, precisamos saber a origem do mi*o, a forma como ele se conservou *uando
*ã* e*istia um li*ro *ue registrava as hi*tórias, além ** entende*m*s como ele c*ntin** se
propagando pelo m*n*o.
3 RESULTADOS E DISCUSSÕ*S
3.1 * percepção do afeto relaci*nado *os mito* gregos
*ogo na epígrafe, a personagem principal deixa claro que o livro não é um* obra
autobiográfi*a com pe*sa*entos *m **rc*ira *essoa, mas sim uma ficção ora escri*a pel*
personage* cen*ra*, o*a escrita por sua parceira mi*ter*o*a q*e hab**a o *spelho e conv*rsa
c** ela dia*iamente:
*qu* não fa*o autobiografia, nem fa*o ** em terceira pess*a:
le*branças, in*ertezas, coisas que flutu*m c*mo *estroços num
mar revol*ido pelas *orrentes d* ficção. Ora escrevo como eu,
ora c*mo
um* criat*ra q*e me espia nos
**pelhos, e *ue a*ui
chamarei Pa*dora. Mais tarde *irei como ela *e chama. *s
vezes e* *ou ela, out*as vezes ela sou eu. Ao *eito*, nã* i*port*:
o b*m da vida são os des*fios, o n** ente*dido, e p** favor
como já es*re*i há *ui*os an*s nã* que*ram me pre*der *o
alfinete
da i*ter*retação. Em ger*l, p*lavras são só... pa*avras.
Nem *uem as escolh*u *abe tudo o que s*gnificam. Palavras *êm
fra*jas além dos con*ornos: por isso são tã* *edutor*s.
"A vi** seria muit* mais *ive*tida s* dois mais d*is p*des*e
não ser quatro", eu di*s* ain*a cr**nça a* bo*dos* professor *e
ma*emáti** que an*s a fio tento* me ens*nar a*g**a coisa. Mas
eu
não ***ria n*da exato: q**ria vagar s*nhando, desaparece*
nos li*ro*, b*incar n*s **pelhos (LU*T, 2017, p. 2).
R*v. FSA, Teres*na, v. 23, n. 9, art. 7, p. 121-140, set. 202*
www4.U*ifsanet.c**.br/rev*st*
Entre Afetos e Mito* em a C*sa In*entada, de Lya *uf*
127
Isto é, notamos *ue a criatividade * *maginação da perso*agem pod*m ser e*tendidas
*omo uma forma de *feto. Na concepç** de Ferreira, o a*o de i*a**nar *i*t* *omo: *
"con***uir ou conceber n* imaginação; fantasiar, i**ar, inventar; é o i*usório; o fant*stico.
Ima*inação: * a faculdade *ue tem o espírito de repre*entar imagen*. *maginário: é o que só
exi*te na imaginação" (FERREIR*, 197*, *. 918).
Des*a forma, a imaginação *a personagem é o que prop*rciona a constr*ção *o seu
af*to. Na epígrafe, j* s**os apresent*dos à Pandora, persona*em que é o reflexo enxergado
no espelho e que apare*e*á durante toda a *arrativa. No â**i*o d* mito**gia grega, Pandora é
co*he*ida por causa do mito de sua *aixa. *o entendime*to de Pe*e*ra:
Segundo se conta, Pandora fo* a
p*imeira mulhe* hu*a*a,
criada p*r Hefesto man** de Zeu*, *o*o parte de um p*ano a
para se vingar
da hum*n*dad*, uma
ve* *ue o titã Prometeu
havia presen*ead* os hom*ns co* o fogo, **n*rariando a ordem
de Zeus para que não o f*z*sse. Pando*a foi, e*t*o, enviad* p*ra
a Terra, * fim de casar-*e com Epim*teu, irmão *e Prometeu, e
com ela Ze*s ma**** uma
caix* fechada, com r*com*nd*ções
veementes para q*e ela n**ca fosse aberta. No entanto, Pa*dora
não conteve sua curi**idade e, *m certo **a, *b*iu a caixa, o qu*
fez esca*ar tod*s *s m*l*s que, até **tão, os homens ai*da *ão
conhe*iam: as doenças, as guerras, a me*tir*, o ódio, * c*úm*...
Ela conseguiu fe*h*r a caixa a t*mpo de segura* *penas
a
*speranç* (**REIRA, 2017, p. 2*).
N* *apí**lo d* abertura, intitu*ad* "A porta de es*iar" todos os cô*odos de uma casa
são aprese**ados de *o*ma s*ci*ta, e temos acesso aos sentime*tos que compõem o afeto,
como se a c*s* pronta si*bolizasse *odos os sentim*ntos da pers**agem pela manei*a como
ela descre*e a *onst*ução da casa:
Uma casa se projet* c*m ciência e fantasia; e se constrói sobr*
um fun*amento que dev* s** firme. Uma boa c*sa, *ue dur**s*
anos ou et*rnidade*. Que perdur*sse na
m**óri* a*é depois
de
de*aba*. At* se fechar
a pálpebr* *a
vida e tudo ficar
*ranquilo. Os alic*rces vêm de nó*: constr*ím*s com nossa
c*rne p*nsamento e
cotid*an*. Êxtases ou tragédias são tij*los
frá*eis, cuidado.
Pois essa é a casa da vida: sangue, lá*ri*as, *isadas, esperanças,
punhais
enterrados no p*ito, tiros n*s costa*, *arícias maternas
ou sensu*is, "*ucidez
sem per*e* a
ale*ri*", me dizia
a*guém.
Se*á possível co*s*ruir uma
c**a, a ca*a da vida, es*olando
joe*h*s, rebe*tan*o as mãos, desmont*ndo e remon*ando cabeça
* cor*ção e não sucumbir? (LUFT, 2017, p. 12).
Rev. FSA, Te*esi*a PI, v. 23, n. 9, art. 7, p. 121-140, set. 2026 www4.Unifsan*t.com.br/re*i*ta
G. H. Car*a*ho, E. S. Alm*ida
128
Enten*emos que se **ata do am*r-*rópr*o, pelo fato de * casa represe*tar a
per*onagem. Isso significa que o* alicerces da casa *ão a* em*ções da personagem. A*ém do
me*o
d*mo*st*ado em não sucumbir durante p*o*es*o de edif*cação da casa, pois o ser *
hum*no e*t* condicionad* a f*lhas, ang*stias, a**rtos e er*o* no decorrer *o seu processo de
cres**mento e
amad*recimento. Nes*e capí*ulo, * personagem nos mostra com* e*xerga
*and*ra: "Espelhos se*pre *e seduziram: e*es têm **a vi*a ***pria *eit* d* vida *e todos os
que um di* ali se *efletiram. Lá me aguarda Pandora, a
que me viu e *e cha*a, c*m olhos
sem cor e *abelei*a feito *m lo*go *apim perfumado" (LUFT, *017, p. 1*).
O segundo capítulo é dedicado a Pandora, *ntitulado "O
espelho de Pandora". *
pers**agem revela como construiu o af*to por Pandora, ou seja, por ela mesma, já que as duas
são *artes de uma me*ma pes*oa, m*s com **gu*as p**ticular*dades:
A mi*ha Pandora, esse meu
reflexo ou duplo, não carrega
ânfora al*uma: é ela mesm* *ma ca*xinha de surpr*sa, de
loucuras, de contradições, de*ejos, e**orias, aleg*ia e s*mbra
t**bém. T*az consigo tudo o qu* eu sinto, sofr* e curto. Talvez
ela seja o meu ex***ro. Ou minha l**erdade.
Que medo, esse, de ras*a* o peit* e espiar *á d*ntro, como se
fosse uma
ca*a amaldiçoada, perigosa: sabe lá o q*e vou
enco*trar, * *ue de verdade qu*ro, amo, odeio, engano, que
traições *erfídias g*staria e
de cometer *u cometi? Perigo*o
d**ais abrir essa *ampa.
E se
ali de dentro *altar *ssa v*ntade *e ser feliz? É mesmo
permi*i*a, ou uma culpa ancestr*l e louca nos refreia, onde se
vi*, ca*tar e dançar *ozinha *s quatro da tarde qua*do ** tantas
ta*ef*s a cumprir? (*UFT, 20*7, p. 20).
Nesse trecho, podemos *e* um* ideia *e q*al seria o mo*ivo da personagem **mea* o
*eu reflexo *e Pa*dora, pois é n*tido o medo que ela tem *e co*hecer fundo a
*ssa ou*r*
pessoa do espelho, com* se e*sa parte "presa" carregasse seu *ado s*mb*io, seu la*o triste,
mes*o que não demon*tr* e me*mo que most*e u*a *elic*dade que a outra, que vive fora *o
e*pel*o, não *e*. Então, e*as são a mesm* pessoa, ma* ao mesmo *e*po são dife**ntes na
forma d* pensar e de agir.
Nie*zsche nos t*az u** provocação acerca da nos*a constr**ão afetiv*, q*e s* encaix*
n*ssa *dealização da e*istência de Pandora:
Esta secreta viol*ção *e si mesmo, esta cruelda** *e ar*ista, *ste
prazer de da*-s* a s* mesmo uma forma
como seria feito com
Rev. FSA, Te*e*ina, v. 23, n. 9, art. 7, p. 121-140, set. 2*26
www4.Unif*anet.*om.b*/revista
Entre Afetos e Mi*os em a *asa I*ventada, *e Lya L*ft
129
uma m*tér** difí*il, reca*c*tr*n*e, sofr*dora *or ma*car-se pelo
ferro de uma **ntade,
*e *ma crítica,
de *ma contr*dição,
de
um d*sprezo, de u* não, este trabalho inquiet*nte
e
ap*vor*ntement* volup*uo*o de uma al*a voluntariame*te em
desacordo consi*o pró*ria, que *e faz sofrer por *razer de fazer-
se sofrer, t*da esta "** cons*iên*ia" ativa, verdade**a matriz de
fenômenos ideais e i*aginá*i*s, acabou por produzir em **eno
dia uma pr*fusão de afirmações e de belezas novas e est*anhas e
tal**z, pela primeir* ve*, * beleza ela mesma (*IETZSCHE,
1978, *. 1*).
Es*a p**sa*em no* obr*ga a *ermos e* ment* * afeto no i*t*ri*r da nossa expe*iê*cia
* nosso poder d* realização, pois temos qu* enfrentar o* conce*tos sem que o* t*rmos es*ejam
colocados
de *a*eira explícita. Nota*o* o afeto *rticulad* e constru*do de **rma *en*a
a
u*a **ática que dá
valor * experiência de cr*ação. Desse mo*o, a pers*nagem util**a seu
próprio afeto para im*gina* Pand*ra, aqu*la qu* viria a ser uma gran*e *miga e confid**te de
suas e*oç*es e angústia*.
Pan*o*a ac**panha * personagem desde a sua infância * não desapare*e
na
ma*u*i*ade. Ou seja, a per*ona**m s*nte um afeto pelo seu reflexo de f*rma que não o deix*
ir, como geralme**e
as cr*anças fazem *om *eus amigos ima*inár*os. Mas s*bemos que
Pandor* nã* é apenas uma am*ga; é m**s do
*ue isso: r*presenta *eus a**eio* e
angústias
dep*sitados em out** pessoa. Com* se, sem ela, a personagem não con*eguis*e v*ver, p*is é
comple*ame*te controla*a por ela, mes*o que Pandora seja *penas um* proje*ão ** espelho,
como dei*a c**ro no *recho:
Então
ch**o neste corre*or onde me espera a Pan*ora
qu*
invadiu * minha menin*ce, agora m*lher como *u me tornei. N*
extr*mo *o cor*edor, in*tal* *um g*s*o b*eve, num tr*ço ú*ico,
um espelh* de alto a baixo, como em todas as casas onde *oro:
a*sim me sinto acompanhada, mas
p*ra o*
**tros comento
*ue
dá sensação de mais espaço.
Não preciso
de
nenhum esforço
p*ra que ela ap*reça,
*nigm*t*ca * imperiosa des*e quando ér*mos me**nas. Aq*ele é
s*u rei*o. Pandora me domina, me coma*da, eu *ão me reb**o
ou muito raramente (L*FT, 20*7, p. 20).
Na epí*ra*e, a personagem diz que *hama o reflex* de P*ndor*, mas não revela com*
a *utra a
chama. Agora,
no s*gund*
capítulo, el* nos mostra co** é chamada por sua
projeção, **mo v*remos no di*log* delas so*re a escolh* do nome:
Rev. FSA, *e*esina P*, v. 2*, n. 9, art. 7, p. 121-14*, set. *02*
w*w4.*nifsanet.c*m.br/revis*a
G. *. Car*alho, E. *. Al*e*da
130
Ela me perguntou há muito tempo:
*or **e vo*ê *e chama de Pandor*?
Porque
vo*ê é uma c*ixinha de surpresas. Nem todas ruins
acresce*to
rindo, não sei se e*a tem ideia do mito *rego.
Tente* e*pli*a* um
dia, isso eu le**ro, m*s e*a nã* se
interesso*.
E vo*ê sabe c**o eu te c**m*? Adivinha que nome te dei?
ela pergunta. Eu, surpresa, nun** imaginei q*e ela *e desse
*m nome especia*:
Não! Qual é?
*la *esi** um pouco, *á sua ris**a de sininhos, e responde:
Pené*ope.
Penélope? Ué, po* quê?
Porque
você pens* que *o*strói um* casa de viver, mas na
verdade te** s*a vida. *ece t**o
dia, sem s*ber q*e a vida
é
tecer a ***pr*a
morta*ha. *í, quan*o
acorda, desfe* tudo
**
sono, e re*omeça. Acordar * rec**eça* e*se t*abalho: o trabalho
de viver (LUFT, 20*7, p. 2*-29).
*an*ora diz **e * *h*ma de Penélope, e a*ui percebemos um* r***r*n*ia a out*o mito
g*ego presente na Odi*seia, de Homer*:
De*lagrada a Guerra de Tróia, Odisse* finge-se de louco ao s*r
procurado por *e*el*u, que lhe cobr* o cumprimento da
p*omessa ante*ior. Nã* decorre
d* *ovardia a tent*t*va
do
*rín*ipe
de Ítac*
*m *e omitir; ape*as
deseja p*rma*e*er *o
lado da e**osa
e
do *ilho rec*m-n*scido. Desmas*arado,
pa*te
p*ra Í*ion. Em co*sequência, Anticleia, sua *ãe, morre de
*audades, e Lae*te*, o pai, re*ira-se para o ca*po.
A Pe*élope *es*a, e*tão, ad*inistra* *s bens do *sposo. Finda *
guerra, contudo, Odisseu *ão *etorna. A*redit*ndo qu* o
he*ói
perece*a, su*gem candid*tos *o lei*o *a so*e**na, *erfa*e**o
10* (número ca**lí*tico
que remete à per*e*ção) no to**l.
Acom*dam-se ** palácio e, de banquet* em banquet*,
dilapidam *s bens do rei. Qua*e es**tada a esperança do nostos
(retorno), e
*o o**etivo de poster*ar uma
*scolha i*desejada,
as*uciosamente, a rainha ale** s*ntir-se
na *brigação de t*cer
uma mortal*a para * sogro e diz que, uma ve* conclu*d*,
tom*ria sua
decisão. À noite, p*rém, *empr* destece * peda*o
co*fecc*onado durante di*. Com o estratag*ma, ad*a o
por três
an*s * cob*ança da palav*a e*penhada, ocasiã* em que **o**e a
denúncia de uma e*crava, passando
en*ão a s*frer *ma pressão
insuportáv*l por *arte dos
pretendentes (*UMITH, 2012, p.
29).
Pa*d*ra
compara * pro*agoni*ta c*m Penélo*e pelo
fat* de elas tecerem su*s
mortalhas, mas desmanc*arem *odo dia. Ou seja, no*sa protagonista est* apenas exis*i*do, na
Re*. FSA, T*resina, v. *3, n. 9, ar*. 7, p. 121-140, set. *026 www*.Unifsan*t.com.br/revista
En*re Af*tos e M*tos em a Casa Inve*tada, de Lya Luf*
*31
concepção de Pa*dora, e não vivendo plen*ment*
com* seria esperado por alguém que não
está presa num reflexo do espelh*. Penélo*e desman*h*
sua mortalha na esperan*a d* volta
d* seu ama*o Odis*e*, enquan** nossa protag*nista ain*a *ão sabe o *otivo de desfa*er sua
mortalha diaria**nt*.
Ne*te capítulo ap**ece o mito das M*iras, qu* são *istas n* mitologia grega como um
t*io d* irmã* f*ande*r*s q*e determinavam *s destinos dos homens, det**mi*ação à qua* até os
*eus*s se submetiam. * pesqu*sador B*and*o tra* uma definiç*o s*bre as Moi*as:
*s Moiras *ão a pers*nific*ção *o destino in*ivi*ual, d*
"p*rcela" que toca a cada
um neste mu*do. Originariamente,
c*da
s*r humano tinha *ua Moira, a saber, "sua parte, s*u a
*uinhão", de
vida, de feli*idade, de desgraça. P*rsonificada,
Moir* s* tornou uma di*in*ade muito sem*lh*nte às Queres,
*e*,
no *nta*t*, *ar*icipar *o car*ter violento, demoníaco
e
sang*in*rio que es*as *ossuíam. Impessoal * **f**xíve*, a *oira
é
a
*ro*eção
d* um a l * i que
nem
mesm* *s d*us** po*em
transgred*r, sem *ol*car em *erigo a ordem
univer*al. É
a
Moir*, por exemplo, qu* impede um deus de p*estar so*orr* a
um *erói no campo
de
batalha ou de tentar sa*vá-lo, quando
chegou sua hora de mo*rer. [...] A *o*co
e pouco
se
*esenvo*veu a i*eia d* uma Moira u**versal, senhora incon*este
do destin* de todos *s homens. Essa Moira, *obretudo após as
epopeias ho*éricas, s* p*o*etou em trê* Moi*as: Cl*to, Láquesis
* Átropos, t*n*o cada uma função e*pecífica (BRA*DÃO,
20*9, p. 242-243, grifo* do aut*r).
"C*o*o t*ce e* *u* *oca o fio da exis*ência, cujo comp*imento * determi*a** por
Láquesis com o
auxíli* de sua varinha. Com sua te*oura, Á*ro*os corta este fio" (JULIEN,
2005, 149). Quando Pandora fala de te*e* a própria *ort*lha, *la cha*a *te*ção par* as p.
Moiras, como se, ao inv*s de *ecer * *rópria mor*alha, * pro*ago*ista deixasse *ssa tarefa para
as M*i*as, pois são elas que decidem * destino de c*da ser hu*a**.
O surg*ment* de
Pandora auxilia * pers**agem a de***volver seus *aço*
afetuosos
c*m a família, como not*mos no decorrer da narrat*va, principalmente *o *apítulo intitulado
"A sal* da família (biom*o do s*lên*io)". A per*onagem designa *ala a
como um ambiente
fami**a*, p*i* é neste espa*o, ger***ente, *ue as fam*lias in*erage*, conv*rsam, *r*nca* e se
*onhecem:
Onde mais nos sentimos abr**ados ou julgados. Onde mai*
*e
cometem amores e injustiças. Onde
os cuidados
estendem
br*ç*s am*rosos, e o ciúme
espreita sob pá*pebras aper*adas.
*nde so*os **is
acom*anhados, * mai* soz*nhos. Salvo* ou
*ondenados, euf**ia ou danação: fa*ília.
Rev. FSA, Teresina PI, v. 23, n. 9, ar*. 7, p. 121-140, *et. 2026 www4.Unifsanet.*om.br/*e***ta
G. H. Carvalho, E. S. Al*eida
132
* a sala da *amília é o *po*ento que, *omo u* arquiteto
que
m*stra seu projeto, eu dese*rolo a*ora: cen*ri* de *apel
c*m
mui*os des*nhos, móveis, quad*os, tapetes, *e*soas. A mesa de
janta*. *a frente dela mais
um grande espelho,
q**
est*anhamente *em ** vago tom
rosa *ntigo (L**T, 2017, p.
34).
Não obstante, o am*i**te famili*r pode ser *nterpreta*o *inda como um lugar de
crítica, julgamen*os e mesmo cinismo, confor*e apo*ta Pando** *m sua *nterlocução com a
protagoni*ta: " Com *amília a gente só tem dois caminhos, a*iga: cinismo ou ingenu*dade.
Voc* *oi criada para acred*tar em tudo. * co*eçou a desfiar, contando nos dedos: Papa*
N**l, Coelho *a Pásco*, C**onh*" (LUFT, 2017, p. *6).
É co* a família que construímos no*sa prime*ra **la*ão de a*eto, pois é neste
ambiente que *prendemos **br* o mundo, s*bre nós mesmos. * em alg*ns *omentos
p*e*isamos se* c*n*cos para nã* sofrermos por conta da* *obr*nças, das perguntas indi*cr*tas
feitas **l*s cr**n*as ou *or t*as mai* i*trometidas. Conforme o
*empo passa, *s af*t*s
constru*dos p*la personag*m vão se in*ensificand* ou *endo passageiros, de acordo *om as
pes**as que entram e* s*a vida.
A personagem tin*a uma rel**ão intensa e pro*lemática com a mãe:
A mãe nem batia na *orta, abri* num ím**to:
Está e*tudand*, faze*d* *ema de casa, ou se o*hand* no
e*pel*o e sonhando?
* s*m*re culpada, eu, a ré, me *ncolh**. E* escolhia ser assim,
pois minha mãe era uma boa mãe,
ené*gica e prát*ca, e* geral
alegre. Ca*t*va s**in*a, *om uma *oz doce. A censura, não
impor*a em
que
forma
ou frase, corre jun*o de no*sos
calca*h**e* e r*i * c*ração. Mas a gente tenta, e**ia, e*preit*,
corre va*ando ondas, *istânc*as e pe*fídias.
Ningué* sabe o que vamos encontra* a cada di*.
(Esque*i de dizer que na ca*xa de Pandora *icou a*e*as a
qu*
foi ***mada: a pálida e*perança.) (LUF*, 2017, p. 19).
A p*rsonagem recebia se*pre o olh*r crític* da mãe ou uma repre*nsão por algo que
havia
o* não *avia feito. Ti*ha se*pre essa t*ns*o
n* re*ação
das duas, como notamos
n*
citaçã* supracita*a, mas nem *or isso o afe*o ou amor pel* mãe diminuiu. A
persona*em
apenas tinha *sper*nça de que r*lação entre e*as mel*oras*e a
em algum **mento. *o
que
parec*, isso não *co**eu, e ela *uardou e*sa espera*ça na caixa de Pa**ora.
Rev. FSA, Teresina, *. *3, n. 9, art. 7, p. 121-140, set. 2026
www4.Un*fsan*t.com.br/*evista
E*tre Afe*os * *itos e* a Casa Invent*d*, de *ya **ft
133
Até o momento, a c*sa *stá ergu*da; já pas*amos pela *orta de en*rada, quarto das
crianças e da sala. Dessa fo*ma, a fund**ão
principal da ca*a e*tá pronta. N*tamos qu* os
afet*s pri*ários, que
são os *ent**ento* pel* fa*ília * *or si mesma,
estão cons**idados.
Agora entrarem*s num cômo*o
opc**nal, q*e não ex**te e* toda casa: o porão, que nos
fi**es de terror são m*str*dos *omo *m lugar escuro, pavoroso e sombrio, qu* provoca me**
nas pessoas *ue ent**m n*ss* **modo.
Para a *rot*gonista, o porão rep*e*enta o lugar dos segr**os e *os se**iment*s que nã*
q*eremos que venham à tona. É o l**ar p*ra se guardar as lembranças e situa**es *ui*s, seja*
elas *e*is ** imaginár*as:
* des*onhec*do *ora nos po*õ*s, e nós * pers*guimos, cheios
** curiosid*de e medo, na*ueles sonh*s de que não le*bramos
*em ao acordar. E * ge*te d*z: não quero encontrar, n*o quero
ver, n** quero saber.
[...] Se ***armos para ouvir, qu*m sabe
va*os perceber a d**
pelo temp* d*s*e*diçado *e*tindo r*i*a, inve*a, sen*o
intolerantes, di*ama**o, ment*ndo, critican*o com azedume,
passando por cim* do outro, esquecendo que*
no* ama de
verdade, humil*ando
par* *os se**irmos superi*res, sendo
*rué*s, quand* podíamos est*r cu*tind* *o*entos pr*cio*os.
A i*justiça comet*da, a perfídia treinada e exec*tad*, a fal*a de
com*reensão, o ranco*, o não perd*o, a inv*nção de cri*es que
ning**m c*m*teu m*s apontam*s * ded* acus*dor, ah, co*o
*cusam*s.
No* porões fervem segredo* de traiç*o, segredos de ódio,
s*gredos de *a*ernidade resseq**da, n*m to*o mundo que*
ou
d*ve ter *ilho. A mãe de vári*s filhos me revelou que não gost*
das crianças, pref*ria cachorrinhos (LUFT, 2017, p. 63-64).
Nesta casa inve*tada, * porão r*presenta os s*nt*mentos ruins,
a inju*tiça,
o
*ofrimento, a depressão. * *m mis*o de sensações r*ins que habita* a*uele lu*ar. E é neste
espaço *ue e*a destina as memór*as sobr* as
doenças e as mortes dos seus fami*iares. Aos
pou***, nesse por*o fi*am as lembra*ças da doença de sua m*e, **zheime*,
que po**mos
supo* no modo co*o ela **scr*ve:
A doenç* se **nifestou sutil: um
esq*ecim*nto aqui, uma
confusão *li. Uma
at*tude es*ran*a aqui, outra ali, inte**al*das
por fases de
aparente normalidade. A sociabilidade muda,
os
bo*s modos parece* esquecidos, o controle *o dinheiro *e torna
caótico, * é di*ic*limo interf*rir. Demorei, como quase todos, a
aceitar a realid*de. Para mim, minha mãe sofria
episód**s
naturais de e**uec**en*o. Só cho*ue de um dia a o
enc*nt*ar
Re*. *SA, *eresina PI, *. 23, n. 9, art. *, *. 121-1*0, se*. 2*2*
www*.Un*fsane*.co*.b*/revis*a
G. H. Carvalho, E. S. Almeida
134
com um* pintura biz*rra no r*sto, ela tão r*catada, me *ez
entender (LUFT, 2017, p. 71).
A im*ge* que ela lembra*a da *ãe "a*t*s a**gre, desp*ch*da, prátic*, bonita,
*rítica d* que chamava m*us \drama*\" (LUFT, 201*, p. *1) ficou para t*ás, pois no porão
*icou a **agem da mãe *nferma, *ue não se lembrava da filha. *u*n*o sua mã* morreu, el*
ficou reflexiva, po** vi* como u* si*a* de bondade
da
deu*a d* justi**, Nême*is, *ue se
co*padeceu da f*rma **mo sua mãe estava "v*vendo" nos últ*mos t*mpo*.
*urante a con*trução d* p*ti*, no capít*lo *e*s, vemos *ma Pando*a inqui*ta, a*itada;
a*guma coisa não está certa para ela, *ois *ente as afl*ções * te*o*es de su* i*ag*m do o*tro
la*o do espelho:
Pandora, cúmplice de tantas horas, se recusa a cum*r*r comi*o
esta pa*te da invasã*, ou inven*ão, da minha casa.
Cotidiano? Pát** meio de*erto? Nã* é pra mim. Nã* **
i*teress*. Vou sumir.
Ma*, Pando*a, as coisas do d*a a dia têm *mportância. A vida
tam*ém é isso, o *e*l, o concreto. Fica comigo.
N*o quero nem *aber. *la está inquieta.
Apesar d*sso, e*a fi*a
c*migo, meio hesitante. Pandora nunca
hesita*a (LUFT, 20**, p. 7*).
Percebemos que a *asa es*á edificad*, que os *f*tos foram construí*os de *orma sól*da
co* as o*tras pessoas, m** que, *om *la m*sma, ai*da fa*ta*a re*olve*. Pois é nítido nesse
di**ogo que o pátio repres*nta o v*zio, a *audade, a vi** cotidia*a qu* n** comb*na com
Pan*o*a. **lvez n*ssa p**tag*nis*a tenha entrado e* depressã* e comec* a *ensar e* out*a
vida, ou *e*a, a pós-vida, q** poderia v*v*r d* for*a diferente, ou poderia fugir *a*a o *ei*o
imag*nado
por *anu*l Bandeira, no poe*a Vou-me e*bora pra *asárgada, pub*icad* no
*ivro Libertinag*m (1930):
Pasárgada p**ia s*r um bom lugar, onde se acredi*a e* *uita*
coisas. Onde existe o bem, s*ja l* * que isso signific*. Onde
a
vida é colo *e mãe boa. Onde... e*fim, a lista * longa * tão fo**
de esquad*o que me dá vonta*e de *ugir. De ri*?
Na m**ha n**a vida eu
tentaria *ão escr*ver *ais sobr* o que
n*s*a aqui t** **
angustiado, ou *meaça tr*nsfo*m*r-se num
**istís*imo tédi*: sempre os mesmos assuntos? Mandaria só
fra*es sobr* que *az *
*
v*da valer a pena: as co*s*s humanas,
vida e amores, e o mistério de tudo até dor (mas que seja
uma dor de*ente) (*U*T, *017, p. 79).
**v. *SA, Teres*na, *. 23, *. 9, *r*. 7, p. 121-140, s*t. 2026 www4.Unifsanet.com.br/revista
Entre Afetos * Mitos e* a *asa Inventada, de Lya Luf*
135
A persona*em t**t* fugir das s*as q*estões afeti**s que *ã* com ela e com a for**
q*e *nxer*a o mundo, mas perce*e que n*o adiantará,
p*is, a*nde quer *ue vá, se*s
problema*, suas qu*stões vã* consigo e não dá para fugir
de
s* mesm*, porque Pando*a
**ntou, m*s não conseguiu. P*r isso, contin*a seguindo sua projeção f*ra d* espelho para
tod*s os *ug*res, até q*e sua casa estej* realment* te*min*da.
No últi*o c*pí*ulo, última parte da cas* é a
c*nstr*ída: o ja*d*m. Agora a casa está
pronta; a*ora a pro*ag*nist* p*de seguir em fre*te sem sua *iel Pandora:
En*ão eu *uero ainda ser isso. N*o
quero
ser uma *enélope
cuj*s dias s* resumem a tecer a *rópria *orta*ha.
Não qu*ro *ermi*ar neste jard** *e adeuses, ne* subir
*scadin*a fatal nem *er o fio cortado. Não s*u Pan*ora, n** o
rosto de*a que *ruxuleia no
espelho é de *erd*de o meu. Eu
*
i*vente* par* n*o m* senti* sozinha? Para ser *m*rtal? Espelhos
não *erão m*is tão importantes, mas a *ida *m si, a carn*,
a
pele, * voz fir*e, o mar, o ama*hecer ver*elho, até m*smo um
pedaço *e solidão e lágrimas, isso eu *uero ser, * po* que não?
(E assi* acho que traí P*ndora.) (LUFT, 2017, p. 95).
A personagem se sente traind* Pandora pelo fato de quere* viver no mundo real, pelo
f*to de não ficar com o refle*o do espelho, qu* a *colheu por t*n** tempo, mas que precisa
*artir. Ou *eja, permanecer n* e*pel** para que
* pro*agonist* possa dar continui*ade à sua
vida. * pe*son**em o*s*r*a *** talvez Pando** "fique *m *odas as casas i*ventad*s
des*a
vida: mora*o*a e**r*a de si mes*a, junto co* o *e*lexo *e tod*s o* que al* se espe*ham s**
de l*nge imaginar que n**c* ma** sairão, porq*e a *emó**a r**ém a vida" (LUFT, 20*7, p.
93).
Dessa fo*m*, Pa*dora *iv*rá p*ra sempre com el*, pois * seu af*t*
p*rm*necerá
em
qu*lquer casa que ela esteja.
Out*o
as*ecto que nos ch*ma at*nção em A casa inventada é a quest*o do te*po,
a
sua p*ss*gem e como ele foi aprov*it*do, como a própria per*onagem apont* no capítulo
final:
Mas,
a*tes
dis*o, *gora, agora, será que a*nda tenho tem*o?
*sse t*mpo que certa v*z escre** não e*is*e? Tempo de *es*stir,
*e*po d* vi*er, tempo de tece* m*is
** pouco do **no d**ta
vida de que a*inal eu t*nt* *osto, po* mais q*e me la*ente, por
mais que faça poemas, por mais que curta alguma melan*ol*a?
Re*. **A, Tere*ina PI, v. 23, n. 9, art. 7, p. 1*1-**0, set. *0*6
*ww4.Uni*san*t.com.br/r*vista
G. H. Carvalho, E. S. Alme*d*
1*6
S*mpre há tem*o diz Pandora, claro qu* *la f*l* assi*.
Temp* para pa*ar de s* encolher, se desenrolar de*s* concha
* sair *ara a vida! (L*FT, 2*17, p. *2).
Is*o é, na concepç*o d* Pan*ora, sempr* há temp* pa*a tudo, diferen*e do que
a
person*gem narrador* *ensa, pois par* ela seu tempo já passou; ela já fez tudo o que tinha
von**de:
Mas vou sem dramas. Meu tem*o se c*mp*iu, fiz o
qu* sabia,
amei como *ude, a casa fo* erguida com s*nho e sangue e carne
e almas. Às *ezes tra*alhe* com as tripas de fora,
ou*ras como
uma cr**nça feliz. *ão p**e fazer mel**r que isso. Não exist*
milagre (LUF*, 2017, *. 92).
Ne*ta pa*sagem, entra e*
c*n* o mi*o
de *ronos, que é um t*tã con*ecido como
*
"personifica*ão do te*po" ou "senhor do t*mpo". O C**nos da mitologia grega tam**m e*a
assoc*ad*, na mit*logia romana, a Saturn*, sendo nesta também conh*cid* como *enhor d*
tempo (BULFINCH, 2012, p. 19). A*er*a *o *ito de Cronos, Silva discorre:
Cronos *u Chr*n*s era o no*e atr*buído ao "tempo dos
ho*ens", ou s*ja, o tempo físico, cron*l*gi**, que segu* uma
ordem com *nício e fim. Atual**nte, cronos utiliz**o *ara é
definição do tempo cronológico e *ísico dent*o de um limite, o*
seja, refere-se a *ia*, meses, anos, *egundos, *inuto*, horas,
ca*e**ári*, rotina etc. (SILVA, 2*15, p. *).
Percebemos que ** obra de Luft a questão do
te*po e*** sempr*
p*esente, pois
acompa*hamos * const*ução do afeto durante todo o tempo de vida da personagem. Podemos
inferi* *ue, no capítulo "O ja*d*m dos deuse*", essa passagem d* te*po f*ca *ítida nos tr*chos
supr*citados.
4 *ONSIDERAÇ*ES FI*AIS
Ao longo da n*rrativa de A casa inventada, Lya Luft constr*i u*a re*lexão profunda
so*re a
**ssi*ilidade de edi*icar * afeto por meio d* inter*ção
com os mitos gregos,
e**abel*cendo *m lar imag*nári*
no qual
*ada parte da casa repres**ta
um s*ntimento ou
emoção c*nstitu*nte d* ser hum*no. A trajetória da
personagem e de *ua companheira
Pandor* con*igur*-se como uma *emons*ração ao leitor de que *s sentimentos e e**çõe* **o
Rev. FSA, Teresina, v. 23, n. 9, art. 7, p. 121-140, *et. 2026 www4.Un*fsanet.com.*r/rev*sta
Entre Afetos e M*tos em a C*sa Inventa*a, *e Ly* Luft
*37
construídos ao *on*o da ex*stência e nem sempre s* aprese*tam de *or*a posi*iva, podendo
hav*r *obran*as famil*ares, p*rdas de entes q*eridos e **nfl*tos internos que marc*m
indelevelment* a subjeti**dade.
* obra ev**enc*a qu* a casa, enqu**to metá*ora da ex**tênci*, não se **mita a um
e*paço físico, m*s se confi*ura
c**o uma
constr*ç*o *imbó*ica * afetiva que abriga
*emórias, desejos, m*dos e esperança*. Cada
cômodo, da porta
de espiar ao jardim dos
d*u*es, corresponde a uma di*e*são da experiência humana, revelando *ue a f*r**ção *o *a*
in*er*or *e dá de maneira gradua*, c*mp*exa e, *uitas vezes, contraditória. Os mitos gr*go*,
nesse contexto, não funcionam apen*s como re**rências cult**ais orname*t*is, mas
c*mo
estrutu*as i*terpretati*as que pe*mite* *ersonagem (* ao lei*or) compr*ende* e à
*omea*
vivê*cias que, de *utra for**, perma*eceriam ind*stint*s.
* interação entre ens*io, *omance,
*oesia * mitos presen*e* na obra permite q**
a
p*r*onagem *ri*c*pal cons*rua, juntamente com o l*itor, sua própri* *i*tór**, e*vol*endo-o *a
criaç** de um lar por meio do afet*, das emoções d*s v*vências dos personagens q*e e
habita* a c*sa. Essa escr*ta *íbr*da, que b*rra as *ronteiras entre os gê*ero* lit*rários,
*prox*ma-se da aut*ficç** refor*a o cará*er fra*ment*r*o da ident*da*e conte*porâne*. A e
autora não
apenas narra
uma traje*ó*ia **d*vidua*, mas
con*ida o leit*r a refletir sobre sua
própria existênc*a, sobre os
la*o* q*e co*struiu e s*bre as ca**s interiores que habitou ao
lon*o da vida.
N*ss* perspect*va, pode-se entende* qu* a *br* é uma homena*em * *i*a, às relações
af*tivas, à ma*uridade e, *rincipalmente, à in*â*cia, vist* *ue é *essa fa*e que a *er*o**gem
c*ncebe Pandora, mostrando **e su* imaginação é uma for*a *e a*eto, o qual * a fundação
*e * ua
casa. A figura de Pandor*, enquan*o duplo imaginário, representa não *penas
*m a
companheira, mas uma e*t*nsã* da própria prot*gonista, aquilo qu* ela proje*a para s* *esma
para co*segu*r l*dar com as angús*ias, as incertezas e *s *ontra*ições da existência. A re*ação
entre a* duas revela a com*l*x*dade do p**cesso de aut*conhecimento e a difi*uldade de se
c*nfr*ntar co* os própr*os limite* e de*ejo*.
A *resenç* do* mitos gre*os Pandora, Pe*élo*e, as Moiras, C*on*s e Nêmes*s,
*on*ere narrat*va uma à
dim*n*ão alegórica que amplia s*u alca*ce r*flex*vo. Cada mito
opera como **a *have interpretativ* q*e i*um*na aspectos específ*cos *a experiência
humana: a cu*i*sidade e a esper*n*a (Pand*ra), a espera e a repetição (Penélope), o de*tino e
a *ini*ude (as Moiras), o tempo e a **s**ge* (Cronos), a justiça e a com**ixão (N*mesi*). Tal
art*cula*ão en*re
mi*o
e existê*cia permite qu*
a
obra transcenda o plano i*d*vidual
e
dialogue c*m questões universa*s que at*avess*m cul*ur*s e época*.
Re*. F*A, Teresina *I, v. *3, *. 9, art. 7, p. 12*-1*0, *et. 2026 www4.Unifsanet.com.br/r*vista
*. *. Carvalh*, E. S. Almeida
138
O pr**e*so
de
cons**u*ão *a casa, assim, configura-*e c*mo u*a metáfora do
*r**e*so de indivi**ação, no *u*l a personagem precis* confrontar-se com sua* so*br*s, seus
tr*um*s e s*as mem*r*as para c*nseg*ir edificar um lar *nterior *ól*do. O porão, que *br*ga os
se*redos e os *entime*tos rec*lca*os, representa justamen*e essa dim*nsão obscur* da psique
que pre*isa ser *e**nhecid* e integrada p*** qu* a c*sa (e o sujeito) s* com*le*e. A doença e a
morte da m*e, narradas com sensi*ilidade e prof*nd*dade, ilust*am como
as per*as e as
ausênc*as *ambém fazem pa*te *a const**ç*o do afeto e da formaçã* do lar in*eri*r.
** desfecho, quando a personagem *eci*e s*guir em fre*te sem Pandora, há um *esto
de libertação *
de aceitação da própri* finitude. A narrativa s*ge*e qu*, em determinado
momento da e*istência, é preciso deixar pa*a trás certos sup**tes imaginário* **ra conseguir
viver de forma mais plen* e autêntica. A personagem reconhece qu* não quer ser uma
P*nélope cujo* di*s se *esumem a tece* a própria mortalha, n*m uma Pandora p**sa ao r*f**xo
do espelho. **a *ue* *iver a vida em sua c*ncretude, com toda * s*a be*eza * d*r, com *oda a
sua incerteza e *i*téri*.
As*im, A *asa inven*ada aborda a *mportânci* da construção do af*to n* formação d*
um lar, o *ual entendem*s com* c*da indivíduo, po* meio *a complexidade dos sentime*t*s
humanos, mostran*o que é possível en*ontrar *eleza at* ***mo *as emo**es ne*ativas,
*través da im*ginação e do olh*r
p*r* si. A li*erat*r*, nesse s*ntido, c*m*re
um a
f*nção
ess*nc*al: de *
pe*mitir qu* o leito* se reconheç* nas históri** q*e lê,
q*e encontre nas
*al*v*as do* outro* *m eco para s*as própr*as *xperiências * q*e, a*r*vés des*e pro*es*o,
possa co*preender mel**r * ** mesmo * ao mundo *u* **bita.
Portanto,
*ercebemos que A
*asa inventada *alor*za a in*rospec*ão, a memór*a *
a
*efl*x*o sob** a existê*cia. * obra de Lya Luf* *ialoga co* outras narrativas que exploram a
c*sa como metáfora do sujeito,
ao m*s*o tempo em que se destaca *or **a originalid*d*
e
profundidade. A autora consegue articular elementos
auto*iográficos, *e*lexões
filo**ficas
e
*efer*n**as mitológicas, cr*ando
um *
narrativa q*e *, ao m*smo temp*, ín*ima e universal,
p*rti*u**r * col****a. Nesse
sentid*, A *asa inventada nã* apenas
conta uma
*is*ória, m*s
*ropõe uma experi*ncia de leitu*a q** convida à reflexã* e à transform*ção interior.
*EFERÊNCIAS
BRA*DÃO, J. S. Mitologia *rega. 21. ed. Pet*ópol*s: *ozes, 2*09.
BULFINC*, T. O livro de ouro da *itologia: hist**ia* de de*ses e heróis. 34. ed. *io de
Janeiro: Ediouro, 2**6.
Rev. FSA, *eresin*, v. 23, n. 9, a*t. 7, p. 121-140, set. 2026 www4.Un*fsanet.com.*r/r*vista
Entre Afet*s e Mi*os em a Casa Inventada, de Ly* L*ft
***
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www4.Unifs*net.com.br/rev*sta
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140
*omo Referenciar este *rti*o, confor*e ABNT:
CARVALHO, G. H; ALMEIDA, E. S. Entre Af*tos e Mitos em a Casa In**nt*da, *e Lya *uft. Rev.
FSA, Teresina, v. 23, n. 9, art. 7, p. *21-140, s*t. *026.
Contri*uição dos Autores
G. H. Carva*h*
E. S. Almeida
1) concepção e planeja*ent*.
X
X
2) *nálise * interpret*ção dos *ados.
*
*
3) elaboração do ra*cunho o* na revisã* crítica d* c*nt**do.
X
X
4) p**ti*ipaç*o na apro*ação da versão final do *a*uscrit*.
X
X
Rev. FSA, Teresina, *. 23, n. 9, art. 7, p. 121-140, set. 2026
www4.*ni*sanet.com.br/revista
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