Centro Unv*rsitário Santo Agostinho
www*.Unifsanet.*om.br/revista
Rev. FSA, T*r*s**a, v. 23, n. 7, art. 8, p. 139-1*4, *ul. *026
ISSN Impres*o: 1806-635* ISSN E*etrônico: 2317-2983
http://dx.doi.org/10.12819/*026.23.7.*
Entre Axilas e Ressecções: Corps-*e*t como Dis*os*tivo d* *scrita na Lite**tura
Contem*orânea
Betw*en Ar*p*ts and Res*ctions: Scrap-**dy as * Writing D*vic* in Con*e*porary *iterature
Horácio R*be*ro Pires Peixot*
**utorando *m Estudos de Lit*ratura na *rea de Liter*tura Comparada p*la *niversidade Fe*eral Flum*ne*se
Profe**or do En*in* Básico, Técn*c* * Tecnoló*ico do Instituto *e*eral Flum*nense Campu* Bom Jesus do Itaba*oan*
E-mail: hsrpir*s@gm*il.*om
Sa*ah Vervlo*t S*a*es
Doutor* em E*ucação pela Un*versidade de São Paulo
Profess*ra do Ensino Bás*c*, T*c*ic* e Tec*oló**co do Instituto F*d*ral F*uminense C*mpus Bom **s*s do Itabapoana
E-mail: sa*ahver*l*et@gmail.c**
E*der*ço: Horác*o Ribeiro P**es Peixo*o
Edito*-Chefe:
Dr.
T*nny
K*rley
de
Al*ncar
IFF*umine*se - Av. Dari* *astos Bor*es, 276, Parque d*
Rod*i*ues
Trevo,
Bom
Jesus d*
I*abapoa*a,
CEP:
28**0-000, R*o
de Janeiro/RJ, Brasil.
*rtigo **cebido em 06/06/2026. Últim*
versão
E*dereço: Sarah Vervloet So*res
re*e*ida em 23/0*/2026. Apro*ado *m *4/06/*026.
IFFlumin*nse - Av. Dario Bastos Bo*ges, 276, Pa*que *o
*revo,
B*m
Jesus do
Itabapoan*,
CEP:
28360-0*0, R**
Avalia*o pelo *istem* T*iple *eview: Desk Review *)
de J*neiro/RJ, Brasil
*elo Editor-Chefe; * b) **ub*e Blind Re*iew
.
(avaliaç*o ce*a por dois av*liadores d* área).
Revisão: Gramatical, Nor*at*va * de Formatação
H. R. P. Peixoto, S. V. *oares
*40
R*SUMO
O presente artigo tem *omo objeti*o an*lisar as o*ras A axila de Egon Schiele, de A*dré
Teced**ro, e Teoria da Ressecção, de Tat*a** Pe*ueno, a pa**ir d* co*c**ção de cor*s-rest
*omo oper*dor de escri*a *a Liter*tura Contemporânea. O est*d* i*vestiga de q*e modo tais
obra* d**e*t**ilizam a comp*eensão do corpo co*o u*idad* orgânic*, apresent*ndo-o co*o
fragmento-excesso-matéria em
exposi**o. Em diálogo com *ulia Kristeva (1989), Georg*s
*ataille
(*020) e Judi*h *u*ler (2022), argumenta-se que o cor*o, quando *e*sado em sua
dimensão *esidua*, d*ixa de ser mero objeto de r*pre*entação pa*a s* constitui* como campo
*tivo de *r*du**o de *e*t**o. Nesse *ont*x**, a li*gua*e* não a*ua co*o mediação
*r**sparen*e, e sim *omo prá**c* que expõe, c*rta e (re)configura o corpo, *nstaurando uma
escrita marcada pe*a instabilidade e pela tens*o entre visibilidade e apagament*. A anál*se
evidencia, assim, um* poética q*e de*loca f*o*teir*s entre sujeito e matér**, for*a
e
decompo*ição, apontan*o para modos
de existência que se const**em na própria falh*, sem
recorrer a model*s de to*alidade.
Palavras-*have: Corps-rest. Abjeção. Liter*tura Co*tem*orânea. Materialidade.
*BSTRAC*
This artic*e aims to an*lyze *he wo*ks A ax*la de Egon Schiele by An*ré Tecedeiro and
Te*ri* da Ressecção *y Tatiana Pequeno, ba*ed
on the con*eption of the s*rap-body as an
o*erating agent of wr**ing in Contem*orary Litera*ure. The study investi*a*es how *h*se
works destabilize *he unders*anding of the body *s an *r**nic unit, presen*ing it *s fragmen*-
excess-*atter on display. In dia*og*e *ith *ulia Kris*eva (1989), Georges *at*ille (*020), and
Judi*h B*tler (*022), it is *rg*ed that the body, **en thoug** of in its resid*a* dimension,
*eas*s t* *e a mere object of *e*resentation to constitu*e itself as a* active field *f meanin*
productio*. In *his *ontex*, language
doe* not ac* as transparent med*atio*, bu* rat*er as
a
pract*ce that *xpos*s, *uts, and (re)co*f*gu*e* the b*dy, establ*shing wri*ing mar*ed a
by
ins*ability and the tensio* between vi*ibility *nd
erasure. Thus, the
ana**sis
highlig*ts
a
poet*cs that displaces boundaries
betwe*n subject a*d matt**, fo*m and
decompos*tion,
po***ing to *odes of e*istence that are c*nstr*c*ed with*n *he *aul* itse*f, *ithout resorting to
models of to*ality.
Keyword*: *crap-body. Abject*on. Contempo*ary *itera**r*. Materiali*y.
Rev. FSA, T*resina, v. 23, n. 7, ar*. 8, p. *39-154, jul. 2026
www4.Unifsa*et.c*m.br/rev*sta
Entre Ax*las e Resse**ões: Cor*s-Rest co*o Disp*sitivo de Escrita na Literatur* Conte**orânea
141
1 *NTROD*Ç**
*n*r* zona* q*e a cul*ura insiste *m oc*lt** e gestos qu* expõem o que não se deixa
domest*ca*, a L*teratura Contemporânea tem *eiterado um* inclinação
decisiva: *s*re*er
a
*artir do qu* so*ra. N*o ** trata mais de n*r*ar o corpo como unida*e estável, reconhecí*el
*m *eus con*orn*s, mas sim d* *co*p*nhá-lo em se*s *ontos de ruptura - a*i on** * **rma
ced*, a matéria insiste, o sen*ido falha. É nesse intervalo, entre a sup**fície
visí**l * aquilo
*ue dela e*ca*a, qu* s* *nscre*e *
presen** diálogo em *onstrução com quem o p*ssa
recebe(*).
*om*n*o co*o eixo norteador d* análise q*e se a*resenta, as o**as A axila de *gon
Schiele, *e André Tec*dei*o,
e *e*ri* da Ressecção, de **t*ana Pequeno, pr*p**-se
(re)pe*sar o *orp* não com* orig** o* totalidad*, *orém c**o resto - fragmento, ex*esso,
zo*a d* fricção. A *xila - espaço mar*inalizado-*bjetificad* d* co*po -; e * ressecç*o - ato
*e corte e reti**d* - *peram, a*ui, menos como mera* image*s qu* dispositi*os crí*i*os **e
ten*ionam as relações int*rio*/exterior, pres*n*a/au*ênci*, *ntegridad*/decom**siçã*.
*m diálog* c*m p*r*pectivas que compre*ndem a
abjeção e a **a*sgre*sã* com*
fo*ças estrutu*an*es
*a expe*iên*** estétic* -
como em Pod*res
*e l a
perversión, de Julia
Kristeva, e em Erotismo: *orte * sensualidade, de Georges Bat*ille -, este ensaio reún*
reflexões que interr*gam os mo*os pelos quais a es*ri** se apro*i*a daqu*lo que p*rturba,
d*so*g*n*za e e*cede as f*rma* e*tabi*izadas do sujeit*. Neste sentido, * cruc**l que **
c*mpr**nda a li*e*atura c*mo representaçã* pr*tic* qu* expõ*, co*ta e (re)configura o corpo
em sua ma*eri**i*ade instável e l*q*ida.
Os tex**s, aqui reunidos, p*rtem da prem*ssa de que há, na p**dução l*te*á*ia
co*tempor*ne*, u*a poéti*a do resto: uma escr*ta que s* *onstró* * part*r da falha-a*e*tura-
exc*sso, recusa*do modelo* de *lenitude * coerênc*a. Tal *o*t*ca além d* deslocar o* limi*es
do dizível, reinscreve o cor*o como campo *e d*spu*a, af*tado por f*rças q*e o fr*gmentam e,
ao mesmo tempo, o tornam pr*d*tivo. Assim, en*re axilas e resse*ções, o **e se d*lineia não
é a im*gem *e um co**o em ruína, mas tamb*m e, p*incipa**ente, a emerg*ncia de for*as de
existênc*a *ue emergem e *ons*i**em prese*ça justamente naq*ilo que não *e
per*it*/aut*riza integra*. Mai* *o qu* tematizar o cor*o, este e*saio *posta *a **crita como
lugar de fratura: espaço onde lin*uagem e ma*éria coa*itam, *pesar de r*s*alv*s: produzi*do
sent*do* que n** se e*tabilizam, e *im pe*ma**cem em *e*são. Trata-*e, p*rtanto,
de
acompanhar a expressão literária e* *u* capacida*e *e toc*r o limite - não
para
r*solvê-lo,
mas p*ra co*s*itu** p*esença e ocupá-l*.
*ev. *SA, Teresi** P*, v. 2*, n. *, art. 8, p. 13*-154, *u*. 202*
www4.*nifsane*.com.br/*evista
H. R. P. Peixoto, S. V. *oares
142
Ante* de entra* no poema que s*gue,
vale r*ssaltar *ue se tr**a de uma poética *ue
p*opõe um tip* de abertura para * que não se re*olve d* *mediato. O que aparece não se
organiza como explicação, m** como *m pe*cur*o sensível, feito de marcas, in*erval*s
e
pequenas insistências. As imagen* não *ed*m de*ifr*ção rápi*a; elas se aproxim** de
ex***iência* que permanec** em *rocesso, ent*e o que ainda *ói e o que começa * se refazer.
É nes*a dinamici*ade, m*is do que em qua*quer conc*usã*,
que o texto s* sustenta - e *
a
partir dele qu* a anális* a se*uir do poema o ideal d* cicatr*za**o d* Tatian* Pe*ueno (2023,
p. 14) *e de*envolve:
(...) às vezes o u**igo do sonho
coexist* co* a teoria da cicatriz
ist* é
sob a *rama do i*so*dável
eu guard* as *azes que o tempo
foi retirando
de*ois do* emp*a*tros * *leos
d*r*o c*m a pele aind* *sfolada
mas depois do *mb*go livre
descoberto
q*e* sabe cicatrizado
vem **s*e*do uma nov* *erme
p*ra mim que não s*u
d*da a ser c*rdeiro
a te*ria d*z enfim que
trocar a pele
é pertencer ao futuro
A poética *e P*quen* (2023), n*s*e poema, o*er* por
uma imagética *pidérm**a
e
onírica que ar*i*ula co*po-tempo-tran*formação c*mo dim*nsões in*eparáveis de subj*tiv*ç*o
d* maneira que * l*itura se *esvela como encenaçã* de um processo de mutaçã*-me*amo*fo*e
conscien*e no qual a *erid* deixa de figurar apen*s co*o marca de vulnerab*li*ade, passa*do
* se constituir como dispos*tivo a*ivo de reinvenção de si.
Logo nos pri*eiros versos : "à* v*ze* o umbigo do sonho/ *oe*iste com a *eo*ia da
cicatriz", * auto** e**abelece uma tensão semânti*a entre interio*idade e inscrição corporal. O
"um*ig* do sonho" *ugere origem, centro vital e
memó*ia prim*rdi*l, enqua**o a "t*oria da
c*c*triz" de*lo*a ex*eriência p*ra o cam*o *a e*abo*ação reflexiva. A *ustaposição en*re a
"umbigo" e "teoria" revela *m* esc*ita que *e co*stró*, simulta*eamente, *o *egistro sensorial
e conceitual, *pr*x*man*o experiência v*vida e
elabor*çã* c*ít*ca. T*l ar**cu*ação evid*nci*
uma poética que não *epara corpo e pensament*, *nstauran*o o
que se pode c*mpr***der
como *ma *pistemologia da pe*e.
Rev. FS*, Teresina, v. *3, n. 7, *rt. 8, *. 13*-154, jul. *026
w*w4.Unifsanet.com.b*/revista
Entre Axila* e Resse*ções: C*rps-Rest como Disposi*ivo de Escrita na Literatura *ontempor*nea
143
A escolha d* tempo verbal *o pr*sen*e do *ndicativo: "**existe", "eu guar*o",
"durmo", "vem nascendo", fix* o poema em u* *ont*nuo proc*ssual, recu*an*o a idei* de
tran*formação como event* concluído. A met*morfo*e **o é *arr*da re**ospectivamente; *la
o**rre no próprio ato de enunciação. Esse *so do presente refo*ça a dimensã* performat*va da
escrita: * v*z poética *ão de**reve u*a *udanç*, mas a realiza, linguisti*a*e***, *nsta*rando
um tempo de tr*nsição *er*anente.
O campo lexi*al mo*i*izado pela autora concen*ra-*e em term*s l**ado* ao cuidado e
à reparação: "*azes", "*m*lastros", "óleos", "pele es*olada", "*icat*izado", "derme",
*o*po**o uma *mag*tica médica
e epidérmica que transfor*a o co*po em arquivo
*e
expe*iências. A cica**iz, *onge de ser apa*amento da ferid*, torna-se vestígio ativo do t*mpo.
O **rso "eu guardo as gazes que o te*p*/ foi *etira*do" introduz uma relação *aradoxal *om
a cura: guardar
aq**lo que deve*ia ser
descartado indica a preservaç*o da memória da
dor
como mat*ria constitutiva do suj*ito. A pele, nesse contex*o, func*onando como s*p*r***ie d*
ins*rição te*poral e política.
A progressão imagética conduz a *m p*ot twist: "vem nascendo u*a n*va derme/ para
mim que não sou/ d**a a ser c****i*o". A eme*g*nci* de "uma nova de**e" sinaliz*
renova*ão corp*ra* e simbólica, en*uanto a recusa
a
"ser cord*iro" co*vo*a um
gesto de
insu*missão. A *m*gem do *ordeiro, conven*ionalmente, associada à docilidade s*crif*cial *
negad* por *m sujeito qu* assume a *ró*ria
transformação c*mo ato deliberado. Aqui,
a
c*nst**uição do suj*ito *e man*fe*t* c*mo r*c*sa da passivi*ade e afirmaç** de uma *uta**o
autogesti*nada.
Do po*to de vista estr*tural, o *oema
a*ota versos livres e curtos, f*e**entement*,
inter*ompidos *or en*a*bements que produzem suspen*ão * **ntinuidade simultâ*eas. Essa
fragmentaç*o *ítmica e*pelha a *rópri* c**di*ão do cor*o
em
tra*sição: a forma *o poe**
*ncarna * instabilidade que *ematiza. * ausência de pon*uação *o**e intensifica a s*nsaçã* d*
fluxo e abertur*, permit*ndo que as *magens se encadei*m sem fechamento definitiv*, como
se a própria linguagem *stivesse em pro*esso de *roca de *ele.
* fecho: "trocar a *ele/ é *e*tencer a* futuro" condensa o eix* s*mântic* do po*ma. *
transformação e*idérmica converte-*e em ge*to prosp*ct*vo: mudar de pele não é tã* somente
*obre*i*er ao
pas*ado, ma* ins*rever-se em um horizont* p*rv*r. Nesse se*tido, * cicat*iz
deixa de ser marca de en*er*amento e pas*a * oper*r como l*mi*r. Tr*ta-se de uma potênci*
de autotransform*ção contínua p*la qual o corpo fe*ido não só resi*t*, como também pro*uz -
a partir d* sua* próprias f*ssur** - novas maneiras de existê*cia e de tem*orali**de/s. P*r este
viés, o si-*arrável - em dev*r de narração - designa a capacidad* de produzir a si *esmo nas
Rev. FSA, Teresina PI, v. 23, n. 7, art. 8, p. 139-15*, *ul. 2**6 www4.Unifsanet.com.br/*ev**ta
H. R. *. Peixoto, S. V. Soares
144
e pelas ruínas, agir desde as margens-entranhas * de *n*tau*ar formas de vi*a *ue emerge* da
p*ópria experiência de deslocamen*o. A troca de pele são as tensas, i*tensa*, c*n*tantes
tra*sf*rmações nos proces*os de re/des/c**strução *e *i-nós. Si-nos*a ide**idade.
Escrever desd* a* entranhas - tomando o umbi*o co*o tropo - além de constituir *ma
me*áfora e*tética, *labora um gesto radical
de (re)elaboração de si a
partir
daquilo que foi,
*istoricamente, ins*rito co*o
a*jeto, i*e**ti*o ou *ndizível. O fazer poético de André
*eced*iro e Tatia*a Pe*ue*o *videnciam que a escrita
de au*ori* t*an*/trav**ti * dissidente
o*era c**o espaç* de (re)ins*ri*ão do c*rpo no mundo. Um corpo qu*, a**m de se contrapor
* nor*atividade *isheterocentrada, a deso*ga*iz* e (re)configura por meio *a linguag*m. Esta
pres*uposição é - em Tecedeiro (2021, p. 8*) - inve*samen*e pr*porcional a o **eal da
ci*atr*zação de Peque*o (2023, p. 14) no que *e refere à cic*triz, à m*rca:
Diss**am-me no ho*pital que um músculo *edeu.
*lh* n* espe*ho * meu corpo inteiro
* mais aq**le po*to que e* *im não existia
a*é q*e a d*r o *esen*ou.
A *ele *erena e br*nca, *em marcas de qu*lqu*r lesão e penso
*om* é incrível a dor *anta
que u*a superfície *o*e esconder.
Nes*e poema, o corpo é apr*endid* a partir de uma e*periência de ruptur* *ue não s*
perm**e visualiz*r ple*ame*te na s*perfície. A
*nfo*maç*o médica -
"um músculo c*d*u"
-
in*ugu** uma d*ss*cia*ão entre o q*e é s*bido e * *ue é vi*ível: diante *o espe*ho, o s*j**to-
poético recon***e um c*rpo apare**emente ínt*gro, cuja pele "seren* e bran*a" n*o *cusa
a
v*o**ncia sofr*da. No enta*to, a dor atu* como força de inscrição, dese*hando *m "ponto" qu*
*ão exi*ti* antes, mas
que passa * reor*aniz*r a percepção *e s*. O texto, assim, desl*ca
a
centralidade ** olhar para evidenc*ar a insu*iciên*ia da supe*fície, sugerind* que o corpo não
c**ncide com aqui*o que *e **str*, t*d**ia
s* con***tui, também, por aq*ilo que permanece
laten**, oculto, porém in*ensamente at*vo como um* marca; u*a cicatriz. A *elação entre dor
e invisi*ilidade pode **r pensada a partir da ló*ica do excesso de Georges *ata**le, por m*io
da qual a experiên*ia
corporal
ultrapassa * forma e escapa à *rde* da repr*sentação. Para
B*t**lle (2026, p. 44), * erotismo é a aprovaçã* da vida até na morte. Em outras palavras, "a
morte, sen*o * destruição de u* ser descontí**o, *ão *oca e* *ada na continuidade d* se*,
que existe fora de nós, gera*ment*" (BATAILLE, 20*6, p. 45), o q*e *ermite compreender a
dor não c*mo *inal visível, *as *o*o intensi*ade que desor**niza o **r*o por dentro. A*esar
Rev. FSA, Teresina, v. 23, *. 7, *rt. 8, *. 139-15*, *ul. 2026
www4.Unifsanet.com.br/re*ist*
Entre *xila* e Ress**ç*es: Corps-Rest como Dispositivo de Escr*t* na Litera*ura Co*t*mporâne*
1*5
de não se* aparente e v*sual, ela e*tá entran*ada no corpo em questã*, no í****o, no indi*ível-
invisív*l, na* en*ranhas.
Esta atitude a*roxim*-*e da noção de auspício, aqui mo*ilizada como procedimen**
hermen*utico: d**e*e*temente do ma*a, que ope*a na su*e*fí*i* como con**rno e decalque. O
*us*ício imp*ica a leitura das entranhas, p*net*ação n*s *am*das profundas do *i*ido
para
ne*as decifrar s**ais e fu*uros pos***eis como se po*e **rce**r em (*EQUENO, 2023, p. 18):
n*o s*i como manti*e meu rosto.
con*a-se que é possível reconhe**r algué* p*las *er*das marcadas no corpo.
neste c*so seria preciso escutar as agul*a* sérias ob*tinadas
di*íceis em mim la*ejantes. a pe** por um tempo tev* de se
acostumar à *ue*ma do* abrasivos à laceração a esta m*r*a em forma de gota. como
algo que se abriu *emais * agora é tecido *e**rado músculo r*sg*do. a ex**r*ência
se a*roxima d* um
campo ab*rto ain** sem *e*áforas como o *eal *os *iagnósticos
se rea**indo indefinidam*nte no tempo na ca*ne emagrecid* do corp* cu*o
reconheci*ento *inda não foi poss*ve*.
A poeta apresenta uma tessit*ra verb*l que constrói uma poética da sobrevivência
m*rc*da *ela fragmentação corporal e pela instabil*dade ident*tária, a**iculando memória, dor
e rec*nh*cimento a part*r *e uma *in*uagem que *ension* lirismo mate*i*lidade. O v**so e
i*icial: "não s*i como mant*v* meu ro*to.", j* instaura um regi*e de incert*za
e
desloca*ent* subjetivo. O uso do pretérito perfeito "ma*tiv*" combinado ao advérbio
interrogativo implí*ito "não se* c*mo" indic* u* passado
*uja preserva*ão não se ex**ica
plen*m*nte, s*gerindo que a *ermanência d* rosto - me*áfora clássica da identida*e - não é
garantia de *ont*nu*dade do eu (do si). A fras* isolad*, en*er*ad* por ponto final, produz
efeit* d* su*pensão e *bre o poema como enigma *nto*ógi*o: *anter o rosto *qu*vale
a
ma*ter alg**a forma
d* r*conhecimen*o, entretanto esse rec**hecimento é *recário, quase
*nexpl*cáv*l.
Na sequência, o poema desl*c*-se par* um r*gistro impess*al: "c*nta-se que
é
po*sível **con*e*** algu*m pe*a* feri*as marcadas no
cor*o." A con*trução em voz
indeterminada "conta-se" insere *ma es*éc*e de saber colet*vo
ou mé*ico-soc*al,
a*ro*imando o texto de um d*scurs* clínico ou testemunhal. O reconhecimen*o, nesse
contexto, deixa de se apo*ar na **ce passa residir
e
a
nas "feridas",
*eslocando o eixo
identitário da aparência para a ma*ca do visível, s*cialm*nte *ceit**el, *ara
* *astro
tr*umático i*scrito na carne. O sintagma "feridas marcadas" reforça a red*ndância semâ**ica
d* inscrição: a fe*ida já é marca, no entanto o poema du*lica e**a marcação, *nfat*zando
*
*nsis*ência
do trauma com* escritura
co*poral. O verso seguinte "neste c*** seria preci**
Rev. FSA, Teresina PI, v. 23, n. 7, a*t. *, p. 139-1*4, jul. 202*
ww*4.Unifsanet.com.br/revis*a
H. R. P. Peixoto, S. V. Soares
146
escuta* as agulha* séri** obstinadas" int*oduz uma sinestesia significat*va: feridas *ão são
apenas vista*, mas escutadas. O *er** "escutar" deslo*a o campo sensorial pa*a a aud*ção,
e*quant* "agulhas" evoca procedim*n*os médicos, suturas, pe*furações. Os adjetivos "sérias"
* "ob*tinadas" atr*buem ag*ncia às agulhas, pers*ni**cando-as e *nt*nsificand* a sens*ção de
persistência dolor*s*.
A s*quênc*a "d*fíceis em
mi*
latejantes" fragm**ta a *i*taxe e apro*ima * discurso
de *m fluxo sensorial
dir*to,
o*de os adjetiv*s e par*i*ípios se acumulam sem *one*tores,
mimetizando a experiên*ia pu*sa*te da dor.
* emprego do g*rúndio implíc*to "*ate*antes"
mant*m a *ç*o em c*rso, sem resolução. Ao longo do *oe*a, ob*erva-*e *redomi*ância do
pre*érito imp*rfeito "t*v* de se acost**ar", "era", tácito e *e formas nominais q*e prolonga*
a ex**riência no tempo. O imperf*ito suge**
duração e *e*et*ção, ref*r*and* a ideia de um
cor*o submetido a processos contínuos de i*ter*enções e adaptações. A e***ess*o "a pe*e por
um tempo te*e *e s* acostumar" evidencia uma temporalidade forç*d*, em que o verbo modal
"teve
de" i*dica imposi*ão ex*ern*, enquanto "acostumar" suge*e uma a*rend*zagem
do*orosa. * léxico int*nsi**ca a m*terial*d*de *a *xperi*ncia: "*ueim*", "abrasivos",
"laceração", "t**ido se*a*ado", "músculo r*sgado". Tr*ta-se de um vo*abulário q*e remete
tanto ao campo méd*co quan*o ao *ampo da v*olênc*a, d*ssolvend* as fronteiras e*tre cura e
agressão. A "m*rca e* forma d* gota" introduz u* breve desvio imagético, q*ase met**óric*,
mas *ogo reabsorvido **la concretude da carne aberta. A *ompar*ç*o "como algo que se abriu
d**ais"
aponta pa*a um excesso
de abertura
que resulta em sepa*ação e rupt**a, sugerindo
qu* a e**osição quer físi*a ou subjetiva *r*du* de**nt*graç*o.
A p*ogr*ssão
do *oema **nduz a um c*m*o s*mântico de dia*nó*tic* e real: "a
exper*ência se aproxima de um ca*po aberto ai*da sem *etáforas co*o * real do*
diagnósticos". Aqu*, a
*scrita explicita su* p*ópria d*ficuldad* de metafo*izaç**. O "ca*po
*ber*o **nda sem metáforas" *ndica um ponto em q*e a linguagem *oética *arece insu**ciente
diante da material*dade *o sof*iment*. A apr*ximação ao "real dos *i*gnósticos" co**oca um
regi*e d*scursivo clí*ico, *b*eti**, que no*eia classifica, que também fixa e *imita. No e
ent*nto,
o p*e*a *ão se rende,
inte*ram**te, * esse real: ao enunciá-lo, poeticam*nte,
reinscreve-o *m linguagem.
O en**deame*to final "se r*ab*indo indefini*amen*e no tem*o na carne emagre*id* do
corpo cujo r*conh**ime*to ainda *ão foi pos*ível" **olo*ga a frase e susp*nde o fechamen**.
O gerúndio "*e reabrindo" mantém a ferida em
*roces*o c*ntín*o, enquanto * aus*ncia
de
pont*ação forte a*é o final cria
uma s*nsação d*
fluxo *ni**errupto. A expres*ão "**rne
e*agrecida" suge**
desgaste, vul*erabilidade e sobrev*vênci*,
ao passo *ue o
Rev. FSA, T*resina, v. 2*, n. 7, art. 8, p. 1*9-154, jul. 202*
www4.*ni*sane*.com.br/r*vis**
Ent*e *xi*as e Resse*çõe*: Corps-Rest co*o Dispositivo de Escrita na Literatura C*ntem*orânea
147
"reconhecimento ai*da n** *oi possível" r*toma a questão inicial da identidade. O poema,
portanto, const*ói uma poéti*a do n*o rec*n*ec*mento e da iden*idade em su*pensã*, *m que
o *orpo m*rcad* se torna arquivo e enigma, s*mult*neament*.
*ormalmente, a escrita *e Peq*eno (2023) pr*vi*egia versos longos e e*cadeados, com
*ont*ação *arefeita e sintax* q*e oscila entre fragme*taçã* e continuid*de, produzind* *m
ritmo de respiração irre**lar *ue acompan*a a e*periênc*a corporal *arrada. A escol*a *or
minú*cu*as e pela ausên*ia d* ca*i*al*zação refo*ça a recus* de *onu*ental*za*ã* do sujeito,
inscrevendo-o em um regime *e v**ner*b*lidade e de recon*iguração *onstan*es. Nessa
estilística, o poema articula uma es*ética da cicatriz e *a reabertura, na qu*l o corpo, lo*g* de
s* e*tabilizar como **ent*da*e fi*a, permanece e*
pro*esso, at**vessad* *o* intervenções,
diagnósticos e marcas que, simultanea**nte, ferem e *e/con*tituem.
*sta visão é apr*sentada c*m n*tid** inquiet*nte e per**rbadora no trecho do texto
hí*rido de Tatiana Pe*ueno (2023, p. 24-25) inti*ula*o *eoria da *ecepação:
[...] o fato é que eu decore* * l*tra de * star**d a joke e s*mpre *ue penso nesses
***pe* de mort* pe*so na c*nção penso no v*rso a **rso só co*sigo pensar ve*so a
**rso *r*cis* pensar escandindo separando dec*pan*o d*ce*cionan**
r**s*ccionando o que v*jo ter vida o que p*r***o *a*indo o q*e supon*o poder ser
uma inco*solável piad* um* imensa piada e a
piada era ou sou e* quem sabe
sabemos nã* é meninas enqua*t* co*ponho este cu*rículo estranho a *ontragosto
*olitá*io de musa **colonial desc*l*em qu*rid*s não tenho
**m* emular
a
mar*uinha leve *as p*e*as *esse pont* *stou
co* as elefa*ta* as gorilas co* as
cadel*s va*abu*das de ru* vira-latas búfalas amiga* durante o a*o dos coágulo* eu
*e lembr*i que poesia é c*ntenç*o ritm* co*te *uro di*er menos **er ou vib*ar mais
dize* menos venho aprendendo *an*o a durez* há tan*o temp* que *oesia é me*os
u*a história *o se*síve* q*e a
h*s**ri* de qu*m **cep* profunda**nt* quem
decepciona mai*. [...]
O *oema, que **amo aq*i de te**o híbrido
por mescla* poesia, pen*amentos,
co*statações, desa*afo..., **az desde as entranhas as pulsões, ten*õe* * agonias de rein*creve*-
se, reinv*ntar-se, vomi*ar-se. É, indubitavelmente, * *o*cretizaç*o de uma escri*a encarnada,
ma* que, pa*a tal, passou pela dor, *essecç*o, *ece*ação. O poema ganha todo s*nti*o ao s*r
lido-se*tido, *esp*itan*o cada passo do de*epar, abrir fer*das a *erem ressequ*d*s e p*rindo o
si-nar*áv*l. A construção t*xtual ** o**aniza como
um fluxo *iscursivo
contín*o, mar*ado
p*la ausência quase tota* de po*tuação
forte e pela pre*ominância de enc*d*amentos
si*tát*cos qu* mim*tizam o m*vimento i*interrupto do pen*amento. Esse procedimen*o
pro*uz um efeito de re*piração entrecorta*a e de urgênc*a *iscurs*va, ap*oximand* o poem*
de um monólog*
interi*r. A suces*ão de verbos no pre*ente "*enso", "s* consigo pensar",
"p*eciso pensar", "v**ho aprendendo" fix* a enunciação em um
temp* de pe*man*ncia,
no
qual a reflexão não se encerra, mas se repete e se reabre, cont*nuamen*e. O prese*t*
do
Rev. FSA, Teresina PI, v. 2*, n. 7, *rt. 8, p. 13*-154, jul. *026 ww*4.*nifsan**.com.br/revist*
H. R. P. Peixo*o, *. V. Soares
*48
indicativo, *ortanto, apesar de situ** a a*ão, *ustenta uma te**oralidade de i*sistên*ia e
*e
elabo*ação permanente da dor e d* mem*ria.
A *b*rtur* d*
po*ma com a referên*ia à canção "i started a jok*" *nt*oduz um
el*mento *nte*textual
que op*ra com* gatilh* de r*memo*ação. A músic*, me*orizada "e*
de*orei a le*ra", torna-*e disp*sit*vo de proces*ame*to si*b*lico dos "golpes de morte",
instau*ando um regime de pens*men*o que se execut* "verso a verso". Essa repetiç*o l*xical
"verso a verso", "pe*sar", "verso" cria uma c*dência quase obse*s*va, reforçada *el* uso de
verbos
*o
g*rúndio
e
no
in*i*it*vo
"e*c**di*do",
"sepa*ando",
"*ecepando",
"decepcionando", "ress*cc*onando". A s*qu*ncia desses verbos ***s**ói um* c*deia so*or* e
semâ*tica *aseada na ali**ra*ão * *a p*ronomásia, em *spec*al *a reco*rência do radical "de*-
",
que suger*, simultaneame*te,
corte, perda e
de*epção. Ta* pro*edi*ento estilístico
transforma o própri*
ato de pensar
em um gesto
de disse*ação: *e*sar é cortar, *eparar,
*emove* exce*sos, como se * *oema se construísse p*r incisões suc*ssivas.
O
*ampo
semântico
da
c*rurgia
e
da
violência
corpor*l
"decepa*d*",
"r*ssecciona*do", "c*águl*s", "corte duro" *rticula-s* à *deia de escrita
co*o operação
ma*erial *obre linguagem * sobre * a
c*r*o. A *sco**a ** termos técnico* e orgânicos
apr*xima a c*mposiçã* p**tica
de uma prática quase
*línica, cujo verso é trab*lhado *om*
tecido a ser aberto reorganizado. Nesse sentido, metáfora *a *scansão
e
*
"pre*iso *ensar
*s*an*indo" de*loca o procedimento tra*ici*nal d* *étrica par* o cam*o da *obr*vivência:
esca*dir não é apenas con*a* sílabas: é reorganizar expe*iência trau*ática em *
u**dades
*espi*atórias possíveis.
* poem*, *ambém, se ***strói a part*r de *m deslocame*to enunciativo ent*e o "eu" e
um "nós" ocasional "qu*m sabe sabemos não é *e*inas", instaurando uma dim*nsão coletiva
e *úmpl*ce. O *ocativ* "meninas" introd*z
uma interlocução afetiv* * p*l*t*ca, sugerind*
uma c***nida*e de escu*a que pa*tilha
*xper*ênci*s *e do*, iro*ia
e desajuste. Essa
coletivização *, *o entanto, imediatamente, **nsionada pelo reconhecimento de um "currículo
estranho" e d* u*a
po*ição de "musa decolonial" assum*da "a
contrag*sto". O *so
da
e*pr**são "cur*ículo" de*loc* o
ca*po poético *ar* o campo instit**ional e
biográf*co,
ironizando
as formas
de legit*mação cul*ural e acadêmica. A auto*efin*ç** *omo
"musa
decolonia*" evidenc*a uma con*ciência c*ít*ca das ex*ecta*ivas identitár*as impostas à autora,
que * e vê
co*vocada * me*am*rfose*r det*rmina*os papéis no
cená*io
literár*o
*ontemporâneo.
A rec**a em "emular a marquinha leve das
poeta*" *xpl*cita um pos*ci**amento
estét*co. A met**ora
da "marquinha leve" suge*e **a poesia s*avizada, d*mesticada, *a*vez
Rev. FSA, Teresina, v. 23, n. 7, art. 8, p. 139-15*, jul. 2026
www4.Unifsanet.c*m.br/r*vista
En*** Axil*s e Ressecções: Corps-Rest com* Dispo*itivo de Escrita na Literatura Cont*mporânea
149
associa*a a um ide** de delicadeza líric*. Em
oposiçã*, a v*z poética se
alinha uma a
animalidade m*l**pla e mar*inal "el*f**tas", "*orilas", "cad*las v*gabundas de rua vira-latas
bú*alas"
num* en**er*ção qu* rompe com hierarquias simbó*icas e reco**ig*ra a idei* de
pertencime*to. Ess* ca*eia de ima*e*s animais *r*d*z um efeito *e força coletiva e
indi**ipl*nada, deslocando humano *ar* uma zona de **n*ami**ç*o com * ins*intiv* e * o
selvagem. A escolha de *ubstantiv*s fe*i*inos plur*liza*os reforça u*a identif*cação com
co*po* considerados excessivos, i*domávei* *u, socialmente, *b*etos.
Nos versos finais, * definiç** de poesia como "c*ntenção ritmo corte duro dizer
men*s" explici*a uma p**tica da e*onomia *
da in*i**o. A repetição de "d*zer m*nos"
*unc*ona como pri*c*p*o composicional e é*ico: a l**g*agem deve condensar,
cortar,
intensificar. O texto, de*se modo, for*ula *ma teoria inter*a *a es**it*, e* que a p*esia deixa
de ser "história *o sensível" para tornar-se "a hist*ria de *uem decep* p**f*nd*m*n*e quem
decepciona mais". O **go e*tre "de*epar" e "de*epcionar" r*toma a c*deia s*nora anterior *
desloca o foco do sentime*to para a *ção: a p*esia além de expre*sar a decepçã*, opera,
*a*bém, co*tes ***uilo que a prod*z.
Do ponto de *ista forma*, a ausência de versos *egulare* e a predo*inância de longas
*inhas sintáticas refor*am a *deia de um tex*o em p*ocesso, qu* se *on*tr*i por acumulação e
interrup*ão. O rit*o é determi*ado mais *ela repetiç*o e pela sono*idade das palavras do q*e
por uma métric* fixa. * escrita as*ume, assim, um c*ráter *etam*rfagente:
p**sar, co*tar
e
escre*er torna*-se **eraçõe* equival*ntes. Ness* poema, a linguag** é trabalhada como
ma**ria viva e ferida, e a construção d* vers* se apre*enta com* exercí*io ** conte*ção e de
sobre*i*ên*ia, **de cada palavra parec* re*ultar de *m gesto d*liberado *e incisão
*
permanência.
Se em Pequeno (2023) o corpo eme*ge como c**po de intervenção * re*nscrição; e*
Tecedei*o (2021) e*e se a*resenta como su*erf**ie de *xce*so * desc**forto, entre exposiçã* *
incisão. Ambos os poeta* desestab*liza* * idei* de inte**ida*e corporal. Vejamos o segui**e
poema de Tecede*ro (2*21, p. *3):
De*tada sobre a madeira quente
do convé* vejo,
pelo c**to do olho,
o m*rinhe**o
a*ro***a-se da
amur* e mi*a
para o mar alto
e é u* [O*!]
aquele encontro
Rev. **A, Te*esin* *I, v. 23, n. *, art. 8, p. 1*9-*54, jul. 2026 www4.Unifsanet.c**.br/r*vista
H. R. P. Peixoto, S. V. Soares
150
de t**as *s á*uas,
a i*timi*a*e d* *cenao,
o re*re*so a* todo,
o *ír*ulo compl*t*.
Sinto *nvej*.
Não sei
se inve** o homem
se *nvejo o mar.
* possível d*preender da e*pressã* poética apres*nt*da q*e a experiência corpor*l se
organiz* *
partir de
um ge*** de observação que d*sloca o s*jeito para
uma **sição
de
s*s*e*s*o
entre *n*imo e o e*t*rior. A *ena d* marinheiro urina*do n* *ar des*ncadeia o
uma *adeia de imagens que tende à
di*solução
das fronteiras *nt*e corpo
e natureza,
cu*minando ** noçã* *e "regresso ao *odo" e "círc*lo c*mpleto". *á aqui uma
eco*omi*
poét**a *arcada p*la a*raçã* da continuida*e, na qual o corpo se percebe co*o pa*te de *ma
tota*idade fluida, na *ual as dif*rença* tendem a se *esfazerem ** ho*o*enei*ade das ág*a*.
Ess* tend*ncia à di*s*lução *o su*eito descontínuo em um* continu*dade indiferencia*a pode
ser *o*preendida à luz d* *rot*smo *omo experi*nci* de per*a de limites,
no qu*l o ser se
abre ao que o
ultrapass*. "É um estado
de comu*icação, que revela a busca de uma
continuidade pos*ível *o
ser
pa*a além do fech*me*to em si mesmo (BATAI*LE, 202*, p.
41). Diante desta refle**o bat*illiana, a fusão *maginada com o *a* não con*titui apenas uma
m*táf*ra de completude, m*s uma ex*eriência de suspensão das frontei*as do eu. No ent***o,
a irrupç*o fi*al da inveja *ntroduz uma fissura *e**e movim*nto de **são, indi*ando
a
ins*abil**ade
*o lugar do
*uj**to
e
a impossibilidad* de pl*na adesão ao que se con*empla
o
q*e evoca *uli* Kristeva. A oscilaçã* *nt*e sujeito e mundo pode ser (re)pensada a partir da
noção de
abjeção, n* qual as fronte*ras
do corpo e da identi*ade tornam-*e instáveis,
pro*uzi*do *m efeito de f*scínio e repulsa simultâneos. Aquilo que pertu*ba uma identidade,
um sistema, uma or**m situando o su**ito ** um *spaço d* (des)estabilizaç*o.
C*mo ap**ta *risteva (19*9, p. 11), o ab**to
É a*go r*j*i*ado *o q*al não *os *e*aramo*, do qual não nos protegemos da mesm*
maneira que *e um obj*to.
Estranhe*a imaginá*ia e ameaça real, ele nos chama
*
te*mina por nos su*mer*ir.
J*s*am**te neste *on*o é que o po*ma esta*elece um *iálogo indir*to com Pe*ueno
(202*): e* Tecedeiro (20*1), tendência à im*ginaç** do corpo
co*o disso*ução
no t odo;
nesta,
o corpo é *u*m*tido a u* regime op*sto, no qual a experi**ci* não
co*du*
à
*otalização, senã* à i*terru**ão, ao *or*e e à rei*scrição da m*tér** em sua condição
fr*gmentária. Em *mbos *s ca**s, o corpo dei*a de ser u*i*ad* estável; *on*u*o,
enqua*to
Rev. FS*, Teresi*a, v. 2*, n. 7, art. 8, *. 139-154, jul. 2026 www4.Unifsanet.co*.br/r*vista
Entr* Axil*s e *e*secçõe*: C*rp*-Rest *omo Di*positivo de Escrita na Literatura Contemporânea
151
um ten*i*na a id*ia de fus*o como horiz*nte dese*ante, a outra radicaliza a impo**ibilid*de
dest* horizonte ** *n*crever * existência *orpor*l na lógica da r*ssecção, o* seja, naquilo que
perm*nece como *o*ps-rest após a operação de *orte. Neste *oriz*nte conceitual,
a
instabi*idad* do c*rp* também pode ser compreendida a partir das *ormulaç**s d* Butler
(2022), para *uem o c*rpo não se c*nstit*i *omo uma realidade a*teri*r às suas *nscr*çõe*,
mas como efeit* *rod*zi*o e r*itera*o
por *rá*ica* disc*rsivas e performativ**. Nesta
perspectiva,
aq*ilo qu* se re*onhece com* *orporei*ade *ã* * acab*do, porém
r*/d*s/**nstru*do co**inu*men*e, o que permite ob*ervar/int*rpreta* a* imagen*
ana*isadas
c*m* processos e* *ue o corpo *e *ea*iza *a própria instabilidade de s*a* fo*ma*, sempr* em
deslo*ame*to e reiteração. O *oema diá*ana de Pe*ueno (2023, p. 38) *orro*or*
desarmonia menc*onada:
essa poesia **da t*m de diáfana
porque nunca pu*e f**er us* do
sentido leve e seu tran*lúc**o
ficamos com os me*ais pesados
deba*xo dos tanques *om a ossa
tu*a gros*a o exc**so de pele*
uma espécie adi*osa *e volume
q*ími** ess* *orpo denso capita*
um grac*jo q*e desist* no pri*e*ro
vers* *** assinatura qu* jamais p*
deri* s*r névoa ** trans*arência *u
que figuro entre nós de vísceras
farta-se * desmun*o
A p*et* *n*ensifica a compree*s*o do faltumbramento como potência que emerge
a
da
recusa à transparênc*a
nor*a*i*a. Logo n** p*imeiros *er*os,
"*s*a *oesia
nada *em
de
diáfana/
porque nunca pude fazer uso do/ senti*o leve e *e* translúcido" a voz poéti*a
desmonta a e*pec**t*va de levez*, pur*za ou limpide*, *eraz*e*te associadas a d**e*m*nada*
concepções de cor*o e lin*uagem. A impos*ibi*idade de *er "diáf*na" não apar*ce como *alha
est*tica, mas como enunciação de um* mate*ialidade out*a, **nsa e i*redutível às for*as
de
legibil*dade hegemônicas.
Ao afir*ar q*e "ficamos com os m*tai* pe*ados/ deb*ixo dos tanques", * poema
des*oc* o ca*po semânt*co *a d*licadeza para o da opac*dad* e da d*nsidad* q*ímica. O
corpo surge como ac*mulo, com* re*to, co*o *atéria atraves*ada por fo*ças histórica*
e
pol*ticas que o tornam es*esso, resisten*e e, por isso m*smo, ina*reensível pelos *egimes *e
lev*za que su*te*tam a *orma. A "ossatu** *rossa", o "exce*so de p*les" e a "e*pécie adip*sa
Rev. FSA, Teresina P*, v. 23, n. *, art. 8, *. *39-154, jul. *026 w*w4.Unifsanet.com.br/revi*ta
H. *. P. Peixoto, *. V. *oares
*52
d* v*lu*e quím*co" recusam qualq*e* ideal
de forma dep*rada: o *orpo, aqui, é excesso
e
sob*eca*ga, inscri*ão de u*a histó*ia que não p*de ser sua*izada. A qu*bra de verso e* ossa/
tura, sugere uma fratur*, tanto no *oc*bulo quanto n* osso, contudo, n* osso textual opondo-
se à trama que sugere leveza. *á a possibilidade de "ossa" s*r lido como feminino de os*o e
"tura" que remete a rigid*z, peso. Sugere u*a *oz feminina *u* *e quebra/fratura tant*
no
corpo *omo na escrita e q*e, *amb**, faz queb*ar/f*aturar: o *exto sofre o efeito *a quebra e,
ao m*sm* tem**, exe*u*a * a*** de quebrar em **a casc*t* de quebrar-que*rar-se.
A *ecus* da transpa*ê*ci* *o*verge com * lógica do *a*t*mbra*ento: * co*po que *ão
se to*na né**a ne* translúcido é aqu**e *ue **lha em corre*po*der ** ex**ctativas de
leg*bilidade e ad*q*aç*o imp*st*s pe*a ordem cisnorm*tiva. *ntret*n*o, *ss* fracasso nã* se
configura como perda. Ao de*lar*r que sua assin*tura "*amais poderia ser névoa
ou
trans*arênc*a", a voz po*ti*a afirma uma presença q*e s* sustenta, justament*, na densidade *
na opacidade. A impossi*ilidad* d* ser diáfana convert*-se em gesto
de *f*rmaç*o de uma
existê*cia que **o se o*er*ce à assim*la*ão fá*i* nem * di*solução simból*c*.
O p**ma const**i, as**m, uma poética d* corpo pe*ad*, *uímico * visce*al, em q*e a
materialidade densa se transforma em linguagem. Quando a *oz *íri** *e insc*eve "entre nós
de vís*e**s", a es*r*t* abando*a qu*lquer pr*tensão de pureza e se enra*z* n* ca*ne, nas
entr*nhas e nos resíduos. Al** dis*o, * poss*vel l*r "nós" co*o subs*antivo - sugerindo "nó
nas tr*p*s" ocasi*nado *or fatores *xte*nos * int*rnos da esfer* do *ão-d*to - e como p*onome
p*ss*al reto, signif*cando pessoas v*scerais e evi**eradas, des/en*ranhadas. O "desmundo"
que se farta ao final não é apena* *enário
de
ruína, mas
campo de *econ*ig*ração sen*ível
onde aquil* que escapa à *ransparênci* normativa encontra possibi*idade de *nunc*ação.
Nesse
sentido,
diá*ana confirma e
**nsiona a f*rmu**ção do frac**so como invenção
tr*nsgressora: *o não *lcan*ar a l*veza esperad*, a* p*rma*ece* denso, opaco e e*cessi*o, o
corpo-po*ma instaura o*tra est*tica de existên*ia. A re**sa em ser translúcido torn*-*e,
p*radoxa*me*te, for*a de visibilidade crí*ica: uma visibilidade
qu* não *corr* pela
ad*quação à luz normativa, ma* pe*a *f*rmação daquilo
que permanece pesad*,
espe*s*
e
irredu*ível.
* CONCLUSÃO
Ao percor*er os ca*inhos
e
descaminhos d*s *br**
de André *ecedeiro e Ta*iana
Pequeno, est* *nsaio procurou su**e*tar a hipótese de
um a
poética do corps-r*st como
dis*ositivo de esc*ita na Literatu*a C*ntemporân*a. Entre g*stos d* exposiç*o * *per*ções de
corte; entr* a su*erfície que ins**te em esconder
e marca que i*sis** *m apar*c*r; o corpo a
Rev. FSA, Te*esina, *. 23, n. 7, a*t. 8, p. 139-154, jul. 2026
www4.Unifsanet.com.br/revista
Entre Axilas e Ressec**es: Corps-Rest como *i*positivo d* Escrita na Lite*at*ra C*nt*mporânea
15*
revelou-s* menos com* unidade do *ue co*o campo de insta*ilidade: algo que não se
completa, no entanto *e (r*)ins*reve, continuamen*e, na**ilo *ue falha-exced*-esca*a.
As análises ev*denci*ram que, em Tecedeiro (202*), * corp*, frequ*ntemente, *e
org*niza so* a tensão entre dissoluç** e visi*ilidade,
entre a prom*ssa
de c*ntin*idade e
*
fratura que a interrompe. Já em Peq*eno (2023), a materialida*e da *nter*enção e da c*catri*
radicaliza a concepç*o de inscrição co**ora* **mo processo de (re)significação da per*a, cuja
marca nã* é apenas ve*tígi*, mas também condiçã* de (re)exi*tência. Ent*e *mbo*, deli*eia-
se menos uma op*si*ão que *m campo de forças em qu* o corpo *e inst*tu* como r*sto: aquilo
que p*r*anece *uando a f*rma nã* se sustenta pl*namente.
**ssa *erspectiva, a interlo*ução com Georges *ataille e **lia K*isteva **rmi*iu
c*mpreender **e tais e*critura* *ão se l*mitam **presenta*ão do corpo; el*s operam s*a à
de**stabilizaç*o, *e*a pel* lóg*ca do excesso e da tr*nsgressão, seja pe*a emergência do *bjeto
como aquilo que perturba qualquer ten*a*iva de unidade. O corps-r*s*, assim, não se apresenta
como déficit o* falh*, s**ão c*m* p*tê*ci*
es*ética e
crítica que (de*)o*ga*iza r*gimes
de
visibilidade, linguagem e sub*et*vidade.
Por fim, o que se delineia não * uma
conc**são fechada, m** a permanên*i* de um
mo*imento: o co*po c*mo algo que i*siste em *ão co**cidir cons*go mes*o. Entre a*ilas *
re*secç*es, a l*teratura c*ntempor**ea par*ce afirmar n*o a com*l*tude do sujeito, mas s*a
c*ndição *e aber*ura - um espaço *n*e escrever é semp**, ta*b*m, deixa* so*r*r.
REFERÊ*CIAS
BATAILLES, G. O
ero*ismo. 2. ed.; 4. reimp. **a*uçã* * o*gan*zação *ernand* *cheibe.
Belo Horizonte: A*têntica, 2026.
*UT*ER, J. Problemas de gênero: fe*inismo e s*bv*rsão da iden*id*de. T*adução *e Rena*o
Aguiar. 22ª ed. Rio de J*nei*o: Ci*ilizaç*o Bra*ileira, 202*.
KRIS**VA, J. Po*eres de *a perv*rsió*: E*sayo sobr* Lo*is-Ferd*nand Cé*ine. Segunda
edición. Siglo Veintiun* E*it**e*. Mexic*: 1989.
PE*UENO, T. Teo*ia da ressecção. São Paulo: Patuá, 2023.
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Rev. F*A, T*resina PI, *. 23, n. 7, art. 8, p. 139-154, *ul. *0*6
w*w4.Unifsane*.co*.*r/*evista
H. R. P. Peix*to, S. V. Soar*s
154
Como *eferenciar este Ar*i*o, confor** ABN*:
PEIXOT*, H. R. P; SO*RE*, S. *. *ntre *xilas e Ressecções: Corps-**st c*mo Dispositivo de
Es*r*ta *a Literat*ra Contemp*r*nea. Rev. FSA, Teresina, v. 23, n. *, art. 8, p. 1*9-154, jul. 2026.
Contribuição dos Aut*res
H. R. *. Peixoto
S. V. Soares
1) conc*p*ão e *lanejamento.
X
2) *nálise e interpre*ação dos d*dos.
X
3) e**boração do r*scun*o o* na revisão crít*ca do conteúdo.
X
X
4) p*r*icipa*ão na aprovação da versã* final do man*scrito.
X
X
Rev. FSA, *e*e*ina, v. 23, n. *, *rt. 8, p. 139-154, *ul. 2026
www4.Unifsane*.com.br/revist*
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