Centro Unv*rsitário Santo Agostinho
www*.fsanet.com.*r/revista
Rev. FSA, Tere*i*a, *. *7, n. 8, art. 5, p. 98-123, ag*. 2*20
*SSN Impresso: 18*6-6356 ISS* Eletr*nico: 2317-2983
http://dx.doi.org/10.12819/2020.*7.8.5
A Eu*anásia em Face da Dignidade da Pe*s*a Humana
T*e E*thana**a in the Face of **e Dignity of *he Human Per*on
Fá*i* Soares de *arvalho Spos**o
Gra*uação pel* Uni*ersid*d* Paulis*a
E-mail: fabiosposit*@ho*mail.com.br
Almi* **ares de Ca*valho
Doutor em *ireito Pú*lico do Trab*lho pela Univers*da*e do Brasil
E-mai*: almirsde*ar*alho@hot**il.com
J*sé *ubens Maced* P**zan Silv*
Graduado em Dire*t* pela Univ*rsidade Pau*ista
E-mail: r.paiza*@hot*ail.com
Ender*ço: F*bi* Soar*s de Carva*ho *p*sito
Edit*r-Ch*fe: Dr. Tonny Ker*ey de Alencar
Rua José Pinho Mon*eiro, nº 840, Tarr*f *, C*P *5.0*1-
Rod*igu**
440, São José do Ri* P*eto/S*. Brasil.
End*reço: Alm** S*ares de Carvalho
Artigo *ecebi*o *m 01/06/202*. *l*ima
*ersão
Ru* Quinze de N**embro, nº *939, 10º *ndar, Sala *02,
re*ebida em 1*/06/2020. A*rovad* em 19/06/20**.
Centro, Sã* José do Rio Pre*o - SP. *r*sil.
Endereço: José Ru*e*s Maced* Paizan **lva
Av*liado pelo sistema Tr*ple Re**ew: Desk Review a)
Rua Quinz* de Novem*ro, nº 2939, 10º andar, sala 1*2,
pelo *d*tor-Chefe; * b) Double B*ind *e*iew
*entro, São Jos* do Rio Preto - SP. Brasil.
(*valiação *ega *o* dois a*aliadores da área).
Re*isão: Grama*ic**, Normat*va e de *ormat*ç*o
A Eu*anásia em Face da D*gni*ade da Pessoa Hu*ana
99
RESUMO
O ob*e**vo *o present* artigo cons*ste *m analisar d* forma crít*ca a eutanásia, bem como as
pos*çõ*s f*voráveis e divergentes exis*entes *m fa*e da dignidade da pessoa
hu*ana.
Assunt*s re*erentes à *ida, liberdade e dignidade,
enq*anto dire**os fundamentais, sob
o
arcabou*o ** Co*stituiç** Fed*ra*, n** mais dive*sos mo*entos do* tempos atua*s *oram
al*o de debates, discussões, p*l*m*cas nos mais *iversos pontos *a **c*e**de: dos bancos
*cadêmicos ao Supr*mo *ribu*al Feder*l. Os motiv*s elenc*dos foram
os ensejadores
da
escolha do **sunto em questã*. A eutanásia é uma questão *b*angente, *ue contem*l* n*o
somente as ciências jurídic*s, mas div*r*as áreas do conhecim*nto, com* a *edicina,
a
psiquiatria, a s*cio*ogia, etc. É u*a q*estão conf*itante, haj* vista a *u*je**vid*d* d**
concei*os q*e **vol*em e*t* tema, *endo *les: vida, mo*t*, *aridad*, pieda*e, entre **t*os, os
quais *ão firmados com base nos m*delos mentais desenvolvidos ao lo*go da existência
de
cada ser *umano. Verificou-se, por fim, que a eu*anási*, apesar
de complexa e p*lêmica,
é
u*a pr*tica p*o*bida *erante o nosso ordenam**to j*rídico.
Pal*vras-chave: Eu*anásia. Vida. Direitos Fundamentais.
AB**RACT
The objectiv* is to analyze critic*lly eu*hanasia and exist*ng divergent positions for an* about
t*e sa*e relation to human dig*ity. Mat*ers relati*g to life, li*erty *nd
di*nity, a*
fundamental rights an* thus under the fram*wo*k of the Const*tution, in various mo*ents of
mode*n times have be*n the subject o* debates, discussio**, polemics in v*rious parts o*
society: academics ba*k* to the *u*reme Federal Court. Th* reasons l*sted were motivat*ng
t*e **oice of subject *atter. *uthanasi* is a bro*d question, which inclu*es *o* onl* the legal
*ciences, but seve*al *reas *f knowledge *uc* as me*icine, ps*ch*atry, sociology **c. It is
a
c**flicting issu*, g*ven the sub*ect*vi** of the concepts t*a* surround this issue, name*y: life,
death, *ove, piety amo*g others, *here they a*e e*ecu*ed on t*e basis
of men*al mod*ls
developed over t*e lif* of *ver* human being. *here wa*, fina*l*, that euthan*s*a, d*s*ite i*s
complex*ty and con*rovers* is a prohi*ited practice in our le*al system.
K*ywords: E*thanasia. Life. Fundame**al Rights.
Re*. FSA, Tere*ina PI, v. 17, n. 8, art. 5, p. 98-123, ago. 2020
www*.fsanet.com.*r/revi**a
F. *. C. Sposito, A. S. Ca*valho, J. *. *. *. Silva
*00
1 INTR*DUÇÃO
O objetivo d* arti*o *onsist* e* an*lis*r de f*r*a crítica a eutanásia, bem como as
*osições favor**eis e divergente* existentes *m fa*e da di**i*ade da pess*a humana. E, *ob o
olhar da leg*sl*ção, o referido assunto - eut*nás*a - entre*aça-se à estr*tura juríd**a brasi*eira
e de *roteç*o dos direitos humanos, amparad* pelo a**igo 1º da Con*titui*ã*, **e *s*abel*c* o
resp*ito à dignid*de d* pe**oa humana e * cidadania.
A Constituição defi*e q*e s*r cidadão é ter direito à vida, * liberdade, à *ropriedade, à
seguran*a, * ig*ald*de, dentre o*tr*s e, a*i**
de tudo, o respe*t* à dignidade da pesso*
humana. Em
outras pal*vr*s, *sso que* diz*r reconhe**me*t* da autonom*a *essoal de o
o
indiv*duo *****zir sua *rópria existência e se* respeitado como sujeitos de direitos.
**sta forma, d**t*e os ass*ntos ref*re*tes * v**a, libe*d*de e dig**dade, enqua*to
direitos fundamen*ais, sob o ar**bo*ç* da C*nstituição Feder*l, nos mais *iver*os momentos
**s tempos, a eu*anásia foi
a*vo de debat*s, di*cu*s*es, *olêmicas em inú**r*s
pont os
da
soc*e**de: dos b*ncos *cad*micos a* Supr**o *ribunal Fe**ral.
Em**ra a eutanásia seja c*nsider*da *uito anti*a em razão de est*r ligada
à
c*ncepção de v*d* e d* mor*e, o inter*sse n*s discussões **b** ela é ac*rrado a cada dia.
2 R*FEREN*IAL *EÓRICO
2.1 A *essoa *u*an* * sua D*gnidade
Antes de aden*rar *o objeto deste *r*bal*o, que * *ratar da eu*anási*, *az-se **rtinent*
r*la*a* sobre a pessoa human* e sua dignidade, a **m *e uma *el*or c*mp*eensão do te*to.
*.2 P*ssoa H*man*
** acordo c*m os ensina*ent*s de Vieira (2009), a palavra "pessoa" surgiu a parti* do
vo*ábulo latino persona que,
em n*m primeiro momento, in*icava a máscara que os *tores
ut*lizavam no teatro, *ue **nha o ef*i*o de
am*lifica* suas voz*s. P*s*e*iorm*nte, pass*u
a
d*s*gnar *s próprios atore* e os papéis por *les r**rese**a*os.
W**ter Mor*e* (apud VI*IRA, 2009, 27) escla*ec* que * us* da pa*av*a persona para
designar o indiví*uo h**a*o foi introduzi*o *elo Direi** Romano. Mas
a pesq*isa do
conce*to de pessoa com* *nte dis*in*o *o fis*opsiqu*sm* h*mano (au*ente em Aristótel*s
e
Rev. F**, Teresi**, v. 17, n. *, art. 5, p. 98-12*, a*o. 2020 ww*4.fsanet.co*.br/revist*
A E*tanásia e* Face da D*gnid*d* d* Pessoa H*mana
101
na* dema*s Filosofias gregas) é iniciat*va da filoso*ia *atr*sti*a. A palavr* perso*alid*de, bem
como o correspondente conce*t*, é criação exc*usivamente esco*ástic*.
*ieir* (2009) observa ai*da q*e, inic**lmente, os romanos *omp*eendia* *ue todos
os h*mens eram p*ssoas. Porém, po*c*
a
pouco, tal i*eia *o* *ofrendo *odificações,
pass*ndo-se a ent*nder *ue *ome*te os indivíd*os q** pre*nchessem
deter*inadas
*arac*eríst*c** eram pessoas, por exemplo a liberdade e a cid*dania (sta*us liber*atis * status
ci*i*ati*).
Apenas se *oltou a *tr*buir * *ual*dade de pess*a a to*o s** human* c*m
o
pensam*nt* cristão, destacando-se, em
uma primeira fase, a m**u*ental
obr* d* Sant*
Agostinho, entre in*meros outros, *ão se *o*end* *e*xar de lado os en**na*entos de T**á*
de *q*ino. Os te*ric*s *o cr*stia*ismo, ao c*ncebe*em todos os homens com* imagem
e
semel*ança de D*us, obra do ser *upremo,
nã* admitia* que a qu**quer homem foss*
sub*raída a qua*idade de pessoa.
D*ssa forma, a i*eia de **ssoa como subjetividade dotada de um valor intrínseco **
form*u a p*rti* da "síntese das culturas
greg*, roman* e judaico-cristã, operada por
Santo
A*ost*nh*, pri*cip*l expoen*e da chamada filo**fia p***ística".
*mbora pareça **vi*,
na atualida*e, a necessid*de
de se reconhe*er o papel centr*l
que o Dire*to de*e atribuir à pe*soa, foi há *em p*uco tempo qu* se colocou * pessoa humana
n* seu devi*o lu*ar, ou seja, que
se reco*heceu c*ns**tu*r ela a r*zã* e o fim último *o
Di*eito, sem a qual este **o teria sequer motiv*s p*ra existir. Apesar de, des*e os pr*mórdios
*a e*istência do ho*em, *s normas jurídicas se direciona*em à re*ula*e*taçã* *e ativ*d*de*
e à garantia ** interesses humanos, a *er*epção de que a pessoa, c*m* fim em si própria - e
não * *n*i*íduo, ou, ai**a pior, *ste em função
d* Es*ado - cons*itui o pont* fulc*al de
todo o fenômeno jurídico é muito recente, podendo-s* af*rmar,
*nclus*v*, que apen*s
s*
generalizou tal c*ncepçã*, *ornando-se larga*e*te pre*ominante ent*e os jurist*s ocid*ntais,
a p*rtir do século XX, e, *spe*i*lm*nte, depois d* S*gunda Gu*rra Mundial (VIEIRA, 20*9,
p.28).
E em tal tarefa
dest*na*a à h*ma*ização do D*reito, div*rsam*nte
do que alguns
juri*tas *e outras áreas afir*am, *epresent* pa*el de centralidade ao Dire*to Civ*l. Nesse
sentido, o entendimento de M*lton Fernande* (a*ud *ieira, 2009), ensin*nd* que as gra*de*
concentraçõe*
urba**s, ** avanços da comunicação, a cr*scente competi*ão
verificada
entre
os homens, n* lu*a pela vi*a, o fenômeno da massificação e o "d*sfibra*ent* dos car**ter*s"
tornam *a*a vez ma*s a*ual * ideia de Ho*bes, de q*e * ho*em é * lobo do seu semel*ante.
Rev. FSA, Ter*sina PI, v. 17, n. 8, art. 5, p. 98-123, a*o. *020 *ww4.fsa*et.c*m.br/r*vista
F. S. *. Sposito, *. S. *arvalho, J. R. M. P. Silva
102
No mesmo s*nt*d*, ele *essalta que a ve*dadeira miss*o d* D*re*to C*vil * * de*esa do
hom*m, ch*gando a dizer que o h*mem é o "coração do Direit* *ivil cont*mporâneo". A
pro*eçã* **s direit*s d* pessoa, isto é, "a cons*rução j*rídica do h*mem, *o se* es*atuto e *o
seu *esenvolvimento c*mpõe o núcleo da preo*upação *os civ*listas" (VIEIRA, 2009).
As*im, atualmente, é muito comum s* falar em r*personalização d* direito, term*
mui*o re*eti*o por
diver**s doutrinador*s brasileiros, que de for*a frequent* *roc*ram sua
f*nte nos ens*na*entos d* Pietro *erlingieri (apud Vie*ra, 2009), signifi*ando t*l **cá*ulo *
perc**ção de que o
homem * a su* *lena realização constituem a verdad*ira finalidade
do
d*reito, pelo q*e cada uma d*s normas e ins*i*utos jurí*icos **ve dir*g*r-se à e*etivação dessa
finalid*d*, i*** *, o des*nvolvimento da per*onalid*de *umana.
2.3 A Dignidad* Huma*a
*á de se destacar que a ínti*a e, *or assim *iz**, ind*ssociável vinculação e*tre
a
*i*nidade da pessoa huma*a e os d*reit*s fundament*i* já **nsti*ui, p*r certo, um dos
postulados nos quais se a*sent* o direito con*tituc*onal contempo**ne* (VIEIRA, 2009).
Ta* ocorre nas orde*s constitucionais, onde a di*nida** ainda
não tenha sido
express*m*nte *econh*cida no direito
positiv* e até mesm* onde tal reconheci**nto
virtua*mente se encontra limitado à previsã* do texto constitucional, j* que o projeto
normativo, *or mais
nobre e fundame*tal
qu* seja, nem semp*e *n***tra *co n* práxis o*,
quando assim ocorre, nem sempre para todos ou de mo*o i*ual para todos.
Ainda qu* so*ente, na teoria, a previsão no t**to cons****c*onal a*a*a po* ser
impresci**ível, muit* embora *or si só *ão *enha o condão d* assegurar o devido resp*ito e
p*ot*ção à dignidade d* pessoa. E, *o *aso de *iolação dos dev*res e direitos decorrentes da
dignid*de da *esso*, resta*á
um *
perspectiv* concret*, ai*da que mínima,
de efet*vação por
meio dos órgãos *uri**icionais, en*uan*o e na *ed*d* e* que *e *hes assegura* as condições
**sicas *ara * *umprimento.
*or outro l*do, se virtualme*te inco*trove*so o liame entre a dignidade *a **ssoa e os
d*reito* fundame*tais, * c*nsenso, por sua vez, praticame*te ** *imita ao reconhecim*nto da
existência e
d* i*portânc*a desta
*incul*ç**. Qu*ndo ao ma*s - inclu*ive no que diz *om a
p***ria com*reensão do conteúd* e signif*cado da dignida*e da pe*s** humana na e para
a
*rdem j*r*dica - trata-se de *ema pol*mico e que *em ensejado farta
*iscussão
em nível
doutriná*io e até mesmo jurisprudenc*al. Além disso, em *e levan*o em con*a qu*
a
dignidade, ac*ma de *u*o, diz com * condição humana do se* h*mano, cu*da-se *e a*sunto de
Rev. FSA, T*resina, v. 17, n. 8, art. 5, p. *8-123, a*o. 2020 ww*4.f*anet.com.br/revista
A Eu*anásia e* Face *a *ignidad* da Pes*oa H*mana
103
perene relevâ*c*a e *tualidad*, tão p*rene e *tual for a própria existê*ci* humana (SARL*T,
*003, p.*7).
Assim, *us*ame*te pelo fato
de que a *ignidade vem send* considerada q*alidade
intríns*ca e indissoci*v*l de todo e qualq*er ser human* e ce*to de que a d*stru**ão de um
implicaria a dest*uição do ou*ro é qu* * resp*ito e a proteçã* da dignidade d* pessoa - e de
cada uma - constituem-se *m meta permanen*e da humanidade, do Estado e do Direito.
2.3.1 Conc**tua**o
Há autores que
acredi*am **r tar*fa árdua conceituar a dignidade da pessoa humana,
entretanto, um dos p*uc*s *ons*nsos teóricos *o *undo cont*mpo*âneo diz respeito ao valor
essenc*al do ser humano. Ainda que esse *cordo *e*a *estrito no *ai* das vezes apenas
ao
*iscurso ou q** essa exp*e*são, por dem*is ge**rica seja capaz de ag*s*lhar concepções
diversa* eve*tualmente utópicas e até c*ntra*itória* - o fato é *ue a dignidade da pessoa -
humana, o valor do homem como um fim
em si mesmo, é *oje um axioma da civ*lizaçã*
oc*denta*, e **lv*z a ú*ica ideologia remanescente.
De ac*rdo c*m as afirma*ões *an*i*nas, o homem é um fim em si própr*o e n*o *ma
*unçã* *o E*tado, da socie*ade o* *a nação - *ispondo *e u*a dign*dade ontológica.
Assim, * d**eito e o Estado, ao *ont*ário, é que d*verão estar organizados *m b*ne*ício
dos indivíduos. De*sa forma, K*nt sustent* a necessidade da separação dos *oder*s e
da
g*ner*lização do pr**cípio da *ega*idade como for*a de assegurar a*s homens a lib*rdade d*
persegu**em seus pr*jetos individuais.
C*mo ex*mp*o *as as*er*ivas de Kant, após a *egunda **ande *uerra m**dial, nasceu,
ver*ad*ira*en*e, a co*sag*açã* da dignid*de d* pessoa humana.
* ilu*tre doutrinad*r S*lva (1998) traz es*e princíp*o como valor s*p*emo da ordem
ju*ídica, posto que é um *os fun*amentos da Repú*lica Federativa Bra**leira, q*e por **a vez
é cons*ituí*a em *stado *emocrátic* de D*rei*o. Não é somente
um
pri*c*pio *e or**m
jur*di*a, ma* o é também d* ord*m polí**ca, soc*al econômic* e cult*ral. E*t* *a base de toda
a vi** *ocia*.
A dignida** da pessoa h*mana constitui um v*lor qu* at*a* a reali*a**o dos dire*tos
funda*entais do h*mem, em todas as suas dimensõe*, e, como * democrac** é o úni*o r*gime
político capa* de pr*pici*r a efetivida*e d*sses direitos, o qu* significa dignif**ar o homem, é
ela que s* revela c*mo o se* valor sup*emo, o valor que a *imensiona e hum**iza" (SILVA,
1998, *.27).
Re*. F**, Ter*s*n* *I, v. 1*, n. 8, a**. *, p. 98-123, ago. 2020 w*w4.fsanet.com.br/revista
*. *. C. Sposito, A. S. Car*alho, J. R. M. P. Sil*a
104
Dest* maneir*, pode-se dize* que a dignidade não exist* somente onde * *dotada pelo
direito e à *edida que este a reconhec*, já q** consti*ui dado prévio. No ent*nto, não pode ser
esqueci*o que o direito e*erc*rá um pa*el fundamental *a **a proteção, n*o sendo, portanto,
comp*etamente sem razão
que sustentou até mesmo a
desn*c*ssidade de
uma d*finição
jurí**c* da *igni**de da pessoa
humana, na *ed*da em que, em
última análise, *e cui*a do
valor pr*prio, da *a*ureza do ser humano como tal (NO*UE*RA, 2006).
Vale r*ss*l*ar que a di*nidade não de**nde de **t*s concretos, p*is é inerente,
intrínseca * t*da e *ualqu** pessoa humana, tendo em vista qu* em p*incíp*o, tod*s - mesm*
* m*ior dos criminosos -
são iguais
em digni*a*e, no senti*o de se*e* reconhe*i*os como
pe*soas ainda -
q*e não se po*tem de for*a igualmente digna na* sua* ***ações co* seus
semelha*tes, *nc*usive consigo mesmas. *or iss*, *esmo que se compreenda a dign*dade da
pessoa humana com* *orma de *omport**e*t*, ainda assim, e*atament* por co*s*it*i* no -
senti** aqui acolhido - a*ri*uto intr*nseco da pessoa humana e expr*ssa* o seu v*l*r a*soluto,
é que a dig*i*ade de toda* as pessoas me**o daque*as que co***em as ações ma*s **dig**s e
i*fames, não pode se* ob*eto de desco*sideração (NOG*EIRA, 2006).
Percebe-se que, po* *im, onde *ã* hou*er *espeito e proteção à vida, ond* não houver
respeito pela integr*d*de física * moral, onde *ão existir con*ições mínim** de sobrevivênc*a,
onde a liberdad* e a *uton*mia, a igualdade (em direitos e d*g*idade) não forem reconhecidas
tampouc* asseg*radas, a dignid*d* *a pessoa human* es*ará se**o *fetada gr*vemente * tais
situa*ões pre**sam *e* levadas aos n*sso* tr*bunais.
2.4 Dignidad* *a Pessoa como Norm* Jurídica Fundam*ntal
Tomando *or refe*en*ial tudo o qu* já fo* exposto e feitas *lg*mas considerações em
torno d* defini*ão e conteúdo da noção de dignidade da pessoa h*ma*a, p*ra posteriormente
adentrar o direito à pro*riedade, co*o condi**o digna de vida em sociedad* da
*essoa,
importa *v*liar *eu
*tatus jur*dico-no*mativo no âmb*t* do ordena**nto c*nstitucio*al
vigente. *e *m outr*s or*ens constitucio*ais, onde ig*almente a di*nid*de da pessoa humana
foi objeto de express* pre*isão, nem sempre houve clareza quanto ao seu c*rreto
enq*a*ramento (*E*NANDES, 2*10).
A
Constitu*ção de 1988 **o inclui*
a
*igni*ade
da
pessoa *o rol
dos
dire*tos
e
gar*ntias fundamentais, deixan*o-a na condição de p*inc*pi* e valor fundamental (*rt.1º, in*.
II*, CF/*8). D* acordo com Suzuki (2006), a dign*d*de, *omo qual*dade intrínseca da pes*oa
h*man*, n*o poderá ser e*a p*ópria co*cedida **lo orden*m*nto jurídic*. Tal aspecto, embora
Re*. *SA, Teresina, *. 17, n. 8, art. 5, p. 98-1*3, ago. 2*20 w*w4.fsanet.com.br/revista
A E*t*násia *m Fa*e da Dignidade *a Pe*soa Humana
10*
segui**o se*t*** inve*so, c*e*ou a s*r objeto de lúcida *eferê*cia feita pelo Tribunal Federal
Constituci*nal d* Al*manha, ao consid*rar que * dignid*de d* pe*soa não poderá ser re*irada
*e nenhum ser humano, muito embora seja vi*lável a pretensão de respeito e *rote**o que a
dignidade decorre.
Assim, *uando se fala em direito à dignidade, deve-se, na verda*e, considerar o *ireit*
a re*onhe**me*to, r**peito, pr*teção e at* mesmo promoção e desenvolvimento da dignidade,
podendo i*clusive fala*-*e de u* direito
a
uma e*igência digna,
sem prejuízo de
out*os
sen**dos que se p*ssa a*ribui* *os di*eitos fundamentai* relativos à d*gnidade da pessoa.
Convém ser r***altado que n** será pelo fato de
o Constit*i*te ter *lencado
*
di*nidade
da pessoa humana *o rol dos princípios fundamentai* que se pod*rá ch**ar
à
conclusão d* que a dignidade da pessoa, na sua c*ndição de n*rma jurídica, não as*uma, para
além de *ua **mensão princi*iológica, a feição de r*gra ju*ídic*.
2.5 Dig*idade da Pessoa e os Dire*t*s Fundamentais
Confo*me já relatado, dentre
as funçõ*s e*ercidas
pel* princí*io fundamental
da
di*ni**de da pess*a h*mana, desta*a-se, pe*a sua magnitude, o fato de se*, s*mu*tanea*en*e,
elemento q*e confere unidade ** sen*i*o e legitim*dad* a uma determ*nada ordem
constituc*ona*.
Assim, como be* lembr* M*rtinez (apud SARLET, 20*3, p.8*), ainda
que
a
dignidade preexis*a ao d*re*to, certo * que o seu rec*nhecimento e p*ot*ção *or parte
da
*rd*m *uríd*ca constituem requisito ind*sp*nsá*el pa*a *ue esta *ossa ser tid* como legí*ima.
Aliá*, t*l
dignidad* *em sido reconh*cida à dignidade
da *essoa
huma*a qu* *e chegou
a
sustentar, para*raseand* * conhecid* e *ul*icitad* a*t.16 *a Declaração Fr*ncesa dos Direitos
do Homem e
do Cidadã* (178*), que toda sociedade
que *** rec*nhec* e não garante
a
d*g*id*de da pessoa não possui uma Constituição.
Nest* s*ntido, possível verificar a *
relação est*eita *ntr* a dignidade da pessoa e
os
*ireit*s fun*amentai* ainda *ue não tenh* obs**vânc*a expre*s*o d* m*smo.
Co* efei*o, sen*o correta a premissa
de
**e os di*e*tos fundamen*ais cons*ituem
-
ainda *ue com inte*sidade variável - explicit*ções da *ign*dade da
p*ssoa, p*r v*a
de
conse*uência e, ao meno* em princípio, em cada d*reit* fundam*ntal se faz pres*nte um
conteúdo ou, pelo me*os, algu** proj*ção *a dignidade da pe**oa (TORRES, 2006, p.35).
Rev. FSA, Teres*na PI, v. *7, *. 8, art. 5, p. 98-123, ago. 2020
ww**.fsanet.com.br/*evista
F. S. C. Sposito, A. S. Carvalho, J. R. M. P. Silva
1*6
O objetiv* * manter a tese d* qu* * dignidade da pes*oa na condição *e *al*r
e
**in*ípio *orm*tiv* exige o *econ**cimento e *r*te*ão dos direito* fu*dam*ntais em toda* as
dimensões.
Pinto (apud S*RLET, 2003, p.8*) suste*ta que a
gara*t*a
da
dig*idade
humana
deco*r*, desde logo, como verd*d*iro imp*rativo ax*ológico d* toda * *rde* ju*ídi*a,
*
*econhecimento de *ersonalidade jur*dica a todos o* seres h*manos, acom**nhado da
previsão de instr*ment*s jur*dicos *esti*ados
à defesa das re*r*ções essenci**s
da
person*li*ade
humana, be* com* a *ece**idade
*e proteção desses direitos por p*rte do
Estado.
*essa f*r*a, *ode-se dizer que * dig**da*e da pessoa engloba necessariam*nte
o
respeito e p*oteção da integ**dade f*sica e emoci*na* (psíquica) em ge*al
da *essoa, d*
que
decorrem, por *xe*plo, a proibiçã* da pe** de m*rte, da to*tura e da
a*lica**o de *enas
corporais *
até mesmo a uti**zação das p*ssoas para experiências cien*ífica*. Ne*te se*tido,
diz-se *ue, p*ra a preserv*ção da digni*ade da pessoa huma*a, torna-s* indis*en**vel
não
tratar
as *es**as de *al modo que se l**s torne impos*ível representar a co*tingê*cia de se*
próprio cor*o como mom*nto de sua *rópria, autô*oma e *es*onsá*el indi*idu**ida*e.
*es*a mesma li*ha, p*ra além da lib*rdade pessoal e seus desdobramentos, sit*a-se o
*econhecimento e proteção da i*ent***de pessoal, co*cretizando-se no respeito pela
privacidade, intimidade, hon*a imagem tod*s as d*mens*e* vi*culadas à dign*dade e
da
pe*soa. At* *esmo o *imite *o dev*r de agir médico encontra-s* no re*peito à d**nidade
da
pessoa huma*a, que *ossibilit* ao *aciente morrer com di*nidade.
2.6 Dig*ida*e da P*ssoa Humana: Funda*e*to e
Limite do Estado D*mocr*tico de
Dire*to Brasileir*
*duzem Lopes; Lima
e
Santoro (**11) q*e a dignida*e da *essoa hu*ana não é só
*m dos fundamen*o* da Repú*li*a brasileira, m*s ta*bé* o *eu *imite mais *ssencial. *or *er
d* um val*r s*p*emo, todos os
Poderes da República (exe*ut**o, le*i*lativo e
judiciá*io) no
exer*ício de *uas funções, estão vinculados ao respeito à d*gnidade da pessoa h*mana.
O respeito à d*gnidade da *e*soa *u*ana pode ser con**der*do *omo *m dos
parâmet*os p*ra afer** a legit**i*ade de determinada ordem jurídica. No Estado Democrá**co
de Direi*o, o re*peito e * proteção à dig*idade da p*ss*a hu**na são me*as perma**ntes. O
referido valor proteg* o ser humano, para q*e ele seja sempre con*ebi*o * tratado *omo um
fim em si mesmo (FARIAS, 20**).
R*v. FSA, T*resi**, v. 17, n. 8, art. *, p. 98-1*3, ago. 2020 www4.f***et.*om.br/re*is*a
A Eut*násia em Face d* Dign**ade da Pe*soa Humana
107
*oré*, *odo *s*ado *ue respeita os direitos humanos e * dig*id*de *a pesso* *u**n*
se insurge contr* todas as formas d* a***u*l*ção do s*r human* e violadoras da sua *ignidade,
por *xe*plo, a prática da tortura e das pen*s e tratamentos crué*s, desumanos e de*r*da*tes; a
aplicaç*o da prisão perpét*a e da pena de *orte; a *rática da **cravidão, da se*v*dão e *os
t*abalhos fo**a*os; o tráfico *e seres hum*nos; *s *rá*icas eugê**cas de s*leção de *es*oas; a
venda de *rgãos; a a*ter*ção *a identi*ade genética do ser human*, por meio da *lonagem
repr*du*iva do s*r
humano; a prát*ca do g*nocíd*o e *o t*rrori*mo, assim **mo toda
e
*ualquer prá*ica que venha a desrespe*ta* as
norma* prote*oras d*s di*eitos hum*nos * da
dignida*e da *esso* h*man* (F**IA*, 2000).
*i**nda (*pud Lopes; **ma * Santoro, 2011, p.25) opi*a *obre o as**nto:
A c*ncret**ação dos direitos hu*anos, assim *omo dos dir*itos fundament*is, é
*
*oncretização da própria dignidade *a p**soa humana. Em ca*a um de*ses dire*tos
faz-se pr*sente um conteúdo ou, ao me**s, *lguma pro*eção da digni*ade da pessoa.
O *ão rec*nhecimento dos dire*tos hum*n*s re*resenta a negação da pró*ria
*igni*ade. Por i*so, se* hum*no, da*a exclusivament* sua condição h*mana *
e
independen*e*ent* de qualquer o*tr* circunstância, * titul** d** direitos humanos.
E*tes devem ser reco*heci*os e t*telados pelo Estado, as*im co*o respeitados pela
soc*edade, em razão da *i*nidade da p*sso* human*.
3 RE*ULTADOS * DISCUSSÕ*S
3.1 A Constituiçã* Federal e o Direito à Mor*e Dig*a
3.2 O Direito à Vi*a na Constituição Fe*eral de 1988: *o*sidera*ões G*rais
Com* bem co*ocado por Lop*s; Lima e *antoro (2*11), o bem jurídico d*s ser*s
huma*os por excelênci* é a vida. Soment* * partir da existên*ia da vida é que o ser hum*no
pa*sa a *er titular dos direitos fundamentais,
um a
vez que a vida é a fonte pr*mária p*ra
a
titu*a*idade de direitos.
A Cons*it*ição tu*ela a vi*a como *i*eito fu**amental no ca*ut do seu a*t*go 5º ao
e*tabelecer que:
"*odos são iguais perant* * le*, se*
distinção de q**lquer
naturez*,
garant*ndo-*e aos br*sileiros e aos estrangei*os r*side*t*s no P*í* a i*violabilidade *o direito
à vida (...)".
A partir d* *on*tatação d* que a d*gni*ade da pessoa h*mana é *m valor *upr*mo e
q*e, ao mesmo te*po, *ste ser hu*an* tem dire*to à vida, *omo co*seq*ência lógic* des*a
adi*ã* Lopes; Lima e Santoro (2011) desta*am a existência do dir*ito * vida digna:
Rev. *SA, Teresina PI, v. 17, n. 8, art. 5, p. *8-1*3, ago. 2020 www4.fsanet.*om.br/revista
F. S. C. Sp*sito, A. S. Carvalho, J. *. M. *. Silva
108
Se o*ha*mos
nossa car*a d* direitos fun*a*en*ais, *n**nt*aremos *m raz*ável
conjunto de direitos que *ir*ulam dire*am*nte na órbita do dir***o * *igni*a*e, como
p*ot*ção à v*da, ex*ressa pelo ca**t d* ar*. *º; o *ireito à inte*rida*e f*sica, p*íquica
e moral, prote*ida pelo i*ciso III do mes*o artigo, ao afirma* que \ning*ém s*rá
s*bmetido a tortura nem a tratamento des*mano ou degradante\; ou,
ainda, a
ved*ção à* p*nas de morte, *e carát*r perp*tuo o* cruel, esti**lada pelo inciso
XVLI*, ainda do art. 5º. *m todas e*sas ocasiões o cons*ituinte está proibindo que a
*ida seja *x*i*ta ou que se*a su*meti*a a padrões i*admissív*i*,
da
perspectiva do
*ue se compree*da por *ida digna.
A bem d* verda*e, t*n*o o *ire**o *
*ida quanto o pri*cípio da dignid*de têm u*a
relaçã* i**rínseca, porque nascem co* o ser humano e caminham j*ntos a* lo*go de toda
a
s ua
jornada, já que o que se pretende garantir, at*a*és do reco*hec*men*o dess*s *ir*itos
fu*damentais, são condiçõe* exi*tenc**is mínimas *ara o *eu p*eno *esenvolvimen*o, sem a
submissão a q*a*quer conduta degradante ou *esumana (SAN*ORO, 2010).
*o **azer a *ua de*inição de dignidad*, Dwor**n (2003) af***a que "as pess*as t*m o
direito d* não ser vítimas da i*dignidade, de não ser trat*das de um modo que, em *u* cultura
ou comunidade, se *ntende
como
dem*nstr*ção *e desre*peito". Assim, dev*-se conferir às
pessoas o di**i*o *e *iver em cond*ções *** quai* é possív*l senti* amor p*ópri*.
Carl*s *obe*to S*queira Castro (2007, p.284-285) entend* *ue o direito à vida refere-
** não apenas e objetivamente ao estado de ser vivo, mas a uma fo*m* qua*ificada de exercer
os predica*os
da existê*cia,
d* acord* co* *s padrõ*s de dign*dad* exi*tencial: "Ne*se
*entido, o direi** vida retrata o d*reito de viver uma vida digna seg*ndo a à
val*ração
jurídico-social *o que *e** *er a existência com *ignidad*".
Ana Marí* Marcos De* Ca*o (apud Lo*es; Li*a e Santoro, 2010), *o confrontar
a
dignidad* da pes*oa huma*a c*m o *ireit* à
vid*, enten*e que aquela tem e*pressão nã*
a*enas em como se vive, **s também na forma e condições da morte. **to p*rque o indi*íd**
que conduz di*nament* * vida por um caminho que se c*n**dera apro*riada tam*ém desejar*
m*rrer dignamente escolhendo o momento, *odo e lugar da morte.
A prot*ção c*nstituc***al da *ida humana não se restringe à *ida bi*lógica observam
Lopes; Lima e Santor* (2010), pois abrange a pr*teção à
v**a digna no seu sentid* mais
amplo. * re*peito à vida digna
pressupõe a
garanti* d** direito* fundam*n**is e*a, o que a
eng*oba n*o somente os direitos básico* de sobre*iv**ci* do ser *umano, como também
os
direito* vinculado* *o b*m-estar p*íquico e socia*.
Ressa*ta* ainda que * d*gnidade d* p*s*oa humana é * limite para os direito*
*und*mentais e confrontando-* co* o direito à **d*, ist* *, n* choq*e en*re man*e* a vida a
qualquer custo *om o direit* a nã* s*r submeti*o a tr*tamento cru*l e degrad*nte, como
a
Re*. FS*, Teresina, v. 17, n. 8, art. 5, p. 98-123, *go. 2020 w**4.fsanet.com.br/*e*ista
A Eutanásia em Fac* da Digni**de da Pessoa Hum*na
109
tortura médica, prevalecerá * dignidad* human*, *osto
que, *omo pri*cípi*
f**damental,
deverá *star *res*nte *m todos os mo*e*t*s da existência do h*mem, in**u*ive quando a
manutenção da vida mostrar-se inviável.
* ponderaçã* de b*ns se mostra com* p*stu**do *d*quado *ara demonstrar o acerto
de*sa afirmação. Esta obriga a atri*uição *e pesos a e*e**n*os *u* s* entrelaçam, como bens,
in**res*es, val*res, dire*tos, princí*ios ou r*zões.
T*davia, como adv*rte Humberto Ávila (apud S*ntoro, 20*0), para *ue este postulado
*eja útil e pos*ibili*e * sua co*ret* **licação devem*s estruturá-*o, oferecen*o como etapas
fundam*ntais a p*eparaçã* da ponderação, rea*ização da ponderação e a *eco*strução da a
p*nder*ção.
De aco*do *om * pr*paração da ponderação, deve* ser ana*isados tod*s os elem*ntos
e argum*ntos. Assim,
c*nstata-se que, no confli*o entre o direit* à vid* e a dignida*e
da
pessoa hu*ana, na *ipót*se específ**a
acim* mencionad*, temos co*o
e**mentos: * direito
*ue toda pe*soa tem à vida; o d**eito que toda pessoa **m de ser tratada com dignidade;
o
d*ver d* Estado *e respei*ar
e pro*eg** a vida;
* dever
da soci*d*de *e
n** agredir
injustament* a v*da de um d* seus mem*ros; a obed*ência pel* Estado, pela sociedade e pelo
indivíduo da* funções **mitativas e prest*ci*nais da dig*idade da *essoa h*mana.
*omo argumentos *e
tê*: *m pac*ent* em *stad* *erminal,
c om a vi da
irr**ediavelmente comprom*tida, send* a mor** imin*nte e in**itá*el; os atos médicos
possíve** que são consider*dos *úte*s, po*que não conseguirão reverter seu qu*dro clínic*; *s
atos de rea*imaçã* * ma*ut***ão da vida d*ste *aciente, os quais, en*ã*, são intervenções qu*
*pen*s imp**iriam * falênc*a *efinitiva do corpo, aumenta**o a q*antidade de vida, mas não
a sua quali**de; *
po*sibil*dade *e *re**ação de cu*da*os p*liati*os *elos médi*o*; morte *
como
*lgo que faz par** da vida, nã* devendo se* considera*a como uma doe*ça a
cur*r;
a
necessidad* de *ar a* paciente o máximo de be*-estar físic*, *ental, social e ***iritual.
A realizaç*o da pond*ração, por sua v**, exige que *e*a *s*abelec*d* a relaç*o *ntre o*
elem*ntos que são objet*s de **álise. *ra, o direito à *ida, como apontado linhas acim*, não é
um direito absolut*. Ta*bém o direito à vida n*o quer di**r
que ** o direito a um* vida
eter*a. Co*o visto, * direito à vid* imp*e que **t* não sofr* les*o ou a*eaça de lesão a*ravés
de condutas injustas. A *ign*dade *a
pesso* humana também n*o um princ*pio ab*oluto, é
emb*ra seja fun**me*t*l ao E*tado. O con*l*to e*tre d*gnidade*, d*la ou d* div*rsas pessoas,
impõe a su* relativ*zação. Todavia, a dig*idade é o l*m*te aos direitos f**dam*nta*s, como a
vid*.
Rev. *SA, Ter*sina PI, v. 17, n. 8, art. *, p. 98-123, ago. 2020 www4.fsanet.com.*r/revista
F. S. C. Spos*to, A. S. Carvalho, J. R. M. P. Silva
110
Como consequência l*gica, *xtrai-s* que, enquanto *ou*er vida, esta deverá *er dig*a.
A terceira e última et**a, den*minada reconst*ução da ponder*ç*o, estab*lece a necessidad*
de f*rmulação de regra* de rela*ão, inclusive com a primazia entre o* elementos de
***esamento.
*ons*ata-se que, qu*ndo a vida não se most*a* *ais viá*el, a di**idade da *essoa
hum*na nã* *ofr* qualquer *es**ição, devendo ser não a*enas *reservada como promo*ida. A
man*tenção * qua*quer custo de uma vid* *tr*vés da promoção de atos heroicos e invasivos
atenta contra digni*ade da pessoa a
*umana, consistindo em t*atamento c*uel e desumano.
A*ém d*ss*, a dignidade *a pessoa humana não pode ser violada para a manu*enção de direito
fundamental, aind* *ue este seja a v**a.
Co**lu*-se dest* forma que, em face *o p*stul**o d* ponderaçã* de bens, é **ssív*l
fa*e* a *xtr*çã* de dua* re*r*s: quan*o a vida não puder mais ser preserv*da, sendo a mo*te
imin*nte inevitá*el, deve o m*dico adotar as medidas e
nece*sá*ias para a pres*rva*ão
e
*r*mo**o da dign*da*e da pesso* humana, *ão subme*endo o pacien*e a trata*ento fút*l; *o
contrário, q*ando
houver um m*nimo d* *ossibilid*de de cu*a, o médico necessariament*
d*v*rá atua* nesse sen*ido, como consequên**a d*
direi*o à *i*a, porque o argume*to
*ue
fun**ment* a p*evalên*ia da dignid*de h**ana ("morte iminent* e inevitável") *ão es*ará
**esente.
O con*lito ent*e *ir*ito à vid* e d*g*idade h*mana, nos *ermos p*opo*tos aci*a, pode
ser resolvido também atrav*s do *ostulado d* prop*rc*o*alidad*:
O *os*ulad* da pro*orcionalidade não se confunde com a ideia de proporção em
su*s *ariad*s manife*tações. Ele s* aplica a*enas a situações em que há uma r**ação
de *ausali*ade entre d*** e*emento* empiricame*te dis*erníveis, um me*o e um fim,
d* tal sorte que se possa *roceder a*s *rês exames fundamentais: * da adequaç*o (o
me*o promove o fim?), o da necess*dade (*ent*e o* meios disponíveis e igualmente
adequado* para pro**ve* o fim, não há outro *eio me*os restrit*vo dos *i*eitos
fundamentai* afet*dos? e o da *ropo*cio*alidade em sen**do e*tr*to (a* vanta*ens
t*az*das *ela p*omoção do fim corresp**dem às desvantagens p*ovoca*as pe*a
adoção do **io?) (SANTO*O, 20*0, *.*4).
Rel*ta o mesmo *u*o* *ue as d*as hi**tes*s - a m*nutenção da vida * qualquer *usto e
o *f*recime*to d* cuidado* p*liativos, pe**itindo qu* a *es*oa t*nha uma morte tranquila e
min*m*me*te *oloro*a - devem s*r ob*eto de análise pe*o postul*do da pro*orcionalida*e,
que *xi*e que a relação en*re meio e fim (estad* *ese*ado de coisas) seja adequada, *ec**sári*
e vantajosa.
E a finalidad* da i**ervenção médica, n*cessariamente, t*rá de ser a pres*rvação da
d*gnida*e
huma** com máxim* de vida possíve*. Ass*m, na prime*ra h**óte** o médico o
Rev. FSA, T*resina, *. 17, n. *, art. 5, p. 98-*23, ago. *0*0
www4.f****t.com.br/revist*
A Eutaná*ia em *a*e da Dig**dade d* Pessoa H*mana
111
agirá para manter a vida a qualque*
custo, a*nda *ue
**m *sso acarrete uma mo*t* lenta,
sofrida e ansiosa. A análise
não resiste sequer ao primeiro requi*ito, o *a *d*quação:
**
o
*eio é um t*at*me*t* i*eficaz, por*ue não levará à cura da pessoa e apenas almejará a m*ior
qua*t*dade de vida possível, é e*idente que nã* pro**v*rá o fim de d*gni*ade humana, po**o
que * p*ciente será subm**i*o * uma v*rdadeira tortura.
*om rel*ção à segunda *ipó*ese, o mei* mostra-*e adequado *o fim, po*to que o
m*dico prestará o auxílio neces*ário *ara aliviar a *o* * o sofr*mento do pacient* através de
cu*dados paliativos, permit*ndo *ue o período fina* da v*da *ue lhe re*ta seja digno. O c*itério
da *ec*ssi*ade també* se*á a*endido,
pois sendo a mor*e im*nent* e inevi*á*el e sem
qualquer possibil*dade de r*ve*ter o *u*dro, nada restar* ao médico * fazer para ate*der a*
fim de preservar a di*nidade da pess*a humana, a nã* ser dei*ar de atuar de for*a heroi*a e
in*isiva. Fi*al*ente, *erá
uma ação
v***ajosa, porqu*, estan*o a vida *o paciente
*rremediavelmente c*mpro*etid*, *ue em sua h*ra fi*al possa ter o máximo de a*enç*o,
carinho * b*m-esta*, per*i*in*o que v*nha a falecer com * m*nimo de
dor e sofri*ento.
P*rtanto, neste conflito e*tre * dignidad* da pes*oa huma*a e o direit* à vida (mai*
longa pos*ível), prevale*erá o
princípio fundamenta* da digni*ad*, seja em
atenç*o
ao
postulado *a ponderação de bens, seja através
do postulado d* proporcionalidade. Resta,
*ntão, que o direito a uma vi*a
digna deve
ser completa*o pelo
direito * m*rte digna.
Re*p**ta-se, assim, o curso nat*ral da ex*stência humana.
A*e*ais, **bmeter u*a pe*soa a uma *ortura terapêutic* para lhe conf*ri* mai*
*uan*i*a*e ** *ida em detrim**to
de s*a *ualidade most*a-se uma *ondu*a violador*
d*
di**i*ade human*, até porqu* "n*n*uém s*rá su*me*ido à t*rtura n*m a tr**ame*to desumano
ou deg**d*nt*", *onforme det*rm*na o **t. 5*, *nciso III, da Con*tituição Fed*r*l.
C*m ext*em* pro*riedade, Romeo C*sabo*a (apud *A*T*RO, *010) ressalt* que
esta é uma situação que so*ent* pode ser resol*ida n* caso concreto, quando então pode*á ser
v*rificad* se, *fetivamente, não há qua*qu*r perspectiva manut*nção da à
vida, *ondição
de
indispensá*el para * c*rreta interpretaçã* dos
postulad*s *a pon*eração
de bens * da
prop**cion*li*ade.
É impo*ta*te ai*d* ser *es*altado que o dir*i*o à **da não é u* *ire**o absoluto,
adm*tindo-se *on**aposiç*o
desd* que em *onsonância
com os valores constitucionais. E
o
valor suprem* da *epú***ca Fed*rativa do Brasil, qu* o **ndam*n*a, * a digni*ade *a pessoa
*umana, que veda a submissã* à *o*tu*a e a tratam*nto cruel e degradant* *onc*u*-se, as*im,
qu* não se p*de pre*tigiar exclusivamente
a
v*d* biológ*ca co* o fim de dar-*he a
*aio*
"qua*tidade de vid*" po*sív*l, neglige*ciando *ss*m a dignidade.
R*v. FSA, Teresina P*, v. 17, n. 8, art. 5, p. 9*-*23, ago. 2020 ww*4.fsanet.com.br/revista
F. S. C. Sposito, A. S. Carvalho, J. R. M. P. **lva
112
Sobre o assunto, colo*a Mar*a d* Fátima Fr*ire de Sá (2005, p.3*): "o preço dess*
obstinação é *ma
gama indizível de sofrime*tos grat*itos, *eja para o enfermo, seja *ara os
familia**s deste", o q*e nã* *eria lugar **ntro de um Estado de *ireito. O pro*onga*ento *a
vid* somente se ju*t*f*ca s* tro*xer ao pacient* algum *enefício e *esde que não f*ra
a
dig*idade
da pessoa *umana, **vendo o médico
esforçar-se **ra *alvar a *id* do pac*ente,
mas sem submetê-l* a uma verdadeira tortur* ter*pêut*ca.
Sant*ro (2010) também observa qu* é d*f*r*nte a situação de que a morte é iminen*e e
in*v*tável, se*do o p*ciente considerado *ncuráv*l e qualquer tratamen*o *ue **e apliqu*m, no
sentido d* manter a sua vida, **r considerado fút**. S*rá que há possibilidade de vida digna?
N* hipótese d* não ser possív*l coexistirem v*da * dignidade, *ual dos d*reito* fundame*t**s
de*erá prevalecer? Se*do a *ignidade da pes**a humana o limite para os di*eit**
*undam*n*ais e confrontando-* com o d*reito * vida, isto é, no choque entre manter a vida a
qualquer custo com o direito a **o ser submetido a t*a*amento cru*l e degradante, c*mo
*
tor*ur* médica, prev*lecerá a d*gnidade
h*mana, posto *ue, co*o princípio
fun*amental,
deverá estar presente em todos os m*me*tos *a existência do ho*em,
i**lus*ve quando
a
man*tenç*o da vida se most*ar inv*ável.
3.3 O Direito à Morte **gna
V*le res*altar, de a*temã*, que o co*ceito
de morte é bastant* *ontro*erso nas
ciências mé*icas. A r*alid*de empí*ica demonstra e as ciências médic*s
comprovam que
a
morte *ão é, *m ger*l, fenômeno *nstan*âneo, mas um processo q*e se alonga no tem**.
Oco*** em etapas e, por isso, em um espaço deter*inado de tempo. * lento prog*essi*o, e
muitas vezes.
Div*rsas div*rgências q*a*to a*s cri*érios para consta*ar-*e a mor*e. Até a metade do
sécul* passad*, domin*va *omo vá*ido para o diagn*s*ico da *orte hum*na cri*ério da o
parad* cardior**spi*atória. A
cessação das
*tividades pulmo*ares e da c**cula*ão sang**nea
*epr*sentava a m**te huma*a. Entret**to, os a*anços **s ciência* médicas, por m*io
das
téc*icas
** reanimação * o *p*reci*ent* de aparelhos moder*os a substituir as *unções
cardíac*s e respiratórias, demonstraram a necessida*e *e encontrarem-se novos *r*térios para
o diagnóstico da morte, um* vez q*e **uel*s *ã* se *os*ra*am seguros.
Atualment*, a *om*nida*e científica mundial aceita a constat*çã* da morte encefálica
como morte hum*na, no ent**to o que vem ge**ndo import*n*e polêm*ca nas ciên*ias
*édicas é que *s critér*os pa** diagnosti*ar-se a *orte enc*fáli*a n*m sem*re sã* os mesmos.
R*v. FSA, Ter**ina, v. 1*, n. 8, art. 5, p. 98-1*3, ago. 2*2* www4.fsanet.com.br/re*is*a
A Euta*ásia e* Face da Digni*a*e da Pessoa Human*
*13
*e* contar *ue *ã* há unani*idade entre estudios*s e pesquisador** n* áre* *a* ciê*cias
m*dicas, q**nto ao modo de averiguar-*e a morte ence*ál*ca.
O Conselho Federal de Me*icina reg*la*entou, media*te *are*er, o dia*nósti*o
de
morte encefálica * aut*riz*u qualq*er
mé*ico, indepe*dent*
*a espe*ializa*ão, a co*prov*r
*linicame*te * estado *a morte *ncefálica. O Conselho Regional de Sã* P*ul* *e*omend*
seguir * modelo do
*rotocolo do hospital das clínicas da Un*versidade F*d*r*l do *araná,
for*ulado em **86. Porém, cada instituição pode *laborar s*u p*óprio pro*ocolo.
A Lei número *.43* d* 4 d* fevereiro d* 19**, q*e dispõe sobre a *emoção de *rgãos,
tec*dos e partes do corp* h*mano par* *ins *e trans*lante * tr*t**ento, *stabelece a morte
encefá**ca c*mo marco final da vid* h*ma*a, conform* o caput do s*u *rtigo 3º.
A retirada post m*rtem de *ecidos, órgãos ou partes do corpo hu*ano de*tinados
a
transplante o* t*ata*ento deverá ser *recedida de diagn*stico de m*rte enc**álica, const*tada
* re*istrada por doi* médicos não partic*p*ntes d*s equipes de remoção
e tr*nsplante,
me*iante a utilizaç*o *e *ritério* *línicos e te*nológicos definidos *or resolução *o Co*selho
F*deral de *edicina (S*NTO*O, 20*0, *.84).
Segu*da * referida *ei, cabe ao Con*elh* Federal de M*di*ina defi*i*,
po* meio de
res*lução, os cr*t*rios clínicos e
tecnológ*cos pa*a di*gnos*icar a morte encefálic*. *
C*nselho Federal de Me*i*in* ed*tou a Resolução
n º 1 .4 * 0 / 9 7 *
estabeleceu quais são os
*r*térios para dia*n*stica* a morte encefálica que, segundo essa r*soluçã*, dá-s* com a parada
total e irr**e**ív*l das funções encefáli**s.
Veri*ica-s*, portan*o, que * orde*amen*o jurídic* brasileiro ac*lheu, para os casos de
trans*l*ntes de órgãos, a com*rovação de morte enc*fálica, *egund* crit*ri*s
clínic*s
e
*e*nológicos *ef*n*dos por Re*o*u*ão do Conselho Federal
de Medi*ina. Em **das as ou*ras
situações de m**t*, o critéri* *a*a d*agnóstico também deve *er * mor*e encefálica.
*a**o*o (2010) argum**ta que, e*b*ra possa parecer estr*nho postular por um di*ei*o
à *orte dig*a q*and*, linha* a*ima, não h* o dir*ito da pessoa de su*rimir a s*a p*ópria vida.
No *nt*nto, a co*cepção de *orte di*na deve *er e*tendida sob outro ângul*, no sentid* de
ser a mort* o final da existê*cia hum*n*, *u melho*, o caminho nat***l d* to*os os homens.
Es*a é a *az*o pela qual, sendo a dig*idade da
pessoa huma*a um princípio
*un*amental a s*r respeitado *m todos os mom*nt*s,
existe direi*o à *orte di**a *anto o
quanto o direit* a uma vid* dig*a:
**rtanto, um dos mais importante* obj*ti*os de uma so*iedade humana é cui*ar para
uma vida boa *e seus membros, mas, espe*ialmente, daqueles que, *m r*zão *a
idade, doença ou por outros *otivos dependem da assistên*ia da sociedade. M**,
Rev. FSA, Teresin* **, v. 17, n. 8, art. 5, p. 98-123, ago. 2020 www4.fsane*.com.br/revista
F. S. C. Sposito, A. S. Carvalho, *. R. M. P. Silva
114
ind*bitavelmen*e, f*z pa*te da vida boa, *ambém, uma boa morte n* sentido de uma
**rte co* d**nidade. Além d* *n*re**nto de tais instit*ições sociais, tam*é*
é
im*ort*n*e des*nvolver e melhorar a *f*rta d* um* ass*stência p*liativa efi*iente e
de u* acompanhamento di*no h*mano, como e*e é exig*do pela ação d*s
ins*i*uições especia*izad*s (SÁ, 2005, p.32).
María Casado Go*z*lez enxerga nas so*iedades ocidenta*s atuai* a morte c*** *m
t*bu.
Os p**fiss*onais d* saúde tal co*o Débora Diniz (2*07) *f*rma so*re a m*r*e: "são
as*ociado* e* um
etho* que, erro*ea*ente, *ss*cia a mor*e ao fra*asso". Com iss*, há o
paradox* *e *ue, se, *or um lado, são o* pr*f*ssio*ais qu* *ais têm con*ato com a *or*e, por
outro sã* a*ue*e* que mai* resi*te* a reconhe*er a morte com* *m ***o natu*al da vid*.
T** *ecusa, partind* de alguém que po*sui competênc*a téc*ica pa*a não ac*itar
esta
*o*d*ção, *u*ando **útil e de*esp*radamente con**a a morte, p*de acarretar consequências
desum*nas, porque o fim será apenas o pr*l*ngamento da vida a qualq*er **sto, o que é
den*m*nado obstinação terapêutica.
Santoro (2010) observa ainda qu* os avanços t*c*ológicos ac**am por f*ment*r **ta
situação uma ve* que, se d* um lado são i*d*spe*sáveis à* no*as descobertas p*ra o
*r**a*ent* ** *oenças, por out*o *ossibilitam a ma*utenção quantit*ti*a da vi*a, *inda que
sem qual*uer qualidad*, é d**er, sem respeitar a *ignidade da p*ssoa humana.
3.* Análise da Euta*ásia
Campos e Med*iros (2011) rel*tam, d* a*temão, *ue o termo e*tanásia possui or*gem
grega, deri**nd* da ex*ressão grega eut*anatos, sendo eu (boa) e th**atos (mor*e).
De aco*do com o *icionário Larousse, o term* "eutanásia" *os*ui a seguinte def*niçã*:
"é a ciência de adoçar a mort*, a*en***do os so*rime*tos que a antecedem".
* ve*bete "eutaná*i*" é termo conhecido por qual*uer pesso*, ai**a q*e *ão tenha
conhec*m*nt*s *obre direito ou medicina. No entanto, *as últimas *écadas, e**ecialmente *
par*ir do s*culo X*, alguns novos termos surgi*am, tais *om* "ortotanásia", "dista*ásia",
"suicídio as*istido" e "mistanásia" (LOPE*, 2011).
Lopes; Lima e Santoro (201*) d*ixam bem claro que a *a*av*a é der*vada do grego, a
eutanásia (*u = boa, thanatos = mort*) d*ve se* e*tendida como o *to de se c*ifar a v*da de
o*t*a pessoa acome*id* p*r uma *oença incuráve*, que *he causa ins*portáv*i* dores
e
*of*im*ntos,
por pi*d*de e em *e* i*tere*se. O q*e moti*a o au*or da eutanásia, *ntão,
*
a
co*paixão p*ra c*m o pró*imo, i*to é, **sca-se faze* u* "bem" àquele doente, fator
*ev. FSA, Teresi**, v. 17, n. 8, art. *, p. 98-123, ago. *02* www4.fsanet.co*.b*/revi*ta
A *utanásia em Fa*e da Dignid*d* da Pes*oa H**ana
*15
diferenciador de um hom**ídio simp*e* (ma*ar alguém). Po* isso, ausent* a c*m**ixão, n*o há
o *ue se falar em e*tanásia, mas sim em homicídi*.
Eutanás*a pode ser entendida como o ato de p*iva* a vida de outra pes*oa aco**tid*
*or uma afecção incurável, por p*edad* e em seu interesse, para *c*bar com os s*us
so*ri*ento e do*. O *óvel do age*te, *orta*to, é a *o**aixão **ra com o próximo.
Defe*de M*RTIN (1993) que:
[...] o t*rmo eutanásia seja re*ervado apenas para * ato médico *ue, po* com*aixã*,
abrevia *ireta*ent* a vi*a do paciente *om a i**ençã* de e*iminar a d*r e q** outros
procedimentos *ejam ident*fic*dos co*o ex*r*ss*es de assass*nato por mi*ericó*dia,
mi*tanásia, distanásia o* ort*tanásia conforme seus re*ul*ados, * in*encion*lidad*,
sua *at**eza e circunstâncias.
Na mi*tanás*a * m*rte ocorre a*tes do seu tempo nat*ral, por ex*mplo a mort* que
po** vir a o*orre* em casos *e o*issão
de *ocorr*. As***, as
cond*tas ne*ligentes,
im*rudentes e imperitas *odem c*lminar com o *rocesso
da m*stanásia, ou seja, a morte
miser*vel.
* ortotanásia sig*ifica mort* correta, ou *eja, a morte pe*o seu processo *atur*l. Neste
c*so o doente já está em p*oce*so natur*l da morte e recebe uma contribuição d* médico para
que este e**ad* si*a seu *urso natural. Por exemplo os cuid*dos pal*a*ivos.
A dist*násia, por sua vez, é o
prolon*a*ento artificial do processo de m*rte * por
*onsequ*ncia prorr*ga tamb*m o so**imento da pessoa. M*itas ve*es o desej* de recupe*a*ão
** doente * *od* cust*, ao invés *e ajudar ou permitir um* m*rte nat*ral, acaba prolonga*do
sua agonia.
O suicídio assist*do *contece quando uma pessoa, que *ão consegue co*cretizar
so*in*a sua i*tenção de morrer, solicita o *uxíl*o de *m ou*ro indivídu*.
A primeira discussão, que abarca a *uestã* da eut*násia, r*f*re-se *o direito à morte
*ign*. *nda*a-se, d*ante da prot*çã* da v*da digna pela Cons*ituição Fede*al, *averia um
úl*imo *ire*to do ser humano: o direit* à mort* digna. N* e*ta*to, para análise tanto jurí*ica
q*a*to é*ic* dessa q*estã* fazem-se neces*árias algumas reflexões.
L**es; Lim* *
Sa*toro (2*11) afirmam que a
análise é num primeiro m*mento *e
o*dem const*tucional, por*ue a Cons*ituição * a *ei *un*amental e supre*a do Est**o
brasilei*o, seg**do determina o pr*n*ípio d* *upremacia da C*nstituiçã*. Est*
no vérti*e
do
sistema jurídico nacional. *em posição hierár*uica *uper**r e* rela**o a *odas as espécie*
normativas e a*os jur*di*os do sist**a j*rídic*, d*nt*e el*s a legislação penal.
Rev. FSA, Teresina PI, v. 1*, n. 8, art. 5, p. 9*-123, ag*. 202*
www4.f*an*t.com.br/revis*a
F. S. C. Spo*ito, A. S. Carvalho, J. R. M. P. *ilva
116
*m segundo *uga*, a inviola*il*dade do direito vida, pr*vista na Constituiçã*, de*e à
ser com*reendida como o direito * não t*r a vid* agre**da por qual*uer conduta humana d*
terce*ro que tenha por base *ma **ão ou omiss*o ilegítima.
E, *or terceiro lu**r, a análi*e da eutaná*ia deve ter como premissa inicial o fa*o de o
Es*ado brasileiro ser *aic* e, por iss*, desvinculado de q*alque* valor rel*gioso.
Em qu*r*o lugar, * p*oteç** constitucional da v*d* humana garan*e a todos o direi*o à
v*d* com d*gnidade. Se há *arantia
de v*da di*na, indaga-se s* há
de*tre tod*s os direitos
fundamentais, um últi*o *i*eito qua* seja: * d*r**to c*nst**ucio*al à morte **gna.
Lopes; Lima e *anto*o (2011) deixam *em claro que
apesar
de a *utanásia ser
comple*amente
dif*rent* do genocídio e da eugenia, * nã*
guar*a* *ualque* re**çã*
com
estes, da ótica dos *ir*itos humano* e da
bioética, a maioria *a* *ráticas de e*ter*í*io
ocorridas dur*nte o *egime t*talitár*o nazista al*mão é até hoje o m*i*r **stá*u*o à di*cussão
con*emp*râne* do dir*ito de m*r*er dig*a*en*e tan*o no direito quanto na b*oética.
Quanto *o Direito *ompar*do, na *rande maio*ia dos pa*se*, * *utanásia t*m sid*
con*i*erada com c*r**s nuanças, crim* con*ra a vida. Alguns p*íses preveem penas menores
para o
h*micídio
q***do *á a motivaç*o huma*itária do ato e a**uns admit*m eutaná*ia *
passiva * a eut*ná*i* ativa **direta.
A
*utaná*i* ativa in*ire*a não pode ser *on*undida com a e*t*n*sia ativa direta,
porque a condu*a de *nje*a* um fármaco com a fi*alidade de a*reviar a *ida obviament* n*o *
a me*ma q*e * a*ão do médico de aplicar *nalgé**c*s *ara al***ar a dor * o sofrimento, ma*
*ue como efe**o s**u*dário certo ou ne*essário, **vará à abre**ação da
vida d* pacient*,
é
dizer, será a causa do event* m*rte (SANTOR*, 2010).
Na
indi*eta, o a*o princ*p*l é pos*tivo, c*nsist*nte em
aliviar d*r insup*rtável,
e*q*a*to que o ef**t* sec*n*á**o é n**ativo, pois levará * *aci*nte à m*rte. Inversa*en*e, na
*ut**ásia ativa, o efeit* principal é *egati*o enquanto que o secundário é pos*tivo, j* *ue se
m*tar* alguém para *he *liviar o sofrimento.
Apenas *rês países legalizara* a eut*nás*a ati*a: Ho*anda e Bél*ica em 2002,
*
Luxemburgo em *ar*o de 2009. Esses
países estabe*ecera* re*uisitos expressos e
*specíficos em suas respe*tiv*s legisl*ções para a pr**ica legal da eutanásia **los médi*os.
A eu*anásia i*di*eta não é p**ível no ordename*to ju**dico brasileiro, ten*o em vista
que não se *oderia exig** *o profissional out*a *titude fre*te à situação em *oncre*o, o que se
just*fica na necessida*e d* faz*r o bem ao seu p*ciente **nforme determina o princípio
da
benevolê*cia (SANTO*O, 2**0).
Rev. FSA, Teresina, v. 1*, n. 8, art. 5, p. 98-*23, ago. *020 w*w4.fsanet.c*m.br/re*ista
* Eutanásia em Face da Dignidad* da P*s*oa Human*
117
Além disso, não pode o méd*co permanecer
*nerte enquan*o o doe*te é sub*et***
à
verdadeira tortura,
a qual, ainda que
não d*corra *e
um* ação h*mana,
é *edada
const*tucionalmente. É desumano e degradante *ermitir *ue al*uém seja s*b**tido a intenso
sofri*ento quando *xistem meio* qu* *he *ossi**li*am ter * mínimo de
dig*idade. Tr*ta-se,
nova*ente, do *onflito entre vida e *ignidad* d* pessoa huma*a e, c*m* visto alhures, apesar
de **bas *erem relativ*s, e*t* prevalecerá sobre aquela.
*xtrai-*e, portanto, ao men** com relaçã* à eutanás*a
ati*a indir*ta, que a ação do
mé*ico não é culpável,
posto que amparada
p**a inex*gibilidade de *onduta diversa. **f*re,
pois, da eutanásia ativa
direta, poi* há a v*abilidade de mi*or*r o *of*imento do do*nte com
a*al**sicos sem que com iss* *he *n*ecip* a morte. Além disso, nesta situ*ç*o a di*eção d*s
trabalho* deverá *er *ara promo*er a saúde do paciente, ai*da q*e não seja possível falar em
aus*n*ia de doença. Atende-*e,
ass*m, à f*n*lid*de
prestacional da dign*da*e da p*ssoa
h*mana (S*NTO*O, 2*10).
Há q**m *ust*nte ainda,
como bem *emo*stra
Ana Ma*ia Mar*os del *ano, outras
formas de eutanásia, como * eugê*ica, * *rimina*, a econômica, a e*periment*l e a s*lidária.
E sobre o *ssu*to, Santoro (2010, *.*9) afirma: "Des*e já, afir*amos que não se pode
concordar com a c**ssificação desta* formas de*tro do conceito de eut*ná*ia, o que se*á mais
b*m exp**cado adiant*, após b*eve conceitua*ão *e **da uma *ela*".
A eutanás*a **gênica é aqu*** aplicad* com o fim d* melhorar a raça, conforme
propugnado por Bindin* e Hoche. Seria, portanto, a morte d**a às *es*oas com malfo*mação,
isto é, com problemas de
desenvolvim*nto
psicomotor, ou ainda àqu*les que possuem
d*stúrbios mentais ligados à sexualidad*. Infeliz*ente, c*mo visto n* e**o*ço histó*ic* supr*,
a huma*idade *r*sen*iou a eu*enesia desde os povos p*imitivos e *o*co tempo atrás as
at*oci*ades prati*adas pelo* nazist*s compro*aram que a i*eia de co*st*tu*r *ma *aça super*or
às dema*s nun*a *eixou d* est*r pre*ente no pe**amento d*s homens (S*NTORO, 2010).
A eutanásia criminal *onsiste na m*rte d*da aos in*ivíduos considerados *oc**lmente
*erig*sos, ist* é, àqueles que
p*aticaram *ondutas t*picas penai* que colocaram
*m r*sco
a
Socied*de atra*és da les** ou p*rigo de l*são *ens jurídicos p*ot*gid*s. Tr***-s*, *ois, de a
v*rd*deira pena corporal, mai* pr*cisamente, *a pena de morte (SANTORO, 2*10).
A eutan*sia econômi*a significa morte dos doentes i*c*r*v**s, dos inválidos, dos a
anci*os e de *odos aquel*s que fossem co*sider*dos co*o pe*soas *núteis por acarr*tarem à
sociedade um elevado custo econômico assistencial-sanit*r*o. *tenta-se, a*sim, ao fim
merame*te econ*m*co, e*itando-se o
g*sto com aqueles
q*e não poderiam retr*bu**
à
*oci*dad*, como s* fossem um estorvo.
Rev. *SA, Te*esina PI, v. 17, n. 8, art. 5, p. 9*-123, a*o. 20*0
www4.fsanet.co*.br/r*vi*ta
F. S. C. Sposito, A. S. Carvalho, J. R. M. P. Silv*
1*8
A eutanásia expe*im*nta* bus*a o progress* cientí*ico atr*vés da mor*e se* *or
*
determi*adas p*s*oa* com o fim d* *eal**ar experiências ci**tíficas.
Finalme*t*, a eutanásia
solidária é *ealizad* e* doentes a
des**ganado*, o* seja,
*ac*e*tes qu* e*tejam com alguma do*nça in*urável, **m o fim de poder uti*izar *eus tecidos
* órgãos para de *ra*sp*ante a outro do*nte que ap*esente maiores *han*es de **br***da. N*o
é p*ss*vel ac*itar qu* q*ai*q*er dessas def*nições (eugênica, criminal, eco*ômica,
e*peri*ental e solid*ria) p*ss*m s*r incl*í*as d**tro do *once*to d* eut*násia. *m verdade,
sã* comportamentos que *s*ão longe de apre**ntarem fins *obres e altruí*t*s, que objetivam
dar a q*em apresente *ores e s*frimentos insuportáveis uma b*a mort*.
Os ú*icos
*ontos de intersecç*o entre esses comport*mentos e a
eutaná*ia seriam
a
m*r*e
se* dor e a in*erv*nção de um m*dico, enquant* qu* a finalidade de compaixão ou
mise*ic*rdia q** é o principal atr*buto para dis*ing*ir a eutanás*a seria **mpletamente
dive*gente
em cada uma d*las. *or*an**, *eve ser rejeitada qualquer concei*uaçã* de
eu*anásia q*e *ão aquela
que a *efi*a co*o a aç*o *u a o*i***o realizad* por comp*ix*o e
com o consenti*e**o prévio
do *aciente *u s* este não puder ser consci*ntemente
manifesta*o, de s*us fa**liares, p*ra d*r uma morte s*m d*r a alguém que es*eja submet*** a
grave sofrime*to em funçã* de um mal **cur*vel (VIEIRA, 2009).
D* *ato, n*s pa*s*s que a****aram a eutanásia como um procedimen*o lícit*, o ato *e
*ndulgênc*a sempre foi requ*sito, ai*da que implícito, para a sua prática, sob
pen*
d*
*e*virtuamento *e um impo*tant* *onceit*. Assim, * Holanda legaliz** a eutan*s*a *través da
L*i sobre a Cessaç*o da Vida * Pedido e *uicídio Assi*tido, *m 1 *e abril o
de 2002,
es**bele*en*o entre os r*quisitos par* a sua r*alização:
Ar*
2º.1. Os requisitos de cuidados adequados, menciona**s n* art. 293,§
2º, do
Código Pen*l deter*inam que o m*d*co:- tem con*icção de que o pe*id* a
*o
pa*iente *oi voluntário e b*m a*ali*do;- tem a convic*ão de que o sofrimento
**
paciente *ra intole*ável e sem **rspectiva d* alívio;- inf*rme ao *aciente a res*eito
de sua sit*ação bem como sobre suas persp*ctivas;- * * paciente d*vem chega* a
u*a conclusão juntos de que não havi* outra so**ção *lter*ativa razoável a *it*ação
do *acie*te;- consulto* ao menos um *utro médico, independent*, que exami*ou o
paciente e **u seu parecer *or *scrito acerca dos requisitos de cuidad*s adequados
mencionados *as parte* a-d, e;- a*reviou a vida ou assist*u um suicí*io c*m os
cuidado* adequad*s (SAN*O*O, 2010).
Assim, *e acordo
com o ar*. 20, "a", 2, do Código P*n** *olan*ês, a eutanásia
praticada pel* médi*o
não se*á conside*ad* crime se f*rem atendidos o* requisitos de
cuidados ad*quado* e*tabelecido* p*lo art. *º da *ei *obre a Cessa*ão da Vida a Pedi*o e o
Rev. FSA, Teresin*, v. 17, *. 8, art. 5, p. 98-*23, ago. *020
ww*4.fsanet.com.b*/revista
A *ut*ná*ia em *ace da Di*nida*e da Pess*a **mana
119
Sui*ídio Assis*ido (Pro*edimentos de R*visão) e se o médico notific*r o patologista
mu*icipal deste ato (*ANTORO, 2010).
Na Bé**ica, e* 28 de maio de 2002, o parlamento *romulg*u a le* que *utoriza a
eut*násia, definid* c*mo "o ato, *eali*ado por terceiros, qu* faz c*ssar int*ncio*almen*e
a
v*da *e um* pessoa a
pe*ido de*ta", apresentando requi*itos *im*lares aos da *eg**lação
h*landes*: *
realização por médico; que * paciente seja a*ulto ou menor
emancipad* co*
pl*na capa**dade e consciência na
época do *eu p*dido,
que deverá ser realiza*o
voluntariam**te; qu* o paciente e**eja em *o*dição médica irremediável * *om queixa
de
sofrimento físico e ment** constante e insu*ortável que não pode ser *inorado e qu* *e***ta
de um a
condição
acidental ou *at*ló*ic* grave e in*urável, *uja n*t*reza persisten*e do
sofrimento físico o* mental do pacient* s*ja dete*minad*;
**e o médico informe ao se*
pac*ente sobre se* es*a*o de sa*de e sua expectati*a de v*d*; que seja obt**a
uma segu*da
o*i*i*o mé*ica (SANTORO, *010).
Con*tata-se, assim, a preocupaç** dos *e*islad*res no móvel
h*manitário, co*
o
escopo d* propiciar uma morte *em dor a q*em r*con*e*idame*te es*eja sofrendo *ores
i*suportáveis e não tenha es*erança de cura, sempr* com a participação de *m m**ico c*p*z
de propiciar àqueles desesperanç*dos a *er*eza do d*agnó*tico e p*ognóstico da *oe**a, bem
como um* *ecisão autônoma e livre de quaisquer p*essõ** externas.
4 CONSIDER*ÇÕ*S FINAIS
Tendo em vista a breve ex*osição *o assunto *m ques*ã*, este se mostrou de grande
complexidade, bem como a*vo de inúmeras discuss**s.
V*rific*-s* que a d*scussão sobre o dir*ito *e morrer ainda é muito polêmica *ão só *o
Brasil, m** na *ra*de maior*a dos *aíses que se propõ** a enfrent*-la. A posi*ão da *a*oria
d*s autores *es*uisados é no sentido da existência do direito
à morte digna e,
*onsequentemente, da sua *revalência quando em si*uaç*o *e *olisã*
com a preservação *a
vida exclusi*ame*te q*antitativa, uma v*z que a Consti*ui**o Federal de 19*8 sinaliza p*lo
re*pei*o à d*gn*d*de da *esso* humana como funda*ent* do Est*do D**oc*ático de Direito,
c*mo p*de ser *isto no decorrer do pr*s*nte artigo.
P*r eu*anásia, de*e-se enten*er a co*duta de p*iva* a vida *e *utra pessoa acomet*da
por afecç** *ncur*vel, por compaixão e e* *eu *xclusivo *n*eresse, co*oca*do
termo fin*l
à
dor * ao sofrim*nt*. *ode ser prat*cada tant* *e fo**a ativ* ou passiva, di*e*a ou indi*eta. Já o
*ev. FSA, Ter**ina PI, v. 17, n. 8, art. 5, p. 98-123, ago. *0*0 www4.fsanet.c*m.br/*evista
F. S. C. Sp**i*o, A. S. Carva*h*, J. R. M. P. Silva
120
suicídio assis*ido é a autoeutanás*a, isto é, a eutanásia rea***a*a pelo próprio ind*víduo, c** o
auxílio de terc*iro tão so*e*te nos at*s pr**a*ató*ios.
A c*m*a*xão é o elemento carac*erizador da eutaná*i*, razã* p*la qual não se pode
aceitar que c*mpo*tamentos que são co*t**rios à dig*idade da *essoa human* est*j*m
a*arcados dentro *o seu *onceito, o q** se mo*tra um verda*eiro contrassenso *u, ao menos,
um* for*a *e dar uma con*tação p*sitiva ao* a**s bárbaros o* cruéis.
*ico* cl*ro *i*da que *a *rtotanásia (eutaná*ia indireta ou passiva) a conduta *stá
amparada pelo direito *rasileiro, po*quanto não *e busca a morte *o paciente, *as *im a*ivi*r
a dor o* sofri*ento, com a *tilização de fár*acos q*e, no entanto, apresentam efe**o
secundário certo o* ne*essário à abr*vi*ção da vida do paci**te.
Quan*o à euta*ási* ativ* *ireta, co*p*eende-s* que é condu*a *lí*ita e que config*ra,
segundo a legislação pen*l e* v*gor, homicídio com ca*sa especial de
dimi*uição de p*na,
p*evi*t* no
*arágr*fo 1º, do artigo *21, do Có*i*o Pe*al. É i*p*rt**te ainda *ris*r que,
*pesar de a *onstit*i*ão Federal s*nalizar n* sentid* do direi*o à morte d**na, as l**isla*ões
ci**l e penal ain*a não *ofreram alterações.
C*m o escopo de finaliz*r *ste trab*lho, *az-se oportuno trazer uma brilhante
colo**ção do Ministro Gilmar Ferre*ra Mendes (Voto AD* nº *510, 2008) s**re a que*tão:
S* *ode*os tirar *lg*ma liç*o *as múltiplas te*rias e conc*pções e de to*o
o
inf*ndáv*l debate que s* p*oduzi* *obre temas como * aborto, a e*tan*sia * as
p*squisas com *mbriões **manos, * *ue nã* existem resp*stas mor*l**nte correta*
e un*v*rsalme*te ac*itá*e*s sob*e tais q*e*t*es. Independentemen*e d* concepção
que se tenh* sobre o ter*o i*i*ial d* vida, não se pode perder de vi*ta - e is*o
parece ser i*dubitá*el dia*te de qualquer p*sicionamento **e se adote *obre o tem*
- que, em qualquer *i*ó**se, *á um elemento vita* di**o de pr*teç*o jurídi**.
D*a*te de toda pesq*isa realiz*da e também da decisão do i*ustre m*nistro que - após
um insigne discurso sobre a proteção à *ida ju*gou improced*nte a ação - fi**
n* t i *a *
nec**sidad*
** mais estu*os acerca do tema, visto *ue o Bras*l, **r ser um país ** m*i*ria
cató*i** on*e o tema começa a s*r tratado *e *o*ma mais concisa *os dia* atua*s, torna-se de
*uma importância um aprofundam*nto c*ncreto q*anto aos re*ultados obti*os nos países em
q*e a e**anásia é permitida
*em
co*o n*s leis e con*içõ*s gerais para
q** este processo
possa ser re*li*a*o no Brasil.
Rev. *SA, **re*ina, v. 17, n. 8, art. 5, p. 98-1*3, *go. 2020
www4.fsane*.com.br/revis*a
* Eutaná*ia em Face da Dignidade da Pessoa Humana
121
REF*RÊNCIAS
ALVE*, C. F. O pr*ncí*io con*titucional da dignida*e *a pes**a *umana: o enf*que *a
doutrina social da Igr*ja. Rio de Janeiro: Renovar, 2001 apud MI*ARDI, Fábio *re*ta*. M*i*
Amb*ente do *ra*alho e Pro*eç*o Ju*ídica da
Saúde M*ntal dos empregados
na empresa
conte*porânea. 189p. Disserta*ão (Me*tra*o *m Direit*). Centro **iversitár*o de Curitiba,
*uritiba,
2*08.
Disponível
em
<*ttps://www.unicu*iti*a.e*u.br/i*ages/*estrado/*i*se*tacoes/2006/FA*IO_*IN*RD*.pd*>
. **ess* em: 1 Jun. 2020.
*ON*VI*ES, P. Curso de d*r*ito constitu*ion*l. 8. ed. São Paulo: Malhe*ros, 1999.
CACHICHI, R. C. D. A distinção entre princ*pios e
reg*as como espécies de normas na
obra Teoria dos
Dir*ito* Fun*amentais de Ro**rt Al*xy. *010. Disp**ível em
<ht*p://www.*el.*r/*evistas/uel/index.php/dir*itopub/*rt*cl*/vi*w/10749/93**>. Acesso em: 1
J *n. 2020.
CAM*OS, P. B; MEDEIROS, *. L. A Eutanásia e o Princípi* C*nst*tucional da Dignid*de
da Pessoa Humana. Revista E*etrônica Direito, Justiça e Cidadania Volu*e 2 - nº 1 -
-
*0*1.
Disponíve*
e*
<http://docs.uninove.br/arte/fac/publicacoes/pdfs/patricia_*rt_20111.pdf>. A*e*so
em: 1 Ju*.
2020.
DIN*Z, *. *uando a morte *m at* de cuidado. In: No* limites da é
v*da: *borto,
clonagem huma*a * eu**násia sob a perspectiva dos dir*itos huma*os. R*o de J**eiro: Lúm*n
J*ri*, 2*07.
DWORKIN, R. Domínio da vid*: **orto, e*tanásia e li*erdades individuais.
São **ulo:
Martins Font*s, 20*3.
CANOTILHO, J. J. G. *irei*o Constituci*n*l e Teoria da Constituiç*o. Coimbr*-Port*gal:
Alme*ina, 1998.
C*STA, S. M. B. Dignidade Hu*ana e Pessoa c*m Deficiência. * ed. Rio d* Janeiro: LTR,
20*8.
GIL, A. C. Como e*aborar *rojetos de pesquisa. * ed. 11 remp. São P*ulo: *tlas, 2008.
GOMES, S. A. * Principio Cons**tucional *a D*gni*ade da Pessoa Huma*a.
2010.
Dispon*vel em <http://fagundescu*h*.or*.br/amap*r/revis*a/a*tigos/ser*io_principio.*oc>.
*cesso em: 1 Jun. 2020.
HERNA**ES, G. A. G. A Ed**a**o como Garantia Con*ti*ucio*al da Dignid*d* da
Pe**oa Hu**na.
106 p. Dis*e*t*ç*o (*estrado e* *ireito). C*ntr* *niversitá**o
Unifi*o/Osasco, 20*0. Dispon*vel em <*ttp://www.u*ifieo.br/pdfs/Gisl*ne.pdf>. *cesso em:
1 * un. 2***.
L*PES, A. C; LIMA, C. A. S; SANTORO, L. F. E*tanási*, Ortota*ásia e D*stanásia. São
*aulo: Atheneu, 2011.
Rev. FS*, Teresina PI, v. 17, *. 8, art. *, p. 9*-123, ago. 2020 www4.fsanet.co*.b*/revis*a
F. S. C. Spo*ito, A. S. Carva*h*, J. R. *. P. *ilva
122
M**TIN, *. A ética médica d*a*te do paciente terminal: lei**ra étic*-te*lógica da r*lação
m*dico-pacient* ter*inal n** códig*s brasi*eiros de ética médica. *parecido, SP: Santuá**o,
*993.
MI*AND*, **nual de Direi*o Co*stitu*i*n*l. Apud L*P*S, Antonio Ca*los; LIMA, J.
C*rolina Al**s de *ouz*; SANTORO, L*ciano d* *reitas. Eutaná*ia, O*totan*sia e
D*stanásia. Sã* Pau*o: Atheneu, 2*11.
MEND*S, G. F. Voto ADI 3510. Ju*game*to em 2* de maio de 20*8. Dispo*ív*l em:
<*ttp://www.stf.ju*.br/arquivo/cm*/noticiaN*ticiaStf/anexo/*DI351*GM.**f>. Acesso em: 1
J *n. 2020.
NOGU*IRA, R. W. L. *otas para um ensaio sobre a dignidad* da pessoa hu**na.
Co**eit* f*ndamental da Ciência Jurídica. Jus Navigandi, *e*esina, ano 11, n. 111*, 22 jul.
2**6. Dispon*vel em: <https://jus.com.br/artig**/8668/notas-par*-um-ensaio-*obre-a-
dignidade-da-pessoa-*umana/3>. A*esso em: 1 Jun. 202*.
SÁ, M. F. F. D*reit* de morrer: eu*aná*ia, sui*ídio *ssistido. Belo Horiz*n*e: *. ed. Del
Rey, 2005.
SANTORO, L. F. Mort* Digna: o d*reito do paciente term**al. Curitiba: Juruá, 201*.
SARLET, I. W. Dignid*de da Pes*oa *um*na e Direitos Fundamentais na Co*st*t*ição
Federal *e 1988. São Pa*l*: Livraria do *dvoga**, 2003.
SIL*A, J. A. A d*gnidade da Pessoa Humana co*o valor *upremo d* Democ*a**a. In:
Revista *e Direito Ad*inistrat*vo. *io de Janeiro: Renova*/FGV, 199*.
SILVA, *. A. Curso de Direito Cons**tucional Positiv*. 33 ed. São Paulo: *alh**ros, 2010.
SUZUKI, F.
H. Proteção cont*a dispensa imot*vada no dire*to do *rabalho brasileir*:
Uma aná*ise *a proteção contra despedida arbitrária ou sem j**ta causa. Âmbito Jurídico, Rio
Grande, nº 30, 2006. D*spon*ve* em <ht*p*://a*bitojuridico.com.b*/edico*s/revista-
*0/p*otecao-contr*-d*spensa-im*tivada-no-*ireito-do-trab*lho-brasil*iro-*ma-an*lise-da-
protecao-cont*a-de*pe*ida-ar**t*aria-ou-sem-ju**a-causa>. Ace*so em: 1 Jun. 2020.
TORRES, A. F. Di*eito e va*or. O valor da pesso* humana. Âmbito Ju*ídic*, Rio Grande, nº
35,
200*.
Dis*o**vel
em
<https://ambitojuridico.com.br/*adern**/d*r*ito-
cons*i*ucional/direi*o-e-valor-o-val*r-**-pessoa-huma**>. Ace*so em: 1 Jun. 2020.
VIEIRA, M. S. Eutanásia: hum*nizand* a visão j*rídica. C*rit*ba: Juruá, 2009.
Rev. FSA, Teresina, v. 17, n. 8, art. *, *. 9*-123, ago. 202*
www4.fsanet.com.br/revista
A Eutanásia em Face da Dignida** da Pe*s** Humana
123
C*m* Referenciar este Art*go, conforme ABNT:
SPOSIT*, F. S. C; CARVALHO, A. S; *ILVA, J. R. M. P. A Eutanásia em Face da D*gnidade da
Pessoa H*mana. Rev. FSA, Teresina, v.17, n. 8, art. 5, p. 98-12*, *g*. 2020.
Contribu*ção *os Autores
F. S. C. Sp*sito
A. S. Carvalho
J. R. M. P. Silv*
1) conc*pção e planej*mento.
*
X
*) anális* e inte*pre*ação dos dados.
X
X
X
3) elabora*ão do rascunho ou na r*visã* crítica *o conteúdo.
X
X
4) partic*pa**o na *prov*ção da *ersão final do manus**i*o.
X
X
X
R*v. FS*, Teresina PI, *. 1*, n. 8, art. 5, p. 98-123, ago. 2020
www4.*sane*.com.*r/revist*
Enlaces refback
- No hay ningún enlace refback.

Este obra está bajo una
licencia de Creative Commons Reconocimiento-NoComercial-SinObraDerivada 4.0 Internacional.

Atribuição (BY): Os licenciados têm o direito de copiar, distribuir, exibir e executar a obra e fazer trabalhos derivados dela, conquanto que deem créditos devidos ao autor ou licenciador, na maneira especificada por estes.
Não Comercial (NC): Os licenciados podem copiar, distribuir, exibir e executar a obra e fazer trabalhos derivados dela, desde que sejam para fins não-comerciais
Sem Derivações (ND): Os licenciados podem copiar, distribuir, exibir e executar apenas cópias exatas da obra, não podendo criar derivações da mesma.
ISSN 1806-6356 (Impresso) e 2317-2983 (Eletrônico)