www4.fsane*.com.br/revista
Rev. FSA, Teresin*, v. 15, n. 1, art. 1*, p. 232-258, jan./fev. 2018
I*S* I**resso: 1806-6356 IS*N *le*rônico: 2317-298*
http://dx.do*.org/10.*2819/2018.15.1.14
A História, o Fantástico e a *legori* em
Assombrações do Recife Velho, *e *ilberto F*ey*e
The H**tory, the Fanta** and the Alle*ory in
Assom*raçõ*s *o Recife V*lho, by Gilber** Frey*e
João Bat*sta *ereir*
D*utor em *eoria da Literatura *el* Universidade F***ral de Per*ambuco
Profess*r da Unive*sidade Fede*al Rural de Perna*bu*o
E-mail: Jmelenu*o@Hotmail.*om
*vson Bru** da Silv*
Gr*duando em Le*r** pela Uni*ersidade Federa* R*ral de Per*ambuco
E-mai*: ivson_bruno@hotma*l.co*
Endereço: Joã* Bat*st* Pere*ra
Editor *ie*t*fico: Dr. To*ny K*rley de Alenca*
Rua Antonio Rabelo Júnior, 70 / 90* - Miramar -
Rodrig*e*
J*ã* Pe*soa - P*raí** - Brasil - Cep: 58.032-*9*.
Arti*o recebido *m 29/09/20**. Ú*tima
versão
Endereço: Iv*on Bru*o *a Silva
Av. **x*ngá, *01 - Madal*na - Recife - P**nambuco -
*ecebid* em 19/10/20*7. Apr*vado em 20/*0/2017.
Br*sil - Ce*: 50.720-000.
**aliado pe*o sistema Trip*e Re*i*w: Desk Review a)
pelo E*i*or-Chef*; e b) Doub** Blind *eview
(avaliação cega *or doi* *valiadores da área).
Revis*o: Gramat*cal, Normativa e de Format*ção
A H*s*ória, o Fan*ástico e a *leg*r*a em *ssombrações *o Recife Velho, de Gilb*rto Freyr*
233
*E*UMO
O p*esente artigo objet*va analisa* a o**a Assom*raçõe* do Rec*f* Velh*, de Gilberto Freyr*,
à lu* dos vínculos ma*tidos entre o fan*á**ic* e históri*. A partir dos *ond*cionantes a
*eóricos do *ivro Introdução
à literatur* fa*tá*tica, de Tzvetan Todorov, proc*rou-se
*isl*mbrar a alegoria como cate*oria analí*ica *ue, em diál*go com componentes sócio-
hist*ricos,
pro**ciou
a análise dos relatos fre*r**no*. O método **alé*ic*, n* *ual as
inf*rênci*s
permit*das pelo tex*o *ialoga* com o contexto, permitiu u*a
*n*erpretação *os
relatos que, m*s** v*l**ndo-se para a c*ncretude do mundo, *ão *issi*ou a hesi*ação
mant*da por p*rsonagem e leitor diante dos fatos sob**naturais prese*tes nos contos.
Palavras-c*a*es: Liter*tura Fant*s*i*a. Alegoria. Gilberto Freyre. Hi*tória.
AB*T*ACT
This paper aims t* analyz* G*lberto Freire's work, Asso*bra*ões do Reci*e V*lho, beneat*
the kept en*ails be*w*en **e fa*t*s* *nd the h*sto*y. **art*ng f*o* the t*eore*ical deter*i**nts
of t*e book *ntrodu**o * literatur* fantástica, by Tzvetan To*orov, it has made to gleam the
allego*y as an analytical grade who* dialogues with the social-histor*cal co*ponents that
have pro*oted an an*lys*s of Fr*i*e's na*ratives. The
dialectic **tho*, in which, al*owed
inferen*es dialogue with the context, has permi**ed an interpretat*on of the stories whi*h, even
*urning to
the conc*eteness of the world, had not di*persed *he h*sitation kept by chara*ter
and *ector in th* tales.
Key w*rds: F*ntas* liter*ture. Allegory. Gilbert* Freyre. History.
Rev. *SA, *eresina PI, v. 1*, n. 1, art. 14, p. 232-258, jan./*ev. 2018
www4.*sanet.com.br/re*ista
J. B. Pereir*, I. B. Silva
234
1 INTRO**ÇÃO
A cidade d* Recife é rode*da de mistérios. Histó*i*s de fa*t*smas e assombrações
e*tre ponte*, ruas, estradas e so*rad*s **nstituem uma da* carac*erística* na form*ção desse
lugar. Gilber*o F*e*re,
n* obra
Asso*brações do Recif* ve*ho, tr*nsfigura re*at*s ora*s
de
pess*as *ue viveram
na ca**tal pern**bucana ao long* d* século XX e *onv*ve**m com
visagens em *m *spaço social governado p*la razão. Doi* desses relat*s se conf*guram como
*or*us d*ste ar*igo, os quais s* funda*entam à luz dos pres*upos*os *eór*cos delimit*dores d*
que d*f*ne o literár*o. *es*e *enti*o, pressup*mos que, na *bra, vis*umbram-se *ossibilidades
de inve*tigação ac*rca do fa*tástico como gênero na**ativo, bem co*o da adoç*o da alegoria
como categoria analít*ca, ambos co*ectad** co* componentes h*stóric** * estét*cos.
Ness* sentido, as caract*ríst*c*s conce*n*nt*s à p*esen*a *e seres e fatos sobrenaturais
na *rte
literária **o destacadas por *zvetan Todo*ov, n* livro **t*odução à li*eratura
f*ntástica, no qua* el* define o fantástico, apres*nta*do sua
p*incipal par*icularida**:
a
hesit*ção do pe*sonag*m e, eventualmente, do leitor, ent*e crer **e o sobrenat*ral fa* p***e *a
*eali*a*e ou pe*tence a outr* mun*o. E**re os vário* parâmetros apresentados em su*
ob*a
s*bre temática, é vedada ocorrê*cia do fantá*tico quando este requ*s*ta * ale*oria como
a
*
re*urs*
i**erpretativo, c*n*ição apresentada pe*o crítico ainda atre*ad* à *ntigui*ade, *ue
absorv** es*a *igura de li*g*agem como parte da *etó****.
* contra*osição a essa assertiv* nos levou a fazer um
breve percurso dia**ônico das
c**c*pções a*sumidas *el* ale*o**a ao lo*g*
do temp*, *ulminando *om os estudos
apresen*ados por Wa**er *e*jam*m, na obra Origem do *rama trág*co al*mão. Ao perce**r a
figuraçã* da alegoria
*o século XX *ssu*in*o *ov*s funções, antep**d*-se ao símbolo
n*
R**antism* como *nst*umenta* anal**i*o e ultrapa**ando o **mpo da retórica, fica*am
esta*el*cidas nov*s conexões entr* o passado e *resente. A ma*c* ma*s im*ortante *
dess*
percepção be**a**niana r*side no
lastro sóc*o-hist*ric* implicado *m sua l*i*ur*, *obre*udo
quando o crítico a*emã* condiciona a a*á*ise *os te**os literár*os aos **onte**mentos d* c*da
*p*ca.
É buscando repens*r os pressuposto* *e*rico* an*evi*to* por Tzvetan *od*ro* quant*
à in***bilidad* de ocorrên*ia d* fantástico, quando confrontado com a alegoria, * endo*sando
a condição revisitada *or Walter Benjamin, qu* este artigo problema*iza a amp*itude
interpreta*iv* *ue desi*n* o fant*stico. C*mo citam*s a*i*a, * camp* da estét*ca, a*i*do
à
n*tureza históric* que consubsta*cia a **egor**, f*i ad**ado par* f*ns de in*erpretação da ob*a
d* Gil*er*o Fre*re. * partir dos relatos Assombraçõe* no R** e * velha branca e o
*o* e
Rev. FSA, T**esina, v. 15, n. 1, art. 1*, p. 232-258, jan./*ev. 2018 www4.fsa**t.com.br/*ev*s*a
A Hi*tória, o *an*á*tico e a *legoria em Assomb*ações d* *ecife V**ho, de *ilberto Fr*y*e
235
ver*elho, foi po*sível rep*ns*r
as vária* formas q*e o so*r*n*tural se *resentifi*a
ent*e os
habitantes de uma cidade m*rcada por um *as*ado *epl*to de sere* e fato* insó*itos.
Pretendemos que, nas duas narr*t*vas, a alegori* e a história cont*ibuam **ra pe*scrutar
o
fantá*tic*, sem pr**uízo
da manutençã* da d*vida e d* *ncerteza di*nte de test*munhos
de
mani*e*tações que c*loc*m **do a lado * real e o irreal, o hu*ano e o sobr*-huma*o.
2 *EFE*ENCIAL TEÓRI*O
2.1 **mar*ações teóricas: * fantás*ico e * alego*i*
*s obras artísticas e suas formas de express*o são cobe*tas de si*nifi*ados sóci*-
h*stó*icos e cul*urais, d*te*do o p**er d* ressignifi*ar o m*do **mo o ho*e* se perceb* no
*undo. Desde os primórdios da civilização, o mod** f*ciendi da *r*e tem *m sua trajetória a
b*sca de um sent*do pa*a * exi**ê*cia humana, em cu** ce*ne ressoa* *s*ec*o* da reali*ade
*o*o po*to de
*artida
p*ra a cr*ação do universo ficc*onal. Nesse boj*, a arte li*erária
promo*e discuss*es que bu*cam com**eender a si mesm* a pa*tir das rel*ções entre liter*tura
e socie*ade, po**tica e cultura, técnica e estilo, entre outras possibili**des. A*te e*sa m*ríade
de acepções alcançada* pelo f*zer artístico, o fantástico se const*tui *om* uma *ani*estação
*iterária que, com**eend*** à luz de *ínculos mant**os
*om a alegori* e a história, *oncebe
recurso* interpretativ*s que ampli*m
o al*ance da teoria, *ermitind* con*olidar nova*
abordagen* analíticas.
No l*vro Intr*duç*o à literatura fantá*tica, Tz*et** To*orov pr*mo*e discussões *obr*
esse gênero, recupe**ndo um aspecto temát*co *onstituinte na ficção l*terár*a: a exist*nc*a de
lugares e s*re* sobrenaturais. Associando nega*ivame*te o *a*tást**o à ale*o*ia, * crítico
evi**ncia a impossibilida*e d* validação do fantást*c* diante do recurso ale**r*c*, sendo est*
*ompre*ndido, sempre, à *uz *a config*ração abst*ata q*e o caracteriza. Considerando
o
alcance e o tempo histór*co *as pr*posiç*e* todorov*an*s, este artigo fund*menta s** hipótese
de trab*l*o opon*o-se a essa neg*ção, assent*ndo qu* a alegor*a, em consórcio com
*
con*e*to *ócio-histór*c*, pode con*orrer para acentuar a *corrência do fantástic*. Pa*a is*o f*i
traçado u*a trajetó*ia de*sa figura de linguage* que, *bsorvida como part* da *etórica n*
An*iguidade, chega à modernid*de sob *m novo prisma com os estudos de Walt*r Benjamin,
em s*a *br* Origem do drama t*ág*co alemão.
*ev. *SA, Teresina PI, *. 15, n. 1, **t. **, p. 232-258, jan./fev. 2018 www4.fs*net.com.br/revis*a
J. B. Pereira, I. B. Silva
236
É sabid* qu* o fantás*ico se caracteriza pela presenç* de um se*, aco*tecime**o
so*renatur*l *u insól*to, *onf*gurados de*tro de u*a *on*epç*o, na qual a relaçã* entre o real
e o i*aginário torna-se ambígua *a*a o p*rsonag*m, dú*ida q*e, eventu*lmente, t*m*ém
alcança o leitor. Essa ambigui*ad* f*z co* que a incerteza *ermaneça com* ma*c* do *êne*o,
re**st*ando o enc*ntr* do que é possível e i*possível
aos olhos das l**s humanas. *ara
Todorov, ne*te f***r reside * ce*ne do fantástico, na *edida e* que, ao se de*ara* com
*m
f*nômeno *esco*hecido, personage* e leitor questionam *e aquel* fato e*iste como um fato
real *u é uma
ilusão, fruto da imagin*ção. Essa v*cilação leva-os a q*estionar se o *ue
o*ser*ara*
provém ou n** da realidade, c*nfirmando sua existênc*a, ou explic**do-o
*acional*ente. Essas *es*ostas a* incomp*eendido sugerem que *stamos diante d* dois
g*n**os *izi*hos a* *antástico: o mara*ilh**o, ao admitir que o ocorrido faça parte *o mundo;
e o estranho, *o procurar e*plicações *acionais par* e*e. (TODOROV, *975, p. **-22)
Con*e*trand* objeções em sua
obra qua*t* a* ***edim*nto do fantástico q*ando
ap*ec*ado à luz da alegori*, o crí*i*o búlgaro rememora os sig*if*cados do* te**os a*egórico e
literal: este, a*igur*d* como o sentido própri* da lin*uage* e, aquele, ofe*e*e u**
sign*fic*ção distanciada do registro linguíst*co. As *ssertivas to*orovi*nas conduzem p**a u*
paradoxo
da li*guagem, de forma *ue, diz ele, "é precisamente qu*ndo a* *alavras são
empregadas em se* s*nti*o figu*ado que devemos tomá-las *iteralme*te" (TODOROV, 1975,
p. 69), **ra que se po*sa dar abertura à ocorrência do insól*to. Embora nem todo sentido
*iteral se vincule ao fan*ástico, ele se torna pos*ível n* sentido lite*a*. É ***cis* exp*riencia* o
sobrenatural longe do duplo sentido da linguag*m p*ra o fantástico se mani*es*ar.
Citando ideias contidas n*
*ivro Al****r*: of a th* t*eor* symbolic mod*, *e Angus
Fl*tcher, T*dorov r*to*a o conceito de *legoria utilizado na An*iguid*de *ara adensar suas
*roposiç*e*. Lembr*ndo que, no passa*o, ela era apreendida como algo que diz*a uma *oisa *
signi*ica*a outra, ele a*esta o se* du*lo caráter: o sentido *iteral desaparece na int*rpr**ação
textua*, dan*o lug*r a *m *e*tid* e*piritual, ou s*ja, alegórico. **paran*o-se ** assertivas
*o retóric* francês Pierre *mille F*ntani*r, ele refuta a possibilidad* d*
*e concede*
um
sen*ido aleg*rico *i*nte dos elementos sobrenatu*ai*:
**imeiramente, a alego*ia implica na existê*c*a de pelo *enos do*s sent*d** pa*a as
mesm*s palav*as; diz-se às ve*es qu* * *entido *rimeiro deve desap*recer, ou*ras
vezes que os *ois de*e* *star presentes j*ntos. E* s*gundo lugar, est* duplo-
s*ntido é in*icado
na obra de ma*eira explícita: não depende *a interpretação
(arbitrári* ou não) de um leit*r qualq*er. Apoi*mo-n*s nessas duas c*nclu*õ*s e
volte*os ao fantástico. Se o q*e *emos de*crev* um *contecimento so*renatural, e
que exi*e no en*anto que *s p*lavras sejam tomadas n*o no
sent*do li*e*al mas em
*ev. FSA, *ere*ina, v. 15, n. 1, art. 14, p. 232-25*, j*n./f*v. 2018
www*.fsan*t.com.b*/revista
A História, o Fant*st*co e a Alegor*a *m Ass*mbraçõ*s d* Rec*fe Velho, de Gilbert* Freyre
237
um outr* sentido que nã* remeta a nada de s*brenatural, nã* h* mais lugar para *
fantástico (*ODO*OV, 1975, p. 71).
*ssa v**ada todoroviana atribui * existênci* de alg* *ue es*á indicado e ex*lícito na
narr*tiva como condição obrigatória
p*ra a ocorrência *o fantástico, destituindo qualquer
possibil**ade ** esse efeito ser alcanç*do **ando *sado o recurso alegórico. Para destacar os
perigos de desvirtuament* au*e*ido *os relatos fan*á*ticos pro*oca*os pela
alegoria ele
apresenta ex*ertos das obras de Charles Per*ault, A*p*o*se Daudet, N*co*au Gógol, Honoré
de B*lzac, E.T.A. Hof**ann, Vill*e*s de l'Isle-A*am e E**ar Allan Poe. Por meio *o* trechos
são diferenciad*s os *raus da alegoria contida e* cada *m dos te*tos: da a*egoria evidente à
alegoria ilusória, além da alegoria indireta e da al*goria hesitante, to*as conc*rr*ndo pa*a
**va*ida* a hesitação propugnada como crit*rio d*finidor do *ant*st*c* (TODOROV, 1975, p.
73-81)
Relativi*and* o *em*o de p**li*ação dessas a*sert**as, volt*das para *ep*nsar
n*rrativas
dos Oitocent*s, **conhece-se que os
*stu*os acerca d* alegoria na atualidade
u*tr*pa*sam esse entendimento. *omo será d*monstrado * partir
da
leitura
de Walter
Ben*amin, *la gan*a no*os vislumbre*
* passa
a s*r re*onhecida como *uxiliar
na
inte*pretação de r*latos h*stórico* * literári*s, sem extrapolar as s*gnif*ca*õ*s int*rn*lizadas
no texto. E* linhas **rais, *ota-se q** a impertinênci* de *onc*be* a ale*ori* ass*ciada ao
f*ntá*tico por Todor*v ad*ém de funções e *tr*buições vincul*das, ainda, *o campo
da
ret*r*ca, como uma pro*osição de duplo sen*ido,
cu*o sentido liter*l desaparece median**
o
proce*so he**enêutico.
D*sse b*eve *esgas*e sobre o fa*tás*ico, *lgo se mantém incólu*e *m su* lei**ra: a
f*cç*o fa*tástica é m*rca*a pela **istên*ia de
figura* e fato* insó*i**s, desconhecidos
*
**cert*s, em que o a**iente sobr*natural assegura o *aráte* in*o*cluso d* n**ração, e põ*
leitor e p*rsonagem d*ante de uma dubiedade ante a v*racid*de do acon**cimen*o. T*davia, as
discussõe* acer*a des*a modalidade
*ar*ativa também colo*am
em dúvida sua co**iguração
como gêne*o ou como *m modo *e
narrar. N* artigo Literat*ra fantástica: a**oximações
teó*icas, * p**qui*a*o** Mar*a Cr***ina Batalha reún* estudos a respeito do as**nto, buscando
re*letir sobre e*se modo de *anifes*ação literá*ia. Aproximando-nos das su*s raízes hist**icas
e expondo seus "pro*edimentos
retóricos emp*est**os a out*os gêneros e subgêne*os,
impondo-se como uma fo*ma genérica nov* a pa*tir do s*culo XVIII" (BATA*H*, *012, p.
12), a aut*ra assinala o fantást*co como uma categoria que parece se constituir so*i*ho, por si
mesmo, a*esar das dive**a* te*tati**s de defini-lo. Ela reme*e à *mpossibilidade de encont*ar
Re*. FSA, Teresin* PI, v. 15, n. *, a*t. 14, p. 232-258, jan./fev. 2018 www4.f*an*t.com.br/revis*a
J. *. P*reira, I. B. S*lva
238
uma so**ção pa** a* aplicações a*bitrárias de conceituaç*o * ace*tua su* *onstituição aliada a
diversos *utr*s comp*nent*s:
Assi*, * m*terial com
o qual o fantástico trabalh* v*m emprest*do de f*n*es
diver*a*: contos po*ulares, lend*s, sonhos, d*scoberta* científicas e aconte*ime****
da atual*dade. Por cons*gui*te, *ualquer tentativa de *efini**o do fantástico pelos
temas e *onteúdos explícitos nos **varia a *m impas**. (B*T*LHA, 2012, p. 20).
O *antásti*o, comp*o*et*d* pelo jog* *a verossimilha*ça, * constit*ído por um
conjunto de subgên*ros * categ*r*as, *unde-se para uma i*c*mpletude q*e não determi**
os
limi*es de sua
***itimação cri*t**a e c**ado*a. Por isso, diz a au*or*, entende-se q*e as
"inconclus*es" nesse imaginário insól**o não de*x*m de *on*emplar significações diver*as por
meio do misterioso, do grot*s*o, do monst*uoso, do inc*mpreensível, d* irreal, do im**ovável
etc., caus*ndo a vacilação e * dú*ida q*e envolve os que testemunham f*t*s sobrenaturais.
Avançando os propósi*os dis*utidos por Tzv*t** Todorov e Mari* Cr*stina **t*lha, a
pesq*isadora *rene Bessi*re, no ar**go O *e*ato fantásti*o: fo*ma *ista do caso e da adv**ha,
absorve a natur*za do fantástico *omo uma neces*idade c*ia*iva de subve*ter a *ealidade
e
explo*ar * estranhezas do universo fic*ício. A f*cção fantástica constrói outro mundo atravé*
da *in*uagem e da realidade, que são próprios do mun*o real e, com *sso, não **ntraria as leis
que regem
o *am*o
do realismo e *a *eros*im*lhança, pr*pondo o*tras possibi*i*ades
próp**as da *riação art*stica. Para * r*lato f*ntá*tico, diz Irene Be*sière, não
i*portam
os
as*ect*s de consciência do homem, mas o acontecim*nto *obrenatural,
de m odo que o
"estranho inquieta*te não é o e*, m*s a ocorr*n*ia, índic* do descontro*e do mundo"
(B**SIÈRE, 20*2, *. 206, 3*8, 309). O relato *antástico su*ere, aind*, uma problemática da
forma m*sta do caso e da adv*nha, *ei*erando seu aspecto i*ógico e *bs*rd*:
Am*ivalente, contraditório, amb*g*o, o *elato fa*tástico é essencialme*te p*rad*x*l.
[...] Forma mista *o c*so e da ad*vinha, o **ntástic* s* constrói so*re a dialética da
norm* *ue, traça out*a ordem, que
não
* neces*ari*mente aquela harmonia, e cu*a*
presc*içõ*s são problema*. Ele *urla a realid*de na m**ida *m *** iden*ifi*a *
sing*lar com a ruptura d* ident*dade, e a manifestação do insólito com a de uma
*eter*ge*eidade, sempre p*rcebid* como or*ani*ad*, como portadora de um* lógic*
secreta ou desconhecida. [...].
Escolher evoc*r nossa atualidade sob o signo d* acon**cimento e não sob aquele da
atua*ão e da ação, é reconhecer a estranheza desta atualid*de, é sugerir qu* a ação *á
nã* poss** pe*tin**cia no mu*do da alie*ação. Fazer dessa distância do sujeito no
mundo o lugar de u*a legalidade "**tra", é *olocar que a no*ma cotidiana tem
se
tornado, para n*s, estr**ha e, por con*equê*cia, co**essa* nossa servidão, mas
*ambém - forma
d* advinha - colocar que nós estam** *empre prest** a admitir,
aceitar, penetra* n*ssa le*alidade, *in*ulando-nos àquilo que no* domina, àquilo que
nos escapa. (BESS*ÈRE, 2012, p. *15).
.
Re*. *SA, Teresina, v. 15, *. 1, art. 14, p. 232-258, jan./fev. 2018
www4.*sanet.com.b*/revista
A História, * Fantástico e a A*eg**ia em Assombra*ões do Recife Velho, de *ilber*o Fre*re
239
* forma mista do caso e da a*v*nha
permite que
os rel*tos fantásticos
penetrem em
n*ss* mundo pela p*ofunda *evelação indireta d*s i**uietaçõe*
hu*anas
que, em*ora
ex*ostos de maneira subjetiv* à *ea*idade, *nv*rtem as pers*ectivas em relaçã* *os f*t*s
obscuros * inc*mpreensíve*s quando
emoldurados
*ela *azão. Parece q*e esta*o* sempre
prestes um con*enc*mento de que a manifestação a
d* i ns ó* i t *
diz mais *espeito ao n*sso
mundo do qu* po*emo* imaginar. D* ce*t* modo, *sses relatos colocam o homem *re*te a *m
des*o*trole d*
qu e
rege sua
*ida ao mes*o tempo, e*e *omina acei** aquilo que lhe
*,
e
é
estranho, por
sab*r que, de alg*ma m**eira, tudo pode, ao fim e
ao c*bo, fazer **rte
da
rea*i*ad*.
A apres*n*açã* desse panorama *obre algumas abordagens
do fantástic* se m*stra
relevante pela fo*** com* gêne*o foi abordado a* l*ng* do século XX, e convida o
a
repensar sua atualid*d* quando vinculado ao recurs* alegórico. C*mpre*ndi*a
desde
a
Antiguidade com* figur* de li*guagem, a*iada à *etórica, a a*ego**a foi *bsorvi*a *o l*n*o do
te*po co*o uma *epresentação concret* *e uma i*e*a abstrata, si*nifican*o "dizer o out*o"
(KOTHE, 198*,
p. 6-7). A sua natureza seminal*ente am*ígu* partia d* uma di*lé*ica
em
que * exegese se defr*ntava com um paradoxo *emân*ico de d*mensão longínq*a; o grau de
significação d* objeto **egor*zad* fica distante de **a significação original.
Vislu*brand* a *atureza histórica da al**oria, nota-se q*e na Antiguidade greco-
latina e cristã ela e*a uma técni** expressiva co*st**uída na própria u*idade linguís*i*a d* ob**
fi*cion*l. An*lis*ndo os p*oced**entos for*a*s q*e produziam os *en*ido*, podia-se cheg*r a
caminhos de significa*ão figurada *xiste*te
na própri* l*nguage*. Essa alegoria,
por *e*
essencialmente lin*u*stica, f*i chamada
*e Alegori* Retó**ca, o* "Al*gor*a **s Poetas". A
constru*ão retórica de sig*ificação, com*
coment* João Adolf* *ansen, no livro Alegoria.
Co*stru*ão e i*terpr*taçã* da metáfora, produz *m *specto que fa* *om que a obr* se*a uma
ornamen*açã* d* dis**rso pa*a se chegar a um sentido próprio m*taforizado, c*notaç*o
*t*ibuída ao retor *uin**li*no. Nessa leitura,
haveria a
trans*osição do sentid* próprio pelo
fi**rado, e* uma espécie *e i*compatibilid*de se*ântica: *entido versus pa*av*a. O critério
de *elaç** ent*e sentid* figurado * lite**l, cl*reza e alegoria, *ria resultar n* *efinição d*s três
níveis da "Alegoria dos p*etas": T*ta *lego*ia ou Alego*ia p*rfeita ou En*gmática, Per*ixta
apertis aleg*ria ou Al*goria *mp**feita
e Mala Affe*ta**o ou I*consequentia **rum
ou
Incoer*nte.
Na Alegoria perfe*ta, o he*metismo * apreciado, f*zendo com
*ue o texto *e mostre
fec*ado e* si *esmo, *bscuro *m su* *lar*z*, de*afiando o *eit*r a desvendar *m significado
que lhe é oculto e intrínse*o, com *ma
distância semântica inegá*el. J* ** Alegoria
Rev. *SA, Teresina PI, v. 15, n. 1, art. 14, p. 232-258, jan./fev. 2018
www4.fsanet.c*m.br/revista
*. B. Per*ira, I. *. S*lv*
240
imperfeit*, parte do se*tido p**prio p*de ser *isua*izada nos constituintes l*xica*s do text*, *
outra parte fica impl*cita, *emonstran*o o *aráter figurado e pro*to para inves*iga*ão.
Le*bramos que o termo \*m*erfeita\ não se refere * um de*eito ou mau
f*ncionamento
**
alegoria, mas
ao grau de abe**ura *e signific*ção. *or fim,
na *legoria in*oerente;
as
ina*e*uações *a r*presentação a*tís*ic* i*pe*em a compre*nsão da re*re*ent*ção al*gó*i*a, e
a analogia comparece com uma despr*po**ão s*m*ntica e como uma c*nvencion*lidade
(*ANSEN, 2006, p. 54-82). Há, portanto, na alegoria dos *oetas, a preservaçã* do étimo da
alegor*a típico da *n*igu*d*de, por seu proce**men*o o*ult*, abstrato, nec*ssi*ando de **
invest**e*to interpretativo.
Além da tipologia acima aludida, h* *ambém a cha*ada "A*egoria *os Teólogos", ou
*legoria H*rm*nêu**ca, cujo n*me denun**a o caráter religioso e crist*o implicado em seu
*so. Distinto da Alego*ia d*s *oetas, na *os Teólogos, a interpretação d** o*ras en*ontr* *as
Escrit*ras S*gradas a manife***çã* alegór*ca *e verd*des morais e mí*tica*. *nterpre*ar
alegoricam*nte * *erg*l*ar n*s eventos figurados nos discurso* sag*ad*s e *íblico*. *
i**e*pretação a parti* das Escrituras e*i***c*a * presen*a
de Deu* nas coisas sensíve*s, nos
seres es*ir*tuais e na alma humana, demonstra*do a representação d* Divindade como
*e*er*ncia na traje*ória do sentido es*iritual, com* um diá*ogo dos ac**tecimentos no *e*po.
Is*o ev*dencia uma **t*rpretação p*efigurand* ser*s * ev*ntos, o fut**o tem um *ignific*do
*efinido pela *ivindad*, ou s*ja, r*escreve-*e o mundo recordando o pas*ado e figur*ndo-o.
Assim, Ad*o, o *omem, pr*posto como fig*ra tip*lógic* de *ri*to, tam*ém
histó**co; Moisé*, saindo do
Eg*to, prefigura Cristo, res*us*itando d* morte. *
acont*cim*nto, a cois* ou a *ersonalid*de h*stór*c* do p*s**do *igam *u**os a
*contecim**to*, coisas e personalid*d* do futur*, *travé* de uma **gnificação
comum a t*dos. Sua int*rsecção, co*o demonstra Aue*bac*, * de
natureza
conceitual. [...] A interpret*çã* *ipológica dist*ngue t*pos nas p*rsonagens e *ventos
do Antigo Testame**o. *s tipos an*ecipam a salv*ção a vir com Cr*sto e p*efiguram
sua pessoa * sua obr*. (H*NSE*, 2006, p. 105-106).
Condizent* com * proe*inência *o uni*ers* teol*gico até fins da I*ade Média, a
ale*oria *e faz por pós-f*g*raç*o, designando *ma *onexão vertica* da vid* *u**na com um
simbolism* sagrado e divino. N* ensa*o Fig*ra, Erich Auerbach esta*elec* uma relação entre
a ale*oria, por ele nomi*a*a de "figura" * ess*
expre*são *eligios*, lembrand*
que, desde
o
mundo g*eco-latino o
termo foi us*do pe*os poetas retóri*os com diversas atri*uições.
Sign*f*cando "f*rma p*ástica", o*igina*mente com Ter*ncio, em *uas cons*ruções poéticas,
o
*oeta *rego f*i seguido por Var*ão, que atribui* *
palavra figura a i*eia de "aparência
exter*a", emp*ega*o
como forma gramatical, flexionada
e derivada, tendo sido usada
Re*. FSA, Ter*sina, v. 15, *. 1, *rt. 14, p. 232-258, jan./fev. 201*
ww*4.fsane*.com.br/r*vista
* H*stória, * *antástico e a *legoria e* A*sombraç*es do Recife Ve*ho, de Gilberto Freyre
2**
la*ga*ente pelos gra**ticos latinos. *uerbac* faz *lusão, a*nda, a Quintiliano, que dis*ing*iu
o t*r*o com* "t*op*", referindo-se ao *so das palavras em seu sen**do *iteral e p*óprio, *omo
*ecurso da ling*agem, e*bora co*o co*ceit* mais elevad* de *inguagem *ig*rada.
Aue*bach apo*ta com* prá*ica recorre*te n* uso d* f*gura a interpretação alegóric*
cristã entre o Velho e *ovo *estamento: o
"es*e tipo de interpretação ti*ha *omo objetivo
mostrar *ue todas as
pessoas * acontecimentos
d* V*lho Testamen*o e*am prefigura*õe*
do
Novo Testa*e*to *
de
s*a **st*ria de r*denç*o" (AUERBACH,
1997,
p. 28). Os
acontec*me*tos do Vel*o T*stamento eram tido* **m* *igur*ç*o de alg* qu* seria *umpr*do
no Novo
Tes**me*to, ** fo*ma de profeci* e pro*es*a. Para * interpretação figu*al,
distin*amente da inte*pretação alegóri*a, não há e*paç* par* a abstração: a figura profetizará
algo *ue se concretizará na materiali*ade d* m*ndo e
histor*cament*, sendo *empo*alizada.
"De**e modo, o nome de Jesus é *ma profecia fe*omenal o* prefiguração do fu*uro Salvador;
figura é algo re*l e histó*i*o *ue anuncia *lgu*a
out*a coisa que t*mbém
é rea* e *istórica"
(AUERBAC*, 1997, p. 27). Essa *oncep*ão distancia-se *o cará*er *b*tr*to a**i**ído
a
alegoria c*mo parte da retó*ica e na *legoria *o* *oetas e dos teólogos, uma v*z que, aquilo
que é anunci*do no p*es*nte
como promessa, acontecerá no futuro
no mundo concreto. *a
*isão de Au*rba*h, a e*fera o*d* a a*egoria * representada não é exat*men*e his**ria, em a
seu *enti*o es*rit*; ela se dá em out*o
plano. Embora a fig*r* seja
histórica,
ela "difere d*
maior parte *as forma* a**góric*s con*ecidas tanto pela h*stor**idade
do ***no quanto pe*o
qu* significa" (A*ERBACH, 1997, p. 46).
As d*scussões sobre a
alegori* como recurso para a *n*lise literária alcançar*m
o
século XX em b*sca d* nov*s rumos. * amplitude do co*ceito, como chave para ente**e* a
*s*ética, foi
ab*rdad* **r Jos* Guilher*e Merqu*or, no l*vro A*te e s*c*eda*e em *arcuse,
Adorno e Benjamin, sobre a es**la neohegeliana de Frank**rt. Em seu enfoque, um pormenor
se destaca: a
oposição entre sí*b*lo e *legoria. A origem dessa polari*ação, origin*da co*
Goeth*, no **mantis*o, rememo*a a c*ntr*posição be*ja*iniana, quando * *rítico alemão
d*stacava a natureza "plástica" do s*mbolo e a d*versidade de signific*ção d* a***oria. Esta se
encont*a imersa
*a duraçã*, desdobra*do - *e sobre s* mesm* e se ampliando n* curso dos
aconteciment*s hist*ricos. N* un*ve*so ale*óric*, cada o*jeto pode repres*ntar outro * t*rnar-
se repleto de v**ores diferentes em face da realidade, * *ua a*usividade * mú**ipla, pendend*
para a d**ersidade. Polissêmica e la*t**ada pelo c*rso da his*ória, a idei* d* alegoria moderna
seria avessa ao moni*mo na interpretação da re*lida*e (MERQUI**, *969, p. *04-105).
Não encontrando
dific*ldade*
em estabelecer vínculos entre aleg*ria e as obras a
vangua*distas, P**er Bürger, no livro Te*ria da Vang*ar*a, parte do conceito benjaminiano
Rev. F*A, **resina P*, v. 15, n. 1, a*t. **, p. 23*-258, jan./fev. *018 w*w4.fsanet.com.br/revista
J. B. Pe*eira, I. B. S*lv*
*42
*ara ed*ficar uma
teoria que visuali*a as vangua**as *omo sínt*se do processo *ocial
*iv*nciado na *o*ernidade. *e*u*do ele, as ch*nces de desdobramento * *tom*zação de um
objeto
podem
*st*belecer um* *n*erp**t*ção
a*egó*ica
co* o *assado, clareando
o
ent*ndimento d*s vá*i*s tons com *s qua*s o presente *e consoli*a. O crítico b*lg* assevera
que, ao questionar * surgime**o da alegoria n*s *eríodos antigos, deve-s* sempre e**ender a
ligação *ntre passado e presente, asseguran*o a fruiçã* da obr* *e arte se* restri*gir s*a
**lidade apenas ao *eu co*tex*o-so*ial de orige*. S*m *solá-la, o ideal seri* artic**á-*a com
outros contextos para obter novas perspectiv*s e signifi*açõ*s. Peter Bürger d*c*mpõ*
*
al*g*ria em *artes, oferecendo caminho*
para desenvolver a leitura da o*ra
van*uardista. *
a**g*ri*t*: 1) *rranca o elemento de sua **tal*dade, d* seu cont*xto-social *incula*o; 2) iso*a-
o e retira del* sua significação inicia*; 3) fragme*tado, e*se elemento se
lig* com outros
fr*gment*s *a real*dad* *, * partir dessa j*nção; 4) cria n*vos sentid*s propiciando uma vi*ão
mais d*versifi*ada acerca do obje*o e do próprio mundo real. (*ÜRG*R, 2012, p. 126-13*)
Outr* sentido a*ca*ça*o p*la alegoria é o resgatado co*o supor*e para inte*pretaçã*
de relatos h*stóricos e l*terários. No artigo His*ória como Alego*ia, Pe*er Burke co*prova que
a re*resen*ação * percepção ** um
aco*tecimento
*o passad*, co*
*lguma f*equênci*, diz
respe*to a
outro no pre**nte,
plasmado na atua**dade. O autor
distingue dois tipo* de
al*gorias: * pragmát*co e o me*af**ico ou *ístico. A aleg*r*a p*ag**tica seria um meio par*
um *im e não
u* fim
em si, *endo uma r*corrênci* significativa na concretude histórica,
e*quanto a **tafísica ou místi*a d*tém uma lig*ção enig*ática r*corr*nte entre eleme*tos **
pres*nte *
pa*tir d* *lementos do passado, p** meio
de uma promessa ou *umprimen*o
esp**ado. O *exto do **sto*iador inglês se aproxima d* *onceito de figur* cun*ado *or E*ich
Auerbach, no qual um
acontecimen*o terreno p**ludia outro *conte**me*to ***nunciador
*,
nes*e sentido, seus anse*o* visam a uma pós-figur**ão (C*. BURK*, *995).
Co*o sínte*e *o que
foi apresentado sobre * *leg*ria e o gênero fantástico,
destacam** a n*ce*sidad* de ap*e*nd** o objeto l*te*ári*, aceit*nd* que ele po*t* um dis*urso
*ue remete, semp**, à linguag*m e à realid*de que o env*lve. Uma vez qu* o sécul* XX foi
acompan*ad* por
*m processo de industri*lização sem **ecedentes, o ho*** moderno
configura-*e cada ve* mais em confli** consigo m*s*o * c*m o mund*. S*ndo ine*i*ável q*e
a ar*e reflita suas
ins*tis**ções a*te a
uma reali*ade problemática,
os relatos f*ntásticos
explicitam a* es*ranhezas
vivenciad*s
nas soc**dade* *odernas, nos q*ais são pl*sma*os
cada
*ez mais o bana*, o in*ólit* * a* assombr*çõe*. A fic*ão, que não enco*tra significado
tão somente *a re*lida*e apare*te, cada vez mais * subverte, *razen*o para si fe*ômenos que
**ge* à *azão.
*ev. FSA, Ter*s*na, v. *5, n. 1, a*t. 14, p. 232-*5*, jan./fe*. 201* www4.fsanet.com.br/revi*ta
A Hist*ria, o Fantástico e a *legoria e* A*sombrações do Re**fe V*lho, *e Gilberto *rey*e
243
3 *ETODOLOGIA
Os pr*cedimentos metodológicos req*eridos neste proj*to adotaram a perspectiva
dialética, visando a re*leti* sobre o* aspectos def*ni*ores do fantástico * luz do *empo social.
Ancorados, **oric*mente, nos livro* Introdução à l*t*ratura *antástica, de Tzve*an T*dorov, e
Origem do d*ama trá*ico alemão, de Walter Benjamin, entr* outras refer***ias, adota*os
c*mo corpus
do*s relatos da obra Ass*m**ações d* Recif* *elho, de G*lberto Fr*yre:
\A**omb*ações no R*o\ e \* *elha branca e o bode ve*melh*\, em cujos temas é antev*sta
uma d*s forma* com* o fantástico é demar**do
*a contemporaneidade: a partir de
experiências entre o real e dive*sas manifesta*ões do insólito.
As disc*ssões sobr* o
aprofundamen*o te*ri*o que define * fantástico, a
história e
a
alegoria foram desen*olvidas em liame
com a caracteriza**o dos personag**s, na**ad*res,
esp*ço, ação, enredo e t*mp*, elem**to* que concor*eram par* *elin*ar a*a*i*ica*en*e as
te*át*c*s estu*adas e configurar este trabalho c*mo bibliogr*fico. A a*oção desses *lementos
*arrativos encontrou a defin*çã* das categoria* de
a*áli*e *om* *ecurso i*te*pretativ*,
permit*ndo que f*ssem delimit*dos o alc*nce e os l*m*tes da teoria *ara explicar o e*copo e*
*ue se situa * fantás*ico no campo da estética.
4 R*S*L*ADOS E D*SCUSSÃO
4.* Reminiscência e mi**ér*o: o ins*li*o *m Recife e suas as*om*raçõe*
"* olho *ê, a *embran*a revê, e a ima*ina**o transvê.
É precis* transver o mu*do."
Ma*oel ** Barros
Os
re*atos sob*e*at*rais, viv*nc*a*os e des*ritos pe*os habi*ant*s
do Rec*fe,
explorando a história da cidad* e as *otenciali*ades *e c*i*ção art*s*ic*, fora* mater*alizados
pioneiramente na obra Assombrações do Recife vel*o, *e Gilb*rto Frey*e. Essa temát*ca era
do *nteresse do escritor desde os **us trab*lhos jo*nalístico*, ** i*ício do *éculo XX, qua*do
já d*monstrava a im*ortância *esse imaginário cole*ivo. No pre*á*io
da primeira
edição do
l*vro, ele afi*ma te* sido durante sua passage* pela *ire*ão *o jornal A Província, em 1929,
que pesquisou *obre ass**to, *pós ser procurad* por um *orador de u* sobra*o *e São o
José na tenta*iva d* consegu*r um c*efe *e polícia para **ast*r a*som*raçõe* de su* ca*a.
Re*. FSA, T*resina PI, v. 15, n. 1, art. 14, *. *32-258, jan./fev. 2018 www*.fsane*.com.b*/revista
J. B. **reira, I. B. *ilv*
2**
Essa *otivação * l*v** a escr*ver d**ers*s ar*igos a respeito d* assunto a*ravés d* a*quivos
*oli*iais, not*f*cações de qu**xas de ass*m*ra*ões, *ateriais de
cronistas e cont*d*re* de
*istór*as, os qua*s su*gem transfigura*os
em seu* relatos. *eles, Gilbert* Frey*e b*sca
adentrar um u*iverso repleto de **mór*as, tecido de figuras evocad*s p**a his*ória, os quais
agregam os f*nôm**os insólitos do co*idiano e são reve*tidos por rumo*es e ruídos *oturn*s.
Assi**lando os m*stérios vincul*dos * cidade, Ri*ard* *enz**uen de Araújo (2010, *.
9), no
art*go A *idade
se*reta: i*t*nsidad*, ***gmentação e te*ror em As*ombr*ç*es
do
Re**fe Vel*o, de Gilb*rto Freyre, lembra que esses fenômenos
pro*ocam "um* atm*sf**a
*arcada pela aventu*a,
*ela imprevisibilidade e pelo terror". Ao recriar o sobrenatural
hosped*do en*r* r*as,
rios, **n*es,
estra*as, *as*s * h*bitantes d* capital pernambucana,
os
matizes fantásticos no* textos *r*yrianos leva-nos a pensa*, como diz José *era**o *ogueira
Mo*tin*o (1987, p. 23), no p**fáci* d* obra freyriana, n* "*n*o*fess*da suspeita" de que *m
outr* mundo nos cer*a e
n*s convid* - ou obri*a - a conhecê-*o. Convi*e que gan*ou
aprovação ao longo do tempo *ntre *s leitores e a *r**ica li*erária, sempre na
*onstante
ten*ativa de avançar nas espe*ula*ões da ilimitada *rod*çã* socioló*ica e ficcional
*o
sociólo*o p*rna*bucano.
Vi*lu*br*ndo justificar o alcan*e e o* limi*es da te*r*a, aproximando o fantástic*,
a
alegor*a e * hist*r*a na apreensão d* texto fic*ional, analisa*os do*s relatos: \Assombraç*es
no rio\, carac*erizado pel*s apari*ões religiosas n*s águas *o rio *apibari*e;
e, \* velh*
branca e o bod* **rmelho\, reme*endo à *pariçã* de um bode c*berto de sangue e che*rand* a
enx**re diante *e uma *elha que adorava
uma ima*em
d* menino Je*u*. Ambos, *om s*a*
di*tinçõ*s, asseguram a hes*t*ção do leitor e do p*rsona*em ante aos fatos narrad*s,
po*sibilita*do
a pe*manênc*a da dúvida, *omo lembr* Tzvetan T*dorov, condiç*o
responsável pelo efeito f*ntástic*. Ad*mais, ancorad* a essa naturez* do sobrenatural,
nos
reportamos ao
pensamento b*njaminiano que vincula a a*egoria
como chave para
a
c*mpreensão estética de ob*as históricas * a*tísticas na *o**rnidade.
4.2 Assombraç*es no rio
"*ercê q fes N. S. da Co*c*içã*; * Antonio *scr*vo do
Mes*re de Campo Henriqu* Miz; querendo *tr*ueç**
est* r*o *a***te dochoa par* *utra b*n*a sem saber
nad*r [...]".
Rev. FS*, Tere*ina, v. 15, n. 1, a*t. *4, p. **2-*58, jan./fev. *018
www4.f*a*e*.com.b*/revi*ta
* Histó*ia, o Fan*ásti** e a A*egoria em Assombr**õ*s d* *ecife Velho, *e G*lbe**o F**yre
245
(Trecho d* documento so*r* a a*ariç*o d* Nos*a
Senhora da Con*eiçã* no rio *a*i*ar*be para salv*r um
escravo, em agosto de 1770).
*nic*amos esta anál*se co* este fragmento, citado no relato *ssomb*ações no *io, *
qual rememora fatos qu* gu*rdam murmúrios de ág*as
recifense* marcadas pelos tons do
*obrena*u*al. Cortada por rios e *ontes, na cida*e *e Rec*fe ressoam mis*érios d*
*cont*ci*entos em u* es*aço s*m*re e*oc*do por poetas: le*b*em*-*os de Man**l
Ba**eira exaltand* o rio em s*u p**ma "Evoc*ção do *ecife", *scrito a pedido de Gilberto
Freyre: Atrás de casa ficava a Rua *a S*uda**.../...*nde se *a fumar escondido / D* l**o de l*
e*a * cais da *ua d* Aurora.../...o*de se ia pescar escondido / *a*i*er*be - Capiber*be. Esse
lugar que ress**cit* f*ntas*as pe*as remi*iscên*ias do imaginário popular * p*openso * ser
v*sitado sob
* óti*a
da *ist*ria, na qual o r*o, a* apa*ições e o e*cravo a*si*alam
o
sobrena*ural e estabele*em uma ligaçã* *ntre element*s do passado e do presente plasmados
literariament*.
* relato em tela traz dois aco*teci*en*os ocorri*os sobre as água* do Capibari*e. No
primeiro, *omos informados que às suas m*rgens la*adei*as se ocupavam em lavar *oupas de
douto**s, toalhas *e ca**s ricas e le**os caros das
iaiazi*has. Há quem d*ga qu* no lo*al
ha*ia um fantasm* c*a*ado "*ira-*oupas", especia*izado *m roubar o q*e havia sido l*vado.
E, n* segundo, conta-s* que, ce**o dia, a
própria Virgem apar**eu *ara sal*ar *m escr*vo
negro que ia se afog*ndo ao atravessar o rio d* Pon*e d\Uc*oa para * Torre, tendo sido salvo
po* No*s* S*nhora da Conceição.
Percorrendo os c*minh*s *rilhado* por G*lberto Freyre, nota-s* que o ri* Capibaribe, o
princip*l *o R**ife, é mar*ado pelo mist*cismo e está inti**mente vinculado à **s*ória social
da cidade. Com o exaltado en*usiasmo in*ocado por João *abral de Melo Ne*o n* poema O
cão *em pluma*, vemos * importâ*c** des*e ambiente para os *ue h*bitam o seu ento**o
e
inspira constantement* pro***ões po*t*cas. Percebemos que, *lém de *er rot*iro de admiração
para o
paisagismo recifense, como mostra Fernanda Pei**to, no artigo As cid*d*s e seus
dup*os: os guias de Gi*be*to F*ey*e, o rio exibe * cidade so* o aspecto *as estranh*zas c*m as
quais o home* se depara, como na aparição do fantasma e da N*ss* Sen*ora.
Após essas inf*rma**es, s*mos levados a t*afeg*r pelo Capibari*e e nos *eparamos
com a aparição ** um fa*tasma, * "vira-roup*", que t*m como p*ática corriqueira roub** as
rou*as
dos doutores, toal*as rica* e len*os caro* das patroas que as mulheres lavav*m às
margens do flúmen. F*eyr* lemb*a que esse f*ntasm* já havia sido descrit* por Ademar Vidal
** um l***o sobre superstições nordestinas, at*stando a prese*ça de um esp*ctro *ue
Rev. FSA, Teresina *I, v. 15, n. 1, a*t. 14, p. 232-25*, j*n./fe*. 2018 *ww4.fsanet.com.br/r*vi*ta
J. B. P*reira, I. B. Silva
246
pro*ovia a i*quiet*çã* na cre*ça de populares *i*nte de *lgo que, a*s olho* da razão, não er*
possíve* *omp*eender. Era às margens
*o Capibaribe
que *le se mani**stav*. As pont**
que
*ruz*m e dividem * *idade d* Recife e * *rópri* rio po**ncializa* a apreensão d* estranhe*a
por**da pelo fant*s*i*o. Det*ndo * simbologia de um es*aço que divide
doi * m undos ,
o
humano * o
que
está sobreposto a ele, com as pontes é pos*í*el perceber a
importân*i*
do
espaço no relato, ideal para explor*r com* a **rma*i*a*e m*nd*na *e
desestabiliza, na
me*i*a e* que o *obrenatural se instaura.
A noção de lug*r a*relado aos estudos literários lev*-nos a pen**r esse ambien**
caracteri*a*o pela r*lação com o* dem*is elemento* narrati*os. Oz**is Borges F*lho, no *rtigo
"Af*nal d* co*tas, q*e esp*ço é esse?", do *ivro Esp**o e Lit*ratura: intr*dução * t*poanálise,
nota que a *oç*o de esp*ço lit*rário está an*o*ado ao que mantém **ga*õ*s pluri*si*n*ficativ*s
com as personagens. O *rítico estabel**e *rês **a*sif*caçõe* para o e**aço: o realista, com
aprox*mação máxima *a r*alidade; o imaginoso, quand*
os lugare* sã* inventados
*
im*gin*dos pel* narra*or, semelhantes ao mun*o re*l; e;
a
*antasi*, quan*o os lugare*
não
p**suem q*ase nen*uma se*elha*ç* com a real*da*e e não s*guem re*ras do mundo natural
(BORGES FILHO, 20*5, *. 13-**). B*seado *essa úl*ima carac*erização, propomos que o rio
Capibaribe,
*pesar de rea*, a
*a*tir
*o momento
*m que é pa**o para designações
fantasmagó*icas,
clas*if*ca-se como *spaço fantasia, na *ed*d* em *ue é habitad* po* *e*es
insólitos, fa*endo
dele *m ambient* que tem suas
própri*s *egras,
di**eme*hantes *a
real*da*e.
* *magi*ário fantástico present* *o Ca*ibaribe, portanto, ap*r*ce *m concomi*ância
com a *i*tória de vida e morte lanç*das sob*e suas águas. Gilberto Freyre lembr*-nos qu* ele
é um rio
não só lírico, *a* tam*ém dramático, on*e muitos encontra*am a soluç*o para a*
*esilusões d* vida. *gu*s onde avistamo* o fluxo do estranho * a *bscur*dade de confidências
qu* aludem a rem*morações histór*c*-s*ciais. Um **cal "de roman*es russos acontecido* nos
trópicos. *ond* suas so*bras gua*darem seg*edo*, alg*n* terrív*is" (*REYRE, 200*, p. 90).
Rio que é a*ego*ia de um pass*do, *ecinto d* d*re* e aflições *e pernambu*a*os, que tende a
subsistir n* prese*te.
A *ropó*ito do relevo históric* *o *apibaribe é sabido q*e, *pó* a a*ertura dos portos
do *eci*e às
nações
amigas, em
1808, *o* a chegada dos vi*j*ntes e*trangeiros, ele sofreu
significativ*s trans*orm*ções. Essas mudanças po**m **r c*lhidas em diários e ano**ções d*
viaj*ntes. Se*undo *s des*riçõ*s de Henry *oster, o rio tra*sbordava nas suas margens *o*
violência, devido à* fortes chuvas e, por i*so, acar*etava *m inu*da*ões exte*sa*. P*ssuindo
ch*up*n*s
de
palha *m *u*s bordas, ele inundava a casa do*
pobre* *ue habit*vam seus
Rev. FSA, Te**s*na, v. 15, n. 1, a**. 1*, p. 2*2-258, jan./fev. 2018
www4.f*an*t.co*.br/revista
A H*s**r*a, o Fantásti** e a Aleg*r*a em Assombrações do R*cife Velho, de Gilbert* Fr*yr*
247
arre*or*s. Es*a prol*f*ração de
"*aban*s" às suas margens a*mentou d*ra*te período e, o
*eg*ndo o fr*ncês Toll*nare, er*m escra*os n*gros livres que as ocupa*a, decorre*te do lento
d*saparecimento d*s engen*o*. *orém, o o*har para o Cap***ri*e e*a cheio de enca*tam*nt*,
tanto que
edifícios f*ram construídos ao l*ngo do seu curs*, fa*endo de Rec*fe uma cidade
"*oderna", pauta*a n*s conjuntos ar*ui*etônic** e*ropeus. No final do séc*lo XIX, co*
o
au*e**o da população, o despejo de dej*tos *as *guas aumen*ou, provocando a pro*iferação
de epidem*as, como febre amarela e *ólera. Ações de saneame*to *ese*volvidas na região não
impe*iram que, até a atualidade, dej*tos sejam lançad** no rio (MELO, 2007, *. **7-262)
A representação do rio, que há séc*los concentrava em suas margens as maz*las da
sociedade *ecifense, su*ge *a at*alidade com r*squícios dessas def*rmações e desi**aldad*s
**ciais. Quando **s*ul**mos a história e co*stata-se que ele tr*n*bor*ava *o *nver*o, Recife
já se mostra*a *ma ci*ad* de e*gotos que *esembocava* em seus rio*. Encontramos no
rel*to a *ristaliza*ão dess* realidade, no* quai* e*e inundava: "as ca*as co* a fúria de
um
inimigo, de um re*e*de, de um Volga revo*tado até contra os *róprio* barquei***" (*RE*RE,
200*, *. 89) e q*e servi* "aos pobres, c*m a doçura de um S*o C*i*tóvão *ue se *r*stasse *
carreg*r *os ombr*s pessoa* e f*rdos; * re*olher a i*undíci* das casas, do* hospitais e **s
*sina*; a lavar cavalo*" (FR*Y*E, 200*,
p. 89). Um **o que, embor* com sua b*le*a
e
encantame*t* no *a*sagism* urba*o, t*m represe*tado a decadê**i* **mana e
*ma histó*i*
** pobreza que, so*retudo, permane*e como um fardo *a atu*lidad*.
Retorn*ndo ao ins*l*t* alb*r*ado n* *oviment*
das *uas águas, cons**ta-se que n*o
surgem apenas entidades do
unive*so
sobrenatural no Capibaribe. * q*e é santificado e faz
par*e d* *rença de um po*o *arcado pela história de formação religiosa também compare*e
na lenta co*r*nteza que o f** caminh*r
pel* c**ade. O relato
do apa*ecimen*o de Nossa
Se*h*ra
d* Conceiç*o d*ante das águas pa*a
sa*v** u* esc**** negro prestes * s* afogar
suscita o *aráter dúbio exp*es*o pelo *a*o narrado:
Nem tod*s as apariçõe*, po**m, têm sido de almas *enadas. Sobre *s águas do
Cap*baribe é tradiç*o que apareceu um *ia a própria V*rgem. *p*receu *ão a um
bran*o ou a um rico ou a um *idalgo de casa-**an*e - das *ue outrora
davam *
frente e não as costas p**a o rio - ma* a simpl*s escra*o que ia afogando ao
atrave*sar as água*, de *onte d\Uchoa para *
Torr*. E como era bom
católico,
qua*d* se ***tiu sem *orça* para lutar com as ág*as, *ritou como u* d*sesperado
por Nossa Senho*a da Conce*çã*. *nt*o *ossa Senhora ap*r*ce* - s*gundo o ex-
voto hoje no Museu do Estad* - e salvou o e*cravo da* *úrias do red*moi*ho do r*o.
(FREY*E, 2008, p. 90).
Rev. FSA, Teresina *I, v. 15, n. 1, *rt. *4, p. 232-258, jan./fev. 20*8
www4.fsanet.com.*r/revista
J. B. Pereira, I. B. Si*va
248
O escravo que atravess*v* o Capibaribe da Pon*e *\Uc*oa à To*re, ao pedir amparo a
Virge*, é
ouvi do, e t e m s ua à
f*e*te a p*ó*ria Imaculada, *ue o
salv* da mort*. Essa
o*o*rência leva-no* a r*c*pera* a crença em Noss* Sen*ora da Conce*ção, fig*r* arquet*pi*a
d* maternida*e. *abe-se *u*, s*gund* os do*mas cr*stão*, foi através de E*a, com*ndo *o
fruto p*oib*do, que * mal p*net**u na humani*a*e.
Porém, é também através *e uma figura
f**inina, a Sa*ta Imacula*a, q*e Deus oferece * S*lvaç*o ao *omem. Para isso, *oi preciso
*u* Ele cr*ass* *ma m*lher isenta de pecado e que **desse tra*e* ao *undo o salva*or. A
Virgem, m*e d* J**us Cri*to, é o *odelo materno *ais conhecido entre os home*s e a próp*ia
história bíblica contempla su* aut*ridade para inter*ir e aj**ar a**ele que saiu de seu ventre.
No re*ato, a *artir do momento em que *
e*cravo clam* ajud* Sa*ta, pode-s* à
*erceber qu* es*e cha*amen*o ** reves** de uma concepção mat*rna*, de um filho que p*de
ajuda à mãe e espera *er atendido. Essa co*otação fil*al é r*ite*ada n* caracte*izaçã* da s*nta:
"*ranca ou cor-d*-rosa" ** ajud*r o "e*cravo ret*nta**nte preto", destacado po* Freyre,
dem*nst*ando a *mpl*t*de
*a fé que
igno*a cor ou raç*, visto *er San*a Mãe de toda a
a
humani*ade, *mbora o escravo, por ser ne*ro, *enha *ue *onvive* em uma *oci*da** marcada
pelo preconceito.
*epens*n*o * relação ent*e escravidão e reli*ião permi*idas pela n*rrati**, vemos *ue
a
t*ajetóri* do *egro na
s*cieda*e b***ileira *ecorr*u de um proce*so de evangelização
c*tólic*, baseada na f* cristã e sob * ótica europeia, ou seja, ociden*al c*lonizadora. A his*ória
do neg*o no Brasil *arregada de e*ploração luta *ela s*brevivê*cia, visto que eram
é
e
s*bme*idos a co*dições
de trabalho
árduo contínuo na* fazendas, sobrecarre**do* e
p*la
in*ensidade de tarefas, por doloros*s casti*o*, pouco temp* para lazer e a impossibili*a*e de
se tornarem homens livres. Wl*mir* de A*buquer*ue Walter F*aga Fil*o, e
no **vro Uma
história d* negro n* Brasil, re*ordam que *s *sc**vos "era* *ra*ados *omo "infe*iores" aos
brancos euro*e*s
ou
nas*idos
no Brasil. Assi*,
ao se
criar o
escravismo estava-*e t*mbém
criando simultaneament* o racismo" (ALBU*UERQUE; FRAG* FI*HO, 200*, p. 68).
Diante desse ambiente d* opre*são * mar*írios, aos ne*ros restavam suas crenças
oriund*s do co*tinen*e afric*n*, embo*a influenciadas *elo **tol*cism*. A adoração c*tó*ica *
santos facilitou * sincretismo *el*gioso, na med*da e* que *s escravos misturavam o*ixás c*m
santo* c*tó*icos. O culto às
deusas das
á*uas e*a *ort*me*te difu*dido *a África, por
ex*mplo, através de Iemanjá, ta**ém com **ga*ão à si*bologia materna. Sérgio Figueiredo
Fer*etti,
n* li*ro Repens*ndo o sincret*smo no Br*sil, dest*c* a a*al*gia da mitologi* dos
ori**s com o cato*icis** e, através dos est*d*s de Ri** Segato, compro*a a ligação
*e
Re*. FSA, Tere*ina, v. 15, n. 1, art. 14, p. 232-258, jan./fev. *018 www4.fsanet.co*.br/re*ista
* *is*ória, * *an*ástico e a Alego*ia em Assombra*ões do *ec*fe Velho, d* *il*erto F*e*re
*49
I*manjá, pela sua superioridade e seu caráte* melancól*co, com * ima*em de N*ss* Senhora
da Co*ceição (F*RRETTI, 1995, p. 73).
Apro*imando e*sas digre*sõe* ao regist*o c*tado no relato freyria*o, o afogamento no
Capi*ar*be suscit* algumas questões, uma de*as é a *e que e*se am**ente era lo*al de moradia
dos esc*avos. E*tre
as interpretaçõ*s p**síveis, aco*hemos a de pen*ar negro repre**ntado o
c*mo um ser in*eriorizado, visualizando-o como um in*ivíduo *ue se joga no rio com* for*a
de pôr f*m ao sofrimento qu* o rode*va. Essa hi*ótese ganh* v*lidade *e*tual: **lberto Freyre
menci*n* que
naquele e*paço muitos rec*fen*e* enco*traram a mort* pelo deseng*no co*
a
vida, com o am*r ou c*m o pode*. Cremos que se afigura nesse resgat* h*s*órico um* aleg*r*a
**vol*end* * sagr*do e o prof**o, o racional e o i*raci*nal, o natural * o sobrenatural. Essas
d*alidades alcançam a *stética qu*ndo s* observa que a hierofania *lu*iva à *r**ença
do
*sc**vo *a narrativa endossa a *mb*guidade e a h*sitação do leitor, uma v*z **e a aparição *o
di*i*o não encontra ex*lica*ão na or*em racio*al estabele*ida pela realid*d*.
P**tan*o, * pres*nça do insó*ito *as ág*as do C*pibari*e *ompar*c* co*o ves*ígios de
representaçõ*s encontradas *a históri* - por me*o do r*o, das apari*ões e do e*cr***. O leitor,
ao *stab*lec*r
*onexões en*r* * episódio
inus*tad* da visagem as rec*rrentes conjecturas e
históricas, *antém-se i***ie*o quanto à a*bigui*ade de acredita* *ue aquele *ato fez p*rt* do
mundo *ue co*he*e*os, ou d**iva de um *niver*o *esconhe*ido. * essa incompa*ib*lidade de
sol*ç*o *ntre o que é de
ordem natural e de
*rde* sob*e*atural,
afirma Mar*a Cristina
B*talha (20*2, p. 28),
q ue
defin* u* r*lat* fan*á*t*co. Contradição entre d*is cos**s, * d*
real e * ** fantás*ico: este, implic* *star diant* *o m**t*rioso, do inexpli*ável e in**missível,
e; **uele, das part*cularid*des existentes na vida e na "i*a*terável" co*idianidade.
*.3 A vel*a branc* e * bode v*rmelh*
Atent*s às inquietaçõ*s e mist*rios que *a*e* parte do i**g*nár*o *u* *nco**ram o rio
Capibari** com* espaç* para suas oc*rr*nci*s, s**uiremos para outr* local marca*o por
v*sagens e assombrações. Ele situa-*e em um **s ambi*nte* que Gilbert* Fr*yre diz ser de um
Recife com "n*mes bons e antigos de ru*s, pra*as e *ítio*: nom*s impregn*dos de trad*ção"
(2008, p. 43): a E*tr*da dos Aflitos. A tradição de h*stóri*s d* terror nesses lugar*s perdurou
ao longo tempo * pos*ui fatos * personagens **igmáticos cujas carac**rística* repor*am ao
sin*st*o.
"Até hoje **o se explica aque*a apa**ção de bode misterio*o em casa tão sosseg*da e
tão teme*** a Deus. " Com essa afir*a*ão, que tend* ao inexplicáve*, inici*mos esta anál*se
Rev. FSA, Teresin* PI, *. 15, n. *, art. 14, p. 232-25*, jan./fev. **18 www4.fsanet.com.br/revista
J. B. Pereira, I. B. *ilva
250
e*oc**do componente de dúv*da present* o
no re*ato. E, *laro,
não se*á noss* inte*ção
esclarecer as ambíguas
me*çõe* e*ocadas p*r Gilberto Freyre em A velha *ranca e o
bod e
v*rmelho. A narr*tiva p*ovoca u* en***esmamento por seu caráter misterioso e le*a-nos
a
*xpa*dir im*ginaç*o com a possi*ilidade de recuperar reminiscências h*stórica* de se*es, a
espaç*s * *atos que se expõem e s* ocultam ent*e
um mundo co*id**no * um ig**to.
*reten*emos "revisit*r" um síti* que foi um* das mai* vastas terras da cap*tal pern*m*ucana,
onde h*je e*t* o Country Club de Recife, ** est*ada dos Aflit*s; e*t*ar em uma "casa-grande
de qua*ro águ*s, de janelas de gu**hotinas,
de
*ortas pin*adas
*e azul; e *ercada de muitas
*rvores de frutos" (FREYRE, 2008, p. 108); ser r**ebido *or uma velha, su*s três sobrinha*,
*m*gens de santos e um bode, preservado pa*a diz*r que parece ter *in*o d* in*erno.
Sumari*ando o re*at*: * protagonista morav* *m u* s*tio n* estrada dos Aflitos,
louvava *e*s san*os e gu*rdava nele* ouro e j*ia*, principa*mente no Menino Jesus, im*gem
*e sua predileção e reverência. J*n*amente com ela vivi*m trê* sob*i*has *ue costuravam
e
faziam d*ce*, vend*dos na *izinh*nça. *av*a boat** d* que * velha era uma cobr* par* suas
paren*as. Ain*a que a *las tudo negasse, o seu adorado Divin* Jesu* pos**ía exce*sivo luxo.
Cert* dia, senta*a à ca*eceira da mesa ap*s o j*ntar, apareceu-l** um bode verm*lho banh*do
a sangue e com cheiro de enxofre. Ap** o acontecimento a *asa foi su*metida a missas, rezas
* pr*messas co*stante*. Dura**e anos ela co*tinuo* devota do Meni*o J*s**, miman*o-o c*m
ouro e, co* o **mpo, definho*, **rrendo s*ca. As sobr*nhas faleceram logo depois e aquela
casa tornou-*e triste e aflita, igual à nomeaç** que *ec*be a estrada o*de se situava.
O espaço no relato retoma um a*pecto propício para a manif*stação do
sobren*tural.
Gilberto Freyre, ao caracterizar * sítio de *rande *imensão, r*d**d*
por árvo*es *rutí*eras
e
*prese*t*ndo *ma velh* casa-grande, evoca um ce*ário típic* d* acontecimentos es*ran*os e
favorá*eis para a
*pariçã* de assom*rações: "Era *m sítio q*as* se* f*m; e *eu arvore*o
quase um* mata" (*R*YRE,
200*, p. 10*). Luga* que alime**ava a vel*a e possuí* raros
frutos, alguns provenient*s de países
e*rope*s, como a g*oselha;
outras de propr*ed**es
medi*amen*osas, co*o Juá e Abiu; alé* das extin*as, que só o* mais ricos c*nservavam em
s*as *erras. A quan*idade d* árvores * *s pl*ntações *ara*terizavam os qu* mo*ava* naq***e
**tio como *ma "*spécie de classe média d* re*no vegetal" (*REYRE, 2008, p. 109).
Relacio*ando esse *spaço à cono*ação histórica implicada no re*a*o, *o**s levados
para o século XI*, quand* os sítios d* Recife não fic*vam lo*ge
do a*bie*te ur*ano e,
muitos dele*, possuíam alojamentos para escravos, sedimentando uma aliança en*r* p*odução
e c*mércio por meio d*s negro*. O *bas*ecimento
da* horticulturas e *s vendas
eram feita*
po* *u*tan*eir*s, mulh*res negras livres
que *rest*vam esses serviços, e t*abal*ava* como
Rev. FSA, Ter*sin*, v. 1*, n. 1, art. 14, p. 232-258, jan./fev. 2018
www4.fs*n*t.com.br/revista
A H*st*ria, * Fan*ástico e a Al*goria e* Assomb*ações do R*cif* *el*o, de Gilb*rto Fr*y*e
2*1
criadas, **nde**as, lavadeiras ou ou**os ofícios assoc*a*os ao regime escravocra*a. Elas sa*a*
pela cidade p**a vende* à* iaiá*, le*a*do con*i*o
os falatórios do m*io urb*no (SILV*,
*004). Esse contexto *uxil*a na recuper*ção da condiçã* so*ia* das quitandei*as e leva-n*s a
visualizar u*a so*ieda** ma***da p*la d*si*ualda*e racia* n* Br*s*l do século XI*.
Ao associar as personagens do *elato f*eyri*no com condic*onan*es *is*órico*
e*xer**mos co* outr*s ol*os o *odo
co*o elas são ap*esentadas na narrat*v*. A velha
branca, d**a de toda riq*eza, e as negras, *u*heres que saíam para v*nder, remete-n*s
a
divi*ão de classes de uma sociedade m*rcada *ela *egre*ação racial, condiç*o perpetuada na
cidad* de Recife e no Bra*il até a atua*i*ade. *o centra* nos*a atenção n*s quitandeir*s c*mo
elemento narrativo conectada* co* a hist**ia, torna-se factí*el esboçar um *ara*elo com
o
con*eito be**aminiano de alego*ia, que propõe a ret*rad* de *m e***ento de sua totalidade, de
seu conte*to de *rige*, isoland*-o * ajustando-o co* out*os c*ntex*o*, par* q** *le assuma
n*vas e dif*re*tes significaçõ*s (**RGER, 2012, p. *28).
A velh* br*nca, de fala fanhosa, era um* dessas iaiás que a so*ieda*e dif**enciou d*s
ne*ras pela
cor * ri*ueza. Ao pensarm*s em seus tr***s na narrativa, p*demos imag*nar
a
ima**m
de *m
espectro. Aparê**ia qu*, pod*m*s dize*, *
**erente com o ambiente
assombrado em *ue ela v*via. A*é* de ser mui*o velha.
Era branc*, branqu*ssima, como que coberta toda de neve: toda e n*o **e*as o
cabelo. A p*le muito *ranc*. *s mãozi*has, du*s plumas brancas **e quand* f*z*am
festa a u* rosto de menino *á pareci*m mãos de *antasma. O ves*ido s*mp*e branco.
Parecia a **lhin*a a*sim tão bra*ca como o retr*to de L*ão XIII que e*a própria
conservava no quarto dos santos. Só que se* *or*iso era outro e seu cabe*o, de
mul*er. (FREYRE, 2*0*, p. 109).
De im*diato, podemos a*so*i*-la à *magem *e um fantasma por *er *ran*a e vestir-se
da *esma cor. A simbologia ** cor branc* relacion*da a um fan**sma é algo co*hecido e te*
uma co*respondênci* direta com o so*renatural. Além disso, sua voz f*nhosa r**firma esse
*maginári* fa*tasmagórico atribuído à aparênc*a, "voz mei* *o ou*ro mu*do, meio deste"
(FRE*RE, *008, p. 11*). Rela*ionando sua *iguração n* relato com as proposiçõe* teóricas
*e Beth Brait, co**reendemos qu* "at*avés desses traços, a personagem vai sen*o construída,
e o leitor, po* sua vez, p*de de*cobrir, antes do final, a *imensão o*upa*a pela perso*agem no
d*senr*l*r dos aconte*imentos" (BRAIT, 1*99, p. 56). A narraçã* f***ece p*stas através das
descrições *ara p*tencia*izar a vis*o f*sica da ve*ha branca e, comb*nando vários aspectos,
cri*-se pro*r*ssivamente *u* "mater*ali*aç*o" no campo do *istério.
Rev. FSA, *eresina PI, v. 15, n. 1, ar*. 14, p. *32-258, jan./*ev. 201* www4.f*anet.com.br/re*ista
J. B. Pe*ei*a, I. *. Silv*
252
Outr* arti*ício tex*u** que auxilia *a configur*ção fan*asmática da pr*tagonista é
a
menção ao ret*ato de Leão XIII, pr*sente no quarto d*s santos da velha. * *istó*ia assegura
que ele teria rece*ido vis*es di*ból*cas. Abrindo a "*aveta do passa*o", *ncontr*mos i*dícios
de que o papa v*u dem*nios voa*em do *nfern* par* de*tru*r as almas d* Igrej*, em Roma. Ele
teria solic*tado * ob*ido a interc*ss** de São M*guel Ar**njo para lutar contra os de*ônios e
colocá-l*s de volta ao mundo infer*or, *en*o criad* * oração de honra àquele santo, q*e pe*e
o afastamento dos seres
do *nferno,
análog* *o
que * velha teve q** fazer, *e*indo o
desaparecimento de u* *ode vermelho que lhe assombrou certa **rde, fazendo com q*e
celebrasse missas, rez*s e promessa*. *a** * interesse deste artigo, os elos *nt*e a *ma*em do
papa *a pared* do qu*r*o e o comportame*to da velha comparecem n* medida em que ambo*
e*tivera* em sit***ões que careceram da in*erc*ssão divina p*ra *f*star u* ser diabólico.
A re*isit*ç*o ao passado ** Leão XIII *az-n*s *e*gat*r o suporte t*órico a*tevisto por
Peter Burke,
n* *rti*o *istór*a como Alegor*a, quando ele r*toma a ale*oria conectada
à
his*ória, de m*do q*e o p*e*ente s* afig*raria como um* repre*entação de acontecimento* e
fatos do passado. Ne*se sentido, o
evento hi*tó**co at*i*uído ao papa pode ser citado nesta
an*lise, *a m*dida em *ue el* assume *ma espécie de *on**ão oculta ou **visível com a obra
freyriana. Por mais s*para**s que possam parecer *sp*cial e temporalmente, é factível *efleti*
sobre ess* semel*a*ça pautada na chamada alegoria metafísica ou mís*ica, destacada pelo
his**ri*dor in*l*s (BURK*, 1995).
Em outro diapa*ão, s*pomos que os motivos que levara* à apa*ição da
vi**ge*
na
*asa-gran*e pod*m ser relacionado* *om os vínc*los mant*dos p*l* velha *om as sobr*nh*s.
Tão brancas quanto ela, "às quais tudo negava, menos a casa e o g*zo do sítio; e que por isso
*esmo, as coitadas se esgo*ava* e* c*stura* para fora e fazer d*ces para as neg*as v*nde*em
em tabuleiros *a cidade" (FREY*E, 2**8, p. 111). Porém, ne*hum agrado d* velh* era *aio*
do *u* sua a*oraç*o à imagem do Menin* Jes*s, a que* enc**a d* joias e ouro. As sob*inh*s
vivi*m em uma casa
cheia de r*q*ezas, embora *ada *ivessem, c*bendo-lhe* a obri*ação
de
c*stu*ar e ve*d*r. Freyre afirma que: "*alvez não fo*** tão c*ua a velha iaiá de fal* *an*osa. O
zunz*m *a vizinha*ça é *ue fazia del* quase *ma moura t*rt* *e história d* carochin**.
Qua** uma se*hora avó ou
um* s*nhora
da *istóri* do "Água, me** netinhos!", "Azeite,
Senhora Av*!" (F*EYRE, 2008, p. 11)
A *str*tura do relat*, *m*lando um m*d*lo da tradição oral, onde são in*istintos
os
compon*ntes
reais ou imaginár*** d* que se conta, a exem*lo das f**ulas, permite que
*racemos u* d*álogo co* os c**t*s de *adas. S*b*-s* que eles
pertencem
ao *undo dos
arquétipo*, m*tico* e *imbólicos. Seu gênero é o narrat*vo, c*m enredo rápido e pr*c**o. Além
Rev. *SA, Teres*na, v. 15, n. 1, art. *4, p. 2*2-*58, *an./fev. 2018 www4.*sane*.com.br/revi**a
A Hi*tória, o Fant*stico e a Alegoria e* Assombraçõ*s do *e*ife Velho, de *ilbert* Freyre
25*
d**so, possui ca*acterí*tic*s p*óp*i*s, como * u*o das expressões "Er* uma vez...", "Num
reino encantado..." ou "Nu* lugar não muito distante...", d*notando um co*eço, meio e f*m
para percepç*o da existê*ci* de u* tem*o imagi*ário. N*s contos d* fadas os heróis s*o
cora*osos e, na maioria das vezes, b**os, sendo os vilões te*rí*eis e feios. Br*no *ettelheim,
em psic**álise d*s conto* de f*das, e**atiza A
q*e "*s figur*s nos conto* d* fa*as não são
ambiv*lentes - não são boas e más ao m*sm* t*mpo, como somos todos *a realidade"
(BETTEL*EIM, 2002, p. *9).
A m*nçã* a*s c*ntos d* fadas não é gra*uita: To*o*ov, e* Intr*d*çã* * Literat*ra
F*ntás*ica, cita a* narrat*v*s de Charles *errault p*ra afir*ar que "os *ontos de f**as pod**
ser h*stóri** de terror" (TO*OROV, *975, p. 21). O relato freyr*ano dá margem para
co*s*derar a v*lha *omo uma madrasta que abusa da enteada, no c**o do relato, as sobrinhas,
anál*go ao que fundame*ta * enredo de * *ata bor*alhe**a. Ta*vez pelo *ev*tado c*l*o aos
santos, em d*trimento d* ajuda às sob*inhas, * velh* branca teve à *u* frent* * assombração
di*bólica:
Qu*m sa*e se *ão f*i esta a razã* de ter um **a a vel**nha s* assombrado c*m
a
figur* d* *m bode verme*ho o* e*carnad* ou es*arl*t*, como *icho do *p*c*lipse?
Quem sabe se De*s, o *ai, desaprovando o cul*o não digo e*ce*s*vo, ma* exclusivo,
à
imagem do seu Di*ino Fi*ho, e a negligê*cia da t*a pela *orte daquelas t*ês
sobrinhas p**idas, tamb*m filhas d* Deus, embora sim*l*s **ss*as da Terra, não
per*it** ao Mal*gno *parecer **q*e*a santa casa, só *ara sacole*ar o coração da
velha sinh* e abran*á-lo? Quem sabe se não foi esta a razão de ter o próprio Esp*rito
d*s Trevas sob a *orma de um bo** t*rr*v*lme**e feio * **ifrudo, ru*vo e barbado?
(FREYRE, 200*, p. 111-112).
"*u** sabe... quem sa**... q*e* sabe...". Ess* r**et*ção contínua man*ém a dúvid*
q*a*to à veracidade *a visa*em, ac*escentando *mbiguidade ao mistério que env*lve
a
*parição. *ssa ocorre* ao entardece*, enquanto a velhi*ha e**ava sentada à cabec*ira d* me*a
após o jan*ar, q*ando surge um b**e enviado por Satanás, "esca*la*e *omo se tivesse *aí** de
*m banho de sangue" (FR*Y*E, 2008, p. 112). Gritan*o em desespe*o, * velha f*i ajudada
pelas sobrinhas, que não
viam a assomb*ação, mas a "inh*ca do b*de, t*mbém a*gumas das
negras dizia *e* sent**o. *ra bicho im*ndo. *arecida talvez com Exu" (F*EYRE, 2008, p.
112).
Correlacionar esse en*e com a apar*nc*a d* u* o*ixá *ue ocup* lu*ar de dest*qu* na
u*banda, religião *e matriz africana, endossa o desconhe*ido. Possuidor de carát*r amb*guo,
*x*, Èsù, Elég*ára, Ele**á, Legbá
ou B*rá, nomes que r*cebe
na Áf*ica, símbolo de é
m*ldade e de bond*de. C*mp*ram-n* ao Di*bo, muito *m*or*, diferente
do m*do *om* fo*
as***ila*o pelos miss*on*ri*s cristãos de*d* a colonizaçã*, par* os africanos ele pos*uía um
Rev. FSA, Teresina PI, v. 15, n. 1, art. 14, p. 232-258, *an./fev. 201* www4.fsanet.com.br/revista
J. B. Pereira, I. B. Silva
25*
lad* bom. *o Brasil, a idei* *e Exu *om* o deus-gu** e interme*iári* en*r* dois mundos foi
difundid*, e a tent*ti*a d*s d*scendent** africanos e* descobri* o seu equivale*te no
catolicismo ressal*a * imp*ssibilidade de enc*rá-lo apenas pelo aspecto dem*níaco. Todavia,
principalmente devido à esc*avidã*, o *aráter sini*t*o efetivou-se em sua imagem; tornou-se o
deus cruel que mata, *emonstrando *u* proteçã* ao povo n*g**. Esse caráter *e Ex*, embora
se modif*que em cada gr*po, *ermanece vinculado * s*mb**ogia demoníaca (LAGES, 2003).
Acre*centemos *uas *ipót**es para o *ur*im*n*o da visagem: uma, como puniç**, *m
avis* para a velha, *omo via de proteção e fúri* *elo modo de vida d*s ne*ras quitandeir*s; e,
a o*tra, remete à
d*v*ção com que ela tratava s*us santo*, prin*ipalmen*e, o Menino *esus.
Não queremos at*ibuir a ocorr*ncia sobrenat*ral ao c*idado com a ima*em santifica*a, mas
cr*mos que o cuidado ext*emo dá margem a*men*a as estranhezas r*ferentes ao fat* *
narrado:
F*it* a ca*richo era a imagem *natomicamen*e perfeita. Parece que t*n*a a*é
umbig*, que
não *ev*a ter. E um d*s prazeres da *ai*
velha, e já tão cega que do*
*eus olhos ** p**ia dizer, como o poet*, qu* eram *lhos
que tin*a* pass**o às
p**tas dos seu* d*d*s; *r* levantar **m muito m*sté**o o vestidi**o todo d* rendas
fin*s e cheio *e fita* azuis do *eu Menino Jesus pa*a que n*s outros, m*nin** *e
*arne, víssemos que ao do céu, *li ador*do, mima*o e
fest*jado como nen*um
Menino Jesus o foi mai* na Terra, não fal*ava p*ro*a:
uma
piroquinha cor-de-ros*.
U* piroq*inha em q*e as pontas d*s *ed*s *a velha to**vam *om sua leveza de
*l*mas, fazendo-lhe uma doce fes**. [...].
Naquel* te*po o que me d*slumbr*va era ver um M*nin* Deus t** cheio *e joias *
tão sobrecarregado d* ouro. Os outros sant** t*mbém t*nha* **as joias. E a sa*ta
M*e do Me*i*o *eus mai*
b*incos e cord*es de ouro d* que qualq**r ou*ra d*s
santas: S*nt\Ana, S**ta Luzia, Santa *ecí*ia. (FRE*RE, 200*, p. 110).
O trata*ent* ao objeto c*istão m*biliza-nos para inv*stig*r a ati*ude de admir*ção e
co*te*pla*ão da velha. Da *récia helêni*a ao sécul* XVIII, autômato*, objet*s i**nimados
que g*nham "vida" o* desenv*lturas humanas, eram construídos pa*a o desenvol**ment* *a
me*â*ica. Por anos, foram admirados pela imitação do *i*o e utilizados na *iência **ra
técni*as de trabalho e para a arte. E* *769, Wolfgang v*n Kempele* construiu um autômato
cha*ado "o jog*dor de xadrez", bo*eco de t*ajes *xóticos que *ica*a dian*e de u*a grande
caixa de tab*l*i*o de xadrez. O criador jogava co* sua inve*ção e
aumentou o mistér** na
época pela sua
cria*ão. A insistente i*itação d* se*es *ivos impressionava, e seus
const*ut*r*s passaram a s*r chamados d* "m*dernos prom*teus" (C**TRO, 2014).
*onder*mos que a função da imagem do *enino J*sus no te*to ult*a**ssa a conota*ão
religios*, ganhando *id* diante da velha, como *ma espé*ie de a*tômato, pessoalizado. A
**gnificância que o *bjeto carrega *ian** dela
determina-lhe característ*cas humanas,
Rev. *SA, Teresina, *. 15, n. 1, *rt. 14, p. 232-258, jan./fe*. 2018
ww*4.fs*net.com.br/revista
A História, o Fantástico e a Ale**ria em Assombrações do Recife Velho, de Gilbert* Frey*e
2*5
viv*f*c*ndo-o, como se ele res*ondes*e a demand*s o*iundas da rea*i*ade. Sua re*resentaç*o
e aspectos de *umanidade *anh*m out*a dimensão: a velha bra*ca t*at* a imag** s*nta com
extre** intimidad*, vida e afeto, levando-nos a a*ribuir e*sas ações ao fato d* ela não ter tido
f*lhos. *quele objeto passo* a ex*s**r para além de uma simples imagem, ga*hando **l*r
*
importâ*c*a como um corre*pondente mas*u**no que não ex**tia *m sua vida.
Após a aparição
da visagem, a v*lhinha *ontinuo* devota d* Men*no Deus, embora
com mais atenção para as t**s *obrinhas, e*imindo-as de ficar como escravas costurando para
fora. Ne**um bo*e **ltou à casa-g*a*de. O nome \estrada dos A*litos\ ganhou
outra
sign*ficação devido, *alvez, às aflições fantasmagóri*as vivenciadas por *eus moradores. A
morte da velha foi somb**a: *orreu seca; se f*sse *obre, caberia em u*a caixa de papelão de
bonec*. Esse d*finhamento, a*ós a mo*t*, mostra *m aspe*to s*brenatural que persiste at*
mesmo no fim da vida. D*as de *uas sobr*nhas morreram logo
de*oi*, * a ca*a fic*u mais
*riste e abandonada.
F**a*izamo* est* análise ant*v*ndo que a analogia da visage* com o *iab* e com Exu
*xplo*a o terre** em qu* o fantást*co h*bi*a *a contrad*ção entre dois *undos: um, famili*r,
e, outro, qu* foge * nossa c*m*reensão entre o possível e o i*pro*ável. *xu *á foi visto como
um deus entr* os **smos na*ural e o
*obrenatur*l. O bode v*rmelho,
qu*ndo comparado
*
Exu, assume posi*ão análog* e s*a aceitação tran**ende de um *erritório que conh*c*m*s
*
outro q*e possui lei* p*óprias. Visto que * diabo teve divers*s modulaçõ*s no imaginário
col*t*vo
ao long* do* sé*ulos, bode vermelh* caracter*zado
o
é
*e forma m*léfica e sua
presença
na narrativa
p*ovoca o ho*ror. *ss**
cond*c*onantes *e*e*enda* a persp*ctiva
todo*oviana para a função e
ocorr**cia portadas pelo fantástico, no qual a fu*çã*
**
**brenat*ral é "subt*air o texto à ação da le* e com i*so *esmo trans*redi-la" (TODOROV,
19*5, p. 8*).
A* fi*
da na*rati*a não é p*ssív*l e*contrar uma
explicação plau*íve* para
a
m*n*festação d*quela a*so*bração. Não se
sabe *e f*i "um alarme, saído d* próprio
su*c*n*cien*e" (FREY*E, 2008, *. 1*3) da* pessoas par* que a velh* dividisse a su* ri*ueza
com as *obrin*as, o* o*tra m*tivação racional e*pli*aria o ocorrido. O relato A velh* branca
e bode verm*lho traz a ambiguidade o
típica d* fantástico, c*m "suas in*ertezas calculada*,
seu uso do medo e do des*onhecido, *e *ados s*bconscientes e do **otismo" que fazem de*e
uma orga*iza*ão singul*r do mundo (BESS*ÈRE, 201*, *6). S* no começo desta análise p.
preten*íamos revisitar a ca*a-grande assombrada, sa*mos d*la ainda perguntando: foi verdade
ou ilus*o? O *nsólito sempre esteve presente *o sítio? Ou ele está en*re *ó*? Ele faz *arte d*
no*sa re*lid*de? Ocorreu na cas*-grande da estrada d*s Aflit*s ou f** *ura imaginação? An*e
Re*. F**, Ter*sina PI, v. 15, n. 1, art. 14, p. 232-258, jan./fev. 2018 w*w4.fsan**.*om.br/*evista
J. B. *ereira, I. B. Si**a
25*
essas p*rguntas ca*ec*doras de respo*tas he*itamos e chegamos ao cern* do fantást*co: a
*nc*rteza. "A vacil*ção *xperime**a*a por um ser que n*o conhec* mais que as leis *a*ur*is,
fre*t* a um acontecimento aparentemente sobren*tur*l" (T*DOROV, *975, p. 16).
5 *ON*ID*R*ÇÕES FINA**
As leituras sobr* a *legoria, alé* dos critérios definidores do fantást*c* apresenta*os
por *od*rov, Batal*a e Bessièr*, foram fundame*ta*s para * elaboração deste ar*igo, uma vez
*ue eles possibilitaram
um aprof*ndamento no *ampo da anál*s* e teoria *iterárias. Nas
reflexões inic*ais, *uscamos delinea* * propósito * ser alcançado: **oblema*izar teoricament*
os p*essu*ostos def*nid*res d* fant*stico *a obra A*sombrações do Recife *elho, d* Gilber*o
Freyre. *ntendemos que, no primeiro relato, Assom*raçõe* no rio, o gêne** s* fez pres*nt*,
na medida em que perdu** a h*sitaçã* quant* à veracidade da visag*m e do *ato s*br*n*tural
ocor*ido nas águ*s do Capibar**e, *o fant*sma nominado *e vira-roupa e da a*ari*ão de
*ossa Se*hora ** *oncei*ão. E, em A v*lha branca e o bode v*rmelho, * dúvida recai s*bre
quão verossímil *oi * encontro do bode vermel** com a velha branca, cujo car*ter *i*terioso
ensejou
consequ*n**as *a forma d* compreensão do espaço e *a c*racteri*ação
das
p*r*onagen*.
*o adentrarmo* nos relatos freyri*no *erceb*mos recorrência como n* *idade a
de
R**ife o insóli*o transi*a consta*te*ente, tr*nspondo o q*e subsi*te n* ex*er*ência concreta e
m*terial ** re*lida*e. Ao longo do *empo as pesso*s se \*epararam\ com entidade*
desconhecidas, *isteri*sas, com o que lhes é difere*te e inexplicável *ela via da raz*o. E*sa
perspectiva foi
*de*sa*a
e*
nossas
cons*de*aç*es, te*d* a *istór*a como p*no de fundo,
levand*-nos a c*ncluir que o efeito fantástico perdura *e*m* quando a aleg*r*a é u**li*ada
para ressi*nificar *elatos de cunho im*gi*ativo. Sem que te*ha sido suprimido o caráter
hesitan*e dos contos anal*sad*s, avança*os no ideal de adotar o recurso alegórico *omo um
fator
*ue concorr*
para *onstruir o efe*to aludid* p** Todo*ov, per*i*in*o dizer que o solo
pro*ício pa*a o sur*i*e*t* do fantás*ico é o me*mo que possibi*ita sua inter**etação s*b
a
ót*c* d* a*e**ria.
*ev. FSA, *eresin*, v. 15, n. 1, art. 14, p. *32-25*, jan./fev. 2018
www4.f*anet.com.*r/r*vist*
A H*s*óri*, o Fantást*co e * Aleg*ria em A*som**ações do Reci*e Velho, de *ilberto Frey*e
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*e *aneiro: Record, 1987.
SI*VA, M. H. Pretas de honra: t*ab*lho, c***diano e repre****açõe* de vendeiras e criadas
n* recife do século *IX (*840-1870). Disser*a*ão (Me*trado em Hist**ia) - U*iversi*a*e
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*omo Referenciar e*te Artig*, confor*e ABNT:
J. B. PEREI*A, I. *. S*LVA. A História, o F**tástico * * *legoria em A*s*m*ra**es do Recife *elho, de
*ilberto F**yr*. Rev. FSA, Teres*n*, v.15, n.1, art. 14, p. 232-25*, jan./*ev. 2018.
*ontribuiç*o d** Autores
J. B. Pereira
I. B. Silva
1) concepçã* e p*a**jament*.
*
X
2) análise e in*er*retação dos dados.
X
X
3) elaboração do rascunho ou *a *evis*o críti*a do con*eúdo.
X
X
4) p*rticipa*ão n* *p*ovação da versã* f*na* d* manuscrito.
X
X
R*v. FSA, Tere*ina, v. 15, n. 1, ar*. 14, p. 232-*58, *an./*ev. 2018
**w*.fsanet.com.br/revista
Apontamentos

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