www4.fsane*.com.br/revista
Rev. FSA, Teresin*, v. 13, n. 6, art. 8, *. 125-148, nov./dez. 2016
IS*N *m**esso: 1806-6356 ISS* E*et*ônico: 2317-2983
*ttp://dx.doi.*rg/10.1*819/2016.13.6.8
Formas de Representação dos *ndios n*s Cartas de Johann Natterer
Form* o* Represen*at*on of I**ians in the Let**rs of Johann *atterer
Raf*el Ch*v*s Santos
D*utor em Lingü**tica *plicada p*la U*ivers*d*de Fede*al do Rio de Janeiro
E-*ai*: rafferufrj@gma**.*om
Luiz Ba*ros Montez
Dout*r em Letra* pela Univer*idade de São Paul*
Pr*fessor da Facul*ade de Let*as *a Univer**dade Fe*er*l do Rio de Ja*e**o
E-mail: l*iz.montez@gmail.c*m
*ndereço: R*fael Chaves *antos
Endereço: Fa*uld*de de Letras, D*par*am*nto d* Letras
An*lo-*e*mânicas. A*eni*a Jequitibá, 21*1, Depto. de
Letras Anglo-Germâni*as. Ilha do Fundã* - 2*9*1*90 -
*io de *ane**o, RJ - Brasil.
Ender*ç*: Luiz *arros Mont*z
Endere**: F*culdade de Letras, Depar*ament* d* Letras
An**o-*erm*nicas. Av*nida Jequi**bá, 2151, D*pto. de
L*tras Angl*-Germ*nicas. Ilh* do Fundã* - 21941*90 -
Rio de J**eiro, RJ - Br*sil.
Editor Cie*tíf*c*: Tonny Kerley de Alen*a* Rodrig*es
Arti** receb*do em 25/08/2016. Última *ersão
**cebida em 18/09/2016. Aprov*do em 19/0*/2016.
Avaliado pelo siste*a Trip*e *eview: a) De*k Review
p*lo E*i*or-C*efe; e b) Double *lind Review
(avaliaçã* cega por d*is a*a*iador*s da área).
Revisão: Gra*atical, Nor*at**a e de Fo*mataç*o.
Apoi* e *inan*iamento: CAPES (Coo*den*ção de Aperfeiç*amento de Pessoa* d* *ív*l Superio*).
R. C. Santos, L. B. *ont*z
126
RESUMO
*o presente *rtigo busca-se analisar o dis*ur*o d* viajante austríaco Johann N*ttere* sob*e os
índios em suas cartas e*critas dur*nte *ua perman*ncia de 18 anos no Brasil como m*mbro da
Ex**dição científica austríaca (1*1*-*83*).
Com este **jet*vo, *r**õe-se, entã*,
evide*ciar
as
e*tratégias d* c*nstruç*o
discursiva presentes n*s *e*tos do viaja*te e problemati*a* *s*e
**scurso carre*ado de valores ide*ló*icos (*urocênt*icos) numa *entati*a de ampliar o debate
sobre as questões **e envolvem o índ*o na história do Brasil. Pr*c*ra-se dem*nstrar ta*b*m
*ue o discurso do viajante não é *ma práti*a *ocial isolada, mas si* uma prá*i*a concreta que
interagiu
*om o*tras práti*as (*iscursiva* e não discu*sivas) e* u* em**te d*a*é**co
e
ide*lóg*c* *a co*str*ç*o da i*agem *o índio no s*c**o XIX no *rasil.
*alavra*-*h*ve: Johann N*tterer. Índios. Discurso. C*ráter.
ABSTRACT
In the present arti*le seeks to analyze the spee*h of the Austrian Johann Natterer *ravel*r on
the Indians in his *etters wr*tte* durin* h*s 18 y*ars stay in Brazil as a m**ber *f the Austr*an
scientifi* expedition (1817-1835). To this end, it is p**posed, then highli*ht the strategies of
*iscur*ive construction *resent in the traveler's texts *nd disc*ss t*is speech laden with
id*ologic*l values (eu*ocentric) i* an at*empt *o broa*en the debate on issues *nvolving the
India* in *razil's histo*y. It seeks to demonst*ate also the *raveler's spee*h is not an isol*ted
social practic*, *ut a concrete *ractice that *nteracted with other *r*ctice* (d*scursive and non-
disc*rsive) in a *ialectical and id*olo*i**l struggle in th* India* image con*tructi*n in
t he
nineteenth cen*ur* i* Bra*il.
Keywor*s: Johann Nattere*. In*ians. *peech. chara*te*.
Rev. F*A, Teresi*a, v. *3, n. 6, art. 8, p. 125-14*, *ov./dez. 20** www4.fsanet.co*.b*/revista
Fo*mas *e R**resentação dos Í*d*os nas Cartas de Johann Na*terer
127
1 I*TRODUÇÃO
1.1 O *iajante *ustríaco
J*ha*n Ba*tist N*tterer nasce* em 9 de *ovembro de 1787, na p*quen* ci*ade *e
Luxemburg*, próxim* à Vie*a. *m 1804, ainda *o* 17 *n*s, Nat*erer real*zou sua pr*meira
v*agem de ca*áter científico pela E*ropa, na com*anhia de *eu pai, indo para a Hungr**, onde
pesqui*ou com el* os pântanos no Lago Neusiedl, próxim* a Pamaggen, *aller*, *nt*u etc.
Entre 180* e 1808, p** *nfluê*cia do ir*ão, que já fazia tra*alho* v*luntár*o*, Na*ter*r
foi *o*vidado por Karl von Schreibers p*ra trabalhar c**o pesquisador nã* remunerado
*o
Mu*eu Imp**i*l de Zoolog*a de Viena. *chreibers acab*ra *e assumir a direção do Muse*.
Nos *nos seg*intes, Natte*er freqüen**u també*, cursos d* idiom* e desenho na Real
Academia de Vi*na, ape**eiçoando ha*ilida*e* **e, *u*to às *x*eriên*ias obtidas *m su*s
v**gens, foram *e grande valor durante sua esta*a n* Br*sil.
Já em 1815, foi enviado por *chreibers, a *aris para trazer de vo*t* a V*ena *s objetos
d* ar*e e c*ê**ia que haviam s*d* levados por Napoleã*. Em 1816 foi, finalmen*e, n*m*ado
ass*ste*te do Impe**al *a*inete de Ob*e*os da Natureza de V*ena, ***** este nã* remunerado.
Este ano en*erraria o primeiro período na vida de
N**terer, qual *
*o* fundam*ntal par*
o
s*gun*o **ríodo *e *ua vida **tre 1817 e 1*35, quando veio para o B*asil e perm**ec*u *qui
*or 18 anos como mem*ro da Expe*ição *ientífica a**tríaca.
No an* de 1817, Natt*rer foi con*ida*o a *n*eg*ar a Expedição c**n*ífica austría*a
(**17-1835), *ue vi*ha a* Brasil *comp**h*ndo a filha ** Imper**or Francisco I da Áus*ria,
Leo*ol*ina (1797-1*26), por ocasião d* casamento *esta com o pr*n*ip* her*eiro e fu*uro
i*perador do Br**i* *. Pedro.
E* 15 de setembro de 1*35, Nat*ere* foi obriga*o a dei*a* o B**sil à* pressas com sua
famíl*a po*s, no Pará, local *n*e es*ava, o**rria a Caba*agem (1**5-184*) * os insur*e*te* j*
haviam destruído pa*te de seu materia* * c*mido *lg*ns a*im*is que ele pr*te*di* levar *ara *
**stria. Em * de novembr* de 1*35, chegou a Londres, onde permaneceu durante qu*se um
*no para restabelecer sua saú*e. Sua chegada à cidade *e Viena só ocorreu, ent*o, em 13 de
*gosto de 1836. Após *eu **torno, N*t*erer f*i
nomea*o
assist*nt* d* I*peri*l Gabine*e de
*i*na, e e*tre
os
anos de
183* 1840, realizou *inda **vers** o*tra* *iagens *o* vários *
países da Europa: *le*anh*, Di*amar*a, S*écia, França, Holanda e Inglaterr*,
com
*
*b*etivo
de comple*e*tar seus e**udos e coleções, a*sim como, pos*ivelmente, prod**ir
algu*as *b*as.
Re*. FSA, Ter*si*a *I, v. 13, n. 6, *rt. 8, p. 125-148, nov./de*. 2016
ww**.fsanet.**m.br/r*vista
R. C. Sa*t*s, L. B. Mont*z
128
Em 184*, entretan*o, d*vido a com*licaçõe* em se* e*t*do de saú*e e uma grav*
cong*stão pulmonar, em 17 de junho, Na*terer falec*u, d*ixa*do s*a obra de o*nitol*gia e
*utras que pretendia publicar inac*b*das.
O natural*sta, contudo, conc*uiu do** trab*lhos publicado* na á*ea das **ências
naturais: o *rim*iro Lep**osiren para*oxa, nos ana*s do museu de Vi*n* (1839) e, o segu*do,
B*i**äge zur n*heren Kenntniss d*r südameri*anis*he* All*gatoren (1839).
*ura**e se* 18 anos no Brasi* Natter*r reu*iu uma *u**tidade inacreditável
de
materiais das vár*as áreas d*s ciênci*s nat*rais e peç*s *e di*ersas tri*os indí*en*s: 430
**péc*es minerais; *.729 v*dr**
com he*m*ntos;
1.024 *ol*scos; 409 crustáceos;
3 2 .8 2 5
insetos; 1.671 peixe*; *.6*8 anfíbio*; 1*.294 a*es; 1.146 mamíferos; 1*5 ovos; 192 crâ*ios;
1*7 *ipo* *e *adeira; 242 amos**as *e semente*; *1* mo*d*s; 1.492 ob*eto* e*nog*áfic*s
(jóias, a*mas, ap*relhos, vestimentas) d* mais de 70 dife*entes et*ias.
Nas carta* escritas *m seus pr*meiros **os no Brasil, Nat*ere* não falou s*bre os
índios, nem *esmo
recont*ndo hi**órias de outros. A partir de meados de 1820, foram
encontr**as já *s pr*mei*as manifestações sobre os ín*ios, ma* que, como veremos adiante,
trata-se de *epr*du*ões *as h*stórias *ue o naturalista **via. O ***tato in*enso com trib** de
*ndios inici*u-se, então, qu*ndo o viajante c*meçou a percorr*r a região c*ntra* do Brasil, a
par*ir de 1824. * mai*r contato co* os índios o*orreu, contudo, n* período *ntr* 1825
e
1832, quando o n*turali*ta **si*ou as re*iõ*s centro-nort* do p*ís.
No Brasil, o nome d* *atterer é referênci* em *iversas áreas das ciênc*as nat*rais,
pri*ci*almente na orn*to*ogia, e é citado por
diversos estu*iosos *omo *a*ural**ta
fun*a*en*al devido às **as descobertas. Afirm*-se, *or exemplo, que "perto d* 1*% das aves
do Brasil que ** c*n*ecem fora* *escob*rtas por Natte*er" (*HERING, 1*02, p.23).
Não f*ltam *ambém elogios ao material levado por Natterer à Áustri*, as*im co*o
à
man*i*a como el* re*lizou seu trabalh* de camp*. * zoólogo brasile*r* Amilc*r Arandas
Reg* (1982) afirm*u que "t*do que se *onhece de helmint*log*a *o B*asil até o sé*u*o XX é
dev*do praticamente
ao ma*erial coletado por Natt*re*". Phi*li* Hershkovi*z (1987),
mas*ozoó*ogo americano, defend*u qu* o
acervo de Nattere* "ap*esentou m*is
*spécies
e
incluiu mais gên*ros do *ue foram reunidos no Brasil por que* quer que seja n*s*e s*culo, ou
em qualqu*r o*tro perío*o". N*lson Papavero (*pud S**A**E, 2000, p.8)
diz que "um
cálculo s*mples mostra qu* ele (Natterer) deve ter preparad* em *édia dua* peles de aves por
dia durante tod*s os dia* dur*nte seu* *8 an*s no Bras*l, *ão cont*nd* dom*ngos e feri*dos,
dia* e*pr*gad*s em viagens etc."
R*v. FSA, Teresina, v. *3, n. 6, art. 8, p. 125-148, nov./dez. 20*6 *ww4.*sanet.c*m.br/*evis*a
Formas *e Repres*n*ação dos Índios nas Cartas de Joh*nn *a*ter*r
129
1.2 As Carta* de Natterer
N*st* a*ti*o é a*ali**do * discurso *o na*uralista austríac* Johann Natterer sobre o*
*ndios bra*ileiros. Para c*mpo* **ta análi*e d* discurso são utili*ados tr*chos das ca*tas
*o
vi*ja*te, nos q*ais e*e se refere aos índ*os. O
conjunto deste m*terial * compo*to de uma
coleção de 23* de cartas. O total de cartas, na* quais for*m encontradas ref*rências sobr* os
í*dio*, é de *5. A primeir* *oi escrita em 8 *e julho de 1820, e a última *oi escrita ** apó* sua
saíd* do Brasil e* ag*sto de 1*36.
Natt*rer trocou cartas co* diversos repre*entan*e* *a p*lít*ca br**ileira, além de
ou*ros **ajantes europeus; leu diversas obras *e viajantes com os q*ais convive* e de outros
*om quem não co*v*veu, domin*va o i**oma po*t*guês e *steve em contato direto *o*
d****sas t*ibos. Observaremos *ambém a *ua*e incapacidade do v*ajan*e (*ssim como outros
viajant*s e*ropeus) d* se **spr*nder "de
sua cultura de or*gem p*r* observar e repensar
a
*opula*ão vi*itada" (LEITE, *9*7, p.**), o que
*era*a conflitos na compreensão do outro
(di*eren*e).
Como membro
*a Expe*ição científi** au*tríaca, Natter*r recebeu as
ins*ruções de
comportamento e p*oced**ento para a realização de sua* "t*ref*s" no Br*sil. Estas instruções
fo*am elabor*das pelo diretor ge**l da Expedi*ão que buscou auxílio e sugestões
de
p*rsonalidades das áreas da* ciências naturais de
vá*ias nações para realiz*r a ela*oração de
um m*n*a*. * *rin*ipa* voz que o*ientou elaboração deste manual foi sem dúvida Jo*an* a
Friedrich Blumenbac* (17*2-1840). Metternich, diretor ge**l da Exp****ã*, escre*e* uma
*arta para Blu**nbach em o*tubro d* 1816 pe*in*o conselhos e s*gestões para a elaboraç*o
da Ex*ed*ção que viria ao B*asil. O na*u*alist*
alemão enviou, e* resposta, um catálogo de
perguntas e d*sejo* que c*ntinh*m qu*stões estat*sticas e *nt*opológicas sobre a p*pulação do
país e que, cert*men**, influencia*am a *ormu*aç*o *a* ins*r*ções de atuaç*o dos natural**tas
no *ras**. Além
di s s o,
h*via o intu*to de divulgar a *xpediç*o e tra*er olhares interessados
pa*a **a do mundo *odo.
Al*m
da infl*ênci* d* Blumembach, Natterer, em sua l*ng*
**rmanência
no país,
es*eve em contato com al*u*as das vo*es que, d* algum*
f**ma, *nfluenc*aram, ou *esmo
estavam *rese***s nos se*s textos (cartas), qua*do o viaj*nte se referia a*s índi*s.
**ntre as principa*s voze* à *poca e que inter*giram c*m o viajan*e, pessoalmente ou
*través de
cartas, ou mesmo qu* apenas
teve contato
atravé* da leitura de ob*a(s) e que
*iveram *ape* de relevante i*port*n*ia na con*trução do pensamento *o *atural*sta s*br* os
índios, destac*: Francisco Ricardo *any, Jo*é Bonifá*io *e Andrada e Silva, Georg *einrich
*ev. FS*, T*resina P*, v. 13, n. 6, *rt. 8, *. 125-148, nov./dez. 2016 www*.f*an*t.com.br/re*ista
*. C. Sant*s, L. B. Montez
130
von Langsd*rf*, Antonio Lui* P*tríc*o da Sil*a M*nso, *ilhelm Ludwig von E*chwege, O
príncipe *aximilian Ale*ander Phillip zu *ied-Neuwied e W*l*elm Christian G*tthelf von
F*ldn*r.
Todos ess*s per**nagens tiveram papel rel*vante no Br*sil do **culo *IX, no que diz
re*peito aos índi*s, seja através de pesquisas sobre *les, seja atravé* da construção da imagem
deles em suas obras ou **nda ** contato direto com ele* em **as vi*gens pelo Brasil.
Na proposta de análise discursiva que se apresenta, *s e*e*plo* seguem uma ord*m
*ronológi*a, pa*a permitir uma observação melhor *e uma possível mudança discur*iva no
*e*t* de Nattere* co* o passar dos anos.
Na*terer não pu**icou nen*u*a obra sobr* sua v**gem ao Brasil, entret*n*o, diversos
jornais austr*aco* noticiaram vinda da Exped*ção c*entífi*a, a
assi* como publicaram
na
íntegra algumas de suas cartas, ou ainda grande par*e do livro oficial d* Expedi*ão, *labor*d*
* or*ani*ado por Karl von Schreibers.
Os pri*cipa*s jornais a*str*ac*s *ue
divulgaram notícias da Ex*edi*ã* au*tría** e
o
*ndamento das *iage** de Natt*rer fora* o W*ener Z*itung (1703-hoje), Wiener *e**schrift
(1816-184*) e a r*vista Isis *on Oken (1817-1848). Estas pu*li*aç*es, além de apresentare* o
maior nú*ero de notí*ias referentes à Expedição, tin*am um* abran*ênc*a e circulaçã* *aior
na r*giã* europeia de lí*gua alemã.
Sobre * material uti*izado n*ste arti**, faz-se nec*ssário destacar ain*a que, *or
*c*sião *os *evantes revoluci*nários ** Vien* em 1848, **orreu a perda de *ra*de p*rt* das
c*rta* ori*inais de N*tte*er. Incêndios, q*e se *lastraram com* co*sequência do bo*bardeio
d*
cidade, destr*í*am parte do Gab*nete Natural da Cor*e (Hofn*turaliencabin*t), sua
biblioteca e pa**e da res*dênc** de trabalh*
do di*eto* Schre*bers. Tal fa*o an*qui*ou grande
parte
dest* d*cum*nta**o his*ór*ca. E* virtude di*so, é *e enor** impor*ância este v*lume
d* cart*s.
**tas cartas encon***m-se h*je no Arqu**o do Estado * da Corte austríaco* (Haus-
H*f- u*d *taatsa*c**v - HHStA), na *eção de Ma*uscritos d* Biblioteca da Cidade e
do
Est*do de V*ena (Wiene* *tadts- *nd *andesbibliothek - W*tLB), n* Bibl*oteca Nacion*l d*
Áustria (Österrei*hische Nationalb**liothek - ÖNB) e no Mus*u de Etno*ogia
d* Viena
(Mus*um für Völkerku*de - MVK).
Dentre as **presentações *os ín*i** nas *a*t** do v*aja*** austríaco, selec*onamos,
para os limites d**te artigo, o tópi*o que aborda
a* descriçõ*s sobre * comportame*to e
o
caráter dos índios.
R*v. FSA, Teresin*, *. 13, n. 6, art. 8, p. 125-148, nov./d*z. 2016
www4.fsanet.com.br/r*vis**
Formas *e Representação dos *ndios nas Cartas de Joha*n Natterer
131
2 *EFE*ENCIAL *EÓRICO
2.1 Práti*a **scursiva e e*nografia
Para a conse*ução
deste artigo foi preciso utilizar uma metod*l*gia de análise
m*ltidiscipli**r *ue *ermi**sse articular aspect*s d* ordem da cultura, da ideolo*ia e d* poder
(como e*nocent*i*mo). Utilizei, para o
este propós*to, *nálise de Dis*ur*o (*D). Assim a
s*ndo, este arti** traz, p**a * discussão so*re a construção discursi*a *os i*dígen**
brasileiros por Natterer, ques*ões *ue
não *e lim*tam ao **m*o da linguagem, mas que
abarcam o campo d* h*stória e d* etnog*a*ia. Com es*a *bordagem *ultidiscip*inar o art*go dá
uma c*ntribuição
a cada uma *ess** **eas em pa*ticular, à Lin*uís*ic* Aplicada,
pelo
inedit*smo de **u enfoque e pelos seus result*dos.
Fazemos uso do concei** de disc*rso ent**d*d*
como a
prátic* da
lingu*gem,
a
p*l*vr* e* movimen**. A linguagem ent*o, e* é,
nossa m*todologia de análise, conceb*da
c*mo "uma *e*ia*ão necessária en*r* o homem e a r*alidade natu**l e soci*l." (ORLAND*,
**01, p.
16) Atravé* d**a
ex**te t*nto a possibilid*de *e continuid*de e permanênc*a, como
também o deslocamen** e a tran*f*rma*ão *o homem e da realidade em que s* vive.
Na
AD, o discurso é o lugar teó*i*o em que se
*ntrincam, l*teralmente, to*as as
grande* *uestões sobre a *íngua, a história, * su*eito. * Análise se reflete sobre a man*i*a
como a linguagem está materializada *a ideo*ogia e como a id*o**gia se manifes*a n* língu*.
*a*tindo da i*eia de qu* a material*dade es**cíf*c* da ideologia * o di*cu*so e a materialidad*
*specífica do disc*rso é a língua, tra*alha a relaçã* língua-*is*urso-ideolo*ia. Es*a relação se
comp*em*nta com o fato
de que, como defe*de M. Pêc*eux
(1988), não há discurso sem
sujeito e não há su*ei*o s*m ideologia: o indivíduo é interpelado em su*eito pela i*eologi* * é
assim que a língua faz sen*id*. É no discurso q*e *amos *bs*rvar a rel*ção ent*e língua
e
ide*l*gia.
Fazem**, em no*sa
propost*
de estudo, u*o *e algu*s co*ceitos oriundos *a A.D.
(Anális* de Discurso) *omo * de polifonia (DUCROT, 1987) que vai se refer*r ao* discursos
nos quais encontramos o viajante *azendo us* d* outras v*z*s e, ao mes*o tempo se
col*cando
em um*
*osição d*
"n*utra*idade" em rela*ão
ao apresen*ado. Nest*s discursos,
muitas vezes, a
p*sição do viajante * omi*id* de maneira conscien*e, uma es*éc*e
d*
ma*ipulação daquilo que se quer *a*ar *om o obje*ivo de atribuir ao outr* sua *ala * a* mesmo
tempo, s* ex*luir do d*to.
Rev. F**, Teresin* P*, v. 13, n. 6, art. 8, p. *25-148, nov./dez. 2016 www*.*sanet.com.br/*evista
R. C. Sant*s, L. B. Mo*tez
*32
Com base no que afirmamo* a *ima, en*ão, s*rá possível an*lis*r discursiva*ente a
**nce*ç** *deol*gic* d* índi* dos textos do viaj*nte, e t*mbém como essa concepção utiliza-
se de certa* form*s d* representação *ue gera*am este*eót*po* postos em circulaçã* no Bra*il
e na Europa. Com o auxílio
da AD
busca-se
*ntender: "como o discurso que def*ne o
í **i o
constitui certos processos *e significação, produzindo o imaginário pelo qual s* rege a nossa
so*iedad*." (ORL*NDI, 1**0 p. *0)
Aq** cabe, por*anto, reaf*rmar nosso posicionamento ideológico e crítico
em relaç*o
ao discurso **stór*co. Defendemos *ue a história está diretamente li*ada às **áticas soc*ais e
*ão ao t**po. A h*stória se estrutur* com base nas r*lações sociais de poder e não n* **mpo
cronoló**co. Ainda segundo Orlandi, (1*9*, p.42) "a r*lação da *ná*ise do discurso com
o
tex*o não é extrair o sentido, mas apree*der a sua h*stor**idade, o que sign*fica se colocar no
interior de um* relação de *onfronto de sentid*s" e de poder. O dis*ur** do viajante so*re os
índios históric*, porqu* se pr*duz em *eterminadas condições * r*lações de dominação é
*
também em um determinado plan* id*ológico uma *oncepç*o de mundo etc.
Alguns *er**s utiliza*os *a AD, que vêm *rigin*lmente da antropologia, ta*b*m s*o
acio*ad*s e funciona*izados na nossa pr**ost* d* análise. Um *ele* é o
conceito *e
civilização, que é vi*ta c*mo a expressã* da con*c*ência
ocidental, sent*men*o nacional o
ocidental. Outro q*e ser*
ut*lizado é *
termo cultu*a,
que está dire*am*nte *igado ao ín*io
*e*tro d*ste discurso
padrão europeu, *ue * vê c*mo um *e* etnogr*fico. As form*s de
discu*so utili*a*as para
def**ir
o
índio soma* estes
dois conceit*s e
criam a d*cot**ia:
europeu (história/ civi*ização) e ** outro lad* o *nd*o (etnog*a*ia/ c*ltura). O europeu, *o se
definir como civilizado criou uma *pos*ção entre ele e o outro, n* **so a*ui, ín*io, não o
civiliz*d*, bá*baro etc.
O objetivo principal deste artigo qu* s* apresenta é colocar em evid*ncia o discu*so do
*iaj*nte europeu, como uma prát*ca soc*al qu*, dentro d* um det*rminado co*tex**, inte*agiu
di*l*ti*a*ente c*m out*as pr*ticas sociais na const**ção da *m*gem (formas de
*epresen*ação) dos índ*os do Brasi* no século XIX.1
1
Os resulta*os apre*ent*dos nest* artig* fa*em parte d* uma ampla pesqu*sa que envolveu as car*as, as
*notaçõ*s e os fragmento* de diário do viajante aus*ríaco J**ann N*tte*er e contou com o a**io da CAPES.
Rev. FSA, Teresina, v. 13, *. 6, art. 8, *. 1*5-148, nov./dez. 2016 www4.fs**et.com.br/revi*ta
Formas de Representação dos Índios nas C*rtas de Joh**n Natterer
133
* RE**LTADOS E DISCUSS*O
3. 1 Comportam*n*o e *ar**er *ndíg*na
O *rin*ipal ob*etiv* *olítico e* r*la*ão aos índios n* sé*ulo *IX era tentar *pagar a
presença (existên*ia) deles, fos*e atra*és da miscig*n*ção, ou a*ravés
do extermín*o. *
discurso sobre os ín*i*s servi*, então, com* estratég*a que **sti*ic*va t*i* *tos contra os
mesm*s. Como
veremos, as d*scrições do v*ajante *erviam par* *emonstrar que o outro (e
não *urop*u), ou s*ja, o ín*io er* um ser estranho aos *l*os do civiliz**o.
Para Natt*re*, muito influe*cia*o *elo **scurs* que circulava no Brasil, os índio* eram
agressi*os, sor*a*e*ros, e também vis*os c**o s*res inconfiáveis. Além disso, em s*a essência
não go*tavam de trabal**r, só da* suas ativid*de* "primárias" pes*ar, ca*ar e dan*ar.
Em seu discurs* ex*ste uma dicoto*ia en**e ca*acidade *ntelectu*l de u* *ado, * força
física ou *abilidade par* *tividades *ráticas do outro. O índio se enc*ntra n* gr*po da*ueles
em qu* pre*omina a forç* física em de*rimento da intele*tual, e ti*o como *nc**az é
e
inferior, qu* ne**ssit* da intervençã* *uropeia para *er
civilizado, mas com*, muita* vezes,
nã* aceitava es*a ação do e*ropeu de f*rma pacific*, havi*, en*ão, a n*cessid*de d* *e in*e*vi*
de maneir*
bru*a. A violência *o europeu para com o índio
era
defendida c*mo ad*issível
através de exemplos d*s at***es dos índios *u emboscadas, o que também justificava o
porquê do europeu es*ar ali naque*a zon* de co*t*to.
*amos apresent*r, então, exe*plos d* *iscur*o de Na*tere* que corroboram esta visão
*urop*ia, e tent** verificar se, naquilo *ue ch*mamos de se*un*a fase de sua viagem, ou *eja,
a partir d* 182*, ocor*eu uma mudança em s*u *iscurso.
Na primeira f*se de *uas viagens, * contato dire** com índios quase não ocorr** e, po*
isso, Natte*er,
e* suas pal*vras repro*uzia o discurs* q*e ouvia *as *essoas com que*
con*iv*a.
*s p*imeiros ex*mplos que *pr*sen*o sina*iz*m *sto de maneira clara, pois são sempre
a*ir**çõe* q*e se referem a aco*teciment*s que po*em ter ocorrido, mas não haviam sido
(ainda) viv*nciadas pelo viaja*te.
As histórias de *taques ou e*b*sca*a* são recorrente* *, qua*do * aus*ríaco estava *m
Ip*nema, na **ovínci* *e *ão Paulo, ao escrever para o irmão tenta tranquilizá-l*, *ois lembra
* ele q*e tinha
*ários cães que * acompanh*m e
*erv** como ala*me para a **egada de
í ndi os .
Rev. FSA, Teres*na PI, v. 13, n. 6, art. 8, p. 1*5-148, nov./dez. 2016
www*.fsa*e*.com.br/re*ista
R. C. Santos, L. B. Montez
134
[...] qu**d* eu for *ntão ** Curitiba *elos *ertões de Lages, ** *es*rto, ond* se *assa
1* a 20 dias sem se *ncon**ar uma ca*a e onde às veze* os s**vag*n* faz*m uma visita,
para desejar uma boa n*ite. *or*m, a* muitas **s**a* viajam juntas e à *oite monta2-se
gu*r** * a* e*pingar*as são c*locadas a posto. Os c*es são então d* gr*nde utilidade.
Os cães serviriam *e alarme, mas ele tamb*m estava prepar*d* e b*m resguardad*
com as espingarda*, que estavam *m ótim* estado. Ve**s que a visão pr*s*nte n*sta *arta do
via**n*e é de, que se o* índios apa*ece*s*m, d*veriam se* *ecebid*s à bala, p*is *epresentava*
perigo p*ra e*e e s*a equipe.
*eguindo viagem pelo sul d* Brasil, Nat*erer escreve* no*amente *ara a irmão, ago*a
de Cu*itiba, * se* di*curso *obre os í**ios cont*nuava o mesm*: "Eu estou agora no ponto d*
vi*gem que v*i pass*r pelo *ese*to de Lage*. As e*pingardas *stã* em bo* e*tad*, c**tu*hos
c*r**gad*s e então e* *ão *emo os selvagens. À no*t* serão mo**adas g*ardas".* *ontinuava
bem armad* para qualq*er possíve* "ataque" dos índi*s, ou **ja, sua postura
perante os
selvagens (*s í**ios)
permanecia * mesma, *ma vez qu* ele não havi* ainda tido contato
diret* *o* eles, seu p*sicionament* era baseado ap*nas na* histórias que chega*am até e*e.
*est* mesma época escreveu ta*bém *ara o *arão de M*resc*al. N*sta c*rta
descobre-se, e*tão, de onde vêm *s inf*rmações sobr* o *eri*o dos índios e *e c*mo lidar
com tal *ituaç**, a**im como qual caminh* seguro a seguir:
Pa*a pod*r
rea*izar a perigosa viagem *elo s*rtão de Lages, por causa *os
numerosos índ*o*, eu precise*, apó* o sábi* con*elho de h*mens expe*ientes, deixar
aqu* até o meu retorno minhas *rand*s e amplas malas, a* quais eu adquiri no R*o de
Janeiro *e* ter con*ecim*nto dos c*minho* no sul ou mesm* no4int*rior, e me*mo
poder trocá-las *or ou*ras pe*uenas de meio pal*o de largura. [...]
Sã* *omens "experiente*" que aconselham o viaja*te a
t*mar *eterminadas
precauções para não ser atacado por índios. Estes hom*ns
expe*ientes
e*a*, em geral,
militares port*gu*ses, que *dminis*ravam *s *ocalid**es que ele per*orria.
Ess*s *ozes rea*arecem quando, *o início de 1821, fazend* *eu *el*to oficial par*
*arl von Schrei*ers, Nat*ere* conta c*sos de ataques de índios e *cre*cent*, p*rém, u* i*em
*ovo, o fato de que *m algumas regiões eles es**va* sob inter*enção *os e*ropeus (branco*)
e, dest* forma, s* tor*ando "*ais esclare*id*s" (aufgekl*rt*r):
Um prin*ipal mot*vo par* que *sta região n*o es*eja a*n*a abastecida de habitantes dev*
ser procurado nas ati*ude* hostis dos sel*agens que destroem toda co*on*zação. Estes
2
3
4
Carta *e 8 de julho de 1820 p*ra Josef Natterer, *S*LB.
Carta de 17 *e n*vembro de 182* pa*a Josef Natte*e*, WS*LB.
C*r** de *6 de nov*mbro *e 1820 para o Barão de Marescha*, MV*.
Rev. FSA, Te*es*na, v. 13, n. 6, art. 8, p. 125-1**, *o*./*ez. 20*6
*ww4.fsa*et.*om.br/r*vist*
Formas de Rep**se*ta**o d*s Índios nas C*rtas *e J*hann N*tterer
135
selvagen* que
em ger*l são document*dos com o nome de Bu*res deve* ser
*as
n*ções Tacataias e Votorons. Eles tornam *s viagens no sertão muito perigo*as pa*a *s
viajantes *ue, por i*so, ger*lmen*e viajam em **quenas caravanas for*emente armado*
e à noite *ontam guardas para *e proteger de ataques. Não obs*ante, não *e *a*sa um
ano se*uer, *o qua* não se fique *abendo de *u*essivas mortes. Há *ois anos, 5 rap*zes
e u* negro, que queri*m ir pa*a o *i* Gr*nde **r **usa do comércio *e mulas, foram
es*ancado* até a mor*e. [...] **sde que se começou a amans*r os selvagens nos estep*s
de Gu*ra*oava que estão em contato com os do sertão de Lages, eles se t*r*aram entã*
tam*ém u* pouco *a*s "e*clarec*dos" (aufgeklärter). Eles r*ceb*ram
c**ceitos
bás*cos d* arm*s de *ogo e agora sab*m que elas sempre pr*c*sam ser carregadas, para
gan*ar tempo, e el*s possam *e**e meio *empo *ar muitos tiros com *uas f**chas. Ele*
**nham a ilusã* de q*e se podiam d*r tantos tiros quan*o se quisesse um após os ou*ros
com as armas de f*g*. Disto agora eles est5ão a*astados. Deve ha*er en*re e*es algu*s
brancos espal*ados que os ensinam de tudo.
**m *s *f*rmações de q*e não ** *assa*a um ano s*quer se* que os *ndio* não
m*t*sse* alg*ém e de que a localidade não era habi**da devido ao ataque const**te de índios,
Natterer assim confirmava que, o que ele descre*i*, na v*rdade, se tratava de histórias *ue ele
ouvia.
*utro *onto q*e c**firma a *nterfer*nci* da v*z de outros *o d*scurso do viaj**te é
quando ele a*irma que os índios em questão - Tac*aias e Vot*rons - eram denominados *e
bug*e*. **ta denominação era *tribuíd* a divers*s nações i*dí*enas que *ão er*m cristãs. A
pala*ra bugre, termo de
origem *rance*a (bougr*), si*ni*icava *erét*co, pag*o, inculto,
selvát*co.
Nattere*, a*nda nesta mesma car**, trazia novas informações sobre os ín**os T*ctaias e
Ka*é6 **e, segundo inf*rmaçõe* *ue chegavam a ele, eram índi*s **e viviam e* guerra:
Os *actaias sã* a *ação mais forte e vivem em guerra com as *utras. Quando em 1770
foi e*pree*dida par* **i a pr*meira expedição por iniciat*va do D. *fonso Botelho,
estabeleceram-se rel*ções
primeiramente c*m os
Kamé, **e se demonstravam
ex*epcionalm*nt* amistosos com os portugueses. Porém, qu*n** estes se *chavam *e*
*egu*os e se desc*idar*m da necessária cautela, os ín*ios mata*am * *es*oas. Pa*ece
que não utilizaram a melh*r maneira p**a e*tabelec*r amizade com o* índio*, po*s após
trê* a*os a exped*ç*o *e desfez po* completo e o governo nã* *inh* conseguido nada de
7
bom *em *ara si e nem **r* os í**i*s.
Nes*e tr*cho da *a*ta para Karl von Schrei*ers é possí*el p*r*eber
tamb*m que
*atterer
ouv*u a "histór*a" destas tri*os *e índios, uma demonstração d* polifon** em seu
discurs* s*bre os índios do Brasil. *lém diss*, *ste recorte apr*senta uma tentativa de atribuir
5
6
*arta de 26 *e feve**iro de 18*1 para K*rl vo* S**reibers, WStLB.
At* mead*s do *écu*o XIX divers*s *e*ominações foram da*as aos **d*os Kaingang: Coroado, Coronado,
Xokren, Guanana, Guala*hos, Gualac*i, Vo*oron, Kamé. Essa v*r*eda**
de *o*es aca*ou
produzindo uma
enorme c*nfusão para os pesquisadores. D*verso* viajante* r**r*du*i*m *s histórias e os nomes da**s ao* índio*
que ouvi*m dos colon*zadore*.
7
Cart* de 26 de fevere*ro de 1821 para Karl von Sc*reibers, *StLB.
R*v. FSA, Teresina PI, v. *3, n. 6, art. 8, p. 125-*48, nov./*e*. 2016
w*w4.f***et.com.br/revis*a
R. C. Santos, L. *. Montez
136
*m caráter perverso a*s índios *ue, após a *entativa de se cri*r laços com eles - o que não *oi
p*ssível, pois e*es ma*aram sete *es*oa* - ac*bou se comprovando, pois est*s eram, s*gundo o
rel*to que ch*gou até o via*ante, seres i*confiáveis e sorratei*os.
E a história d* cont*to entre el*s e os portugu*ses pr*sseg*e no seu rel**o:
Após * chegada do *ei no ano *e 1**9 foi or*anizada *ma segund* expedição. Ela e**
composta de um grupo ** 200 homens com 4 canhões sob o com*ndo d* um tene*te-
coron*l de nom* Di**o. Dois *acerdotes o a*o*pa*ha**m, um vigário, Padre Fra*ci*co
das Ch*gas, e seu *oadjutor, * monge ben*ditino Pedro. O padre Francisco, um homem
ve*erável e **m preparado para o *ar*o,
o qual ain*a se enco*trava p*r lá
c*nstantemente, f*z to**s os e*for*os *ara c**verter com bondade
os **dios,
se
expondo
aos mai*res perig*s, e bu**ando
*costum*-*os a *m outro modo de vida.
Contud*, *á que o comandant* mil*tar *omo* medidas frequentemente muito rigo*osas e
sang**ntas, onde ta*vez ai**a n*o f***em necessá*ias, *ntão apareceram lo*o
*ivergências entre e** e o s*cerd**e, que e*am muit* d*sfavoráveis para o objetiv*. *os
ú*timos
anos o número de índios batiz**os
*ot*lizav* cerc*
d* 20*. *stes
se
es*ab*lec*ram na*
pr*ximidade* d*s
fort*fica*ões; porém,
eles **tornavam
*requentem*nte
para as *lorestas, par* os seus *ares. Queria-se
*on*tru*r uma vila e
nomeá-la de V*la Real, mas a** não se consegu** *ada. Também se tento* estabel*cer
uma comuni**ção com as *i*s*e* que est*v*m no Uru*u*i 8par* abas*ecer-se de gado
de l*; por**, isso n*o teve sucess* desde a primeira tentativa.
Ne*te outro trecho um pouco *ai* extenso, pode-se perc*ber, cont**o, a vo* *o
próprio via*ante quan*o el* cita e c*itica, parcia*men*e, a aç** v*olenta d* com*ndan*e militar,
com a*irmação "onde talvez ela não f*sse *eces*ária". En*retanto, já que N*tterer ut*lizou *
também o te*mo "talvez" n**ta *e*ma es*rutura pa*a *ete*mina* que ele n*o *abia b*m se *la
era
ou não necessári*, o natura*ista, ao mesmo tempo, *eixava tr*n*parecer que conc**dav*
com * uso da forç* e da *iolên*ia, caso elas foss*m, então, necessárias.
Reforçand* o que afirmamos, ou *eja, que o viajante não era contra o uso da força e da
*iolê*cia, é po*sível encont*ar *m cartas de anos que *eguem *ovas referências à nec**sida*e
de se ter sempr* uma arma por pe*t* para se *efender do prováv*l at*que dos índios que
*eriam e*contrados no caminho. Natterer tin*a algumas arm**, *ssim como *eu c*mpanheiro
d* viagem Dominik Soch*r, **s nem to*as est**am boas o* foram tes*adas. **tão, *orque
não *es**-las nos selvagens:
[...] min*as es*ingardas ocupam 4
mal*s, isso é c*rga par* 2 mu*as. Eu só tenho
3
espin**rd*s de pressão em bom estado. A Schroot e Kugel (arma de caça) me serve
co* o uso de minhas *róprias balas, e perten*e ao Sochor; *sta é carregada *om
c*rt*chos, e assim *ão vale muito, pois 9ela espalha ao atirar. Ela ai*da não me foi muito
oportuna, talvez ** Tapajós, nos ín**os.
8
*
*ar*a de 26 d* fevereiro de 182* pa*a Kar* *on *chreibers, *StLB.
Car** de 26 *e ou*u*r* de 1*22 *ara Jo*ef *a*terer, *StLB.
Rev. FSA, Teresina, v. 13, n. 6, art. 8, p. *25-148, nov./de*. 2016
ww*4.fsanet.com.*r/revista
*ormas de Representação dos Í*di*s nas Cartas de *oha*n Na*t*re*
*37
Natte*er *eguia mui*as veze* os conse*hos que receb*a e mudav* o seu tra*e*o para não
enc*ntrar os selvag*ns pel* *aminho:
Daq*i até Di*mantino são 30 léguas. De lá *t* o *ocal de *mbarque n* Rio Preto são
4 légu**. Eu *ui des*co*s*lhado a viajar so*re * rio Gu**oré e * Ma*oré, poi* eles são
per*gos** e não se encontra n*nhum índio ma*so pe*o ca**nho, já que ao *ontrár1*0* no*
(rios) Ari*os, *u*ueba e T*pajós sã* encont*ado* os Apia*á, Munduruku e Mawé.
O caminho recom*nda*o, entretan*o, par* Na*t*rer pas*a*a t*mbém *or alg*mas
tribos, mas que, segundo
se dizia, estas eram mansas. Os índi*s *ram di*ididos e*tre povos
se*vagens, d* um lado, aqueles que não
haviam ** sujeit*do ao co*onizador e ***r*eavam
c*ntra ele, e, do *utro,
o* mansos, os que p*r algum mo*ivo, ou estratégia de s*brevivên*i*
preferiram ficar "sob o ju*go do colon*zado*" ou ao lado dele.
O perigo de *m ata*ue d*s í*dios foi mais uma vez destacado quando Nat*erer con**va
*o Barão de Maresc*al o qu* chegou até *le sob*e * comportamento dos *ndio* Bororo1*:
Os Bo*oro *o Cabaçal são i**iví*uo* tem*rário* (verw*ge*), est*vera* durante muito
tempo a**i nas proximidades, ce*ca de u*a mil*a ao norte e **taram ga*o e c*v**os,
de*tes corta*a* a* *rinas * os ra**s pa*a se*s ornamentos de c*beça. Um va*ueiro
e*c*pou por *ouc*. Eles fiz*r*m uma embosc**a (Hinterh*l*) pa*a el*; porém, quando
o cavalo que ele *o*ta*a s* assus*ou, então, *le a*istou os vizinho* e partiu *m
dispar*da
dali. Contu*o, seu *av*lo caiu em um pânt*no e não conseguia **ir d*ste
local rapidamente, de fo*ma **e os s*lvagens se aproximaram b*sta**e; mas, ele se
salvou *través de uma cor*ida
acelerada *ara a flore*ta, nas *ercan**s. Esta ous*dia
(Kühnheit), e p*rqu* estes mes*os s**vag**s roubaram uma cas* próxim* a 1J*auru,
det*rmino* q*e o gove*** *andasse equip*r uma inc*rsão (*a*deira) c**tra el*s.
A cena d*scrita neste trecho de uma das cartas de Na*terer i*ust*a d* *a*eira clara
o
pensam*n*o que circulava à época no Brasil em relação aos índios e que estava pres*nte
t*m*é* na memó**a *o
viajan*e q*e r*c*n*ava esta si*uação. Alguns termos presentes neste
trecho são s*gnific*t*vos e devem ser destacad*s para que se e*ten** m*lhor o sign*fic*do do
discurs* *o via*a*te. O primeiro del** é "*e*wege*", atribuído aos índ*os. Est* adjetivo foi
*til*zado rec*rrente*ente para s* referi* aos índi*s como seres temerários ou aud*cios*s,
aqueles que *ã* *emem n*m o mais alto risc*, não têm medo d* nada e ninguém e devem, por
*sso, *er temidos. Os índ*os t*mb*m são cha*ados de ousados, *uando Nat*er*r se *efere à
aç*o d*le* como "Kühnheit" (ousadia) * com* fico* claro, e* n*nhum momento os índios
10
1*
Carta de *8 d* feve*e*ro de 1825 para K*rl von Sch*eibers, MVK.
Ao l*ngo d* história, outros nom*s foram usados *ara identif*car ess* povo: Bororos da C*mpanha (*efer*ntes
aos *ue *abit*vam a região p***ima a Cácere*), Boror*s Cabaç*is (aqueles *a região da Bacia do r*o Gua*oré),
B**oros orie*tais * Bororos ocidentais.
12
C*rta *e 16 de jun*o *e 1826 *ara * B*rã* de Mar*schal, HHStA.
Rev. F*A, *eresina PI, v. 13, n. 6, a*t. 8, p. 12*-148, nov./dez. 2016
www4.fsa*et.c*m.br/revis*a
R. C. Sa*tos, L. B. M*ntez
138
re*eberam ou*ra nomenc*atura que não "*elvagens". Além disso, o termo "*interha*t"
(e*boscada) é atr*buído também a*s índios. Assim que ficou em evidência, então, nest* cena
foi a
agressividade e * covardia dos índios. Natt*rer,
após descrever a viol*ncia dos índio*,
a*rescentava *u*, *or isso, o governo se vi* "obrigad*" a realizar uma in*u*são **ntra
os
s*lva*ens. Isso *emonstra novament* que sua fala e*ta*a em **nto*i* c*m ** *os discursos
**inant*s
*o Brasil do séc*lo XIX, a*uele *ue defendi* o*en**v*s contra o* índios. Em
*e*d*de, co*o pod* se* obser*ado, o di*curs*
*e Na*terer apresentav* *ã* ap**as um, mas
vár*os *ont**
de **sta sobre o trat*mento que dev*r*a s*r dis*en*ado *os índios, pois,
a*
circ*lar pe*o *r*si* e receber in*ormações de diversas fontes * opi*iões distinta*, e
ao
v*venciar contato direto com os ín*ios, su* fala ia a*te*nando entre um e outro d*sc*rso, o
demonstrando a *resença e for*a da polifonia em seu te*to.
A man*i*a como sua equipe pre*isava dormir, *r *o ban*eiro ou mesmo b*scar ág**
tamb*m f*i destaca*a n*sta m*s*a ca*ta: "*m algumas época* n*s v**emos em e**ado ** sítio,
por assi* dizer, po*s n**guém ia *uscar *gua se* um acompanhante armado, já que isso era um
pouco distante."13 A* af*rma* **e sua s*tuação se assemelh*v* * um es*a*o *e sítio, *att*rer
tamb*m se colocava numa posiçã* d*f*ns*va perante * (iminente) ataque ou em**sca*a *os
ín*ios.
C*ntudo, e*ta pre*cupação chegou ao ápice du*a*te sua v*agem *unto à sua e*uip*
pel* Cap*tania
do Mato *ro*so n* ano de 182*. Natter*r
c*nta que ouviu t*ros. Mas, como
est* um pouco atrá* *os demais mem*ros, corre assustado para o local, pois acredita que o*
*ntegrantes de sua Expediçã* estã* se*do atacad*s por selvagens:
*lguns minut*s depois eu ou*i o disparo de um tiro, logo em s*guida um *egun*o, um
terceiro e um quart*. Eu impeli os me** cavalos e *orr* *diante dep**ssa com meu
negro, as *spingardas *ront*s, ima*inan*o que os selva*e*s *o Ca*aça* teriam atacad*
minha *ropa. Logo e* os alcancei e *ncontr*i minhas mulas d*spers**, porém não havia
nenhum sel**ge*. Meu pe4*so*l tinh* atirado em uma onça pi*tada e já se ocupava em
co*ocá-*a sob*e uma mu*a.1
Esta cena descrita, que *e a*a*e*ta muito com a de um filme, é bastante s*gnif*c*tiva
no c*ntex*o e demonstra que as r*petida* histórias de ataques *e *nd**s ficara* marcadas na
m*mória do viajant* *ustríaco, e servir** p*ra ilustrar sua mente
até que ele chega*se ao
local *nde aconteceu * verdadeiro fat*, a c*ça e morte d* uma onça. * força *os discu*s**
pre*entes neste trech* são *rovas da polifo**a no texto de Natterer, pois *ste ** *aseav* e*
histórias contada*.
13
14
C*rta de *6 de junho de 1826 para o Barão de Mareschal, HHStA.
Carta de 8 de janeiro de **28 para o Barão de M*r*schal, HHSt*.
Rev. FSA, Teresin*, v. 1*, n. 6, a*t. 8, *. 125-148, nov./d*z. 2016
www*.fsanet.co*.br/revista
*orma* de Representaç*o dos Índios nas Cartas de Johann Natterer
1*9
A*esa* desta narração eq*ivo**da, N*tterer, na mesm* cart*, descreve outra *ituaç*o
que serviria como just**icat*va par* seu equív*co an*erior. E*e continua falando dos í**ios
Bo*oro do Cabaçal e diz q*e:
Já que
*les (o* Bororo *o Cabaçal) no
ano passado mataram l*varam um soldado e
arma*o na *lore*ta de Caiça*a próx*mo à Vila Maria, então, u*ava-se
durante al**m
te*** dois homens a cavalo de Caiçara até Ja*rú, 18 milhas de *istância, c*mo es*olta
para os viajan*es; porém, *ogo se desi*t*u no*amen*e disso. Trata-se
de *ma *ação
i*domável (u5nbändig) e t*merári* (verwe*en) * os Bor*ro da Campanha t*m *uito
m*do deles.*
A mort* do soldado arm*do por um* *rib* de índios que era temi*a mesmo por outra
*ribo just**icar*a
os adj**ivo* que * acompanha* (*nbändi*) "indomáv**"
e (verw*gen)
"te**rária".
E o m*do que Natter*r tinha de *e enc**trar com sel*a*e*s
pel* cam*nho era
constante. A*ém dos relatos ofi*iais que era obr*gado a fazer para Schreibers ele também
tran*m*tia notícias suas do ma*e*ial recolhido para o Barão de Maresch*l, enc*r**gad* d* e
*eg*ci*s d* Áustria, no Brasil. Em u*a *es*as ca*tas para o representante do
governo
au*tr*aco, o viajante deixa dúvidas se irá *onsegui* *hegar ao Pará **mendo por s*a *ida:
Meu* bens resta*tes * materiais
q*e perten*em à
c**eção e equi*ament*s ocupam *5
O tr*ch* acim*
baús * malas e set* bolsas. E* *chei n*cessário co*unica* i*so a vosso ilustríss*mo, *á
que em *ma via*em tão distan*e * cheia de perigos * *if*c*ldades (*ol* S*hwierig*eit
gefahrvollen Rei*e) a1t6ravés de r**i*es h**i*ada* por se*vagens, **nha vida facilmente
enc*ntra-se em jog*.
es*á rico em palavras que dão a *ensação a* le*tor de que o v*aj*nte
*stá rea*mente *assando por uma regiã* ond* ele *orria u* alto *erigo de vi*a dev**o
à
pre*ença do* "selva*ens". O *a*uralista
*ti*izou, po* exempl*, o substantivo Schwierigkeit
(dific*l*ad*) *u*to com *
adjeti*o voll (che*o/a) para se referir ao caminho que faria,
e
*ambém usou o *d*e*ivo *efahrvol* (cheio/a d* *erigo) para qualificar sua viag*m. A ênfase
*o p*rigo era t*nta, que o medo de pe*de* o *eu *aterial, e ta*bé* *u* vida, levou o via*ante
aust*íaco a avi*ar que este era o mot*v* pelo qua* *sta*a escre*endo. D* me*m* *orma, * clara
a posição de auto-pi**ade * também de exaltação *o *ró*rio viaja*te neste tr*c*o.
Foi encontrada uma cart* de Natt*rer que demonstra que seu posicion*mento *m
relação aos índios, até *8*8, er* semelhante ao d*s colonizadores p*rtuguese*. O austr**co
tratava c*m nat*ra*idade a ação do g*verno de atacar os í*d*os. O vi*jante escreveu para um
1*
16
Carta de 8 *e janeiro de 1828 *a*a * Barão de **reschal, HHS*A.
Carta de 10 de julho d* 1829 para o Ba*ão d* Maresc*al, HHStA.
*ev. FSA, Ter*sin* PI, v. *3, *. 6, art. 8, p. *25-*48, nov./dez. *016
www4.fsan*t.co*.br/revista
R. *. Sa*tos, L. B. Mo*t*z
1*0
militar c*efe de expe*i*ões, as chamadas bandeira*, e além *e
no*ear o* índios como
"bugres Cab**i*", pede ao oficial que l*e *rr*nj* o "esqueleto das cabe*as d* alguns deles." 17
Nestas af*r*ações está pres*n*e a con*ordância do naturalista com as práti*as do
go*ern* português, quando ele a**r** qu* se trata de uma prática **nosa, p*rém ú*il para
*
prov*ncia. *ara o *aturalis*a os índios era* parecidos com os animais q*e *le caçava para sua
c*leção; o pedido
que fe* ao mili*ar se
a*seme*ha*a muito p*di*o* que fazia t*mb*m *
a
outros q*a*d* se referia animais. A diferenç* aqui é **e ele afi*ma que os crânios s**i*m a
estuda**s; *os*ivelmente uma referên*ia *o pe*ido de Blumen*a**.
U* fato histór**o, respo*s*vel, inclusive, pela su* saída do Brasil, també* se*vi* de
base p*ra *att*rer ex*o* a agress*vida*e dos índios. A Caba*agem (183*-18*0), revolta
soc*al *iderad* por índio*, foi des*rita pe*o vi*jante em carta escrita a *ordo do na*io inglês
qu* o levou de volta p*ra a Eur*p*:
*esde o a*sassinato do ***si*en*e e comandante *as a*ma* em 7 de janeiro e
a
ocup*ção da cidade pelos í*dios mansos e a* pe*soas de cor *os arredores, * Pará se
torno* um *enário de even*os *angren**s. [...] *s índios armados aume*taram na *ida*e
** para
um número acima de 1000 ho*ens. [...] *ão *uito tempo *epois eles
saquear*m Vigia e assassina*am mais de 100 brancos e *xerceram semelhantes *to* em
o*tras regiões. [...] O combate duro* nove dias; porém, todo dia os ín*ios ganhavam
mai* *erreno, de casa e* **sa, onde eles saqueav8am tudo e matava* os portugueses.
[...] O que restava de portug*eses era assassi*ado.1
A violê*ci* des*rita nesta
ce*a
acima, quando índio* revoltosos to**ram a c*d**e
e
mataram ce**e*as
**
portugueses, saqu*aram casas e
destr*í*am
t*do o *u* enco*travam,
construiu um* i*agem *e d*str*ição sem s*ntido, justi*icando as a*teriores atribuiç*es d* que
os índi*s seria* seres inconf*ávei*, i*racionais e não *ivil*zados. Por outro lado, não há, j*n*o
à descrição da vi*lência, qualquer e*plicaç*o por par** ** au*tríac* *obre *orque e*a
acontecia. *embremos que Na*te*e* també*
não f*z *equer q*alquer *o*entári* sobre os
*iv*rsos *as*acres qu* ocorri*m no Brasil p*r parte do go**r*o con*ra os índios, co*en*a*a
ape*as sob** as
expediç*es que ac*nt*ciam e ainda p*d*a c*â*ios
aos *ilit*re* para
s ua
c*leção. Da mesm* *o***, apres*ntava ju*t***cavas para est*s massacres com *xemplos de
ara*ucas *eitas *or índi*s que atac*v*m *s vi*j*ntes ** surpres* no m*io
da floresta. *
*equência *e palavras associadas à violência
*estas frases do trecho citado a*s*ssinato,
eventos sangre*to*, *aqueavam, com*a*e remete a uma situação de extrema agressividade
e deixa cla*o que o índio *i*ha
atitudes **lvagen* e seu *o**ortamento não era *iviliz*do;
17
18
Cart* d* 17 d* outubro *e 1*28 para José Gome* da S*l**, M*K.
Ca*** *e 12 de novembr* d* 1835 para Karl vo* Schreibers, MVK.
R*v. F*A, Tere*i*a, v. 13, n. 6, art. 8, p. 125-*48, nov./dez. 201*
ww**.fsanet.com.br/revi*ta
Formas de R*presentação *os Índios nas Ca*tas de Johann Nat*erer
141
port*nto, j*s*ifica*a discursi*amente a necessid*de da interfer**ci* e da p*esença do europe*
nesta zona de contato. N**terer om*tia com *sso, na v*rdade, aquilo que já ocorri* em diversa*
pa*tes do Brasil, os a*sass*natos em massa de índios.
Ou*r* ca***teríst*ca in*rínseca dos índios, * qu*l o naturali*t* austríaco vai se referir,
e*tão, confo*me * *ue *u*ia de outras pes*o*s e*a * hábito de fugir. O europeu não conseg*ia
entende* porque o **dio voltava *ara * flore*ta e de*xava a civilização para tr*s.
A fuga *o í*dio para retornar p*ra a floresta foi *lgo que apareceu recorre*temente nos
textos de Natter*r. *ssociado a esta fug*, v*nh*m adje*ivos que tentavam passar * ideia de que
ele o fa*i*, porq*e *ra preguiçoso * tinha di*iculda*e inte*e*tual para ente*de* a* cois*s.
A inata morosi*ade, *espreocupa*ão e pre*u*ça dos a*re*da*os e assim c*a*ados
c*m*r*das, a*sim c*mo tam*ém do *eu próprio negr*, são o* cul*ados par* que *este
m*ment* min**s coisas e a *r*paração devam estar ain*a numa situaç** que não me
*eixa esper*nç*s de partir daq*i *este *ês. I*felizmente eu *enho que vi*e*ciar t*dos
** dia* tristes experiências do q**o pouco se *o*e d*spor de cond*çõ1e9s aqui, *um *a**
ainda *eio-s*lvagem, assim c*mo determinar algo com ante*edência.
*s camaradas alugados aqui são os í*dio* que ele "arrendou" p*ra ser**rem ** guias e
caçarem para ele, como d*ssem*s anteriormente. A culp* d* seus probl*mas f*i a*ribuída
*
e*es e aos esc*av*s. Nat*erer, *u**
demon**ração clara de euroc*ntr*smo, atribuía a c*lpa
a
seus ajudantes p*la demora e longa pe*manecia em *pane*a. O a*vo de *uas pala*ras nã* era
* ó os
"*amaradas" ou o* negr** da na*ão, e*a própria, *nti**lada de "meio-selvagem" f*i
também re*pon*ável p*lo s*u *tr*so. Esse disc*rso euroce*trist* do nat*ralista reflete o olh*r
do *iajante para com a nação v*si*ada.
M*sm* com o pa*sar do* ano*, va**s encontrar o viajante aus*ríaco *o* o *esmo
olhar e* relação aos índios, *uando ao s*rem novame*te cha**dos de *regu*çosos. Qu*nd*
Nattere* estav* no ***o Gross* visit*u uma região
*nd e os
índios Bororos
*ram
do*esticados e, *ntão, coment*u que: "alguns são
encontrados e*tre *s trabalhadores *ue
cuidam d* gado, embor* eles sejam em *eral muito pre*uiço*os"20.
Con*irmando que sua visão *m re*ação aos *ndios não mudou com o passar do tempo,
n*s cartas seguintes, ma** um* ve* o nat*ralista vai se referir ao hábito *e fuga d*s *ndios
como *lgo de sua natureza, algo qu* é *ntrínseco a eles. Após requerer í*dio* par* compor *ua
Expediç*o, para c*çar e **scar, Natterer con*a que pa*ou a todos, *enos àque*e* qu* *ugiram,
"* *ue *m háb*to intei*amente inato dos índio*"2*. O natur*lista enfatizava e *ão deixava é
19
20
21
Carta de 20 d* ab*il de 1822 para o Barão de Mares*hal, MVK.
Carta d* 16 de junho d* 18*6 para * Barão de Mareschal, HHStA.
Ca*ta de *9 de *ete*bro de 1830 p*ra o Barão de Mareschal, MVK.
Rev. FSA, *eresi*a PI, v. 1*, n. 6, art. 8, *. 1*5-148, *ov./dez. 2016
www4.f*ane*.*om.b*/revi*ta
R. C. Santos, *. B. M*nte*
142
dúvidas em sua *tribuição ao *nd*o de um traço *nat*, qua*do fazia uso, para isso, do *dvérb*o
ganz a*t*ri*rmente à expressão hábito *nato (*a*z an*eb*hrene G*wohn*eit). Este advér*io é
utilizado em alemão pa** forta**ce* o sent*do de um adjetivo ou mesmo de outro advér*io, e te*,
na *aioria da* vezes, o senti*o de "muit*", "por comp*e*o", "b*st*nte", ou mesmo "tod*".
Ao redi**r, meses dep*is, se* *elato oficial pa*a *arl
vo* *chreibers, Nat*erer
acres*ent* ainda ma*s detalhes sobre um fato ocorri*o:
Ao meio dia nós pa*timo* e per**it*mos e* *ma *onga ilha, onde à *oite dois de me*s
índi*s f*giram o qu* * um *ábito *n*to *est*s seres preguiçosos, que frequentemente
d*ixam o ch2*fe do n*vio *omple*am*nte sozinho. P*r sorte e*es não me roubaram na*a
das can*as.2
Além d* fuj*es e pregu*ço*os, os índios foram
cham*dos de ladrões, quando *le
*firma que "*or sorte" eles não levara* nada *e suas *anoa*. *stas e outr*s referências aos
há*itos n*o civilizados dos ín*io* *erviram pa*a justificar *s atitudes de c**bate ao í*dio,
pratic*das pelo governo (europeu) português, a*sim com* apagar a presença, o* dit* de outra
*orma, a interferên*ia do e*ropeu no p*ís
visitad*, o* na zona *e *onta**, chamada de terra
"des*o*erta", cujos do*os eram vistos c*mo i*t*usos.
* CONSIDERAÇÕ*S FINAIS
Nes*e bre*e artigo busq*ei co*ocar em *vidência, com exemplos retirados d*s *a*tas
de Jo*ann N*t*e**r e a*rav** do de*taque de a**umas formações *iscu*sivas sobre o* índios, as
estratégias *inguísticas utiliz*das pelo vi*jant* europeu para descrever o* ín*ios d* B**sil, no
q*e s* *ef*re ao comportamento e * ca*áter destes.
*ara isso, fiz uso de conc*i**s oriundos
p*inc*p*lmente da AD. Além *isso, *omo
se
t*atava de *m corpus tex*ual muito espec*f*c*,
*elo *a*o de n*o ser uma ob*a si*temá*ica o
m*u objet* d* análi*e, *re*isei *ambém abordar aspecto* da ordem da cul*ura, da ide*logia *
do po*er (como o et*ocentri*mo). ***ou desta fo*ma,
ev*den*e *ecessidad* d* *ratar este a
as*unt* com uma metodolo*ia interdisciplinar, fazendo uso, t*mbém, de ou***s b*ses teóric*-
metod*lógicas comple**ntares, qu* possibi*it*ram
uma e*iden*ia*ã* dos re**rsos
dis*ursiv*s *tilizad*s pe*o naturalist* em *ua construçã* d* i*agem dos indígenas.
Como visto, J*han* Nat*e*er, (re)apresentou e *eforçou em s*as carta* o discurso,
rei*a*t* sob*e os *n*i*s no Brasil, principalm*nte os **e *t*ibuía*
** índio a*jetivações
pej**ativas com* *nd**e*te, preguiçoso, tr*içoeiro, **culto, vaga**ndo, sem cultu*a etc.
22
C*rta de fevereiro de 1831 par* K*rl von Schr*ibers, MVK.
Re*. FSA, Te*esina, v. *3, *. 6, art. 8, *. 125-14*, nov./de*. 2016 www4.fsane*.com.br/r*vista
Fo*m*s *e Represe**a*ão d*s *n**os n** Cartas de Johann N**ter*r
143
E*tretanto, em *ua* est*at**ias discursivas, o *iajante bus*ou se p*sicionar, em alguns
momentos, com* figur*
*eutra. *att*rer se omite *m s*as cartas, ao atribuir aos ou*ros (aos
discursos que c*egav*m at* ele) a* opi*iões que a*resenta ao* seus leitores *ob*e o tratamento
dispensado ao* índio*, as*im como as qualifica*ões pejorativas dos mesm*s.
O q*e se pode *oncluir, com b**e nestas estratégias, é
**e, como re*resen*ante da
b*rg*esia euro**ia, o naturalista
*ra, na **rdade, simpático as p*áticas
de então em r*lação
aos ín***s, pois se via como su*e*ior perant* estes.
Em seu dis*urso N*tterer assum*a, discursivament*,
um* pos*ção
de sobrev*vente
d**nte daquelas adversidades e diante dos po*os selvag*ns * *ncultos que encontr*u aqui
incl*em-se t*mbém, *s negros e m*smo os *rasi*eiros em geral. Para o naturali*ta, n*o
*omente o* índios eram os selvagens, a p*ópria nação vi*itada, o Brasi* como u* todo,
ta*bé* * *hamada de selvagem.
Além destas descriçõe* const*nte* de um p*ís sel*agem, Natter*r também valoriza
suas
atitudes
de líde* e chefe d* Expe*ição, omit*n** a participação fund*mental dos í*dios
em sua e*ui**, se* os qu**s e*e não t*ria consegui*o percor*er toda a v*sta reg*ão do Brasil
que vi s i * ou,
nem
ob*e* grande part*
dos *n*mais e objetos que colet**; sua *xpedição não
*on*e*uiria, na verdade, o grande ê*ito qu* teve sem a ajuda d** índios.
O di*curso do v*ajan*e, predo*inantemente nat*ralista, estava carregado também de
va**res (id*ológicos) euro*êntricos. A Expe**ç*o científica austríaca estava vincu*ada a
*m
projeto mais a*pl* po* pa*te do govern* austría*o q**, em associação com a h**tó*i* natu*al
(o discurso naturalista), "re*p*ldav* o inte*esse dos im*érios e*ro*eus" (FERRE*RA, 2006).
A criação da Expe*içã*
dava vida ao poderio imperial e *s *tividades básicas, *omo
c*let*r
*spé*imes e classificá-las de*on*trav*, també*, a supr*mac*a d* um Est**o *mpe*ial
(colonizador).
C*m o i*tuito de fo*talec*r a def*sa de outro olhar para os índios, valo*izan*o su*
*istóri* e cultura, este *rtigo
dá v*z tam*ém àqueles
que de*end*m uma historiog**fia mais
atu*nte e que *nclua os índios. Não coube ao present* *exto discutir a qu*stão da hi*toriografia
sobre os *nd*os - para is*o recom*ndam** alguns trab*lhos q*e tratam da que*tã* d* *aneir*
amp*a e objeti*a **mo Pinheiro (***9), Bessa F*eire (2000) * Moreira (2012). Resta afirmar,
porém, que, apesar do m*ito que tem sido feito para se va**riz*r e *ar a devida im*ortância ao
índio e ao seu papel na históri*, ainda é possível encontrar *bras recentes, ou *tuais, que
os
excluem, ou praticamente os *nulam di*cursi*amente na *o**t*ução de n*ss* hist*ria, de*de a
"de*c*ber*a" do Bra*il pelos europeus.
Rev. F*A, Teresina *I, *. 13, n. 6, art. 8, p. 125-148, n*v./de*. 2016 www4.f*anet.com.b*/revist*
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SANT*S, R. C; *O*TEZ, L. B. F*rmas *e Re*r*sent*ção dos *n*i*s nas Cartas de Johan*
Na*terer. Rev. FSA, Teresin*, v.13, n.6, art.8, *. 12*-1*8, nov./*ez. 2016.
Contribuição dos Au*ores
R. *. Santos
L. B. Mon*ez
1) con*epção * planejamento.
X
*
2) análise e int**pretação *os dados.
X
*) elaboração do r*s*u**o o* na revisão crític* do **nteúd*.
X
4) p*rticipa**o *a *provação da ve*são final d* manuscrito.
X
X
Rev. FSA, Ter*sina, v. 1*, n. 6, art. 8, p. 125-148, nov./dez. 2016
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