www4.fsane*.com.br/revista
Rev. FSA, Teresin*, v. 12, n. 4, art. 9, *. 142-157, jul./ago. 2015
IS*N *m**esso: 1806-6356 ISS* E*et*ônico: 2317-2983
*ttp://dx.doi.*rg/10.1*819/2015.12.4.9
A Narrativa Jornalística Te*temunh*l Na Memória Da Condor
The Testim*n*al Journa*is*ic Nar**tive In The Mem**y About Cond*r
Maria Jand*ra Ca*a*canti Cun*a
Doutora em L**guís*ica do pel* Lan*aster *n*versit*
Professora na Unive*si*ade de Brasília
***il: jandac*unha@gmail.com
E*dereço: Ma*ia Jandyra C*valcanti Cunha
U*iv*rsidade de Bras*lia, Facul*ad* de Comun**ação, Pr*gr*ma de Pós-gra*u**ão em Com*nicação, Campus
D*r*y Ribeiro, *EP- 70910090 - *rasília, DF - Brasil.
*dit*ra-chefe: Dra. M*rle*e A*aújo *e Carvalh*/Fa*u*dade Sant* Ago*tinho
Artigo r*cebido em 02/05/2015. Última vers*o recebida em 30/*5/*0*5. *pr*vado *m 31/**/2015.
Avaliado pe*o *iste*a Triple Re*iew: a) Des* *e*iew pela Editora-Chefe; e *) Doubl* B*ind
Revie* (*v*lia*ão cega p*r dois aval**dores da *rea).
Rev*são: Grama*ical, *ormativa * de Forma*ação
A *arrativa **rnalísti*a Testemunhal *a Me*ó*ia Da Condor
143
RESU*O
*este es*udo, ent**laçam*s os conceitos de \verd*de fac**al\ (ARENDT, 1972),
\acontecim*nto\ (RIC*R, 2007) e \memória coletiva\ (*ALBSW*C*, 2006), part*ndo do
pri*cíp*o *e
qu* os jornalist*s são historiadores d* presente (*ILV*, 2*11) que *stes, e
da
mesma forma *ue o histor*ad** que se d*bruça *ara o p*s*ado, d*ve buscar a \verdad*
fac*ual\ (ARENDT,
1972). *omo unidades de a*á**se,
*tilizamo* os livros As *arr*s do
Condor (2*03) e Operaç*o Condor. O sequestro dos urug*ai*s (2*08), dos jornalistas Nilson
Ma*iano e *uiz *láudio Cunha, respectivam*nte. O tema d*s du*s obras é a *peração
Condor, o sistema repr*ssivo que **sombrou o Cone Sul particular*e**e e*tre 1975 * *980.
*al*v**s-chave: Ve*dade f*ctual. Ac*ntecimento. *e*ória co*etiva.
ABSTRACT
In this st*d*, w* entangle th*
concepts of 'fac*u** t*u**' (ARENDT, 1972), 'e*ent '
(RICOEUR, 2007) a*d 'c*llec*ive memo*y' (HALBSWA*H, 2006), a*suming that journalists
are historia** of the present (S*LVA, 2011) and that they, as t*e *istoria* who focus*s *n *he
past, should seek the factua* truth. We *s*d as units of analyse* the boo*s. *s garras
do
Condor (2003) an* Ope*ação Condo*. O s*questro do* uruguaios* (2008), wr*t*en **
jou*n*l**ts Nils*n Ma*i**o an* Lui* C*áudi* Cunh*, respectiv*l*. *he them* of the *wo
work* *s
*he Operati*n Condor, the repressive s*stem that haunted the Southern Con*,
between 1975 and 1980, in par*icular.
Keywords: Factual truth. Ev*nt. Col*ective memory.
Rev. FSA, *eresina, v. *2, n. 4, *rt. 9, p. 1*2-*57, ju*./ago. 2015
www4.fsanet.co*.*r/re*ista
M. J. C. Cu*ha
144
1 INTRO*UÇÃO
Este estudo é produto de um projet* *e pesquisa sobre n*rrativas jornalíst*cas
da
*istória do Tempo P*esentei publicadas em livros. *nfocam*s, em *articular, duas narrat*vas
que *asceram co*o \reportag*ns
de *mers*o\, com d*talhada
apuração, inte*sa
pesquisa em
arqu*vo* e muitas entr*vistas: As
garras do C*ndor (2003), de *ilson Mariano, * Operação
Cond*r. O sequestro dos ur**uaios (2008), de *uiz Cláudio C*nha.
O tema-chave das du*s *arrat*v*s é a Operação Condor (e* espanhol, *lan Cóndor,
Operat*vo C*n**r), o sistema secr*to de i*formaçõe* e ações *ormalizado na cidade
d*
Sa*t*ago *o Chile, em *975,
dois anos apó* o g*lpe d* Estado que d*rr*bou p*esident* o
s*cialista Salva**r Allend*. *m encontro a co*v*te da temív*l
Di*eç** de Inteligência
*a*ional (DINA), o órgão centra* de repressã* da ditadura c*ilena, re*resentant*s o*ici*is dos
*stados milit*rizad*s da região
do Cone S*l ame*ic*no - i*icialmente *rgenti*a, Bol*v*a,
Brasil, Chi*e, *ar*g*ai e U*uguai e, ma*s tarde, ta*bém o Pe*u e o Equad*r - concordaram
em compa*tilhar dad*s de inte*igência com o auxílio t**nológico do* Estados *nidosii, e
também realizar, de forma c*operativa, *peraç**s e*traterritori*is de se***stro, t*rtura,
ex*cução e desaparec*ment* f*rçado d* o*os*tor*s pol*t*cos exilados.iii
Ambas as obras a*alisadas são n**rativas testemu*hais sobre a *per*ção Co**o*
e,
por isso, d* grande im*ortância na con*tr*ção da memória social que s* com*çou a ed*ficar
no Bra*il com
os tr**alhos d* Comissã* Nacio*al da Verdade (CNV), criada para ap*rar
e
e**larecer as g*aves v*o***õ*s *e dir*i*os hum*nos, indican*o as *ir**nstâncias, *s locais e a
autoria, entre 1946 e *98*, pe*íodo entre as duas últimas co*stituições *emocráticas
brasile*r*s.i*
No e*tudo, entre*aç*
os c*n**itos de \verdad* f*ctual\ (ARENDT, 1972), co* os
de
\acontecimento\ (*IC*U*, 2007) e \m*mór*a coletiv*\ (*AL*S*ACH, 2006). Pa*t* do
princípio de qu* o jo*****sta é um *istoriador do Tempo Pr*sente (SILVA, 2011) e que este,
da mesma for**
que o histo**a*or
que s *
debruça *ar* o pa*s**o, deve *u*car a ve**ade
factua*.
Rev. FSA, Teresina, v. 12, n. *, art. 9, p. 142-1**, ju*./a*o. 20*5
www4.fsanet.com.b*/revista
A *arra*iva Jornalí**ica Testemu*hal Na Memór*a Da Condor
*45
2 *EF*R*NC*AL TEÓRICO
2.1 A v**d*de factual
No e*s**o \A Verd*de e a *olí*ica\, a ci*ntis** p*lítica ale** Hanna* *rendt relembra
a ane*ota que *nv*lve o Prim*iro Ministro fr*ncês, Georg*s Clemencea* (1*41-*929) *m e
repre*enta*te da Repúbli** d* *eimar s*bre a culpabilida*e da Al*man*a na eclosã* da I
Gu*r*a M**dial (*914-1918). Clemenceau, a* ser *erguntado - "O qu*,
e* sua *pini**,
pensarão o* histo**ador** futuros *o*re *s*e tema espinhoso con*roverso?", - respond**: e
"*sso e* nã* sei, *as *enho certez* de *ue *les nã* dir** *ue a Bélg*ca invadiu * Ale*anha".
Ele se referia ao fato de a Alemanha ter inv*dido * Bélgica, antes da eclosão da I *uerra
Mundial. A certe*a de Clemenceau vinha *e fatos: n* verão europeu (ago*to) ** 1914, as
*r*pas al*mãs efe*ivament* in*a*i*am a
n*utra Bél*ica *a*a
ata*ar a França, seu ob*etivo
maior (TU*HMAN, **94).v
"A **r*ade **ctual", e*c*eveu ai*da Hannah Arendt (*97*, p. 29*), "re*acio*a-s*
sempre com outras pessoas". Os eve*tos * *i*cunstâncias da*u*le períod* *onhecido como \o
e*tupro da Bél*ica\ envolveram **itas pe*so*s (*UCKE*MAN, 200*) qu*, s* não
esc*everam, contaram, r*passan** a outro* * comp*ometiment* é*ico e pol*tico de reg*strar o
qu* o f*lósofo fr*ncês Pau* Ric*r (*0*7) denomi*ou como \mem*ria o*rigada\.
De acordo com Arendt (19*2, p. 295), a verd*de *act*al "é *stabelec*da por
*este*unhas e depende de comprovação; exi*t* apenas na med*da em que se fala s*bre el*,
*esmo *uando ocorre no *omí*io da i**imidade"
(grifo nos*o). No *aso das **ões da
Opera*ão Condor, h* testemunho e c*m*rovação da e*ist*n**a da part*cipação brasilei*a
nessa ali*nça p*lí*ico-*ilitar entre *s go**rno* autoritários d* Cone Su*. É pre*iso ap*n** que
se fale mais sobre essa organização cri*inosa, que *gia à mar*em da *ei.
É possí*e* que, *o futuro, o* histor*ad*res n** pos*am traduzir * dor e * dr**a dos
h*r*ores come*id*s pela Operação Condor, mas a verdade factual é **e *ssa alian*a
*ntre
*stados repressore* perseguiu, pr*ndeu, *o*tur**, a*sassinou ou for**u o *esaparec**e*to *e
*ilhares *e di*s*den*es po*íticos.
N* histó*ia oficial, a particip*ção brasileir* sempre f*i negada pela* autorida*es
milit*res. Afi**l, como lembra Ar*ndt (*92, p. 298), "a ve*dade tem caráter *espótico"
e
a*resen** uma força coerciva que os tiranos não podem dominar a nã* *er co* men*ira*. Para
existir, "os fatos não pre*isam d* consentimento dos ditadores" e foi s*m a s*a a*tor*zaç*o,
Rev. FSA, *eresina, v. 12, n. 4, ar*. *, p. 142-***, jul./ago. *015 www4.fsan**.co*.br/revista
M. *. C. Cunha
146
m*s com o testemun*o de jornalista*, que dois ac*ntec*mentos trouxe*am à tona a *erd*de
sobre o en*olvimento *o Brasil na Cond*r.
2.2 Acon*eci*ento 1
Em jornalismo, *rabalh*-se **m a *ategor*a d* \acontecimen*o\ qu*, para Paul Ricur
(20**, p. 190), é "aquilo sobre o *ue *lguém dá testemunho", o qu* se tor*a uma pis*a a *er
perseguida. * te*mo \pista\, do jargão jornalístico (* polic*al), a*a*ece c**o \rast*o\ *a o*ra
traduzid* *o filósofo francês. O r*st*o é mais do que um vestí*i* deixado
por onde algo
**
a*g*ém passou, * * indíc*o de uma presen*a. E*tretant*, é também um* marc* que pode ser
apagada. Por isso,
há premência no registro d* ve*dade *actua* e *a constr*çã* de uma
memória soc*al.
A Ope**ção Condor agia n* c*andes*inidade, fora *o comando f*rmal d*s Forças
*rmadas, embora coo*den*d* po* elas. Tinha p*r *rática d*saparecer com seus se*uestrados,
sem deixar ra*tr*s.
Co* um* envergadu*a bem maio* do qu* os três metros de comp*ime*to das asas da
ave tr*di*ional dos *nd*s que lhe deu o nome, a Operaç*o Cond*r contou com a participação
dos ser*iços de inteli*ê*ci* e das forças de re*re*são de tod*s o* países
do C one * ul , o q**
l** permitiu cobrir milhares d* quilômetros pa*a fazer suas presas, chegando at* ao* Estados
*nidos, onde causou a morte, em 1976, *o ex-cha*cel*r chile** Orl*ndo Lete*i*rvi exi*ad* em
W*shington.v*i
Como a *v* pr*dad*ra
da
família dos *butres e urubus *ue tem a visão aguçada
e
loc*l*za à *istânc*a os *nima*s mortos
*e que se a*i*enta, a Operação Condor transpôs
*ro*t*ira* e ultrapassou l*mites, violan*o l*i* pa*a tr*nsf**ma* em \carniç*\
os d*ssidentes
polític*s - entre eles, os Tupamaro* *ruguaios, *s Montoneros a*gen***os, os
mem*ro*
do
Movimiento de Iz*uierda *evolucion*ria (*IR) d* Ch*le e de d*fere*tes grupos de esqu*rda
brasileiros (MAR*ANO, op. c*t.; CUNH*, op. cit.).
Também como o pá*saro que é considerado a maio* ave de rap*na do mundo, a Condo*
foi a maior
or*ani*açã* de t*rror de Est**o que o mundo já *iu: agiu sistematicamen*e
durante l**go t*mpo (1975-*981) em dife*en*es cont*nentes (*méricas do Sul e do No*te,
e
Europa).
Refe*ida co*o \**rc*sul *o Ter**r\ (MARIANO, op. cit.; C*NHA, **. cit.),
a
Condor operou de três maneiras, à* vezes simultâneas. * primeira fo* a formaliz*ção de troca
d* i*formaçõe* entr* *s serv*ç*s de in*eligência, com a criação *e *m ****o de d*dos sobre
Rev. FSA, Te*esina, v. *2, n. *, art. 9, p. 142-157, jul./ag*. 2015 *w*4.fsanet.com.br/revista
A N*rr*tiva Jor*al**tic* Testemunhal Na Memória *a Con*o*
147
pessoas, organiza*ões e a*ivid*des de oposi*ã* ao* *over*os d*tatoriais. A segunda foi
a
operação con*unta *os países e a t*oca de *risioneiros, c** os *gentes da repr*ssão local
envo*vidos na localização e pris*o de o**sitores caçados por governo* e*tra*geiro*. A terceira
maneira, a mai* arrojada, *oi a
execução e aten**dos fora do *one Sul. Sempre sem
testemunhos, sem co*provações, sem rastros.
Doi* acontecimentos, revela*os na narrativa jornal*stica, *rouxeram à lu* o* r***ros *a
pa*ticipaç*o do na Operação Condor:
2.3 Acontecimento 2
Embora *pe*asse secretamente, a pr*se*ça da Condor em território br**ileiro ****u
*rimei*a*ent* registrada, e* *ovembro d* 1978, qu*ndo o Br*si* ensaiava uma d*stensão
política. A long* ditad*ra *ilitar brasilei*a já dura*a *uator*e anos, mas ainda *e manteria por
mais sete.
Ainda assim,
n* meta*e daq*ele an*, o
go*erno cessou * control*
do* três últimos
jornai* censurados do país: O Esta*o de **o Paulo, Trib*na d* Impr*ns* e * S*o Pa*l*,
semanário da *rquidiocese ** São Pa*lo, o **ior bispado *atólico d* continente. No p*imeiro
*emest*e recomeçaram as greves
no m*i** centro op*rário *a Améric* do Su*, o *BC
paulista, sede das maiores *on***oras automobilísti*as do
paísviii. Só no ú*t*mo dia da*uele
an* foi re*o**do * Ato Inst*tucion*l No.
5, restaur*ndo-s* * *nstitu*o do habeas
corpus e
*uspende*do a censuraix. (C*NHA, 20*8)
**sse contexto, na t*rde de *7 *e novembro de 19*8, na suc*rsal da re*ista Veja em
Porto *legre, o jornalista Luiz Clá*dio Cunha é alertado por um t*lefonema anôni*o sobre *
desapa*eci*ento de um casa* de ur*g*aios e du*s crianças. Acompanha*o *elo fot*graf* Jo*o
Batista Scalco, *unha dirige-se ao en*ereço *ndicado - *m a*artamento térreo em um *difício
*ocal*z*do no Men*no Deu*, um
b*irro de classe média na *a*it*l gaúcha. L*, eles
*ão
ren*idos por policiais armad*s q*e os mantive*a* sob a *ira de r*vó*ver*s.
Esse acontecimen*o tornou-se uma pis*a para a invest*gação jornalíst*ca que Cunha
em*r*enderia pelos d*is anos segu*nte*, descobrin*o que, ** fato, o que ele e Scalco hav*am
presenc*ado er* *m seq*estro em andam*nto, com o apart*mento de dois ativistas do Partid*
por la Victória *el Pueblo (PVP) transformado em seu próprio cat**eir*.
* verdade factual é que, c*nt**rian*o as leis internacionais, militares uruguaios - com
o consentimento d* ár*a *e in*eligência do E*é*cito bras*lei*o e a cumplicidade de agentes
poli*iais do DOPS
gaúcho - haviam ent*ado il*g*l*ente no Bra*il *ara prender, tortur*r
e
Rev. FSA, Te**sina, v. 12, *. 4, *rt. 9, p. 142-15*, jul./a**. 2015
www4.fsanet.com.*r/*evista
M. J. C. Cunha
148
sequ*str*r dois dissidentes políti*os, o e*tudant* de medi*ina Universindo Díaz Rodríguez e a
professora Lilían Celiberti. Os fi*hos de Lilián, Camil* (8) e Fran*es*a (3), ini*i**me*te n*o
eram alvos, apesar de também tere* sido *equestrad*s.
O q*e o* d*is jornalistas presenciara* foi *m *to *om ca**ct*rísticas que *ais
t**de
seri*m identi*ic*das em *odas as fases da Operaç*o **ndor: (i) natureza m*lti*acional, co* o
sequestro
incluindo ag*nt*s t*einados em dois países (*ruguai e B*asil); (ii) açã*
transfronteiriça, porque os ag*ntes *rugua*os u*ilizaram os a**ratos de *nte*igência do paí*
parceiro (Brasi*)
e de sua rede r*pressi*a para vi**ar, seques*rar, torturar e trans*adar
*po*e*tes
p*lí*icos exilados (Lil*án e Uni**rsin*o); e (iii) e**rutura paraest*ta*
de
f*nc*onam*nto, *orq*e toda a aç*o de *m Estado paral*lo a*onteceu cland*st*namente,
à
marge* da lei.
2.4 A*ontecimento *
O *ontexto do seg*ndo acontecimento *ão as p*imeiras eleiçõ*s presidenciais
par**uaias o*orri**s em 1993, ap*s
os 3* ano* da dit*dura
do gen*ral *lfr*d Stroessner
(1954-19*9). *nvi*do p**a cob*ir * eve*to para o jo*nal *ero Ho**, o repó*ter Nilson
M*riano *ncon*r**a-se em Assunção, o*** teri* um encont** indireto c*m a Condor.
No final d* ano an*er*o* (dezemb*o/**92), na pequ*na cidade *e Lambaré, a
*0
quilômetros da capital par*guaia, *s arquivo* *a polí*ia *olítica do ex-ditad*r hav*am
s i *o
localizado*.x E*quanto Mariano es*ava em Assunção, aq**les documentos até *ntão sig*losos
*omeçaram * ser
abertos. Ent*e eles, "encontra**m-se evidência* da co*p**açã*
g*v**nam*nta* [**raguaia] para caç*r adversários político* *lém-fronteiras". *onfirmavam-
s* as denúnc*as de fa*iliares de v*timas e dos que sobrevive*am ao "terrori**o continental"
Acredit*ndo
na impunidade, os chef*s mi**tares p*raguaios preservar*m seus arquivos,
enquant* "os outros parce*ros *a Opera*ão Condor queim*r** ou fecharam * sete chaves
seus arqu*vos" (MARIANO, 2003, p. 237-238). No acervo havia documen*o* que revelariam
* que até então ** e*co*ria: a **laboração do Brasil c*m a *itadura paraguaia, a mais l*nga
n* Cone Sul. Aqu*le era o *a*tro, a pista que o repórter segu*ri*.
Em 1993, Nilso* Ma*i*no escrev*u para o seu jo**al sob** a *olaboração d*s
aparelhos repressivos
*o *ara*uai e B**sil. Dois anos depois, em 1995,
ele *ez
o*tra
re*orta*em sob** a *erança dos regimes de Segurança Nacio*a* do Cone Su*.
Maria*o (*003, P. 310) *x*lica que, e*bora a ditad*ra paragu*ia tenha c*meçado 10
anos antes d* bra****ira, foi o *rasil "o grand* pre*ep*or na América do Sul, po* ter ap**cado e
Rev. FSA, Teresina, v. 12, n. 4, *rt. 9, p. 142-157, jul./ago. 2015 w**4.fsane*.com.br/r**i*t*
A Narrativa J*rnalíst*ca Tes*e*un*a* Na Memór** Da Condor
149
me*ho*
entendi*o a Doutrina
de Segurança Nac*ona* (DSN) co*o *ór*ula de reger
os
de*t*nos da naçã*". A DNS havia si** criada *epois da ** *uerra Mundia*, n* *ont**to
d*
Guerra Fria, para *on*er o avanço d* bloco comunis*a e forçar os países neutro* * aderir*m *
lad* ca*italista.
Para esse segundo t*abalho, o jornalista viajou por p*í*es do Cone
* ul onde
ent*evistou ex-pre*os político* * familiares
de m*rtos e desaparec*do*, entr*meando os fios
para tecer uma n*r*ativa sobre a existência de uma organi*ação d* terror de Esta*o, * *ondor.
As histó*ia* orais * *e*temunhos *olhidos *or Mariano *oram va**oso* p*rque, nos anos *990,
* te*a da Condor era
pouc* *xplorado na impre*sa brasileira e p*ucas
pessoas *abiam d*
ex*stência daq*ela a*iança entre os go*er*os do Cone Sul.
A narrativa jor*alísti*a de Mariano, assim como a de Cunha, trazia a verd*de *ac*ual
que Arendt diz ser estabelecida por tes*emunhas, de*endend* *e comprovação. A
partir dos
*no* 1990, a comprov*ç*o vir*a i*icialmen*e com a a*ertura dos Ar*u*vos do Ter**r e, lo*o,
durante o *overno Cli*t*n (1993-*001), *om a desclassifi*ação do pri*eiro pacote
*e
do*umentos
confidenciais dos
Estados Unid*s
so*re suas ações no Cone Sul à época
da
xi
doutrin* de Segura*ç* Naciona*. E*tre esse*,
surgiram nov*s evidênci** de que Br*s*l o
ef*tivamente ti*ha laços de co*exão rep*essiva com o Paraguai e tamb*m com outros
gover*os a*to*itários do Cone Sul.
2.* Testem*nh*
Em *at*m, testemoniu é a declaração d*d* po* uma pess*a que assistiu (viu e/ou o*viu)
* aco*t*cimento. Aque*e q*e dá seu t*stemun** - que, em ju*z*, é considera*a uma prova do
que efet**amente ocor*eu - é o terceiro (*estis), * des*mpate da questão. Também aq*e*e que
s*fre* os efeitos do a*ont*cimento e a el*s sobr**ive* (s***rste*) é ig*a*ment* considerado
uma t*stemu*ha.xii
Em 2008, quando publicou o livro Operaç*o Con*or: * sequestro dos u*uguaio*,
Cunha n*rro* de*alhadamente aconte*iment* que o
testemunhara trinta anos antes e q*e já
registrara na cobertura jo*nalí**ica feita para a revista Vejaxi*i durante "630 dias, quase 21
meses, cerca de dois anos d* árdua investi*ação", e*tre *978 e **80. (*UNH*, *008: 19). O
j*rnalista *ue no passado já denunciara na revista a
ação
combinada en*re as forças
r**ress*ras do Uruguai * do Brasil, um fato sempre negado pe*as aut**idades mil*tare* de um
e **tro p*ís, podia agora, em um *egime democr*tico, enriquecer em livro sua r***rtagem. As
me**iras que, como nos lembra Ar*n*t (1972, *. 312), "abri*am *m
germe de violência"
Rev. *SA, Teresina, v. 12, n. 4, art. 9, p. 142-157, ju*./ago. 2015
w*w4.fs**et.com.br/revist*
M. J. C. Cunha
150
que
agora podiam se* desmascar*das. Perseguindo os *astros da Condo*, Cu**a descobriu
"al*umas conversas difíc*is naq*ela é*oca
fi*aram menos complicadas, *e*obstruídas
pelo temp*,
ponderadas pela distância, de*ur*das pelo fil*ro da hi*tória e lapidadas pe*a c**sciência
*e
t*dos" (CUNHA, 2*08, p. 22).
*oi então que, entrevistand* m*li*ares e *iv*s, policiais * vítimas, gente do g**ern* e
*a oposição, *uto*idades dest*cadas
e figuras modes*as, C*nha consegui*
com
o l*v*o
aprofundar sua
inve*tig*ção. Tanto militares quanto pa*sano*, me*bros do
g*verno e da
op*sição, pessoas *mp*rta*tes e figur*s m*d*stas *uderam falar com mais desenv*lt*ra.
N*vas e*t*evista* foram feita* para que d*dos foss*m *everifica**s e reexaminad*s, com
personagens i*esperados *end* *uvidos, surgindo assim as "*eças que **ltavam na *o*ta*em
do qu*b*a-ca*eça da investig*ção" de trinta anos antes (CUNHA, 2008, p. 22).
*end* constatado que o seque***o do* urug*aios era uma açã* c*or*enada, binational,
Cunha remontou para o livro *m* reportagem in-depth, cuja pr*fundidade e*igiu *ais *o que
um espaço em revista *u jorn*l. "A
ne*essidad* de um
e*paço
maior *ara * *epor*agem
am*l*ad* p*r nova* reve*açõe* fez com
que eu retomass* * antig* p*ojeto de um li*ro-
repor*agem", escrev*u o jornali*ta. (CUNHA, 2008, p. 22).
Na narrat*va em li*ro, à* lembran*as ind*vi*uais Cunh* agregou outros *estemunhos,
particul*rmen*e os de L*lian Celiberti * Universindo Rodriguez D*az, os do** ativ*sta* do
Partido por la **ctória del Pueblo (PVP) sequestr*dos em *o*to Alegre, a quem entrevi**ou
repetidas *ezes ao longo dessas três décadasxiv. O test*munho de Cu**a observa o pon*o d*
*ista de quem viu e/*u ouviu (testis),
*n*ua*to **li*erti * Rod*igu*z Diaz, c*da um
**les,
falam *o*o s*breviventes (s*pe*ste*) da ação do seq*estro.
Também Nilson Mari*no, como já me*ciona*o, baseou sua *a*rativa *m testemunhos
de e*-p*esos políticos e de f*m*liares *e mortos d*sapareci*os. In**ial*en*e pu*l**ada e
no
jornal Zer* Hora entre 11 e 14 d* fevereiro de *996, sua *arrativa s**re a Condor também se
esten*eria *m liv*o.
As na*rati*as jornalísticas d* C*nha e Mariano - "** dois único* jo*nalistas bra*ile*r*s
xv
**e têm e*crito intensivamente sobre a Op*ração Condor"
- *ão ins*r*ç*es para o
testem*nho ** hi*tória. Se a memória é a \condição do *izível\ (Orlandi, 2*07), daquilo que
s* *iz e/ou *ode ser dito, * qu* disseram e esc*ever*m Cunha * Mariano é memóri*.
Re*. FSA, Teresina, v. *2, n. 4, a**. 9, p. 1*2-157, jul./*go. 2015
ww*4.fsa**t.co*.br/revista
A Nar*ativa Jornalí**ica Testem*nhal Na Memória Da Condor
151
2.* Memór*a
E* seu l*vro, Cunha c*nta *ue se sentiu *ompelido a e*ucidar os fatos qu* o
envolv*am,
par*ic**armente depois d* se* *moti*o
encontro com * *ãe
de Lilian C*liberti
que, chegando * Porto *legre
em *2 de novembr*, cinco dia* após o seq*estro, cobro*-lhe
c*m r*ssen*imento: "- *eño*, *llo* e*ta*an con mi h*ja...H*bía que denun*iarlos... Nosotros
sabemos todo o que hace e*ta ge*te... Espero que ya no sea tarde, se*or." S** *aber o que
lhe *izer naquela hora, Cunha apenas afirmou que faria o que
estiv*sse ao seu al*ance
*ara
e*c*ar*cer os fatos. "É o *eu papel de *ornal**ta", res*ondeu.
*a ver*ade, Cunha desenvolveu o qu* Paul *iccoeur **nomina de \memória
obr*gada\ (*ICUR, 2007), *ma *emória que se observa *o nível ético ("*ape* de re*órter")
e político (c*n*ciência do que hace es*a gen*e naqueles a*os sombrios).
O **smo aconteceu com Mariano, **e pe*etrou nas e*tra*has da do* e da tortur* de
ex-presos po*í*icos e t*mb*m do pesar de fa*ili*re* d* mo*tos e desap*recidos. E*e t*nha
*
obrig*çã* d* reproduzir o que ouvira, de lembrar.
Le*br** não * r*viver, mas refaze*, reconstr*ir, repe*sar, com ideias e imagens de
hoje as experiênc*as do passado. Como d*sse o sociólogo fr*ncês Mauri*e *alb*a*hs (2006),
memória **o é s*nh*, é tr*balho.
A memór*a co*etiva,
p**a Halbw**h*, desempenha um papel fundamental nos
processos hist**icos. Por um *ado, d*ndo vit*lidade aos obj*tos cultu*ai*, sub**nhando
m*mentos h**tóricos significativos e, po*tanto, preservand* o valor do passado pa*a os *r*pos
soci*is. Por outro, sendo a guardiã do*
*b*etos c*ltur**s que atra*essa* os tempos e que,
e***o, p*dem vir * se *onsti*uir em fontes p*ra a p**quisa hi*tórica. Nesse s*nti**, a me*ó*ia
c*letiva
pode ser entendida como um*
for*a d* hi*tória v**e**e. *esmo quando
o
esq*ecimento se dá po* r***e* p*lítica*, é na mem*ria do grupo social *ue os acontec*me*tos
sobrevivem.
Como acentua Hal*wachs, a memória cole*iva tem uma fort* t*nd*ncia a transf*rmar
os fatos do pa*sado em imag*ns e id*ias sem ru**uras. Ou seja, te*d* a est*bel*cer
um a
con**n*idade entre * que é passa*o e o *u* é p*esente, re**abelec*ndo port*nt* a
unidade
pri*itiva de *udo *qui*o que, no p*ocesso histórico do grup*, represent*u quebra ou ru*tu*a.
Dessa *orma, a memória *oleti*a
apre*en*a-s* como a *olução d* *assado, n* presente;
ap*esenta-se como recompos*çã* quase má*ica ou *erapê*tic*, como algo *ue c*ra as ferid*s
do *assa*o.
*ev. F*A, **re*ina, v. *2, *. *, art. *, p. 142-157, j**./ag*. 2015 www4.fsanet.com.*r/*evista
M. *. *. Cunha
*52
No c**o da Operação Condor, *urar as fer*das do pass*do pode, necessa*iam**te,
exigir que elas sejam reabertas. N* Br**il havia, até rec*nteme*te, pouca *obertura da *ídia
aos episódios da Con**r, *m grande p*rte abafados *ela Lei da
Anis*ia (Lei *.683/1979),
aprovada ap*s um aco*d* ent*e autoridades militare* e o s*bjug*do Congr*sso b*asi*eiro, *eis
anos antes qu* o regime milit*r, exa*rido, fosse de*o*vid* aos civisxvi. * le* concedeu anist*a
àque**s **e haviam cometido c*imes
políticos, in*luin*o os a*ivistas exilados que e*tão
p*deriam regressar ao pa*s. De forma delibe*a*a, a express*o "cr*mes po*íti*os conex*s" foi
enxe*tada na lei pelo go*erno do último general-p*esid*nte (João Figueir*do, 1979-1985) para
bli*dar os viola*o*es dos d*reit*s humano*, mante*do a impunida*e e evit*ndo que o*
torturadores da d*tadu*a seja* submetidos à Jus*iça, ao contrár** do que acontece no* países
vizinhos do Con* Sul.
P*r is*o, até 1995
xvii, a narrativa oficial da história do Brasil excluiu, r*primiu *u
simple*m*nte
descartou a memória *ol*tiva so*re a per*eguiç*o, *prisio**mento, tortur*
e
assassi*a*o de opon*ntes político* do regime que se seguiu ** go*pe *e Estado de 196*, *ue
impôs 21 ano* de dita*ura. * partic*pação das forças repress*vas * dos s*r*iços *e *nt*ligência
brasi*eiros na Operação Condor *, *em *úvida, um d*s crim*s om*tidos e até neg*dos
na
*arrati*a of*cial *epassada pe*as *utoridad*s m*litares *e Brasíl*a.
A ado*ão d* "mentira
org*niz*da", so*r* a qual escreve
Arendt, "tende sem*re
a
destruir aquilo q*e el* decidiu negar" (*RENDT, 1972, p. 312). Os governo* to*alitários do
Cone Sul *dotaram conscient*mente a mentira co*o *rimeiro pass* pa*a a prisão, ass*ss*nato
e desapa*e*im*nto *o**ad* de milh*res d* pessoas.
Versões distintas da *is*ória ofic*al *omeçaram a surgir n** *n** 1990, *e*ois da q*ed*
das di*adur*s na região: Ar**nt*na (**83), *rasil e Urugu*i (198*), Pa*aguai (*989) e Chile
(1990). As de*úncias de *ovimentos de d*reitos humanos e a* narrati*as o*ais *e famílias de
desaparecidos e presos p*líticos da época de terror nessa *egiã* m*ridional da *mérica *o Sul
f*nalm*nte começa**m a aparecer na impren*a já então livr* da censu*a.
Neste novo contex*o, a revelação da Operação Con*or e de su*s *ç*es
com
envo*vim*nto b*asileiro en*raram em p*u*a na Comissão Naci*nal da Verdad*, que ab*iu uma
seção esp*cífic* de *n*es*iga**o **ra essa organiz*ção de terroris*o de Est*do.xviii
*e*. *SA, Teresina, v. 12, n. 4, art. 9, p. 1*2-157, jul./ago. 2015
www4.fs*net.co*.br/*evista
A Narrativa Jornalística Testemunhal Na Memória *a *ondor
153
* OBS*RVA*ÕES FI*A*S
C*m a hist*ria da invasão da Bélgic* pel* exér**to
alemão, e* 1914, *ura*te a *
Guerra Mundia* - o que envolveu acon*e*imento e testemunho - Hannah *rendt ilust*ou
a
\verd*d* *actua*\.
Tamb*m a violação do terr*tóri* *rasilei** *or agentes p*lic*ais e milita*es
estrangeiros, qu* vieram sequestrar aqui o*onentes políticos, *ã* é uma questão de opinião o*
mesmo interpre*ação. * uma *erdade *actual, com test*munhas comprovação docum**t*l, *
q*e demonstro* a exi***ncia *a Operaç*o Condo* e, sobr*tudo, *ua at*a*ão n* Bra*il com a
complacência das forças de **pressão que dominaram o p**s entre 1964 e 1985.
Como afirma Hannah Arendt (1972, p.46) em sua* c*nsi*erações sobre os documentos
d* Pentágono, a *mpre*sa liv*e
e **ônea "te* uma funç*o en*rme*ente impor*an*e a
cumprir", poi* * público "tem o di*eito à informação não manipulad* dos fatos". *xatamente
por isso, Mar*ano e *e ***ha desenvolveram u*a memóri* obrigat*ria.
Suas n*rr*tivas jo*nalí*ticas testemun*ais são uma contribuiçã* de mem*rias
in*iv*du*is par* o des*nvolv*mento
da memória *oletiva e, a* m*smo tempo, o
comprom**imento com a verdade factual sobre a h**tór*a de nosso t*mp*.
*EFERÊNCIAS
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*ww4.fsanet.com.br/revista
A Nar*ativa Jornalística Tes*em*nhal Na Memória Da Co*dor
155
N**AS
i
O **storiador in*lês Eric H*bsb*wm defi*e como "histór*a de *osso **ó*rio temp*" um p*ríod*
histórico que *enhamos vivenciado e sobre o *ual *ambé* tentam*s escrever. Tal e*pressão l*vanta
*ma questão *etodológi** fu*d*ment*l no trata*e*to d*s fat*s
histór*c*s
anal*sad*s sob
a
perspectiva da H*stória
d* Tempo Presente (HTP):
*ma experi*n*ia individual de **da p*de s*r
tratada
c*mo u*a expe*iência coletiva? *obsbawm
defende que sim: ainda q*e
paradoxal, isso
p*de acontecer se reconhecemos em nosso tempo de vi*a os p*incipa*s marcos da hi*tó*ia mundial
ou da nac*onal. (H*BSBAWM, 2011: 243-55). Robu**ecen*o o debate acadê*ico sobre
o
exe*c*cio e a a*erição
de reflexõ*s te*rico-metodológic*s na aná*ise da HTP, o historiador
uruguaio-b*asileiro Enr***e Serra Pa*rós *arte da refl*xão de Hobsbawm sobr* a* *ificul*ades d*
*preensã* de movime*to de **dan*as ou de pe*si**ência de permanência* no re*istro da HTP para
enfa*izar a ne*essida*e de *egistrarmos essa \hi**ór*a em aberto\ dentro de uma perspectiva crítico-
científica que
vin*ule o aconteci*ento e o processo histó*ico, tornan*o
inteligíveis *s ma*co*
ii
balizado*es da cena contemporânea. (PADRÓS, 2009; 2004).
Em 20*1, a cientista política Patrice McS**rry, da Long Isl**d Un**er*ity, des*obriu entre
docu*en*os de**la*sificados
*m
telegr**a
de 1*78, n*
q*a* o en*ão *mbaix*do* d*s
Esta*os
Unidos em Assunção, Robert Whit*, relata uma c*nversa *ua com o
gene*al Alejan*ro Fretes
Davalos, na qual o ch*fe *o Estado-Maior *ara*uai* l*e d**sera que *s s*rviços de *ntelig*ncia sul-
*mericanos "se *antinha*
e m c ont a * o
*or intermédi*
de uma estação d* comun**ação
estad*nidens* situada na Zona do Canal do *a*a*á". O docu*ento - hoje *isponibilizado em **de
*elo Th* Na*i*nal Security Arc*iv*s - foi p**meir*me*te reve*ado ao públi*o pe** jornal The New
Yor* Times (3/6/2001) *, à
oca*ião, **Sherry afir*ou que fa*o *e o* Estados *ni*o* terem o
*acilita*o
a
comu*ica*ão entr*
os serviços de inteligência
dos p*íse* envolvido* com a *pe*a*ão
iii
C*n*or *ra um* evidê*cia da cooperação da Casa Branca com aquele sistema repress*v*. Sobre *
sede do S*stema Condo*tel na ár*a militar da Zona do Canal do Pa**má, ver M*SHERRY (*005).
Em sess** *b*rta da C*missão Naci*nal da *erdade realiz*da em Bras*lia, em novembro de 201*,
Jair Kris*h*e, presidente do Moviment* de Justiça * Dire*tos Humanos, Porto Alegre, *eafi*mou *
qu* já declarara à imprensa anteriormente: o B*asil não ** te*e um papel protag*nico n* Operação
C*ndor, m*s - *á antes da formaliz*ção d*sse sist*ma re*res*ivo em
1975 - uti**zar*-se *e se*s
proc*dime*to* em p*rseg*ição a líderes políti**s e outros exilados no *xteri*r, com* foi o caso d*
*oronel J*ffe*s** Card*m de Alenc*r *s**io e do *ajor **aqu*m Pi*es Cerveira, sequ*strados e*
Buenos *i*es, resp*cti*amente e* 1*70 e 1973.
(Ver **mbém Kris*h*e, 2*08; 2*13). Farta
documentação encon*r*da *or *esqui*adores d* CNV * depoimentos de t*stemunh*s, também
*orneceram ev*dênc*as *e que o Ministéri* das Relações Exte**ore* (MRE) "atuou de forma direta"
na *oo**raçã* internacional com ditad*ras
** Cone
Sul e integro*, por intermédio d* secreto
iv
Cen*ro de Infor*ação d* Exter**r (CIEx), o si*tema interesta*al e (*i)multila*era* *a re**ão durante
os anos *ondor e *á an*es deles. (*RASIL, *0*4).
Insta**** em maio de 2012, * Comissã* Naci*n*l da Ver**de foi *riada no *rasil pela Lei No.
12.528, de 18/11/
2011, com obj*tivo de *fet*va* * d*reito à memória e à v*r*ade histórica, o
e
promover a reconciliação nacional. Concluído em 2014, * rela*ó*i* final d** t*abalhos *a C*V f*i
*p*esentado à *ociedade brasileira na sede da Ordem
dos Advogad*s
do Bra*i* (OAB) em 10 de
dezembro, Dia *undial dos Di*eit** H*manos.
v
Ant*s da *uerra, convid**o a ir * B*rlim, o rei belga A**e*t* I foi *evado pelo Kaiser *a Alem*nha,
Guilherm* II, a *m canto p*ra uma c*nversa pes*oal dur*nte um ja*tar oficial. Baseado no precei*o
de q*e "o ponto frac*" d* *ronte*ra
da
França esta*a situado ent*e Bruxelas e Paris
(CLAUSE*ITZ, *979: 772), o plano do *mpe*ad*r alemão *ra passar seu ex*rcito pel* Bé*gic* -
uma ameaç* qu*, ap*sar da reunião reserva*a, te*e o te*temunh* d* próprio Alberto e, assim, fo*
registr*da *ela H*s*ória (TUCHMAN, 19*3).
vi
vii
So*re a morte de Or*ando *etelier, ver DINGES e *ANDAU (1981).
Ant*s do assassi*ato de O*lando Letelier n* capita* dos E*tados Un*do*, em 21 *e setembro de
***6, as forças r*press*ras
do C*ile já agia* muito
além
de Santia*o, atr*s de l**eranças
d*ssid*ntes e críticos da ditad*ra q*e manteri* o *enera* Aug*s*o P*noche*
no governo de 197*
a
*ev. FSA, Teresina, v. 1*, n. 4, art. *, p. 142-157, jul./ago. 2015
www*.fsa*et.com.br/r*vista
*. J. C. Cunh*
156
1990. O g*neral leg*lista Car*os Prats - que o*upou os cargos de Comandant*-Chefe do *xé*cito
chileno, *inistro do Int*rior e Ministro da Defesa
no Governo Allende (197*-1973) e que se
recusara a ade*ir o golpe de Estado que de*rubara
um presidente ele*to por voto
dem*c*ático
-
morre* c** sua esposa, Sofia Curt*bert, em B*enos
Aires, no dia *0 *e se**mbro de 1*74, d*
mesma fo*ma que Letelier: apó* a explosão de *ma *omb* *olo*a*a *m *** carro. Em 6 de o**ubro
d* 1*75, também houv* um grav* aten*ado à vida d* l*de* *a *emocraci* Cristã Ch*l*n*, Bern*rdo
L*ig*ton, ba*eado ju*to co* *ua e*posa, Ana Fresno, em **m*. At**gido na cabe*a, L*igh**n t**e
suas funções c*rebrais
comp*o*et*das d* ma*eir* irreversível, o *ue af*tou su* m*m*ri*. Sua
viii
com*anheira ficou paraplégica.
A *egi*o industrial d* ABC p*ulista é formada pelas cidades d* Santo *ndré (A), Sã* Be*nardo (B)
e São Caetano (C). T*mb*m é referida como ABC*, com a inclusã* da cidade de Diadema.
ix
* AI-5, edi*a*o em 13 de dezembro de *968, foi um dos *á*ios d*cretos autori*ários e**tido* pe*o
governo *il*tar. D*v* pod*re* extraordinári*s *o p**sidente
**
Rep**lica e suspend*a várias
*ar**tias
co*stitu*ionai*, entre elas o habeas corpus
e
a liberdade de expressão, instit*in*o
x
t***ém a ce*sura prévia à impre*s*.
*s 'Arq*i*o* do Terr*r' do *araguai *oram descobertos graças *o *n*es*ante traba*ho empreendido
pelo e*-*res* p*líti*o par*guaio M*rtín A*mada, hoje advogado. Durant*
q*inze
an*s Alm*da
pesquis*u
a R*vis*a de *a Policía de l* Ca*ita* que os ami*os lhe e*vi*vam no exílio,
p*imeiramente no *anamá e depoi* *a França. Do nú*ero 275 de (set.-out. 1973) ao número 379
(set.-out./1992), ele a**tou todas as mudanças, dos no*os in*tr*tores pol*ciais à constru*ão
de
edifíc*os naqueles a*os. Identificou cinco endere*os possí*eis d* serem o depósito dos ar*uivos da
políc** de Stross*er, L**baré era um **les. Quando Almada f*i
informado *e que *m Lam*aré
e*tava havendo
*m* m*vim*nta*ão para retira* docum*ntos, ele su*peitou que os *rquivo* da
xi
polícia po*ítica **deriam estar lá (CALLONI, 19**).
A l*beraçã* do* docum*ntos foi um acerto fei*o nos bastidores entre E*tad*s Uni*os e o Ch*le.
(DINGES, 2005). No episódi* da *r*s*o de Pinochet em Londres, em 1998, quan*o a ju*t*ça
espan*ola p*diu sua extradição, o *eneral *oi acusado de ser resp*n*áv** por tort*ra e terroris*o -
dois crimes de l**a humanidade e, por**n*o, sujeitos a serem denunciados por qua*quer Estad*. O
direito da Es*anha de levar Pi*oc*et a julgam*nto se re*firma*a com bas* n** pri*cípios firmados
p*lo T*ibunal de Nurem**rg. A prisão de Pinochet, que *e ar***tou po* d*zesseis meses, romp*a um
ac*rdo tá*ito
entre as
nações: os princípios de Nuremberg seriam aplicados
apena* *omo 'justiça
dos ve*c*dores', ou se*a, contra
os crim*s d*s
pe*de*ores. Os Esta*os Unidos *empre se
p*sicionara* cont*a
esse tipo de pr*cesso internacional. Na América Latina, a ne*oc*açã*
da
transição para *emo**aci* foi feita pelo* gove*nos militares n* poder *, evidentemente, coube ao*
*ener*is imp*r a condiç*o de n*o serem *esponsabilizados por c**mes pa*sados - o que, inclusiv*,
explic* a Lei *a Anist*a
brasileira. Assim, ficar a favor o* contra um
aliado era um *esa*elo
d*plomático *ara os *stados Unidos. Para ev*tá-lo, o governo Cl**ton ***olveu negociar a liberação
de docume*tos confidenc*ais,
que a ju*tiça *spanhola já solici*ara. O Chi*e - então sob
*
p*esi*ênci* de Eduardo Frei Ru*z-T*gle, um *ivil
eleito pelo
voto *opular
*m uma c*al*zão
de
*artidos esquer*i*tas e c*ntrista*, inclu*ive o Partido S*cialist* *e Al*ende -
concordou com
a
d*cisão dos Estado* Unidos.
xi*
*m tra*alho an**rio*, exp*ico mais de**lhadam*nte os en**ques d* teste**nho (testi* e superstes).
V*r Cavalca*ti Cu**a (2012).
xiii
A *é*i* de re*ort*gens sobre o seques*ro dos uruguaios e*tá disponível n* acervo digital da
revista no endereço eletr*n*co http://veja.abril.com.b*/a*ervodigital/. O trabalho foi incluído
*a sel*ç** das "*e*h*re* re*or*agens produzidas em u* d*s p*ores *empos da nossa história",
organizada pa*a o *ivro 10 reportagens que abalaram a *itadura **lo jornalist* *ernando
Mo*i*a (2005: 9; *2).
xiv
Uma da* ent*evistas que *uiz Cláu*io Cu**a fez com Li*ian Ce*iberti e *nive*si*do Ro*rigu*z
Diaz está *egistra** no
víd*o O sequestr* dos ur*g*aios: 15 anos depois (C*nh* e Reis, 1*93),
esc*lhido como ho*s *oncurs da catego**a t*l*visão d* Pr*m*o do Movi*ento de Justiça e Dire*tos
Humanos e da **m*ssã* *o*ral *into d* Direit** Humanos em 1993.
Rev. FSA, T*resina, v. 12, n. 4, *rt. *, p. 142-157, jul./ago. 2015 www4.f*anet.com.b*/re*ista
A Narra*iv* Jor*alísti*a Test*munhal Na Memória Da C*ndo*
157
*v
xvi
De*lara*ão confirm*da em **nsage* eletrô*ica à a*tora *o* Jair Kris*hk*, em 26 de *ulho de *012.
Sob o regime ditatorial, um terço *o* se**d*res er* indica*o diretam*nte por autoridades militares.
Na Câmar*
dos Deputad*s, *r*ças *s cassaçõ*s de mand**os, o regime mantinha uma maiori*
governis*a d* 221 cadei*as contra 186 da op*si*ã*. Ap*sar desse co*te**o
*e hegemonia
aut*ritária, L*i da Anist*a a
passou no Congre*s* Naciona* *m um* eleiçã* muito *pe*t**a (206
*vii
votos contra 201), graç** à de*ecção de muitos parl*m*nt*res situa*ionistas q*e *otaram com a
oposição.
Em 1*95, foi c*iada a Comissão Especial sobre Mor*os e De*aparecidos (Lei No. 9.140/9*).
E*tre*anto, somente em *002 foi possível a *esponsab*lizaçã*
*o Estado
pel*s des*pa*ecimentos
forç*dos e pelas mortes d* c*dadão* brasileiros (Lei No. 10.53*/2002). Em 2006, *egistros oficia*s
*a* atrocid**es cometida* no período da
ditadur* militar (1964-*985) *oram pu*licadas *ela
xviii
*ecr*tar*a *specia* de *ireitos H*manos (BRASIL, *006).
*a Comissão N*ci*nal da Ve*d*de, * Grupo de Tr*balho Cond*r *nvestigou casos de seque*tro,
pr*são, *orte * desaparecimento forç**o *e vítimas da Operaçã* C*nd*r e *utras conexões
repr*ssi*as internacionais, siste*a*izando os dados *o *exto
d* relatório final da CNV. (Ver
o
capítulo *, \Conexõ*s in*ernacionais: a aliança **p**ss*va no Cone Sul e a Operaç** Condo*\).
Rev. F*A, Teres*na, v. 1*, n. 4, ar*. 9, p. 14*-157, jul./ag*. 2015
www4.fsan*t.com.br/revista
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