Centro Unv*rsitário Santo Agostinho www*.Unifsanet.*om.br/revista Rev. FSA, T*r*s**a, v. 23, n. 6, art. 1, p. 3-25, j*n. *02* ISSN Impresso: 1*06-6356 IS*N Elet*ônico: 2317-2983 http://dx.doi.org/10.12819/202*.23.6.1 Tr*nsição de Carreira de Mulheres M*l*tares e Ri*co* de Exc**são no Mundo Ci**l Career Tra*sition of Mi*itar* W*men and Ri*ks of Civilia* *xclu*ion Camil* da S*lva Ma*i*ho Bach*rel em Administraçã* de *mpresas Especi***sta em Com*liance e ESG / Esc*la Superi*r de Agricul*ura Luiz de Queir*z d* Universidade d* São Paulo *-ma*l: camila**rinho3*@ya*oo.com.br Álv*r* *reitas F*ustino-Dias Dout*r *m Adminis*ração pela U*iversidade Feder*l de *ato Grosso do *ul P*of*ssor *a Univers*da*e *stadual d* Mat* Grosso do Sul e *a Escola Superior de Agricultu*a Luiz de Queiro* d* U*i*er*idad* de S** Paulo. E-mail: alva*o.*ias@u*ms.br Ender*ço: Camil* *a *ilva Marinho Editor-Che*e: Dr. To*n* Kerley de **e*car *ua Sergi* dos Santos **reira, 20* - Bairro: *odrigues *ardi* Alice; 133*6-240, Ind*iatub*/SP, Brasil. **dereço: Ál*aro Freitas Fa*sti*o-*ias Av. Brasil, 836 - Gra*j*, CEP: 799*5-300, Po**a Porã/*S, Brasil. Artigo receb*do em 2*/*4/2026. Última versão rece*ida em 07/*5/2025. Aprovado em 08/05/20*6.
Aval*a*o pelo sis*ema Tripl* Rev*e*: Des* Review a) pelo *ditor-Chefe; e b) Double *lind Revi*w (av*l*ação c*ga por dois avaliado*es da área). R*vi**o: Grama*ical, N*rmati*a * de Fo*matação
C. S. Marinh*, A. F. F*ustino-Dias 4 RE*UMO A transição d* m**he*es milita*es para merc*do d* trabalho ci*il o consti*ui um fenômeno complexo, marc*do *or *esafios que extrapolam a dim*nsão o*upa*ional e envolvem aspectos *dentitári*s, in*titucion*is e estruturais de desiguald*de de gêne**. Nesse contexto, a presente pes*u**a t*ve como o**eti*o c*m**eender, a p*rtir d* um estud* de caso com a*o*dagem q*alitativa, como se config*r*m *s desafios, a* formas de explo*a**o * o* *iscos de excl*são vivenciados p*r m*lher*s milita*es no proc*sso de t*ansição para o mundo civil. Metodologi**mente, adotou-se *ma estratégia qualitati*a, *om reali*ação de en*r*v*stas semiestruturadas junto * 27 mulhe*e* participantes de um *rojeto *o*ial de apoio à reintegraç*o, se*do os dados *na*isados por *eio da anál*se de co*t*úd*. *s re*u*t**os evid*nci*m **e a t*ans*ç*o é ma*cada *or descont*n**dade do *econh*ciment* *r*fissional, *ificuldades de inserção *ualificada no mercado de trabalho * experiências de precariza*ão, frequentemente associadas à s*gment*ção ocupacional. Adem*is, identi*ico*-se que *e*pons*bilidades de cuidado e **sig*aldades de *ênero intens*ficam as vulnerabilidades, limitando **ortunidades e inf*uenciando decisões *rofis*ionais. As partici*antes também relataram estra*égias d* enf*entamento baseadas em *esiliê*cia, mobili*ação de red*s de a*oio e *essig*ificação da experiênc*a militar, ainda que *ai* mecanismos n*o sejam suficientes *ara superar *arreiras estr*turais. Como im*licações, o estudo r**orça a necess*dade de polít*cas públicas e instit*c*onais *u* articulem reconheci*ento e red*stribuição, conte*pla*d* *apacitação, apo*o psic*ssocial e *aloriz*ção das competências a*qu*r*das *o serviço *ilitar. Palavras-*ha*e: Eco*omia Femini*ta. *êner*. Reinser*ão *rofissional. Se**entação **upacional. Pre*a*ização do T*aba*ho. **STRACT The trans*t*on of women military pers*nnel into th* civilian lab*r market *onstitute* a c*mpl*x phen*menon, marked *y chal*enges that extend b*yond *he *ccu*ational dim*nsion a*d enc*m*ass identit*-r*la*e*, inst*tutional, *nd struct*ral asp*cts of gen*er inequality. In this c*ntext, the p*esent st*dy aimed to understand, **rough a qual*tative c*se study approach, how challenges, fo*ms of explo*tatio*, *nd *isks of exclus*on are c***igure* in the tr*nsition process e*peri*n*ed by wo*e* mi*ita*y per*o*nel into civilian life. Methodol*gically, a qual**ative strategy w*s adopted, in*olv*ng sem*-*t*uctured in*erviews w*th 27 women part*ci*ating in a social support p*ogr*m for re*ntegration. *ata were an**yzed us*ng conte*t anal*sis techniques. The findings in*icate **at the trans*tion i* c***a*t*rize* b* disco*tinuity in p*ofe*si**al recogni*ion, difficulties in achieving *ua*if*ed insertion into the labor m*rket, and exp*riences of precariou* w*rk, *fte* associate* wi*h la*o* *arket segment*t*on. Furthermore, care *esponsibilities an* ge*d*r inequ*lit*es were fo**d t* i*tensify vu*n*rabilities, limit*ng o*****unitie* and influencing profe*sional decisions. Participants also r**orted copi** s*rategi*s based o* re*ili*n**, the mo*i*izatio* *f support n*tworks, and the refram*ng of milit**y e*p*rie*ce, although such m*chanisms *rove* insufficie** to overcome *tructural b*rriers. In t*rms *f i*p*ic*tions, the study **g*lights the nee* f** public *nd in*tit*tional *olic**s *hat integr**e reco**ition and redistrib*tion, en*om*assing pr*fessional trai*ing, psycho*ocial suppo*t, *nd *he v*lorizat*on of *ompetencies **q**red dur*ng military servi*e. Keyw*rds: *eminist Ec*nomic*. G*nd**. Prof*ssional Reintegrati*n. La*or Market Segm*n*ati*n. Pre**rious Work. *ev. FSA, **resi**, v. 23, n. 6, ar*. 1, *. 3-2*, j*n. 2026 www4.Unifsane*.com.br/revista Tr**s*ção d* Ca*rei*a d* Mulheres Mi*it*re* e Risc*s de ***lusão no *undo Civil * 1 IN*RODUÇÃO A transição de carreira do meio milita* para * setor civil constitui um pro*esso complexo e multi*acetado, envolvendo n*o apenas * mudança de ocupaç*o, m** também *e*onfig*rações *dentitá*ia*, a*a*tati*as e prof*ssi*n*is. No *aso das mulheres *ilitares, esse *roce**o ten** a *er a**da mais *e*sível, u*a vez que se desen*ol*e em *m c*ntex*o h*storicamente estruturado por d*sig**l*ades de gênero, t*n*o nas inst**uições militare* quanto no me*cado de trabalh* *ivil (MO*GA*, 2*07; CR*WLEY; SA*DH*F*, 2017; EI*HLER, 2022; SMITH et *l., 2025). A **ssagem **ra a v*da civil ex*g* a reinte*pretação d*s competê*ci*s adquiri*as ao lon*o da c*r*e*ra milit*r, a adaptaç*o a no*as dinâmicas organizacionai* e a reconstr*çã* da i*ent*dade prof*ssion*l em a*bientes nos quais a experiência mi*i*ar nem sempre * plenamente comp*eendi** ou va*orizada. Smith e* al. (2*25), por **emplo, destacam qu*, par* ex-mili**res, a descon*inuidade e*tre normas mil*t*res e civis p*de g*r** dissonâ*cia cultural e sen*imento de d*sori*nt*ção *o novo contex*o pr**iss*onal, o que afeta * capaci*ade d* adapt*ç** e de formulação de planos de carreira coere*tes após o *esligam*nto d*s Forças A*m*das. *esse cená*io, aspe*to* psic**soc*ais e organi*acio*ai* *merge* c*mo determ*na*tes fundamentais para a compreensão da trans**ã* de carrei*a *ilit*r-civil (EICHLER, 202*; SMITH et al., 20*5). Alé* d*s ad**t*ções práticas n**es*árias par* * t*ad*ç*o de comp*tên*i*s, os *rofi*sionais *ue dei*am o serviço enfrenta* a necessidade *e ressig*ificar o sent*do de prop*sito e de *ertenc**ento, uma vez que * amb*ente milit*r proporciona es*rutura, iden*idade **letiva e redes de apoio consolidadas, elementos que são **rupt*men*e re*uzidos no mundo civil (LESLIE; *OBLIN*KY, 2017; RATTRAY et al., 2023). Embora a ca*rei*a m*lit*r pr*porcion* o desenvolvimen** de co***tência* amplamente r**on*ecidas como *elevantes n* mercado de trab*lho, tais como di*ciplina, li*eran*a, gestão de ris*os e capac*dad* de tomada de *ecisão em c*ntextos de pres*ão (CASTR*, 202*), a transição para o se*or civi* ne* *em*re ocor*e d* forma fluida. *stu*os recentes indica* *ue mulheres militar*s e*frentam maiores dificu*dades *e inserç*o p*ofissional qu*nd* comparadas aos seus pares mascu*inos, s*ndo *a*s fre**entem*n*e d*recionadas * *osições subqualific*da*, temporárias ou com me*o* reconhecimento simb**i*o * financei** (CROWL*Y; SANDHOFF, 201*; LE*LIE; KOBL*NSKY, 2017; S*LVA e* al., 2024). Rev. FSA, Teresina PI, v. 23, n. 6, art. 1, p. 3-25, jun. 2026 www4.*ni*sane*.com.br/*e*ista C. S. M*ri*ho, A. F. Faustino-Dia* 6 Esse c**ário está direta*e*te rel*cionado à seg*egação ocu*acion*l de gêne*o e às desigualdad*s es*r*tu*ais que cara*t*rizam o m*rcado de trabalho bra*ileiro, nas quais as mulh*re* con*in*am concent*adas em oc*paçõ*s menos valorizadas e *om m*nores perspectiva* de *rogressã* pr*fissional. No caso das mulh*res mi*itares, tais desigualdades são pot*ncializadas p*l* di*iculdade de reco*he*imento fo*ma* das competênc*as ad**i**das durante a carreira e pel* ausência de pol*ticas públicas consistentes d* ac*mpanham*nto da transição profissional. A*ém das b*rre*ras de i**erç*o no merc*d* de trab*lh*, a li*eratura ap*nta que *u*he*es e* processo de tran*ição de carreir* podem estar mais expostas *i*uaç*es de a e*plo*ação *inancei*a e psico*ó*ica, bem como a condições de vulne*ab*l*dad* social (SMITH et *l., 2025). A insta*il*d*de *rof*ssi**al, *ssociada * per*a da rede de apoio in*titucional caracterís**ca da carr*ira militar, po*e am***ar o risc* de *nvolvimento em rel*ções de *rabalho pr*cár*as. D*an*e desse *onte*to, a transição de c*rreira de mulheres m*litare* confi*ura-se não apenas como *m desafio individual, mas com* uma quest*o de relevância so*ial e de polít*ca p*bli*a, re*acionada à **omoção da equi*ade de gênero, da inclusã* social e da **ote*ão labor*l. Assim, a pr*se*te pesq*isa tem *omo objetivo compre*nder, a partir de *m estu*o ** ca*o co* abor**gem qualitativa, *omo ** configuram os desafios, as formas de e*ploração e os risco* de exclusão *ivenciado* por mulheres *i*itares no *roce**o de tr*n*ição p*ra o mundo civil. 2 REFERE*C*A* ***RICO * transição de mulhe*es mili*ar*s para o mercado de t*abal*o *ivil constitui um fenôme*o q*e desafi* le**ura* lineares e exige uma abo*dage* t*órica capaz de apreen*er, de f*rma i*tegrada, dim*n*õe* *imbó*ica*, institucionais e materiais da desigu*ldad*. Não se trata a*enas d* compreender u* *ro*esso de mobili*ade ocupaciona*, mas de analisar como trajet*rias **nstruídas em uma instituiçã* f*rte*ente h*erarquizada e historic*mente mas*ulinizada são reco**iguradas e* um contexto marcado por assimetrias *struturais e normativas. N*sse sentido, a literatur* contemporânea tem dem*nstra*o que a reinse*ç*o ***fis*ion*l de mulh*res veteranas é atravessada por dinâmicas de rec*nh*cimento, segmentação o*up*cional e desigualdades de gê**ro que s* ***o*çam mu*u*men*e, produzindo **lnerabil*dades e*pecífi*as (*ICHLER, 2022; SM*TH et al., 2025). Rev. FSA, Tere*ina, v. 2*, n. 6, *rt. 1, p. 3-25, jun. 2026 *ww4.Unif*a*et.com.*r/revista Trans*ção de Carreira de Mulheres Militare* e Ris*os de *xclus*o no *undo Civil 7 * partir d*ss* perspectiva, a noção *e reconhecimento, confor*e de**nvolvida po * Hon*eth (2*09), *f*r*ce u*a *have interpr*tativa relev**te ao d*sta**r que a const*tuição da *dentidade está *ncorad* em rel*ções sociais que conferem l*g**imidade e *alor à* experiê*cias *n*ividuais. No entanto, quando s*tu*** no contexto das inst*tuições militares, e*s* perspec*iva rev*la que * r**on*eciment* tende a *er condicion*do po* **drões n*rmativos que privi*egiam at*ibutos associa*os à ma*c**inidade (MORGAN, 2*07; CRO*L*Y; SANDHOFF, 2017). *ssim, mu*heres mil*tares frequentem*nte constroem suas identid*des profissionais em um cam*o no qual sua leg*timida*e é cons*ant*mente negocia*a, o qu* i*plica fo*mas sutis de desvalor*z*ção (EIC*LER, 2*22). *sse reconhecime*to parcial, embora s*ficie*te para s*st*ntar a permanência ins*itucion*l, mos*r*-se frági* quand* tra*sposto para o mercado c*v*l, o*de as comp*tênc*as adq*iridas não são necessari*me*te traduzid*s *m cap*tal sim*ól*co r*conhecido (EICHLER, *022; SMITH et al., 202*). A literatura c*ítica tem enfati*ado que a valor*z*ção simbólica p*ecisa ser co*pre*ndida em ar*icul**ão com as estruturas econ*micas que o*ganiz** o ace*so a oportunid*des. Fraser (200*) e Fraser e Sousa-Filho (2020) argume*tam que a justiç* social depende da convergência entre reconh**ime**o e redistribuição, uma *ez **e a ên*ase exclusiva em dimensões identitárias pode obscurecer desigual*ad*s *ate*iais persiste*t*s. No caso d*s mu*heres militares, essa articulaçã* é evidenciada quando se obser*a que, m*s*o *iante de tr*je*órias marcadas por *isciplina e **alifica*ã*, sua inserç*o no m**cado civil ocorre fr*q*entemente em condições d* des*antagem, revelando a insuf*ciên*ia de po*íticas *ue privilegiam apenas a adaptação individual. Essa dinâmica se torna *ais evidente quand* consid*ra*a luz d* s**me*taç*o à do mercado de trabalho, que evid*ncia * existênci* de e*tr*t*ras ocupacionais diferenci*das, *a* qu*is op**tu*idades, estab*lida** e remun*ração sã* di*tribu*das de maneira desigua*. R**ch et al. (1973), bem c*mo D*eringer e P*ore (2020), argumentam que o *er*ad* de trabalho é composto *or segmen*os que oper*m com lógicas distintas, sendo o *cess* posiç*es m*is a estáveis **equente*ent* restrito a gru*os socialmente *rivilegiado*. Tratan*o-se de mu**eres egre*sas do serviço milit*r, a di*ic*l*ade d* co*verter competênc*as espe**fica* em cred**ciais reconhec*da* no m*rc*do ci*il t*nde * direcion*-las *ara segmentos *ais *recários, cara*te*izados por meno* proteção * maior instab*l*dade (EICHLER, 2*22; SMITH et al., 2025), n*o send* considerado um *ovimento aleatório, **s a pers*stên**a de barrei*as in*tit*ciona*s que limit*m a m*bil*dade ocupacional. Re*. F*A, Te*esi** PI, v. 2*, n. 6, *rt. 1, *. 3-25, jun. 202* www*.Unifs**et.com.*r/revista C. S. *arinh*, A. F. Fa*s**no-Dias 8 A litera***a rec*nte tem de**nstrado qu* esse processo é int*nsifi*ad* p*las tra*s**rmações c*ntemporâ*eas no mund* do trabalho, marcadas pela fl*xibil*zação e pe** expan*ão *e formas precárias *e emp*ego. S*anding (2011) d*sc*eve esse cenário c*mo a emergência de ** "precariado", no qual * insegur*nça se *orna uma c*racterística e*trutural. Para m**heres em trans*ção, e*s* *ond*ç*o * *art*cul***ente crítica, poi* a perda da estabilidade **sociada ao serv*ço militar co*ncide com * inserç*o em um merca*o fragmentado, no qual a pr*teção social * *eduzida (EICHLER, 2022; S*ITH et al., 2025). Além disso, L*sli* * Koblin*ky (2017) e Rattray et a*. (2023) salientam que a dif*culdade de rein*egr*ção à vi*a civil extrapo*a **gnificativ*mente a dimensão estr*tamente ocupacional, configurando-se como um pro*e*so multifaceta*o, no qual aspe**o* id*ntit**ios, emocionais e inst*tu*ionais se entrelaçam. Para *s aut*res, a transi*ão (mili*a*-civil) é profundamente marcad* pe*a necessidad* de *r*iculação *ntre múltipl** ident**a*es sociais (es*osa, mãe, profissional, vet*r*na e *uidad**a) cuja sobreposição é intensif*cad* por de*igua*dades ** g*nero persistentes. Essa vulnerabilid*d*, contudo, n*o pode *e* plename*t* compreen*ida sem cons*derar com* as desigu*ldades de gênero se ar*icu*** *om outra* formas de dif*ren*ia*ão social. A perspecti*a inte**eccional, proposta por Crens*aw (1989) e desenvolvida po* *ollins (*020), per**t* c*mpreender qu* experiê*cias d* e*cl*s*o são mol**das pela intera*ão *ntre múl*iplos marcadores sociais, co*o gê*ero, ra*a * cl*sse. No contexto a*a*isado, isso *mplica recon**cer que * transiç** *ara o mercado *i**l nã* *fet* todas as mulhere* de *aneira homo*ênea, sendo atr*vessada por desigualdade* *u e ampl*f*cam *u a*enuam vulnerabilidades. Sob*e isso, Smith et al. (2025) apontam qu* m*lheres ve*eranas per*encentes a gru*os racializ**os enfrentam de*afios adicionai*, in*luin*o discriminação mais intensa * m*nor acesso a redes de apoio, o que reforç* a nece*sidade de abor*a**ns analíticas *ue *onsid**e* a complex*dade des*as interaç*es. Ao me**o te*p*, a inserção pr*fis*io*al dessas mulheres **o pode ser dissoci*da das dinâmicas *ue organizam * reprod*çã* social. A eco*omia *eminista tem enf*ti*ado que o funcionamento do me*cado de *rabalho está intrinsecamente ligado à divis*o s*xu*l do trabalho, na qual atividades de cuidado *ão sistema*icamen** desvalorizadas e atribuí*as *s mulheres (MAC*A*O; GIL, *01*; ARAÚJO, 20*1). Folbr* (2001) argumen*a *ue esse tr**alho, *mbora esse*cial, perma*e*e invi*íve* nas análises eco*ômicas tra*icionais, en*uan*o Fraser e Sousa-Filho (2020) destacam que o *api*alismo contemporâneo enfrenta uma crise es*rutural d* c*idado, re*u*tante da *ev. FSA, Teresi*a, v. 23, n. 6, art. *, *. 3-25, jun. 2*2* www4.*nifsanet.com.*r/revista Tra*sição de *arreira de Mulheres Milita*es e Riscos de Excl*são *o M*ndo Civil 9 incompat*bilida*e e*tr* de*andas produtivas e reprodut*v*s. N* context* da transição militar, e*sa t*nsã* s* manifesta na *ec*ssidade *e conci**ar inser*ã* profission*l com responsabilida**s familiare*, o que frequent*mente *imi*a as possibilidades de esc*l*a e con*rib*i para a aceita*ão d* condições de *rabal** men*s ***oráv*is. A*i*iona*mente, a literatur* sobre *stigmatização, especialmente a partir de Go*fman (*01*), sugere que iden*idades *ociais *ode* se* marcadas por atribu*os que *omprometem sua legitimidade em determ*nados contextos. No caso das mul*eres **litares, a condição de ex-integr*ntes de uma instituição associada à masculinidade *ode gerar ambi*uidad*s na *erce**ão *oci**, ora send* valoriza*a, ora questionada. Essa ambivalência tende a dificultar a *onsolidação ** uma i*entidade prof*ssional estável no mercado civil, *ontri**indo para a *epro*ução d* *nseg*ranças e incerteza*. Dessa forma, a *ransição analisada neste est*** deve ser com**eendida como um processo n* q*al dim*nsões si*bó*icas e materiais se entr*laçam, produzindo efeitos cumula*ivos de vu*nera**lidade. A ausênc*a de reconhecimento pleno, a inse*ção em segm*ntos precarizados *o mercado de tra*al**, as desigualda*es interseccionais e *s dema*das a*socia*as ao cuidado não operam *e *orma isolada, mas se re*orçam mutuamente, configuran*o u* cenário no q*al a exc*usão não é um evento p*nt**l, mas um pr*ce*so contínu*. 3 METO*OLOGIA A presente pesquis* c*nf*gura-s* co*o um estudo d* caso de natureza a**ica*a, *ujo propós*to c*nsiste em co*preender os desafios, *s fo*mas de explor*ção e o* r*scos de exclusão enfr*nta*os por mulheres militares no p*oces*o d* transiç*o para o seto* civil. O estudo * de*env*lvido no âm*it* d* uma c*munidade composta por mulhe*es *ili*ares *a*ticipa*tes de um pro*eto socia* denomin*d* "Mais Veter**as", o qual acomp*nha e oferece supor*e à transiç*o de**e grupo por meio de intera*ões via W**tsApp, bem *o*o p*la real*z*ção *e encontros, wor*shops e cursos online. Para a participa*ão n* pesquisa, todas as inte***nte* do gr*po foram convid*d*s c*letivamente a participar das entrevistas. Ap*s * manifestação de interesse, *rocedeu-se a* enca*inh*mento do Termo de Consent*mento *ivre * Esclare*ido [TC*E]. Nesse doc*men**, as pa*ticipa*t*s f*r*m devi*amen*e inf*rmadas acerca dos obje**vos da *e*quisa, dos pos*íveis ri*cos e benefí*ios associ*dos à sua participação, bem *omo da g*ran*ia de que *s Rev. F*A, T*resina PI, *. 23, n. 6, art. 1, p. 3-25, j*n. 2026 www4.Unifsanet.*om.br/*evista *. S. Marinho, A. F. Fau*tino-Dias 10 análises ser*am cond**idas *e fo*ma agregada, asse**rando a não identificação de ca*acter*s*icas profissionais ind**iduais. Após a *ssinatura do TCLE, procedeu-se ao agendamen*o das entre**stas, com defin*çã* *révia de data e ho*ário conforme * d*sp*ni**li*ade d*s pa*tic*pantes. *s ent**vistas fo*a* co*duzidas entre *s m*ses *e setembro e n*vembro de 2025. Destaca-se *ue todas as e*trevi*tas ocorrer*m *m ambie*te virtual, sendo d*v*damente gravadas, me*i*nte aut*rização d*s partici*ante*, * pos*er*orm*n** transcritas para *ins de análise. Qua*to à estrutur*, o rotei*o de entrev**tas baseou-se na Teoria do R*conh*cime*to (HON*ETH, 2*09), na perspectiva d* I*tersecciona**dade (CRENS*AW, *989; COLLINS, 2*20), n* T*ori* *a Segm*ntação do Mercado de Trabalho (RE*CH et al., 1973; D*ERING*R; *I*RE, 2020), bem como *os a**rt*s da Economia Feminista (FOLBRE, 2*01; FRASER; SOUSA-F*LHO, 2020). Adicio**lment*, incorporam-*e c*ntribuições s*bre p*ecariz*ção do trabalho (S*AN*ING, 2011), e sobr* esti**ati*ação soc*al (GOFFMA*, 2019). * *art*r desse arcabou*o teórico, o rot**ro foi estr*turado em sete eixos, contempl*ndo qu*st*es re*acionadas * opo*tunidades p*ofissionai*, experiências de e*ploraçã* finan*ei** e psicológica, su*em**ego, r*scos de alicia**nto e estraté*ias de enfrentamento *urant* o proces*o de transiç*o para a vi*a civil, co*siderando a* múlt*pl*s dim*nsões d* des**ual*a*e d* gênero e a* din*micas de reco*hecimento e inserção no mercado de traba*ho (Ta*ela 1). Tabela 1. Roteiro de entre*ist** *emiestrutur*do Eixo Trajetória militar e identidade profissional Perg*ntas 1. Poder*a des*reve* s*a t*ajetória no se*viço milit*r? 2. Com* *ocê se *erceb*a pro*issionalmente enquanto m*lita*? 3. Você se**ia que sua atuação era *econ*ecida dent*o d* instituição? De que fo*ma? 4. Ser mulhe* inf*uenc*ou sua experiênci* p*ofissional no ambien*e mil*tar? Como?
5. De *ue maneira su* *dentidade profissional f** con*truída ao l*ngo *a carrei*a militar? 6. *omo ocorreu su* s*ída do s*rv*ço militar? 7. Vo*ê re*eb*u *po*o instituc*onal ou or*en*açã* para a *ra*s*ção ao mercado Processo de civil? tran*iç** par* o *. Como foi o períod* imediata*ente ap*s o desligamento? mundo civil 9. Quais foram as *rincipais dificul*ades enfrentadas *esse proce*s* de t*a*sição? 10. Você se **nti* de*pre*arada ou desi*for*ada par* *ngress** n* mercado civil? Inserção 11. Quais tipos de trabalho ou **upações vo*ê con*eguiu a*essar após o se*viço prof*ss*ona* * militar? *ondiçõe* *e 12. Como você descreveria as *ondições desses t*abalhos? trabalho no *3. Pe*c*be difer*nças entre o trabalho militar/**v*l em te*mos d* *ev. FSA, Ter*sina, *. 23, n. 6, art. 1, p. 3-25, j**. *02* www4.Un*fs*net.co*.br/revista
Tra*siçã* *e Carrei*a de Mulheres M*lit**es e *i*cos *e Exclusão no Mundo Civil 11 merca*o ci*il *eg*rança/v**o**z*ção profissiona*? 14. Já vivenciou s*t***õ*s *e explo*ação ou *recarização do tra*alho? Poderia *el*tar? 15. A experiência militar foi *alorizada, ignorada *u questionada p*l*s e*pregadores? 1*. Como você percebe * reconhecim*nto so*ial da mul**r militar no me*c*do ci*il? 1*. Enfrentou **t*ações de pre*onceito ou *sti*m*ti*ação por t** sido mi*itar ou R*co*hecimento, mu*her? disc*imi*açã* e 18. Sent* que suas competências e h*bilidades *ão reconheci*as *ora do p*rcepção socia* ambie*te mil*ta*? 19. *omo es*as exper**ncias af*taram sua au*oestima e expectativas *ro*issiona*s? 20. Vo*ê acre*ita *ue homens *x-mi*itares viv*nci*m a tr*n*içã* d* *or*a dif*r**te? 2*. Durante a **an*ição, você acumulava *e*ponsabi**dades *amili**es ou de cuidado? Gêne*o, cuidado e *2.. EEsas rel*ponsamolmeant*os i**lcuêenpirarcaim uuaascestcaolht*rs**arlohfosssion*is? Com*s?ua s s bi *d d nf c s p i re*ponsabilidades 23alifi**ç*o?um a qu c e *o ei r abaixo d*
familiares 24. *erceb* que o mercado de trab*lho con*i*era *u ignora responsabilid*des? *ssas
*5. Como av*lia o *mpa*to de*sas questões em s*a trajetória p*ofis*ional atual? 2*. Q*e es*ratégias voc* de*envolveu para l*dar co* *s **ficuldades da Estr*tégias transição? *ndiv*duai* e 27. Houve redes de apoi* que f*ram importantes nesse *rocesso? coletiv*s *e 28. Que com*etê*cias a*qui*idas no s*rviço mil*tar você consider* mais enfrentamento rel*vant*s? 29. O que você acr*dita que poderia ter *acilitado s*a *nserçã* prof*ssional? *0. Que t*po de polític* públic*, program* institucional ou *nici*tiva p*ivada Avaliação *rítica e propo**ções poderia redu*ir as dificuldades enf*enta*as p*r mulheres militares na transição? 31. Que recomendações você dari* para ou*ras mulh*r*s militares que estão pr*st*s a deix*r a carr*ira? 32. *á *lgo em s** experiência *ue consid*r* fundame*tal para compr*ender a realidade das m**he*es *ilitares no me**ado civil?
Font*: Dados o*igi*ais da p*squisa. No que tange ao pro*ess* anal*t*co, ad*t*u-s* a técnica de aná*ise de conteúdo, conforme **st*matizada *or Bar*in (2*15). Para esta et*pa, os d*cument*s tr*nscr*tos foram an*li*ados e cat*go*izados p*ra melho* compr*ens*o das proble*áti*as ap*e*entadas pelas participantes. C*mplementarmente, rec*rre*-se à estatísti*a descritiva com o objetiv* de *onferir maior densid*de analítica à pesq*isa, utilizando co*o *uporte para a* an*lises o Excel. * RE*ULTADOS E DIS*U*SÕ*S A a*r**en*ação do* resu*tados foi estruturada de modo * ar*icular, de *or*a progressiva, a car***e**zaçã* e*pírica *as *artic*pant*s com a anális* *nt*rp**ta*iva dos dados *ev. FS*, Te*esina *I, v. 23, n. 6, art. 1, p. 3-25, jun. *026 www4.U*ifsanet.com.br/*evista
C. S. Marinho, *. F. Fausti*o-Di*s 12 *ualitativos. Desse modo, inicialmente, *rocedeu-se à caracterização do p*rfil *a* participan*es (Tabe*a 2). Tab*la 2. P*rfil das pa**icipantes da pesquis* Código Faixa e*ária Est*do civil Raça Orien*ação sexual Posto Situação F*lhos P1 3* - 4* C*sada Parda *ete*osse*ual Praça Re*erva 2 P2 3* - 4* Casada Preta Hete*ossexual Ofi*ial At*va - P3 35 - 44 Solte*ra Bra*ca *e*er*sse**a* *ficial Reserva - *4 35 - 44 Solteira *arda He*erossex*a* *ficial Ativa - P5 25 - 34 Solt*ira Preta Heterossexua* Praça *ti*a - P6 35 - 44 Casada Branca Heterossexual Oficial Ativa 2 P7 3* - 4* Solteira *ard* Het*rosse*u*l P*aça Res*rva - P8 35 - 44 Divorciada B*anc* Hete**ssexual Of*cial *ese*va 1 *9 35 - 44 Solteir* Parda Heterossexu*l *raça Reserva - P10 25 - 34 Solte*ra Parda Het*rossexu*l **aça Re*erva - *11 35 - 44 Casada Bran*a Het**ossexua* **icial Reser*a - P1* 35 - 44 Casada *ranca Heterossexu*l Praça Reserva 1 P13 35 - 44 *iúva Parda Heteros*e*ual Oficial Reserva 4 P14 *5 - 44 Casada Pard* Hete*oss*xual Pr*ça Reserva 2 P15 *5 - 34 Casada Branca Heteros**x*a* P*aça Reserva - *16 25 - ** *asad* Parda He*erosse*ual Pr*ça At*va 1 P*7 *5 - 34 *asa*a Preta Heterossexual Praça Reser** 1 P18 35 - 44 Casada Branca H**erossexual Oficial Reserva 1 P19 35 - 44 Solteira Branca Het*r*sse*ual Praça Reserva - P20 35 - 44 Uni*o estável Pa*da He*eross*xu** Oficia* Ativa 1 P*1 45 - *4 So*teira Pard* Ho*ossexual Ofic**l Reserva 1 P22 3* - 44 União estável Branca Heteros*exual Ofi*ial Ativa - P23 35 - 44 Divo*ciad* B***ca Heterossexual P*aça Rese*va 1 P24 3* - 44 Soltei*a B*anca Het*ross*xual Praça Ativ* - Rev. FSA, Teresina, v. 23, n. 6, a*t. 1, p. 3-2*, jun. 202* ww*4.U*ifsan*t.com.*r/revi*ta Transição de C*rreira de M*l*eres Militares e Ri**os de Exclusão no Mundo Civil 13 P25 35 - ** Div*rciada Par*a H**erossexual P*aça Res**va 1 P26 35 - 44 Casada Branca *e**rossexua* Praça Res*rva 2 P27 35 - *4 *olteira Branca Heterossexual Praça R*serva - Fonte: Resultados o*igin*is da pes***sa. Co*o se pode observar na Tabela 2, *á um pe*fil relativamente homogêneo das pa*ticipantes, com predo*inância ** mulheres na faixa et*ria de 35 a 4* an*s (21), indicando um grupo em fase interme*i**ia da tra*etória *r**iss*onal, com ex*eriê*cia consolidada no serviço m*litar e e* pr**es*o de tr*nsição ou já inserido na vida *ivil. Obser**-se *iversid*de quanto ao es*ado ci*il, *om maior i*c*dência de *u*h*res casada* (11) e solteiras (9), e prese**a su*erior de participantes *om *ilhos (14). Em **r*os r**i*is, há *epr*senta*ã* de mulheres brancas (13), *ardas (11) e p*eta* (3). *uanto à po*ição *cupacional, *á partici*ação de praç*s (1*) e oficiais (11), com predominâ*cia de mu**eres na reserv* (1*), alinhando-se ao foco da *esquisa. **r fim, a orientaç*o sexual é majoritariamente heter*ssexual (2*), com ba**a divers*dade ne*se as*e**o. As participant*s tam*ém f*ram *uestionada* q*a*to ao tempo necessá*io par* * r*colocação no mercado civil, bem como acerca das área* profissio*ais *retendidas (Fig*r* 1). De**ac*-s* que, me*mo entre aquelas que ainda *e encontram na ativa, há o reconh*cimen*o de que o p*o**s*o d* t*a*sição já se inicia de for** ant*cipad*, sobretu*o em função *as difi*uldad*s observadas n*s trajetórias de outras m*lheres m*litar*s, o que evidencia u* movimento de *repar*ç*o prév*a di***e das incertez*s e barreira* associada* à reinserção profis*ional. Fi*ura 1. Tem*o necessário para *ecolocação no mercado c*vil * áreas preten*idas *onte: Resu*ta*os *ri*inais da pesquisa. Rev. FSA, Te*esina P*, v. 23, n. 6, art. 1, *. 3-25, jun. 2*26 www4.Unif*anet.com.br/r*vista C. S. Marinho, A. F. Fau*tino-Dias 14 Os d*dos a*resentado* na Figura 1 in*icam q*e o pr*cesso de re**locaç*o no mercad* civil te*de * *correr, *ara a mai*ria das pa*ticipantes, em u* *orizonte relativam**te curto, com 59,3% das participant*s est*mando a*é seis me*es para *ei**erção *rofissional. *o *nt*nt*, *bserva-se uma parcela *ig*ificati*a (22,2%) que *rojeta um *eríodo su*erior a 24 meses, evidencia a coexistência *e percep**es otimistas expe*iê*cias marca*as por ma*or e vul*erab*lidade, o que pod* ser **terp*eta*o c*mo re**exo da assimetria ent** reconhecimento simbó*ico e efet*va re**stri*uição d* *por*unidades, conforme proble**tizado por Frase* (200*) e Fr*ser * Sousa-Filho (2020). Ademais, a concentr*ção das áre** pretendida* nos ca**os *dm***strativo (4*,7%) e d* segurança (26%) suger* u*a tentativa de conve**ão d* comp**ência* adquir*d*s no ambiente militar; contu**, tal *ovimento parece limitado pela dif**ul*ad* de tra*ução *e*se **pital pro*is*ion*l em cr*de*ciais val*r*zadas *o mer*ado civil, corr**orando as *iscussões *obre segme*tação ocupac*onal (RE*CH et al., 1973; DO*RI*GER; *IORE, 2020). Essa limitaç*o tende a dir**ionar essas mu***res para nichos mai* restrit*s, potencialme**e associa*o* a *a*or prec*r*zação, c*m* apont*do po* Standing (2011). Alé* di s * *, a rela*iva baixa div*rsificação das áreas pretend*das pode refletir não ap*na* preferências indiv*duais, ma* *ambé* *xpectativas *justadas *s ba*reiras *ercebidas, o q*e di*loga **m * noção de *eco*heci*ento condicio*ado (HONNETH, 2009; EICHLER, 202*). À lu* dess*s resul*ados, evidencia-*e que as es*imati*as de recol*cação e as á**as *r*fiss*onais pre*e*did*s não *sgotam a *o*preen*ão d* fenômeno investigado, *as confi*uram percepções in*ciais que *e*andam aprofunda**nto * luz *as experiê*cia* concr*tas das particip*ntes. Nesse sentido, a análise de *onteúdo das entre*istas possibilitou transcender o nível descrit*vo do* dados, p*rmitindo com*re*nder como tais expe*tativ*s são construídas, tens**nada* e, em muitos caso*, reconfigurad*s *o longo *o processo de tran*içã*. Os resultados des*a etapa *nalítica são apresentados a segui*. 4.1 Experiênc***, desafios * est*atégias na t*ansição para o merca*o **vil Tra*ando-s* *o eixo 1 (t*ajetória *ilit** e id*ntidade p*of**sional), as narrativas *as pa*ticipantes evidenci*m que a co*struçã* da i*entidade profissio**l n* contexto militar está ancorada em valores institucionais como *isciplina, hie*arquia e coletividade. *ntretanto, *sse processo oc*rre *m u* ambiente hi*toricamente masculinizado, no qual reconheci*ento o não é distribuído de forma eq**tativa. Como re**tad* *or *4, "eu pre*isei me provar o t*mp* Rev. F**, Te*esina, v. 23, n. *, art. 1, p. 3-2*, *un. 20*6 ww*4.*n*fsa*et.*om.br/r*vi*t* Trans*ção de Carreira de Mulheres Milit*res e Riscos *e Exclu*ão no Mundo C*vil 15 tod*, não bastava fazer bem feito", e*qu*nto P11 destac*u qu* "o re*o*he**mento vi*ha, *as sempre *epois d* muita co*rança". Os rela*os das pa*ticipan*e* reforçam que * validação prof*ssion** das mulher*s, difer*ntemente do que ocorre com *e*s *ares ma*culinos, n*o se configura como ** re*onhec*me*t* imediato ou pres*mi*o, mas c**o um p*oc*sso con*inuamente c*ndi**onado à conformid*de com padrõe* norm*tiv** historicam*nte asso*i*do* à mascul*ni*a*e. Essa d*nâmica r*vela qu* a co*petênc*a feminina, no contexto militar, nã* é to*ada como pr*ssup*st*, m*s como a*g* a s*r rei*erada*ente demonstrado e legitimado, o que impõe às mulheres uma ca*g* adici*nal de de*empenho e vi*ilância *obre suas próprias práticas. N**se sent*do, como *rgumentam ***g*n (2007) e *rowley e San*hoff (2*17), a cultura or*anizacio*al das instituições m*litares o*e*a a partir de um modelo de m*sculinida*e heg*mônica que estabelece cr*téri*s im*lí*itos de pertencimento, nos quais atributo* como fir**za, *esistência físi*a e aut*ridade são *ocial*e*te codificados com* masc*linos. As*im, me*mo q*ando as mulher** inc*rp*ram * perfo*mam t*is *tri*utos, *ua legitimidade perm**ece sob suspeita, uma v*z que s*a pre*ença tensi**a as fron*eir*s **mból*cas que su*t*n**m a ide*tida** ins*itu*ional. Esse proce*so produz *ma form* d* reconh*cim*nto prec*r*o, no qual a ac**tação é fr*q*en*eme*te contingente e reversível, *e*en*en*o da co*stante r*afi*mação de adequaç*o aos pad*ões domi*antes. Esse re*onhe*im*nto condicionad* pode ser interpre**do à *uz da teoria de Honneth (2009), *ue **onta *ue a constituição da iden*ida** depende de relaçõ*s sociais de vali*ação. No entant*, no caso das *ulher*s mili**res, tal re*onhecimento é f*equ*ntemente *arc**l e i**tável, o que implic* a neces*ida*e contín*a de re*f*rmação ** **mpetências. Ei*hler (202*) argu*e*ta que e**a dinâ*ica prod*z uma visibilidade ambígua: as mulheres sã* reconh*cid*s e**u*nto exceção, mas não *l*namente integradas à norma institucional, gerando uma identidade pro*issi*n*l *ension**a, *ue se sus*en*a i*t*r*amente, mas *ncontra dificuldades de legitimação fora da ins*ituiçã*. A*ém disso, a experiência r*latada pelas *art**i*antes reve*a qu* o reconhecim**to in*t*tucional não se t**d*z *eces*ariamente em capi*al sim*ólico transf*rív*l ao merc*do civi*. P8 afirmou *ue "lá de*tro eu ti*ha um papel claro, aqui fora par*ce qu* isso não vale *a**", evide*ciando a ruptura *ntre reconhe*imento interno e externo. *ssa *issociação refo*ça a *rí*ica de Fr*ser (2008), ao demo*strar que * re*onh*cimento s*mb*li*o, quando não articulad* à re*istr*buição *e *portunidades, perde sua ef*cácia pr*ti*a. A id*n*idade profissi*nal const*uída no ambien*e mil*tar também se mostra *imultaneamen*e um recurso * um obst*culo no processo *e trans*ção. S*, por um la*o, e*a Rev. *SA, Teresina P*, *. *3, n. 6, art. 1, p. 3-2*, jun. 20*6 www4.U*ifsanet.co*.br/revista C. S. Marinh*, A. F. Fa*stin*-*ias 16 ofe*ece u* repertório de competên*ias *alorizad*s (*idera*ça, o*g*ni*ação), p*r outro, está asso*i*da a estigmas e inc*mpree*sões no mercado civil. Co*o si*tetiza P1*, "eu sei * que sou *apaz, mas pa*ece que ni*guém aqui *ora entende i*so", revelando uma identidad* que, embo*a s*lida interna*ente, torna-se f*agilizada no processo de reinserção. O processo *e transição para o mundo ci*il (eixo 2) é descrito pelas *articipantes como abrup*o, desestrutur*d* e, em muitos c*s**, solitário. A ausência *e políti*as instituciona*s *ons**tentes d* apo*o à reint*gração emerge como *m dos princip*is *esa**os. P* r*l*t** *ue "não existe **epara*ã* real, você simp*esment* sai", e*quanto P19 *f*rm** q*e "é como se * institui*ã* e*cerr*sse o *ín*ulo se* orient*r o pr**imo *asso", evidenciand* *m* la**na instituc*on*l qu* *ra**fere para o indi*íduo a respon*a*il*dade *el* ada*tação. Essa ausê*cia d* supor*e *o*e s*r compreend*da como expressão de uma lógi*a in*titucional qu* valo*iza desempenho durante o serviç*, mas ne*ligenci* o p*s-carreira, o especialm*nt* no caso das mulheres. *astro (2021) já *pontava que a cultura m*litar t*n*e a reforçar a coesão *nterna, mas nã* n*cess*riamente prep*ra seus **mbro* pa*a a reinte*ra*ão so*i*l. No *as* das mulheres, es*a *ac**a é ampli**a po* *esigualdades *e gênero *ue **ficult*m o ace*so a re*es informais de apoio, conforme discutido por Leslie Koblin*ky * (201*). ** ponto *e vista subjetivo, a *r**siçã* é *a*cada po* sen*imentos *e incerteza, perda de iden*i*a*e e *esorienta*ão, configurando-se me**s co*o *ma si*ples *udança *cupac*onal e mais como uma ruptur* s*mbólic* prof*nda. P6 dest*cou *ue "p*rec* que você perd* um* par*e de quem v*cê é", enq*an*o P21 afirmou q*e "o mais difícil *ão foi sair, fo* *ntender quem *u era depois", evidenciando que o desligamento da ins**tuição militar implica não *pena* a s*ída de um e*paço de trabalh*, mas a desest*bilização de *m referencial identitário e*trutura*te. Es*es relatos dialogam co* Leslie e Kobli**ky (2017), ao *omp**enderem a r**ntegração como um p*ocesso de re*onst*ução *dent*tária, e com Ra*t*a* et a*. (202*), ao evidenciar*m a sob*eposição e *egociação co*tínua d* múltiplas iden*idade* *ociais no contexto pós-ser**ço. *e modo m*is *profu*dado, a partir dos rela*os, é possível compreend*r qu* essa *rise id*ntitária não ocorre em um *az*o *o*ial, mas é produzida e intensificada *or di*â*icas est*utur*is de gênero e reconh*ciment*. Eichler (2022) argumen*a *ue * *ransiçã* de mulheres m*litares é atrave**ada por um process* *e (*n)visibilização contínua, no qual suas *xperiênci*s são simultan*amente margina*iz*das e desle*itimada* tanto *o campo m*l**ar q*anto no civil. Rev. F*A, Te*esina, v. 23, n. 6, art. *, *. 3-25, jun. 2026 www4.Unifsane*.com.**/*evist* T*ansição de Carreir* de Mul*eres M*litares e Riscos de Exclusão no Mundo Civil 17 Nesse sentido, a perda de i**ntidade relatada *e*as partici*antes não se ref*re *pen*s à *usência de u* papel ins*ituciona*, mas fragil*dade * do reconhecime*to social de suas trajetórias, que não encon*ra* equ*valência ou valid*ção **ra d* contexto mili*ar. Es*a descontinuid*de do r*conhecimento comprome** a cap*cidad* de recons*ruçã* identi*ária, uma vez que, conform* *onnet* (2009), o desenvolvime*to do "se*f" dep*nde de r*lações sociais que confirmem o va*or das experiências in*ivi*uais. *dicionalm*nte, Sm*th et al. (2025) destacam *ue a transição mi**tar-***il, sob a perspectiva de gênero, tende a *er mais comple*a e prolong*da pa*a mulheres, justame*te porqu* suas ident*d*des *rofi*sionais são const*uí*as em c*ntextos nos quais já e*frenta* desaf*os *e legi*imação. Assim, ao *e*xarem * institu*ção, es*as mulheres nã* apenas p**dem *m referencial identi*ário, mas também s* deparam c** um me*cado de **aba*ho q*e não recon**ce plen*mente su** compe*ência*, *profunda*do a sensação *e desloca*ento, **idenciando *u* a *esor*ent*ção relatada não é m*ramente psicológ*ca, mas estrutur*l, resultante da interseção entre desiguald*d*s de gênero, segmentaçã* o*upacional e fragilidade das polític*s de r*i**erç*o. *l*m d*ss*, a s*breposição de identi*a*es (*rofi*sional, mãe, cuidadora e veterana), longe *e r*presentar apenas uma multiplicid*de de pap**s, configura u* *ampo de ten*õ*s no qua* diferente* exp*ctativas so*iais ent*am em **nflito (RAT*RAY et *l., 2023). De*se mo*o, a *eces*idad* de reorgan*zar essa* *imens*es em um cont*xto de *a*xa previsibilidade * re*onheci*ento l*mitado inten*i*ica o desgaste em**io*a* e cogni*iv* d*s partic*pantes, revelando que * transição deve **r *omp**e*did* como u* proces** relacional e contínuo d* negociação i*en*itária. O eixo 3 (inserção pr*fissiona* e c*ndições de t*ab*lho *o merca*o civi*) revelou-se marcado po* dif*cul*ades es*rutu*ais, especi*lmen** no que *e refer* à conv*rsão *e *ompetênc*as *ilitar*s em qua*ificações reconhecidas. P10 afirmo* q*e "o **e *u fazi* lá dent*o não tem e*uivalência aqui fora", enquanto P22 dest*cou que "é com* c*m*çar *o zero, mes*o com ano* *e experiência". Esses relatos co*roboram a *eo*ia da segm*ntação do mercado *e t*a*al*o (REICH et al., *97*; *O*RINGER; PIORE, 20*0), indican*o que essa* mulheres são frequ*n*emente d**eci*nadas p*ra seg*en*o* *enos *alorizados. Essa dificul**de d* inserção é agravada *e*as *ransform*ções conte*p*râneas do trabalho, carac*erizad*s pela precarização e flexibiliza*ão. P5 r*latou que "aceitei um tra*a*ho c*m menos salário *orque precisava t*abalhar", e*quanto **8 afirmou qu* "não t*nh* estabilidade n*nhuma", refletindo o *o*ceito *e precariado (STANDING, 2*11), no qual a i*segurança se tor*a *m* condiçã* *strutural. P*ra além da instabilid*de econômica, *ev. F*A, Teres*na PI, v. 23, *. 6, art. 1, p. 3-2*, jun. *026 *w*4.Unifs*ne*.com.br/rev*sta C. S. Marinh*, A. F. F*ustino-Dias *8 S*anding (2*1*) de*taca que o p*ecariado é *a*cado pela ausência de ide*tidad* ocu*acio*al estável e pela fragi**d*de de direitos socia*s, * qu* co*promete a capacidad* de p*anejamento de longo praz* e * construção de t*a*etóri*s profissionais coerentes. No caso da* mulher*s mi*itares, essa condição é **n** ma*s complexa, pois a ruptu** com um* carr*ira est*utur*da e p*evis*vel é subs*ituída por vín*ulos frágeis e descontínu*s, *ntensificando a se*sação de desamparo e *escont*nuida*e ide*ti*ária. Sob*e i*s*, P13 destac*u q*e "*ive que mu*a* d* área porque não consegui vaga *a minh*". *demais, e*sa inserção precá**a *ende a ref**ç*r c*clos de vulnerabilida*e, n*s qu*is a necessid*d* *m*diata de sub**stênci* s*brepõe-se à possibili*ade de mobilidade pro*is*io*al, limit*nd* per*pecti*a* de ascen*ão e c*nsolidando posiç*es perif*ri*as no mercado *e t*abalho. *ratando-s* do eixo * (reconh*cim*nto, discriminação e per*epção soc*al), as experi*ncias relatadas *elas pa*t**ipante* revelam que o ***on*ec*mento no merca*o ci*il * marcado por ambivalê*cia e, em muitos casos, *or discrimina*ão. *1 afirmou q*e "alguns acha* interessant*, ou*ros não levam s*ri*", enquan** P*1 destacou que "já ouvi *ue a mulh*r nã* d**eria estar no exército", eviden*ian*o p*ocessos de *stigmatização, con*orme discutido por *offman (2019). Essa ambiv*lência está relaciona*a à *ons*rução social da identidade *ilitar como intrinsecament* masculina, o que p**iciona a presen** *eminina não apenas como exceção, mas c*mo uma ruptura simbólica que tensiona *ormas instituci*nais profun*am*nte *nraizadas. Mo*gan (2007) e Crowley e S*ndhoff (2017) ar**menta* q**, nesses conte**o*, as **lheres são consta*temente interpel*d*s a e*uil*b*ar at*ibutos considerado* "a*equa*os" *o de*empenho m*litar (firme*a, autorida*e e resistência) com *xpe*tativas so*iais de *eminilidade, *rodu*i*do um processo c*ntín*o de negociação identitári*. E*sa negociação não *e limita ao ambien*e milit*r, mas se p****ta *o merc**o civ*l, onde t*is mulheres *arregam uma ide*ti*a*e híbr*da qu* d*safia c*tegori*s *onvenc*onais de *ec*nhec*me*to profi*sional. *esse sentid*, a ambivalên**a *bser*ada não é meram*nt* p*rcep*iva, ma* *strutural, *ois deco*re *a dificuldad* d* en*u*drar a e*peri*nc*a feminin* militar em re**r***iais n*rmativo* q** *ontinuam send* definidos a par*ir de parâmetr*s mas*ulino*, o que co*tribui pa*a * p*rsi*t*ncia ** estranh*men*o e deslegitim**ão. Além di*so, o reconhecimento das competênc*as adquiridas no serviço milit*r *evela- se frequentement* li**tado e mediad* p*r processos de incompreensão desconfiança. P7 e relatou que "*s pessoas nã* e*tendem o que ** fazia", e*quan*o **6 afirmou que "pare*e que nã* confiam na m*n*a ex*eriênci*", ev*denciando uma la*una *n**e * exp****ncia vivida e s*a *radução no merca*o civil. Essa difi*ul*ade nã* s* restringe à comu*icação das Re*. FS*, *eresina, v. 23, n. 6, art. *, p. 3-25, jun. 2026 *ww4.Unifsane*.com.br/revista T*ansição de Carre*ra de Mulhere* Mili*a*es e Ri*cos de Excl*são no Mundo Civil *9 habilidades, **s r*flet* uma hierarquia s*mbólica que desvalori** trajetó*ias que *scapam *os modelos tradicionais d* carreira. À *uz *e Honneth (2009), ta* cená*io configura uma forma de r*c*nh***mento p*rcia*, na qual as capacida*es *essas mulhe*e* não são plenamente valida*as, compro*et**do *u* integração soc*a* e p*o*issional. Ademais, essa desconfianç* revela um m*canismo ** reprodução *e de*igual*ades, n* qual o capital profission*l femin*no, *specialmente quan*o associado a esp*ços masculinizados, é sis*ematicamente questionado, d*f*cultando sua legit*m*çã* e limi*ando suas possibilidade* de inserção qualif*c*da no *o*o contexto. Ao a*aliar de *orma as *espon*a*ilidades fami*ia*e* (eixo *), as narrativas e*ide*ciam que as r*sponsa*i*idades *e c*id*do desempe*h*m pape* c*n*ral n* traj*tória *e tra*sição. P6 afirmo* que "t*ve q*e concil*ar t*do soz*nha", e*qua**o P17 desta*o* que "meus filhos influen*iaram todas a* *inhas dec*sões". Confo*me *iscutido por M*c*ado e *il (2*17) e Araújo (202*), a divisão s*x*al do t*aba**o no *ontexto brasileiro atrib** às mulher*s * re*ponsabilid*de primária *el* c**dado, n*tura*izando sua cen*ralidade nas atividades re*rodutiv*s e, simultaneamente, desvaloriza*do e*se trabalho no pla*o econ**ico * *ocial. Essa dinâmica implica q*e a tr*nsição para o mundo civ*l *ão se confi*ura c*mo *m proces*o *utônomo de *sc*lha p*ofis*i**al, mas **mo uma negociação co*sta*te entre necess*dades familiares e op*rtunidades dispon*veis, frequ*ntem*nte *esul*ando em t*ajetó*ias *arc*das por conce*sões. * *iter*tur* em econom*a fe**nista (FOLBRE, 2001; FRAS*R; SOUSA-FIL*O, 20*0) refo*ça q*e * tr*balho de cui*ado, embora *ssenc*al par* a reprodução social, p*rma*ece invisibilizado e não *em*nera*o, g*rando u* parad*xo n* qu** as mulheres são simultane*mente *n*i*pensáveis e *arginalizadas. No c*so das mul*eres milit*res, es** contr*diçã* é intens*fi*ada pela *uptur* co* **a carre*ra que, *mbora exige*te, oferecia maior pre*isibi*idade e estr*tura organi*acional, sendo s ubs t i t uí da po* um c*ntexto civil que *ão reconhe*e nem acomo*a essas deman*as. Além disso, e*sas d*mandas l*mitam as possibilida*es d* inserçã* profissional. P12 relatou que "aceite* um trabalho mais simp**s p*r c*usa d* rotina da família", evidenciando * relaçã* e*tre cuidad* e subemprego. Considerand* t*das as problemáticas até aqui ev*den*iad*s, as par*icipantes *oram qu*stio**das sobre suas est*atégia* individu*is e colet*v*s d* *nfrent**en*o (eix* 6) dessas *ificuldades. Nesse con*e*to, as pa*ticipantes eviden*iam a mobilização de estratégi*s d* enfrentamento ancoradas na r*siliência e na *daptação, as *ua*s, embo*a relevantes, revelam- se pro*unda*ent* con*icionadas p*las estruturas sociais que molda* suas t*ajetó*ias. Rev. *S*, Tere*ina PI, v. 23, n. 6, art. 1, *. 3-25, **n. 20*6 www*.Unifsanet.c*m.b*/rev*sta C. S. Marinho, A. F. F*ustino-Dias 2* P9 *firmou que "u*ei a *isc*plina militar para me or*aniza*", enquan*o *25 *estacou a importância das *edes *e *poi*, in*icando *ue co*petências int*rnalizadas no contexto mi**tar (pl**ej*mento, *utocontrole e gestão de adversidades) s*o ress*gn*ficadas c*mo recursos p*ra a sobr*vivênci* n* am*ie*te civil. Nesse s*ntido, t**s estratég*as po**m ser compreendi*a* como f**mas de capital *ncorporad* (BOU*DIEU, 198*), que, embora não plenamente reco*hecido instituci*nalm*nte, m**il*zado ** ma*eira pragmátic* pelas partici*antes. *at*ray et al. é (**23) *eforç*m *ue * cap*cidade de atribuir sentido à experiência *ilitar e d* acion*r re*es de a*oi* constitui um *lemento *entral para a reinte*ração, es*ecialmen*e em *ontextos *ar*ados por instabilidad* e baixa previsibilid*de. *ntretant*, a ênfase na resiliência *ndiv*dual d*mand* *ma leitura *rítica, na medida em q*e pode *bscurecer as condiç*es **truturais *ue tornam tai* estratégias n**essária*. Como argum*nta Eichler (2022), a transição de mulhe*es mili*ares é atravessada *or p*ocessos *e invisibilizaçã* que de*locam a re*ponsabili*a*e da ada*t*ção p**a o indivíduo, descon*i*erando a ausê*cia de mecanism*s in*t*tuci*nais de supor*e. Nesse sent*do, a r*siliência, fr*quen*emente *elebrada como atributo positivo, p*d* o*erar com* um di*p*s**ivo *e no**aliz*ção da pre**riedade, na medi*a em q*e legitima a p*rmanência de condiçõe* adversas ao invés de *uestioná-l*s. Ess* interpretação é corrobo*ad* por F*a**r (2008), a* de**ac*r que soluções centra*as *o indivíduo *endem a reforçar desig*a**ades quando *ão a*t*culadas a políti*as de *edistr*buição e *econhecime*to. Adicionalme*t*, a **bil*z*ção d* redes de ap*io, e*peci*lment* entre m*l*eres v*t*ra*as, em*rge como um elemento ce*tral nas narra*ivas, como *viden*iado *or P14: "o apo*o de outr*s m***eres fez di*eren*a". Pa*a *articipan*e, **sas redes func*ona* como a espaços de *roca, validação e suporte emociona*, contribu***o p*ra a recons*rução *dentitária e pa** o enfrent*mento da* di*iculdad*s cot*di*n*s. Sob a **rspecti*a de Co*l*ns (2020), t*is a*ticulações p*de* ser compreen*i*a* como práticas de resistência c*let*va, n*s *uais experiência* compartilh*das de ma*ginalização d*o *r*gem * for*a* d* solidariedade e produ*ão de c**h*c*mento ***uado. Co*tudo, embora rel**antes, essa* *ed** n*o substituem a ne*essidad* *e suporte i**titucional, o*erando m*itas vezes como mecanismos *o*pensatóri*s frente à au*ência *e polít*c*s estr*turad*s. Ress*lta-se que é fund*mental *econhec*r *u*, embora es**s *str*t*g**s ev**enciem agência e c**aci*ade ad*ptativa, ela* nã* são *uf**ientes para alter*r as condiçõ*s estr*turais que produzem desigualda*e. Como **ontam *mit* et al. (2025), a r*in*egração de mulheres Rev. FSA, *eresina, v. 23, n. 6, art. 1, p. 3-2*, jun. 2*26 w*w4.Un*fsa*et.com.br/r*vista Tran*ição de Carrei*a d* Mulheres Militares e Riscos *e Excl*sã* no Mundo Civil 21 mil*tares tende a reproduzir *adr*es de exc*usão quando n** há intervenções insti**cionais *ue enf*entem as *ar*eiras de g**ero no mercado de *raba**o. Assim, as estratégi*s de enfrentamento *dentificad** *este estudo devem s*r *ompreendi*as menos como so*uções *efinitivas e *ais como resposta* si*uad*s a um context* advers*, *o qual a adaptação individual coexiste co* a persist*nc** de desigualdades es*ruturais. E*sa con*tata*ão reforça * neces*idad* de deslocar o foco analítico d* res*l*ência in*ividual para a transformaç*o das condiçõe* sociais que t*rnam e*sa resi*iê***a indispensável. Por fim, o eixo 7 (avaliação *rític* e pr*posiç*es) evi*encia, de man*ira contundente, a convergência das par*icipant*s em t*rno da ins*f**iência e, em muitos ca*os, da ausênc*a, de polític*s p**li*as es**cí*icas v*ltadas à rein*erção de *ulheres m*litare* no mercado civil. P2 a*irmou qu* "f*lta apoio es*rut*r*do", enquanto P13 destaco* * nec*ssidade de pr*gr*m*s direcionados, revelando *ão ape*as lacunas opera**onais, mas u*a negligê*cia i*stituc*onal mais ampla e* reconhecer as especificidades dessa **ansiç*o. Essa ausênci* de suporte sist**á*ico indica que processo de reintegra*ão te* sido o historic*me*te *on*ebido s ob um * lógica u*iv**salizante, que desco**id*r* as pa*ticularidades de gênero e as *r*jetó*ias di*erenciada* dessas *ul*eres, refo*çando um modelo implíci*o de *olítica pública centrado no su*e*to masculino como r*ferê*cia *o*mat*va (EICHLER, 2022). Nesse co*te*to, as *emand*s apre*ent*da* pelas **r*ici*antes evidenciam *ue a *einserção *em sid* trata*a predominantemente como uma respo*sabi*ida** indivi*ual, deslocand* para as pr*pria* mulheres o ônus d* sup*rar barreiras e**ruturais. Ta* configu*ação dialoga diretamente com a crít**a de Fraser (2008), ao *pontar qu* a justiça social não p*de *er alcanç*da por m*io de **tratégias q*e priv*legiam exclus*va*e**e o rec*nhe*imento si*b**ico ou a adap***ão indiv*dual, send* necessária uma articulação efetiva com mecani*mos de redistribuição de recur**s e o*or*unidades. Ao n*gligenciar essa dimensão, as políticas ex*stentes, quando presentes, t*ndem a reproduzi* desigualdades, ao invés de mitigá-las, pe*petuand* um cen*rio no qua* a **l*erabili*ad* se to*na uma *ondiç*o *atu*alizad* do processo de transiç*o. Adiciona*m*nte, as propostas ap*ese*tadas pela* particip*ntes (pr*gramas d* capacitaç*o, apoio p*ic*ló*i*o e *niciativ*s de empre*abil*d*de) reve*am u*a com*reensão p**tica das *acunas ex*stentes, ao mesmo tempo em que ind*cam caminho* poss*veis par* a formulação de políti*as **is efic*zes. R*v. FSA, Te*esina PI, v. 23, n. 6, *rt. 1, p. 3-25, j*n. 2026 www*.Unifsanet.c*m.br/revista C. S. *ar*nho, A. F. Faust*no-Dias *2 No enta**o, um* análise *rít*ca dessas suges*õe* per*ite ***e**ar que, em*or* necessárias, tais inici*ti*as ainda op*ram, em grande medida, no n*vel da mit*gação dos ef*itos, sem necessariamente enfr*n*a* a* *ausas estruturais da exc*usão. N*sse sentid*, como apontam S*ith et *l. (2025), *nte*venç*es que não incorp*ram uma perspectiva de gênero tendem a apresentar resultados lim*t*d*s, pois não *lteram os mecani*mos que *r*duz*m desiguald*de no acesso e na p*rmanência no merca*o d* *r*bal*o. Di*o isso, * análise deste eixo re*orça *ue a transição de mulh*res m*lit*res para o m undo *ivi* nã* pode ser compreendida como um event* p*ntual, mas como um p*oc*sso *str*turalmente *ondici*nado, qu* exige res*ost** in*titucio*ais in*e*ra*as e sensí**is à* *últiplas dimensõe* *a experiência fe*i*ina. Ademais, ausência de *olítica* a*ticuladas a n** apenas *i*icul*a a *e*nserç*o *rofissional, mas ta*bém co*promet* * construção de tra*etór*as sustentá*eis e equitati*as. * CO*SIDERAÇÕES FI*AIS A pres*nte pesquisa te*e co*o obj**iv* **mpr*end*r, a *artir *e um est*d* de *a*o com abordag*m qualitativa, como se configu*am os de*afio*, as formas de e*plor*çã* e o* risco* d* exc**são vi*enci*dos *or m*lhere* militares n* processo de transiç*o *ara o mundo civi*. * análise evi*enciou que ess* p*ocesso não se limita a *ma mudança oc*pacion*l, mas envolve uma reconfiguraç*o prof*nda *as id*ntidades, das condi*ões materiais de exis*ência e das forma* de reconhec*m*nto *ocial, se*do a*ravessado *or dinâmicas *st*uturais de gênero, segmentação do *er*ado de **abalho desigual*ades institu*ion*is. Ao e longo *os eixo* *nalisados, tornou-*e possível identi*ica* qu* a t***sição é marcada por descontinuida*es si*bóli*as e mate*i*is, nas quais a p*rda *e re*onhe*i*ent*, a ***iculdade d* inserçã* qu*lificada e a sobr*c**ga de respo*sabilid*de* de cuidado se articulam n* produção de vulnera*ilid*des e**ecífica*. No p*ano teórico, * pe*quisa contribu* ao evidenc*** empiricamente * necessida*e de arti**laç*o entre diferent** pers*ect*v*s anal****as, especialmente a teoria do reconh*ciment*, a abo*d*gem da red*stribuição, a seg*entaçã* do mercado de trabalho, a interseccionali*a** e * economia fem*nista. Os *esul**dos ind*cam qu* tais abordagens, **ando in*e*r*das, permit*m uma compreens*o mais ro*usta do f*nômeno, ao dem*nstr*r q*e as dificuldades **fren*ad*s pelas mul*eres militar*s não s*o isoladas o* circunstanciais, mas resultam da interdependênc** en*re dimensões simbólic*s e mate*iais da des*g*aldade. Re*. FSA, Teresina, v. 2*, n. 6, *r*. 1, p. 3-*5, jun. 2*26 www4.Unifsane*.co*.br/r*vista Transiç*o de Carreira de Mulhe**s Militar*s e Riscos *e Exclusã* *o Mundo Civi* 23 Além dis*o, a pes*uisa reforça * crítica conte*porânea de que o reconhecimen*o insti**cional, qua*do não aco*pa*hado por mecanismos de redistrib*ição, ten** a se* insu*iciente para gar*nt*r inser*ão eq*itativa no m*rcado civi*, ampliando o debate teóri*o sobre tr*nsições profi**ionais em con*ex*os marcados por desigualdades de gêner*. No âmbito prático, os acha*os apont*m par* a necessidade de formu*ação de po*íti*as públicas * institu*iona*s *ais sensíve*s às especifici*ades da transiç*o ***inin*. A ausência de programas estr*tura*os de ap*io, eviden*ia*a nos rela*os, indica a urgê*cia de iniciativas que con*emple* n*o apenas a ca*a*itaçã* pro*is*ional, mas ta*bém o suporte ps*cológico, a mediaçã* com * mercado d* traba*ho e o r*conheciment* formal da* co*pe*ênci*s adquir*das n* serviço *i**tar. Ademais, * centralid*de das r*sponsabilida*es de cuidado sugere que po*íticas de reinser*ão devem incorpo*ar mecanismos qu* *onsi*erem a divisão sexual do traba*ho, como *lexi*ili*ação de jorna*as, apoio à pare*t*lidade * ince*tivo à equidade de gê*ero n*s organi*açõe*. Nesse *ent*do, * pes*uisa contr*bui ao *ornecer subsídios emp*rico* pa*a a construç*o d* *rogram*s mais e**cazes e inclusivos. Como co*tribuição gera*, o estudo avança ao dar vi*ib*li*ade às e**eriências de mulheres milita*es e* transição, um grupo ainda po*co explorado n* *iter*tura nacion**, espec*a*mente sob uma perspectiva c**tica e interseccional. Ao articular r**atos empíricos c*m referenciais teórico* consolidad**, a ***quisa amplia a compreensão sob*e c*mo *es*gualdade* de gêne*o se r*p*oduzem em conte*tos institucionais dis*intos, evidencian*o * contin*idade ** *ecanismos de exclusão *ntr* o ambiente mi*it*r * o civi*. Além disso, contri*ui me*o*ologicamen** ao demons*rar * p*t*nci*lidade da an*lise de *onteúdo como ferramenta **ra c*p*ar dim*nsões subjet*vas e estrutu*ais de fen*menos sociais compl*xos. Não o*sta*te, a *e*quisa *pres*nta limitaçõ*s que d*vem ser consideradas. Por s* tratar de um estudo d* caso com amostra espe*íf**a, os r*s*ltados não podem ser generalizados *ara t*da* as mulh*res m*litare*, ainda que ofe*eç** indicativo* *elevantes para contextos similares. D*ante **ssas limitações, sug*re-*e que pesquisas futuras conside*em dese*hos longi*udina*s *ara compreender a evolução das trajetórias de re*nserção ao longo do tem**. Po* fim, in*e*tigaç*es que articulem mé*odo* quantitativos e qualitativos *odem *ontribui* *ar* a c*nsolida*ão de *vidências mais ab**ngentes, f*rtalece*do o c*m*o de es*udos sobr* tr*nsição militar-civil sob a perspectiva de gênero. Rev. FSA, Ter*sina PI, v. 23, n. 6, art. 1, p. 3-25, j*n. 2026 www4.Unifsanet.co*.br/r*v*s*a C. S. Ma*inho, A. F. 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Faustino- Dia* 1) con*epç*o * planeja*ento. X X *) *nálise e in*erpretação d*s dados. X X *) elaboração do ra*cunho ou na rev*são *rí*ica d* cont*údo. X X 4) p*r*ic*pação na aprov*çã* da *er*ão ***al d* manuscrito. * X R*v. F*A, Teresina PI, *. 2*, n. 6, art. 1, p. 3-25, j*n. 20*6 www4.Unifsanet.com.*r/revista

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