Centro Unv*rsitário Santo Agostinho www*.fsanet.com.*r/revista Rev. FSA, Tere*i*a, *. *5, n. 6, art. 10, p. 181-194, *o*./de*. 2018 ISSN Impre*so: 1806-63*6 ISSN *letrônico: 2317-2983 http://dx.doi.org/10.1281*/2018.15.*.10 A Imaginação de Descartes em "A *e*metria" De*ca*tes' Im**ination in The "**ometry" Raqu*l Anna Sapun*ru Do*t*ra em Filo*ofia pela Pon**fíci* Universi*ade *atóli*a *o Rio de *aneiro Professora I*st*tuto de Ciência * **cnologia *a Universidade *ederal do* Vales do Jeq*itinhonha e Mucu*i E-*ail: raquel.sapu*aru@ict.uf*jm.*du.br End**eço: Raq*el *nna Sapunar* E**tor-Chef*: Dr. Tonny Kerley d* A*encar Cen*ro Universi*ário Santo Agosti*ho - A*. Valter Rodri*ues *le*car, 6*6, São Pedr*, Zi* c*de: 64.019-6*5, Te*esina/PI, Brasi*. Artigo recebido em 23/08/2018. Úl*ima versão rece*i*a *m *5/0*/2018. *pro**do em 16/09/2018. Av*l*ado p*lo sistema *riple Re**e*: Desk Review a) pelo Edito*-Chefe; * b) *ouble Bli** R*vie* (avaliaç*o cega por d**s avalia*ores da *rea). Revis*o: Gra*atical, No*mativa e *e Form*tação R. A. S**unaru 182 *ESUMO A imagin*ção * u*a das mais fascinant*s *apacid*des da m**te hum*na. Por essa razão, ao lo*go da h**tória da humanidade, vári*s filóso*os se empenharam em explo*á-la, de *á*ias manei*as. Um dele* foi *e*car*es. O objetivo *o presente artigo é di*cutir um a*pec*o *artic*lar do pensamento de *escartes, r*la**vo à ima*inaçã*, que ap*r*ce em * Geometria. O métod* uti*izado aqui é a pe*quisa bibliográ*i**. Pa*avras-cha*e: Descartes. *mag*nação. Matem*tica. ABSTR*CT Imagination is one of the m*st *as*inating capacities of the hu*an spi*it. F*r this reason, throughout t*e history o* hum*nity, seve*al philosophers have endeavo*ed to expl**t it in many ways. One of them was *e**ar*es. The ai* *f th* pr*s**t article *s to di*cuss a pa*ticular asp*c* of Desc*rtes' thinking concernin* i*a*ination whi*h appears in The *e**e*r*. *he method use* here is the biblio*ra*hic r*search. K*ywords: De*cartes. *magination. Mathematics. Rev. FSA, Teres**a, v. 15, n. 6, art. 10, p. 1*1-194, nov./dez. 2018 www4.fsa*e*.com.br/re*ista A Ima*i*a*ão de Descartes em "A Geometria" *83 1 INTR*D*ÇÃO A imaginação per*ence à v*d* interior, e para Descarte* não *oderia ser *ui*o diferent*. Segundo o D*cionár*o *e F**oso*i* d* *bbagna*o, o v*r**te "i*agi*a*ão" as*ocia*o à Filosof*a ** Descar*es ide*tifica ** i*aginação i*úmeras atividades espir*tuais. Aqui interessa somente imag*nação ligada ao estudo de no*as a figuras ou curvas, que o filóso*o tamb*m denominou de repres*ntação (AB*AGN*NO, 200*). N* Regr* XII, da obra Regras para * *ire*ão do espír*to, de 1628, Des*artes afirma: Finalmente, há que utiliz** todos os recursos *o entendimento, da im*ginaç*o, dos sentidos e da *emória, quer pare termos uma in*uição d*sti*ta das proposições sim*les, que* para estab*lecermos, e*tre a* cois*s que s* procuram e as conhecid*s, uma ligação adequ*da *ue as permita *econhecer, quer aind* para encont*ar as coisas qu* entre si se dev*m comparar, a fim de s* *ão omitir nen*um recurso da *ndústria humana. (DESC*R*ES, 201*, p.*5). Pode-se até mesmo diz*r que a ima*inação compõe uma *spé*i* *e um segundo uni*erso o* de um univ*rso par*lelo dentro da cabeça h*ma*a *ue t*mbém proc*ssa sua vida exte*io*. É pos*ível invent*r t*do: de *nimais m*to*ógicos a evento* *ue não oc**reram; de utopi*s *ociais a ar*e de *an**arda, só para exem*l*ficar. (DORTIER, 2014). Sim... em *e tratando d* imaginação, v*le tudo! H*storicame*te *ala*do, a im*ginação é uma *as hab*lidades humanas ma*s ant*ga*. O pe*samento e su* exteri*riza*ã* vêm sendo am*l*me*t* melh*rados pel* linguage* argume*tativa de*critiva. Porém, o pensam*nto adquir*do pelos *inco sentidos precede* * a linguagem *rgument*tiva e descritiva por centenas de mi*hares de an*s. Entã*, *ó h*via uma lingua*em comu***ativa *o que se p*rcebia pelos cinc* sent*d*s, (DORTI*R, *01*). La G*otte *e *ascaux é um ótimo exemplo dessa l*nguagem rudim**tar. Segundo o si t * oficial de L* Gro*te de L**c*ux, http://arc*eologie.c*lture.fr/lascau*/fr, *ua descoberta, em 1940, não s* abr*u uma no*a página no c*nheciment* *a arte p*é-histór*ca e da* origens do homem, mas também pos*ibili**u uma nova fo*ma de p*n*** a *e*ação *n*re a ar*e e a imagina*ão. C*mo **stra a Figu*a 1, trata-se de uma obra incomum q*e c*nt*nua a alimentar o imaginário *oletivo poi*, além de uma maravilho*a *au*a pr*-histórica, *á v*rio* s**ais enigmátic*s *nscritos nas parede*: pontos, linhas ponti*ha*a*, flecha*, tri*ngulos, en**e o*t*os motivos *e*métricos. Talvez e*ses ***** os prim*iros rudimentos de uma *inguagem matemática, já argumentativ* * descritiv*, *u* utiliz* a imagin*çã*. Rev. *S*, *eresi*a *I, v. 15, n. 6, **t. 10, p. 181-19*, nov./dez. 2018 www4.fsan*t.com.br/rev**ta *. A. *apu*aru 184 Figura 1- A G*uta de Las*aux F*nte - http://arc**ologie.cult*re.fr/lascau*/fr Para os p*ime*ro* s*re* humanos, uma esp**i* de intervalo c*g**tivo ab*iu-se *ntr* o estím*lo a r**p*sta. Essa la**na cri** a possibilidade de m*ltipla* re*postas pa*a uma e mesma per*epção, pois *udo nela cab*r*a. I*so f*i crucia* para * desenvolvim**t* *a capac*dade de imaginar a* coisa*. Def*nitivamen*e, cria-*e *m e**aço i*terior apropriado pa*a o d*senvolviment* d*s me*tes h**anas. Em seg*ida, os **rebr** humanos *n*ci*i* começaram a gerar in*ormações, ao invé* *e *pena* gr*vá-l*s e *rocessá-las. *eu-*e, e*tão, o i*íci* ** criação *e represen*açõ*s de coisas que nunca existiram, ou seja, das cois*s ima*inadas. (DORTIER, 2014). Dando um *alto de La Grotte de La*caux diretamente par* o século *VII de Descartes, q*es**ona-se: P*d*ria a i*aginaç*o desemp*nh*r *m *apel *elevant* no c*n*ecim*nto matemático? S* sim, como isso s* deu n* *bra d* *e*car**s? 2 REFE*E*CIAL TE*RICO Após o ápice *a g*ome*ri* dos a*ti*os, o estudo das linhas curvas sof*eu u* *r*nde processo de *e*aceleraç**, com alguns pouco* trabalhos i*olados como, por **emplo, o* de *r*sme n* século *IV. *s*o durou *té o século XVII co* o surgi**nto dos **abal*os de Viète, *e*mat e Des*artes. Poré*, somente a*ra*és dos esc*itos de D*scar*e* é *ue os mét*dos foram i*trod*zidos na geometria. Graças a es*e filósofo, f*i p*ssí*el c*nstruir u* siste*a de c*assificação de curvas planas que s* o*denava como g*aus de uma equaçã* ou, com* *esca*tes preferiu en*nci*r, como **neros. Rev. FSA, Tere*ina, *. 15, n. 6, ar*. *0, p. 181-194, no*./dez. 2018 ww*4.fsanet.com.br/*e*ista A Imagi*açã* d* *escarte* em "A Geometria" 185 *esse modo, D*scar*es *ons*guiu estabel*cer **a no*ável conexão qu* aliava * geom*tria à *l**bra, possibilitando o estudo das linhas ret*s e curvas *ssociad*s a um *istema de *o*rde*adas. Tal c*nexão c*am*-se ge**etr*a analítica * foi a*re**ntada *e*a primeir* ve* em A Geometria, em 1637. Segundo o matemático Mo**a, "* Geometri* A*alít*ca, como a conhecemo*, foi desenvol*ida g*a*ual**n*e sob a influênc** do *ivro de De**a*te*. " (M*NNA, 1977, *.14) e, *o *esm* sécu*o XVII, gr*ças a e*ta obra, os progressos *atemáticos po*sibilit*ram o desenvo*vimento d*s Cálcul*s Difer**cial e Integral * da F*sica. Sobre *sse desenvolvim*nto, Hawking *firma **e "Isaac Newton não poderia nunca ter formulado suas lei* *em a G*ome*ria *nalítica de René Descartes e *em sua *rópria a invenção do cálculo" (HAWKIN*, 200*, p.1*). Dit* iss*, analisa-*e, primeiramente, * *étod* ** Descar*es, conforme d**cr*to em O Discu*so do Método, *e 1637. Na primei*a edição desse l*vro, A Geome*ria a*arece como um a*êndice e c*ncl*i-se que ela s*rviu de tes*e para os método* de Desca*tes, *elo menos para um del*s. A segu*r, e**bo*a-se um b*ev* resumo dos qu*tro *étodos, a saber: a) o pr**eiro é o da "evidência", *oi* não se deve admitir nenh*m conh*cimento *om* verdadeiro, ca*o n*o se tenha evidências indiscutí*eis pa*a ta*. E* outr** palav*a*, ne*hum conheci**nto deve ser julgado p*ec*pitadamente, nem prec*n*eitos de qualquer ord** d*v*m ser alim**tados * só se deve admi*ir *omo verd*deiro o con*ecim*nto "claro e distinto", isto é, aquele do qual não se pode duv*da*. Assi*, antes *e *udo, temo* qu* duvidar para cheg*rmos à v**dade; b) o segundo é * d* "análi*e", que nos ensi*a dividir u* a prob*ema em ta*tas partes quanta* for*m *os*íveis, até qu* s*as dific*ldades se tornem faci*idades; c) o terceiro é o da "*ín*ese", *ue *raça um cam*nho contr*rio a* da "análise", partindo d* pro*lema mais simples m*is * fácil, par* o m*is composto e mais difícil, *or ord*m. No fim, deve-se examinar cuidadosa*ente as conclu*õ*s d* composto para im*ed*r descuid*s q*e levem ao erro; *; d) o úl**m* * o da "enumeração", ou método do "*esmembramento". *sse método fundamenta-se em des*em*rar e enu*erar exaustiva ordenadamente e *m probl*ma c*mposto, **pos*ibilita*d* a supre*sã* de q*alquer par*e dele. A*r*vé* del*, garante-se que na*a será esquecid* ou perdido no processo de s*l*ção *o probl*ma. (D*SCAR*ES, 1950-1*56, p.16). Ob*e*va-se que a proposta de Descartes * si*p*es: d*ve-se fazer uma e *ó uma coisa de *ad* v*z, p*ra a*can**r a *olução ve*dad*ira de qualquer pro*lema; e é o próprio Descar**s que just*fica suas regr*s: Es*** longas c*de*as de razões, tão sim*les e fá*eis das qua*s os *eôm*tr*s têm co*tume *e se servir para ch*gar as suas mais difí*eis dem*nstra*ões, levaram-me a imagi*ar Rev. FSA, Teresina PI, v. 15, n. 6, a*t. 10, p. 181-1*4, nov./dez. 2018 www4.*sanet.com.br/r*vis*a R. A. *apu*aru 186 que **das as coisas q*e podem cair sob o conhec*mento dos h**ens *ncadeia*-se do mesmo *od* e que, co* a única *ondição de nos abste*mos de aceitar p*r verd*d**ra *lgu*a que **o o seja e de obser*arm** sempre a ordem necessária para deduz*-las umas das outras, *ão pode exis*ir nenhuma *ão afastada q*e *ão possam*s enf** chega* a *la e ne* tão escondida que não a d*s*u****os (DE*CARTES, 2017, p.17). (gri*o meu) No *nt*nto, em um determina*o mom*n*o de A Geometria Descarte* ob*erva-se c*m a**omb*o e angústia que, mesmo ut*liza*d* seu poderoso método, a*gumas *urva* encontrava*-s* so**nte n* âmb*to da imaginação, pore le renegade pere*ptor*amnete. Algun* anos d*pois, com o filó**fo *inda vivo, cons*atou-se que tudo *ão passava de um engano, isto *, era p**sível trabalhar matemática * m*tod*camen*e com essas curvas. 3 METO*OLOGIA Co*forme informado an**riormente, *oi feita uma ampla pesquisa bibliogr*fica, devido à natureza do a*sunto, mas, infelizmente, *iscorrer sobre essa me*odolo*ia é um pouco d*f*c**, *ist* que *sse tipo *e pesquisa é a raiz de todas as outras. Grosso modo, q*al*uer que seja o assunto p*sq*isado, será feita uma pesquis* *ibliog****c*. Assim *e*do, o*jetivando se**rar a pesq*isa bib*iográf*ca *tilizada em qu*lquer tipo de pesquisa d*quela *qu* utilizada, esta s*rá denom*n*da "pes*uisa bibliográ*ica pura", pois fundamenta-se só soment* só em *onte* bibli*grá*icas. Os dado* foram ob*id*s a partir e conhecim*ntos escritos em livros, r*vis**s e na World W*de W*b (www), *or*v*n*e ch*m*da de interne*. Ressalta-se q** não há *esq**sa que, em alg*m momento, *ão recorrerá a s*mente e*sas fo*tes, conforme Lakatos e Marc*n* (*005). Neste *rtigo *ntitula*o "A Im*g*nação de Descartes em A Geome*ri*" **contram-se também al*uns traços das pesqu*s*s descri*iva doc*menta*. A **im*ira é rea*izada c*m e o intuito d* desc***er as ca*acterísticas do fe*ômeno qu*, no caso, é o uso ou * mau us* d* *maginação por De*carte*. É *reciso esclare*er que a *xploraçã* do fenômeno, neste *aso, tem como objetivos dese*volver ou esclarecer conce*tos e ideias. Ess* tipo de *esquis* foi *qui utilizada, *e for*a *ais mode*ta, pois havia poucas i*f*rmaçõe* disp*ní*eis sobre o tema. A *scassez de informa*ões to*nou difí*il * formulação de hipótes*s sobre o *orqu* D*scartes *ejeit*va c*m tanta veemência o uso *a *ma*inação na *atem*tica. A *egunda, trilha os mesmos c*mi*hos da "pesqu*s* bibl*ográfi*a p*ra" a*ui apresentada, poi* a pesquisa docume*tal recorre a f*ntes mais divers*ficadas e disp*r*as, sem tratamen*o analítico. *pes*r de a pesqu*sa do**mental ter um amplo espec*ro, este tra*alho R**. FSA, T*resina, v. 15, n. 6, a*t. 10, p. 181-194, no*./dez. 2018 www4.fsanet.com.br/revist* A Imaginação de *escartes em "A Geometria" 187 restringiu-se a do**men**s retrospectivos, cons*de**dos c*entificamente autênticos, os quais se encontram sob a responsabili*ad* d* Bib*iothèque Nati*n*le de Fran*e (Bn*), a Gallica. Mesmo que nem toda infor*ação disponibilizada em meio* eletr*n*c*s deva ser c*ns*derada de caráter h*stórico-fil**ófico-ci*n*ífico, em se *rata**o dos arquivos da Gal*i*a, estes têm sua importânc*a ma*s do que comprovada no que t*nge a *ste tip* de cont*ibuição. Retornando à "pesquisa bibliográfica pura", para dissecá-la um *ouco mais, por "bibli*gráfic*" en*ende-s* u** mo*ali*ade específica de documentos, a sa*er: ob*as escrita*, imp*es*a* em editoras, classificadas e* bib*i*te*as, ma* *am*ém bases de da*os na **ternet, *m sites c*nf*áveis, *u seja, assinados e inst*t**ionais. Nesta mod*lid*de específ*ca, os "blogs" foram descart*do*, po*que se tratam de opiniõ*s pessoai*. Além disso, * "pesquisa bibliográfica pura" f*i fei*a a par*ir d* levantament* *e referê*cia* teóricas anal*sadas previame*te em outros t*abalho* já publi**dos e, a par*ir daí, foi feita uma s*ntes* do *e*same*to *os autores consul*ados. A p**para*ão cuid**osa da "pesquisa *ib*iog*áf*ca pu*a" aq*i ap*esentada *oi c*ndição essenc*al p*ra a construçã* e f*nalização do pr*sente art*go. Na busca da* i*formações, for*m levados em conta a*guns a*pectos, entre os *uais destacam-se: 1) a d**inição *o con**xto da busc*; 2) a se*eçã* dos re*ursos disp*nív*is n* internet: índices, ca*á*ogo*, met* *esqu*sa*, ent*e outros. Pa*tic*larme**e, a pes*uisa de arti*os de p*riód*c** se deu por meio de ***ices *speciali**dos que man*êm, para uma determi*ada ár*a d* c*nhecim*n**, no caso a f*losofia d* Descartes * a questão da imaginação, um le*antam*nto de art**os de u* gr*nde número de perió*icos *ue po*em ser "baixad*s" p*ra o computador ou *mpressos diretam**te. O Portal de Perió*icos da C*orden*ção de Ape*feiçoamento de *essoal de Nível **perior (CAPES) d*spon*b**iza *c*s** ime*iat* * *rodução científ*ca nacional e internaci**al, e aqui foi amp*amente utili*ado, bem co*o os por*ais disponi*ilizados pela Bibliotec* da UFVJM. O uso **sses Portais é livre e g*atuito para os usuários d*s in**ituiçõ*s participantes. 3.1 A *maginação em A Geometri* de Descartes Os *iló*ofos em *eral têm um rela*i**amento de am*r e ódio com a imaginaç*o. Descartes não fugiu à regra. Por um lado, desprezo*-a, *ratando-a como u* obstáculo, po* *u*ro, *eu-lh* *m pouco de crédito, mas *ão *uito. De qualquer modo, para *le, a i*aginação pa*ecia at*a*alhar mais do que auxiliar. Não *ra *om a imaginaç*o q*e *escartes *ev. FSA, Teresi** PI, v. 15, *. *, a*t. 10, p. 181-194, n*v./dez. 2018 www4.fsanet.com.*r/*evi*ta R. A. S**unaru 188 pretendia chegar à ve*dad*, às res*osta* para a* *u*stões mais profundas sobre a natureza *a *xistênci* human*, t*mpouco s*b*e as verda*es matemáti*as. Tentan*o imagina* o caminho para a verda*e Me****sica, ele *screveu, em 16*1, Le* Mé*itations Métaphysiq*es. (DOR**ER, 2014). Logo na primeira das s*is meditações, Descarte a**rma ser *ma toli** e*p*rar obter uma *magem ma*s clar* d* mu*d* através **s sonhos, ou seja, *ua*do se ado*mece. (DESCARTES, 2005; DORTIER, *014). *a segu*d*, De*cartes descreve * i*aginação c*mo uma das man**ras de c*nceber a ***ia de uma cois*. T**a ve* *ue a*guém se concentr* em *ualquer coi*a que deseja sa*er, ou seja, quando pensa em a**o, estar*a "*onc*be*do" essa coisa na mente. Logo, im*ginar algo é simplesmente conce*ê-*a por meio *o tipo de id*ias que se atri*uí aos senti**s: qualidades es*aciais e tempora*s, q*alid*des físicas de todos os tipos, a*a*ência. A concepção e a imaginação não sã* meios *ntagônicos do *o**ecimento, mas d*fe*em em s** g*neralida*e. A imagi*ação é apen*s o nome ** um t*p* de concepção. *lgu*as *oisas podem ser ima**nadas e também pod*m ser pensadas, is*o é, concebida* sem ser *ma*inadas: um tr*ângu*o, por exemplo, que *im*lesmente pode ser pensado em *ermos d* sua definição como uma figura que contém três *ng*lo*, ou pode ser imaginada como um a coisa física. (*ESCARTES, 2*05). Cont**o, não são Les Méditations M*ta*hysiques que s*r*irão *e b*se para a d*scussã* sobre a imagi*a*ão que aqu* *e pre*endesse fa*er. Descart*s *ambém *eve *roblemas com a im*ginação an*eriormente, *os s*us ensaios científicos e matemáticos, co*o em *e Monde, de 1633, e em 1637, no Discurso do Método: *our bien c*n*uire sa r*i*on, et che*cher la vérit* dans les sc**nces. No a*ê*dice *o Discurso do *étodo, cujo tí*ulo é A Ge*metria, Livro II, Descartes d*scute um método ut*liz*do *m outro apêndice des*e mesmo *iv*o, L* Di*ptrique, para explicar as côn*c*s, q*e são os c*rculos, as parábolas, as *ipé*bol*s * as elipses. Em *eg*ida, mesm* obtend* *ucesso c*m *ssas curvas, *escartes afirmou que **o poderia tr*tar nenhum out*o tipo *e cu*va que, às vezes, se comporta*s* como l*nha *eta às vezes, co*o li*ha e, curva. Por *xempl*, * cic*o***, as fu*çõe* t*igon*métricas, as funçõ*s loga*ítmicas, as funções exponenciais, a espiral d* Arqu*me*es, o logaritmo e*piral, e*tre out*as, c*nf*rme Figuras 2, 3, 4, 5 e 6. R*v. FSA, T*resina, v. 15, n. 6, art. 10, p. 181-194, nov./dez. 2018 *ww4.fsanet.com.br/revista A Imag*naçã* *e Descartes em "A Geometria" 189 F*gura 1 - Ciclóide Figura 2 - Funções trigonométricas F*gura 3 - Funções *ogarí*mic*s Fig**a 4 - *unç**s expone*ciais Fig*ra 5 - Espiral de Arquimedes Rev. FSA, Teresina PI, v. 15, n. 6, art. 10, *. 181-194, nov./de*. *018 w*w4.fsanet.com.b*/revista R. A. Sapunaru 190 Na letra d* Desca**es: [] pois, ain*a que *ão pos**mos t*atar que se assemel*e a essas cord*s, ou seja que se tornem às vezes ***as e às vezes **nhas curvas, devido à propo*ç*o desc*nhecida *ue *á entre as linhas retas e *s linhas curvas, acredito que elas *ão possam *er co**ecidas pelos ho*ens. (DESCARTES, 2017, p.51). Figura 8 - G*áfico do li*ro A Geometria de De*cartes represe*ta**o curvas que po*em ser desenhadas / cal*ulada* sem o *so da i*aginação. Fonte: Adaptaç*o *e Bruna Fernandes Bar*osa para o GEOGEBRA. Cabe, agora, *nt*nder os limi*es de De*cartes para tratar d*te**inadas cu*va* através do *ntend*mento da Figura 8, que trata *a* Cô*icas d* Ap*lônio. A Figu*a 8 é o retrato da tr**sfo*m*ção das côn*cas *a álgebra ru*imentar nascente do s*cul* XVII, com o aux*lio da*u*lo que iria ser chamad* mod*rnamente de plano cartesiano. *esca*te *nicia su* análise est*belecendo que *s l*nha* procurada* sã* A*, IH, ED, *F e GA. Em seguida ele toma um po*to *, de m*do qu* d*senhan*o as linhas C*, CF, CD, CH e C* em ângul*s *etos sobre ** linhas dadas a*teriormente, forma-*e o paralel*píp**o com as linhas CF, CD, CH, igu*l àquele **rmado pel*s *ua* linhas *e*as C* e CM e uma tercei*a AI. Destaca-se a importância desse pon*o pa*a todo o raciocínio do f***sof*, sem o *ual ele andaria *m *ír*ulos. (DESCARTES, 2017). Então, Descartes fez CB=y, C*=x, *I ou AE ou GE=a, de modo que o pon*o C estivess* posi*ion*do entre as linhas AB e DE, C*=2a-y, CD=*-y e CH=*+a. Depois, *ultip*icou conju*tam**te os *rês e ob*e*e C*·C*·CH=y^3-2*y^2-a^2 *+2a^3, q*e é igual ao Rev. FSA, Tere**na, v. 15, *. 6, *rt. 10, p. 181-194, *ov./dez. 20*8 www4.fsane*.com.br/revi*ta A Imaginação de Descart*s em "A Ge*met*ia" 191 pr*duto a*y. N* sequênci*, Descartes cons*dera a linha curva, CEG *ue el* afirma *maginar ser des*rita pela intersecção da *arábol* *KN, cu*o di*metro KL sempre s* *ncontra ao longo da linha reta A* e da ré*u* GL. No entanto, essa régua **ra sobre o pon*o G de tal maneira que ela sempre recai no pla*o da parábo** e passa pelo po*to *. *escartes contin*a fazendo, KL=a e * p*in*ip** la*us re*tum, *sto *, o segme*to de **ta que pas*a *or *m dos focos da c*ni*a cu*o compriment* é mínimo, aquele que se rel*ciona com o e*xo da p*rábola dada, * t*mbém ig*al a a e GA=2a e CB=MA=y * C*=AB=x. Logo, devido aos t*i*ngulos *emelhant*s GMC e CBL, *M/MC=2*-*/x, as*im *omo *B/**=y/xy/2a-y; e visto que *L=a, BK=a-xy/2a-y=2a2-ay-*y/2a-y. Finalme*te, Desc*rtes concl** que, assim como esse mesmo B*, send* um se*mento *o diâ*etro da parábola es*á *ara BC, este es** para a, que é * la*us rectum. O cá*cul* m*str* *ue y3-2*y2-a2y+2a3=axy. Portanto, C é o ponto *olicitado e p*de ser *o*a*o sobre qualque* par** da *inha curva CEG que se queira, ou no *eu complemento c*Gc, descrito da m**ma for*a que o anter*or, *xceto que o vér*ice d* parábo*a estará virado n* di*eção oposta ou, *nfim, ** sua* contrap*sições NI*e nIO, **e sã* descritas pela *ntersecção qu* * linha GL fa* no outro lado da parábola com K*. (DESCA*TE*, 2017). *escartes c*nti*ua sua análi*e reafirman*o seu método de enc*ntrar um *onto p*lo **al seja possível *ra**r lin*as retas e curv**. No entanto, o f*lósofo chama a atençã* de seu* leitore* para uma que*tão cruci*l: a difere*ça entre ess* méto*o d* enco*trar mu*tos **nt o* p*ra *raçar uma *inh* curva outro p*ra e as curvas transcendentes. Para essas *urva*, nem todos os pontos podem ser e*con***dos facilmen*e. Portanto, para Descartes, não se pode encontrar um desses po*tos, como o po*to C. C*nseq*e*te*ente, a solução *e determin*dos pr**lemas *stari* comp*ometida, conforme suas pró*rias *alavras. **sim, Descartes acredi*ava q*e a Matemát*ca *ue envolvia essas lin*as não poderi* ser *onhe*ida pelos homens, p*i* iria além sua capacid*de de *onheciment*, ou estariam l**itadas ao âmbito da imagin**ão. (D*SCARTES, 20*7). Pa*a melhor *ompreende* A Geometria, é p*e*iso sem*re *er em mente que *sta *br* f*i e*crita para *emonstra* os *éto*os do r*ci*c*nio correto discutidos no Discurso d* Mé**do. A*s*m, como dito anter*ormente, n*o f oi po* acaso que A Geometria surgiu pela primeira v*z como um apêndice d* Discurso do Métod*. Além disso, *e*car*e*, no Discurso do M**odo, *al*u re*etidamente s*bre * "claro e **stinto", **s *m A Geometria essa clareza e distinção deixou um pouc* * desejar, po*que o *ilósof* exagerou nos d*talhes de *lg*mas **plicaçõ*s e omiti* *s de outras, tornando a obra "es*ura e baralhada". Es*a falta de "clareza e d*sti*ç*o" pode es*ar associada a um desconforto ** t*abalh*r com ** curvas qu* Leib*iz, Rev. FSA, Teres*** PI, *. 15, n. 6, ar*. 10, *. 181-19*, nov./dez. 2018 ww*4.fsa**t.com.br/r*vista R. A. Sapun*ru 1** ent*e *utr*s matemáticos, chamaria anos depo*s de "*ra*sc*ndente*", *á **s*radas anteriorm*nte. Essas curvas *e***d*a* do conh*ciment* da quadratura do cí*culo para ser*m c*nstruídas e equacionadas algeb*icamente. Infelizme*te, Descartes po* n*o t*r explorado s*a imaginação mate*ática, temen*o cont*ariar alg** princípio rac*o*al, nã* lev*u suas cons**u*ões a diante, *eixando es*apa* a *es*oberta do* *álculo* Diferen*ia* e Integral. (BO*TROUX, 19*0, 19*5; GO*DIM; SAPU*ARU, 2015). Nos trabalhos ci*ntíficos d* Descartes, ob*er*ava-se u*a preocupação *m elim*nar a i*ag*na*ão: "Des*artes ti**a como me*a principal *iminuir o papel da imagi*aç*o." (BOUTRO*X, 1900, *.21). Par* que *sso acont*ces*e, era preci*o co*stit*i* uma *i**ci* de gr*n**zas *erais que **du*iria a esta todas as o*t*as ciênc**s: trat*va-se d* *riar uma Matemática *niversal. E*sa nova ciê*cia traria para *i a g**ndeza abstrata, mas não aquela adqui*id* *ela intelectua*izaçã* ou const*ução de uma i*agem, suscetível de torna*-*e *m receptá*ulo de determ*nações partic*lares. *s ideias de quantida*es desp*o*ida* de toda imagem que permi*iss*m rep*esentar * imag*naç*o ser*am os objetos des*a nova ciência. *o fim *as contas, Des*a*tes *ão criou essa *at*mática Univers*l porq** j**gou não ser possíve* operacionalizá-l* e, qua*do af*rmou que não poderia ex*lica* determinadas curvas, e*tende-se que ele t*m*ém não cons*gui*ia imp*imi*-lhes, mes*o que imag*nariamente, o movi*ento necessário de form* a enc*ixá-las em sua gra*de máquina universa*. (BOUTROUX, 19*0, *955; GON*IM; SA*UNARU, 20*6). 4 CON*LUSÃO Um aspe*to do pe*samento *e Descartes menos *iscu*ido do *ue seu ceticismo * seu dualismo é * *eu reconheciment* de que há característi*as hu*ana* que não são referentes apenas ao corpo ou à mente, mas que envolvem a*bos, com* a imagin*ç*o. Descartes estabelece* um* Filoso*ia, na qu*l o mun*o *onsist* *m dois tipos d* substânc*a* distint*s: a res cogitan* e a res extensa, pensame**o m*té*ia, respectiva**nte. O mundo fís*co e é ma*éri*; Deus e a*jos são mente. Os seres hum*nos *ão um* c*mpos*ç*o d*s dois, mente e ma*éria. Assim como a matéria **m s*as propri*dades, *omo *amanho, forma, p*so, a me*te tem a* sua*, ou se*a, pensar, duv*da*, entender, *fi*mar, nega* e arrazo*r. (DORT*ER, 2*14). O problem* enc*ntra-*e *as sensações e emoções que envo*vem tanto o corpo quan*o a m*nte em uma uniã* corpo-mente indissociáve*. De*se modo, enquanto a sen*ação requer órgãos *ensoriais, que são *a*eriais, a emoç*o i*clui inúmera* al*erações corp*r*is. *ra, a *m**in*ção pod*ria t*mbém estar inclusa nessa dual*da*e corpo-me*te, *ois seria consider*** R**. FSA, T*r*sina, v. 1*, n. 6, *rt. 10, p. *81-19*, nov./dez. 2018 w**4.f*an**.co*.br/revista A I*agin*çã* de Des*artes em "A Geometria" *93 como a c*mbinação de um* imagem mental e um* sensaçã*. Con*udo, * imagem não é de algo que se revela diant* de nossos olhos, mas algo que evoc*mos e* n*ssos olhos. (D*RTIER, 2*14). Por*anto, *moção, sens**ão e imaginação não se *ncaixariam na *strutur* filosófica dualis*a de Descartes, visto que exig*m um corp*. S*n*o assim, de a*ord* com D*scartes, a in*elecção p*r* deve ser superior * imaginação, g*ranti*do sempre que De*s tenh* um* c*mp*een**o **perior à nossa. I*so nos permite o *ntendi*ento de c*i**s que imaginamos, como fig*ras geométricas de muit*s lado* ou *esmo linhas que se comportam ora como retas, ora como curva*. E*se fato pa*ece *ue p*rturb* D*sc*rtes em *m nível quase que insupo*táv*l. (DOR**ER, 2014; DES*ARTE*, 201*). Em v*rias ocasiões, *o longo de A Geometr*a, *escartes, afirmou que só se p*de entender *quilo qu* s* *ode im*gina*, implicando, portan*o, que * *maginaç** *eria um modo *omu* de pensar. El* completa seu pensa*ento dizendo que imagina* seria um mau caminh* p*ra o pensamento verdadei*o, racional, uma i*atur*dad* mental, *ípica do senso c*mum e não dos filósofos, poi* *m*l*c*va no uso dos *enti*** enga*adores. C*nclui-s* então *ue De*cart*s *ra, p*r um *ado, um oponente feroz da imaginaçã* * tentou, a todo custo, empur**- la para a margem de sua Filosofia, mas por outro, sentia-se obr*g*do a *ecorrer a ela quando se depara*a com polinô*ios d* graus *lt** e com o i*stinto d* tra*sfo*mar a geome*ri* em álgebra. Dev**o a essa dualida*e, ele deixou escorrer entre os de*os os Cálc*los Diferencial e Inte*ral, q*e ***s tarde foram consa*rados po* Newton e *eibniz. (BO*TR*UX, 1900, 1*55; GO*DIM; SAPUNARU, 20*6; DORTIER, 2014). REFERÊNC*AS ABB*GNANO, N. *ic*on*rio de *ilos*fia. Sã* Paulo: Martins Fo*tes, 2003. BO*T*OUX, P. L'idéal scient**ique des mathématiciens dans l'antiq**té e* dans les te*ps **dernes. Dispo*ível em < **tps://gallica.bnf.fr/ark:/1214*/b**6k29111g/*1.image>. Úl*imo acesso: *5 *e jul. de 2017. ____________. L'imagination et les mathé*atiques: selon Descartes. *aris: *. Alcan, 19**. *ESCA*TES, R. A Geometria. Tradução do *rigin*l La Géométrie. Disponível em < https://g*llica.bnf.fr/ark:/12148/*tv1b860**594/f528.image>. p.297-4*1. Introduç*o e *omentários de Bruna Barbosa Fernande*, C**diana da *ilva, Fi*i** Bru*inga Brant * Raqu*l Anna Sapunaru. 2a. edição. São *aulo: Edi*or* *a L*vrari* da Física, 2015. ____________. Discours de la *éthode pou* *ie* conduir* sa raison et ch*rcher *a v*rité dans *e* sciences, *l*s *a dioptriq*e, les météores et la géo**tri* qui sont des essais de Re*. 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Sapu**ru *) co***pção e plan*jam*nto. X 2) análise e int*r*retação dos dados. X 3) **abo*ação ** rascu*ho ou na *e*isão crítica do conteúdo. X 4) **rti*ipação na aprovação da versão fina* *o m*nu*crito. * Rev. F*A, *er**ina, v. 15, n. 6, *rt. *0, p. 1*1-194, n*v./d*z. 2018 www*.f*anet.c*m.br/r*vista

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