www4.fsane*.com.br/revista Rev. FSA, Teresin*, v. 14, n. 1, art. 2, *. 30-56, jan./fev. 2017 ISSN *m*r**so: 1806-6356 ISSN E*e*rô*ico: 2317-2983 ht*p://dx.doi.or*/10.128*9/2017.14.1.2 Memória, Esquecimento e Imagin*rio: A Tr*ma Entre Ficção e História em Nun*a *ui Primei*a D*ma Mem**y, Oblivion, Ima**nary: Thread*ng Fiction a*d his*o*y in "Nunca *ui Primeira D**a" Ana *úcia Mont*no B*essio *o*tora em *etras/Literatura pe*a U*iversidade Fed***l do Rio Gr*nde do Sul Profe*sora da Un*versidade F*deral do Pampa E-m*il: *naboessio@unip*mpa.edu Ot*vi* Botelho **sa Mest*ad* em Letras pe*a **iversid*de Federal de Pel*t*s Graduaç*o em Letras/P*rtuguês pela Univ*rsi*ade Federal d* Pam*a E-*ail: o*avio.jag@g*ai*.c*m Endereç*: Ana *úcia Montano B*essio Editor Científico: Tonny *erley de Alenca* R*d*i*ue* Ende*eço: **a XV de Novembro, 2*4 - *asa 4. *aguarão/RS, *rasil - 96**0-*00. Artigo recebido em 11/*0/2016. *l*ima versã* *e*ebi*a em 05/11/*016. Aprova** em 06/11/2*16. Ende*eço: Otavi* Bote*ho Rosa En*ereço: Ru* XV de N*vembro, 20* - *asa 4. Jagu*rão/RS, Brasil - 9*300-*0*. Avaliado pelo siste*a *riple R*view: De** Revie* a) pelo Editor-Chefe; e b) *ouble **ind Review (avaliação ceg* por dois *valiadores da área).
Revis*o: Gram*t*cal, Norma*iva e de Fo*mat*ç*o Ap*io e financia*ento: LALLI - Laboratór*o de Liter*tur* e *utras *inguagens, GP Língua* e Linguage*s n* *rontei*a, Univ*rsida*e *eder*l do Pampa.
Memória, *squ*cimento e Imagi*ário: A Trama Entr* F**çã* e Históri* em Nunca Fui *rim*ira Dama 31 R*SUMO Situa*a numa Cuba pós-revolução, obr* a d* We*dy Guerra configura-se como u* grand* pal*mpsesto, um espaço fragmen*ado que se c*nst*tui a part*r de um jogo entre memórias pes*oais e fat** históricos, inclusive nomes v*r**ic*s da luta **vol*ci*n**ia cubana, *escla*os a elem*ntos e perso*a*ens da c*ltura cubana e internaci*n*l *a época - trec*os de poemas, de m*s**a*, d* *ivros, e até de *upostos diários, o* qu*is, at*avés da t*ama ficci*nal, gan*am voz e força de autenticidade. Atravé* *e seu alter ego, a *utora-personagem- narrad*r*,Nadia Gu*rra, se aut*d*n*mina uma "filha da pátria", lutan*o por res*a*ar a própria identid*de dilu*d* em uma memória que se cons*itu*, desconsti*ui * se reconst*tui a parti* de rest*s *e m**óri*s *e**oais e c*let*v**, ent*e o p*s*ado e * pres*nte de uma n*ç** cuja re*resen*ação ga**a *imensões c*rpóreas: Nadia não apenas *arrega suas memórias no próprio co*po, mas também as vê refletid*s no corpo do Outro, fazendo da hist*ria se* cenário principal, ao *esmo temp* em q*e faz d* m*móri* subjetiva um espelho d**vel*dor da soci*dade, marcado *obretudo pelas opacidades do esqueci**nto e/ou da interdi*ão. Sendo assim, optan*o por u*a abordagem compa*atista, e tendo como referenci*l teóri*o as *bras de Paul Ricoeur, Ja*ques Le *off e Miche* Maffesoli, * obje*ivo d*ste tr*balho é analisar o espa*o da memória e do ima*in*rio e sua inte*-relação com a Histór*a na constit*ição da identi*ade de Nadia Gu*rra, entendida pelo **stígios da au*ora no texto, c*mo seu alter ego. Palav*a*-chave: *i*eratura. Memória. Hist*ria. Cuba. A*STRACT Located in * pos* r**olution Cuba, th* work b* Wendy Gue*rastan*s as a great palimpsest, * fr*g*ent*d space in*ertwined by pers*na* memo*ies, histori*al *acts *ncludin* tr*e names - from Cub** revolut**nary army -, all t*r*aded by ele*ent* an* *haracters from C*b*n culture of that time, suc* as fragment* of poems, musi*, books, an* even suppo*ed *iar*es, whi*h through the *ictio*al construction ga*n voi*e a*d fo*ce of authen*icity. T*roug* h*r alter ego, t*e *ut*o*-char*cter-narr*tor, Nadia *uerra, d*fines her*elf as a "Nation\s daught*r", and strug*les to re*cue her own identity, di**ted into a me*ory whic* constitutes, de-constitutes and rec*nstitutes *tself **ro*gh fragments o* person** *nd col*ective m*mories, between pa*t and *r*sent of * n*ti*n wh*se re*r*sentation acquires corporeal d*mensions: Nadi* *oes not only carr* her memorie* in h*r own b**y *ut also see* them refl*cted on the body *f O*hers, turning history into *er m*in scen*rio, turning *t the same t**e subje*tive mem*ry int* a society\s unveiling mirror, ma*ked ma**ly by the opa*ities *f ***i*i*n and/*r *nterd*ction. There*ore, *ro* * comparati*e approach and having as theore*ic*l r*ference the works by Paul Ric*eur, Jacques *e Goff and Michel Maff*s*li, *he a*m of this pa*er*s to *n**yze the space o* m*mory and imaginary a*d its relation to his*or* i* the con*tit*tion of Na**a G*e*ra\s identi*y, *nderstood as trac*s of *** **thor\s p*esence in the text, as he* alter ego. Keywords: Literature. Memory. **story. Cuba. **v. *SA, Tere*ina PI, v. 1*, n. 1, *rt. 2, *. 3*-*6, jan./f*v. *017 www*.*sanet.com.b*/revista A. L. M. Boessio, O. *. Rosa 32 1 IN**OD*Ç*O Pe*sar a obra de Wendy *uerra imp*ica v*slumbrar um **rritório ne*uloso, cujos *imites se d*sso*ve* c*da *ez mais, à medida **e *dentramos a na*r**iva. Ape*ar de *ind* inédit* em su* *e*ra natal, Nu**a Fui p**meira Dama já foi pub*icada e* oi*o países e, *lém de ter sido l*nçada no Br*sil em 2010, f*i *am*ém u*a das gra*des e*trelas da FLI* (*e**a Liter*ria Internaciona* de Par*ty/R*) naquele an*. Situa*a *um* *uba p*s-revolução, a obra de G*err* configura-se c*m* um g*ande **limpsesto, *m espa** frag**ntado qu* s* co*s*itui a partir de um jo*o entre memórias **s*oais * fa*os h*st*ricos, inclu*iv* no*es ver*dic** *a luta re*olucionár*a cu*ana, sobretudo de integrantes do movimento 26 d* Julh*, como Fidel Castro, Che Guevar*, Albis Torres e Célia S*nchez. Tudo isso mescl*do a elem*ntos e personagen* da **ltura c*b*na e in*ernaci*nal da ép*ca - *r*g*ento* de poema*, de m*s*cas, d* livros, e até de su*ostos diários, *s qua**, atra**s *a tr**a ficci*n*l, ganha* voz e força de aut*nt*cid*de, *epre*en*ando o caminho trilhado pela aut*ra/p**s*nagem na luta po* r*sgatar a p**pria identidade *iluída na me*ória histórico-**lítica *e C*b*. Atra*és de se* al*e*, a narra*ora, Nadia Guerra, s* autode**mina "ór**", devi*o a uma infâ*c*a marcad* pela ausên*ia dos pai*, os *uais eram *inculad*s à mi*i*â*cia revo*ucionária *uban* e que, mais tarde, foram coagido* a deixar a il*a. A* lon*o do *exto, pode-*e obse*var a *reocupação da escritora cubana, qu* v*venciou muit*s dos fatos histó*icos r**istr*dos na obra, com a *ues*ão da m**ória, a qual se cons*itu*, descon**itui e se rec*nstitui a p*rtir de fragme*t*s pessoais e *ole*i**s entre o *assado e o present* de uma naçã*, cuja *ep*ese*tação ganha d*men**es c*rpóreas: Nadia G*erra nã* apen*s carr*g* *uas memórias no próprio corpo, mas também as *ê refleti*as no cor*o do O*tro. Como a*i*ma a *arradora, "*eu país, *eu *useu **sso*l" (GUERRA, 201*, p. 97). E * as**m que, a* t*cer a tram* de*sas memórias, a autora constrói a sua narrativ* *m *m jogo ent*e *iter*tura e história, faz*ndo desta seu *enár*o *rin**p*l, ao mesmo tempo ** qu* faz da mem**i* su*j*tiva um e*pel*o *esv*lado* da socie*ade, ma*cado sobretudo pelas *pacidades do e*quecime*to e/ou da inte*dição. Por*anto,a pa*tir de u** abordagem comp*rat*sta e tendo *omo referencial *eórico as ob*as de P**l Ricoeur, Jacques Le Goff e Michel Maffesoli, o objetivo **ste t*aba*ho é *nalisar o espaço da memória e *o imag*nário e sua inter-relação com a Histó*ia n* co*sti*uiç*o da iden*idade da persona**m Nad** *uerra, a*ter ego da aut**a. R*v. FSA, Teresi*a, v. 14, n. 1, art. 2, *. 30-56, jan./fev. 201* www4.fsanet.com.*r/revista M*móri*, Esquecimento * Imaginár*o: A T*ama Entre Fi*ção e Histó*ia em Nunca Fui P*imeira D*ma 3* 2 REFERENCIAL TEÓRI*O 2.1 Mem*ri* * es*uecime*to: * jogo fragmen*ado *o espaço ficcional **abalhar sob a perspe*ti*a de um estudo comparati*ta com *nfase na *em*ria implica tr*ba*har com uma série de representaç*es, cuj* eix* n*rtea**r torn*-s* a d*mensão temp**al. Neste sentido, pode-*e p*nsar a obra de Wendy Gu*r*a na mesma perspectiv* *p*e*entada po* *aul Ri*oeur (2007, p.18), q*an*o afirma *ue memória, *istó*ia e esquecimento são três mastros que, embora "sustente* ve*ames *ntrel*ç*dos, mas d*st*ntos, eles pertenc*m à mesm* *mbarcação, desti*a*a a uma *ó e única nave*ação [...]: narra* o pass*do". Como d*to anteriormente, *tra*é* de *lementos fi*c*onais, au*obiográficos e de ref*rências históricas, em N*nc* fui *ri*eira Dama, a *ersonage* Nadi* Guerra encarna a repr*sen*ação de um sujeito a*or*entado po* um* identidade diluída em fra*mento* de uma memória individual que cons*antemente se c*n*ra*õem com à históri* po*ítica ofi*ia* de Cuba. Nadia, f*lha d* *e**lucionários, configura-se c*mo um elemento d*cotômico, contrastante numa so*ie*ade marc*da por fortes ícones políticos e *ultura*s, um* vez que **sas *magens s* d*ssolve* na *xpe*iência da p*rsonag*m *om* suj*ito social em uma *uba pós-revoluç*o, governada pelos irmãos C*s*ro. J* nas pri*eir*s lin*as, a "filh* de t odos , *o *aís de ninguém" (2010, p.07) começa se* jo*o *ntr* fato histórico * ficção, entre *em*r*a e *mag*nár**, fa*endo suas *ess*lvas de microfone a*erto em um programa de rá**o ao vivo, a*sim como sua mã* fez ** *assado: "p*la *rimeira vez vou lhe* dizer, c*m microfon* o ab*rto, *ud* o que pe*so, tu*o o que eu senti em c*da uma das manhãs de m*nha vid* [...], tudo a*uilo que não me atrevi * dizer até este minuto" (GUERRA, *010, p.07). Mú*icas, fragmentos d* obras literá*ias * com*ntá*ios são ele**ntos de seu pro*rama, através dos quais g*nham voz as **fle*ões de um* jovem ao me*mo *empo de*crente * desejosa de mudança*: "- Meus caros: Tenh* uma no*í**a p*ra v*cês: e* *ambém espero que *s co**as melhorem para meus filhos" (GUERRA, 2*10, p.10). Como previst*, a "companhei*inha" (GUERR*, 2010, p.30), como *r* chamada p*lo Pa**ido, é a*u*ada pe*os seus atos de indiscip*i*a * ** *ê obr*gada a deixar a ilha *ob pena *e s*frer punições mais *rást*c*s, como aconteceu a sua mãe *ue, *or razõe* dú**as, f*i afastada do mesmo prog*ama, c*m * justificativa de que *stava *pres*ntando "tran*t*rn**".Entã*, par* evitar ter o mesmo destino da mãe, escre*e uma *arta à Direçã* da Emi*sora, informan** se* afastamento R*v. FSA, Teresina P*, v. 14, n. 1, art. 2, p. 30-56, jan./fev. 201* www4.**anet.com.br/revista A. L. M. Boess*o, *. B. Ro*a 34 vo*untário. Deixando Cuba, N*dia decid* resgatar sua histó**a pessoal, a*ravés da busca pela mãe, cuja história *e confunde com a própria hi*tória da revolução; segu*do suas próprias palav*as, não *uer seguir se*d* n***uém *u "na*ie/Nadia". *través de um discurso enfático, a narradora desve*a a *mbiguidade do próprio *om* - Nadia, em russo, significa esp**ança e, e* ***t*guês, e*t*ain*o-se o fonema (i), * *ue resta é * palavr* "nada"; ou *ej*, "esperança do n*da"(GUERRA, 2010, p.47). Nesse *ogo de *mb*guidades propos*o pela au*o*a, não p*r acaso (e não sem *elevância) a estrutura ficcional con*titu*-se na *orma d* diá*io. Fonte de i*formaçõ*s p*ssoais e históricas, *omo enfatiza Le Goff (1990, *. 425), "* *tilização d* uma *ingu*ge* f*l*da, d*p*is escrita, é d* fato uma exte**ão fun*ame**al das possi*ilidades *e armazenament* da noss* memór*a". A personagem principal em *e* *iário, atr*vés de *ua memór*a ind*v*dual, vai tecendo comentário* af***vos da memória colet*va de muitas criança* d* ilha, mos*rando a *ragme*t**ão *e indiví*uos que, *omo ela,em fun*ão da ***itânci* política dos pais, s*freram a *ua ausência, e at* mesmo * a**gamento da estru*ura fa*i*iar: "Os filhos de*ses már*ires que c*esceram comigo ta*bém não se lembram dos pais. D* herói, sim; do pai, não. Protegi*os, camuflados e* seus va*ilos, eu *unc* soube exatame*te co*o *ram meus *ais" (GUERRA, 2010, p.12). A p*r*onagem *e lan*a, e*tão, em um trabalh* escavatório em bus*a de re*istros n* me*ória coletiva, para enc*ntrar as *emór*a* da própr*a mãe: e*cre*e cartas a amigos, amant*s *a m*e, a instit*içõe*, etc. Aq*i, o recurso da carta, ou sej*, do *exto escrit*, t*rna e*idente * pr*ocu*ação com o esquecim*nto e, ao mesmo temp*, a importância *a escrita como re*istro dos traç*s *o passado - a escr*ta constitu*-se, a*sim, uma rea*ão co**ra a fatalidade da perda. T*lvez seja e*ta raz** de a f*gura materna n* obra ser o gran*e eixo a constitutivo não apenas d* resgate da memó*ia da personagem, mas também de uma memória de n**ão, e * *róprio fio condutor da *br* *omo u* todo. Isto é, configura-se como o ponto de partida para buscar o que vem a *er * m*mór*a individual d* N*dia Guerr*. Uma *stratégia narrativa competente * efetiva, que evoca uma percepç*o socr*t*c* da memória. *eg*ndo Mugnier (apud RI*OEUR, 2007, p.3*), *s atos de *e*ordação se *rodu**m quando uma mudança (*i*esis) sobrevém após outra. *ra, e*sa sucessão pode ocorrer c*nfor*e a nece*sidade *u conforme o hábito; [...], a prioridade concedida ao lado metódico da busca (t*rmo caro a todos os s*crátic*s) e*plica * i**is*ênc*a na escolha de um ponto de partida * ar a o *ercurso da *eco*da*ã*. [...] O ponto de partida fica em pod*r do *x*lo*ador ** pa*sado, mesmo qu* o enc**eament* que se se*ue *epend* da necessidade ou do há*i**. Rev. FSA, Teresina, *. 14, n. *, art. 2, p. 30-56, *an./fev. 2017 www4.fsanet.co*.br/*ev*sta Memória, Esquecime*to e Imagi*ário: A Tram* Entre Ficção e História em Nunc* Fui P*imeir* Dam* 35 A memória i**ividual *a na*radora é retra*ada através de u*a prova docum*ntal, o p*óprio di**io. Perceb*-se que a própria estr*tura *a n*r*ativ* po*e ser vista como um *ompênd** de le*brança* *ragmentadas, nã* li*ear*s: N*dia v*i in*eri*do, em meio *os s*us apontament*s li*eares, represe*ta*ões do seu olhar *nterior, r*mpendo com o f*o *ondutor do rom*nce, fazendo o que Pl*tão (ap*d RICOEUR, 2007, p.*7) chamaria de "repres**tação p*esen** de uma cois* ause*te". A *xplor*ção do pass*do d* Nad*a Guerra desvelará a *e*lid*de d* *ma jo*em *nco*formada, ca*sad* dos ab**os aut*ritários pr*posto* pelo *e**me político, send* **e a di*otomia me**ria/imagin*ção configura-se um* estra*ég*a *e denún*i* *ostra o qu*nto e esta * necessári* à criação de defesas que evit*m no pr*sente que **a caia *as *rmadilhas de um fut*ro in*erto: "*hega de adora* to*os os santos. Não de*o nada aos heróis, n** posso nem mais um di* de minha *ida, ju*ar-lhes le*ldade com mão na *esta, pois não a p**erei cumpri-la. *esde *e**na r*p*t* *eus *ome* **mo um robô; [...]" (GUERRA, *010, p.13). As lembranças de **a menina que dur*nte muito tem*o respeit*u e fez u*o de regras é *uito distinta da visão cr*tica da narra**ra. Nota-se que Nadia est* atualizando suas impres*ões, **zendo d* suas memórias uma fe*ramenta de releitura, o q*e, provavelment*, fac*litará * entendimento d* f**uro, pois "o pr*cesso da memória no ho*em faz intervir não só a ordenação de vestígios, ma* t*mbém a releitur* desses vestí**o*" (LE *OFF, 1**0, p.424). Em consonância *om* o que afirma o autor, a relei*ura d* história fe*ta por N*d*a também é uma ordenação e reor*en*ção de vestíg*os *u* mesclam m*mórias pesso**s e mem**i*s históricas, *azendo da imagem poética *m* gra*de met**ora da nação cubana. Muitos são o* rec*rsos u*iliz*dos pa** r*presentar o passado na narrativa de Gu*r*a. As dimen*ões vi*u*is da obr* i*pulsiona* a configura*ão do espa*o habitad*, onde as marcações lin*uís****s que pos*cionam o pers*nag*m/i*divíduo naquele ambi*nte se**em para mostrar o "eu estar lá", d*limitando sua presença e **lidand*, por con**g*i*te, os relatos *isponib*lizad*s. *ui*o *lém de um **ráter ficciona*, es*a supost* presença histórica da perso*age* ("eu est*r *á"), n* obra de Guerra, ga*h* uma dimens*o polifônica, **a vez qu* também d* **z à dimensão a*t**iog**fic* da obra. Com isso, o* li*ites autor-p*rsonagem- leit*r-narrador-alter ego vão-se **luindo *t* qua*e u* total apagamento. Vale ressa*tar que a recorrência do apagame*t*, na obra, oc*rre de mane*ra multifacet*da. Se pensar**s as dimensões d* psique (id, ego e su*er*go) co*o vozes, pode- se perceber a dime*s*o polifônica do texto também em nível p*icoló*ico: um exemplo * q**ndo Nadia decl*ra, *urant* *e* programa *e rádio, q*e o motivo p*lo qual **ver* s* Rev. FSA, Teres*na P*, v. 1*, n. 1, art. 2, p. 30-56, jan./fe*. *017 www4.fsanet.co*.br/revista A. L. M. Bo*ssio, O. B. Rosa 3* ausent*r é * necessidad* de re*ncontrar sua mãe * re*firmar seus laços maternos, p*is sem i*so ela se considerava um "ninguém, nada, Nadia" (GU*RR*, 20*0, p.37). Configuram-se aqui mais um círculo den*ro do texto: *emória **etiva-apagamento-voz/disc*rs*. Mesmo que as du*s *stej*m d*stantes h* muitos *nos, a persona*e* afirma qu* *oder*a vê-la: "eu er* pequena, ma* c*nsigo *e le*brar dela. Ficava *m pé diante *e mim, junto d* mim, *unto do operador de áudio, fumando recost*da n* mesa de controle, com o livro na mão, [...]" (GUERRA, 201*, p.14). A conf*g*ração de *m* lembran*a imagética f*z com que a p**sonagem *e*rie u*a cena de sua m*mória. A parti* desse mo*ento, a narrativa ganha uma n*va roupagem; conte*pla*os, *ntão, uma busca incan*ável da *er*on*ge* em reencontrar parte de sua i*e*ti*ade, que a*é então era somente con*tit*ída *e *epresentaçõ*s q*e l he aux*liavam * "*ornar pr*s*nte o ausent*, ou seja, fazer \ver\ uma \a**ência\, subst*tuindo-a pelas *magen*" (KAR*AT, 2008, p.12). Como citado ant*r*ormen*e, co* o intuito de bu*car *ua mãe, a perso*agem e**rev* c***as, e-m*ils *a*a pes*oas mais próximas * famíl*a, para dissolver muitas dúvidas referentes *o seu *as*ado. Nadia chego* a afirm*r que po*cos *cr*ditavam na possibil*dade d* um reencontro entre ela e a mãe, pois na vo* de outras personagens, sua mãe, A*bis T**res, "é um desastre. Mudou onze vez*s de endereço em menos de oito anos" (GUERRA, 2010, p.54). As *ncertezas pro*ocada* pel*s res**st*s re**bidas au*entaram a*nda mais seu desejo, até mesmo ânsia, de encontrar, re-conhec*r e compreend** a fig*ra materna. Pao*o, um dos amigos de Albis que respon*eu às s**s cartas, em *ma co*versa **irma *ue ele tinha uma inf*rmação que po*eria dificultar ainda mais su* **sca: "Não é pos**vel conhecê-la. Quero dizer, *l*. Pelo m*nos não c*nh*ço ninguém que tenha con*eguido defini-la e tenha acertado. *s vezes lo*ra, às **zes castanha, ou*ras ruiva... não posso lhe dizer que* ela é." (GUERR*, 2010, p.61). Como se per*ebe ao longo do t*xt*, *ma das caracte*ísticas da mãe de Nadi* é just*ment* não cr*ar raízes, nem mesmo iden*i*ade visual. A liberdad*, muitas vezes impedida por Cub*, ag*ra é centro d* sua ind*vidualidade; a perso*ag** não busca *nc*ntrar- se, ma* não se* encontrada. Albis Torres j* n*o a*resen*a u*a identidad* própria, como se o a**gam*n*o da sua his*óri* e identidad* política, causada pel* afa*tamento forç*do do/p*l* Partido, tivesse prov*cad* o apagamento da sua identidad* psic*ló*ica. É imp*rtante lemb*ar, aqui que o mo*iv* apr*sentado pa*a o *e* afas*amento das funções no Partid* fo* que * pers*n*gem est*va apresent*ndo distú*bios emo*i*nais, ou sej*, *oucura. Conseq*entemente, a person*gem passa p*r um **ocesso de desenraizamen*o pessoa* (*fetivo e f*m*li*r), profi*s*ona*, político, até me*mo como sujeito histórico, o que vem rep*ese*tado na obra pelas peri***cas *lter*âncias físicas (*l*is *assa por vários procedimentos plástico-cirú*g*cos), Rev. FSA, Teresina, v. 14, n. 1, a*t. 2, p. 30-56, jan./*ev. 20*7 ww*4.fsanet.com.br/revista Me*ória, E*quec*mento e I*aginá*io: A Trama E*tre **cção * Histór*a *m N*n*a Fui P*imei*a Dam* 37 sociais e geográfic**. Essa v*l*tilidade con*igura-se, *ssim, como fr*to da perda *esses referenciais. Albis *ornou-s* uma *ulher "li*re". Ess* li*erdade qu* parece nascer d* apagamento/esquecim*nto, o *ue gera *uitas vezes rep*tição, rememorações de fa*os conc**tos, s*bre*udo dos eventos h**tóricos, como acontece na obra d* Wendy *u*rra, vem ao encontro do pe**amento de Ric*eur (2007, p. 165) quando afirma que, muito além d* pensar o co**exto históric*, de**mos avaliar como *ste vem sendo n*r*ad*, po** a d*mens*o cr*nol*gica ga*ha ou**a proprie*a*e n* espaço pós- mod*rn*. O te*po, o espaço do *empo, também no texto lite*ário, ganha n*vas pr*priedades n* c*ntempo*aneidade a qual, co*o *firma Giorgio Agamb*n (*009, p. 59), *xige uma a*ualidade *ingu**r co* o p*ópr*o **mpo, "uma relação co* o próprio tempo, qu* adere a este e, *o mesmo *empo, dele t**a distâncias [...]", uma aderênci* que s* dá at*avés d* um a d*ssociação e um anac*o*ismo. Segundo * *utor, "aquel*s q*e coincidem m*ito *l*nam**te com * época, que em todos os aspectos a e*ta aderem per*eitam*n*e, *ão são contempo*âne** po*que, exatamente por isso, não cons*guem vê-la, não pod*m manter fixo o o**ar sob*e ela". Ser pas*iv* frente às leit*ras d* tempo n*o promoverá a ref*ex*o proposta pel* mund* *tua*; ver o con*emporâne* é não ** con*entar com os fat*s concretos, é d** liberdade * novos processos metodológic*s para *ar*ar o t*mpo, sem cai* na m*ra repetiçã*. Segundo Ric*eur (2007), os fatos d* os histo*iador*s j**ais se libertare* da "**stór*a da história" f** com que houve*se um processo contín*o de me*a repeti*ão dos fatos. *s documen*os que com*rovam deter*inad*s e*paço* histór*cos - **stí*i*s a*queológi*os, f*ntes documen*ais, arquivos, etc. - que já foram fontes legí*imas *a história, hoje se tornaram el*men*** suspeitos, po*s olhar individual do historiador e sua orientação para o re*lizar a prov* docu*enta* n*da *ais é que uma ma*cação auto*al. Nes** persp*ctiva, * hist*riador também é autor e, com* em to*o proces** de criação, as marcaçõ*s pes*oais de seu *ro*utor estarão implici*amente em seu *isc*rso, e*atamente como na c*n*trução narrativa de W*ndy G*erra, onde jo*o de implícit** e subtendidos define as ma**açõ*s o pessoai* de s*u produt*r - neste cas*, autor-narrado*/a*ter ego, *m c*ntraponto com *s re*er*n*ia* histórica* e cultura*s d* Cub* pós-re*ol*ç*o. Nesse mesmo viés, a partir de uma refl*xã* *eno*e*ológica, Ricoeur *uestiona *ambém o *econhecimento dado ao texto histórico como *no, fonte autêntica, *ma vez que na atual*dade há rup*u*as e*t*e as fronteiras, **tre *it*rat*ra e História, *ois *sses te**os já sã* *r*balhados a partir de uma perspectiva intertextual, s**do que a rem*mora*ão do fa*o histórico ta*bém pode s*r v*sta **mo ficçã*. Rev. FSA, T**esina PI, v. 14, n. 1, art. 2, p. 30-56, jan./*ev. 2017 www4.fsane*.com.br/revista A. L. M. Bo*ssi*, O. *. Rosa 38 S*rá tão necessário resistir, qu**d* trata*os ma** adiante d* expl*cação e da repre***ta*ão, à ten*aç*o de di*solver o fato h*stór**o na narr*ção e esta numa *omp**içã* l*ter*ria indistinguível da ficção, qua*to é *re*is* recusa* * c**f*são inicial entr* fato histórico e *c***e*i*ento, el* própri* devolvido vida de u*a à consciênc*a t*stemunha, más o conteúdo de um enu*ciado que visa repre*entá-lo (RICOEUR, *0*7, p.*91). A rememora*ão pode formar alg*mas incoerê*cias e* relação à **racidade dos f*t*s his*óri*os, gerando, **m* dito anteri*rmente, a "hi*tór*a *a h*stória". Co** afirma *icoeur, a *ti*idade de cria* provas d*cum*nta*s de dete*minados contextos histó*icos pode s*r vista como u*a c*iação f*ccional; nela, o *utor, a*ém de b*sc*r f*ntes, e*tá inser**do seu ol*ar particul*r, pois a ficção também se*ve *omo font* de nar*ar o te*po. A*ravés dos *lem*ntos inter*ext*ais, a*t*res *o**m d*r voz*s * *uje*tos à marg** da *istória documentad*. G*erra, atr**és de s*u alte* *go, costura suas hist*rias e most*a, a partir d* sua visão inter*or, f**cional, novas impressões do passado-*re**nte em Cuba. Nest* senti*o, a narra*iva de Guerr* configura-se como um cons**u*to ficcio*al do pensame*to histórico-f*losóf*co de que falam Jacqu*s Le Gof* e *aul *icoeur, desvelando um di*log* inte*textual *ntre *ite*atur*, História e Memór*a. Nota-se que, en*uant* se desenvolv* a *arr*tiva da busca *el* mãe, começa, auto*atica**n**, uma "atualização ma*s ou menos mecânic* de ve*tígi*s mnemônicos" (LE GOFF, 19*0, p.42*), quando Nadia, ao buscar *ua mãe em Moscou, r*l*mbra algun* dos *esquí*ios *a cultur* cubana e d*s intervenções ru*sas em meio aos hábitos e *rinc*deiras infantis *a época: "Tive uma rela*ão de amor e ó*i* com os b*nequ*nhos rus*os. Pod*am ser russos, *lemães, *olonese*, mas... nós os chamáva*os as*im: bon*quinhos russos. É*amos crianças ** pouco solitárias, *s pais sempre ocupados, *elev*são *igada, tela em preto a a e branco com letras russas. (GUERRA, 2010, p.67). Ta*s proce*sos de re*e*oração fazem ecoar na le*br*nça de N*dia um f*to his*ó*ico: a in**rvenção da Un*ão Soviét*c* em Cuba, o *ue não ocorreu *penas no plano polític* * re*ol*cionário, mas t**bém no plano cu*tural. O *roj*to soci*lista instaurado contra*iou *s pri*c*pios *o*te-*mericanos e tam*ém a cultura local, como af**ma * narrador*: "Minha *era*ão foi marcada *or iss*. Um país *ari*enho *riado com có*ig*s soviéti*os" (*UERRA, 20*0, p.67). Per*ebe-se *ue N*dia Guerra, a*rav*s de s*u* testemunhos, busca constituir-*e naquele espaço frag*ent*do, afirmando q*e esteve lá e que foi obriga*a a *dequar-se àquele cont*xto social, do qual r*staram apenas ras*r*s na memória (R*CO*UR, 2010). "Sou tu*is*a num país que, *e *lg*m mo*o, ** já *onheço. *les f*zeram uma grande intervenção *úb*ica Rev. FS*, Te*esina, v. 14, n. 1, art. 2, p. 3*-**, j**./fev. 2*1* www4.fs*ne*.com.br/*evis*a Memória, Esq**ci*en** e I*aginário: A Tr*ma En*re *icção * História em Nunca Fu* Primeira *ama 39 em Cuba. D*ixaram marcas em n*ssas mem*ria*; foi *ifícil aprender sua língua e agora nos *squeceram"(GUERRA, 2010, p.67). A inte*ferê*c*a de uma ideo*ogia su*ostam*nte "i*destrutív**" fragmentou-se. A perso*agem então faz *so de alg*ns recursos que, na f*cção, recriaram a dimensão hi*tórica, s*n*o *ue um desse* rec*rsos * fato de usar *ronomes p*s*oais na represent*ção de seu o re*ato pa*a inserir-se com* figur* re*r*se*tan** d**uele espaço soc*al, cultural e hi*tórico- *olítico. *e**ndo Le Goff (1990, p. 90), o rela*o, desde a antiguidade gr*ga, é um *os *ixos norteadores da história, pois o fato de um indivíduo t*r *ivido uma *eal*dad* e pode* d*r s*us rela*os é um elemento que dará * pon*o ini**al à histór*a. O re*nco*tro *om mãe na Rússi* trouxe novas impre*s*es, a expectativa a de ficar f*ente a frent* foi algo "*r**trant*", pois * sentimento buscad* fico* *dormeci** - "*ão senti amo*. Sen*i que recupe*ava o momento, a segu*ança de ficarmos juntas n*m lugar secreto" (GUE*R*, 2010, p.68). A narradora reco*hece a figura ma*erna *li p*rdida n*s sombras do esq*ecimento. Em um diálogo com **e*o, *m *os seus amig*s inf***ante*, afirma: "J*ro, quer*do Die*o, que *ncon*r*-la f*i me *erder" (GUERRA, 2010, p.72-73). Nadia busc**a na mãe elementos para co**tituir-se como sujeito; porém, as memórias da figura materna *s*ão d*luídas em um tempo quebrado, ob*curo. Assim, N*dia v* apena* um* *olução *ara a mãe: "*rec*so v*ltar para c*sa, *as segurando s** mão. Devo guiá-la. *la saiu de seu corpo. Fala incoerê*cias, deli*a. Sua mente se escondeu *m alg*m* **curidão, está subme*sa, e eu nã* a encont*o" (GUERRA, 2*07, *.73). Ao lev*r Alb*s Torres até a il*a, talvez ela pudesse enc*ntrar-*e novam*nt* co* a real*dade *ue viv*u, favorecendo as*im seu proc*s*o de rememoração, co**iderando que a lembrança imagética p**e au*iliar no de*fe**o desse proce*so. Nadi* *firma querer repatriar a m*e, "**vá-la para *uba por ra*ões que voc* j* vai entender" (GUERRA, 2007, p.73); assim, pod*ria mostrar a ela os rastr*s dei*ados por *** expe*iência na ilha. Ainda em conve*sa com *iego, confessa algo relevante para a *nálise da obra, em uma p*rspecti** dicotômica entre me*ória e apag*me*to: No final da viagem, na despedida, fale* c** o marido *e minha *ã*. *la e*tá sofrend* de um* grave deterioração do siste*a nervos* ce**ra*. Pode s*r Alzheimer, mas eles não têm c*rteza. O rus** qu*r se livr*r do problema. E *evolv* mi*ha mãe a mi* c*m papéis e *u*o *ais [...]. Eles a a*andonaram como ela uma **z no* abandonou. Tudo volta ao *es*o ponto. Com**r* o ho** c*m o on*em n*o e con*i*o entendê-la. Fugia-se de *lgo tão ter*íve*, p*r que me de*xou n* terrível? (GU*RRA, 2010, p.*6). Rev. FSA, Ter*si*a PI, v. 14, n. 1, art. 2, p. 30-56, jan./fev. *017 www4.**anet.com.br/rev*s*a A. L. M. Boessio, O. B. Rosa 40 *ara a nar**dora, qualquer o*tra enfermidade seria melhor que A*zheimer, c*m as fa**as cogni*ivas qu* ocas*o**; estado incuráve* de Al*is T*rre* tornou-se as*i* m*is um o desafio para *adia G**r*a; e a sua tentativa de resgatar memórias, ainda mais o*scurecida *ela *igura de uma mãe *u* ago** re*r*senta*a esquecimento. O fato de a m*e não reconhecer sua própria fi*ha, e po* estar viv*n** d* in*o*r*ncias, abala psicologic**ent* a narr*dora, que *dealizava *utra re*lidad*: "Estou sem raíz*s. Sem passado. Sem lar. Sint* como se m* puxas*em para trás, agarr*dos em meu cas*o, enqu*n*o tent* cam***ar para frente" (*UERRA, 2007, p. *7). Porém, ela *everá buscar no seu p*ssado um* esperan*a de compreender o *uturo, só assim fechará u* vín*ulo e abrirá n*vas p*ssibilid*de* pa*a o *estino, sendo que a única for*a de alc*nçar isso é *untando *s pedaços de *ma história *ara consolidar uma rel*itura do tempo. N*ste s*ntido, Nadi* afirma: "Quero *dotar *inha *ãe. Vou fech** meu pr*prio círcu*o" (GUERRA, *00*, *.77). \Aqui, * memória *ndividua* não serve apena* *ara remeter a algum t**po passado, mas também para alime*tar n*vas fon*es, pois a *ndivid*al**ade de *lbis seria o e*x* no*te**or para Nadia Guerra, q*e b*sca nos r*latos da *ãe uma for*a de resga*ar a própria história e, consequentemente, *ua ident**ade como sujeito s*ci*l e cultura*. Neste ca*o, a dime*são t*mporal serve de *ote**o, por*ue a *em*ria p**e atravessar a histór** e seguir sendo aliment*da, o que Le *off (1**0, p. 13) *hamará ** tem*o da memória que atravessa * *istória e a alime*ta - u*a no*ão d* duração, de tempo vivido, de tempos mú*tiplos e re**tivos, de tem*os sub**ti*os ** *imbólicos. * ess* memória que, de acor*o *om o autor, em um nível **is s*fist**ado, en*ontrar* o *empo histórico. Nesta persp**tiv*, aplicar uma durabilidade memória **pl*ca *ecer à *imit*s *os **tos arqui*ad*s, ai*da que *st* esteja em *o*tato d*reto *om o esquecime**o. Talvez n* contexto c*bano o esqu*cimento tenh* ganhad* prioridade; me*af*ric*mente falando, assim co*o Albis Torr**, a ilha governa** *elos irmãos Castro *ambém es*á tomada por um* *nfermida*e *e*e*erativ* - o *pagame*t* da mem*ria - c*mo se percebe na af*rma**o de Di*go que, ao resp*nder uma das cartas de Nadia, af*rma: "Agora vejo que somos *ma *eração fodida, como a *emória d* *osso* *ais" (GUERRA, 20*7, p.79). É vis*vel * coerên*ia e aceitaçã* por *arte ** a*bas as pe*son*gens, *ois Nadia, ao re*letir sobre o posicionament* de D*ego, a*irma qu* sua mãe é "um jogo *e Yaquis, a *emóri* dispersa e* pedaços de **a i*t*ligê*cia parti*a" (*UER*A, 200*, p.81). Para *a*ia, a im*gem *a mãe sem memória era co*o se foss* as doze cruzetas me*álicas es*a*hadas no solo, com* * típ*ca b*incadeira *nfa*til cu*ana, sendo que o te*po de juntar as Rev. FSA, Teresina, *. 14, n. 1, art. 2, p. 30-56, ja*./fev. 2017 www4.fsanet.com.br/revista Memória, Esque*imen*o e Imag*nário: A Trama *nt*e Ficção e História *m Nunc* Fui Primeira Dama 41 pa**es an*es que caia a bol* do céu é o tempo *u* Nadia t*m para juntar essa* mem*rias, antes que tod*s sejam *evadas de vez pelo suposto Alzheim*r enfrentado *** sua mãe. E, v*ndo-*e obrigada a *egressar a Cuba, depo*s ** inúmer*s viag**s em busc* de respos*as, e p** acr*ditar que *om**te naquele espaço soc*al po*eria encontrar resqu*cios dei*ados pe*o te*po, a personagem afir**: "ca*inho entre mortos, avanço em meus projetos com as botas de guerra e * escassa corag*m que me resta para cont*nuar traba*hando por eles" (G*ERR*, 20*7, p.81). Entret*nto, para Nadia, a dimensão temporal do passado m*ntém uma condição de atualidade: "Cu** permanece em C**a e n** po*em levá-*a para outro luga*, cá *stou ** de *olta" (GUERR*, 2010, p.93). * *erso*age* e*t*va e* Cu*a para *er * m*rte de *m de seus heróis, seu pai. Nesse mome*to, Nadia enc*ntra Lu*o, que também *eio à ilha *ara enterrar sua mãe. Essa coi*ci*ência leva a na*rad*ra a *f*rm**: "Este paí* é u* cemitéri*" (GUERRA, *007, p.95), c*mo se até mesm* os vivos *ue ali fi*a*am também est*vessem mortos. L*jo dis**e-se a auxil*ar Nadi*, contribuindo com informa*õ*s *ntimas *obre seus *ais, chegando a afir**r q*e havi* en*r* eles um relacion*me*to a tr**, o que *a é*oca era *naceitável. * rel**o dessa memória fa*iliar abre pa*a Nad*a no**s olhares so*re a sua t*r*a n*tal, não a*en*s *omo fec*amento, m*rte, mas *omo *ossibi*idade de renascimento. Como ela me*ma d*z, "Esta é Hav*na. Es*e é *u*o. Enfim *ó* do*s vol*amos. A* coisas podem começar a mudar. Mesmo que seja para pior, pelo me*o* será u* a mudanç*" (GUERRA, 2007, *.96). Para a *arradora, todos os tipos de lem**anças s*o válid*s, Nadia enc***r* nas mem*rias do cole*ivo al*o de seu íntimo, *endo que t*is informações são pr*ciosas pa*a *ma perspectiva de memóri* compartil*ada, o*de vários representante* do me*mo e*pa*o dividem suas experiências, e de certa man*ira, reto**m u* passado documen*ado em *uas vivênc*as ínt*m*s, configurando a im*ortâ*cia do es*aço h*bit*do para a memór**. As l*mb*anç*s de te* mora*o e* tal *asa d* tal cidade ou de ter vi**ado a tal parte do mund* [...] tecem *o mes*o tempo uma **mória ín*ima * u** memó*ia compar*i*h**a entr* pess**s pr*xim*s: nessas lembran*as tipos, o *spaço c*r*oral é d* ime*iato vin*u*ado ao espaç* *o ambient*, f*ag*ent* da terra habitável, com suas t*i*ha* ma*s ou me*os prati*áve*s, seus obstáculo* variada*ente tra*sponíveis; é "á*duo", t*ri* dito os Medievai*, nosso relacionam**to c*m o espaço aberto à prática t*nt* *uant* à percepção (RICOEUR, 2007, *.157). **is que as lembranç*s de um espaço geo*ráfico, a ilha é, *ara a narra*ora, as *emóri** de muitas *istórias pois, a* afi*mar "Meu pa*s: me* *use* *essoal" (GUERRA, 200*, p.97), ela *stá *nforman*o que n*q*ele det****nado espaço é q*e se enco*tram*s *lement** figur*ntes de s*a memória individual, mesmo que estas este*am base*das *m R**. F*A, Teresina PI, v. 14, n. 1, *r*. 2, p. 30-56, jan./fev. 2017 www4.fsanet.com.br/revista A. L. M. Boessio, O. B. Rosa 42 fra*ment*s *a *ultura **c*l, que for*am *m g*a*d* palimpses*o sobre o modo de viver em Cuba, mostrando as rugas d* uma soc*e*ade que vive o presente r*metendo-se ao *ass**o *or temer as *nce*tezas do futu**. O esq*e*imento é um termo **c*r*ente *a narrativa de Wen*y Guer*a, fazendo com *ue h*ja sempr* certa p*eocupação *a parte *a narrad*ra-personagem em documentar t*dos o* fatos ocorri*o*, *ara qu* esta não caia no q*e Le Goff (1990, *. 109) nomeou como os silênc*os d* história, fatos q*e, du*an*e muito t*mpo, foram consi*erados il*gí*imo* para o con*ex*o h*storiográfico e que, po* con*equê*cia, car*c*m de documentos - as chamada* "zonas si*en*iosa*". N*dia vai a Cuba pa*a compree*der-se, sendo qu* os fa*os vividos por ela sã* arquivados co*o provas doc*mentai* em seu diário. Ao c*nversa* com L*jo sobre * pa*el da* suas mães em s*** vidas, Nadia *usca n* memóri* compartil*ada elementos para d*cume*tar l**branças c*leti*as, sendo que o subtítulo *ado *ela autor* à *onver*a é: "P*l*vr*s cont*a o esquecimento" (*U*RRA, 2007, p. 106). Perc*be-se, a*ui, a necessidade de enco*tra* estratég*as par* dribla* o apagamen*o dos rast*os. "- Lujo: [...] Er* a época em que *omeçava \Palavras contra o o*vido\" (GUE*RA, *007, p.106). Atra*és dos relatos *e Lujo sobre Albis Torres, fica claro que ela já se *uestionava sobre as incer*ezas do esquecimento, ter*o traduzido do espanhol "o*vidar", fazendo *o *eu programa, *u* *a época era considera*o démodé, *m instrumento de *e*vel**ento do p*ssa*o para a c*mpreensão do prese*te. Assim como * mã*, fil** a tr*b*l*a ***tra o esqueci**nto pe*a *ersistência d*s rastr*s, com* proposto p*r *au* * R*coeur (200*), sendo que *a*s *anif*staç*es *ão for*as de "pe*sist**, per*anecer, durar, cons**v*nd* * marca da aus*nc*a e d* *is**ncia" (RICOEUR, 20*7, p. 436); elas se*p*e m*rcar*o p*ese*ça em nível cogn*tivo *ndivi*u*l, *es*e que não sof*am nenhum impedimento ou man*pul*ção. Através da *icot*mia memória/esquecimento, Nadia *ê na mã* as respo*ta* de muitas de suas indag*çõ*s, sendo que o ponto in*cial é alfând*ga do aeroporto, que des*ncadea*á * uma série de inquiet*ções em Nadia *u*rra, s*bretudo em rel*ção a su* *ãe al* pr*sente. A ún*ca *agag*m *e Al*is *ra uma caixa pre*a; *el* *stava gr**de p**te dos rastros *a memóri* qu* *á havia *ido to*ada pe*o olvido; aliás, não só tomada pelo esquecimento como também p*la *róp*** ilha, p*is Albis afirmou qu* p**eria* p*g*r sua bo*sa, "m*s a caixa *unca. Em Cuba me tiraram o q*e *a*ta *essa caixa. *u nunca a abro, nunca (GU**RA, 2*0*, p.110). * caix* preta d* Albis *orres torna-se então chave *a*a a reco*stit*ição ident*tár*a de *adi* Guerra, uma ve* qu* a mã* já é presa *o esque*im*nto - através da *aixa, Nadia pode *cessar Rev. FS*, *eresina, v. 14, n. *, art. 2, p. 30-56, jan./fev. 2017 www4.fsanet.com.br/revista Me**ria, Esquecimento e Imaginá*io: A T*am* Entre Fic*ão e História em *unca Fui Pri*eira Dama 43 f*ntes que já estavam apagadas *a memóri* da mã*. Nessa representação, e*contramos o qu* *icoeur (20*7) co**eitua como "**ova documental", e po*e-se dizer, ta*bém, q*e nes*a ima*em poética de *m* s*pos*a pr*va documental *em-se a *have para u*a leitura do p*ocesso *e construção fi*ciona* *e Wendy Guerra. A referênci* * ca*xa pret* de *m aviã*, que retém informaçõe* que estariam perdidas s* a me*ma nã* pudess* ser acessada, torna-se um d*s f*o* q*e irão tecer ao longo da narrativa o j*go en*r* ficção, h*stór*a e memória subjetiv*, cujos l*mites entre personag*m, *ar**dora e au*ora apresent*m-se diluídos. As l**branças de Albis, a**u*vadas na caixa preta, ganham um valor de *ocumento h*stórico. A metá*ora da caixa com* pr*va documen*al, ou fon*e hist*rica, tor*a-** uma *stratégia efetiv* de v*rossimilhança **ra uma narradora que manif*sta, ***de o in*c*o da trama, uma inten*ão de r*velar *ma "História" ainda não documentada. Paralelo a isso, tem-se o contraponto ** doença de Albis qu*, m*smo diagno*ticada com Alzh*im*r e s*fr*ndo os apaga*entos dos *astros mn*mônicos, ap*esen*a em seus moment*s de lucidez informações que levam leitor q*es*ion*r a veracidade o a d* voz ** nar*adora - se o esqu*cime*to de Albis não f*i volu*tário, se esta não foi na r**lida*e coag*da a esque*er. As *emória* de Albis parecem funcio**r psic*logicamente como um* pulsão *ue, en*ontran*o condições, dá voz ao esqueciment* e à memória impedida ou *ani*ulad*, como diria *aul Ri*oeur. Quando Albis afi*ma que o que falta ** sua ***xa preta lhe foi retirado por Cuba, ref*rça a intenção *a narrador* de fa*er do seu discurso f*ccional *m discurso *i*tór*co. Um *xemplo é quando, no *er*porto, * fiscal da alfândega b*sca exa*inar o* li*ros qu* estão na caixa; e*s* fato p*rece des*ertar *a personagem u*a memóri* *e vi*lência, o que faz com qu* se sinta agredid* e, como def**a, uti*iza uma **nçã* par* afastar me**rias ar*uivadas ** um tem*o em qu* *ambém ela *cupou um luga* de contro*e no s**tema. Ao ritm* d* b*lero *ala*ras, da também cuban* Marta Valdés, Albi* se distancia do *iscal, fazendo um jogo intertextual para arr*n*ar o aplauso de indivíd*o* que ali estavam: "Os turistas aplaudir*m, era *m **ow d*f*c*l d* es*ue*er. \Isto é Cuba, Changui*o\. *s a*laus*s não paravam" (GUERRA, 2007, p.111). Albis es*av* em Cuba. Ao sair do aeroporto, demons*rou conf**nça em Lujo, qu* *e torna par* e*a um gat*lho de ativ*ção *os seus proc*ssos mne*ônic**, das lembra*ças de *ua vida e* Cuba. *lb*s jog* com s*as memória*, faz dela* *lgo ma*ipulado, ind*cando * t*or abusivo dessas le*br*nças, as*im com* um aparente d*s*jo de apagá-las. Es** jo*o *e memór*a e *p*gamento *proxima-se da perspec*iva de Ricoeur (2**7, *. 93), q**n*o ci*a que o* impedi**ntos de algumas memória* são uma forma *e c*nfigurar uma memória cole*iva, Rev. FS*, Te*esina PI, v. 14, *. 1, a*t. 2, p. *0-56, jan./*ev. 201* www4.fsanet.com.br/rev*sta *. L. M. B*essio, O. *. Rosa *4 totalitá*ia e c**andad* pelos a*usos d* próp*i* memória, s*nd* que nas *emória* coletivas sempre haverá uma indivi*u*li**d*, uma pa*sivida*e ao que já *oi dito pelo coletivo. As lembranças da m*e da narrado*a *ã* fon*es à marge* da histó**a política de Cuba, sendo que o es*ueciment* se *ornou o re*urso encontrado p*la *e*so*agem para in*bi* * j*sta memória (RIC*EUR, 2007, p.*2) promovi*a por aquele espaço *o*ial. Do pr**ess* natura* à enfe*mi*a** cogn*tiva, o fato de inibir o pas**do f*z com que Albis perde*s* de *erta mane*ra sua próp*i* identidade; Alzheimer le*ou cons*go as boas o lembranças vividas por *la. Par* felicidade de ambas as m*l*ere*, o retorno a Cuba *ez com que Albis at*avés do im*ginári* *ecriasse al*umas *em*ranças, ainda qu* partidas (GUERRA, 20*7, *.112). Es*e processo fragmentári* de esquecim*nto vivido por Al*i* l*va Nadia * *uestionar: "Q*e doença é essa que lev* embora e traz *e vo*ta as le*branças?" (*UERRA, 200*, p.11*). O es*u*ciment* de *lbis pare*e ser comanda*o de *odo abusivo, *om* diria Ri*o*ur (*007), levand* em conside*a*ão que as memórias coleti*as dur*nte *uito *empo foram conduzidas **l*s movimentos elitis*a* da* fo*tes históricas; poré*, com* afirma Le Goff (1990, p. 477), e* a*gum momento da v*d* faz-se *ecessário democratizar a memória so*ial. Nes*e se*tido, observa-se que as e**e**ên*ias individuais de Alb** estav*m sub*etidas *o eli*ismo *as me*órias his*óricas; o apaga*ento de muitas de suas vivê*c*as fez com que a mesm* criasse uma barreir* de prot*ção co*tra u* pa*sado de a*us*s, *ma resistê*ci* à *ntolerân*i* d* alguns fatos. Entretanto, esse *assad* * ainda al*o presente na repr**e*tação psí**i*a d* personagem e também na *im*nsã* social de Cub*. É ** m*mória que no* *onstit*í*os identitariamente, * é na perda dessa memór*a q*e t*do vai em*or*. Com* afirm* a *arrador*: "Tudo *ai embora com a mem*ria: a ver*on*a, o recato, o me*o. E* compen*ação recu*era-se a *nocênc*a" (GU*RRA, 2007, p.114). Além de ver * importân*ia de narrar * tempo e saber arm*zenar n* m**ória in*ividual frag***to* pa*a o futuro, Nadi* que*ti*na a si mesma: "Existe fu*uro sem memória?" (GUER*A, 2007, p.115). A re*po*ta de Nadia *ai ao encontr* do pensament* de *e Goff, quando a*ir*a que é n* *e*ória que se configura * futuro: "A *emó*i*, *nde cresce a história, que por s*a ve* a a*imenta, pro*ura salvar o passad* para servir o prese*te e o futuro. Devemos tr*balhar de forma que a me*ór*a co*etiva sirva para a libertaç*o e não para a servidão dos hom*ns"(LE GOFF, 1990, p.4**). Desse modo, perc***-se que a ausência de lembranças de Alb*s veio a interferir no presente de Nadi*, uma vez que a pers*nagem busca *o o*har *ndividual de *ua mãe a interpretaç*o de um passado **ra pod* r **ustar seu pre**n*e e **encar testemunho* que Rev. FSA, Teresi*a, *. 14, n. *, art. *, p. *0-56, j*n./fev. 2017 www4.fsane*.c*m.br/r*vi*ta M*mória, Esq*ecimento e I*aginário: A *rama Entre Ficção e *ist*ria em Nunc* Fui Pri*eira Dama 45 a*xili*m *s gerações futu*as, fa*endo com que as memórias col*t*vas sejam element*s valorizados e re*onheci*os por to***; *ó a*sim as **móri*s que pu*sam no nível *ognitivo são li*er*a*as. Nes*e pro*e*so, Nadi* começa * e*contra* respost*s. S*a pri*ei*a fonte f*i uma fi*a encontrad* na caixa pre** d* mãe, a *ual havia sido *ra*a*a em H*vana n* *no de 1980 e *e tratav* de *ma despedida, *a*ra*a *ela pró*ria A*bi*, onde expl*cava o motivo ** a***donar * filha: "Es*e** *ue seu pai lhe e*tregue esta fit* algum dia. Não t*m pre*sa, pre*iro que *eixe para *a*e* iss* q*ando **cê for ma*or d* idade. Não vou v**tar, não ac*edito que eles me permitam ou que eu *esma me permita voltar" (GUERRA, 2*0*, p.117). A personagem começ* a j**tificar-se: a a*i*mação de não poder voltar por sua vontade ou até mesmo pela pr*ibição de al*u*m mostra que **bis Tor*es, an*e* *e sua partida, es*ava sen*o coagida a s* a*sen*ar da ilh* cu*ana, e buscava, atr*vés *o **s*emu***, "*os levar de um s*l*o das condições f*rmais ao conteúd* da* "coisa* d* passado" (RICOEUR, *007, p.170), mani*es**ndo o desejo de que *ua filha Nadi* compreendes*e a situação. Alé* disso, Albis acre*itava que, no a*o em q*e *adia e*cutasse a f*ta, o tempo seria ou*ro. Contrarian** as *xpec*ativas de Albis, q*e acreditava que o cont**do da sua *ensage* seria t*atado com suficiente dist*nciamento, *qu*le passado conti*uava *resente em Cuba. Vê-se també* n*ss* **stemun*o a co*cepção de uma memór*a q*e serve de ar*a *ontra esquecimento, o uma m*mória que *er** co*o *onte de absorçã* d* in*o*mações passadas para entendimento *o futuro. Se*undo Le G**f (1990, p. 423), a *emó*ia tem * "propr*edade de conservar certas *nforma*õe*, remete-nos em prime*ro lugar a um conj*nto de funções psíquicas, *raças às quais o homem pode at*a*izar impressões ou *n*or*ações *assadas, ou que ele repres*nta como passadas". A* i*pres*õ*s que Nadia tin*a de sua m*e são re*onfig*r*das, pois muita* fo*a* as si*uações que leva*am A*bis Torres a *eixar a *l*a; a pers*na*em *entia-se am*a*ada: "Em*o*a *ão se*a alg* visív*l, me p*rseguem, eu sint*, estã* aqu*. Tenho mu*tos *lhos p*r tod* a pa**e. Acontece*a* muitas coisas lá em casa *urante as últ**as semana*" (GUERRA, 200*, p.1*9). Albis ainda d*c*ara: "N*o qu*ro marcá-la, não *uero que se*a *stigm*tiz**a po* minha culpa" (GUERRA, 2007, p.1**), ela aband*n*u N*dia por amor *aterno, pela *re*c**ação c*m a in*erteza do futu*o de sua filha, mas também pel* que foi a*i presenciado. Nessa passagem, fic* evi*ente a importânci* do tes**mun** de Albis para a configuração d* memó*ia. A personagem deixa d*c*mentados a*guns *at*s e acred*t* que no futu*o, p*derá *aver *l**mas tr**sformações. Porém, ao *egi*trar em seu diár*o o que havia aconteci*o, Nadia começa a ent*nder a pers*nali*ade *a mãe * o quanto * passa*o mi*ter*oso daquela m*lher **tava *one*tado à sua *róp**a história. Rev. FSA, Tere*ina PI, v. 14, n. *, art. *, p. 30-56, *an./f*v. *01* www4.fsanet.*om.br/revis*a A. L. M. B*essio, *. B. Rosa 46 Ao afirmar qu* sua *emória era de reposição, N*di* colo*a-s* como fo*te do p*oce*so ** rememoração da mãe, a qual, s*posta*e*t*, tem poucas i*formações arquiva*as em sua m*mória. Ao me*mo tem** em que *adia *usca em a*qu*vos docu*entad*s a ***ória in*ividu*l da mãe, está *ambém a caminho de um r*encon*ro consigo m*sma. Após a pe*sonagem escutar a fita, surge u*a no*a preocupação, me*cionada an*eriorment*, com relação a* esquecimento *a mãe * sua inte*ção de olvidarse de fa*os q*e poderi*m influenciar negativamente o futur* de Nadia Guerra, pois, é ** me*o à* busc*s de Nadia que surgem indícios de *ue Albi* T*rres tives*e escrito um romance de car*t*r autobiográfico, onde retratar*a su*s me*órias i*dividuais. *esse pr*cess*, *om as novas descob*rtas, Na*ia vai rev*vendo alg*m*s l**brança* *e s*a mãe. * lembran*a de Nadia visualizand* s*a mãe in*estigando documen*os para a criação de um livro for*al*ce ideia de que era necessário *ocumentar o pa*sado, pois os * im*edime*tos viriam e o lugar da memór*a ser*a ce*ido *o esquecime*to, que não advém da doença. A memóri* da mãe *e Nádi* não sof*e* com a* marcas do tempo, A*bis **rre* tinh* consciênci* qu* est*va ali para buscar "*m mundo mais j*st* que o de onte*" (GUE*RA, 2*10, p.119). Porém, estava des*credi*ada e ve*d*-se *brigada a deixar a ilha. Cer*a de q*e * mem*ri* se torn*ria a*os falhos pela* imposições dos abusos da p**pria m**ór*a (RICO*UR, 2007), ela documentou tudo que podia; ta*s arqu*vo* são úteis *ara a constru*ão da mem*ria de Na*i*, qu* ta*bém se constitu* atravé* *e fragment*ções ** coletivo. Perceb*-s* que o f**o de narrar o pa*sado, para c*mpr*ender o p*esente e poder buscar soluções *ara o futuro, não po*e dis*anci**-se *o con**xt* histórico-polí*ico cubano. O te*temun*o d* Albis Tor**s, a*ravés *a *ra*ida*e, é inserido na narrativa como fonte de pre*ença do Se* no tem*o. Ma*s próx*mo* do final da ob*a, a terce*ra parte da narrativ* de Wendy *uerra sur*e co*o o desenl*ce *a história de um filho d* revolução. Os fragmen*os *ncontrad*s na memória (caixa preta) *e Alb*s conf*gura* *espostas d* uma memória arquiva*a, a qua* aciona um processo f*cc**nal de mis-e*-abyme onde, nu* jogo de enquad**mento de *m livro den*ro do outro, de uma memória sobre outra, *o qual a *onte da informação *e pe*de como n*m jogo de espelhos, * leitu*a da "Histó*ia" torna-se *x*remame*t* rela**va, assim como as resp*s*as encontrad*s por Nadia aos s*us q*e*tion*mentos - para a *ersonagem, e*tar e* Cuba é viver a *istó*ia, e dis*anciar-se dela é ausentar-se da próp*i* m*mória. 3 R*SULT*D*S * *ISC*SSÕ** 3.1 Fi*ção, histó**a e imaginário: a *eitu*a de Cuba pelo *lhar de Albis Torres Re*. FSA, Teresina, v. 14, n. 1, a*t. 2, p. 30-56, ja*./fev. 2*17 www4.fsanet.com.br/revi*ta *emór*a, **quecim*nt* * Im*ginário: A Trama Entre *ic*ão e Históri* em Nunca Fui Primeira D*m* *7 Durante mu*tos *n*s, a pertinência d* uma o*ra ficc*onal par* o estudo do c*ntexto históri*o *o* *esp*e*ada, p*r ser consi*era*a ape*as uma *eprese*t*ção ve*o*sí*il de *atos históricos. Segun*o Le Goff (1990, p. *8), a "palavr* 'histó*ia' (em *odas as lín*uas româ*ic** * em inglês) v*m do g*ego *n*igo histor*e, ** dialeto jônic* (KEU*K, 1934). Esta forma *eriva da raiz indoeuropéia wid-, wei* 'ver'." Nesta ***ce*ção, o histo*iador * aquele que vê a h**tória ou p*ocura in*or*ar-se sob*e o qu* nã* v*u, conf**me a etim*logia *a *rópria p*lav*a. Nessa persp*ct*va, por descon*e*e* alguns fatos, o historiador bus*ava *nve*t*gar algumas infor*ações para q*e, a poste*iori, fosse fei*a * n*rra*ão q*e, *e *erta maneira, não deixa*a de se* *l*o *eross***l, pois, c*nforme Chartie* (*010), o histo**ad** e*tava exterioriz*ndo ali u** das possív**s leituras do *empo. Ass*m, o contexto histórico dife*i* da narrati*a ficcional, *esmo q*e a prov* d*cumen*al his*órica, *uitas vezes, fos*e a narr*ção de al*u*m *ue não tiv**s* pre*e*c**do o* *atos históricos. E**ret*nto, a p*rtir do "refi*am*nto *o m**odo histórico" (HAD*OCK apud GRU*ER, 200*, p.25) o discurso histórico config*rou-se **mo um e*eme*to plural, nã* ha*endo meras repetições, mas n*vas leituras de um mund* aind* des*onhe*ido *os olhos d* muitos lei*ores. O século X*X s*rve para revolucionar as con*epçõe* de *arrar o tempo e mostr*r que não há história, mas s*m hi*tórias e* suas plurali**des: "O discurso históri** [...] deixa de *er mer*mente de*cr*tivo e rep**itivo, para se tor*ar, ba**camente, tanto inter*retativo quanto fo*mativo, gené***o. É a história que pr*d*z civiliza*ão. Mas não a Hist*ria, e s*m as história* (GUINSBURG apud KA*VA*T, 20*8, p.25). O romanc* de Albi* *orres, criado através de suas memórias ind*viduais, b*sc* *evigorar, no present*, a voz censu*ada do *assa*o, fazendo d* ficçã* um el*mento relevante para a verifi*açã* d* um passa*o movido por incertezas. A pe*sonagem, ao cri*r uma prova do*ument*l, procu*ou ***eriorizar suas memórias como uma releitu*a da pe*spe*tiva h*stóri*a. Chartier, a*ravés de uma perspectiva centrada no re*inament* do mo*o históri*o, **stra que, assim como a *istória, a fi*ção serve ig*al**nt* para **rc*r e aux*liar a narraç*o do temp*. Atualmen*e, sem dú*ida mais que em 1998, o* histori*d*res sabem qu* o co*h*cimento que produzem nã* * mai* que uma das mo*al*d*des da relação que as socie*ades m*ntêm com o passad*. *s obras de f*cção, ao me*os al*umas de*as, e a memória, sej* ela coletiva ou individual, também con**rem um* presença ao pa*sado, às vezes ou **i*de mais poderosa do que estabelecem o* livr*s de história (CH*RT*ER, *01*, p.21). Rev. FSA, T*resina P*, v. 1*, *. 1, art. 2, p. 30-56, jan./fev. 2**7 w*w*.fsan*t.com.br/revista A. L. M. Boessio, O. *. R*sa 48 * leitu*a do tempo d*cument*da *or Albis T*rres faz com que Nadia se*a le*tora de uma memória histórico-p*l*tica de Cuba, pois em *eu ro*anc* n*o há *istinções entre memóri*, hi*tóri* e imag*nário; * lin*ar*dade d** f*tos *á um valor de retro*pec*iva histór*ca à bi*grafi* de Albis, que se confunde com a própri* hist*ria **bana. Ag*ra, ocupando o e*paço de na*rado*a da trama, Albis T*rre* se beneficia de **versos nome* célebre* da revolução cubana para narrar sua **stória. Mais que is*o, o ponto i*icial da narrativa é a *sp*ra de um pr*vável e*cont** com uma figu*a hist*rica - a guerril*ei*a **bana C*lia *anchez. Al*m **sso, nessa pa***gem, mist*radas com *s memórias ficcionais, tem-se novamente referên*ias a fatos históricos do perío** da r*vo*ução cubana (G*ERRA, 2007, p.133). Albis Torres narrava suas p*óprias memórias, documenta*do as vivências e *ostrando as contradições historiográ*icas com*, por ex*mplo, quan*o **a * a irmã sã* es*olhi*as par* serem *n*rev*stadas *o clube Habana Libre, on*e estava oc*r*endo uma premiação *os a*fabetizad*res, apesa* de não s*rem prof*ssoras e es*arem ali *pe*as *o*qu* seus pais *aviam dei*ado o *a*s. Perce*e-se *essa *assagem a **tratégi* narrativ* de que se vale a autora, o recurso d* atribuir no*es hi*tóricos *os personagens, reforç*nd* * víncul* entr* ficção * a história cub*na, atravé* da narrat*va de supost*s descrições b*og*áficas, obje*ivando *m a prete**a ve*dade his*óri*a. A história de A*bi* mis*ura-** *o* * de sujei*os *omo Fidel Castro e Célia *an*hez, lidera*ças revolucionárias re*resentat*vas na ilha c*ribenha. Na narrativa, eles são p*r*o*a**ns-testemunho, com o fim de *ar ao f*ccional os *feitos da real*dade. E*tre os *isp*siti*os da ficção que m*nam a intensão ou a pretensão de verdade da história, capturando su*s *é*nicas de p*ova, deve-se coloc*r o \efei*o *e re*lidade\ defi*ido por Roland Ba*thes ([1968] 1984) como *ma **s *rin*ipa*s moda*idades da \ilusão refe*enci*l\ (BARTHES apud CHARTI*R, 201*, p.27). * imaginário vai *ece*do * narrativa de Albis Torres, a ilusão r*f*rencial servirá p*ra *nfa*iza* a relevânci* da memó*ia para * história. * nar**do*a, naquel* perío*o, *is*umbrava o **vim**to contraditório d* *istória, afirman*o *ue "a história nem sempre *rivileg*a *m sua capa o he**ico, mas * c*sual, * qu* e*tá à mã* p*ra ser mostrado com* épico" (*UERRA, 2**0, p.136), mostrando, m*tafo*icamente, qu* nas rugas da hi*to*io*rafia encontr*mos o masc*ramento do real, *aze*do co* *ue * **stó*ia s* to*ne um m*viment* t*ág*c*. Voltando à co*tura entre a dimensão históri*o-socia* e sub*etiva da narr*tiva, * ab*nd*no fam*l*ar é **go her*ditá*io n* fam*lia To*res, Albis ta*bém havia sido aband*n*da Rev. FSA, Teres**a, v. 14, n. 1, art. 2, *. 30-56, jan./fev. 20*7 *ww4.fsanet.com.br/revi*ta Memória, Es*uecime*to e Imaginário: A Trama Entre Fi*ção e H*stó*ia em *unca Fui Primeira D*ma 49 e, assim como Nadi*, também foi filha *a revolução, *c*lhi*a por gra*des *ideranças - *élia Sanchez, *o s*ber de sua história, deu abrigo a Al*is * sua ir**. Este fato levou A*bis a sentir- s* em c*sa, mesmo que *ão conh**esse ninguém, foi a *rimeira vez que se *ent*u e* fa***ia: "Minha irmã e eu ficamos dormindo *m nos*os be*iches. Es*á*amos mais sozi*has *o qu* ning*é* nes*e ***do. Não conh*cíamos a* pe*soas da casa; no en*a**o, naquele d*a, nós nos *en*imos como pessoas da famí*ia." (GUERRA, 2010, p.139). E*ta pa*sage* *esvela a *omp*exidade da c*ns*rução narrativ* de Wendy Gu***a que, em um jogo p*lifônico, a*ribui fo**a de *utenticidade ao **stem*nho *a *erson****. Uma estratégia para isso é o uso meta*órico d* "ter-e*t*do-aí" de mo*o a reforçar os in*ícios d* um conhecimento autêntico, dando à sua nar*a**v* uma tonalida*e realis*a, ade**ando-se * um a co*dição histórica. * *gora pe*s*n*gem-autora, *lbis Torres, faz*ndo uso d*ssa mesm* estratégia, b*nefi*ia-*e de figuras e fato* *istó*ic*s para recr*ar um cenário *eflex*vo; a nova his*ória ganha voz na subjetividade de sua narrativa p**-mo*ernae a condição de met*ficção *istoriogr*f*ca (HUTCHE*N, 1991). Wendy Gue*ra, *t*avé* do jog* pluriautoral, pr*bl*mat*za o fato de nar*ar o tempo e suas possí**is leitur*s por inte*médio de u* *lhar partic*lar. Para a c*nfigu*ação desse es*aço, a autora, pe*a voz de Albis Torres "posta na v*a da ora**dade remem*ração" (RIC*UE*, 2007, p.139), constrói seus diálogos * interte**uai* entr* ficção e históri*, di*solven*o fro*teiras. O rom*nce pós-mod*rno [...] faz parte da postura p*s-moderni*ta de confront** os paradoxos *a r*presentação fictícia/histórica, do par*icular/geral e do present*/passado. *, por s* só, essa confrontação é *ontradit*ria, *ois se recus* a recupe*ar ou *e*integrar qu*lquer um dos lad*s da dicotomia, e *e*** assi* está mais do que disposta a ex*lora* os dois (*UTCHEON, 1*91, *.142). As mem*rias de Albis e d* sua irmã, narradas no livro, *ão con*e*uem ser fato* i*olado*, dis*an*es da histór*a cubana. Neste s*ntido, é na "metaficç*o hi*toriográ*ica" (HU*CHEON, *991) que encon*ramos uma *es*os*a par* tal cria*ão fi*cional: n*r**r o passado c*m os olhos d* quem vi*enciou um dete*minado espaço histórico e *ão foi um reprodut*r "da história da h*stória", mas sim um **tor d* sua individualidade pessoal. *o unive*so fi*cio*al de Wendy Gu*rra, as feridas *e*xadas p*la hi*tória, provavelment*, seri*m incurá*eis; p*rém, é n* ima*em *eta*órica da Es*ola Na*ional de Belas-Artes qu* as pe*so*agens busca*am **xílio, o* seja, na **bjetividade da arte, para n*vas leituras do *empo, como podemos ver na *es*ri*ão da Es**la feita por Albis (GUERRA, 2010, *.140). *través da história de Albis * retratado o es**ço do* seres "elimi**dos", bu*c*ndo a cura de suas experiênc**s trágicas no poder da arte, a fim de cur** o próximo que Rev. *SA, Teresina PI, v. 14, n. 1, art. *, p. 30-56, jan./fe*. *0** *ww4.fsanet.com.br/revista A. L. M. Bo*ss*o, O. *. Ro*a 50 event*alment*, lerá *u* obra; neste caso, *adia Guerra, sua filha. Pe*cebe-se que Albis, p*r *er uma "f*lha da ***ria" (GUERRA, 2010, p.140) de*ons*ra em seu supo*to *i*ro que *s dores não eram so*ente *s*cológicas, m** também fí*ica*. A* i*mãs *aviam sido c*nduzid*s a uma colheita de café, em **ndi*õ*s extr*mas, como pode*os ver nas ord*ns do chef* do rancho onde estav*m: "É preci*o tr*bal*a* do nas*er do *ol até anoite*er! Se n*o trabalharem não têm comi*a! Vocês devem pagar a *omida com trabalho" (GU*RR*, *010, p.*4*). Os relatos de Albis mais uma vez são p*rpas*ad*s por re*atos *istóri*os da interve*çã* *orte- americ**a em Havana. As dores do esforço cubano s* perd**am na memória, elas es*ão *li, mas sofrem por não serem exter*orizad*s, configu*ando o *u* Ricoeur (2007, p. 452) concebeu como a manipulação da *emória, onde há volunta**ed*de em f*r*alece* esquecimento, a fim *e o p*sicionar-se contra as experiên*ias t*aumática* *iv*nc*adas. Na e*crit* de Albis Torres, pe**ebe-se que * narrado*a sem*r* teve a *ntenção d* in*uzir algumas passagens de s ua história ao esquecimento, mas *ua memória até então não *inha contribuído para i * s o. V*l*n*o-se do *squecimento, pers*nagem buscava * ini*ir a*guns rastros de s*a trajetória, *ar* *mpedir memóri*s considera*as ne*ati*as, i*pe*i*do qu* seus *eitores navegass*m pe*as águ*s dú**as *as verdades opost*s à h*stóri*. Neste sentido, a consc*ê*cia mnemôni*a es*á present*, mas há o im*edime*to de sua, *m vi*tude d* s*a manipulação. A mem*ria falha de ***is nã* representa a dicoto**a m*mória/esq*e*imento, po*s nã* é um a questã* de apa*amento, ma* de **tomanipula*ão do seu e**ado **gniti*o. Há, intrinsi*a*ente, nes*as inse*ções de We**y Guerra uma nova história, p*r*onagem Albis a *orr*s recria, most** n*vas verda*e* ainda omitidas pelo processo *istórico. Neste sen*ido, percebe-se que o hib***i*mo entre história * ficção * *ma representaçã* do proces*o *ós- moder*o de **i*ção, *nde se *o*o*am em discussão os lim*tes das ditas "verda*e*" ofer*c*das pela história e pela ficção. "[...] *ssa *osição muitas veze* r**firmada p*r Hayden *hite, para qu*m o c*n*ec*mento que o disc*rso h*stórico pr**õe, vi*to que é "uma f*rma de operação par* criar ficçã*, é da *e*ma ordem que * conhec*mento que *ã* *o mundo ou do *assado, *s di*cu*so* d* mito e *a *icção (CHARTIER, 201*, p.13). Para fazer de sua criação alg* equivalente ao fato de nar*ar a história, *endy Guerr* insere no disc*rso ficcio*al *e Al*is T*rres um* aprox*mação com *cones da revoluç*o cuba*a. Neste sentido, atribui-se à **rsonagem uma verdad*ir* relação fami*ia* com os mesmos, por s** ela uma *ilha da *evo*ução: **lia Sanc*e*, que a ac*lheu, era a r*p*es*ntação da figur* materna para Albis, e também *on*e *e inspiração. Aqui, o "m*tafictício e o hist*riográfi*o" (HU*CHE*N, *99*, p. 145) d*o voz à interte*tualid*d* de u* disc*r*o R**. FSA, Tere*ina, *. 14, n. 1, *rt. 2, p. 30-56, *an./fev. 2*1* www4.fsanet.*om.br/revi*ta Memó*ia, Esque*imento e I**ginár**: A Tra*a Entr* *icção e Hist*ria e* Nunca Fui Primeira Da*a 51 aproximado ao já *o*hecido p*la r*presentação histórica. No nível ficcion**, os líderes revolucionários *ão personagens p*óx*mos da vid* *e Albis *orre*, *ra a*sumindo *m v*lor pa*e*nal, ora ganhand* uma dimens*o sexuada (GU*RRA, 20*0, p.15*). Aqui se tem um* c*ave de **itura importan*e para out*o ti*o de *nál*se, de cunho p*icanalí**co, da f**ura m*sculina na ob*a; no enta*t*, *ste não é o ob*eti*o *o prese*te tr*bal*o. * cons*ante re*u*e*ação do passado como *or*a de representar uma h*stória ind*vi*u*l é a e*tratégia utilizada por Alb*s para *onvencer seu* leitor*s das i*formações hist*ricas apresen**das por el*, recriand*, assim, um discur*o *o**ad* para a credibilid*de ** sua no*a hi*tória. Co** a*i*ma Chartier, "a h*stória com* escrita desdobrada tem, e*tão, a tr*pla tarefa de convocar o passado, que já não está num dis*urso n* presente; mos*rar as compe**n*ia* d* his**riado*, **no das fon*es; e convencer o leitor" (*pud De CE*T**U, 1975, p.111). O**e*v*-se que, no *e* *nt*ito dereler (ou re*screver?) a *i*t*ria, Wendy Guerr* não so*ente *az do nome de *idel Castro, ao intitular "Notas (*IDEL: *ETALHES, *OSTUMES, ES*ILO)" (GUERRA, 20*0, p. 163), um capítul* ded**ado a contar-nos com *etal*e o *erfil de Fi*el C*stro, demonstr* *onvicção ficcional em seu *iá*o*o, a fim de criar *m a **ro*imação entre os dis*u*sos, pregando uma i*eia de que to*o *iscurs* não é algo concluso, mas sim apto a novas recriaç*es. Como afirm* Hutch*on, (1*91, p.14*), "a ficção pós-moderna su*e*e que **e*crever ou r*apr*sentar o passado na ficç*o e na história é - em ambos os casos - rele*á-lo ao pres*nt*, im*e*i-*o de *er conc*us*vo e teleo*óg*co". A *utora usa as fon*es históricas para refletir sobre o p*ssado ainda presente e* Cuba, *rov*c*ndo uma r*visão f**cional dos *atos já inscr*tos pela h*stória. Wendy Gue*ra recria um jo*o in*er*extu*l que *á força p*r* a l*bertação das p*ls*es *e A*bi*. ** nes*as entrelin*as *ma *evitalizaçã* d* passado, como * o ca*o das revoluções ain*a presentes em nossa sociedade, onde a autora a*irma que, a* entrar nessas batalhas, as pessoas não podem mai* sai*, poi* "[...] só é possível a**nçar. *as *ssa luta **ntinua co*rand* vi*a*. Cada passo exige sua cota *e sangu*" (GU*RR*, 20*0, p. 169). A ob** de Guerra co*figura-se *omo uma revisã* do trágico presente em no*s* soc*edade, onde a espera*ça diluiu-se no tempo passado * a história já não representa as rugas do col*tivo. C*n*orme Charti*r, *ompreender esse movimento literário é dar voz ao New His*oricism, comp*e*ndendo a *epresen*a**o histórica a *art*r da ficção, leva*do em conside*aç*o que o romance, desde * s*cu** XIX, "se apoderavam do passado, de*locando p*ra o *egis**o da ficç*o l*te*á*ia fatos e personagens his***icos e *olocando no *enário ou na página situa**es que foram reai* ou q*e são apresenta*as co*o tais" (CHARTI*R, *010, p.24). Rev. FSA, Teresina *I, v. 14, n. 1, a*t. 2, p. 3*-56, jan./fe*. 2017 www4.*sanet.com.br/revista *. L. M. Boessio, O. B. *osa 52 Sendo as*im, a fic*ão de Wendy Gue*ra constitui-*e em uma *epresentação de um c*letivo que por *ert* período históric* ficou à margem d* *scrita. Es*e c*let*vo é hoje represen*ado no plano l*terário, , assim, um lugar *a *is*ória. A p*rsonag*m A*bis Torre*, mais que a pró*ri* caixa preta de Cuba, é a vo* *e um povo q** t**z consigo os ideais *a r*volu*ão desde o be*ç*. Nest* *enti**, evidencia-*e, *n*v*t*velmente, * *elação m*mór**- história-i**ntidad*, uma vez que * fio cond*tor da *ndividu*lidade de Albis é a *rópri* história. *m Nu*** f*i primeira dama não há uma s*posta c*iação, m*s sim um* verdade, um re*urso que, segundo Hutche*n (1991) remonta à* disc*ss*es no século XVIII sobre a p*r*eabil*dade ent*e história e *i*çã*, d*s quais su**iu a *epresentação d*s *erdades propostas pelo pla** ficcio*al. *ota-se que o *rocess* de metaficçã* his*oriog**fica f*ito por *endy Guerra não apres*nta somente "verdad**" a*s leit*res, *** também à Nadi* Gue*ra, que *u*c*va reco*s*ituir-se atr*vés da memó*ia da mãe, u** apr*xim*ção que se *ustifi** pois, segundo C*art*er (201*, p. 30) es*es fatos aux*lia* na afirmaç*o de uma *dentidade. Entreta*to, Na*ia per*eu-se ainda m*is nas v*rd*des *e Albis. Apesa* de mãe de Nadi* ter viven*iado a o período *evolu*io**rio cubano, su* memória fa*ha; graç*s à manipulação histórica, reflete a *ivência de u** Cuba **nda *e*dida nos ideais revolucionários. Wendy Guerr* r*cria ficcionalm*nte o fa** de o Suje*to constituir-se a partir do **tro, fato esse q*e pode ser *istorcido, se visto pela óp*ica hist*rica, onde uma ma*sa repr*sent*u o coletivo, *nib*ndo as *emai* vozes, levando ao des*o*h*cimento individual, conforme *firma a p*ópria narradora: "As apr**imações da vida alhei* só aguçam o desco*hecimen*o d* no*so próprio universo. (GUERRA, 2010, *. 18*); n*ste sentido, e*contrar-se é, *o *esmo tempo, p*rder-s*. *ercebe-s* ainda *ue a discussão sobre a const*ução id*ntitári* marca *a**ém a constru*ão de si a par*ir do outr* na* demais personagens, *omo é o c*so de C*lia Sanchez e de Albis T**res, que, assim,cons*ituem, como afi*ma N**ia Guerra, sobre as semelhanças d* Célia e Albis: "Se* rastro perm*nece *a história dos outr*s. Nisso *la s* parece com minha mãe, que conservava o alheio e ho** só pode ser reconstruída a partir dos outros" (GU*RRA, 2*10, *.184). N*t*-s* que Nadia queria en*ontra*-se em meio *os *eflexos do co*e*ivo, repre*entando a *escentraliza*ão do sujei*o, co*o pro*osto por Hall (2006) ao d*scr*ve* o proc**s* de construçã* *a identida*e cultural pós-moderna, a qu*l vê no ou*ro a possibilidad* de constituir-se. *adia, *etaforicamente fa*and*, r**lete a fragmentação de um indivídu* que bu**a *o *utro a su* p*ópria imagem. O *ecurso do ima*i**rio serve pa** sup*ir as lacunas deixadas pela história e * nele qu* Nadia en*ontra a f*rra*enta necessária para reconstituir- Rev. **A, *eresina, v. 1*, n. 1, art. 2, p. 30-56, jan./fev. 2017 www4.fsanet.com.br/revista Memó**a, Esq*e**mento e Imag*n*rio: A Trama Entre Ficç*o e História em Nunca Fui *rimeira Dama 53 *e, sendo que este processo também *icará em aberto, já q*e a dimensão temporal guiará o Ser pelo* *a*inhos da memór*a, do *maginário ou do e*quecimento. Conforme Hall (*006, p.1*) A identidade * realm*n*e algo f*rmado, *o lo*go do tempo, através de proce*sos inconscientes, e *ão al*o inato, e*istente na consciênc*a n* *ome*to do *ascim*nto. Existe sempre al** "i*aginá*io" o* fantasiado *o*re sua unidade. Ela permanec* semp*e in*ompleta, *stá s*mpre "em p**cess*", sempre "se*do f*rm*d*". Ou seja, é n* dimensão temp*ral do indivídu*, na sua traj*tóri* pelo pe*c*rso histórico, que se encontr*rão *espo*ta* para a formação do Ser em um d*te**inado e*paço so*ial. Nadia, p*r ter est*eitas lig*ções com a Hist*ria-política de *uba, traz c*ns*go mais pergunta* *ue respos*as; o passado de seus *a*s *ã* serviu *ara ajustar-*h* as incógnitas do *resente, fazendo c*m que a pers*nagem ficasse mais *a*oada, como *fi*ma * própria narrador*: "Não quero *nforma*ões do pa*sado. Parece que o passado só traz más *otícias. O *res*nt* * assu*t* meu. O pas*a*o *epen*e dessa *egião de hi*pies ou guerrilheiros urba**s que faziam amor para oferecer suas ofen*iv** * **s, que ch*gamos dep*is" (GUERRA, 2010, p. 197). A l*gitim*da*e da Histór*a e sua instituiçã* his*ó*ic* que, c*nfor*e Chart*er (20*0, p.*8), "se organiza segundo hierar*uia* e conve*ç*es que traç*m as fro*te*ras entre os objet*s h*stóricos legítim*s e os que nã* s*o *, port*nto, sã* exclu*d*s ou *ensurados" f*zeram com *ue a personage* se *eparasse c*m a exp*riê*c*a tra*mática da liquidez *o pr*sente no convívio na sociedad* pós-moderna, recon*ecendo os movimentos contradit*rios propost*s pela Hi*tória. "No rastro, os d*versos avatares dess* História *m *archa *olítica, mito do pr**resso, contrato soc*al, cidada*ia, e*c., revelam, *or sua vez, as su*s obsol**cê*cias" (MAFFESOLI, 2000, p.09). O trauma *e Nadia se configura *uando percebe que está *nser*da em um movimento tardio, fracassado, sen*o q*e na ilha cubana esses movimento* cíclicos de regress*r a* p*ssado p*ra com*re*nder * pre*ente estão vivos, *ssim como as águas c*ribenh*s, nas ***is a força do desti*o mu*t** vez*s faz com que indivíduo cresça o sem muito* objeti***, pois *ão há pers*ectiva de fu**ro. N*sse jog* ficcional *e W*ndy Guerra, enc*ntram*s o que Maffesoli chama de "*nstante Et*rno" *nd* o sujeito, ao v*r-se *empre à s**b*a da história, bu*ca sair d* linearidade te*p*ra*, dando *o* ao subjetivo e fazendo dele a ressignific*ção *o p*esent*. Os poeta*, os *rt*s*as, os pens**ores mais avisad*s, *ncontram a s*a inspiração nessa interação, muito pr*c*samente pe*o fact* de *la exprim*r a junção d* passado, do pre*en*e e do f*turo. A imagem do arqu*tipo crist*liza as diversas facetas da Rev. F*A, Teresina P*, v. 14, n. 1, art. 2, p. *0-*6, jan./fev. *017 www4.fsanet.com.br/revista *. L. M. B*essio, O. B. Rosa 54 t**ade tempor*l. É nesse senti** que ela *stá parada, suspen*a do *empo. *á na image* quo*idia*a, na i*agem d* arquét*po, uma dimensão trans-*istór*ca. Pode*os mesmo *izer que ela exprime, no dia-a-dia, uma séri* de ete*nidade (MAFF**O*I, 2000, p. 6*).
A e*tratégia para fazer d* "*ns*ante et*rno" al*o significante na con*truç*o nar*at*v* de Wendy Gu*rra é a meta*icção histo**o*ráfic*. A autora bene*icia-se das leitu*as d* temp* para re*riar ** *enári* que não p*e em discussão a ver*cidade *ntre Literatu*a e História, mas que m*st*a que "ambas constituem s**temas de significação pel*s qu*i* damos sentido ao passado" (*U**HE*N, 1991, p.1*2). A navegação pelas água* dú*ias da Cu*a pós-mode*n* nos con**z diretament* ao passado; na narra*iv* de Wen*y Guerra, encontramos o **scurso imp**ente e a dure*a da vivê*cia de du*s g*rações *e mulheres *a famíl*a Gu*rr*, qu* nunca foram prime*ra-dama, **s q*e são *nicas e autê*ticas por ser*m as *ulheres que levam até m*smo no sobrenom* a ideia *e revolução, como afirma a*tora: a "Na multidão * om os únicas, p*im*iras-damas confund*da* co* a m*ltidão" (GUER*A, 2*10, *. 239), m*i* q*e filh*s, são el*s esposas de um ide*l aind* presente no contexto histórico-políti*o *e *uba. A persona*e* Nad** Gu*rra torna-se al*o do que R*coeur (2007, p. 510) co*ce*tua como o perdã* difícil. Com as respostas encontrad*s, ela esqueceu su* dív*da com a h*stória e teve que abrir mão de toda a memór*a da históri* infeliz pa*a enc*ntrar o que est* por vir, po*s "**ra ab*açar o *u*ur*, é preciso esquecer o *assado *um ges*o *e *n*uguração, *e início, *e recomeço, com* nos ritos de i**ciação. E \* semp*e *o *r*s**te, f*nalme*te, que o *squecimento *e con*uga\". É neste sentid* que o diá*io *scri*o p*r *adi* Guerra se *onf*gura *omo um g*and* *alimpsesto, o*de a ficçã* é tramada nos *im*ares *ntr* Literatura, Hi*tóri* e Memória. 4 CO*SIDERAÇÕES *INAIS "U*a escr**o*a ** diários que los co*serv* para que mañana haya *l*uién que l*s pueda consu*tar. No s*y la revol**ión, *ero *oy *arte ** que fue, *e lo **e han lo s*** m*s padres, mis abuelo*. Neg** eso sería co*o ne**r *o que soy". Assim se auto de*iniu Wendy Gu*r*a em *ma entrev*sta no ano de 2006, mostrando que * pre*cupa**o e* r*gistrar os *atos em um diár*o não é u*a *eculia*idade da personagem Nadi* G*err*. Os regi*tro* de *adia, de A*b*s e *e Wendy Guerra se con*undem com * próp*ia criação ficcional, o jogo *ragme*tado entre autor, pers*nagem/narrador, *eitor serve para re*ria* um c*nári* h*s*ó*ico e faz** dele algo rep*esentativo pa*a o coletivo. R*v. FSA, *eresina, *. 14, n. 1, art. 2, *. 30-56, jan./fev. 2017 *w*4.fsanet.com.*r/revista
*emória, Esqu*cimento * Imaginário: A *rama E*tre F*cção e *istória e* Nu*ca Fui Prime*ra Dama 55 *s m*ltipl** funções das p*rsonagens c*nfundem os olhares e fazem do roman*e de metaficção historiográfica *ma reflexão *obre *s formas de *arra* ou desenv*lver um* leitura *o tempo, *omo é proposto por Cha*tie* (2010). O diário de Na**a Gue*ra, al*er ego de W*ndy Guerra, *esmist*fica a conc*pçã* preexistente desse gênero. Na *arrativa, as esc*itas diárias não são sig*losas nem *rivativas, elas agem na pe*spect*va inversa, o tex*o que dever*a *er fech*do é aberto, fi* de a dar vis*bilid*de à* int*r-rel*ções text*ais exist*ntes no pl*no meta*ór*co. P*rc*be-se q*e a autora ** a históri* cubana com* *m livro fechado, inalterá*el, * *usca com seu roma*ce ressignificar todo um c*ntexto histórico-polít*co d* Cuba, most*and* u*a nova história. Isto *ez de *en*y Gue*ra um* autor* **sconhecid* na ilha, pe*a cen*ura que lhe f*i imposta. A memó*ia, * *istória e o esque*imento *ornam-se uma grande metáfor* de Cuba; estar e* H*van* é viaj*r por um passado ainda presente. Na nar*ativa de Wen*y Guerra, nota- se que h* u*a persona*em qu* re*resenta toda e*sa ilha que viv* de *e*branças, A**i* T*rres: mais que mãe de Na*ia Guerra e personage* pr*ncip** *a trama, poder** **r con*iderada a ilha cubana, en*arnando a dureza *e u* passado em cont*a*onto *om seu presen** e ap*esenta*d* em detal*es o que é est*r e* Cuba e ser cuba*o. N*ste s*n*ido, assim como Al*is Torr*s, pela polif*nia di*c*rsiva p*esente na obra, Cub* é desenh*da como *ma nação que te*e a* i*certezas do futu**, onde a me***ia e os ideai* s* p*rd**am em meio à h*stória, * onde o trá**co *o contexto pó*-m*derno se confunde c*m to*o o cont*xto histór*co-**lítico do país. A narrativa de Wendy Gue*ra *r** um cená**o verossímil e *az *ele um "passatempo do tempo passado" (HUTCHEON, 199*, p.*41), re*elando * passad* através d* ficção, p*opo**o *ma nova leitura *o *em*o. *er Nunca fui pri*eira dama *ela voz de du*s geraç*es *e m*lheres ** f*mília Guerra é adentrar o c**te*to histórico-polí*ico de Cuba atrav*s das lentes da subjetividade, o*de todo* os *etalhes ganham força d* **ot*gonismo, fazendo com que cada fr*gm*nto de memória *anhe v*lor documenta*, o*uscand* ainda mai* os limites entr* *s campos. A**i, a H*stória *az a Li*eratura, tanto qu*n*o a Li*er*tura *az a Histór*a. REFERÊNCIA* *GAM*EN, G. O que é o c*ntem*orâne*? E o*t*os en*aios. Chap*có: ARGOS, 2009. CHARTIER, R. * **stória *u a le*tu*a do tempo. [tradução ** Cristina A*tun*s] - *d. * Belo Ho*izont*: Aut***ica Edit*ra, 2010. R*v. FSA, Teresina P*, v. *4, n. 1, ar*. 2, p. 30-56, jan./fev. *017 *ww4.fsa*et.com.b*/rev*st* A. L. M. *oessio, O. B. Ros* 56 DE CERTEAU, *. * escr*ta da his**ria. São Paulo: USP, 1975. FRIERA, S. Entrevis*a com We*dy *ue*ra. En Cub* hay vida después de Fidel. Dis*onível em: <**tp://*w*.pagina12.c*m.ar/diario/s*plement*s/**p*ctaculos/4-4*75-2006- *1-*4.ht*l>> Acesso em 18/08/*015. GUERRA, Wen*y. N*nca *u* primeira da*a. [Tradu*ão de Josely Vianna *aptista]. Sã* P*ulo: Saraiv*, 2010. GRUNER, C. Nas *ramas da *icç*o: histór*a, li*era*ura e **itura. *ão Paulo: A*eli* Edit*rial, 20*8. HALL, S. A identidade cu**ura* na *ós-modernidad*. [t*adução de T**az Tadeu da **lva e Guacira Lope* Louro] Rio d* Janeiro: DP&* Editora, *006. *UTCHEO*, *. Poé*ica do p*s-*odernism*: história, teor*a, fic*ão. [tradução de *ica**o Cr**]. Rio de Janei*o: Imago, 1991. LE GOFF, *. Histó*ia e M*mória. Trad*ção Be*nardo Leitão, [et a*l] *ampinas: UNIC*MP, 1990. MAFFESOLI, M. O ete*no *nstant* - o retorno d* trág**o nas *ocie**des pós-m*dernas. [tradução *ar*a Ludov*na Fi*ueiredo] Lisboa: Instituto Piaget, 2000. RICOEUR, P. A memória, a *istór**, o esque*im*nto. [traduçã* de Al*in François [et al.]] **mpinas, SP: Editora *a Unicamp, 2007. Como Re*erenc*ar este Ar*igo, *onforme ABNT: BOES*IO, A. L. M; ROSA, O. B. ****ria, Es*uecimento e Imaginário: A Trama Entre Ficção e Hi*tória em Nu*c* Fui Pr*meira Dama. Rev. F*A, *eresin*, v.14, n.1, art.2, p. *0-56, *an./f*v. 2017. C*ntribuição dos Autores A. *. M. B*essio O. B. Rosa 1) concepção e pla*e*amen*o. X X 2) anál*se e i*te*pretaçã* *o* d*dos. X X 3) e*aboraçã* do ras*unho ou na revis*o cr*tica *o conteú*o. X X 4) partici*açã* na aprov*çã* da versã* fina* do manus*rito. * X
Re*. FSA, Teresina, v. 14, n. 1, art. 2, p. 30-56, jan./fev. 201* www4.fsanet.c*m.br/revista

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