Centro Unv*rsitário Santo Agostinho www*.fsanet.com.*r/revista Rev. FSA, Tere*i*a, *. *7, n. 8, art. 3, p. 48-68, ago. *0*0 I*SN Impresso: 180*-6356 ISSN *letrô*ico: 2317-2983 http://dx.doi.org/10.12819/2020.1*.8.3 Da Po*ítica Nativa à Política Formal: A *a*oeira Ang*la *eresi**nse e o Valor da **upação do Es*aço Público *rom N*t*ve Politi*s to Formal Po**tics: *apoeira A*gol* from T*r*sina an* the Value of Occupyi*g P*blic Space Chil*** Nataniel *ereira Silva Me*trado em A*tropologia * ArqueologiaUni*er*idade Federal d* Piauí Gra*ua*ão em Ciê**ias Soc*ai* pela Univer*i**de Feder*l do Piauí E-mail: s*y*der10@hot*ail.com Cels* Brito Doutor em An*rop*logia Social *ela *ni*ersi*ade Feder*l d* R*o Grande d* Sul *rofessor Adju*to do Departamento de Ciências *ociais da Unive*s*d*d* Fe*eral *o Pi**í E-mail: celsodeb*i*o@ufp*.edu.br Ende*eço: Chil**r *ataniel Pereira Silva E*itor-C*e*e: Dr. Tonny **r*ey d* Alencar *ampus Univ**sitário *inistr* Petrônio *orte*la - Ininga, *odrigue* Teres*na - PI, 6404*-*50. Brasil. *ndereço: Celso *rit* A*tigo recebido em 07/0*/2*20. Últi*a versã* *ampus *niversitário Minist*o Petr**io Portella - Ininga, Teres*na - PI, 640*9-550. Brasil. recebida em 2*/05/202*. A*rovado em *7/05/2020. A*ali*d* pel* sistema Trip*e Review: a) Desk Review *elo Edito*-Che*e; * b) Doub*e Blind Review (avali*ção cega po* do** avalia*ores d* área). R*v*são: G*amatical, Normati*a e d* Formatação
Da P*lítica Nativa à P*l**ic* Formal: A C*poeira Ango*a Te*esinense e o *alor da Ocu*ação do Espaço Público 49 RES*MO * pr*sente trabalho tem como obje*ivo an*lis*r o processo de construção *dentitári* do c*letivo de *apoeira Angola Domingos de An*ola, da cid**e de Teresina-PI, e a busca de rec*n**ci*ento pel* *eu l*de* n* *enário lo*al. O ca*po em que *oletivo ana*i*ado est* o situado é formado por gr*p*s *e capoeira q*e seguem distin*a* *e*t**tes da prátic*. Dentre os "valores" *u "f*ndam*ntos" mob*lizados p*lo cole*ivo com vistas à legitimação de sua prá**ca, focamos na oc*pação de espaços público*, s*bretudo *o Parque d* C*d*de de Teresina. Para realizar e*ta análi*e, *antemos em mente a no*ão de se*m*ntaridade (GOLDMAN, 2001) a*ota*os o método *tn*gráfico. Co*clui-se que * os novo* v*lo**s in*e*i**s no pro*ess* p**íti*o na*i*o dos *apoe*ristas de T*r**ina faz*m com q*e a ques**o *o uso do esp*ço público seja redireci*nada à esfera da política formal, en*uanto uma reivindicação do "*ireito à cidade" (LEFEVBRE, 1969). Pal*vras-c*ave: Capoeira Angola. E*paço Públ*co. P*lític* N*tiva. *BSTRACT The present wo** aim* to analyze *he process of *dentity construction of a Capoeira An**la teresinense co*lective called Domi*gos de *ngola and the cons*quent search for recognition *y its le*der *n the local scene. The fi*ld in wh*ch the coll*ctive anal*zed i* loca*ed is f*rmed by groups of Capoe*ra that follow diff*re*t aspects suc* as Capoeira Regiona*, Contemporâ*ea and Angola f*om Bahia. Among *he "values" or "founda**ons" mobilize* by the collec*ive with a view to legi*i*izing *h*ir practice, we will fo*us on the "o*cupation of publi* spa*e*", *bove all, of the P*rque d* Cidade de *eresin*. To carry out this analy*is, *e *ill *eep in min* the notion of "seg*en*arit*" (GOLDMAN, 200*), as *ell a* we will f*ll*w the ethnograp**c method. ** is concluded t*a* the new val*es i*se**ed in the native p*l*tical process of capoeir*stas from Te*esina. Keywor*s: Capoei*a Angola. Pu*li* Pla*e. Nati*e Politics. Re*. FSA, Te*esina PI, v. 17, n. 8, art. 3, *. 48-68, *go. *020 *ww4.fsanet.c*m.br/rev*sta C. *. P. *ilva, C. Brito *0 * IN*R*DUÇÃ* Para comp*eender o p*ocesso *e formaçã* do coletivo de Capoeir* Angola ter*sinense, *enominado Domingos de **gola, analis*remos as *elações entre os capoeiristas da ci*ade de Tere*ina-PI ** en*ontros coorde*ados po* **lipe E*dras no P*rque da Cidade Tra*a-se d* u* coleti*o *ue *cab* de pa*s*r pelo que Araújo (2004) chamou de "c*nversão da Cap**ira Regional par* a Capoeira A*gol*", o que, n** t*rmos da aut*ra, faz des*e coletivo um gr*po *e "angoleiros emergentes". D* aco*do com e*tudos anter*ormente re**izados, *s grupos *as dif*rentes vertentes da capoeira (R*giona*, *ontemporân*a e Ang*l*) **n*t*oem s*a* respe*tivas ident*dad*s s**undo um pro*esso contrastivo e mediante a e*ei*ão *e sinais diacríticos chamad*s de "fundame*tos da capoeira" (BRITO, *0*7). T*is s*nais diacr*ti*os d*f**em as identida*e* no interior do unive*so da capoeira, ao mes*o t*m*o em que *orn*cem crité**os *a*a avaliaçã* d* legitimidade usa*os p*** **ribuir *econhecimento aos nov*s capoeiristas em trânsito de uma trad**ão para out**. C*da mest*e tem rel*ti*a au*o**mia pa*a *nserir **as própria* idiossincrasias sob*e esses "val**es/*u*dam*ntos" sem negar, ent*etanto, os *ais g*rais da trad**ão na qual es*á inserido, s*b o risco de *erd*r l*g*ti*idade. Partimos ** p*essuposto de q*e **ra cada *erte*te d* capoei*a man**m-*e critério* *e aval**ção para atribuir le*itimid*de * reconhec*mento, com base n*s quais os c*letivos em f*r*aç*o vi*am adequ*r-se. E*se conjunto d* *a**res/fun*amentos exigidos * os mei*s pe*os quais os *reten*e*te* * legi*imidade corresponde* ele *erá aqui chama*o *e re*ime d* * legitimaç*o (RL). De **ordo **m as prin*i*ai* v*rtentes da capoeira, *ropomos que exis**m *ifer*nt*s re*im*s, entre eles: *eg*me *e legi*ima*** da Capoe*ra Regiona* (RLC*), regime de legitimação da Capoeira Contemporâ*ea (RL*C) e regime de legitimação da C*poeira Angola (RLCA). Es*es regimes situam-se, n*sse quad*o, como subsistema* de**ro de um *i*tema m*is abra*gente, de *od* q*e *unci*nariam c*mo p*n*os em *m continuum entr* "modelos ideai*" pelo* *uais **g*ns c**etivos *r*nsitam, *ando origem, em al*un* cas*s, a *rran*os *istos, tendendo para um lado ou pa*a o o**r* o suficiente pa*a *erem reco**ecidos como um ou *omo outro. Ap*sar de os valore* *inhage* e a*c*stra*idade e*ta*e* presen*es em todos os RL, pe*cebemo* *ue em um **les, n* RLCA, tais v*l*res/fund*mentos eng*obam outr*s m*nos relev*ntes, da m*sma f*r*a *ue, inver*amente, no R* das d*mais vertentes, eles são englo*ados por out*os *ais *ele*antes (DUM*NT, 199*). Essa *nversão corresponde ao funcionam*n*o contrastiv* da produção das i*entid**es ne*te universo (BAR*H, 20*0). Rev. F**, Teresina, v. 17, n. 8, ar*. 3, p. 4*-68, ago. 2**0 www4.fsane*.com.br/revi*ta Da Política *a*iva à Políti*a Fo*m**: A Capoei*a Angola Teresine*se e o Valor *a Ocu*aç*o do *spaço Públic* 51 O **ntr*ste aparece com *aior ni*idez *ntre a *e**ência "hierárquica" do RLCA, que tem a ancestr*lidade e a *inhagem *omo v*lores eng*o*ant*s que se ma*eriali*am *a pes**a do* mestres "cab*ças d* li**agem", e * t*ndência "i*di*idualista" do RL das outras vertentes, que têm c**o *alores pr*n*ipai* a valentia, express* em jogos mais *gres*i*os d**a*te as rodas de ca**ei*a, e a auton**i*/in*e*endênci* do t*a*alh* do lí*er do col*tivo e* relação a uma hierarq*ia piramidal. 2 *EFERENC*AL TEÓRICO Va*e a pena di*correr b*evemen** sobre a nossa id*ia d* valores/fu*damentos. Está pe*sada como um* categ**ia que opera em três sentidos distintos e complementar** na no*sa c*nce*ção de regime de legitimação (*L): 1) A fu*cionalidade dos valores/fundament*s se *an*fes*a em *m sinal d*acrítico, ou um co**unto ** *inais, n*cessário(s) pa** a e*aboração da* "identidade* contrastivas", q*e pode(m) ser tant* elementos *ater*ais quanto ide*as (BARTH, 2*00), c*mo um "intere*se" que perm*te o surgimento *e relaçõ*s so*iais em dada situaçã* no inte*io* *os *oletiv*s f*rmados segun*o o c*njunto de sinais di**ríticos. 2) De acordo c*m R*dcliffe-Brown (1973, p. 245, *rifo n*sso), "exis*e r*lação social e*tr* dois ou mais organismos individ*almen*e qu*n*o há c**to aju*t* de *eus respect**os interesses, pela co*ve*gência de interesse, o* p*la limitação de confl**o* q*e possam s**gir da *ivergência de *nt*resses". E*sas relaçõ*s soc*ais e os interesses que as mantêm serão concebidos como *on*extu*is e si*u*cionais, *or*ando uma unidade s*cial ou "**gmento" que pode s*r *eito e *esfeito logo *m seguida e *efeit* novamen*e. 3) Valoração ideo*ógi*a *os "*undamentos" *u* formam o* quadros dos distinto* RL para a ação dos sujeit*s e* bus*a d* reconheci*ento. Noss* refe*ência se situa no deba*e en*re "hierarquia" (da li*ha*em e da anc*st*alidade) e "individualismo" (*a vale*tia). A "hierarquia" pela via da linhag*m e da ancestra*i*ad* seria um valor ge*al *o sistema *ot*l da capoeira: n* RLCA **a **globa o "individualismo" pre*ente no fundame*to valentia de modo que ações qu* vi*am expre*sar valentia existem, mas não são *ositiv*men*e valor**as; j* nos RL da* o*tras ve*te*tes, * "individua*ismo", pe*a *ia *a va*entia, aparece co*o um valor ideal *ue camufla a existência re*l *a "hi*rarqui*" pel* via d* linhage* (a ancest*a*idade parece ser de fato inexist*nt* o* pou*uíssimo presen*e nesses regi*es), *e*et*ndo * lin**ge* para um se*und* plano, como um guia p*ra as ações dos capoeiri**as que bus*am legitimida*e e r***nhecime*to *m tais regimes. Rev. F*A, Teres*na PI, v. 17, n. 8, *rt. 3, *. 48-6*, ag*. 2020 ww*4.fsa*et.com.br/revista C. *. P. Silva, C. Brito 52 Por *im, Dumo*t cita *arsons (1955) para expl*car a ideia que inspirou noss* análise: A *ção está orientad* para certos o*jet*vos: *la i*plica tamb** um processo de *eleção quanto à determi*ação desse* *bje*ivos. Nes*a perspect*va, *odos os *ompone*tes da ação e da situa*ão na qual ela se *esenv*l** es*ão s*jeit** a avaliações... Pri*eir*, *s unidades do sistema, quer se trate de *tos elementares ou *e papéis, de c*letividad*s ou de person*l*dades, dev*m ser **bmeti*o* pela n*tureza das coisas a uma t*l *v****ção u*a vez dado o process* de aval*aç*o, é preciso que ele s*rva p*r* diferenciar estas ou aqu*la* entidad*s n**a or*em hierárquica Quanto à *egun*a *onsequência, ela conh*cida e *ela d*pende a é est*b*li**de do* sis*emas sociais; ela enuncia que, sem uma in*egra*ão dos critér*os de a*aliação, as uni**de* constitutiva* não formariam u* "sistema de valores comum", a e*istê**ia de um tal sistema particip* d* mes*a natu*eza da ação, tal como ela s* desenvol*e nos sistemas soci**s ("Novo esbo*o de uma teoria da estratificação", em E*ementos para u ma sociolog*a da Ação, pp. 256-257). Em out*os termos, o homem não ap*nas pe*sa, ele age. Ele *ã* t** *ó id*ias, *as valor*s. Adotar um valor hierarquizar, e um certo é consen*o s*bre os valores, uma cert* hi*rarquia das ideias, das coisa* * as pess*** * i*dispe*s*vel * vida social (D**ONT, 1997, p. *6, grifo* do auto*). 3 M*TODOLOGIA Com * intuito de analisar a mo*iliza*ão *os "valores em açã*" relativ*s *os reg*mes de legitima*ão do universo da capoeira, nos remete*os ao *iste*a sóci*-org*nizacional *a Capoei*a A*gola, previamente de*inido apenas na medida em *ue f**nece um quad*o de*tes v*lo*e* e*qua*t* hipótese a se* averiguada e* *ampo. D*sse **do, apesar de *ermos del*neado um esquem* teóric* (tópic* anterior), realizamos um tra*a**o etnográ*ico qu* visa à co*stru*ã* de uma "teoria etnográfica", co*fo*** escreve Marcio Gold*an: Uma teoria etnogr*f*ca tem, po*tanto, c*mo obj*t**o c*ntral el*borar u* modelo de com*reen*** de um ob*eto social qualque* (linguag*m, magia, polític*, etc.), o q*a*, *esmo produzido e* e para *m *ontexto partic*lar, pos*a funcion*r como matriz de in*eligibilidade em e para out*os contextos. Nesse sentido, *ermite superar *s conhe*idos pa*ado*os do particul*r e do *e*al, assim *omo, talvez, os das prát*c*s contr* as no*ma* ou das realidade* em oposição aos ide*is. Iss* porque s* tr*ta sempre de evitar as q*estões a*stra*a* a respei*o de es*rut*ras, funções ou mesmo pr*c*ss*s, e dirigi-*as pa*a os fu*cionamentos e as prática* (GO*DMAN, 2006, p. 2 * ). A*ém di*so, mant*re*os p*esente uma preocup*ção histórica, cuj* análise se dá c*m base em entrevi*tas que foram r*a*izadas com capo*iristas (Fel*pe E*dras, Contr*mest** Buscapé e outros) de difer*ntes colet*vos e c** outr*s sujeitos de p*squisa, como os *uncionários do Parque da Cidade (v*gias). Nos encont*os do coletivo Domingos de Angola, participam** de u** reunião de representa*te* *e dis*intas vertentes de capoeira presentes na cidade de Teresina, todos R*v. F*A, *ere*ina, v. 17, n. 8, art. 3, *. 4*-68, ago. 202* www*.fsanet.com.br/revista Da Política *ativa à Política Formal: A Capo*ira An*o*a *eresinens* e o *alor da Ocupação do *spaço Públi** 53 inter*g*ndo e, apare*teme**e, negando seus valor*s *specíficos, os quais dari*m lu* ao princípio de contrasti*idad* na elab*ração i*entitária. O que víamos era um grande coletivo homogêneo sem fundamen*os definidos e sem c*itério* de *egiti*a**o, m*s qu*, gradativamente, tornou-se um cole*ivo c*mpletamen*e he*er*g*neo, cujos distanciamentos e *pro*i*aç*es em **rm*s de valores/f*ndam**tos for*m se deli*ea*do gra*ativamente e em ocasiõ*s **stintas. O que se m*nte*e, contudo, d*sde o início da pesquisa, é *ue *el*pe Esdras era o princip*l articul*dor do cole*ivo e que ele próprio era o elo en*re as *istin*as v*rtentes e os d**erentes *rup*s ali presente*. Assim como os mo*elos dos sist*mas org*nizacio**is são ide*is e nunca encontrad*s com*le*o* na re*li*ade, as identidade* dos gru**s que *efinir**os aqui são semp*e f*uto *e u* empo*rec*men*o de outro* per*encimentos (de*ini*os como partil*a d* valores/fundam*ntos em co*um) a uma tradi*ã*, a uma vertente, * uma linhagem, a um gr*po (SER*ES, 1997 apud GOL*MAN, 2001). Para o desen**lvimen*o des** pesquisa, l*vant*mos *s segu*ntes quest*es: a) * pos*ível entender o cole*i*o Do*ing** de An*ol* seg*ndo o quadr* teó*ico do "**stema *e linhagem"? b) *m torn* de qu*i* *alores/fundamen*** os gr*pos de cap**ira teresi*enses se aproximam * se dis*an*i*m entre *i * *o coletiv* Domingos *e Angola? O a*tigo está organizado em três *artes: *. a aproxim**ão de F*li*e Esdras aos valore*/fund*ment*s da Capoeira *ng*la, concomitante a* seu gradativo afa**amento dos valores/*undamen*os da C*poeira Re*ional; 2. os encon*ros que formara* * coletivo Domi*gos d* A**ola * a *e**ral*dad* ** Parque da Cidade *omo espaço público ocup**o pelos capoeir*stas; 3. uma bre*e conside*ação fi*al, em que sus*entamos que o coletivo Do*ingos de Ango** elegeu alguns fundame*tos da Capoeira Angola te*esi**nse, aqu*les de menor potenci*l contrastivo em relaçã* aos da Capoeira *egi*nal e da *apoeira Contem*o**nea (vertent*s das quais descendem *enealogicamente a maioria dos grupos da cidade d* T*resina, com exce*ão do núcleo d* *a*oe*ra An**la Zimba-Teresina/GCA*), co*o a ancestralidade, de modo * ser r*conhecida e*tre os a*g*leiros sem ser necessariamen*e o*osta às outra* ve*t*ntes. Feli*e Esdras mant**e sua a**o*omia/indepen*ência em relação aos grup*s *e Ca*oeira **gola o suficiente para consegu*r se* legit*mado *ela co**n*dade capoeirística desta cidade, mobi*i*ando a aut*nomia * a *alentia *o*o valores/*undamentos *e sua prát*ca, assim c*mo mobilizando o valo*/fun****nto ance*tralidade, ma*eri*li*ado na ideia de "ocupaç*o de es**ços públicos", uma vez que reme*e ao fato de que os mestres **cestra*s prati**v*m *apoeira nas r*as. Rev. FS*, Teres*n* PI, *. 1*, n. 8, art. 3, p. **-68, ago. 2020 www4.*sa*et.com.br/*evista C. N. P. Silva, C. Brito 54 Po* fim, *onsid*r*mo* que a "ocupação do *s*aço públic*" torna-se um po**o de inf*exão ent** *s diferentes *L, **cul**r ao *ontexto da refer*da *idade, funci*nando como uma *stratégia dentro da "polít**a nativ*" d* Cap*ei*a Angola teresinense. A parti* dessa materialização peculiar *a *deia de an*estralida*e, vislumbrou-s* um posicion**ento político p*ra além do univer*o n*tivo, *bjetivando-se assim a esfera p*l*tica formal. 4 RESULTADOS E DISCUSSÕES *.1 A "con*ersão" para a Ca*o**ra Angola Feli*e E*dras f** u* capoeiri*ta vincu*ado à Capoe*ra Regi**al q*e *ez a conversã* par* a C*poeira Angola. Cont**o, optou por não ade*ir a todos os crit*rios legitim*dores d*st* tradição, qu* aqui * chamamos de crit*ri*s de legitimação do sistema d* linhag*m composto sobretudo pela linhagem e, secunda*ia*en*e, pela ancestralidade, almejando assim con*truir uma v*rtente **cal da Capoeira Angola. Ent*e o*tubro de 2017 e *u*ho de *01*, muitos gr*pos de c*poeira da cid*d* de Teresi** mant*nham relaç*es diretas *o* Felip* Esd*as e com seu colet*vo Domingo* de Angola. Po*e-se *izer que grande parte desses grupos se en*ont*a vinculado, em termos de genealogia, à Capoei*a Regiona*, e*tre os qu*i* pode-se c*tar os grupos *scarpoeir*, *lforria *a*oeir*, Cordão de Our* e Escravos Br*ncos. Par* além da relação com tais gru*os, Felipe também m*nte*e r*lações com represen*antes d* gr*po *in*ado Brasileiro de Capoeira (v*n*ul*do à vert*nte de Capoeira Contem*orâ*ea) e *e*resentantes *e g*upos de C*poeira **gola, com* o* membros do n*cleo do GCAZ-Teresina ** e grupo de Ca*oeira Angola G*ariba* (sed*ado na cidade de Picos-PI), am*o* conec*ado* à tradição da C*poe*ra Angola bai*na. Fel**e no* i***rmou *ue t*v* sua p*imeira experiênc*a com a *apoeira ainda na infância, em um grupo denomi*ado O*ca*poeira, cuja sed* era o pr*prio Pa*que *a C*dade. Não havia grupo* de Cap*eira Angola na época e a prática se resum*a a um estereótipo folclorizad* em si**ações esporádicas na dinâmica *os grupos de capoeira da cidade, como uma "capoeira an*estral". Inclus*ve, em a*gun* grup**, ne* tod** os membr*s possuía* permissão para jogar Capoeira Angola, somente os mais exp*rientes. Com o **corr*r do tempo, Feli*e alterou seu estilo de jogo, seus m*vimen**s e cantos, d*minu*u o val** que a*ribuía ao combate c*rporal (valen*ia) e aumentou o seu apreço à mus***lidade, elem**to muito característico d* C*poeir* Angola (F*IG*RIO, 1989). Além Rev. FSA, Ter*sina, v. 17, n. 8, art. 3, p. 48-68, ago. 2020 www*.fsanet.co*.br/re**sta Da Política *ativa à Política Formal: A Capoei*a Angola Te*esinense e o Valor d* Ocupação do Esp*ço **blico 55 disso, *udou sua forma de vest*r-se, in*luen*iado p*r vídeos acerca de uma Ca*o*ira Angola "antiga" dis*onibilizados na internet: pas*ou * usar calças *ociais * chapéu e abandonou a* ro**as branca* e o *ordel (insí*nia da *ierarquia da Capoeira Reg*o*al * Conte*po*ânea). Depois *e algum tempo, Feli** afa*t*u-se do Grup* Osc*rpoeira e, de*idido a nã o mais fazer *art* de nenhum out*o grup*, p*ssou a frequentar as r*das *e rua em Teresina-PI e em Timon-M* (cida*e v*zinha se*arada pelo R*o Parnaíba). Par* Fe*ipe, *ua transiç*o d* C*poei*a Regional do grupo Oscarpoe*ra *ara * Capo*i*a Angol* sem grupo si*nificou o *bandono *a* academias, **s escolas de ca*oeira, dos uniforme*, dos cordõe*, dos **einos e do pagamento de me*salidad**. Aqui já se *v*de*cia o pa*e* que * espaço público * a gratuidade teriam no coletivo Domin*os d* Angola, que se formaria ***s de*ois, p*is seu idealiza*o* ac*editava que a Capoeira Angola deveria ser pra*i*ada, sobretudo, na rua. Entret*nto, como não *avia *enh*m angoleiro na cidade, a fo*mação *e Fel*pe segui* atrav*s de inform*çõe* *eicu*adas na *n*er*e* (como v*deos *o You*ube e no Facebook) oriun**s de di*e*entes grupos *e Capoei*a Angola esp*lhados pel* Brasil. A partir de determi*ado tem*o, el* deixa de *ssist*r a* material *e grupos aleató*ios e se concentra no a*rend*zado de *ma tradição esp*cífica, a do grupo de Capoe*ra Ango** Senh*r do *onfim, de mestre A**nias, localizado na cidade de Sã* Paulo. *a* mestre deu início ao seu **abalho com a C*poeira Angola em São Paulo em um espaço públ*co (a Praça d* *epública) e sem*re **ntou com a presen*a de capoeiris*a* de *is**nt*s ver*ent*s (Re*ional e *ngol*). *estre Mor*n*, di*cípulo direto *e M*str* Ananias, afir*a que: [] a Roda da República s*mpre foi uma *oda mi*ta, só mais ta*d* depois, *a década em 1987 fo* q*e a gente começou a fa*e* uma Cap*eira Ango*a. Houve no *omeç* *ma c*rt* res*s**ncia, mas depois o p*ssoal gostou, porq*e a gente sent*a que a c*poeira reg**nal estava muito violenta *esmo (*UETU, *014). Me*tre A*anias passou a ser a *e*erência de Fe**pe, mas, aind* as*im, não se trat*va d* u*a re**rênci* legítima e de sua entrada na linh*gem do referi*o mest*e, *o*s Mestre Anania* não * *av*a reconhecido. Contudo, os fundam*ntos desse mestr* eram visíveis n* *rátic* de Felipe: na *ua *estimenta (cha*éu, ca*ça soci*l, cinto, sapato, ca*is* por dentro da c*lça, n** uti*ização d* uniforme), *o apr**o pe*as rodas de rua, p*lo jogo rápido * *ela musica*idade (dava preferência aos to*ues de *er*mbau * às músicas *rav*das por Mest*e Ananias em *eus treinos e roda* realiza*os nos *sp**os públicos dos p*rq**s ter*sinenses). Feli** passou a viaj*r para eventos de Capo*ira An*ola, semp*e para regiõ*s próxima* como Mara*hão, Rev. FSA, T*resi*a P*, v. 17, n. *, art. 3, p. 4*-68, a**. 202* w*w4.*sanet.com.*r/re*ista C. N. P. Silv*, C. Brito 56 Ceará ou interior do Piauí; as du*s úni*as viagens mais longas que ele *ez f** *ara São Paulo, *endo duas visitas à casa de Mestre Ananias. Com essa narrativ*, tudo levava * crer *ue Fe*i*e a*abaria por ent*ar no grupo *e Mest** Anani*s, cons*guin*o assim um mestre e a legiti*idad* como ang**eiro, uma vez que uma da* form*s de aderir *o s*stema de linhagem é pe*a filiação a u* gru*o tra*icional (BRITO, 201*). A *ão aderência ao grupo *e Mes*re Ananias e*a consciente**nte politizada por Felipe **e, ap*sar de expl*cit*r sua "pro*imidade" co* a Capoeira Ang*l* pela ad*çã* de alguns dos "f*nda*en*o*" de *al mestre, t*mbém marc*va *ua "d*stânc*a" a* r*futar a ordem dos instrumentos utili*ad** no r*t*al da roda de capo*ira: Mestr* Anania* usava três berimbaus, dois pandeiros, um gã, um *eco-reco e dois atab*ques; já o conjunto *e instrume*t*s ad*t*dos por Felipe n** con*av* com *enhum atabaq*e e c*m três p**deiros. **a*ava-se de um sinal diacrítico, de um contraste conscie**e. Felipe ad*tava *s funda*entos de um mes*re com que* se *den**ficava, m*s ainda a**im não queria se fundir à sua l*nhagem. Dizia: "eu qu*ro mesmo fazer a Capo*ira *n*ola do me* jeito, uma Capoeira Angola de T**e*ina, ué". *o uni**rso da cap*eira, *lguém está apto * **ni*trar au*as *uando *utorizado por *eu me**re. Para i*so, é necessári*, ant** de m*i* nad*, ter um mestre, o que faltava a Felip*. Diz*am *e F*lipe: "lá **i * *n*oleiro sem mestr*" ou "o angoleiro de *n***n*t", *emonst*ando qu* valor o genealógic* do sistema de *in*agem parece ter vigorado aqui e m*bilizado um a catego*ia acusatória. O *n*er*ssante é que a *cusação aqui não é *eita para ca*oeiri*ta o (gener**amente), mas par* "a*gole*ro", o *ue atesta o **n*ecimento do* acusadore* - o or*u*do* das demai* *ertent*s - da impo*tâ*cia do perten*imento a *ma l*nha*em atuan*e no regime de legitimaçã* da Capoeir* Angola. No cas* da* outras *ertentes da ca*oeira, * recon*ec*me*to for*al é atri**ído por u* mestre, grup* ou por vários mestres nã* ne*essaria*ente c*necta*os p*la mesma l*nha*em, como ate*ta o *itua* d* for*a**ra *e Con*r**est*e (CM) Busca**, oc*rrido em julho de 201*. E*e foi rec**hecid* como c**tramestre de capoei*a por Mestr* Bobby, de Te*esina, Contrame*tre **carangoma e Mestre Perna (ambos ango*ei**s de São Paulo). Al*m dest*s, outros *estres loca*s também forneceram o ava* *a*a tal titu*ação. Todavia, *M Buscapé já ti*ha seu *róprio grupo, lidera*o exclu*i*ame*te por ele, ou seja, não man*ém n*nhum* relação *orma* com *estr* Bobby, menos aind* com os outros d*is me*tres de São Pa*l*. Inc*usive, CM Busc*pé *iz: Rev. FSA, Teres*na, v. 17, *. *, a**. 3, p. 48-68, ago. 2020 www*.fsanet.com.br/revi*ta Da *olít*ca Nativa à Política Fo*mal: A *apoeira Angola Teresi*ense e o Valor da O*u*ação do Esp*ço P*blico *7 [] o m*u reconh*cimento c*mo contramestre s* deve ao meu trabalho ind*vidu*l, a minha saída do *rupo que fazia parte * a formação d* m*u própr*o gru*o, mostra*do que *u era capaz po* mim mes*o claro q*e muitos amigos me *juda*am, mas *u posso dizer que *oi o meu esforç* *ndividual que me f*z contramestre de Capo*ira. A *ife*ença parece estar localizada no conceito de ancestralidade, uma v*z que as *utras ve*t*ntes atribuem à Capoeir* An*ola sua *ncestr*lidad*. N*sse que**to, ela parece *er uma cat*g*ria pouc* mobilizada em *ais vertentes e, quando * *sa*a, a*arece numa con**pção globaliz*nte, pel* via *a Capoe*ra Angola. Diz CM Buscapé: A*tes *a Cap*e*ra Re*i*na* tinha a Capoeir*gem, ela ainda não tinha o n**e d* Capoeira *ngola *ue s* começou a ser c*amada *ssim de*ois *o sur*imento da Ca*oe*ra Region*l, m*s a Capoe*ra Angol* que co*hec*mos é muito m*is p*óxim* d* ancestralidade do que a Capoei*a Regional/Contempor*nea. *obre seu traba*ho CM Buscapé diz: Tanto o me* gr*po (Gingado Brasileir* de Capoeira) quanto * meu evento partiu *a *deia de que Ca*oe*ra Moderna, a C*po*ira Regional/*o*te*por*n**, pe*deu a mu*to da *radição e da ancestralidade, p*rt*nto o meu e*en*o busca resgatar a t***i**o e a a*c*strali*ad* da Cap*eira, *or isso quero **r a *ap**ir* Angola Mas da* próx*ma* vezes, *uero trazer mestres *ais antig*s que CM Xicara*goma e Mestre Pern*. Mesmo de*idi*o em *ua conversão para a Capoeira Angola, Fe*ipe não abria mão de sua autonomi* em pr*l *a obtenção d* valor l*nhage*, adqu*rido pela e**rada em um grupo tradi*ional. Tudo par*cia indi*ar para o fato de que *elipe, consciente de sua limi*aridade, *o*a*se entre um * out*o RL e, *esse jogo, es*oçasse um* t*rceira alternati*a (a Capoeira A*gola t*resinense). Pela *ouca r*le*â*ci* prá**c* *a ancestralida*e para as demais *ertent*s, sua est*u**ra social é formada por pr*ticamente duas unidade* socia*s ("g*upo" e "filial"), diferentemente do que ocorre na Capoeira Ang*l* ("linhagem", "*rup*" e "nú*leo"). As*i*, se *a Angol* um grupo é o conjunto de n*cle*s con**tados a out*os gr*pos *nid*s por uma linha*em, nas outras verte*t*s um grupo pode ser apenas um *onjunto de f*liais. A t*a**posiç*o des*as fronteiras ou a c*nver**o de uma v***ente da capo*ira *ara outra é, c*mo já indicamos, rec*nhecidamente possível. P*de-se dizer que o flu*o *as outras vertentes para * Capoeira Angol* é mai*r e m*is conh*cido, enquanto o *ovimento inverso é pratic**e*t* i*existente. O* capo***ista* da verte*te Cont*mporâ*ea fa*em um* t*ans*ção *nterna e ritualizada, que, por sua ve*, *uarda momentos específi**s, que o ritual começa já Rev. FSA, Teresina PI, v. 17, n. 8, art. 3, p. 48-68, *g*. 202* www4.fsanet.com.br/revista C. N. P. *ilva, C. Brito *8 com * estru*ur* *a Capoe*ra Angol* (can*os e*pecíficos, *it*os de berimbau*, *strutura dos in*trumentos, jogos lentos e baixos), *m que todo* jogam e cantam segundo * modo *u* **da grupo entende a C*poeira A*gola, em s*guida, a e, e*tr*tura se a*tera *ara os fundamen*os específicos da Capoe*ra Reg*onal (ri*mo*, ca*tos, in*trum*ntos, m*vimentos). Felipe *uscava anu*a* as críticas recebi**s por capoeiristas das demais verten**s (qu*nto à ausên*ia ** um mestre ang*leiro) p**ticipando das rodas de gru*o* *inculado* genealog*camente à C*p*eira Regional e à Contemporânea e ali d*monstrando sua valentia. *esse *entido, a ***itim*ção almejada por Felipe tamb*m obed*cia a critérios do regime de tais ver*entes, mesmo porque, e i*so é rele**nte, não havia grupos *e Capoeira *ng*la na cidade até o início de 2018. Desse m*d*, *deologi*amente, *e**pe e*tava convi*to de *ua conversão, mas, na prática, c*nvivia c*m a **mu*idade *apoeirística de Teresina, qu* era formad* *or *rupos li*ados à Capoeir* Regio*al * Capoeira *o*temporân*a. *s*o o situava *m ambos os RL: à assumind* *und*mentos da Capoeira Ango*a a* mesmo temp* *m *ue a**r*a a al*uns *undam*n*os das outras vertente*, como o fund*men*o/*alor vale*tia p*esente na ló*ica indiv*dualista qu* re*onhece a performance indiv*dual do c**oeira na roda. E*e *firmava: Eu mudei meu je*to de jog** capoeira, jogo m*is baixo, jogo um pouco mais lento, nã* uso corde*, sempr* *io como q*em está *uma b*i**adeira ou num tea*ro, ma* eu t*nho *ue jogar com *e*s*as que eu sei que não *stão p** b*incadeira. Eles querem me bater mesmo! Quer dizer, ago*a nem tanto, *as a*tes era assim me*m*! Hoj* *u a*é *enho o*ção, mas antes o que eu ia faz*r? Ou eu jogava com eles daquele j*ito o u *u não joga*a **m *in*u*m! *ntão decidi jogar do meu **ito, *omo an*oleiro, m*s com eles, e *rovar p*a eles *ue sou um angol*iro e que também jogo na ro*a de Capo*ira Re*ional do jeito que *les querem. As*im que *e*ipe co*eço* * *tuar como ango*eiro e, ao mes*o tempo, ten*ou considerar os val*res de ou*ras vert*ntes de capoeira d* Teresina, os próprios ca*oei*istas que o cr*tica*am passar*m a *re*ue*tar os encontros do coletiv* Doming*s de Angola *o Parque *a Cidade. Seg*indo uma lóg*ca agregadora e, de acor*o com o próprio, a*equa*a ao contex*o da capoeira *eresi*ense, *elipe não e**gia ex*lusividad* de seus s*gu**ores, se*do a maio* parte del*s formada por ca**eiristas que mantin**m relações de pertencimento for*al co* outros *rupos de *apoeir* Re**onal e *ontemporâne* d* ci*ad*. *odemos inferir, a part*r d* exposto, *ue Felip* disponib*lizava um *istema alternativo em que era facultativ* aos capo**ristas das outras *er*entes muda* de um sis*ema a ou*ro de *orma mais inten*a do **e em s*us r*tu*is in**rnos, mas não de forma d**initiva, como seria exi*ido em gru*os de **poei*a Angol* *rad*cionais já consolidados n* *istema de linhag*m - Re*. FSA, *ere*ina, v. 17, n. 8, art. 3, p. 48-68, ago. 2020 www4.fs*net.com.br/r**ista Da Polí*ica Na**va * Po***ica Formal: * Cap*eira Angola Teresi*e*se e o Valor da Ocupaç** do E*paço **blico *9 como o *r*po Zimba instalado na cidad* *m 20*8 -. Além de capoeiristas, pessoas que **o c*nh*ciam a *apoe*r* in**iavam a pr*ti*a no *oleti*o D*mingos de *n*ola. Co* o pas*ar do tempo, ang**eiros se i*stalaram n* cidade e ta*bém passaram * visita* o espaço de con*iv*nci* do coletivo no Parque d* Cidade. Memb**s do núcleo de C***eira Angola Zimba-T*resina e *o Grupo de Capo**ra Angola *u*r*b*s encon*r*vam naq*e*e espa*o um a*biente de interaç*o ma** próxi*o daquele de s*as próprias linhagens tradic*onais: uma musicalidade *e a*ordo com os valores/f*ndament** dess* *ertente, jogo* menos mot*vad*s pela v*lentia etc. Fe*ipe, *or su* *e*, finalme*te h*via e*contrado uma i*terlocução específica da Ca*oei*a Ang*la em su* cidade. O rigor c*m a musica*idade, *aracterís*ico dos ang**ei*o*, era m*ntido por *e*ipe, *omo a*esta a fa*a *e Mari*na, a*goleira do núcleo Zimb*-Teresin* (que frequentava os *reinos e r*d*s do Domingos): [] cer** dia, *m ca*oeirista d* Reg*onal p*gou o berimbau e t*ntou modificar os toques que o F*lipe usava e o Feli*e parou a roda e falou que ali era o seu espaço e quem *uise*se fica* ali deveria r*sp*itar o que se fazia a*i. Depo*s disso, o cara tentou pe**r o Fe*ipe durante um j*go e Felipe, ao i*v*s de par*r o jogo e dizer: "iss* tam*ém não se aceita aq*i", jogou *e igual para igual com o cara o cara t*ve que obedec** * ainda sai* res*eitando o Fe*ipe nos seus próprio* t**mos. Aqu* vemos **ementos *inculado* aos v**ore*/fundamen*os ** dois RL idealmente op*stos *endo mobilizados por *elipe: po* um lado, *s in*trumentos e a forma d* *er*m tocados, tomados de empréstimo de Mestre Ananias, o que informa a *eferência à "li*hagem" específica do mo*elo da Capo*ira Angola; e, por *utr* la*o, enfrentar * desafio de fazer-se respeitar no jogo pelo us o d* violência evidencia a valentia, va**r específico d* *L da **po*ira Reg*onal e Contempor*ne*. Mesm* *om *undamento* diferen**s e au*ênc*a *e *inh*ge*, ambos *s g*u*os de C*poeira Angola (Zimba e Guaribas) ac*baram recon*ecendo * importânci* de Felipe *omo o precursor da Capoeira A*go*a da cidade de T*res*na. E*e *as** então tr*in*r com a os m*mbros d* núcleo Z*mba sem inser*r-se em su* linhage* e, *or sua vez, est*s também passam * frequ**tar treino* e rodas *o coletivo Domingos de Ang*l* c*m certa *requênci*. Pode-se dizer que ap**ar *as dis*in*õ*s de fundamentos, *ob*etudo ** rela*ão * linhag*m, havia o rec*nhe**mento entre ambas *s partes, um re*onhe*ime**o mútuo da ne*essidad* d* pa*ceria em *ro* d* constr*ção de um* cena an*ole*ra na ci*ade. O grupo Guaribasreconheceu F*lip* como angol*iro d* um* f*rma ain*a *ai* enfá*ica, co*vidando-o Rev. FSA, Teresina PI, v. 17, n. 8, art. 3, p. 48-68, ago. 2020 www4.f*a*et.com.*r/revist* C. N. P. Silva, C. B*ito 60 a d*r aulas e palestras em eventos **ganiza*os pelo *rupo na cid*** d* Picos-P*, sem, contudo, *econh*cer nenhum vín*ulo de per*encimento. 4.2 Coletiv* Domingos *e *ngola: Capoeira Angola e o *spaço públ*co As *tividades promovidas po* Feli*e oc*rr*am no Parque da Cidade durante os domingos, *azão pel* *ua* o coletivo foi ch*mado d* Domingos d* Angol*. O* encontros começav*m ger*lmente à* 9h e s* est*ndiam durante **do o *ia, *or v*zes se *long*nd* até *s 19h. *e tempos em tempos, os i**egrantes paravam par* desca*sar e *azer suas r**eições. M*ita* v**es, Fe*ipe parti*h*v* *eu alm*ço (qu* *eva*a em *ma marmita) com qu*m quer que *á estiv*s*e. Muito* dos *eguidor*s *o Domingos d* *ngola era* c*ia*ças * jovens carentes de bairros a*j*ce*te* ao Par*ue da Cid*de, e*tre eles as comun*dades da *rimaver*, Vila Risolet* Neve*, Ág*a Mineral e Real C*pagre. As atividad** tin*am início, geralmente, com au*as ** músi*a nas quais quem estava pr*sen** observava e segui* atentamente as i*struções acer*a dos toque* dos in*trume**os e de sua *isposição na co*pos*ção do que * cha**do d* "*ateria". Em seguida, *niciav*-se o *reino fí*ico, co* s*ries de ****cícios e movim*ntos cor*orai* d* Capoei** Angol* que Feli*e aprendera tanto em eventos quanto em aul*s virtu*is (m*vi**n*os baixos, com o corp* r*laxado e executado com relativa lentidão). Ao final desse treino ocorri* a rod* d* C*poeira **g*la para t*do* os *a*t*cipantes q*e quisessem jogar. Para finalizar a dinâmica do co*etivo, u*a *onversa sobre a capoeir* e acontecime*tos **r*is do unive*so c*poeirístico **resi*e*se. Essa dinâmica ** r*p*te du*ante todo o dia: mús*ca, tre*no, roda e conv*rsa, *om inter*alos de *erca de 30 m*nutos. U*a das car*cterísticas fundamentais do *olet*vo Domingos d* A**ola é o *so de espaços púb*icos. Anexamo* a essa característica ce*tra* a gratuidade e a a*ton*mi* do traba*ho de Felipe. Out*os grupos *am*ém r*alizavam * re*li*am atividades em espaç*s pú*lico* da cida*e, *as trata-se de uma extensão *sporádi*a d* ativ*d*des que ocorrem *m espaços *rivados, o que p*de si*nificar atividades *nseridas numa *inâmica de p*gament* de mensalidades, *u trata-*e de g*upos que *re*nam e* espaços públ***s, mas que est*o inse*idos em *rojetos ap*iados pelo governo m*nici*al ou **tadual, de *odo q*e os alunos não pagam, mas *s me*tres ou in*t*utore* rec*b*m p*lo tra*alho. No caso de Fe*i*e, a independência *ra tot*l, tanto em relação a outr*s gr*pos quant* a auxí*ios gov*rnamentai*, o que refl*tia sua po*ição polític*. Muitos compreendiam a inic*ativa de *el*pe como uma aç*o de caridade o* como uma doação. Para nós, sua atuação Rev. FSA, Tere*ina, v. 17, n. 8, art. 3, p. 48-68, ago. 20*0 www4.fsanet.com.br/revis*a Da Política Nativa à Pol*tica Formal: A C*p*eira Angola *e**sinense e o Valor da Oc*pação do *spaço Público 61 *x*lic*-*e muito m*is c*mo uma es*écie de retribuiçã* inserida na l*gi*a de **a "tr*c* d*d***" (MAUSS, 2003). Du**nte as *o*versas no cole*ivo Dom*ngos *e Angola, el* s*mp** f*lava sobr* sua conce*ç*o *e cap*eira *tr*lada a*s espaç*s púb**cos, *eixando subenten**d* su* *ostura anti-*ns*itu**on**izante. Em um dos *ncontros Fel*p* af*rmou: [] *ra*a e p*rque são os luga*es tr*dicio*a*s *a C*poeira, a Cap*eira é do povo e o povo sabe com* é, te* de tudo no povo! *este* lugares sempre tem um bêbado, um d*ogado, *u uma cri*nç* com fome que não tem nad* pr* comer e também não te* nada pra faze*Quando eles veem a Capo*ira ele* s* aproximam mesmo, alg*ns querem peg*r * pand*iro muitas vez*s aquel* *ara q*e t* todo arre*en*ado, m*g*elo * su*o, já foi um grand* c*po**rista e s**pre**de todo mundo q*ando peg* nu* *erimba* e cant*! Estes *aras têm que ter um lugar pra jogar também, tem que fazer parte *a C*poe***. Claro *ue é perigoso, tudo é *e**onhe*i*o, *m cara d*ste* pode ter *ma faca, pode querer te mac*u*a* me*mo sem ser C*poeira, pode querer te **uba* m*s a ru* assi* e a Capo*ira é a*sim, as duas coisas sempre a*d*ram é ju*tas n* passado, ag*ra t*m de *er a*sim também! A c*po*ira * da rua e do *ovo, tem*s q*e oferecer iss* de volta! Ainda q*e todo espaço **blico seja co*struído no meio urbano, ele deve ser compreendido pa** além da noção de "rua", isto é, co*o uma *at*goria soc*oespacial da vi*a que pode se* identificad* com ações que instituem sent*do a dete*mina*os locais da cidade e sã* por eles influ**ciados. O e*paç* *o parque é s**rado para Felipe! Ce*teau faz dis*inçã* entr* as ca*egorias "estr*t*g*a" e "t*tic*" para supor a ex*stênc*a de difere*tes formas de *tribui*ão de sentido ao *spaço * * disputa entre Estado e soc**da*e civil. *ar* ele, a c*tegoria "estratégia" c*nsiste em um "conjunto de *rát*cas q*e artic*lam espaço e poder [] [e] criam *em*r*a*ões físicas através das quais o pode* se di*t*ibui e se *onso*ida" (CERTEAU, 1996 apu* LEITE, 2*02, p. 121). Por sua vez, a "tá*i*a" s* *aracter*za a partir de *ovimentos não ho**gêneos e não previ**v*is em locais que não lhe são genuínos. O a*tor dá a ent*nder que a "táti*a" é compreendid* em *unção da au*ência de *oder e *anifest*ç** de r*sistência, enquan*o a "e*tratégia" se mos**a organizada em prol desse *ode* **stitu*d*. Assim, a "tática", quan*o asso*iada à *sfera geográfica (ou espacial) do lugar, pode ser definida como um "contra-**o" (LEITE, 2002) do esp*ç* público, ca*az não somente d* in*ert*r o* usos prescr*tos de um e*paço cont*olado, mas t*mbém *e permitir que o *spaço resultante da estratégia seja divid*do *m di*erentes lugares, e* vir**de d* delimitação s*cioe*pacial da difer*nça e d*s ressignificações que **is "co*tra-us*s" promove*. Dess* forma, e*tendemos que os integra**es do c*letivo Domingos de A*gola vã* ao Pa*que da C*dade no intuito de criar vínculos *m função de valores/fun*ame*tos a*sociados à *cupaç*o do espaço público co*o um elemento de a**est***idade, de retorno ao povo do que é do Rev. *SA, Teresina PI, *. 17, n. 8, art. 3, p. *8-68, a*o. 2020 www4.fsanet.c*m.br/revi*ta C. N. P. Silv*, C. *rit* 62 po*o, em detrimento de *sá-*o apen*s como local de passag*m ou de l*zer pr*vi*mente *efinido pelos g*s*ores u*banos. No *nício, *elipe utiliza*a o coret* *o Pa*que da Cidade, mas já ha*ia grupos de Kung *u fazendo **o do l*cal com* *xte*são *as ativida**s da aca*emia. Ele **dou-se *ntão p**a um peque*o espaço cobe*to e cimen*ado, s**uado ao lado *e *u*s sal*s de*ignadas, uma para se*vidores do Parque (*s vigias) e outra *ara professores da Escolinha de Futebol, um p*o*eto da SEMEL (Secretari* M*nicipal de Esportes e Lazer da Prefei*ura M*n**ipa* d* T*re*in*). Na *ealidade, o local esta*a *ba*dona*o e era usado como banheiro e como local *e d*scarte de lixo pelos frequentador*s do Parq**. Descasos com* *sses contr*b*íam par* o desencan*ame*to de Felipe *m relaçã* a qua**uer tipo de *poio g*vername*tal. V*-se *ue o m*smo d*scaso das s*guidas g**tões m*nicipais em *elaçã* à *apoeira é direciona*o a* própri* Parqu* da Cidade, poi* a *nica manutenção **al*z*da pela *re*e*tura dur*nte os últimos nove an*s foi a pintura d** q*adr** e *as p*redes *os espa**s cobertos, como nos rela*ou um dos vigi*s: "f*i apenas uma maquiagem no p*rque, os pr*bl*mas sérios a*nd* est*o aí, vio*ência, *alta de limpeza e refo*ma". C*mo c*ntinui*ade d*sta maquia*em, a p**feitu*a efeti*ou uma *arce*i* com uma em*re*a de pla*o de saú*e, a Unimed, que se comprometeu a promo*e* me**o*ias no *arque, u*ando as co*es da empresa e fazendo do local parte de *uas ações pu*l*c*tár*as. Quem se *osicion** junto à prefeitura e à Unimed re*resentan*o o *spaço do D*mingos de Angola f*i u* d*s v*gias do próp*io **r*ue, já que Felipe *ostava de *anter a au*onomia de seu traba*h*, além de n**rir *esconf*ança e *ec*i* *e que *ssa parceria seria apena* *rin*ípio de um processo d* p*iv*tização d* Parque da C*d*de. Dessa forma, o o espaço d* Doming*s de Angola passou a ter lajotas, mas, *or out*o lado, os desenhos feito* n*s pa*edes por Felipe * seus alunos (berim*aus, frase* de capo**ra etc.), que at*ibua* ce*ta identidade a* ambiente, foram apa*a*os e, em *eu lugar, as cores verde e *ranca da emp*esa. Os integrant*s *o *oletivo **mingos de An*ola e alguns funcioná*ios do Parque, *obr*tudo os *igilant*s, uniam-se *ara *eal*z*r melho*ia* do espaço * de seu uso, de m*do q*e o trabalho *e F*lipe tam*é* er* legitimad* pela comun*d*de local, além de contar co* o apoi* dos *unci*nários do referido est**e*ecimento público. El*s *as*ar*m a auxiliar Felipe n* lim*eza do local, disponibili*a*do vassouras e p*o*utos d* limpeza, água para os capoeiristas be*erem e a*é me*mo cedendo a cozinha de**i**da *os servidores para o pr**aro de *lime*tos dur*nte o* inte*valo* dos trein*s. Nas palavras *e Felipe: Rev. FSA, Teresina, v. *7, *. 8, art. 3, p. 48-68, ago. 202* www4.fsanet.com.br/re*ista Da *olíti*a Nat*va * Polític* Fo*m*l: A Capoeir* An*o*a Teresin*n*e * o Valor da Ocupação do Espaço P*blico ** Eu agrad*ço aos vigias, não à **i*ed graças ** a*oi* dos vigias a gente pode *ic*r aq*i o dia todo, um *o**o *ais confort**el a ide*a * ficar no Parque o máxi*o de tempo possível, tr*in*nd*, brincan*o, j*gan*o, cant*n*o a Capoe*ra An*ola como era a prat*cada no p*ss*do, sem escola*, se* unifor*es, sem bes*eiras m*dernas, *pen*s a Capoeira Angola como *s antigos *estres prat*cavam. Isso é um fu*dament* a**estral *ue tem que ser ***ga*ad*. A ação de resga*e da *ra*ição ancestral da Cap*eira Angola através *a ocupação do P*rq*e é signifi*ada pelas ang*leiras do Zim*a, M*riana e Anna Ra*ue*, como um* *l*ernativa aos problem*s da cida*e. Pa*a **as, a cidade de Teresina não est* pre*ar*da para o us* do espaço público e *niciativas como as *e Felipe contribuem pa*a a mudança desta reali*ad*: "ini*iativas que trazem pessoas *ara o parque é a única forma de *eixar o lugar seg**o!". A fala de Alber**, *utro angoleiro do núcleo Zimba-Teres*na, aponta para o potencial de democrat*zação do saber ca*oeirístico *ro*ovi*o por Felipe: A*las de graça que reún*m pessoas da pe**feria *o* *essoas da Uni**r*id**e e do centro da cid*de, crianças e adul*o*, hom*ns m*l*eres *ó poderia ser em espa*o * públ*co, * Cap*eira é do p*vo e se não fo*sem inicia*ivas como as do Feli*e, da*ui a pouco a *apoeir* só seria apre*dida *o* quem pode pagar. *odem*s dizer que o Domingos de Ang*l* é uma atribuição d* sentidos à experi*ncia ur*ana (AGIE*, ***5) o* mesmo ** conj*nto de p*áticas soci*is que reivindi*a u* "d*reito * cida*e" (*EFEVBR*, 1969). 4.3 *m *vento c*talizad*r E* nove*br* de 2017, u* garoto *hamado Elia*, de 14 anos de **a*e, foi *orto no Parque *a C*d*de ao *eagir * *m assalto. E*a um dos m*ni*os que freque*t*va* o *spaço d*sde h* mu*to tempo, p*ssando ora ou **t** *elas a*las de Fe*i**. * impacto desse *contecimento f*i tão grande qu* Feli*e deci*iu susp*nder os tr*i*o* por *e*po in**termina*o e a*quitetar algu** manifest*ção que chamasse a atenção do poder *úblico para a falta de seguranç* d* local. Os capoeiristas q*e f**quentavam o l*c*l iniciaram então campanhas nas redes sociais. Uma delas se d*u na forma de *m* música, feit* *elo cap*eiri*t* *o Grupo de Capoeir* Contem*orânea, Gil R*c*a, qu* mora na r*gi*o Norte de Teresi*a, pr*x**o *o Pa**** da Cidade. Gil c*m*õe muitas música* para capoeira, ma* de*idiu e*c*ever uma fora dos *adrões, espec*fi**mente sobre o Parq*e da Cidade, e d*recionada ao *tual prefeito, F*rmino Filho (PSDB). * ideia foi faz*r a pa*ó*ia de u*a música co*hecida na cidade p*r ser utilizad* *om* jing*e político, e foi b*tizada de "O Parque da Ci**de tá ent*egue ao *atanás": *ev. FSA, Teresina PI, v. 17, n. 8, ar*. 3, p. 48-68, ago. *02* www4.fsanet.com.b*/revi*ta C. N. P. Silva, C. Brito 64 Você *u* pe*** que sou *onto / *á me deixando louco *e t*nto sofrime*t* / cheio de obra parada / Só não *nxerga qu*m n** qu*r / *az pena a zona No*t* de *e*esina / é promessa na saúde, educação / N* esporte e n* lazer te* *uita decepç*o / e a *egura*ça tá u*a negação / Eu tô triste, eu vi * minha f*lh* chorando pelo 15 de *utubro / Soluçand* ela dizia que não mais jei*o / O Parque da Cidade tá entreg*e *o Satanás / Sem estru*u*a a* quadr*s estão abandonas / Evento* culturais já não ex*s*em ma*s / * Parque da Cida*e está en*regue a* satan*s / *ó tem assalto, g*nt* f*mand* crack / E a vida de *lia* foi tirada n* Parque / * P*rque da *id*de *stá entreg*e * Satan*s / *í *em co* prom*ssa id*ota / o *5 de outubro não *unci*na m*is / Aí vem *om p*omess* idio*a / O P**que da Cida*e *á entregue ao satanás. A m*sica circulo* *elas rede* sociais en*ua*to uma roda de c*p*eira * uma *asseata estav*m sendo org*n*zadas. *ont**o, a r*da e a passeata não ocorrer** porque Fe*i*e f*i acometido *e uma doença *ra*e * *icou i*tern*do durante mes*s até seu falecimento, em ago*to de 201*. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Vimos que * uni*erso da capoeira n* cidad* *e Te**sina é organizado por uma lógi*a que *stabelece distanciam*n*os e aproxi*açõe* en*re os dif*r*ntes segme*to* que o *onst*t**. É um co**unto de identidades *orm*ladas mediante *inais diacríticos en*re capoeiristas de *istintas v*rten*es g*upos *e capoei*a, evid*nci*ndo *ma complexa e*trut**a for*ada *ela e arti*ula**o entre heterogeneida*e e homogen*ida*e. A ide*tid*d* do *oletivo Dom*ngos de Ang*la e de *eu líd*r Felipe Esdras encon*ra-s* a meio caminho das princi*ai* trad*çõ*s deste *niver*o. El* pa**ce ser formada a partir de u*a espé*i* d* bricolagem *os sinais diacríti*os estabe*ecidos por *utros **upos j* cons*lidados *m o*tras ver*entes, *ar***erizan*o-se co*o uma nova ve*tente, uma identidade *ova no *niverso da c*poeira, isto *, uma Capoeira Angola genuinam*nte *eresinense. A tra*ição da Cap*eira Angol* com a qual Fel*pe se aproxima*a é ba*eada, pri*cipalmente, no valor/f*nda*ento anc*stralidade presente no regime de leg*timidade da Capoeira **go*a. E*se va*or normalmente realizado pela l*nhagem *u*, por sua vez, * é realizada pela efetivaç*o *e um vínculo de pertencimento a u* gru*o e a *m mestr* tradicion*l. No ent*nto, a **adição da comunid*de capo*irística *a cidade d* T*re**na com a **al *elip* mantinh* relações duradouras p*r*ce ser b*seada principalme*te nos valores/fundamentos val*nt*a e autonomia. São valores opos*os e contrasta*os: a ancestr*li*ade fu*ciona segundo "princípios h*erár*uic*s" e a *alentia e a a*tonomia segundo "princípios indi*idual*stas". R*v. FSA, Te*e*ina, v. *7, n. 8, art. 3, p. 48-68, ag*. 202* *ww4.*sane*.com.br/revis*a D* Pol*tica Nativa à Polí*ica Formal: A C*po*ira Angola T*res*nen*e e o Valor da Ocupação do *spaço *úblico *5 *el*pe Esdras construiu sua le*itim*d*de e*tr* os regi*es da* duas tradiçõe*, no limiar entre elas, corre**o o ris** de *er des*egitimado em ambos, uma vez que se aderis*e comp*et*mente ao p*incípio da "hi*rarquia" (*ncestra*i*ad* e l*nhagem) para ser *egitim**o no univer*o da C**oeira Angola ter*a *e nega* * princípio do "i*dividuali*mo" (v*lentia e *utonomia), necessário para ser l*gitimado no regim* das o*tras **rt*ntes. ** op*asse pela legit*mação do regim* da Cap*ei*a Angola, d**er*a fili*r-*e a *m gr*po de fora da cidade, e assim perderia a auto*omia para *ealiz*r se* traba*ho *omo lhe convi*sse (tant* no tocante dinâmica *e suas au*as quanto * sua *articipa*ão *as rodas de à rua, o que er* necessário para a dem*ns*ração da v*lentia) e teria sua legit*mida*e no ce*ário **cal, junto à* demais vertentes, di*icult*da. Aderir completam*nt* *os princíp*os individua*istas para ser **gitimad* no univers* da capoeira teresinense não estava n*s plano* de Felipe, uma vez qu* ele *á havia a*andonado esses pr*ncípi*s antes e i*so o desleg*t*maria j*n*o aos **vos angoleiros que s* t*rnaram parte *o cenário teres*nen*e *os úl*imos anos. A al*ernativa fo* mant*r-se sem filia*ões f*rmais c*m mestres de Capoeira Angola, mas co* u*a *spécie d* "apad*i*h**ent*", ist* *, uma m*dalidade ** conexão que não *xige * obediência e * vínculo formal (BRITO, 2*17), como foi a aproxim*ção ao grup* de Ca*oeira Angola de Mestre An*ni*s, em S*o **ulo, par* on** vi*java em busca de apren*iz*do e conexõe*. Mestre Ananias (faleci*o ** cerca de trê* ano*) c*ordenava uma das *ais f*mosas e *ntigas r*das de capoe*ra de rua, locali*a*a ** Pra*a *a Rep*blica em Sã* Pau*o, por*anto é *m model* e*tre os *n*ol*iros *e ocupação de espaços p*blicos. O inter*ssante é q*e Feli*e con*truiu um di*curso qu* as***iava a ance*tral*dad* m*is à "ocupaç*o ** espaço públic*" do q*e à imagem especí*ica de Mestre Ananias e seu grupo Se*hor do Bon***, ao *efender a i*eia de *ue a verdadeira **poeira An*ola - "capo*ir* a ancest*al" er* fe*t* pelo p**o em parq*es e pr*ç*s - públic*s. Me*iante esse di*cu*so que atrela*a * o*upação do espaço público à trad*ção * anc*s*ralidade, Felipe c*nseguiu à o r*speito e * legitimação d*s *o*os a*gol*i*o* de Teresina que entend*am seu* *a*o*es com* **a forma *e evidenciar um **oblema soc**l d* *i*ade. Por outro lad*, o espaço **blico foi p**co de um traba*ho compl*tamente autônomo (financei*a*ente e poli*icamente) e p*opíci* para a d*m*nstra*ão de v*lenti*, uma vez que esta*a abert* a todos q*e *l* quisesse* *h*gar *e*t** as h**ilidades bélicas ** Fel*pe, e fa*endo com que *le *amb*m c**quistasse a legit*midade entr* os cap*eiristas locais das vertentes R*giona* * Conte*por*nea. Assim, "a o*up*ção do espaço público" é o ele*ento fundamental para * iden*ida*e do c*let*vo Doming*s de Angola, *ornando-se, ao m*sm* tempo, uma característica pe*uliar *o R*v. FSA, Teresina PI, v. 17, *. 8, art. 3, p. 48-68, ago. 2020 www4.*san*t.com.br/r*vista C. N. P. Sil**, C. Brito 66 coletivo e o e**mento qu* sinte*iza os fu*da*entos con**aditórios dos re*imes ** legitimação das múl*iplas vertentes de *apoeira atu***es hoje na cidade de *e*esina. Nas a*álises realiza*as dur*nte a pesquis*, foi possível perc*be* que *lém da estabi*idade (t**vez momentânea) instituída entre o coleti*o Domingo* de **gola e os outros grup*s de capoei*a da ci*ade (o *ue podemos *hamar *e esf*ra da "política nativa local") me*ian*e *cupação *o Parque da Cidade de outros * e espaços públ*cos, evidenci*u-se ta*bém uma *po***ão entre os grupos de capoeira e o poder púb*ico. Um* esp*cie de *ransb*rdamento de *uestões da "política nativa" (relações so*iais int*rnas *os grupos *e **poeira, envolvendo o* RL das três v*rtentes) par* a e**er* públ**a d*s rede* sociais envo*vendo a p*lítica fo*mal (pod*r público e o próprio *refeito *a *idade). A ques*ão a*u* tratada parece estar en**psu*ada numa esfe*a à *a*te da política formal, mas e*globa*a por esta, que é a "p**ítica nati*a". A materi*liza*ão do va*or/fundamento an*estralidade em ocupação de esboço púb**co ide*lizado por Fel*pe remete essa "p**í*ica nativa" à uma realidade agrária (us* dos e*paços públicos) *os *nc*st*ais dos negr*s brasil*ir** que vivem hoje nas pe**fe*i*s bra*ileiras e que foram abolidos * a*ando*ados s*m nenhuma t*rra ou p*lí*ica públi*a que os amparasse. De fat*, a po*ítica interna do universo da ca*o*ira teresinense, pa*a alé* de q*e*tõe* locais, nos remete ao uso *os *spaç*s públ*cos ge*ido* pe*os nos**s *ove*nantes desde a abo*içã* da escrava*ura e a* papel *e resistência que a capoeira tem rep*esen*ado **sde ent*o, ocupando ess*s espaços * resi*tindo à restriçã* de c*rculação e de co**umo por part* de segme*tos desfavorecidos. Parece-nos que a **álise do processo *e constru*ão da identidade do co*et*vo pesqui*ado pos * i bi l * * a entender o *spaço *úblico como um *in*l **acrít*co i*serido no *o**unto identi***io da cap*eira tere*inense, mas também indica como processos identi*ários sempre estão atrelados a **est*es *olíticas mai* amplas. REFERÊNCIAS AGIER, M. Do direito à ci*ade ao fazer cidade. Mana, Rio *e Janeiro, v. 21, n. 3, p. *83-498, 2015. ARAÚJO, R. C. Iê viva meu mestre: a *apoeira *ngola *a "escola p*s**n*ana" como *rá*is ed*cativ*. 2004. 2*6 *. Tes* (Doutor*do em Educação) - Faculda*e de Educaç*o *a Universidade de S*o Pa*lo, USP, São P*ulo, 2004. A*ETU! A Ca*oeira no *io da Naval*a. Direçã*: An*ré *i*vé*io. Produç*o: Zé Pedro. *anto *n*ré: Cadê*cia *ilme*, 2014. 1 víd** (59 min). Di*ponível e*: https://www.youtube.com/watch?v=Dcq*rD5hUUo. Ace*so em: *2 abr. 202*. Rev. FSA, Teresina, v. 17, n. 8, *rt. *, *. 48-68, ag*. 2020 *ww4.fsa*et.com.br/revis*a Da Polít*ca Nativa * Política Fo*mal: A Capoeira *ng*la Teresine*se e o Va*or da Ocu**ção *o Espaço *úbl*co 67 BARTH, F. O gu*u, o *nic*ado* * *u**as varia*õe* antropológicas. Rio de J*ne*ro: Contrac*pa, 2000. BRITO, C. de. A roda d* mundo: a Ca*oeira Angol* em tempos de globalização. Curi*i*a: *p**is, 2017. BRASIL. Ministéri* da Cul*ura. IPHAN. I*ventário para *egist*o e sal*agu*rda d* capoeira como pa*rimônio cultural do Brasil. Dossiê. Brasília: IPHAN, 2007. Disponíve* e*: h*tp://portal.*phan.gov.br/uploa*s/ckfin*e*/arq*ivos/Dossiê_*apoeira.pdf. Aces*o em: 22 abr. 2020. DAMA*TA, *. * c*sa e * rua: *spaço, *idadania, mulher e mor*e no B*asil. 5. ed. Rio de Janeir*: Rocc*, 199*. DUMONT, L. Introd*ção. *n: H*mo hierarchicus: o sistema das casta* e *uas implicações. S*o P*ulo: *dUS*, 1997. p. 66. FRI*ERIO, A. C*poeira: *e arte neg*a a e**or*e branco. *evist* B*as*leira de C**nci** Sociais, São Paulo, v. *, *.10, p. 1-20, 1989. GOLD*A*, M. Introdução: memorial d* cultura *e*ra em Ilhéus. I*: *omo fun*i*na a d*mo*r*cia: um* t*oria etnográfica d* polít*ca. Rio d* *aneiro: 7 Letras, 20*6. p. 28-*7. GOLDMAN, M. S*gmentaridade* e m*vi*entos negros n*s eleiçõe* de Ilhéus. Mana: R*o de *anei**, v. 7, *. *, *. 57-9*, 200*. LE*TE, R. P. C*ntra-us*s * es*a*o público: not*s sobre construção social dos *ugares * na Ma*guetown. Revi*ta Br*si*ei*a de Ci*n*ias **ciais, *ão Pa*lo, v. *7, n. 4*, p. 116-1*4, 2002. LEFEB*RE, H. O direito à cidad*. S*o Paulo: Documen**s, 1969. MAUSS, *. Sociologia e A*t*opologia. In: Ensaio so*re a dádiva. Sã* Paulo: C*sac Naify, 2003. NASCIMENTO, R.; MON*EIRO, I. *apo*ira, c*dade e cultura: nota* etnográficas sobre o*upações criativ*s em Fortale*a-*E. O p*blico e o *riv*do, Fortale*a, n. 29, p. 55-71, 20*7. R*DCLIFFE-BROWN, A. R. Sobre a estrutur* so*ial. In: **trutura e função *a sociedade p*imi*iva. Petrópo*is: Edit**a Vozes, 1973. p. 245. R*IS, L. V. de S. O jogo de i*ent*da*es ** *oda de Capoeira paulistana. Ponto U*be, Sã* Paul*, n. 13, p. 1-11, *0*3. SILVA, C. N. P. Cap*eir* e Fi*iote*a*ia: a *o***rução dos "c*letivos" *o P*rque da Cidade e d* e**aço Viva Cl*nica. 202*. 10* f. Dissertação (Mestrado e* Antropologia) - Unive*sida*e Fed**al do Pia*í (UF*I), Teresina, 2*20. *ev. FSA, Teresina *I, v. 17, n. 8, art. *, *. *8-68, ago. 2020 www*.fsanet.com.*r/revist* *. N. P. S*lva, C. Brito 68 SIL**, R. C.; CA*AND, *a*ara da .*.*. * *nserção, atuação e permanência da mu*her nos *rupo* d* capoeira *e Teresina: notas *tnográ*icas. Revista FSA (Faculdade Santo Agostin*o), *. *6, *. 93-104, 2009. SI*VA, C. R. Cap*eira: * *reconc*ito ai*da existe. Teresi**: Armazé* D*g*tal, 2008. SO*ZA, L. Taxação da r*da de cap*eira no P*rque Vicenti*a Ara*ha, *JC. Change.org, 2018. **spon*ve* em: https://bi*.ly/2ReSOzZ. Ac*sso em: *2 abr. 2020. Co*o Referenciar este Artigo, conforme ABNT: SILVA, C. N. P; **IT*, C. Da Política Nativa à P*lítica *ormal: A Cap*e*ra Angola *eresinense e o V*lo* d* Ocu*ação d* Espaço Público. R*v. F*A, Te*esina, v.17, n. 8, ar*. 3, p. 48-68, ago. 2020. Contr**uição dos *utores C. N. *. Silva C. Br**o 1) concepçã* e planejam*nto. X X *) análise e int*rpretação dos *ados. X X 3) elaboração do rascun*o ou na r**isão críti*a do conte*do. * X 4) participação na aprovação da v*rsão fin** do m*nusc*ito. X X Rev. FSA, Ter*si*a, v. 17, n. 8, *rt. 3, p. *8-68, ago. 2020 *ww4.fsanet.*om.br/revista

Enlaces refback

  • No hay ningún enlace refback.


Licencia de Creative Commons
Este obra está bajo una licencia de Creative Commons Reconocimiento-NoComercial-SinObraDerivada 4.0 Internacional.

Ficheiro:Cc-by-nc-nd icon.svg

Atribuição (BY): Os licenciados têm o direito de copiar, distribuir, exibir e executar a obra e fazer trabalhos derivados dela, conquanto que deem créditos devidos ao autor ou licenciador, na maneira especificada por estes.
Não Comercial (NC): Os licenciados podem copiar, distribuir, exibir e executar a obra e fazer trabalhos derivados dela, desde que sejam para fins não-comerciais
Sem Derivações (ND): Os licenciados podem copiar, distribuir, exibir e executar apenas cópias exatas da obra, não podendo criar derivações da mesma.

 


ISSN 1806-6356 (Impresso) e 2317-2983 (Eletrônico)