www4.fsane*.com.br/revista Rev. FSA, Teresin*, v. 14, n. 1, art. 8, *. 166-179, jan./fev. 2017 IS*N *m**esso: 1806-6356 ISS* E*et*ônico: 2317-2983 *ttp://dx.doi.*rg/10.1*819/2017.14.1.8 A Água Como Um Duplo The Water *ike a Do*ble Amós Coêlho da Silva Doutor e* L*tras Clás*ic*s pela **iversidade Fe**ral do Rio de *aneiro Prof*ssor *o *nstituto *e Letras, Univ**sida*e do Estad* do R*o de Ja*e*ro E-mai*: amoscoelho@uol.com.b* En*ereço: Amós Coêl** *a Silva Ed*tor Científico: *onny Kerl*y de Alencar *odrigues Endere*o: R*a Ramiro Magalh*es, 352 Eng*nh* de Dentr* - *EP 2073*-46* - Rio de Janei*o -** Artigo r*cebido em 15/10/20*6. *ltima ver*ão recebida *m 07/11/2016. Aprova*o em *8/11/2016. Aval*ado *el* sist*ma Triple *ev*e*: Desk Revi*w a) p*lo Editor-Chef*; e b) Double Blind Review (avaliaç*o cega por dois a*a*i*d*re* da ár*a). Re**são: Gramatical, N*r*ativ* e de Format*ção A Águ* *o*o um Duplo 167 RESUMO A ág*a na li*g*agem huma** d* soc*edades a*caicas e pr**itivas é *m duplo. *al duplic*ção s* dá justam*nte pelo *odo co*o o homem d**odifica o* objetos que o c*rca*. C*mparação entre o pod*r *a água e * fogo. Ne**e ensa*o, em perspectiva comp*rada, a**rdaremos as relações da á*ua com a v*da e a morte, em sentido mít*co e re*i*ioso, pesq*isando, in*erd*s*ipl*narmente, pon*os de vista da filosof*a, da lingu*sti*a, *a mito*ogia, da expressão li*erária e do* es**dos sob*e o sim*olism* d* ling*agem, além do diálo*o in*ertextual, alus*vo ou como citaçã*, e**re *s poetas g*egos e roman*s da *ntiguidade. *ios como cu*to religioso em diversas par*es *o m*ndo. A etimologia dos nomes de *ios co*o si*bolismo no imaginário da t*adição cul*ura* e religio*a dos povos. A viagem de Eneias e *s rios no H**es, na Eneida de Vergílio. O espe*h* *a á*ua como i**são *ar* N**ciso, nas M*tamor*oses de O*ídio. Palavr*s-*have: Et*mologia. Simbolismo. Alus*o * C*tação Inter*extual. Linguag*m. **S*R**T The water in *he human language *f a*chai* and prim*tive soci*ties is * double. Such duplication gives precis**y by the way as a m*n gets the together objec*s *esides h*m. Compari*o* b*tween the power of the water an* the fire. *n *his paper, in compare* perspe*t*ve, we will aim to tackle th* rel*tions of th* wa*er with the *ife and the *eath, in *y*hi**l an* r*l**ious se*se, r*s**rch*ng b* i*terd*scip*inary inte*l**ution, p*ints o* view fr** t*e philosop*y, from the linguistics, fr*m the mythology, from the literary e*pression and from the studi*s on the symbolism of the language, *n addi*ion to the intertextu*l dialogu*, all*sive o* l*ke qu*tation, between the Gre** and *oman philo*ophers and po*ts from the Antiquity. Rivers like reli**ous cult in divers* parts of the world. Th* etymo*ogy of the names of *ivers like symbolism in the im*ginary *f th* cultural and religiou* tradit*on of the pe*ples. The tr*p of A*neas *nd the *ivers in the Hades, in Vi*gil's Aeneid. The mir*or *f the water li*e illusion for Narci*sus, in the Ov*d's Metamorpho*es. Keywords: Et*mology. Symbolism. I**ertextual Al*usion And Quo*ation. Language. Rev. FS*, T*resin* P*, v. 14, n. 1, art. 8, p. 166-179, ja*./fev. 2017 w*w4.fsanet.com.br/re*ist* A. *. *ilva 168 1 INTRO*UÇÃO H* na água um *uplo. Em*ora ela seja incompatí*el *o* o fo*o, sua alte*idade mais contu*de*te, é p*ssível se ap*es*ntar *omparáv*l e* algum traço car**terísti** e comum a ambos, *a*adoxalmen*e: Co*o o **go, a água pode ser*i* de ordálio (CHEVALIER; GHE*RBRANT, 1994). *esse modo, ao a*sumir fo*ma de borra*ca, *est*ói lav*uras e suas pl*ntaçõ*s, deixando de ser sí*bolo *e v*da p*ra ser um pod*r maléf*co. No *n*anto, (Idem: FO*O - *ri*o *os Au*ores): O Fog*, nos ritos *niciát*cos de mor*e e renascimento, assoc*a- se ao seu p*incípio *ntagônico, a água. Tanto * *ssim, que os G*meos do P*pol-Yul, após sua incineração, renasc*m de um rio o*de sua* *in*as foram lança*as. Para ***áclit* de Éfeso (*. VI-V a.C.), o mundo se en*ontr* n*m inces*a*te *ovi*ento (*i*ionário Básico de Filosofia: HER*CLITO), , tu** flui. Chega então * sua fundame*taç*o do to**a*-se, do devir, *o vir ser: N*o nos banhamos d*as *ezes no a mesmo rio. E, na este*ra d*ste mes*o filósofo, s* encontra u* *uplo: Da *uta dos c*ntrár*os é que nasce a harmonia. Aí temo* uma re**exão filosó*ica qu* s* **c*n*ra pl*n*mente *o simbolism* da á*ua * *o fogo, como *á se mostrou mais acima e em cata*se* un*versais, ainda em relação à su* entidade ma*s antitética, que é o fo*o: * pu*ifi*ação pelo f*go, *ort*n**, é complementa* à *urificação pela águ*, tanto no plano micro*ós*i*o (ritos *nic*áticos), qu**t o *o *lano macro*ó*mico (mitos altern*dos ** ***úvios e *e grandes secas ou incê*dios) (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1994). No mun** judaico, op**a *omo lit*rgia cri*tã, *o No*o **stame*t*, em São J**o (1.33) ocorr* o batismo de Jesus com *gua, confor** ex*g*se M* 3.11 At 1.5; 2.4; 10.44; 19.*: E eu não o c*nhec*a, mas o que me **ndou a batiz*r com água, es*e me disse: S*bre *qu*l* qu* vires descer o E**í*ito, e sobre ele *e**usar, es*e é o q*e ba*iza com * Espí**t* Sant o. Há to** um env**vimento alegórico d*s homen*, se *assarmos *o plural: as água*, sempre ope*ando com amb*g*id*de. P*r exempl*, a sua *orma como Oce**o * * imagem *a indistinção pri*ordia*, dev*do à sua ext*nsão a*a*en**ment* sem limites - o que, outr*ra, j* fez o homem con*e*er e*ta di**nsão como u* unive**o abs**uto. É iss* m*sm* q*e lemos nos mitos de s*ciedades arcaic** e *rimi*iv*s, um* er* primordial, *on*or*e Gêne*is 1, *: ... * * Espírit* de Deus pai*ava *obre as águas. Como mar, é símbolo da dinâmica da v*da (CH*VALIER; GHEERBRANT, 1982). Assi* se dá também na mitolo*ia helênica, quando ho*ve a uniã* de Oceano e Tétis n*sc** os rios (*i*o, Alfe*, Escama*dro...) e as O*eâ*i*a* (Cali*so...) (apud C*EVA*I*R; Rev. *SA, Teresina, v. 14, n. *, art. 8, p. 166-179, j*n./fev. **17 ww**.f*ane*.*om.br/re*i*ta A Águ* Como um Duplo 169 *HE*RBR*NT, *994): "O *im*olismo do rio e do fluir de suas ág*as é, ** m*smo tempo, o da po*s*bilidade **iversal e o da flu*dez das form*s (F.. Schuon - grifo **ste Aut*r), o *a *erti*idade, d* mo*t* e da ren*vação." Nilo (do gr. \Ne*los\) que **gnific* *io az*l, e note que *e*os em por*uguês anil *om o mesmo *en*ido. Nilo i*tegra o m*to de *o, *m*da por Ze*s odiada e p*rseg*ida por Hera. e Deu à luz Épafo, a q*e se uniu a Mê*fi*, fil*a do *io Nilo e g*rou Lí*ia. O E*ito, onde se fundou a mais antiga das *i*ilizações, se*pre foi consider*do uma **diva *o Nilo, historic*men*e e, geo**aficamente, dada a *xte*são de s** bacia hidro*ráfica, que * a maior do mund*, a*riga múltip*os p*í**s da Áfri*a. Alfeu, que signif*ca branco, b*nha o *el*pon*so, entre a Éli*a e a **cád*a. É o rio da cidad* de Olím*ia, ca*tada e* v**sos por Píndaro: a primeira ode olímpica de P*ndaro é um* homenag*m à vi*ória de Hi*r*o na *orrida de *avalos, *m P*sa, cu** san*uário ficav* junt* às **rgens *o *lfeu. Esca*an*ro significando curvar-se, em grego, um sinônim* *t*mológico *e *ímoi*. É o mais importante *io da planíci* troi*n*. Esc**a*dro tem o epítet* *an*o, louro av**m*lh*d*, por caus* das *u*s ág*as ba*rentas. F*i ele q*e tingiu de louro os ca*elos de Afrodi*e. O rio, ta*bém como esco*mento das *guas em s*as chei** e confluência c*m ou*ros, simbol*za a possível fec*ndidade do u*ivers*, *ontrastando a duplicidade entre a morte e a renovação d* *ida. A *ua d*sci*a para o Oceano é um reencontr* das ág*as, o acesso ao nirvana. Consideremos * int*rp*eta*ão d* Junito d* Souza Brandão: O s**bolo ** *io, do es*oamento das á**as *, simultanea*ente, o da pos*ibilidade univ*rsal e do escoam*nto das for*as, da *ertilidade, da *orte e da r*nov*ção. (...) A traves*ia (de um rio) * a luta contra os *bstácul*s qu* separam dois princí*ios: o mu*do **no*enal e o *st*do incondici*nad*, o mundo sensível e o **tado de desapego. O \ri* qu* vem do alto\ da tradição j*daica * o das bên*ão* e das influênc*as *elestiais. Este \rio do alto\ desce *ertic*lme*t*, de ac**do co m * e*xo *o mundo, o \axi* *undi\; espraia-se depoi*, ho*izontalmente, a parti* d* \centro\, seguindo as qu**r* d*reções ca**eais, a*é as extremida*es *o mundo: t*ata- se dos q*atro *ios do Paraíso terrestre. (1986: 265) Não é só entre os grego* e r*mano* que os *i*s eram ob*et* de culto religios*. É comum ** muitas culturas *i*s que s*mbolizem o co*mo, neste ca*o deno*inados g*andes rios cósmic*s: as*i*, Ga*ges, na Índia; * j* citado N*lo, no Egito; Severn, na I*glaterra; Jordão, na Pale*ti*a; Ti*re, *a Itália... Ju*ito Brand*o tir* a seguinte ilação, mai* aba*xo, de Platão, no Crát*lo (*02a), sobre *er*clito, já citado acima: \Herá*lito d*z algures que tudo está em mudança e *ada Rev. FSA, Ter*s*na *I, v. 14, n. 1, art. 8, p. 166-*79, *an./fev. 201* ww*4.fsanet.com.br/*evis** A. *. *ilva 170 permanece parado e, *omparando o que *xiste à corrente de um rio, diz qu* nã* se poder*a penetrar duas vezes no mesmo ri*. \ Penetr*r nu* rio é pa** a al*a entrar *u* corpo. A *lm* sec* é aspirada *elo fog*, a *lm* úmi*a é sepultada no c*rpo. Possuindo u*a existência precária, o co*p* flu* como a á*ua e *ada a*ma possu* seu corp* p*rticular, esta parte efêmera de s*a e*i*tên*ia, o seu rio. (1986: *66) 2 REFERENC*AL *E*RI*O 2.1*gua **mo *rdálio O o*dál*o, como se sabe, denot* juízo divino e data de 18**, como se lê *o Houaiss Elet*ôni**. *o discur*o j*diciário, muitas ve*es util*zado na Ida*e Mé*ia, o *ro*edimen*o jur*dico se sustenta c*m provas colhidas de *lement*s da na*ureza, e assim se funda*entava um resultado de grau d* julgamen*o divino. Passagem *a Eneida (cant* VI) s*bre * tra*essia dos r**s infernais: Ae*eas, miratus enim motusq*e tumultu, 3** `Dic' *it `O virg*, quid volt c*nc*rsus ad *mnem? Qu*dve petunt animae, ve* quo discrimine *ipas h*e **nq*unt, *llae **mis vada livida v*rru**?' 320 Olli sic breviter fata est longae*a sacerdos: `Anchisa *enerate, deu* certissim* proles, Cocyt* s*agna alta *ides **ygiam*u* palud*m, di cuius iurare timent *t *a****e num*n. Haec omnis, quam ce*nis, ino*s i*humataque turba es*; 325 p*r*itor ille Charon; hi, quos v*hi* unda, sep*lt*. *ec r*pas datur horrendas et r*uca f*u*nta transportare pri*s quam *edib*s ossa quier*n*. Ce**um er*ant *nnos volitantque haec litora circum; t*m dem*m admissi sta*na exo*tata revisunt.' **0 T*adução nossa, c*mo os demais tex*os latinos que se seguem: Rev. *SA, Te**sina, v. 14, n. 1, art. 8, p. 166-179, jan./f*v. *017 *ww4.fs*net.com.br/revista A Água *omo um Dup*o 171 Enéias, pois, ad**rado e como*ido com o tumulto, fala: \Diga, ó virgem, o q*e deseja reunida ao rio (a mu*tidão)? Ou o que pedem esta* almas? Ou por que motivo *stas (m*is próximas) d*i*a* ** mar*ens (*) aquelas *ortam as pálidas águas com os remos? A este a velha s*ce*dotisa respondeu brev*me*te: \Ó filho de Anquises, prole c**tíssim* *** d*uses, v*s *s ág*as profundas ** Cocito, e l*goa Est*gia, a cu*o p*der divino os d*uses temem (quando) / (se) per*uram ? T*da *sta turba, que vês, * pobre e s*m *úmulo; *quele barqueir*, Caronte; estes que a água leva foram se*ulta*os. Ne* é conc*did* passá(-los) pa*a as marg*ns *orrendas e sussurra*tes correntes Antes que o* oss** tenham desc*nsa*o nos *eu* a*o*ent*s. *ndam errando * voam em volta **stas p*aia* *em anos; Enfi*, só então, a*mitidos, visita* de novo *s água* desejadas. Ora, "as águas prof*n**s" de dado r*o do Ha*es se imp*em at* m*smo aos deuses se jurarem com *m j***mento "falso", adjetiv* português provenie*t* do supin* "falsum", *onfor*e * *nf*nitivo l*tino "fa*lre", enganar. D*í, a no*** opção p*r traduzir o verso d* cuius iu*are timent et fa*lere n*m**, a cujo poder divi*o (equi*a*ente a "numen") os d*uses te*em perjur*r... Bem próxima à do f*ancês Maurice Rat: dont les d*eux craignement de parjure* les puissance... C*mo ele p*e nota, a *ivi*dade Estige te*do to*a*o o parti*o de Júpiter, que é a ver*ã* latina *e Zeu*, co*tra os Titãs, envi*u-lhe em socorro o ap*io de s*us dois f*lh*s divinos, a Vitoria e a F*rça. Cons*mada * g*ória de J*piter, *gor* é sagrado o juramento d*a*te *o Estige. S* algu*a divi*dade romper, será punida c*m s*nções previ*t*s por *úpiter. *am*nho * o poder do Estige. Fo* nele que Tétis, seg*rando pelos ca*canhares, tornou *nvulnerável s*u *ilho Aquiles. Co*o se sabe, o he*ói e*a vulneráv*l nos **lcanhares. Nessa sua cami*hada, apare*em a En**as as *ombras dos gue*reiros troian*s. Em seguida, temos descrição do Tá*taro e dos monst*os infernais. Só mais adiante Eneias encontra * *eu p** Anquises. No verso 679, q*an** o pai *nquises atentamente recenseava os seus futuros netos, os que havia d* su*i* à lu* e compor os des*i*os da soci*dad* romana, com toda a sua pujança de co*tumes e poderoso exército, sur*e à fre*t* d*le o seu fil*o a* qual saúda com a exp*essão: Rev. FS*, *eresina *I, *. 14, n. 1, art. 8, p. *66-17*, *an./fev. 2017 www4.fsan*t.*om.br/revista A. C. Silva 172 `*eni*ti tandem, tuaque exspecta*a par*nti 687 *icit it*r durum pietas? \Vieste afinal, e a tua piedade tão na expectativa do teu p*i 687 venceu o duro c*minho?\ Q*em *ealiz* u** vi*gem *o Hades detém conhecimentos impo*tant*ssimos. Iss* mes*o s* d*u com Orfeu, que, após a sua viag*m ao *a*es, *undo* * Or*ismo. Manes, qu* é int**pretad* no plura*, po*s se tr*ta de um duplo, apesar do *u**mismo que o tradu* com* os bons, os b*nevolentes, (mas, pode se to*na* um *ontraste:) qual o eco da b*rrasca di*tante, o ros*ar hostil dos Manes insatisfei*os, to*ados p*lo ó*io cego do res**ntiment*. (BRA*DÃO, 1993: MANES) * fato é que os Man*s, pois talvez *ossem a *ossa for** de morto, p*ecisam beber da água *o rio *et*, p*ra po*er*m vir à luz de novo. O* antigo* * deri*avam de **nare, pois, confo*me *est* (ap*d BRA*DÃO, *993), *b inferis *d su*eros emanare c*ede*ant, acreditav*m s*bir/ emanar (os Ma*es) dos Inf*rnos para jun*o *os mortais. Tum *ater Anchises: \Anim*e, quib*s altera fato 71* corpora debentur, Le**aei ad f*umin** undam secu*os la*ice* et lon*a oblivia p*tan*. [Has *quidem memorare tib* a*que *ste**ere c*ra*,] iam*ridem hanc *rol*m cupi* *numer*re meorum, qu* magis *tali* m**um laetere reper**.\ *ntão * pai Anqui**s: \As almas, à* quais são devidas p*lo des*in* 7*4 Outro* c**pos, bebem *gua junto *as águas do *io Letes Uns licores seguros * longo* esquecim**tos. De*ej*, de fato, já há muito f*lar-t* e mos*rar-te na tua p*es*nça estas almas, E e*umerar esta prole **s teus, Na qual te ale*res mais *omigo, *ncontran*o finalmente a I*ália.\ São rios do* *nfernos: Cocit*, que r*l* *ame*t*ç**s; Pi*ifl***tonte, que rola ch*mas; Aqueronte, do esquec**ento - e não tem na*a a ver com Car*nte; Estig*, que pro*oca horror p*r causa de sua frialdade (B*ANDÃO, 1991); ri* *ete, que significa esqu*cimento, do verbo grego , *ant**nein - es*uecer, esconder; dond* , alethés, não omitido, ve*dadeiro. Próxim* ao l*tim lat*e, estar escondi*o. * *otável que a *rincipal forma de diz*r Rev. FSA, Teresina, v. 14, n. 1, art. 8, p. 166-179, jan./fev. 2017 *w*4.fsanet.com.br/r*vista A Água C**o *m D*plo 1** "verdade" em grego apre*en*e tal estruturação etimol*gica: *, alétheia, v*rdade. S*n*o que lete, esquecimento, e o pre*ix* "a-", sentido pri*at*v* ou negaçã*, ou seja, "verda**" é, nest* *i*no linguísti*o, o não esquecido, ou ainda, * l*mbr*nça de **gistros individuais, bem parti*ula*es, de i*pres*ões qu* *s *rgãos do sentido imprimem, e nestes reg*s*ros há sem*re dis*o*ções. Enf*m, *escobrir *ue se diz "ver*ades" não é *enos que d*zer "experiências dos *oss** **gãos" do s*ntido, e alcan*ar a* po*to de refletir sobre a* nossa* *lusões do que pensamos sobre * mundo. Dito de outro modo: s**os aqui*o que so**s *o* uma cosmovis*o inteir*mente *e*so*l!? *u: "verdad*" * o que é uma opini*o!? N* mito gre*o, lete se personifica como o r*o Le*e, o rio *o *sq*ecimento. Ora, Car*n*e só deixa e*barcar, rumo a* *ulgame*to de Plu***, algumas alma*; o**ras, **poi* de cumprida a err*nc*a de cem anos, *e conquistare*, conforme v. 328 sedibus os s * *uierun*, (q*and*/se) *s ossos descansarem nos seus *posentos. Tais aposentos são a te*r*, uma vez qu*, certament*, "homem" pertenc* etimologic**ente ao element* humus: em Ernout e* Me*llet, *ê-se V. le derive homo. O radical i*d*-europeu comum a ambos é *hom-, "terre" pour e*pliqu*r l\adverbe osc*-o**rien (...)(Idem, ibid*m). P*rtant*, * h*mem dever*a ser "hum*lde", que é ou*ro deri**do q*e *stenta a cond*ção "*um*na" original, e não se **ntir "humilhado": de*viado ou exilado *entro da cria*ão. Juni*o B*andão (1994: 3*6) tra*uziu uma passage* da *líada (XXIII, 711) que confirma * necess*dade do sepultamento, o que ratifica a nossa ca*ên*ia *a terra, do humus: Sepulta-me o mais depressa p*ssível, par* que eu c**ze as portas do Hades. Então, *s q*e buscavam tom*r *oles *e á*ua do rio L*te conq*istarão com e*t* ato o dom d* *ir à l*z, mas dever*am esquece* t*do qua*to v*ram lá, todos que s*portam adv*rsidades e c*mpr*m castigos merecidos, receberão a vida de *ovo *omo um dom: quisque suos patimur manis. exinde *er amplum *i*timur El*s*um et pau*i laeta arva t*nemus, done* *onga die* p*rfec*o temporis or*e 745 concret*m exemit *abem, purumque relinquit ae*herium sensum atq*e au*ai *implicis ignem. has o*nis, ubi *il*e r*ta* volvere per annos, Lethaeum a* f*uv*um deus e*ocat agmine magno, scil*cet *mme*o*es supera ut c*nv*xa revis*nt 750 r**sus, et in*i*iant in corp*ra velle reverti.' - Todo* *ós sofremos *m nossos manes *s mere*ido* castigos. Rev. FSA, Teresina *I, *. 14, n. 1, a*t. 8, p. *66-179, jan./fev. 2*17 w*w4.fsanet.com.*r/revi**a
A. C. *i*** 174 D*poi* (d* puri*icação) somos envi*dos ao *mplo Elísio e aos poucos os que ocupam estes c*mpos *le*res, enquanto o c*rrer do* anos de*tró* a i*pureza material, e de*xa pur* a origem celeste no (estado) de simples fo*o da aura / do sopro. Um deus aí evoc*, por d**orrer mil anos, com um grande ges*o, às águas do Lete, É claro esquecidas do passado para *ue revejam a ab*bada c*les*e e re**me*em a **erer vol*ar em (novo*) corpos. Os Campos Elísios são o local onde os anos depuram a *rosta negati** (conc*etam labem) e re*surge o fogo (ignem). É neste momento *ue um d**s, com um gra*de ge*to (agm**e mag*o), permite a aproxim*ção das águas *o Lete (Lethaeum ad fluvium). Um c*** complement* *o outro, seu contrário. No fi*a* da jor*ada de En*ia*: Sunt geminae Somni port*e, quarum altera fertur cornea, qua *eris faci*is da**r exitus umbris; *ltera candenti perfecta nitens *lephanto, 8*5 sed falsa ad caelu* mittunt insomn*a M**es. His ubi tum n*tum Anchises unaque S*bylla* pros*quitu* dictis, portaque emitti* e*urna, ille viam secat a* naves sociosque revisit São d*as *s portas do S*no, uma d*s quais se diz Córnea, *el* *ual se dá s*íd* fácil aos s*nhos v*rdadeiros; A outra, resplan*e*en*e e fei*a d* branco marf*m, Porém, os Manes en**am a* c*u falsos so*hos. *ntão, enquan*o Anquises, com aquele* rel*tos, acompanh* O filh* e *o mesmo tempo a Sibila * os l*nça pela porta de marfim, Enéia* cort* ca*inho par* as naves e re*ê os companhei*os. *obr* as duas por*as *o *onho, *creditava-se que os sonhos ve*da*eir*s saí*m *ela por*a de chifre e *isitavam *s mortai* d*pois da mei*-*oite; os sonhos *alsos saíam pela po*ta de marfi* ant** da meia-noite. Há quem inte*prete o m**fim como s*m*ol* da pure*a * do p*der e a oposição *omérica, chifre e marfim, seria uma cont*adi*ão desde a Odisseia. (CHE***IER; *HEER*RANDT, 1982) Rev. F*A, *er*sina, v. 14, n. 1, art. 8, p. 166-179, jan./fev. 2017 www4.fsan*t.*om.br/revista A Água Como um D*plo 175 2.2 A á*ua co* uma *lusão Ilusão provém do la*im lud*s, jog*. O curios* é que i*lusio, -onis * int**duzi*o no Lat*m *lá*s*co por *ícer* (apud *RNOUT; MEILLET, 1985), par* *raduz*r *a retórica gr*ga , e*roneía, iron*a, que denot* neste caso, rigorosamente, *nterro*açã*, aliás co*o está *o S*crates, do*umentado por Pl*tão, como um parto, quer *izer, * maiêut*ca socrática: su* metodologia heurística. *nfim, nã* * uma p*rgu*ta que faz Narcis* *iante do reflexo do espelho da á*ua? Not*-s* ainda que o termo portug**s ilusão tem u*a datação, ou seja, é um erudito. Não chegou ao d*cionário p**tuguês por via *is**rica, e sim por ada*tação no sécul* X*, co*o s* *ê e* noss*s di*ion*rios. Ov*dio (4* *. C a 18 d. C.), so*r* o m*to de Narciso, n*s M*tam*rfoses, do ver*o 340 a 510, do Livro III, dos *uais destac*mos um* passagem ab*i*o, na qua* temos a dimensão d* q*e a água pode criar co*o *lusão. E*a assume a *orma de um *spel**, aí c*ia *ma v*r**de extraordinári*, ponto de se tornar *ma categoria *a Psica*álise mode**a: o Narcisismo. a Leiamos, po*s, est* mome*to poé*ico: d*mque sitim sedare c*p*t, sitis alter* *revit, 415 d*mq*e bibit, visae *orr*p*us i**gine f*rmae spem sine corpore amat, corp*s putat esse, q*od umb*a *s*. adstupet ipse s*bi v**tu*ue inmotus eodem haeret, ut e Pari* formatum marmor* signum;
spectat **mi pos*tus geminum, *ua *umina, sidus et *igno* Baccho, *ignos et Apollin* cr*nes inpubesqu* gena* *t eb*rnea col*a decusqu* oris ** in n*veo mixtum cand*re ruborem, cun**aque mirat*r, quibus est mirabilis ipse: se *upit i*pr*dens *t, qui proba*, ips* probatur, du*que petit, pe*itur, pariterque a*cendit e* ardet. *nr**a fallaci quotie*s d**it os*ula fonti, in me**is quotiens v*sum captantia collum *racch*a mersit *quis nec se d*prendit i* illis! qui* videat, nesc*t; sed *uo* vide*, uritur *llo, **que *c*lo* idem, qui d*cip*t, incitat err*r. 420 425 430
Rev. FSA, Teresina PI, v. 14, n. 1, art. *, p. 166-*79, jan./fev. 2017 www4.fsanet.com.*r/re***ta
A. C. Silva 17* credule, quid frustra simulacra fugacia captas? quod petis, e*t nusquam; qu*d ama*, aver*e*e, p*rdes! ista repe*cussae, qua* cerni*, *magin*s umbr* est: n*l habet ista sui; tecum veni*que m*netque; 4** tecum discedet, si tu d*sced*re possis! E*qu*nto deseja aplacar a s*de, cresceu um* seg*nda s*de; (415) e, enquanto b*b*, é arrebatado pela ima*em da *orma vista, a*a esta espera**a sem corpo; julga que este c**po e*iste porqu* há u*a sombra. *dmira-se a s* mesmo e, parali*a*o, se abs*rv* naquele rosto, *omo *ma *s*át*a formada d* mármore p*ov*nie*te de P*ro*. E*tendido no chão, olha o gêmeo, seus olho*, du** est*e*as. (420) Seus cabel*s tão dign*s de Bac*, quão digno de Apolo; faces impubescentes, pes*oço ebúrneo, boca gr*ciosa e um rubor mi*turado ao b*a*co n*v*o. extasia-se dia**e de *od*s es*as coisas per*nte *s quais **e própr** s* admira: (425) Sem perceber, ele deseja a si mesmo e, nisso, q**m examina é *ue é e*aminad*. Enquanto se di*ige a ele, é *ir*gid* * si mesmo * igualme**e se inflama e se excita. Quant*s vezes deu beijos *ãos para a fonte fala*ios*! Q*antas ve*es mergulhou nas águas os braç** p*ra peg*r o se* *escoço vi*to, se* encontrá-lo nel**! * qu* vê ele? I*no*a; mas o *ue vê, se queima *or el*, (*30) e o mes*o erro que o eng*na, i**ita *s *lho*. Criança crédula, por que insistes *ega* em *ão *ma imag** f**a*? O que buscas, não h* em nenhuma parte: * q** *m*s, *erdes, t* mesmo o *azes esvaecido! Ess* sombra, que pe*ce*es é de tua imagem refratada: essa *ombra nada tem de si m*sma, tanto vem qu*n*o p*rmanece cont*go (435) contigo se a*asta, se tu pu*eres t* afastar! N**e que o Poeta es*r*ve cr*sce* uma segund* *e*e, sitis alte*a crevit - um* seg*n*a s*de é sujei** de crev*t, embora *ej* voz ativa, tor*a Narcis* pac*ent* da ação d*ntro da oração e ainda o de*xa determi*ado por alter, *ue *m latim *enota rigoros*mente *egund*. Re*. FS*, Teres*na, v. 14, n. 1, **t. 8, p. 166-1*9, jan./fev. 201* www4.fsanet.com.br/revis*a A *gua Como *m Dupl* 177 3 C*NSI*ERAÇÕES F*NAI* Não temos o*de f*ca ex*t*men*e * *on*o cen*r** do u*iverso, já **e m*dir a distância entr* a *ua e a ter** (ou ent*e o sol * * terra) por sombra pro*etada de um *bjeto qual*uer é falacioso, * dei**u de ser uma proeza matemática dos an*ig** gregos, porque s* sabe a*ualment* que a luz da l*a leva alguns segundos pa** c*egar à ter*a; a do sol, algu*s minutos e, lev*ndo em *onta a distância ent*e estes *o*pos *elestes, sempre que medi*mos *ão ob*eremos a *ndic*ção *lgéb*ica exata. No pass*do, criamos cor*lári*s religiosos * p*lít*cos, que foram *us*entados por ins*ituiç**s **e tinham absoluta c*rteza do "real". Assi*, surg*ram a *nquisição, a Revolução *ranc*sa ... ,ou seja, umas institu*ções boas, outras *u*ns: todas co* abs*luto d*mín*o de um un*voco "cent*o" ou "verdade". Com o a*vento da modernidade, a F*sica *om seus resultad*s de pesquisa nas ond*s sonoras e n*s *a luz, a Q*ímic*, com suas *istur*s, assim, com as *últipl*s ciênci*s, construímos nos*os ca*inhos *odernos e descob*imos destas me**as ciências a rela*ividade: não temos exat* cont*ole *o horário cronometrado no relógio, nem da divisão criada no calend*rio e, ho*iername*t*, que o "centro" do universo * aq*i e ali. S* até uma *strel* q*e obser**mos cadente, n*s estudos *i*ntífico*, já se apagou há *lgum tempo consideráv**, ca*e u*a analogia com * *osso passado d*cument*do h*storic*mente, uma vez que, analoga*ent*, inve*t*riam*s *st* passado histór*co tão documentado! A "verd**e" c*mo o "centr*", no sen*ido *ntropológico * dos fa*os hist*ric*s, sum*riados acim* co* dois exem*lo*, é uma inv*nção hum*na. Ass*m, o "t*mpo", do qual o *ome* depe*d* tanto, é convencional, pois o "pas*ado" aconteceu, foi dad*, não *e pode alterar. * futuro, que nos angustia, da*as *s incertezas, é uma esp*rança apenas: não ex*ste literalmente. * p*esente, de fat*, é a *erteza, mas pa*ad*xalmente não *o* co*cen*r**os *ele, e si* apen*s no passado e, principalmente, *o f*turo. Nas á*ua*, o imaginário poéti** *e **cied*d*s arcai*as *u prim*tiva* encontrou lu**r p*ra **s r*meter ao sent*do da "*er*ade". Da*uilo que é uma percep*ão do "real": *m duplo, já que v*mos verdades em re*ração. Co*o as *gua* iludem! Sua extensão nos oceanos se nos *presenta como incomensurável, o *ue no* p*oduz a sensa*ão de pr*mordi*lida*e. Sua fluid**, perante nossas perce*ções, podem sig*ificar i*finitas possibili*ades de formas, como Narciso c*lheu no e*p*l*o de uma del*s. Re*. FSA, T*resina PI, v. 1*, n. 1, art. 8, p. 1*6-*79, jan./fev. 2017 www*.fsanet.com.br/*evist* A. C. Silva 178 REF*RÊNCI*S A *Í*LI* SAG**D* - *ntigo E Novo Tes*amento. Traduzi*a para o *ortuguê* p** João Ferreira de Almeida. *arueri - SP: 1992. BRANDÃO, J. *. Mitol*gi* Grega. Petrópolis: Vozes, 3 v. 1986. __. Dicionário Mítico-etimol*g*co da Mito*ogi* Gre*a. Petr*p*li*: Vozes, V*ls.I-II. 1992. __. Dicionário M*tic*-etim**ógico da Mi*olog*a e d* Rel*gião Romana. Pe*rópolis, Vozes, 1993. __. *i*ionário Mítico-etimológic* da Mitologi* e da Reli*i** Roman*. Petr*polis, Vozes, 1993. CA*SIRE*, *. Linguag** * Mito. Trad. de *. Gui*sburg e M. Sch*aiderman. São Paulo: *erspectiva, 2003. CHANTRA*NE, P. Dictionnaire É*y*ologique de la langue Gre*que. Paris: Klinc*siec*, 199*. CHARAD*AU, P; MAINGUENEA*, D. Dicionário de Análise do **s*u*s*. São Paulo: Co*text*, **04. CH*VALIER, J; *HEERBR*NDT, A. D*cion*rios *e *ímb*los. *rad. Vera Silva, Raul de Sá Barbosa, An**la Melim e Lúcia Melim. Rio ** Janeiro: José Olympio, 1994. ECO, Humberto. A Estrutura Ausent*. S*o Pa*lo: Perspectiva, 1974. 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Paris: Garn*er Frère*, Vo**. I e *I. 1947. *omo Referenciar este Artigo, *onforme AB**: SI*VA, A. C. A Ág*a Como um Duplo. *ev. FSA, *er*sina, v.14, n.*, a*t.8, p. 166-17*, j*n./*ev. 2017. Con*ribuição dos Autores A. *. *ilv* 1) concepção e planejame*to. * 2) análise e **t*rpr**a*ão do* dad*s. X 3) el*b*ração do rascunho ou na *evisão crí*ica *o *onteúdo. X *) part*cipação na a*rovação d* versão fina* do *anuscrito. X
Rev. FSA, Teresin* PI, v. 14, n. 1, **t. 8, p. 166-179, jan./*e*. 2017 www4.fsanet.com.br/*evista

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