www4.fsane*.com.br/revista Rev. FSA, Teresin*, v. 13, n. 6, art. 9, *. 149-158, nov./dez. 2016 IS*N *m**esso: 1806-6356 ISS* E*et*ônico: 2317-2983 *ttp://dx.doi.*rg/10.1*819/2016.13.6.9 Sobre Excessos e Máscaras na \*arta Pr*s Icamiabas\ de Mário de Andrade1 *b*ut Excess *nd *asks i* *he "Carta Pras I**miabas" by Má*io de Andrad* Rica*d* Postal Do*tor em Litera**ra Br*sileira p*la U*ivers*d*de Fede*al do Rio Grande do Su* Pr*fessor na Unive***dade Fede*al de Pernambuc* E-mail: ric*postal@gmai*.com Joice Armani *al*i Doutora em Lin*uística p*la *niversi**de Fede*al *o Rio Grande *o **l Profes*ora da Universid*d* Federal d* Pernambuco *-mail: joicearmani*all*@gmail.com End*reç*: Ri*ardo *ostal End*re*o: *. Pe. Carapu*eir*, 399/602 Boa Via*em - Recife/PE 51020-280 Endereço: *oice Armani Gal*i *n*e*eç*: Rua P*ofe**or Valdemar de Ol*v*ira, 7*/1403 Edito* Científ**o: *onny Kerley de Alencar R*drigu*s *rtigo rec**i*o em *1/08/2016. *ltima vers** recebid* em 16/09/*016. Aprov*do em *7/09/2016.
- B*a Viagem/*ecife/*ernambuc* - *EP 510212*0 Avaliado pel* sis*e*a Triple Review: Desk *e*iew a) pe*o Edito*-*hefe; e *) Double Blind Review (a*aliaç** cega por dois avaliadore* da área). R*visão: Gramatical, Normat*va e de *o*matação. 1* versão or*gin*l *ess* artigo, em fra*cês, foi publicada em: P*NJON, Jacq*eli*e. (*rg.) *Déb*rdements: Études
dur *\eexcès*. Par*s: P**sses So*bonne *ouvel*e, *006.
R. *ostal, J. A. Galli 150 *ESU*O O presente art*go discute o exce*s* *m M*cunaíma. E*põe como a fa*ta d* forma fecha*a faz com qu* a obra escape da categoria ro*an*sc*, indo além, e propondo que o que *emos é *ma p*rformance levada à cena po* um Arlequi* da C*mmedia de*l\Arte (conforme POSTAL, 2007). A p*rtir de ta* *nterpretação, a \Carta pras Ica*i**as\ *e torna m**s um *es*o**amento ex*essiv* na obra, v*sto que nela *p*ra outr* voz, com registro e maneir* d*v*rsa do narra*or da obra, ainda *u* * c*r** seja assinad* pela personagem t*tu*o. Ela*ora-se a l*itura de q*e o Arle*uim, entre atos da representação, estej* *om a carta entre*endo o público ao imitar s*t*ricamen*e seu anta*o*i*ta de palco, Dottore. Elenca-se a *uposiçã* d* interferência da o b*ografi* n* obra, e do alvo desse ataqu* hum*rístico. As *úl*iplas cama*as e mascar*mentos *o*na**am M*c*n**ma, assi*, pon*o **lmi*ant* d* exce*so li*erário no B*a**l. Palav*as-Cha*e: Exces**. M*cunaíma. Mo*ernismo. Arlequim. ABSTRA*T This paper discusses the excess i* Macunaíma, by Mário de Andra*e. By it\s lack of form Andrade\s work *scape *rom the novel categor*, so we prop*se t*at wha* w* read *t\s a performance playe* *y an *arlequin (P*STAL, 2007). Fol*owing that interpretation, t he \Letter ** the Icamiabas\ bec*mes an unfolding of e*cess i* the work\s structu*e, once that another voice is he*rd, diff*ren* from the main narrator, *ven if t*e letter is *igned by hi*. Thus, *he pa*er sug*est that the \Letter\ is a *est against anothe* ma*k on scene, the *ottore. It\s pointed t*at this big j*ke may have bee* ifluenced by A*drade\s life and is d**cussed whom w*s the aim of th*t joke. This literary c*n*truct *u*l of layers and masks t*rns Macun*íma into the culmi*ati*n ** excess in the Br*zilia* literatu*e. Keywo*ds: Excess. Macunaíma. Mo*er*i*m. Ha*lequin. Re*. FSA, Teresina, v. 13, *. 6, a*t. 9, p. 1*9-158, nov./dez. *01* www4.*sanet.co*.br/*evista Sobre Ex**ssos e Má**aras na \Carta P*a* Icamiabas\ *e Má*io ** Andrade 151 1 INT*O*UÇÃO O excesso não tem sen*o uma lei, a de *ão respeitar *enhuma. I*so o leva, po* ve*es, a *roduz*r materializ*ções d* si mesmo na arte que *e tor*am *mpo*síveis de cl*ssific*r. Par*d*xais, elas sã* t*o i*t*nsas *ue escapa* à percepç*o do tem*o que as en*olve. Samoyault (1999) mo*tra que, qua*do os lim*tes estão bem estabele**dos - como na f*rma roma*esca, por exemplo, o excesso manifest*-se através *a rupt**a d*sta forma, torc*ndo-a e a***iando *uas fron*eiras. Por vezes, es*a hyb*i*1 produ* u*a n*va m*dida *a*a o conceito para a forma que e ela *iscute; em outr** ocasiões, perman*ce solitári*, com* uma re**r*eração, man*festação *ivre do excesso *m e*tado puro. Desde sua public*ção, * romanc* Macunaíma, o *erói sem ne**um cará*er, de Már*o de An*rade, suscita numerosas interp*etaçõ**, dissonante* sob vá*i** *s*e*tos, l*n*ando m*is luzes sob*e a o*ra **ste autor s*a compreensão do Brasil e e da hu*an*da*e que sobre os enigmas que são *nerentes ao *omance (ou ao menos aqu*l*s e*igm*s que a crít*ca *ent* d**ifrar). Uma comp*e*nsão global da obra e*capa ao leitor, porqu* es*ã* em jogo *a su* composiç** co*c*itos e prop*s*ções feitas de mod* a nã* ** **ixar ci*cunscrever, a fugir das *ormas e preceitos sobre o romance dess* *poca. Refle**n*o a expe*iência d* Mi*ama*, d* *swald*2 *\Andrad*, *bra que lhe * aparentada, Macunaím* dá a primaz** ao *u*bil*ão de excesso, ao pa*so que seu *êmeo *az no vazio g**ado pelo o en*recruzamen*o semântic*, cri*nd* e*pa*os preenchidos **l* leitor, como se *l* *ssisti*se a u* fil*e em uma *ala e**u*a. O que é sil**ciado ** Miramar se traduz, no *spetác*lo *o Urarico*ra, por um a super*bundância *e palavras. S* M*cu*aím* ultrapa*sa a f*rma romanesc* *m **a proxi*idade já demonstr*da com *s ci*los épicos *avalh*i*es**s3, ao *ançar-se nas próprias *rig*ns do romance, t*c* igu*lmen** íntimas re*ações **m os c**juntos d* c*nt*s *ncestrais, costurad*s com precisão, o q** o *orna*ia *m mi*o-r*mance, ou um c*nt* po*ular. E*e av***a para al*m dessa pro*imi*ade para se misturar, nessa perspectiva, a um can*o pos*o em cena, alimentando-se de as*ectos que formam a ess*ncia de certo tipo de t*xto dram*tico, ultrapassan*o o* *iálogo*, a* marca* e os ele*entos de *en*. N*s*e mon*logo, o 1 2 * Sob*e *s rel*ções entre hybri* e desmedida, ve* BRUN (**03). Op**m*s po* *onserv*r *qui a or*ografia emprega*a p*r Má*io *e And*ad* para nomear seu amigo. Conforme O *upi * * a*aúde, de Gilda de *e*lo e Souza.
**v. FSA, Teresina PI, *. 13, n. 6, art. 9, p. 1*9-158, nov./dez. 201* *ww4.fsa*et.*o*.br/re*ista
R. P*st*l, *. A. Galli *52 rapsodo nos mos*ra - sem n*-*o desve**ar -, qu* sua arte é a*t*s de tudo *iferente, m*stura de c*nt*, teatro e n*rração. E*se ex*g*r* da compo*ição neces*ita d* olhar engordante do excesso, p*is um ponto c*ít*co i*pli*a a presen*e anál*se: o r*psodo que nos apresenta seu canto d*s*obra-se, toman*o a voz e o papel de *m outr*, *ostr*ndo uma outra má*car* e ridi**larizando tudo o q*e el* simbol**a. Existe, por*anto, sob a \p*lavra impura\ u* d*sdobrament* sat*r**o que ult*apassa pela lingu*gem a matér*a ord*ná*ia d* obra inteira, *ria**o as*im um cúmulo de e*cesso. N* pres*nte ab*r**gem, Macunaíma é visto como a encenação de um *oteiro (ca*ovaccio* por u* Arlequim, *e*res*ntado pel* \menest*el\* e pel* *róp*io personag*m- ) tít*lo. * \*enest*e*\, que ouviu *s h*stórias, mascara-se, portanto, para contar as av**t*ras de um A*l*quim, *uas fomes, seus dese*os, seus amore*, sua d*s*ida **s *nfernos da cida** e s*u retorno * *m *un*o *erdido q*e nã* l*e pe*tenc* mais.6 Co*posto *e forma improvisada, m*s não menos ref*etida em *ua incoerênc*a, Macunaí*a-romanc* brinca **m a linguagem, fu*dan*o, ao mesmo t*mpo, um lugar outr* para a língu* a qual **venta e introduz no romance de uma maneira inédita. O exa**ro da* for*ula*ões, os neologismos, os \erros\ d* gramá*ica, a mistura de variantes dialetai* vin*as *e to*o o t*rritóri* brasileiro e da A**rica ***ina rem*vem da obra se* *ar*ter naciona*, lançando-a p*ra um universal*smo que se expri*e, sobretud*, na im*losão da geogr*fia e da te*por*lidade, ambo* component*s do romance com* forma em *i. Qu*ndo Macunaíma é clas*ificad* co** ro*ance fo*cl*rico, a seguir *omo *apsódia, seu autor s**e desde sempre que es*a o*ra não pode ser explicad* pelos *imites d*s c*nones da época, *el*s conceitos então estabelecido*. Fluíd*, a ob*a *oge à* *enomi*a*õe* pela caract**ística de sua abertur* co*pleta. A etiqueta que l*e *onvém é a que não cola e* *a*a, *istura de **tilos, *málgama, amont*ad* de varia*ões, já que e*ta \ra*sódia\ é dissonante e agride o ouvido dos burgueses habi*ua*os à h*rmoni*. C*so singu*ar *a obra, a \Carta pras *camiab**\, página isolada e *p*rente*ente incoere*te, contras*a por s*a forma e *inguagem com o res*o da *b*a. M*tivo de deba*e *ntes 4 O c*novaccio na Commedia *ell\Arte era um roteiro b*si*o qu* co*sistia no t*ma, nomes d*s per*onagens
atuantes e in*ica*ão das ações no deco*re* da peça. O t*xt* era improvisado pelos ato*es a pa*tir dessas i5ndicações. A história *e Macunaíma fo* n*rr*da ao menestrel p*r u* papagaio * o q*e se lê no livro * a nar**ç** do
menestrel, com sua viola d*rigindo-se ao pú*lico (ouvidor/leitor). Dessa form*, ex*ste já um *spetáculo em performance na lei*ura mes*a da *apsódi*. * Sob*e a prese*ç* e influ*nc*a da *áscara do A*lequim *a *oé*ica *e Mário de Andrad*, especialmente *m Macunaíma, ver POSTAL (200*). R*v. FS*, Teresi*a, v. 1*, n. 6, ar*. 9, p. 149-15*, nov./dez. 2*1* www4.fsanet.com.br/revista
Sobre *xc*s*os e *áscaras na \Cart* Pras Icamiab*s\ d* M*ri* de A*dra** 15* mesmo de s*a pu*licação, essa Carta *esagrada profundament* * Manuel Ba*deira, que via a* uma ***ta de per*in*ncia: Tem mais: ainda *esmo qu* eu achasse *abi*ent* na *arta e n*quel* linguagem, a carta *m si me caceteia: era p*eciso q*e esti*esse escrita com a ing*nua gostosura de ridículo co* que se exp*essam o Laudelino * outros colab*rad*res *a Re*ista de Lín**a Portuguesa: v*cê falhou em sua sátira: d* a impressã* *e um* pessoa q*e quer arre*ed*r outra * não ace*ta: não há nada de mais *esengraçado (MO*AES, 20*0, *.*65). *as M*rio d* *ndrade sustenta * ref**ida carta com tenacidade. Vendo mais q*alidades que defei*os nesse cap*tulo \que nã* desejava ret*r*r do resto *o liv**7\: Agor* e*a (a car*a) me desgosta em dois pon*o*: p****e imi*ação do Oswaldo e de *erto os *re*eitos usados por el* atua*a* subconscientemente na c*ia*ão da car*a e **ho c*mprida por demais. O prim*iro p*n*o não acho remédio. O se*undo, v*u enc*rtar a carta. *a* nã* *etir* ela *ão porque gosto muito dela (MORAES, 2000, *.360). A *nálise habit*al é pa*ódica e demons**a c*mo ele ridicul*riza, no registr* linguístico inabilmente m*nipu**do pelo autor da carta, os dout*r*s, as *essoa* bem-educadas e os purist*s: Mário de *ndrade além de conh**imento da l*ngua antiga [...] quis mostrar a incoerênc*a dos que imitam essa lingu*gem desusada, intercala*do, sem querer, trechos d* lingu*gem falada no *r*s**. *m co*tra*te escan*aloso. [...] Para mostrar o artificialismo de uma lingu*ge* anacrônica, usa errada*en*e formas apontadíssimas com* *rrônea* [...] * * *o*abulá*i* pad*ão dos purist** (PROENÇA, 1*78. p. 173-*74). A crí*ic* engendra, entr*tanto, um problema narra*ivo, um* ci*cunstância adve*sa na per*e*ção da *eitura de Macun*íma, sabendo-se que a voz da \Carta pras I*amia*as\ é a *o próp*io i*perador das *ndias: Cu*io*amente, nesse interm*zzo da rapsódia o foco nar*ati** se transfer* do c*ntad*r, c*n*a*or, r*p*odo, para o her*i. Diferente d* *apsod* - que * *ulto, e que im*rime às su*s fontes popula*es expe*iênci* de vida e crivo intelectual - * m**sivista é *ncult*, semi-ana*fabe*o, *m tanto perplexo frente ao mu*do ***rado que acaba de ado*ar, impressionado co* o *oder da p*lavra e*crita. *e**nt*, pretens*oso, cit*ndo os clássi*os, Ma***aíma dá *azão a sua cultura s*mi-letra*a, e acoberta com * lingu*g** livresca e as alu*ões er*t*cas o principal *bjetiv* da carta (c*nseguir dinheiro), *rivando de subtendidos tod* o discurso (FONSECA apud LOP*Z 1988, p. 279). 7 Ver *ONSECA *pud LOP*Z (19*8) p. 279.
Rev. FSA, T*resi*a *I, v. 13, n. 6, a*t. 9, p. 149-158, nov./dez. 201* w*w4.fsan*t.com.*r/r*vista
R. Postal, J. A. *alli 154 Não concor*amos c*m a afirm*çã*, segundo a qual haveria *uas voze* em jo*o *ntre nar*ação e *art*; em nossa opinião, "menes*r*l" e *ersonage* fund*m-se em *ma única identidade. De fa*o, o *apsodo que c*n*a a hi*tória d* Ar*equ*m-Macunaíma, que o re*resenta para nós, é *ambém um Arleq*im. Os atores da co*media dell\art* s* especializava* em um papel, d*sem*enhavam-no *or to** sua vida e culminavam na m*stria de su* arte. P**a pod*r improvisar a *istória que no* conta com tamanha precisão, nosso *ontador será ig*almente um Arlequim. A análise diverge sobre e**e se**ndo ponto, pois os atore* da **mmed*a possuíam uma escrita de base, conhecendo de cor os textos clássicos *ti*i*ado* em cena e impro*i*ando a par*ir d* roteiros. Se não dominavam a escri*a, era pelo simples motivo de nã* terem *e*e*sidade; não *in*am de memorizar seu* textos, porq** improvi*a*am em cima d* repe**ório, tornando difer*n*es todas as apresentaçõe*. Sem*letrado, o rapsodo-autor da *arta *ode sem*re se se*vindo de sua habilidade, fabricar um \crivo intelectual\, mantendo uma a*itude desengonçad*mente a*et*da; mas *r**a- s* de u* artifício satírico, uma vez que Ma*unaí*a não é \impr*ssi*na*o *elo poder da palavra escrita\. *o ca*o *e M*cuna**a, n*o vemos, nessa *rete**ão de li*erário, d* um *scrit*r que escreve cartas se* d**tinatário (como M*ria *ugênia Fon*eca justamente o demonst*ou, *s I*amiabas não saberiam d*cifrar o c*digo), nada a*ém de uma piada a mais deste Arle*uim e*dereç*da a *eu antagonis** em cena, o *ott*re. Tal persona*em, pretencioso * ostentando u* estilo *aneiris**, apaixona-*e geralmente por um a *ovem *ue *á * apai*on*da por um rapaz, ter*inando **ttor* o por pr**ocar uma sucess*o d* err*s e* que e*tão *mpl*cados os z*nni (*ujo Arlequim é * mai* popular). O Dott*re, \*rrumadinho\, gos*a de impre*sionar por su* l*nguagem; no ent*nto, quando apela ao *atim, c*mete erros, pois *ão domina nem o discu**o tampo*co o t**a, promoven*o sit*açõ*s ridí*ulas que fa*em o *úbl*co rir. A máscara da co*m*dia *ell\**te [...] po*ém * inv*nta como pe*son*gem re**rrent* e com suas pr*prias *arac*e**sticas, assim com* **m sua *nconfund**el língua, a "*ratiana", que mistur* o bolo*hê* a* latim m*c**rônico de*ormando c*mpletamen*e o sentido da palavra [...]. A palav*a se to*na tão con**rcida *ue *e aproxima de uma ou*ra: si*nifi*ado, absurdo e *um*rístico, está no eq*ilíbrio o instáve* *ntre as duas. (PANDOL*I, 1988, p. 9 - *raduç*o nossa) Po*emos constatá-l*s nos exemplos s**uintes: ordina* per o*i**; arg*m*n** per *rdi***to; passion per po*session; certamente per **rtificabilitu*iniprimamen*e; amore pe* Rev. FSA, *eresina, v. 13, *. 6, art. 9, p. 149-158, nov./dez. 201* www4.fsanet.c**.br/revista Sobre Exces*os e Máscaras na \Carta Pra* Ica**abas\ de *ário de Andrade 155 o*ror; matrimonio per patr*moni; tramontan *er t*eputta*; maritar per mar*i**zar. (Ibidem, p: *2) A \Carta pras Icamiab*s\ serve-se igualmente do procedimento de aproxim*ç*o das palavras, c*m efeito humo**s*ic*. A voz **s detentores de títul*s u*iversitários, tal qual o ba*hare*, é intrinsic*mente d*v*rtida, como uma retórica anacr*ni*a: Tudo isso as *on*s *aulistas *prenderam co* *s mest**s *e França; e mai* o polimento das unhas e cr*s*ime*to del**, bem como aliás "horresco refere*s", da* demai* part*s córn**s *os seus companheiros legais. Deixai pa*s* esta flor*da iro*i*! (ANDRADE, *9*6, p. 109) E me*mo, si não qui*erdes lar*ar mão da v*ssa solitária Lei, sem*re a ****tência e *lgumas cente*as e*sa* damas entre vós, muito *os fac**itará o "modus in rebus", quando *or nosso retorno ao Impér** do Mato *irgem, c**o *s*e nome, aliás, p*oporíam*s se mu*a*se *a*a Impéri* *a Mata Virgem, ma*s c*ndizent* com a lição dos clássicos (Ibi*em, p. *10) As á*u*s s*o magníficas, os a*e* tão amenos *uanto os de Aq**sgrana *u de Anve***s, e a área tão a *l** igu** em s*lubridade e abun*ân*ia, que bem se *oderá afirmar, *o modo fino dos cronistas, q** de três *A* se g*ra *spontânea a fauna urbana (Ibi*em, p. 112) Essa referência aos cron*s*as revela * roteiro de *omposição da \C*rta pras Ica**abas\: Não só copi*i os etnógrafos e *s t*xtos *meríndios, mas ainda, na Carta p*a* Icamiabas, pus frases inteira de rui Ba*bosa, d* Mário Barreto, *o* *ronistas port*gu*ses co**n*ais e deva*tei a tão *recisa quã* solene **ngu* d*s colaborado*es d* "Re*ista de Língua Port**uesa". Isso era inev*tável pois que o m*u... isso é, o heró* de Koch-*rü*berg, estava *om pr*tensões a escrev*r u* português de lei. [...] O sr. poderá m* contra*izer afirmando que no estudo etnográfico do a*em*o, M*cunaíma jamais teria pretensões a escreve* um portugu*s de lei. **ncordo, mas nem isso é inven*ão *inha pois que é *m* pret*ns*o copiada *e 99 por *ento dos bras*l*iros! Dos b**sile*ros alfabe*izados (Cit*d* por FO*SEC* apud LOPEZ, 1988, p. *80-281, nota *) Poderíamos *ens*r que neste intermezzo haveria um diálog*: um o*tro eu - o Dottore - falaria no romance, em um regi*tro difer*n*e, brinca*d* com Macu*aíma. Entreta*to, a carta é **sinada, é * h*rói s*m caráter que * escreve, apro*riando-s* sobremaneira da voz de um ou*ro. O discurso ridi*ula*iz*do não é somente o do p*der, é ig*al*en*e a*uele dos pretensos literári*s, *os *aidosos, *os que querem ser o que n*o sã*. Mac*n*íma-Arlequim *es*e a másca*a do Dot**re para r*d*cularizar a *igura, quando de sua au**ncia; os leit*res não podem, p*rtant*, ima*inar ao que ele se refere, pa*a *ual ne*ess*dade de agress*o sa*írica ele ced*. Talve* * Ven*e***u Pie*ro P*e*ra, co* suas coleções, a el*gânci* de um homem da cidade grande; talvez aos escri*ores *on*emporâneos Rev. *SA, Tere*ina PI, v. *3, n. 6, *rt. *, p. 149-158, nov./dez. 2016 *ww4.fs*net.com.br/revista R. Postal, J. A. Galli 156 d* Mário de Andrade, passadistas i*corr**íveis que não compreenderam na *poca seu \futurismo\ mal colocado; se formos ainda mai* longe, essa pod*ria se* pia*a de a ** co*tra**nto indi*eto contr* o desencadeador de tais confusões, para vingar-se agradav*lmente de seu **igo m*is debochado, O*wald de Andrade. Se pensarmos nas c*racte**sticas da m*scar* do Dot**re, bo*achão, sexualmente *ompulsivo, pr*tensioso, mas inconsistente, s* **rescentarm** o conteúdo da carta, revisã* d* croni*tas que \d*sc*briram\ o Brasil, para col*cá-la em paralelo com os estudos e a* proposiç*es di**oníveis em Pau-B*asil de Oswald de Andrade - public*do alguns a*os antes de Macunaí*a - podemos verif*ca* *emelhanças. Um* das anedotas de Oswal* de And*ade, d*sacre*itado por conta de seu co*p*rtamento irônico, e qu* tentava sempre mostrar seu va*or *stético des*onheci*o, está claramente in*er**a em Macun*ím*.8 Mário pod*ria fi*urar Oswald perfeitament* s*m q*e qual*ue* referência *u afirmação feita, * *ue d*i*aria pende*te o *nigma, ainda *ue se fosse em busca na *ua c*rrespondênc*a por u*a *arta datada do mesmo d*a em *ue escreve Macunaíma. A noção d* inte*me*zo passa *or um concei*o de humor prof*nd* e ba*unça, a fim d* qu* a *udiê*cia conserve uma ligação com * pe*a e o* ator*s *urante * entreato. Ar*equim, sen*o um dos p*r*onagens ma** acrobáticos e *erborrágicos, tinh* sua presen*a co**irmada nos intermezzi, co* sua ling**gem livre, *e*vi*do-se de *a*zi b*rlescos para ma*ter a atenção na sequência do espetácu*o. Re*saltamos o ridículo im***cit* da \Ca*ta pras Icamiab*s\. *e e*sa é um intermezzo, que corta a trama romanesca *o *eio - oito cenas de cada lado - e*a surge após *m mom*nto *rítico (a prova do herói, ou *uas su* funç*es, segun*o o deb*te entre os *ext** crít*cos de H*r*ld* d* Campo* e Gil*a de M*llo Souza9), mantendo su**ense. O *i*ário deve ser, * o portan*o, bem instau*ado, a verve *eroz e a crítica pontual. Ao *scolhe* out*a máscar*, ident*fi*ável pelo *úblico já que é o *bjeto da piada, Arlequ*m ata*a e dive*te-se ao diverti*-nos, opondo-se ao desmasca*amento ** Dott*re. I*troduzir uma car** no meio de um romance, sem que ela * ele se *p*nha, nem se torne um eleme**o à margem da n*rrativa, não possível no caso é de Macunaíma, * não ser que **a seja concebi*a c** o aspecto própri* de um intermez*o, *e u* es**rç* satí*ico *ara *anter a *tenç**. 8 Ver come*t*ri*s sobre "Eu ment*!", fa*a de *acunaíma pro*inda diretamente de uma m*ntira provi*encia* de
Oswald. Co*f*rme: LOP*Z, 1988, p. 424, nota 7. 9 *a*pos (1973) e Mello e Sou*a (*004). Rev. *SA, Teresi*a, v. 13, n. 6, ar*. 9, p. 14*-*58, n*v./d*z. 20*6 **w4.fsanet.com.br/re*ista
Sobre Excess*s e Máscaras n* \Carta P*as Icamiab**\ de Mário de Andrade 157 Par* além *a lin*uagem *xube*ante, da colagem de h*s*órias e de ref**ências ver*ig*nosas, que já p*der*a* ind**ar o ex*esso, a \Carta pras Icamiabas\ - com o *eu desdobram*nto de *á*c*ra, Arlequim que *ati**za * Dottore, valendo-se de sua voz, bem *omo das caracter*sticas de seu me** e de su* língua - enge*dr* um excesso de r*pres*ntação. * texto transform*-se *m música e em ce*a, e o r**sod*-ator, par* além da fi*ura c**hec*da que seguimos, *esdobra-se, man**ndo-se semp*e ele mesmo, mostrando no riso p*ovoca*o q*e não *e trata nem *ele, *ampouco de s*a voz. Segund* Lopez (1988), em "Raps*dia e Res*stênc*a", a **ave para a compre*ns** do en*gma de Macunaí** encontra-se n* epílogo, quando desco*rimos *uem cont* e o que é cont*do: o rapso*o que cant* a história q*e, por *ua *ez é c*ntada p*r um **pag*i* qu* a ouviu de *acu*aíma. O conto a*quire significações cada vez mais ricas *o lon*o das interpretações (perform*nce*) **e lhe são dada*. No momento da leitura, temos consciência somente da existên*ia de um narr*dor, c*jos \d*t*s i*puros\ são queb*ados pela m*tamor**se do t*xto na \*arta *ras Icamiabas\; depois da as*inat*ra do her**, o mesmo fio condutor e * mesm* voz são ret*ma*as. Sem caráter, nosso p*rsonagem pod* apr*pria*-se de outrem para s* f*rmar, permite-se masca*ar- se *ara além de s*a própria más**ra a fim de nos fazer rir: "É fá**l de *rovar que e*tab*leci bem *entro de to*o o livro que Ma*u*aíma é u*a c*ntradição de s* mes*o. O *a*át*r que demon*tra num ca*ít*lo, e*e desf*z n*u*ro" (MORAES, 2000, p.368). Contradição inco*to**áve*, M*cunaíma conhece * excesso d*s ident*dades múltiplas: se fazem vário sendo sempre * mesmo, por um excess* que se transforma *m anulação. *e *ma m*n*ira romanesca, a **psó*ia *oge, *e maneira flu*da, à* etique**s e às ca**g*rias; sua linguagem, pela mistura da fala de todos, não c**ga à unidad* da lí*gua. Na f*rma, no conteúd* e na repre*en*açã*, *acunaím* é um exem**o de superposição, de avanço p*ra além do limite, d* excesso que não pode *er c*n*ido na li*eratura brasileira. REFERÊNC**S *NDRAD*, M. Mac**aíma, o her*i sem *enhum caráter. P***s: S*ock/Une*co, *996. BR*N, A. Mesure et dé*esur*. *aris: Fla*marion, 2003. CA*POS, *. *orf*l*gia *e Macunaíma, São Paulo: Perspectiv*, 197*. FO*SE*A, M. E. A ca**a **a* Icamiabas. In: LOP*Z (1988). Rev. FSA, Ter*s*** P*, v. *3, n. 6, art. *, p. 149-15*, nov./dez. 2016 www4.fs*net.com.br/rev*st* R. Postal, J. A. Galli 158 LOPEZ, T. A. (org.) *acunaíma, o herói sem *enhum caráter. P*r*s: A*chives XX/Bra*ília, CNPq, 1988. LOP*Z, T. A. Rapsódi* e resi*tência. In: **PEZ 1988. MELLO * S*UZA, G. * tup* e o alaúde, S** P*ulo: Duas Cid*des, 2004. MO*AES, *. A. *or*espondên**a Mário *e Andrad* & Ma*uel Bandeira. *ão Paulo: *DUS*/IEB, *000. PAND*LFI, V. La commedia dell\art*, storia e te*to. Vol. II. Flor*nç* : Casa Ed*trice de Lette*e, 1988. *OSTAL, *. Ar*eq*imia M*riodean**adeana. T*se de Doutor*do, UFRGS: 2007. Disponíve* em *ttp://www.l*me.ufr*s.br/ha*dle/*0183/1251*. PRO*NÇA, M. C. Rote*ro d* Macu*a*ma. R*o ** Ja*eiro: *i**liz*ção Brasi**ir*, 1978. SAMOYAULT, T. Exc*s *u roman. P**is: Mau*ice Na**au, 1999. Como Referen*iar este Ar*igo, confor*e ABNT: POSTAL, R; G*LLI, *. *. Sobre Excessos e Máscaras na \Carta P*as **amiabas\ de Mári* de And*ade. Rev. F*A, Teresina, v.*3, n.6, art.9, p. 149-158, nov./dez. 2**6. *ontribui*ão dos Autore* R. Postal J. A. Gal*i 1) con*epção e planejament*. X X 2) aná*i*e e i*terpretação dos dados. X * 3) el*bora*ão do ras*unho *u na *evis*o crítica do cont*údo. X X 4) partic*paçã* na aprovação *a *ers*o final do man*sc*ito. X X
Rev. FSA, Te*esina, *. *3, *. *, art. 9, p. 149-158, nov./de*. 2016 www4.fsanet.c*m.br/r*vist*

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