www4.fsane*.com.br/revista
Rev. FSA, Teresin*, v. 13, n. 5, art. 8, *. 131-154, set./out. 2016
IS*N *m**esso: 1806-6356 ISS* E*et*ônico: 2317-2983
*ttp://dx.doi.*rg/10.1*819/2016.13.5.8
Religião e Ligação entre Súd*tos e Po*eres Soberanos (II):
João Calvino e * G*verno Civ*l
R*ligio* *nd Relation Be**een Subject* and Soverei*ns (II):
*o*n Calvin a*d the Civil Au**orit*
Alexande* Mar*ins Vi*n*a
Douto* em História Social p*la *niversidade Fe***al do Rio d* Janeiro
Profes*or na Univ*rsidade Fed*ral Rural do Rio d* Ja*eiro
E-mail: alex*ianna197*@ho*mail.com
**dereço: *le*ander Marti*s **anna
Edi*or Científico: To*n* Kerley de *lencar Rodr*gues
Endereço: Uni*ers*dade Federal *ura* do *io de *aneiro,
In*ti*u*o de Ciênc*as H*manas e Sociai*.
Artigo
recebido em 30/06/2016. Úl*ima
versão
BR46* - K*7*e*tr*2389*000 - **ropédica
recebi*a *m 17/0*/2016. Aprov*do em 18/0*/*0*6.
Avaliado pelo sistema *riple *e*iew: Desk R**i*w a)
p*lo Edito*-Chefe; e b) Do**le Blind *eview
(a*aliação c*ga po* dois aval*adores d* área).
R*visão: Gra**tical, Nor*ativa e de Form*taç*o
*poio e financiament*: C*PES (Com*ssão de **erfei*oamento de Pessoal do *ível S**erior),
UAB (Sistema Univer*idade Ab*rta do Brasil).
A. M. Viana
132
*ESUMO
*o*
atuais es*udos sobr* Alt* H*stó*ia Moderna, a h*stória das ideias pol*ticas tem *raz*d*
novas *uestões e abordagen* interessa*as ** situar
*s ator*s hist*r*cos e* seu próprio
vocab*lár*o político, o que *ão pode ser estud*d* *em *gualment* considerar *s gê*eros
de
font*s escritas *as quais as suas ideias se exp*es*am. *ortanto, um ponto importante
*e
abor*age*
refere-se a não impor aos at*res do pass*do e*pectativ*s dedutivas e abstratas
sobre * evolução **s ideias políticas numa chave *r**ic* teleoló**ca c*nt*a** na emergê*cia
da *mancipa*ão do indiví*u* e da sec*larização do pensamento. *e*d* a década de 1*80, nos
estudos s*b** s*b**ania na Alta H*stória Moderna, um* at*nção *rítica
t*m se
volta*o
à
nece*sidade de compreender o
papel das idei** religiosas for* de expectativas crítica*
I*uminist*s, observa*d* c*mo a racionalização teológic* atraves*a *eflexões e enfrenta*entos
p*l*ticos concernentes à rel*ção *ntre obedi*nc*a civil é fé. *onsideran*o este c*m*o c**tic*
d* a**rdagem, *ret*n** des*nvo*v*r um e*tudo *ntrodutór*o **ntextu*lizan*e do tra**d* "Do
Poder Ci*il", de João Calvino, que ser* seguido de trechos selecionados c*mo evidências para
as princ*pais hipóteses interpretativas *este e*tudo, cuja função é tam*ém dispon*bil*zar, po*
m*io de *ecortes temáticos ant**ógi*os, um docum*nto do século *VI para uso em aulas de
História.
Palavr**-chave: Tratado Teo*ógico-Político. Sobe*ania. C*lvinismo. Antigo R*gime.
ABSTRACT
Today, in Early M*dern Hi*tor* Studies, the History of *olitic*l Thought h*s taken new
*uest*ons a*d appr*aches whose main preoc*upations have been *ow *hinking Earl* Modern
personaliti*s and ideas c*nforming to th* epochal singu*arity of their poli**cal vocabula*y and
discurs*ve genre. Therefore, an *m*ortan* t*rning point of approa*h in the Hi*tory of Political
*hou*h** has been
how pre*entin* to analyz*
the dev*lopment of Early Moder* po*i*ica*
themes as *f they accomplis*ed *n unb*eakable met*na*rati*e agenda *f m*dernity - for
ins**nce, indi**dual emancipa*i*n and/or sec*lar*za**on of values. Sinc* 1*80\s, in Early
Modern Sover*ignty Studi*s, a critical a*tention *as paid to c*mp*ehe*d the r*le of Religio*s
Idea* out of Enlightenme*t met*na*rat*ve expectat*ons, and *lter*a*ively to emp*a*iz* h*w
the *heologic*l kinds of *olitic*l thought* got across understand*ngs and dis*utation*
concerning on the rela**onship betw*en civil *bedience
and faith. Then, considerin* this
appro*ch, thi* *ap*r intends to ma*e a cont***ual in*roducto*y study of Calvin\s *reat*s* "On
Civi* A*th*rit*", whic* i* followed by selections of itsel* whose functio** are asthserving *o
prove the m*in
h*pothe**s
*f this stud* as anthol*gizing an impor*an* 16 Century
documentation *o be *sed in E*rly Modern H*story less**s.
Keywo*ds: Theol*gical *olitical Treatise. Sovereignt*. Calvi**sm. Ancient R*gime.
R*v. ***, T*r*sina, *. 1*, n. 5, art. *, p. 131-154, set./*ut. 2*16
**w4.fsanet.c*m.br/revista
Religião e Ligação *nt*e S*ditos e Poderes Soberanos (II):
*33
1 INTRODU*ÃO
1.1 ESTUDO INTRODUT*R*O A* TRA*ADO "DO PODE* CI*IL"
E*t** 1534 e 1535, Joã* C*lvino (1509-1564) test*munhou a força da rev*lt*
m*lenari*ta d*s \anabati**as\ *m *ünster, cuj* \r*ino\ foi derrubado *or u** ***a de prí*cipes
católicos e prot*stantes. Várias outras revoltas
de men** escala oco**e*am em di*erentes
*oc*lid*d** por to*o
* norte d* *uropa no co*texto de Calvino, obse*vando-se qu*
*
po*u*açã*, em geral,
ora se ass*ciava com *embr*s da nobreza **cal para ir
c*ntra as
auto*idades pap*is, i*pe*i*is * principescas; o** o*unha-se às açõe* d* *rópria *obre*a lo*al,
prin*ipal**n*e quando so**etaxa** as terras em que trab*lhavam *s f*mílias ca*ponesas, ou
fazi* desapropr*ações em nom* d* lu*a co*tra a her*sia, t*mas sobre os q**i* *artinh* Lutero
(1483-1546) t*mbém s* deb*uçou na pri*eira m*t*de ** déca*a de 1520, cujo registr* crí*ico
mais marca*t* foi *m ser**o de 1523, in*itula** "Sobr* * Autorid*d* Se*u*ar", que esteve
preocu*ado, tal como o tra**d*
"Do Po*er *ivi*" de *alvino, com u*a p*lí*ica ad*qua**
*
teologi*amente fun*ame*tada sobre a relação entre obediência civil e f* desd* o
cisma
protestante com a aut*ridade religiosa pap*l (VIANNA, 2011).
Calvino *ercebeu *ue havia no seu mun*o u** vulgar*z*ção de *atéria* religio*as
*u* p*deri*m interf*rir *a* rela*ões de autoridad* do tipo súdito/*ober**ia e s**v*/sen**r.
Por is*o, *esolve* encará-las com mu*ta *rud*çã* bíbl*ca, *util engenho retórico e profund*
agu**z* política. Afina*, n*o podia ma**er-se indiferent* a um momento *e disputas
teol**icas co* de*c*mbes *olític*s i*p*evisív*is, num mundo que vi*ia os ef**tos
ine**erad*s da difusã* d* informa*ões atravé* de textos *mp*essos,
ass*m como da *bert*r*
d* mundo da* experiênc*as at*avés das grandes navegações, d*s comércios *er*est*es d*
longas di*tânci*s, das *uerras interestatais, da expansão *e*ográfica da m*ior mobilidade e
*ocial * *spac*al. Tudo isso cri*va n*vos de**fios de acomodaçã* par* as estr**uras de pode*
estamenta*s advindas da I*a*e Média (VIAN*A, 20*5, *.*5-69).
Na pe*cepção de Calvino, * \concepção *rrôn*a a*aba*ista\ de se alc*nça* * per*eição
neste mun*o em mat*rias *e fé e s*l**ção provou ser altamente corrosiva para as *utoridad*s
secula*es e r*ligiosas (*n*iga* ou recém-i*stituí*as), *arti**lar*ente se foss* inte*pr**ada
co*o *ma desobr*ga*ão
em relação às leis que regulavam a vida civi* *, p*r consegu*n*e,
àqu*les que portavam a e*pada soberan* da ju*t*ça. C**t*a este suposto \e**o
a*abatista\,
**l*in* l*mbraria *ue o *e*no d* perf*ição de C*isto n*o seria deste mundo e, p*rtanto, seria
R*v. FSA, Ter*sina PI, v. 13, n. 5, *rt. 8, p. 131-1*4, set/out. *016 www*.*sanet.com.br/rev*sta
*. M. Viana
134
*m orgulho diaból*co jactar-se *e uma p**feição que somente existiu em Cristo - e mesmo
este não te**a sid* ins*len*e em relação à autoridade dos *agist*ados de seu tempo
(CALVINO, 2009 p.878-8*0). Na *er*ade, *e Ma*tinho Lu*ero (1483-1546) a Th**as
Ho***s
(1588-1*79), o motivo te**ti*o bíblico "o r*ino de Crist* não é deste mund*" se
tornou um mei* teologica*ente *outo de exigir * fundamen*ar a *bediência c*vil
aos
sob*ranos
que patro*inaram a* igr*jas
reformadas. O des*fio era *st**il*zar
pol*ti*amente
a
sua a*tor*dade contra forças **
tendências sectári*s, s*diciosas ou alcunhadas *eréti*as
do
pró*ri* campo teológi*o-p*lítico protestante (VIANNA, 2011; *IANNA; *COS*A, *015).
2 **FEREN*I*L T*ÓRICO
Não po* *caso, em obras como "Com*nt*rios a Bíblia" e "Instit*i*ão da Religião
Cristã" - **a*a*o "Do Poder **vil" ap*rece como capí*ul* final de*ta última n* ediç*o o
latina de 1559 -, observamos recorrentemente Calvino
*sa*
tópi*as e mo*i*os retór*co*
bíblicos
que indi*iam o se* *nteresse em firm*r *utori*ade interpre*ativa sobr* ponto*
polêmic*s
envolvendo a rel*ção *n*re *ntigo Testa*e*to Novo T*stamento, o papel e e
a
s*cralidade dos
magistra*os (*upr*mo* e seus inte*mediário*), o sen*ido dos sacramentos
b*bli*os e a história da ig*ej* antiga e d*s p*imeiros concílios. Devido *o que e*tendia ser a
vulgarização de ideia* sutis relativ*s *o e*ame individual d* Bí*lia e à
ilu*in*ção interior,
C*lvin* *a**a que os pontos doutrinais m*is polêmicos de*eriam ter uma interpretação of*ci*l
de dout*s, autorizada por sínodos patroc*nados p*los *oderes **ber*nos refo*m*dores.
T*l t*ndê*cia crític* - que se t*r*ou *ais *istemática com C*lvino - afirmou (s*m as
ambiguidades ainda pr*s*nte* em Lute*o na *écad* de 1520) a *recedên*i* da infalibilidade
da Bíblia sob*e a *l*min*ção interior
no *xame individ*al *a *íb*ia. P*r es** vi*s,
a
ilumin*ção *nterior nunca se co*trapõe à premissa de que * *íblia é a p*incipal intér*ret* **
si e, port*nt*, o Antigo Testament* seria n*cessariam*nte *onf*rm*do no No*o Tes*amento e
vice-vers*,
ou seja,
o Novo Testam*nto não *epres*ntaria uma superação *o Antigo
Testamento, porque q*alquer af*rmação nessa
dire*ão desemboca*ia n* ide*a de *raça
progr**siva, ou seja, o q*e era abordado como \erro *nabatista\ **tre *s década* de 1520 e
15*0 p*r Luter* e Calvi*o. Contudo,
nenhum mét*do
interpretat*vo con*i**en*e
fo*
dese**olvido para cont*r os **usatórios erros supersticiosos da i*aginação nessas ma*érias
s ut i s
*té
Thomas
H*bbes
(1588-168*)
a*ordar
est*
assu**o
em
se*
t*atado
"*eviathan"(1651).
Rev. FSA, Te*e*i**, *. *3, n. 5, a*t. 8, p. 131-154, set./out. 2*16
www4.*sa*et.com.br/revista
Re*igiã* e *igação entre Súditos e Po*er*s Sobera*os (**):
135
*homas Hobbes desenvolv*u a pr*m*ssa crítica de que as p*rtes c*aras *a Bíblia
dev*r*am **ndam*nta* a religião do Estado Cristão reformad*, porq*e seriam conf*rmada*
pelas leis nat**ai*, pelas quais De*s também se comu*icava com o homem por meio da *azão
(**ANNA; ACOSTA, 2015). Nesse senti*o, *s le*s natu*ais serviriam como parâ*etros par*
destacar as partes **aras da Bíb*ia (que deveriam nortear a instituiçã* da religião do Estado
pelo *oberano)
daquelas sutis (*ssuntos apenas de dout*s,
os qu*is não deveri*m
*s***ast*cam*nte abus*r da imaginação nessas matérias) e daquelas inexo*av*lmente arcanas,
ou seja, *ue *ão foram dadas por Deus para a **zão hum*** *o*hecer. *o*tan*o, de Lutero a
H**bes, há um c*mbate c*ítico-t*ol*gico no campo r*formado que pretende ev*tar o q*e
o*
doutos teólogos *rotesta*t*s ente*deriam como lei*uras vulgares - i.e., sem
discernimento
c*ntex*ual-f*lológ*co d*s motivos, te*as e refe*ên*ias - sobre matérias t*ológicas sutis da
Bíblia. * tem* *a iluminaçã* int*rior *e t*r*a *ent*a* para doutos r*formadores c**o
Calv*no, p**que estaria *ujeito a
a*usos da imagina*ão que p*deria* descambar para uma
justifi*a**va teológ*ca da d*sobediê*cia c*v*l e, no limite, para a adoção da n*çã* ** graça
progressiva (a*títipo da noção calv*n*sta de pr*destin*ção) e, c*m* *ec*rrência *esta, pa*a a
negação da *nfal***lidade *a Bíblia, tal como Lu*ero e Cal*ino testemunha*iam na* m**íades
de seitas i*depen*e*tes (milenarist*s ou não) *mergente* na Europa entre as *écadas de 1520
e 1540.
Num uni*erso de maior acesso à Bíbli*, através de trad*ções im*ressas *m lí*guas
locais e d* crít*c* à autori*ade da tradição catól*c* papal, h*via m*io* possibilidade d* perda
de deferênci* pelos *eus mist*ri*s e pelas estruturas de *oder nel*s jus*i*icados. N*o
por
a*aso, *alvino buscou justame*t* co*stituir a*tori*ade in*erpretativa sobre aquel*s p*ntos
mais po*ê*icos *a Bíbli*, os *uai*
poderiam ser aprop*iados em chave sub*ersiva contra *s
autoridades ci*is que eram man*f*stamente favor*veis protet*ras *as princip*is te**s dos e
doutos protestant*s. Daí, não su*preen** que,
e* sua obra Insti*uição da Relig*ão Cristã,
Calvino afirmasse: "Que m*nstruosidades *bsurdas os fanáticos não poderiam produzir s*
*hes **sse permitido
discuti* ca** suti*eza [da Bíblia] para impor a sua vontade?"
(CALVINO, 2009: 789). Dentre os vári*s e*p*ego* do termo em sua* o*ras, Calvi*o ch*ma
de
superstição esta possibili*ade de abertura da Bíblia à ima*inaçã*
o* o*i ni ão
part*cu*ar/vulgar - i.e., o antít*po moral e in**lectual *a *igura do do*to di**reto em matérias
sut*s *íblicas.
Nos conselhos da*os p*los doutos aos fiéis nos sé*ulos *VI e XVI*, afirma*a-se que
nenhum ser humano seria capaz de destruir o Anticristo, ou leva* a história para um f*m, mas
na*a o *mpedi*i* *e p*epa*ar o terreno. No entanto, o escopo da* açõe*
que poderi*m
Re*. FS*, T*resina PI, v. 13, n. 5, art. 8, p. 131-154, *et/o*t. *01*
www4.**an*t.com.br/revis*a
A. M. V**na
136
a*tecipar *s
d* Deus e*a ambíguo: pregar e publ*c** eram
obrigações *bso*utas, mas er*
inteiramente inaceitáv*l q*e i*divíduos,
ou pequenos g*upos part*culares,
an*ecipassem
a
vontade divina e in*ugur*ssem o *poc*lipse ou o mil**io em det*ime*to
de
seus sobe*anos.
Como podem*s notar a part*r da exp*riência \**abatista\, "*iver os últimos dias" *razi*
co*s*quên*ia* ambíguas: esperav*-se que o **voto *omasse **didas práticas *ar* ati*gi* um
es*ado *e pr*paração a*rop*iado, mas muito* gru*os entenderam *ue *oderiam alcanç*r um
estad* de perfeição *u* tornaria irre*evantes os poderes *ivis (C*ARK, 2006, p.480).
Po* conta disso, para des**alific*r qua**uer possib*lida*e de *egiti*idade divi*a pa*a
as *eitas proféticas mo*e*nas, *alv**o afi*ma*ia: "A *raça de cur*r en*ermos ** cesso*, assim
como, o* demai* mila*r** que o Senhor quis ***long*r durante **gum tempo p*ra fazer
a
pregação *o evan*el*o *dmiráv*l **ra sempre" (*ALVINO, 20*9, p.855). Isso *e tornou um
motivo temático r*corre*te, o qual p**emos o*se*var tanto no sermão "*obre * Auto*idade
Secula*" de *utero, quanto no
"Le*iathan" de Hobbes (V**NNA, 2011; VIANNA;
ACO*TA, 2015). A *azão t*ológica d*ssa recorrênci* é sintoma da
nec**sidade políti*a
de
a*i**ar o *i* d** mil*gre* - *.*., de qualquer exce*ão na ordem natural prov**ada por Deus -
des*e o primeiro a*vento de C*isto. Af*rmar o fim do* milagres significava ra*ificar
a
atua**dade da Bíblia e, portan*o, a sua infalibilidade co*o ún**o teste*unho da graça desde
C*isto até o seu novo retor*o no Juízo Final, *uan*o seria *onstituído o se* r**no dos justo*
no outro mundo.
Ora, com* ainda não havia novos sinais efetivos do retorno *e *risto, cujo rein* não é
deste mu**o, *ma *ecor**ncia política import*nt* do motivo temático
do fim d*s mil*gres
seria a *ompree*s*o de que as leis e as instituiçõ*s c*vis seriam ne*es*á*ias para o* justos se
pro**gerem **s *éprobos numa *xterioridade civil de vi*a *ris*ã. Port**to, a admoestação de
Calvino ser*ia p*ra lem*rar a *nfali**l*dade da Bíblia, assim como,
para chamar a *t*nção
para * fato d* q*e os mila*r*s acompan*aram soment* a revelaç*o dos Evan*elhos, algo que,
segund* Cal****, foi anun*iado no Antig* Tes*am*nto como forma de Deus *inali**r para os
homens que Jesus era * Cristo. Então, observamos ** seus ar*umento* *m* p*eocupação de
*ortear a*torid*d* in*e*pretati** sobre a Bíblia e, *or *ntonomá*ia,
definir como engodos,
hipo*ris*as, fal*i*ad*s ou superstiçõe* o* pretensos *rofetas, mess**s e márt*res mode***s que
emergir*m ** int**ior *as revoltas camp*ne*as na Europa *entral entre a* décadas de 1520 e
1540.
Como **demos n*t*r, ha*ia
*o pensamento de Calvino uma p*eocupação
de
estabelecer uma au*o*idade int*rpretativ* teológica sob*e pontos de d**trina que, em
seu
*ntendimento, ao s*re* vulg*rizados, poderiam trazer séri*s *iscos para a ordem social
Rev. FSA, Teres*na, v. 13, *. 5, art. 8, p. 131-154, *e*./*ut. 2016 www4.fs*ne*.com.br/**v*sta
Relig*ão e Liga*ão entre Sú*itos e P**ere* S*beranos (II):
13*
est*me*tal no Estado do Ant**o Regime. Tal preoc*pação teológica-*olítica demo*stra qu* as
*eformas rel*gios*s de doutos como L*te*o e Calvino abriram uma "caixa *e Pando*a" difícil
de fechar, particularmente num cont*xt* de *ulgarização da Bíblia através da imprensa * da
sua trad*ção par* *s línguas locais mais usad*s n*s comunicaçõe* d*
púlp*to*. Enfim,
de
L*tero a H*bbes, houve um* p*eocupaçã* *onst*nte dos dou*os protest*n*es do A*tig*
Regime
em estabe*ecer uma au*oridade
int*rpr*tativa sobre os
pontos sutis da Bíblia qu*
afe*avam a obediência civil,
negando a possibili*ade de ser*m *bjetos d* e*ame do vu*go e
ratifica*do o princí**o de que a* a*tori*ades soberan*s deveriam se* respons*veis pela
divulgação pasto*al da verdadeira d*utr*na - *.e., aquela definida pe*os dout*s s*b a *ua
*atronagem -, e que isso seria a b*s* de *stabili*ação da soberania civi*-ecl*siá*t*ca dos
Estado*.
No *ratado "D* Poder C**il", o ente*d*mento manif*sto por Calvino sobre * *elação
entr* súditos (figur*dos co*o su*eitos particulares) e
pode*e* sober*nos
(*ntermediário* e
su*remos, figura*os pel* *erm* m***stra*o) in*e*te a a*toridade civil so*erana *a aura
misteriosa da sanção divina, entenden*o que *eu* cria desiguald*de de po*ências *ntr*
os
*omens para justamen*e mant*-los bem regrados sob o governo civil das *eis. No entanto, este
mesmo mecan*smo p**eria estar sujeito a distorçõe*, particularmente quando o poder
soberano fosse des*igurado em uma *irani* que *giss* *on*rar**mente eq*idade - bas* à
do
direito entre desiguais, através da qual a justiça div*na manifesta*-*e-ia n*s atos dos pode*es
soberanos -, às liberdades corpo*atist**1 dos súdit*s e à d*fusão ** verd*deira fé. Ao refleti*
sobre tais pa*adoxos, Calvino oferece chave* ** solução cuj** efeitos práticos são ambí*u*s -
ambi*uidade q*e T*omas Hobbes teria de enf*entar resolver um século depois -, e
*uais
seja*:
(1)
Por ** lado, Calvino af*rmava que um poder soberano pode*ia se torna*
tirânico, porque se*ia instrumento *a i** divina contra *s pecados de seus súdi*os, pur*ando *
corpo *olítico. Neste caso, os sú*i*os,
como pessoas parti*ulares e como verdadeiros
cri*tã*s, deveriam s*frer a
c*uz
dos padecimentos *ac**ntemente, *oi* isso faria *arte d*
plano divino. Afinal, ningu*m *ev*ria te* na *ente "(...) essas i*eias insanas e sed**ios*s *e
1
As liber*ade* corporatis*as definiam capacida*es, a*ribuições, pe*sonal*d*des jurídicas, dignid*de s*cial,
direitos e deveres para o* indi*íd*os segun*o o seu perte*cimento a (ou en*ua*ram*nto em) órbi*as
*o*pora*istas estamentais de privat*e l*ges. *orta*t*, eu uso o *ermo "corpor*tista", em v*z de "corp*r*tivismo"
ou "**rporativista", *ara destacar a sing*laridade h*stó**co-sociológica, etológic* e cultur** da dinâmi*a
*
co*cepção *e *aus*lidade sobre le*s, poder político, justiça, autoridade s*cia*, soberania, estrutura e ***açõ*s
soc*ais de poder na E*r*pa *ntre os séculos XIII e XVIII. Os termos "corpora*i*ismo" ou
"corporativista"
ins*rgem em matr*zes d* pen*amentos antiliberais do* sécul*s XIX * XX. Porta*to, são *onceitos
a*tit**icos
*ssimét*i*os *m *elaçã* ao co*ceit* "liberalismo". As liberd**es cor*o*atistas são, p*r outro l*do, anterior*s às
dinâmi*as e estruturas instituci*nais, so*iai*, jurídic*s e com*or*amentais *o constitucion*lismo liberal.
Rev. FSA, *eres*na PI, v. 1*, n. 5, art. 8, p. 131-154, *et/out. 2016 www4.fsanet.co*.br/revi**a
A. M. V*ana
*38
que um rei deve **r tratado segundo os seus mérit*s, e que * r*zoável nos revoltarmos
[**quanto súdit*s particulares] contra aquele que não age co*o bom rei em **lação a nós
(...)" (CAL*IN*, *009, p.899).
(2) Por out*o lado, Calvino *f*rm*va **e o *scop* do p*der *empora* seri* *anter
e co*s*rv*r o culto divin* ex*ern*. Disso decorr* uma questão: Quando as açõ*s tirânicas *o
magi*trado supre*o *ão em se*tido oposto a tal e*c*po, tornar-se-ia legít*m* resist*r
ativame*te contra *le? A q**stã* da *esi*t**cia ao tirano tem u*a sutileza propos*tiva em
Calvi*o: Não é l*gítima se p**te de súditos particulare*. Trat*-se de *ma pre*roga*iva dos
magistrado* r*lativos
ou in**rmediário*, os *uais Calvino *nte*d* com* *nstit*ídos com
mandato divino para a tu*ela dos súdit*s, tant* q*a*to o magistrado *upr**o. E* outras
palavras, qualquer digni*ade institucion*l que encarna o b** comum *em mandato d*vi*o e,
como tal, tem *unçã* de acon*elhar e, no limite, *es*stir ao magist*ado s**rem* que se to*na
ímpio n* cump**men*o da obrigação d* proteção das l**erdades da* órbitas corporatistas que
fo*mam o p*ct* de su*missão que *onf*gura o Estad*. Conclui Cal*ino: "há sempre um li*ite
na ob*diênc*a d**ida aos superior*s (...): n** deve *os afastar da o**diência devi*a a Deus,
sob cuja vonta*e todo*
os édito* régios e con*tituiçõe* devem est*r contidos (...)"
(C*LVIN*, 20*9, p.90*).
Ora, se p*nsa**os p*r*ic*larmente *os c*sos das monar*uias hereditárias ou de outras
formas de *rinc*pados
no Antigo Regime,
poderi* diz** *ue Calvino re*tringe o papel de
admoestação dos magistrados supremos a ap*nas os magis*rado* inte*m*di*rios. Portanto, *o
final das *ontas, **lvino *az um a*gume*to sutil, o
qual sugere que a*uele* investi**s
secundariamente de *utor*dade públi*a (i.*., os portadores da sobe*ania de alcan*e re*ativ*)
poderiam esquadr*n*ar os poderes soberan*s sup*emos (i.e., os po*tadores da so**rania
de
alcance absoluto) **rqu* teriam igu*lme*te manda*o divino. É j*stamente cont*a *al
cons*qu*ncia teológic*-pol*ti*a *o c*lvinismo q*e Hobbes s* vo*ta a* defen*er *u* o
magistrado supremo seria o único a d*sp** de m*n*ado divino (jure d*vino) como *ecorrê*cia
do pacto de submissão, enquanto todas as d*gnidades instituc*onais abaixo dele, *nclusive a*
e*les*á*ticas, seriam
de**vat*va* de s*a autoridade *, com* tais,
te**am mand**o
*penas por
jure civilis (VIANNA; ACOSTA, 2015, p.119-120).
Ao **venciar os *feit*s do Lon*o Parlamento
d*rante as G*er*as C**is Relig*osas
Ing**sas (1642-1653), Thomas Hobbes c*iaria todo o edifí*io lógico-dedutivo d* "Lev*a*han"
(1651) *ara
negar a
possibilidade de a*
*u*orida*es pú**icas rela*ivas *squadrinharem
*
**to*idade p*bl*ca abs*luta por razõe* reli**osas, poi* entendia isso *omo **
dis*o*iti*o
perigoso que poderia alimentar *ret*xt*s e*oístas, **c**r*os e supersticio*os contrários ao *e*
**v. *S*, Teresi*a, v. 13, n. 5, *rt. 8, p. 131-154, set./out. *016 www4.fsan*t.c*m.br/revista
Religião e Ligação e*tre Súditos e Podere* Soberanos (II):
13*
c*mu* e à paz civil. T*l como Calvino, Hob*es buscaria *utori*ade em pas**gens da Bíblia
*u* pude*sem *orroborar * *u* visão contr* os pretens*s má*t*re* cristãos (**ditos
p*rticula*es) *e sua época
qu* alegass*m
qu*stõ*s de fé,
ou
*ue jactassem a sua perfei*ão
moral-re*igiosa, para j*st*ficare* a resistência
*ontra * autor*da*e d* um sob*rano que **es
julga*sem ímpio po* razões religiosas. O mét*do *ógico-de*utivo *e Hobb*s so*re tal ass*nto
* muito enge*hos* e dig*o *e no*a. **mo *sso j* f** abo*dado em ob** es*ecífica (VIANNA;
ACOS*A,
*015) e
ser**m muit*s os ex**plos que poderiam se* retirados *e suas obra*
políticas, resu*i
do** conjuntos lógico-dedutivos de argu*en**s bíblicos de Ho*bes qu*
se
contr*põem mais
ev*dentemente às consequên**a*
potencia*mente subver*ivas da teolog*a
polí*ica de Calvino:
(1) Em "Le*iathan", *o *raç*r etimologia para a pala*ra m*rtir, *obbes
de*envo*ve, t*l com* Calvino, a tese de
*ue significav* orig*nalmente
tes*e*unh* da
ressurrei*ão *e Cristo, pois so*ente C**s** havia sido enviado *ara sofrer, como Ag*us De*,
pelo* nossos pecados, o que so*ente *oi possível porque não *e voltou contra a* a*toridades
*mpe*iais. P*rta*to, enqua*to estive*am neste mundo, ele * seus apóstolos não se le*anta*am
contra nenhum* autoridade soberan* em nome da fé; *e*o contr*rio, s*freram t*dos os *feitos
das le*s a eles *mpostas, *ue não eram ainda d* Esta*os cri*tãos. Disso decor*e que seria gra**
insolência os súd*tos ingleses, de qualqu*r
nív*l ou *unção, que faziam parte de um Estado
cristão, voltarem-se contra sob*rano e s*as leis. A*é* o
disso, depois de Cristo, *e
a*guém
al*gasse o *esmo t*p* de cham**o de perfeiçã* sacrific*a* em nome d* fé, não poderia
*er
mais do que louco, sup**st*ci*so ou hipócrit*, *ois o reino da p*rfeiçã* de C*isto nã* seria
deste mundo. E se alg*ém q*ises*e *iver *e*da*eiramente - por o*ra de sua mente perturbad*
*u h*pócrita, o* mesmo*
efe*tos práticos d*
sacri*ício de *ris*o - ter*a de lembrar
*ue *eria
nece*sá*io repet*r plenam*nte o s*u ex*mplo num asp*cto *entr*l: *ão se voltar contra as
autorida*es, sejam elas cristãs, *eja* elas não-crist*s. Em todo caso, seria contrá*io * razão e
às leis natura*s - dons de Deus - algué* agir em sentido co*t*ário à sua aut*pr*servação em
n*m e *a
perfeição e*p*ri*ual, *a**ic*larmen*e
ale*ando
motivos que, no final das c*nt*s,
seriam f*ut*s
da imaginação ou
o***i** part*c*lar, alé* de *erem c*ntrá*ios àquilo qu*
*e
d*du* *as *artes claras *a Bíb*ia - *.e., daqu*las partes não envol*as pelo vé* dos mistérios
*ivinos ou por erro* da imagi*açã* hum*na porque confirmadas
pelas leis natu*ais
(HOBBES, 1997, p.269-402).
(2)
Os pode*es so*e*anos foram i*stituí*os par* gara*tir a prese**ação coletiva e,
atrav*s desta, aperfe*çoarem p*eservação individ*al a
-
esta seria imprevisível, *iseráve*
e
*u*ta no estad* de l*berd*de
natural. S*mente qua*d* o poder soberano n*o cumprisse e*ta
Rev. *SA, Teresina PI, v. *3, n. 5, ar*. 8, p. *3*-15*, set/**t. **16
www4.fsanet.c*m.br/revista
A. M. V*ana
140
*unção pr*t**iva que fundamentava o
pa*to de submissão (o qual in*titui * se* mandato
divino) é que não há mais sentido em ser súdito, volt*n*o cada ind*víd*o co*porat*s*a a *iver
em *iberdade natural, na qua* é mi*erav**mente sobe*ano d* si o* est*do em si. Portan*o, não
é a religião -
qu* n*o é matéria do pacto de submi*são - que cond*ciona a o*e**ência
*o
pod*r soberano, tanto qu*, na or**m temáti** *e "Leviathan", * tem* do pacto de s*bmissão
antecede o *ema
do Estado Cristão (HOB*ES, 1997, p.117-254). Ass*m, *oltar-se contra os
sobera*os em nome da fé é * mesm* que *e coloc*r, novamente, em s*tuação de liberdade
natur** (a *u*r*a de todos co*tra t***s) por *otivaçã* extern*
à funç*o do p*cto d*
s*bmi*são *ivinamente inspirada na razão por **io das Escrituras e das le** naturais. Por tudo
isso, é obra da vaidade (e contrário às leis *a*ura*s e às Escrituras) alguém alega* questão de
f* ou te*or do p*ca** como ju*tificat*vas *ara
*esobedece* ao* poderes sober**os que
tornam po*sível a
vida civil (HOBBES, 1997, p.3*8-402). Adem*is, Deus
seria a única
po*ênci* n* **ndo que poderia ver * julgar o *ue verda*eirament* se *assa no c*raçã* dos
homens. Como *eus julga o coração e não *s atos *xterno* de *é o*icial*zado* pelos
*oberanos, não há r*zão para um *ú*ito verdadeiramen** cristão imaginar-se pecador somente
**rqu* segue as fo*ma* *xternas da re*igião o* *ulto civil que pessoalmen*e **lga ímpia*. Para
Hobb*s - que segue, *e*se particular, motivos temáticos da tr*dição
teológica de Calvi*o
-
não *e deveri* **nced*r significados
exagerados a "*eros e*teriores" que não tinham
conexão alg*ma com a verdadeira es*iritual**ade cristã. Especifi*amente no c*so *os Estados
Cristãos2, cada súdito deve*i* *catar a f* instit*í** pel* seu poder s*bera*o (civil-
eclesiástico), cujo ma*dato é di*in*
*or *orça d* pacto de submissão e
não por f*rça
da
reli**ão *nstituí*a pelas leis ci*is. Em t*do *aso, Hobbe*
r*comenda q*e *o*erano (civi*- o
eclesiástico) dos Est**os C*istãos institua o crist*an*smo como re**g*ão d* *s*ado a *art*r das
p*r*es claras da Bíblia, as q*ais são ded*zid*s *or meio do *spel*amento com a* leis natu*ais
(VIANNA; A*OS*A, 2015, p.107-117).
Enfim, os enge*hos retó**cos e lógico-de*u*ivos centrados na Bíbl*a e nas le** naturais
são fo*tes inesgotáveis para estudos sob*e matrize* douta* *o pensam*nto pro*esta*t* *os
séculos XVI e X*II na *uro*a. To*as
tentaram *o*t*olar e orientar o po*encia*
*u*versivo
que reconheciam haver numa matriz teológi*a que, embor* tiv*sse clareza qua*t* ao p**sa*o
*
No rig*r conceitual de Thomas Hob*es, a fé cristã é um aconselhamen*o part*cular ass*n**d* na *í*l*a. Um
Estado se torna cris**o qu*ndo o p*der sobe*ano instit*i, por me*o de le*s civis, o crist*anismo como religião de
E*tado, qua*do ent*o o cristianismo
d*ixa de ser aco*selha*e*to par*icu*** para se tornar, *erivativam*nte,
uma mat*ria de Estado. Na teol*gia polí*ica de Ho*bes, o cristianism* se torna uma matéria der*vat*va de
Estado p*rque *ualquer r*li*iã* nã* é matéria fundadora do
Esta*o, porqu* não condic*ona ou fa* parte
origi*almente do p*cto de submissão. Porta*to, a obediência *o súd*to ao poder *oberano está *eferi*a à fu*ção
protet**a (divi*amente ins*irada) do *ac** de subm*ssão, e nã* à religiã* (VIANNA; ACOSTA, 2**5: 120).
Rev. FSA, Teresin*, *. 13, n. 5, art. 8, p. 131-154, set./out. 2016 ww*4.fsa*et.com.b*/revista
*eligiã* e L**ação e*tre Súditos e *o*er*s S**eranos (II):
141
a ser neg*do (* tradiçã*
católic* papal), pel*jara por d*is
séculos em tentativas de criar
soluçõe* doutrin**s, institucionais * li*úrgicas qu* pudesse*
estabi*izar *ormas próprias
*e
tr**ição * aut*ri*ade i**erpretativa sobre pa**ado bíblico, sem as quai* não o
seri* poss**el
es*abiliz**,
no p*esente, as instituições po**ticas e as relaçõ*s de *uto*ida*e e legitimidade
entre súditos e pod*res sobera**s. Obviament*, não se**a p*ss***l estabili*ar t*is relações
enquan*o * racionalização bíb**ca f*sse c**sider*da um fa*o* estruturante de compreens** das
*nstituições sociais e políticas, t**dê*ci* contr* a qua* o* pe**adores il*mi*ist*s se vo*ta*am,
mas iss* j* é outr* hist*ria...
3 RESULTAD** E DISCUSS*ES
3.1 Do pod*r civil
Os t*echos seleci*nados d* tratado "Do Pod*r C*vil" *oram recortados e orga*izados
por
e**radas antológ***-temáticas condize*tes às qu*stões de abord**ens e hipó*e*e*
c*ntextu*i* anteri*r*ente l*vant*das no artigo, visa*do a **por ev*dências docu*entais para
as mesmas. No entan*o, as entradas antológic*-te*áticas também direc*onam a le**ura p**a as
atuais
de*andas did*tic*s curri*ulares e
de Hi*tór*a Mod**n* nas lice*cia*uras *e História.
Por*anto, um objetivo derivado de*ta o*gani*ação an*ológico-temáti*a do trata*o foi t*mbém
expor, *ara discen**s d* g*adua*ão de Hist*r*a, ai*da nã* habitua*o* a este *êne*o de fonte,
como Calvino *esenvol*e as suas racionali*ações teo*ó*ico-políticas qu* *nfr*nta* os
dilemas *a in*tabil*dade das relaçõe* entre súditos e poderes sobera*os decorrentes do *isma
religioso na Europa Central entre as década* de 15*0 e 1540.
*s trechos sel*ci*nados do tratado "Do *oder C*vil" não seguiram a sua o**em de
*parição na ediç*o
da UNESP. Embo*a *u tenha *artido desta, conf*ont*i-a com a edição
ing*esa da C*lvin Translation Society. Como a ed*ção da UNESP d* **stituiçã* da R*ligião
C ri s* ã
- onde se encontra o t*a**do "Do Po*er Civ**"
como seu
\*ltimo cap*tulo\ - * *uit*
heterogê*ea ** qualidade estilísti*a de t*adução e revisão, foi n*cessári* confro*tá-l* com a
edição da Calvi* *ra*slation Society de 1845, concebida por Henry Beveridge, que se bas*ara
na edição i*glesa de 1599, cuja trad*ção de
trad*ção foi aquela
d*
qua* se *alera Thoma*
Hobbes. A partir disso, construí um ponto de part*da para reformar estilos de frases, **gências
verba**, uso* *e
c*njunçõ*s e demais conect*vo*, assi* *om* as referen*ialidad**
pron*min*i* e *onc*rd*ncias *om*n*is, de m*do a diminuir desnecessárias opa*idades
da
tr*dução d* edição da UN*SP sobre
u*a obra ainda pouco trabalhad* po* historiadore*
do
B*asi*. S*gu**, agora, as *nt*adas anto*ógico-t*máticas:
*ev. FSA, Teresi*a PI, v. 13, n. *, art. 8, p. 13*-1*4, set/out. 2016
*ww4.fsanet.com.b*/revis**
A. M. Viana
14*
3.2 O man*ato divino dos magistrado* e *s *imites * obediênc*a ao seu poder
(CALVI**, 20*9, p.894-*02)
(...) * p*imeiro dever dos *úd*tos pa** com o* su*eriore* consiste em *ê-lo*
*m alta
consideraç*o [Agostinho, E*ísto*as, 1**, c.2,12], reconh*cendo qu* a *ua *urisdiç*o l*e* foi
con*iada por *eus; por *sta *azão, é p*eciso honrá-los e reverenciá-los c*mo m*nistros
e
l*gado* de *e*s. De fat*, v*re*s que *lguns *e mostram obedientes aos magistrados
e,
certamente, rebelar-*e-*am se n*o houves*e superiore* a quem ob*decer, porque esta função é
ind**pensáv*l ao bem *omum. Não ob***n*e isso c*nsidera o ma*istra*o um mal necess*rio,
do qua* o gênero humano não po*e prescin*i*. (...) Disso deriva outra concl*são: juntam*nte
c*m a honra e a estima, é preci*o ded*car *od* obediência às autoridades, seja acatando *s
suas or**ns * constituições, s*ja pag*ndo os impo*tos, se*a *ceitando algum enc*rgo p*blico
de*tina*o à d*fesa do povo, se** exe*ut*ndo *lgum m*ndat*.
(...) Um* vez *ue
nã* é possível resistir
a* *agistrado sem que tam*ém se e*teja
*esistindo **us, ainda *ue a*g**m ach* que possa *e*p**zar o m*gist**do q*e se *ostra a
medíocre *ncapaz, De*s é pode*o*o o bast*nte *ara ving*r *sse desprez* *or sua von*a*e. e
*ob o *ome obediência também inclu* a *od*ra*ão que *s pessoa* par*iculares devem t*r em
face *os negóc*os públicos,
p*ra qu* ev*tem invadir as fu*ções do magistrad* *u to*em
iniciativas de natureza *úb**ca. Qu*ndo encontrarem no gover*o co**m alguns erros que
*recisam ser corr*gidos, as pesso*s particul*res nã* devem **mar a inic*ativa de remedi*rem
*m problem* que **o lh** compete; pelo cont*ário, de*em e*por a sit*ação a* s*perior, *** *
o único autori*ado a ger*r os n*g*cios pú**icos. P*etendo d*zer com isso que não se deve fazer
nada sem q*e haja u*a or*em **e*isa de execução. De f*t*, onde for dada uma ordem pela
autoridade superior, os cidadãos estarão r*vest*d*s *e autor**a*e públic*.
(...) At* ag*r* f*lamos da fi*ura do magistrado tal como
deve ser, para que
corre*ponda g*n*inamente a esse título, i*to é, pai da pát*ia
q** g*verna past*r do *ovo,
guardião ** terr*, m*ntenedor da just**a, *o*serv*dor da inocência3 [*f. Home*o, Odisséia, 2,
2*4; Il*ada, 2, 243]. *ão rest* dúvida de q*e se mos*ra insan* quem se opõe a esse governo.
Tod*via, n* maioria das
v*z**, os
prí*cipes
andam long* do bom caminh*: descurando
completamen*e de *eu ofício, alguns *ntr*ga*-se aos pr*zeres e deleite*; dominado*
pe*a
co*iça, outro* põ*m à *enda todas as leis, priv*lég*os, di*eitos, j*í*os; outros saqueiam o povo
3
* título "c*ns*rvad*r *a inocência" dev* ser enten*ido, neste cont*xto, c*mo o papel legal de tu*or dos bens e
be*-estar dos in*apazes, *u seja, infantes ó*fãos ou *dult*s loucos *es*ituí*os de tutores ***almente
rec*nheci*os entr* seus paren*es. O título também po*e ter *omo s**nificado *ais g*ral o papel de proteger o
*noc*nte contr* o* maus.
R*v. FS*, T*re*ina, v. 1*, n. 5, art. 8, p. 131-154, s*t./*ut. 2016 www4.fsane*.com.br/*evista
Religião e Ligaç*o en*re Súdito* e Pode*es Sobe*anos (II):
143
*ara mante* seu luxo d*svairado; out*os, enfim, dedicam-se
ao crime, *primind* in*centes,
saque*ndo casas, viol*ndo donzelas e mulheres casadas. Semelhantes de*mandos tornam
difícil con*encer algumas pessoas de *ue os soberanos são os prí*cipes do povo e *u*
é
necessári* o**decer-lhe na medida do *ossível. *e fato, em meio à ta*a*ha e**rmidade *e
ví*ios estr*nhos, nada se encont*a
nos superio*es *ue l**bre *e*s, *u** *magem deve
re**lande*e* num magistrad*; nem se v* nele* o ministro *e *eu*, *o*to ali pel* Senhor pa*a
* l*uvor *os bo*s e * casti*o dos
ma*s; nem * *upe*ior, cuja autorida** e *ig**dade
a
escri*ur* rec**en**. Porém, é certo qu*, no coração do* h*me*s ao s*nt*men*o de execração
e *dio a*s tira*o* s*mp*e acompanho* o amor aos reis justos que cum*rem * seu dever.
Toda*ia, ma*s adiante, a Palavra de Deus condu*ir-nos-*, fazendo-*os
*bedecer não
somente os *rí*cipes que cumprem o s*u dever e mand*to, mas também todos os q*e ocupa*
u*a posição eminente, m*smo que não fa*a* aqui*o que sua condi*ão exig*, *ois o *en*or
declar* qu* os ma*i*tra*os *oram constituí*o* pa** a conser**ção ** gênero
humano *,
embora l*es **ponha l*mites *efini*os, declara, entretanto, que, sendo quem for, receberam o
govern* di*eta***te Del*. Portanto, aqueles g*v**nant*s *u* agem te*do e* vista o
b*m
público são os verdadei*o* e*pe*hos e exemp*ares da bondade divin*; *or o*t*o lad*, aque*es
que g*verna* injusta e violentamente f*r*m susci*ados *ara o casti*o do *ovo. *o
en*anto,
ambos fo*am *nve*tidos da m*jestad* qu* é conferida às *utoridades leg*timas.
(...) É neces**rio insistir *m provar aquilo que dificilmente conseguimos ente**er: que
um homem perverso e in*igno *st*ja invest*do de toda digni*ade e autori*ade que o Senh*r,
em sua Palavra, confere aos m*nistros *a sua *ustiça; que aos súditos *ompete dedica**m à má
auto*ida** a mesma rev**ência que
rendem um *om rei. De iní*io, ex*rto o* leit*res que a
cons*d*r*m at*nta*ente a especia* isenç*o da qual De*s se serve ao d*stribu*r reinos
e
estab*lecer **is conforme seu benepláci**, po*s não é s*m m*tivo q*e a Escritura o
record*
isso muitas vezes.
(...) Embor* sej* long*..., há uma p*ssagem em "Jeremias"
que é...o*or*u*a *itar...:
"Com meu grande poder e com meu br*ço es*e*dido, Eu f*z a te*ra, homem e o
os animai*
que est*o sobre a face da terra, * a *ou **uele que *e convém. Agor*, pois, Eu entregar**
todas estas terra* *a* mãos de Nabucodonosor, rei da Babilôni*, meu servo, e * ele servirão
t*das as nações e g*an*es reis(...). Com *spada, fo*e e pes*e, visita*e* *s po*os e os reinos
que n*o ti*erem servido ao **i da Babilônia. Servi, pois, a* rei ** *abilô*i* e vivereis" [Jr
27.5-8,1*]. Essas *alavr*s
demonstram que
tipo de obediência o Senhor quis que
fosse
dedicada àq**le tirano pervers* e *ruel, pelo ú*ico fato de poss*ir * rei*o. E*se domínio, p*r
si só, mos*rava que a*uele sober*no fo*a elevado ao tro*o por disposição divina e, justamente
Rev. FS*, Te*esi*a PI, v. 13, n. 5, art. 8, p. 13*-154, **t/ou*. 2016 www4.fsan*t.com.*r/revista
A. M. Via*a
144
p*lo fato de ter sido eleva** maje*tade r*gia, não de*ia se* lesado. *uando estiver bem à
clar* * estab*lecida em nosso ente*diment* que a *ontade *e Deus...é a mesma que escolhe
os sobe*anos, elevando-os à posi*ão d* auto*idade, jama*s virã* à nossa mente essas id*ias
insanas e sed**ios** *e que um rei deve ser tratado segundo o* seus méritos, e *ue é razoáv*l
nos *evoltarmos contra *quele qu* não age com* b*m re* em re*ação a nós.
(...) Devemos *er *m gran*e senso de reverência * piedad* para c*m o* nosso*
superiores
(...). Ins*s*o semp*e nesse a*sunto * fim
de
que não f*quemos e**uad*inhando
àqueles que d*vemos obedecer, m*s nos
bast**os em *aber qu*, *or v*nta*e
de Deus, as
**torida*es foram **stas n*ma pos**ão revest*da de inviolá*el majest*de (...).
Ar**mentaria mu*t* m*l que* con*luísse que devemos *bedecer somente a*s
governos
just*s (...). [Portanto],
acima
de tudo, cumpre
que nos guard*m*s de
desprezar
e
desobe*e*er a autoridade de nossos superiores, *ue...pe*m**ece *e*e*ti*a d* ma*estade
mesmo
quando
e*e*ci*a
por *essoas indignas que a corrompem com su* ma*dade. Porque,
embora a punição de uma *utorida** desordenada **ja ato de vi*g*nça de D*us, não deve*os
c*ncluir que e*a nos ten*a sid* *onfiada e s*ja líc*to exerc*-la. Ca*e-n*s som*nte o*edecer e
su*ortar - re**ro-me s*mpre a
pesso*s part*c*lares. Porque, se houv*ss* em
noss*s dias
*agistrados i*s*ituídos para a tu**la *o *ovo e pa*a c*n*er a exce*siva licença e a cobiç* dos
soberanos - c**o *utr**a *s éf*ros en*re os es**rtanos os tribunos da pl*be entre e
os
4
*om*nos..., ou como os três estados *uando se r*ún*m as cortes -, a *st*s pe*soas in*estid*s
de autoridade eu não *ode*ia, d* modo al*um, pr*ibir que fi*esse*, *egund* as exig*ncias *e
seu *f*cio, oposi*ão * resist*ncia à e*cessiva licença dos reis
pois, deixa*d* de **z*-lo,
tra*riam o d*ver de pro*eger a liberdade do povo5,...para proteção *mparo e
do qu*l *o*am
c*nstituíd*s como de**nsores por mandato divino.
(...) Há se*pre um lim*te
*a obediên*ia
devida
aos supe*io*e* ou, *ais exatame*te,
**a *egra que sempre *eve ser ob*ervada: ta* obediência não dev* n*s afasta* *a ob*diênci*
devid* a D*u*, *ob cu*a vontade todos os éditos **gio* e constituições dev*m *st*r contido*, e
sob cuja m*j*stade todo poder deve se r*baixar * humilhar (...). De forma secundária, some*te
sob * autoridade de Deus é que *e*emo* estar sujeitos *os homens que têm p*eeminênc*a
sobre
**s. Se as autor*dade*
or*enam algo contr* o mandamento de Deu*, d*vemos
*esconsiderá-la complet*mente, seja q*em for o mandante. *o* m*is eleva** que seja não *e
4
Quando sai dos exem*los Antigos (g*ego * romano) *ara mira* exemplos *ode*nos, *a*vino re*er*ncia o
exe*plo dos Estad*s Ge*ais da Franç*, ou *eja, o par*a*en*o, assemblé*a ou corte g*r*l dos três estamentos
(est*dos): Cl*ro, N*brez* e Povo.
5
Embora esteja s* *x*ressando no singula*, C*lv*no *e refere às liberdad*s da* órbitas corporatistas d* p*ivatae
leges qu* e*quadr*m em direitos e deveres estamentais o* súdito* ou c*dadãos do corpo políti** d* *st*do.
Rev. FSA, Teresina, v. 13, *. *, art. 8, p. *31-15*, set./out. *016 w*w4.fs*net.c*m.br/revis*a
Religião e Li*ação entre Súditos e Poder*s *oberanos (II):
145
faz *ualquer
injúria
ao m*gistra*o quan*o sub*et*mos ao po*er *e *eus, que é o o
*ni*o
*erdadeir* (...). O*é*as reprova o povo de Israel por *aver o**decido v*luntariamente às **i*
ímpias de **u *ei [*s. 5.11].
(...) O profeta [Oséias] r*pr*va s*veramente a a*e**a*ão desse édi** régio e *s*ava
longe de consider*r louvável a submissã* in*er*sseira d* ad*lad*res qu* e*altavam
*
auto*idade dos reis par* enganar * po*o simples, enq*an*o dizia* que era ne*essári* aceita*
tud* que fosse imposto por se*s reis, com* se... Deus tive*se renunciado ao*
seus di*e**os
quan*o constituiu
**
*ov*rn*s
humanos, ou co*o se * au*oridade terrena fica*se diminuída
quando *e submetesse a* do*ínio sober*no de Deus (...). Sei *uito bem que t*po *e perigos
pode *dv*r desse **s*cionamento de firmez* que aqui *eiv*n**co, porque os reis não toleram
s*fre* co*tradição, e *ua indignação, como *isse Salomão, é pren*ncio de morte [Pv, 16.14].
No *ntanto,
como permanece *ál*da a *entença
proclamada por Ped*o, pregador
celeste, ao dizer q*e importa "antes o**decer
a Deus do q** *os homens" [At. 5.29],
consolemo-nos com ess* exortação, certos
de que obedeceremos
*enuinamente a De*s
quando est*ve*mos *rontos para s*frer
qualquer coisa *ara não nos des**armos *e **a santa
Palav**. E, *ar* *ão arrefecermos, P*ulo instiga-nos co* o*tro *gui*h*o, ao d*zer que Cristo
pagou *m *lto p*eç* par* nos redim*r, a fim de que *ão fôssemo* escravos dos maus d*sej*s
dos homen* e, muito *enos, de sua im*ieda*e [*Co. 7,23].
3.3 As fina*idad*s dos Magistrados: Bem comum * V*rdadeira Religiã*
(CALVINO, 2009, p.881-*85)
(...) É cer*amente i****l q*e pess**s par*icular*s, que não têm *utoridade algu*a p*r*
assum*r dec*s*es, disp*tem sob*e *s forma* de
gover*o. A*emai*, é p*rigoso e*tabele*ê-las
de form* abstrata, um*
*e* que s*u elemento det*rm*n*nte é *ado pe**s circunst*ncias.
En*me*am-se três for*a* de *o*erno ci*il: a m*na*quia, isto *, o governo de u* *ó, ***mado
d* rei, duqu* o* ** outro nome; a ar*stocracia, regi*e fundando sob*e o go*erno d* nobrez*;
a democra*i*, g*ver*o *opul** no qual t*do i*divíduo tem po**r. É verdad* que um rei, ou
outra pessoa investid* de autoridade única, facilment* p*de cair na tirania; é fáci* ta**ém que
os nobr*s *e conluiem para criar um governo injusto; ainda mais frequen*es são as sed*ç*es,
quando o p**o assum* o pod*r.
**mparando essas tr*s forma* de governo, s*r* pre*erível q*e o *oder esteja nas m*os
d*q**l*s qu* ***em governar ma*t*ndo a liberdade d* povo, visto que ra*am*nte se *o*stata,
sendo quas* um milagre, qu* os **is consigam contr*lar a sua vont*de sem jamais *e
afastarem da j*stiça e da retidã*. De fato, é raro *ue te*h*m a pru*ência e a in*eligência
Rev. FSA, *eresina PI, v. 13, *. *, ar*. 8, p. 13*-154, set/out. 2016 w*w4.fsanet.com.br/revist*
*. M. Viana
1*6
neces*ária pa*a saber discernir aquilo q*e é bom e úti*. Po* isso, na falta de h*mens *ptos
e
também por causa do p*c*do, * **rma de a*tori*ade mais segura cos*um* ser a de um go*e*no
constituído por pessoa* que se aju*am **tu*m*nte e se admoest*m *o e*e*cício do dever; e
se alguém se exalta m*is do que é j*sto, muit** são os censo*es e *estre* que co*birão esse
desregramento.
*e fato, e*ta * uma forma de govern* que se mostrou vá*ida pela experiência - e qu* o
próprio Deus confirmou, com *u* autoridade, no gove*n* do *ovo de *srael, durante o período
e* que quis mantê-lo em *e*hor c*n*ição, reproduz*ndo em Da*i a imag*m do Se*h*r. Na
verdade, a m*lh*r *orma
*e governo encon*ra-s* onde existe *ma libe*d*de bem r*gu*ad*
e
destinad* a *urar. P*n*o *ue qu*m se e*contr* em ta*
condição deve c*nsid*rar-*e feliz
e
*ump*ir o se*
deve*, emp**hando-se pa*a *antê-la. Eis porque os gov*rnantes de um **vo
livre d*vem dedica* to*o esforço a fim *e *ue a l*ber*ade
do
povo, pel* qual são os
*e*ponsá*eis, **o
de*vaneça de modo algum em sua* *ãos. Mais d* q*e i*so: quando de*a
descuidar*m, o* e**raque*erem-*a, devem ser con*iderados
traidores da pátr*a. Mas se
a*ueles
que, por
vontade de Deus, vive* sob *ríncipes, dos quai* são sú**tos **turais,
transferem para si
pró*rios [*nquanto pessoas parti*u*ares] o pode* atra*és *a revolt*, d*go
que seme*ha*te
te*tati*a **ve ser **nsiderada não somen*e ab*urda, mas também *ma
aventura danosa e d*plorável.
Não limit*ndo a nossa *tenç*o a u*a só c*dade, mas *lhand* o mu*do i*teiro
e
consi*eran** muit*s pa*ses, const*tar**os que nada se estabele*eu sem a apr*vaç*o
da
di*ina *r*vi*ência, de sor*e que diver*as reg*ões sã* governadas por diver*as f*rmas de
governo. De fato, co*o o* elem*nt*s não se *odem m*nte*-se **não segundo condições
des*guais, * m*s*o ocorre
com
*s governos, que não p*dem se man*er conveni*nteme**e
senã* base*dos em ce*ta* desigua*dades. *ar* **uele qu* consi*era que a nor*a suficiente é a
vonta*e de De*s, não é neces*ário contin*ar discorrendo exaustivamen*e so*re essa matéria.
P*rtanto, se a *eus parece* bom constitu*r reis sobre os *eino*, senados *u decuriões sobre as
c*dad*s livres, *osso dever é submeter-nos e obedecerm*s aos superiores que d**in*m
n*
luga* onde vivemos.
(...) Não é possível esta*elecer *m *egime polí*ico sem antes providencia* a*uilo que
concerne ao culto divin* - e qu* as l*is que n*o levam em c*nta a ho*ra de**da a Deus, mas
somen*e procu*am a conse*ução do be* c*mu*, *olocam * *ar*oça à *rente do* bois6.
6
Como foi ponder*d* no estu*o introdutório, Tho*as Hobbes encararia tal premis*a c*mo um falso problema
um século *epois: baseand*-se igualmen*e n* Bíbli* (e nas leis naturais), entende*á que * rel*giã* (cristã ou nã*)
não forma a matéria do pacto de sub*issão, *uja fi*alidad* é * bem c*mum. Somente depo*s de **nda*o o
Re*. FSA, Teresin*, v. 1*, n. 5, a*t. 8, p. 131-154, set./out. *016 www4.fsan*t.c*m.br/revista
*eli*ião * Ligação entre Súditos e *odere* Sobera*o* (II):
*47
Portanto, se a religião o*upou *e*pre * pr*meiro e *upre*o lugar entre o* filósofos, e
essa priorida** foi co**ta*temen*e observada pelos povos, os príncipes e m*gistr*do* cristãos
*evem envergo*har-se de *ua negli*ê*ci*, ca*o não se aplique* com gra**e empenho n*ssa
m**éria. (...) Os bons reis *l*itos p** Deus são expre*samente lo*vad*s na Escr*tura
po r
haverem restaurado o c*lto divino quando *ste s* acha** co*romp**o o* decadente, ou en*ão
por terem se *cupad* pa*a que a ver**de*ra rel*g*ão *lor*scesse e permanecesse em sua
integridade. *o
contrár*o, poré*, a Hi*tória *ag*ada diz que, en*re os víc*os decorrentes da
au*ência de *ei em Isra*l, es*á a supers*iç*o, pois "cada um faz o que l*e parece" [Jz. 21-25].
Daí, é f*ci* desmasca*ar a estultice daqueles *ue de*ejam q*e os m**istrados
n*gligenciem o culto d*vino e * religião para se ocu*ar** somente de *azer justiça
*os
homens, como ** Deus tiv*sse consti*uído as autoridades para que, em seu no*e, decid*ssem
as controvérs*as t*rrenas, m*s deixassem de lad* o prin*ipal, a sab*r: que Ele de*e *er serv*d*
com p**eza conforme a deter*i*ação de sua Le*.
(...) Ao examinar os p*obl*m*s ati*entes
ao ofíc*o dos magist*ados, *inha intençã*
não f*i ensin*r-lhes quais são as suas obrigações, *a* m*strar ao *úbli*o *u** é a n*tur**a e a
f*nalidade **ra a qual o Senho* as in*tituiu. Vemos, *ois, que os magistrados *ão constituídos
com* tutores e m*nten*dores da tranquilidade, d*
or*em, da *o**lidade * da **z p*blica
[Rm. 13.3], e que
deve* oc*par-se do bem-*star e da paz comum. (...) Ora, o* m**istrados
nã* pod*m *umprir essas obr*gaçõ*s senão *efenden*o os bons con*ra os ataques do* m*u*,
*ssi*t*ndo e *ocorrendo *s op*imid*s. Por i*so, são r*v*stido* d*
au*orid*de para reprimir
e
puni* rigorosament* os malfei*ores c*ja ma*dade pertu*ba a paz p*bl***. (...) Portanto, n*o se
p*de c*n*iderar dan* o* *fensa o fato de *ue o* juízes vinguem, p*r mandato do Senhor, as
aflições pad*cidas pel** *on*. Prouvera q*e nos l*mbrássemos sem**e de que is*o se faz n*o
p*r inicia*iva t*me*á*ia dos **mens, mas *or aut*r*dade div*na, a *ual nos imped* de *os
desviar do *o* c*minho, a menos que se pretenda im*edi* a ju*t*ça divina de punir
*
perversida*e (...)".
3.4 O pod*r soberano, a li*e*d*de d* cri*t*o * a forma pública da reli*ião
(CA**I*O, *009, p.8**-*80)
"(...) Não f*ltam desatinad** e bárbaros **e t**t*m arruinar toda a *utorida**
estabelec**a por Deus e... ad*ladores *e
príncipes que lhes engran*e*em autorid*de tão a
Esta*o um po*er sobe*a*o pode *ecidi* se tra*sforma um acons*lhamen*o partic*l*r (* religião) ** m*tér*a *e
**tad*. *ontudo, tal como Ca**ino, *as ref*rido ao cont*xt* das *ue**as civis religios*s na Inglate*ra, Hob*es
faz a mesma associação tropol*gica e**re sup*rst*ção e "cada um *az[*r] o que lhe parece" [Jz. 21-25] em
m*téria de fé a ponto de pr*tend*r su*juga* seu *oberano.
R*v. FSA, Teres*na PI, v. 13, n. 5, art. *, p. 1*1-154, set/out. 2016 www4.fsanet.*om.br/r*vi*ta
A. M. Viana
148
ilimi*adamente que não duvidam *m co*pará-la a* senhorio que * *róprio de Deus. (...) De
fato, q**ndo [os de*atina*os e bárb*ro*] ouvem que * *vangelho promet* uma l**erdade que,
segundo d*zem, não pode reconh*cer a rei nem * **gistrado humano, ma* s*mente a Cri*to,
eles não cons*guem e*tender de que *ipo de liberdade s* es*á fa*ando7. E, assim, *ensam q**
as coisas não podem ir adiante menos que o m*ndo intei*o a**te uma a
nova forma
de
*overno na q*al não
*aja j*ízes, nem le*s, nem m*gist*ados ou funções parecidas, poi* as
c*n*ideram l*mitações da sua liberdade. M*s aquele que sa*e distinguir *ntre c*rpo alm*, e
e***e a vida presente, que é passageira, e a vindo*ra, que * ete*na, dir* com mu*ta clareza q*e
o reino espiritual de Cristo e o poder c*vil são r*alid*des
bem di*t**tas entre si. E, uma vez
*ue é um devan*io judaico p*oc**ar *u lim**ar *eino d* Cristo aos el*mentos d* mundo8, o
j*lgamos *ue é espiritual tal c*mo a Escr*t*ra ensina cl*ram*n*e, o fruto a ser recebido
m**ian*e a graça de De*s, d* s*rte que estejamos dispost*s a man*er a liberdade qu* *os
é
promet*da e ofere*ida e* Cristo. (...) *o entanto, a disti*ção que expusemos não serve para
que co**idere*os a ordem soci*l existente com* *o*taminada e inconveniente aos cristã*s.
(...) O es*opo do poder tem*or*l é *an*er e
conserv*r o culto *iv**o externo, a
doutrina * * re*i*ião e* sua pureza, guardar a integri*a*e da I*reja, l*vando-nos a *iver co*
re*idão, conf*rme exige a convivência *uma*a por todo tempo que vivemos, ade*u*ndo,
assim,
nos s os
co*tume* à vi*a *ivi*, a fim de manter e conserv*r a *az e a *ranqu*lidad*
com*ns. *dmito **e *udo *sso, seria supérfl*o se * reino
de De*s (...) anul*sse o i*teresse
pela vida presente. No entan*o, se a *ont**e de Deu* é que caminhem*s sobre a t*rra, e*bora
suspiremos *ela *átria verdadei**, e se, além dis*o,
tais me*os nos são necessários
à
caminhada, e**ão, aqueles que os q*erem subt*air aos homens preten*em *rruinar a *ua
próp*ia na**reza. Porque, * respe*to do que algun* al*g** - a sabe*, que *a Igreja d* D**s
deve haver *** perfeiç*o que sirv* como lei única -, respondo que isso é insensatez,
po* s
jamais
poderá existir semelh**te p*rf*ição em nenhu*a
associação humana. De fato, sendo
tão gran*e a insolência dos réprobos * tão contumaz e re*elde a sua perversidade que mal
7
Aqui, Ca*vino faz *eferê*cia diret* a** a*cunhado* \an*bati*tas\ e à *ua \con*e*ção *rrônea\ *e liberdade do
cristão, *reocupaçã* t*ológico-política q*e ta*bém podemo* observar *utero a*ordar no *ermão "Sobr* a
Autori*ad* Se*u*ar" (*IANNA, 201*).
8
O tropo d* \deva*e*o judai*o\ (ou *uas v*riações: \l**cura\, \tol*ce\ ou \burr*ce\) é utilizado para se referir a
m*ntes supers*icio*as que fa*em uma leitura literal *a B**lia sob*e o te*a da lib*rdade do crist*o, ou que nã*
reconhec*m as consequ*ncias civis da *de*a de que Jesu* é o Cris*o. Ao apon**r o s*posto er*o de *iteralidade na
*ei*ura *o Ev***e**o (quando *st* afirma que o justo está l*vr* da lei),
dout*s como Calvino ratifica*am o
motiv* bíblico de q*e o "reino de Cristo não é deste mu*d*". P*r**nto, a ideia de que o justo e*tá liv*e da lei
não *ignificaria q*e este*a isen*o de *bede*ê-la: o justo está l*vre da lei porque não precisa dela para manter uma
exterioridade c*v*l *e
vida cri*tão, ou
seja, não pr*cisa se* f*rça*o a ser bom pa*a
haver a coabita*ão civil,
mas, em todo *as*, *r*cis* das *eis pa*a ser protegido dos ma*s, cuj*s potenciais pervers*dade* são *ontidas
pela aç*o do *ov*rno civil e suas leis, que são dons div*n*s mensuráveis pel* ra*ão.
R*v. FS*, Teresina, v. 1*, n. 5, art. 8, *. 131-154, *et./out. 201* www*.*sa*et.com.br/*evist*
R*li*ião e Liga**o en**e Súditos e Poderes **beranos (II):
149
co*s*guimos refreá-las pelo r*gor
das l*i*, deveríamos e**erar qu* s* lhes *os*e *ada
um *
l*cença absoluta par* fazer*m o mal, j* *ue não se deixam co*ter n*m mesmo pela *orça?
(...) O governo *ão * me*os necessário *os homens *o que o pão, a água, * sal * o ar,
s**do * **a di*nid*de *uito s*perior * t*do *s*o, uma vez que
n*o se limita àquilo que os
homen* comem e *ebem *ara
garantir*m a su* ex*st*ncia, e*b*ra a**anja a *odas *s co*sas,
*a medi*a em que prov* o que lhes permite a v*d* em comum. Por iss*, *ara que a ido*atria e
a blasf*m*a contra Deus sua verd*de, além de out*os escâ*dalos contra a religião, não se e
*ifund*m e n*o se e*palhem em meio ao po*o, com grande prejuízo * tranquilidade p*blica, é
nece*s*rio *ue cada u* pos*ua o que é se*; que as relaçõ*s e*tre os homens sejam justas, sem
dan* ou *raude; **e a honestidade e * modéstia rei*em, a *im de que res*landeç* * forma
pública da r*ligião entre os cr*stã*s e *ue
*
**vilidade se estabeleça entre os ho*ens9. *is
po*que não d*v* causar estran*eza *ue s* conf*e *o po*e* **vil o cuida*o de esta*el*cer uma
sábia ord*n**ão na relig*ão (...), pois (...) n*o a*ribuo às pessoas [particu*ares] o direito de
inv*ntar, * seu
b**-prazer, l*is c*ncernentes * re*igião e ao culto
*ivino, embo**
*u aprove
uma leg*slação civ*l que zel* *ara *ue a verdadeira r**igiã* con*i*a na Le* ** *eus não seja
publicamente violada e *ontami*ada p*r *ma licenç* impunemente per*etrada.
(...) * Senhor não somente declarou que [o ofício
d* m**i*trado] Lhe é ac*itável
e
*grad**el, mas t*mbém e*altou a sua digni**de com t*t*l*s eminente*. Para provar iss*, basta
di*er que sã*
chamados "deu*es" to*os *queles que exerce* * funç*o
d* magistrad* [Ex.
22.8,9; Sl. 82.1], *ítulo *ue não deve s*r tido em pouca monta, uma vez que demonstra que
eles **ce*eram um mandato divino, *ue fora* investido* d* autorida*e de Deus e que
re*re*e*tam *nteir*mente a sua pesso*, fa*end* de certo modo a* suas vezes. (...) Isso vale
c**o se fosse *ito
que re*s e magist**dos
exercem *obre a terr* a sua a*toridade, não *or
conta
da per*ersidade humana, mas por provi*ente e s**ta ordenaç*o de Deus, a *ue*
pareceu bem conduzir, deste modo, o *overno d** hom*ns. (...) Pa*lo nos recomenda (...) *ue
*oda aut*rida*e é
um a
orden*ção
divina * que não há poder algum
que *ão tenha s*do
estabeleci** por Deus [Rm. 13.*,2]. A* contrário, os príncipes são
ministros d* Deus
para
honrar aqueles *ue fazem * bem e *ara castigar aqueles q*e agem mal [*m. 13.*,4].
(...) Aqueles qu* querem q*e a an*r*uia prevale*a, isto é, que não m*is existam reis *
j***es, re*pondem que as autoridades fo*am es*abelec*das sobre *s j*deus por c*nta
da
9
Ao se faz*r a correspondência parad*gmáti*a *ntre forma p*b*ica da *eli*iã* cristã e civ*lidade, decorre *isso o
papel do magi*tra*o soberan* como z*lador *a verdadeira *eligião e, *om* ta*, é ent*ndido co*o alg*ém cuja
f*n**o é garantir *s fundamen*os do cu*to público par* evitar abusos da imaginaç*o particular. Embo*a haja
diferença* de método e de alg**as pr*missas, não há diferença entre *alvino * Hobb*s no *ue concerne a*
modo como conc*b*m a funç*o do p*der soberano como ze*ador *a forma p*blic* da rel*giã* cr*stã *um Estado
C*istão, *ois deve combater as he*esia* e s*perstições *as **ssoas p*rticul**es (VIANNA; ACOSTA, 2015).
Rev. F*A, Teresina PI, v. 1*, n. 5, art. 8, p. 131-154, set/out. 2*16 *ww*.fsanet.**m.br/revista
A. M. Viana
150
rebel*ia d* povo, mas que hoje, em vista da *erfeição traz**a por *risto no Eva**elho, n*o *
mais possível manter essa s**vidão. Falando assim, manifesta-se
não **mente a sua
besti*lidade, mas também seu or*ulho diaból**o, ***s se jactam de uma perfeição da q*al *ão
*on*eguem mos*rar nem * cent*s*ma parte. Mas, ain*a
que eles fossem de fato *erfeitos,
mesmo as*i* seria f*cil re***á-los, pois Davi, depois d* Exo*tar reis e prí*ci*e* que
ho*rassem o Filho de D*us em *i*al de obediê**ia [Sl. 2.12], n*o lh*s *a*dou *enunciar ao
*overno * se recolherem à vida domé**ica, *a* sim qu* submetessem * Cristo sua au*oridade
e *oder, para que soment* ele prev*leç* sob*e *odos. (...) O*ito i*tencionalme*te mui*os
outros testemunhos que * cada passo se aprese*tam nas Escrituras - e p*in**palm*n*e nos
Salmos. Uma passagem notável es*á em P*ul* que,
exo*tand* Timóte* para que fize*se
**ações públi**s pelos reis, acrescenta depois o segui*te mo**vo: "para que vivamos e* pa*
conforme toda piedade e honesti*ade" [1 Tm. *,2]. Com esta* palav*a*, vê-se claramente que
ele os faz tutores e guardiãe* do bem-estar da Igreja. O* *ag*strad*s *everi*m meditar sobre
i s s *, um a
*ez que esta consideração pode e*cora*á-los a tra**lh*r l*gitimam*nte.
(...) E*
suma, se tiverem be* *laro que s*o repres*ntan*e* de Deu*, então hão *e a*licar toda
a
diligência em oferecer aos homens a imagem da pr*vidência, proteção, bond*de,
benevolência e justi*a di*i*a. *demai*, devem ter ante os o*hos o fato de qu* Deu* ama*diçoa
todos os qu* negligencia* a s** obra [Jr. 48.10] e, j*stamente po* isso, *erã* mal*it*s *quel*s
que *e conduzirem desl*alm*nte em *ão e**va*a vocação (...).
4 CONSID*RAÇ*ES FIN*IS
4.1 O advento de Cris*o *ão anula a de*erê*cia ao Mag*strado
(CA*VINO, 2*09, p.891-8*4)
(...) Ag*ra, res*a *er...[o modo como] a comu*idade dos cr***ãos p*de servir-se das
leis, **s t*ibunais d*s *agistrad*s. Di*so nasce out*a ques*ão: Que tip* de **stinção e
os
*articula**s de**m dedi*ar aos magist*a*os e
auto*idades - * até onde d**e chegar essa
obediência? Mu*t*s pensam que a f*nçã* do magistrad* * i*útil entr* o* cristãos10,(...)uma
vez que a vinga*ça, a violência e o pr*cesso são proibidos ao* **é*s. Mas (...) dado que Paul*
declar* *bertamente que o *agistrad* é *inistro* de D**s *ara * bem [Rm. *3.*], d*vemos
concluir que é v*ntade de Deus que a s*a *utor*d*de e auxílio nos defendam e tute*em c*ntra
10
A recorrênc*a **ste tema i*dicia a a*coragem con*ext*a* do *ratado no comba*e con*ra a ideia d* *raça
*rogressiva *a forma como os alcu*hados \anaba*ist*s\ *ntendem a li*erdade *o cristão *e**rida à ideia *e que o
r*ino *a p*rf*i*ão dos *u*tos em Cristo já com*çou e que, portanto, a verdade dos E*angelhos supera as tópica*
de obediênci* a leis e aut*ridades abord*das no Anti*o T*sta*ent*.
Rev. FSA, *eresi*a, v. 13, n. 5, ar*. 8, p. 131-154, set./out. *016 ww*4.fsanet.com.br/revista
Reli**ão e Ligação entre Sú*it*s e Poderes So*er*nos (II):
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a maldad* * a injus*iça dos *aus, *e mod* *ue possa*o* viver e* paz sob sua *r*te*ão. Em
vão Deus te*ia constituído Juízes para *os *u*elar caso não fosse l*cito usar esse bene*ício; daí
s* seg*e, ev*d*nt*mente, *ue podemos rec*rrer ao *a*ist*ado s*m *om**er pecad*.
(...) De f*to, nu*a causa ci*il, age c*r*etamente so*ente aque*e que en*omenda s*u
pleito
a** cuida**s
do j *i z ,
na q**lidade
de tu*or e p*otetor, e o faz com simp*icidade
e
inocência, *ã* pensand* em p*gar o mal com o mal [Rm.
12.17], pois isso seria d**ejo de
vingança. No caso
de um p*ocesso penal, apr*vo *omente aq**le que n*o est* *ovi*o pelo
ar*or *a ving*n*a e ressentimen*o pela ofen*a sofrida, ma* somen*e pel* desejo de imp*d*r a
mal**de de quem é acus*do e pôr fi* à su* ati*ida*e, para que nã* cause da** à orde*
*úbli*a. Portanto, qu*ndo o des*j* *e vingança e*tiv*r *fastad*, não
s* age *o*tra
o
*andame*t* d* Deus. (...) De resto, lembre*os *ue a tutela do magistr*do é um sagr*do *o*
de De*s que não deve ser
corrompid* por no*sos vícios. [Da*,] aquele* que co*denam
absoluta*ente, todo recu**o aos trib*nais prec*sam dar-se conta *e *u* *ej*itam
um a
ordenaçã* sa**ada de *eus * um dom qu* * p*r* para os puros [T* 1.15].
(...) De fato, * necessário que
os cristã*s se com*ortem como um povo nascido
e
criado para sofrer injúri*s e afr*ntas, pervers*dade, impost**a* e z*m*ari** de gen** *a pior
esp*cie (...). Devem suportar tod*s esses m*l** com paciênc**, i*t* é,
com o co*a**o d*
tal
modo dispost* que, ao rec*b*r*m uma injúria, es*ejam p*onto* para recebe*em a seguinte,
sem nada prometer*m a si *esmos se*ão a
constâ*cia de carreg*rem
a
cruz por tod* vid*,
*azendo bem àqueles *ue
lh*s f*zem mal, ora*do p*los que os amal**çoam, procurando
vencer o m*l c*m * bem [Rm. 12.14]. Nis*o c**si*te a sua única vitór*a. *e de fato tiverem
s*as paixões m*r*ificad*s, jamais pedirão "olho por olho e dente por
dente" [*t 5.38].(...)
Todavia, *sta eq*ida*e e mod*ração
de sentimentos n*o *mped**á *e recorrer*m ao
*agistrado quando a cons*rvação de seus bens o exigir, embora co*servem sua *mi*ad* p*r*
com *s adver*ár*os; ou que, p*r a*or a* bem comum, exija* que sejam punidos os ímpios e
perigos*s, que somente podem ser *etid*s pe*a *orte (...).
4.2 G*erra e I**osto: O Novo *estamento em *ada alter*u as disposições *o Antigo
(CALVI*O, 20*9, p.*86-88*)
(...) A pró*ria natu*e*a n*s ensina que é d*ve* do* pr*nc***s, us*rem a espada, *ão
*om*nte para corr*g*r as faltas do* súd*tos, mas também para d*fender o território que está sob
seus cuidado* quando
es*e for invadido. Na escritura, o Espírito Santo nos *ecl*ra q*e tais
guerras **o leg*ti*as. Se alg**m objetas*e, diz*nd*
q*e
não
há qualquer testemu*ho
ou
ex*mp*o n* No*o Testame**o pelo qual s* possa pro*ar que é lícito
*os cristãos fazerem
Rev. F*A, *ere*ina PI, v. 13, n. 5, art. 8, p. 1*1-154, set/out. 2016
www4.fsanet.*om.br/revista
A. M. Viana
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guerra, respondo q*e cont*n*am válidas a* r*zões do Antigo Testamento. Sustento também
que não há mot*vo algum que i*p*ça aos pr*ncipes d*f**derem seus va*sal*s e súditos. Em
se*undo lugar, su*te*to que não é necessár*o *us**r nenhuma
declaração
apostóli*a
concern*nte * esse **sunto, já *ue * in*e*ção dos apóstolos era preg** * reino *spiritual d*
Cristo, e não legislar par* *s reinos tempora*s. En*im, respondo que *o Nov* Testamento
p*d*mos deduzir facilmente *ue a vind* de Cr*sto em na*a alterou *s disposições do Ant*go
Testament*.
(...) Para concluir, *arece-m* útil acrescen*ar que os trib*tos e im*ostos que os
príncip*s recebem, são u* dir*ito que lhes cabe, d* qual devem faze* *so para a m*nu*enç*o
de seu ofício, emb*ra também pos*am licitamente usá-lo p*r* ma*terem-s*, de modo
*ec*roso, conf*rme a sua posi*ão *ocial, já que, de certa for**, está liga** à **jestade de seu
enca*go. (...) *ão ob*tante isso, o* p*ínci**s dev** recordar- s* d* q*e *e*s domínio* *ão são
te*our** seus, mas,
co** Paulo d*clarou [Rm. 1*.6], erário *o povo *nteiro. P*rtanto, o
quando ga*tam pr*digament*, não ***e* isso sem grave violação do *ireito, *ois ess*s bens
s*o como o própr*o sangue do povo, sendo
cr*delíssima desu*anid*de *erramá-lo
inutilmente. Alé* d*sso, de*em consi*erar que os i*p*st*s * demais fo**as d* tributos são
ap*n*s subsídios para as necessi**des púb*ic*s
e, por isso, *obreca*regar a popul*ção *em
mot**o é tir*nia e la*rocínio (...).
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15*
*omo *efer*nciar *ste Artigo, conforme **N*:
VIANA, *. M. Re*igião e Liga*ã* entre Súditos e Poderes Sob*rano* (II): J*ão Calvi*o e o G*verno
Ci**l. Rev. *SA, Teresi*a, v.1*, n.5, *r*. 8, p. 131-154, *et./out. 2016.
Con*ribuição dos Au*ores
A. M. Via*a
1) co*cepção * p*anejamento.
X
2) análise e inte*pre*ação *os *ados.
X
3) elaboração do rascu*ho ** na revi*ão crít*ca do conte*do.
X
4) par*icipação *a aprovação da *ersão final do m*nuscrito.
*
Re*. FSA, Teresina, v. 13, *. *, art. 8, p. 131-*54, set./out. 2016
www4.*s*n*t.*om.br/re*ista
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