www4.fsane*.com.br/revista Rev. FSA, Teresin*, v. 15, n. 1, art. 4, *. 65-82, jan./fev. 2018 ISSN *m*r**so: 1806-6356 ISSN E*e*rô*ico: 2317-2983 ht*p://dx.doi.or*/10.128*9/2018.15.1.4 Tradição e Ancestralidade à Me*a: Símbo*os da Imigração Italiana em uma N*r*ativa Lit*rá*ia Tra**tion and Ances**ality at the *able: Symbol* of It*l*an Immigr*tion in a Lite**ry Na*rative He*ois* Junck*a*s Preis *oraes Doutora em Com*ni*ação Social pel* **ntifícia *niversidade Ca*ólica do R*o Grande do S*l Professora da U*iv*rsidade do Sul d* Santa Cat*ri*a E-mail: h**oisapr*is@*otmail.com L*i** Liene Br*ssan Doutorado e* C*ências da *inguagem Un*versidade do Sul d* San*a Catarina Me*tre *m C*ênci*s da Lingu*ge* p*la Univer*ida*e do Sul de Sant* Catarina Professora do Centro *niversitário B*r*i*a *er*e E-ma*l: lu**albc@yahoo.com.br *n*ereç*: Heloisa Ju*cklaus P**i* Moraes Unisul - Av. José Ac*cio Mo*e*ra, 787, Deh**, C*P: 88.*04-900, Tu*arão/SC, Bra**l. Endere*o: Luiza *iene Bres*an Un*sul - Av. Jos* Acácio M*reira, *87, Dehon, C**: 88.704-900, *ubarão/SC, Bras*l. Ed*t*r Científico: Dr. Tonn* K*rley de *lencar **drigu*s Artigo recebido em 2*/09/201*. *ltima versão recebida em *0/10/2017. *provado em 21/10/2017.
Aval*ado pe*o *istema Tr*ple Revie*: Des* R*vie* a) pelo Editor-*hefe; e b) Double Blind R*view (aval*açã* c*ga por *ois avaliadores da á*ea). Revisão: *ra**tical, N*rmati*a e de F*r*ataç*o
H. J. P. Moraes, L. L. Bre*san *6 RESUMO Este es*udo tem por objet*v* *ef*etir sobr* o imaginári* com *ase em um rec*rte da narr*tiva A cocanha de José Clemen*e P*ze*ato (2000). A partir do escopo te*rico d* ima*inário concebido por Dura*d (2001), prop*mos *ma discus*ão sobre os rituais de aliment*ção como t**jetória de pertencimento, tra*i**o e *ncestra**dad* de *m **upo de imi*rante* italian*s, conforme a *a*rativa *á mencionada. Calçados na *i*o*rítica e na m*tanálise, apont*m** o* s**bolos que com*õem e o regime diur*o e *egim* noturno *as imagen*, bem com* as recorrências e redundâncias que re**rçam as estrutu*as de sensibilidade do de*b*avador e* busca da c*c*n*a, demarcando a italianidade. P*lavras-c*a*e: Tradição. Ancestra*idade. A*i*entação. Pertencimento. I*ali*nidade. ABS*RA*T This stud* aims to ref*ect on t*e *ma**nar* f*o* * cut of t*e na*r**ive * coc*n*a by J*sé Cl*mente Poze*a** (2000). Fr*m the t*eoreti**l *cope of the *maginary conceived by Du*and (2001) we propose a discussion ab*ut the feeding rituals as tr*jectory of belonging, tradition a*d ance*try of a group of Itali*n immigra*ts, a*cordi*g *o the *arrative already ment**ned. *rom mythcr*ticism and my*h analysis, we point out the symbols tha* *ake up the diurnal *egime and nocturnal *egime *f the images, as wel* as the recurrences and redund*ncies t*at r*inforce the sensitivi*y struc*ures of the *athfinder *n sea*ch of *ocanh*, demarcating the itali*nity. Keywords: Trad*ti*n. Ancestry. Fe*ding. Belonging. Ital*anity. Rev. FS*, Teresina, v. 15, n. *, art. 4, p. 65-82, jan./*ev. 2018 www4.fsanet.**m.br/revista T*adição e Ance*tralidade à Mesa: Símb*l*s da Im*g*ação Italiana em uma N*rrativa L*terária 67 1 INTRO*UÇÃ* P**a a reflexão aqu* propo*ta, tomare*os como *onto de partida uma cen* qu* e*vol*e o ritual *esde o preparo at* a d*gust*ção de uma re*ei*ão em *escriçã* fe*ta no romance A c**anha, de J**é Clemente Poz*n*to (2000). Tra*a-se *e u** narrativa histó*i*o- literária sobre a imigr*ção italian* no sul do Bras*l, mais es*ecificame*te *a Se*ra Gaú*ha, conhecida *omo RC* (região de coloniza*ão it*li*na). N*la, o autor de*creve a *aga d* v*agem empree*d*da *o* famí*ias itali*nas, desde * longín*ua Itália *té a chegada à colônia n* interior d* Rio Gran*e do Sul. Para esse estud* *nteressa-no* fazer um *ecorte da narrativa em que a aliment*ção é utili*ada co** me*áfora poética *e bem-es***, encon*ro, confr*ternização e bona*ça. De*d* as prim*t*va* soc*edad*s, *s refeições são momentos em que o* membros de uma **munidade partil*am, além dos a*ime*tos, as **r*s, as conqui*tas, os ans*ios e sonhos e, po*qu* não dizer, um imaginário qu* os m*ntem un*dos no devir. * alimentaç** faz par*e de um do* ritua*s mais antigos. O mito relaciona*o mesa * *arta, à bonan*a apar*c* **s*e *s soc*e*ades p*imitivas, po*s: O m*to **rante ao ho*em que aquilo que ele se prepara *ar* fa*er já foi feito, ajuda- o a dissi*ar as dúvida* que poderia ter quant* a* re*ult*do do seu co*et*men*o. **r que hesitar p*r*nte uma expedição ma*ítima, uma vez que o He*ói *í*ico já a *fet*ou num Tem** le*d*rio? Basta s*g*ir seu exemplo. Do m*smo ****, *orque t*mer instalar-se num ter*itório selvagem e desconhecido, se se s**e que o que é **c*ssário *azer? (...) O mo*el* mít*c* * susce*t*vel de a**icações il*mitadas (ELIADE, 1989, p. *20). Foi em bu**a d* c*can*a1 que levas de imi*rantes it*lian*s deixaram a **ália na segu*da metade do *éculo XIX, r*mo à *mé*i*a, b*scando o sonho d* *e*a farta. Essa te*r* *ítica e* que a *ona*ça se ca*acte**z* como metáf**a de re**ização pessoal, simb*liza: [...] a f*rm* mais gera* e eficaz de perp*tuar a cons*iência de um *u*ro *und*, de um alé*, seja *le o mundo div**o ** o mundo *os Antepassados. E*te "out*o mu*do" represe*ta um p*a*o s**re-hu*ano, "transcendente", o m*ndo *as realidades *b*olu*as. É d* *xperiênci* do sag**do, do **contro c*m *ma *e*lidade trans-humana, *ue nasce a ideia d* *u* qual*ue* coi*a e*iste realme*te, *ue *xiste* val***s absolu*os, capazes *e gu*ar o homem e de dar um significado à existência h*mana. *, pois, através da experiência *o sagrado que surgem a* ideias de realidade, d* verdade, *e significação, qu*, ma** tarde, s*r*o elab*radas e *istemat*za*a* p*las e*peculaç*es m*t*físi*as (ELIADE, 1989, p. 1*9). 1 Cocanha - paí* das m**avil**s, *uga* *itológ*c* que, a pa*tir da Idade Médi*, ha*ito* o i*agin*ri* europeu, descrito como terra da f*rtu**, d* alegria e da bel*z*, longe das **erras, da fome, ond* mananciais *nesgotáveis fo**am rios *e v*n*o e le*te e o so* fe*t* de puro *uro se põe por trás *e monta**as de qu**jo. Re*. FSA, Teresi*a *I, v. 15, n. 1, a*t. 4, p. 65-82, ja*./fev. 2018 w*w4.*sanet.com.*r/revist* H. J. P. M*r*e*, L. L. Bress*n 68 Imigra* para *m novo país significava para m*itos italia*os * con*uis*a da terra *romet*da, lo*ge da miséria que os abatia por anos *e*uidos. Os rela*os de Dall\Alba et *l (1987, *.*6) con*irmam a busca de *esa *arta, p**s na pátria-mãe: Dur*nte * verão v**ia-se até bem, *om frutas e *erduras. Produ*í*mos um pouco *e tr*g*, *ilho e ba*atas. Duas vaquinh*s nos davam *lgum *ei*e. Fa*íamos queijo. *as t**go e *ilho eram vendi*os para *er-se *lgum d*n**iro para remédios e roupas. Comíamos batata*. Todo inve*no comen*o bat*tas cozid*s *a ág*a, sem sal. E *s batat*s q*e fic**sem *a saudosa pá*ria. A *om* *eria s*p*rada na Mé*ic* que iriam construir, pois essa vontade do home* *m *strutura* s*us pe*samentos, seus dese*os, personifi*ando *s *ão v**i*dos fenômenos q** co*põem mund* *e*ce*i*o, exteri*r ou * i*ter*or, mo*eu-os à bu*ca da c*canha, e tem continuid*de no mundo mod*rno, conf*rme nos ensin* Eliade (19*9, p.156): De*cobrim** comportamento* mít*cos na obse*são do "sucesso", tã* da sociedad* moder**, e que traduz o desejo obscuro de transcender os limites ** cond*ção *uma*a; no êxodo para a "Subúrbia", ond* se pod* distinguir a nostalgia da "perfeiçã* pri*or*ial"; *a pa*anoia af*tiva daquilo a qu* *e cha*** o "culto *o carro sagra**". Ne*se sentido, a *ena que esco*hemos para anal*sar no estudo aq*i apresent*do, re*aciona-se à con*uista e à c*leb*ação exitos* do desbrav*mento do descon*ecido, a l*ta p*rmanente e insisten*e pela s*br**iv*ncia, a m*sa *itualística *omo *etáfora da própria **da que se quer vitori*sa, *ois: A necessidade de nut*ir-se e *e proteg*r-s*, o fabricar ute*sí*ios, o sexo, a maternidade, os gesto* e as br*nca*e*ras, o* *onhos * o* pe*adelos tudo * *ue diz respeito tanto * al*a como às funções do co*p* podem ser cultuados, r**u*l*zado, miti**cado (A*EL, 2005, p.77). É so*re *ssa miti*icação gas*ronô*ica, cuja tecitura se enreda na própria história da narr*ti*a, da q*al ext*a*mos o tex*o p*ra aqui analisar. É*oca de P**coa, momento de un*ã*. Os tra*os imaginais *e um perten*iment* se reali*am ao redor da mesa. *omu*h*o d* caça ao prep*r*, do sabor*ar à gratidão, das nece*sidades biológicas à al*gr*a. As*im, * partir da H*rmenêuti*a Sim*ólica, tendo o olhar ao* sen*idos que emanam ao r*do* daquela m*sa, *legemos como técnicas de e*tudo a *itocrítica mitanálise. Sob sua e pr*posição, farem*s *ma *nálise dos eleme*to* simbólic*s c*nstituintes d* narr**i**, Rev. FSA, Teresina, v. 15, n. 1, art. 4, *. 65-82, jan./fev. 201* www4.fsanet.com.br/revista Trad*çã* e Ancest*alidade à Mesa: Símbolos da Imigr*ção Ita*ian* em uma N**rat*va Liter*r*a 69 rel*ci*nan*o-os com os m*tos do d*s*ra*ame*to e da cocanha e a *elação da narra*iva literária com a ambiên*i* da i*igraçã*. Já e* outr*s estudo* (MORAES, 2*1*; MORAES; BRESSAN, 2016a, 2016b) estu*am*s *rát*cas culturais e*pressas pela *it*r*tu*a co*o um **ga* de potênc*a; a p*tência poética da t*ajetória do imigrante i**liano com* fomentadora d* ima***ário da i*ig*ação; Os seres desbr*vadore*, que deixar*m tr*diç*es, *arcas d* memó*ia e símbolos de pe*tencimento. Ao redor *a mesa, e*tão mu*tos destes símbolos n*rrados, como veremos. 2 REFERE*CIAL TEÓR*CO 2.1 O Ritual da Al*mentação Fal*r so*re a*ime*tação é tam**m falar das ori*ens do ser humano e de s ua *obrevivên**a co*o espéci*. A história *a a*imenta*ão é a hi*tória de diferentes *ituais que vão d*sde a p*o**çã* do a*imen** até sua degustaç*o. O a** de alimentar-se está associado às rel*ções sociais e cult*rais advind*s das escol*as envolvida* n*stas prát*cas g**adora* d* hábit*s e formas variadas de co*v*v** **tre a* pessoas. A ritualís*ica ali*en*ar é uma espécie de l*ngua*e* a lhe narrar a trajetória *e u*a comuni*ad*, * evo*ução de seus conhecimen*os e a *i*ensão de sua tecnolog*a. "Come* não é *m ato solitá*i* ou **tôno*o do *er humano, ao contrário é a origem da soc*aliz*ção, pois, nas f*rmas c*letivas de se o**er * comida, a espéc*e humana desenv*lveu utensílios culturais *iver**s, talvez até mesmo a própria l*n*uag*m" (CARN*IRO, 2005, p.71). O Brasil tem *m amplo te*ritório geográfic* * cultural q*e revela uma pluralidade de povos , cos*umes e tradições, que pode s*r revelada materialmen*e por meio dos hábitos a*iment*res construí*o* p** *rup*s so*iais a pa*tir de elementos biológicos e, principalmente, so*ia*s culturais. O ato de com*r e*tá entre o que é natural e o que * *ocial/c****r*l no e h*m*m po*s, para sua sob**vivência * indisp*nsável * al*mento que, por s*a vez, é utilizado e adapt*do de a*or*o com os hábitos e *ostumes *r*ticad*s em seu meio. Ent*e os povos que constituem esta plural*dade *tnog*áfica *stã* os italiano*. Present*s e* quase todas as regiõ*s brasileiras, os italian*s de**aram/deixam *ega*os em *ui*o* a*pec*o* da cultura de *osso país. Tal**z, um do* mai* *xpressivos *eja o lega*o gastronômico. *m toda a *CI, per*ebemos que as cenas à mesa re*o**am a tradi*ão e o p*rtencim*nto a* i*aginário do imigrante, pois o* sí***los trazem à memória *eus antepassados, su* h*stória, s*us desa*ios e c*n**is*as. A util*zação d* ingrediente*, os pr***s Rev. FS*, Teresina PI, v. 15, n. 1, a*t. 4, p. 65-82, *an./fev. 2018 www4.*sanet.*o*.*r/revista H. J. P. Mor*es, L. L. B*e*san 70 tradicio*ais e a f*rma de faz*-los, bem como os rit*ais que envolvem a preparaç*o e a degustação dos pratos, é * imagem da própr*a etnia. *etrato *xpr*sso em palavra* o que * p*rcebemo* nas narrativas liter*r*as, tão r*came*te *escritas em seus *lementos simbólic*s. Degu*tar una b*ll* polenta parece metáfo*a à degus*ação *a *taliani*ade. Em *eus *studos, Maciel (2004, p. 27) *f*rm* que "a cozi*ha de *m povo * criada em um processo his*ór*co que artic*l* um co*junto d* el*men*os referenciados n* tradição, no senti*o de criar algo *nico - particular, *ingular e reco*h*cível". Para ela, a *dentidade s*cia* liga-se a um *roje** coletivo em constante re*onstrução, * não é a**o dad* e imutável, poi*, "essas cozinha* estão sujeitas a constantes tran*formações, a uma *ontínua recriação. Assim, uma cozinha não pode **r re**zida um inventário, a um *ep**tóri* de ingredientes, nem a convertida em fórmulas ou combinações de elem*nt*s *ris*alizados no te*p* e no espaç*" (MAC*EL, 2004, p.27). Interessante trazer à *iscussão o conceito de ancest*alida*e, *s*ecialment* na *erspectiva do imag*nário. Ferre**a-Santos *l*eida (2012, p. *0) ent**dem tal e categoria c*m* "o traço constitutivo do m*u pr*cesso identitário que é he*dado * que per*iste pa*a além da minha existência". A existência individual de cada imigrante (* seus descendentes, *eitore*, ag*ra, das *a**at*vas) *ortadora é desta ancestralidade, *ue ve* de longa du*açã* hi*t*rica. Esta é herdada pelos rit*s da* t*ad*ções **lt*rais e esta he*ança **letiva *ertence *os *ndiví*uos, mas os ultrapassa. A*n** para os autores, d*as e*tratégias *os iniciam a estes laços: a *em*ri* e a provação. Ambas trat*m de estab*lecer um pr*cesso de pertencimento, especi*lmen*e atra*és d* "ritos que rel**bram ao a*ren*iz a sua heranç* e a sua pertença * todo momento, *ara que *ão se esq**ça de quem * e a que cultura perte*ce (\me*ór*a\)". *, aind*, os *ituais testam o ap*endiz p**a "ver*ficar s** fidelidade, cor*eç*o e a*ro*riaç*o do* val*res e imag*nár*o de tradição q*e s e *scolheu (\prova*ão\)" (*ERREIRA-SANTOS; *LMEIDA, 20*2, p. 61). Vale est* r*lação pois, com* veremos, a cena do ri*ual ga*tronômico, repl*to de símbolos de anc**tralid*de e p**tenciment*, o que *ost*a clar*mente o elo *ntr* a co*ensalidade e as prát*c*s so*iai* * cult*ra*s, ta*bém reforç*m o m*to do d**brava*or tendo a me*a fart* como *m**em da sua bravura * **u des*mpenho, re**rçando que * ancestralidade, ne*te cas* a i*a*ianida*e, ** atualiza *ambém na p*tência das *ituações de risco: "a ancestra*idade *e atualiz* *m noss*s c*iações, principalm*nte n*s sit*ações-limite*, de *isco da própria so*revivência, propi**ando a religação (re-*igare) e r*leitu*a (re-leger*) da pessoa em rel*ção à sua querên**a, ao seu rincão, *eu lu*a*, *ua p*ó*r** pai*age*" (**RREIRA-SANTOS; AL*EIDA, 2012, p. 63). Rev. FSA, Ter**ina, v. 15, n. 1, art. 4, p. *5-82, jan./fev. 20*8 www4.fsa*et.com.b*/revista Tra*ição e Ancestralidade à M*sa: Símbolos d* *migração Italiana em u*a Narrativa Literária 71 *a na**ativa d* Pozenato (2000) a desc*ição do banquete, objeto *essa análise, es*á as*ociada * superação dos d*a* *margos que a*tecederam à fartura d* mesa descrita. Essa celebração pode ser compreen*i*a como superaçã* pois, quando d* *h*ga*a às t**ras inóspitas da serr* ga*cha, esses imigrantes vive*ciar*m muitos des*fios, en*r* eles, a alimentação. A alimenta*ão *e inscreve de*tr* d* uma série *e ciclos temp**ais so**a*mente determ*nados, como o ciclo de vida *o* hom*ns, com **a alimentação de lactente, de cr*anç*, de ado*esce*te, de a**l*o e de idoso. A cada etapa correspondem e*t*los alime*tares, *o*preende*d* alguns al*mentos auto*izados, ou*ros proib*dos, os ritmos das refe*çõe*, ** *tatus do* comensais, os *apé*s, a* condicionantes, as ob*igaçõ** e os direitos. Representam te*pos que vão se alternando **clicam*nte, var**n*o *onforme o rit*o das est*ções e *o* tr*b*lhos no c**po pelos agricu*to*es, o da mi*ração das caças pelos caçado*es, a *ltern*n*ia *e períodos de abu*d*ncia e de pe*úria - sejam el** natura*s, épocas ** *olheita e de p*d*, *u de**did*s pelos homens, de *er*odos festiv*s onde todos os *limentos são autorizados * *e perío*o* de j*ju* parcial ou total. Enfim, um rit*o cotidiano, com suas alternânci*s *e é tempos *e trabalho * de repouso, as d*ferenças da* *efeições, as com*das fora das refe*çõ*s e su* implantação horária respect*v* (POULAIN; NEIRINCK citados por POULIAN; *ROENÇ*, 2003, p.123). Assi*, c**stata-se a rele*ân*ia atr**u*da à alime*tação, em *ma época em *ue supe**r a f*m* e dominar a na*ure*a c*ndicionou os imigr**tes italianos, faz*ndo com que até ho*e a gastronom*a regio*al *eja reconhe*ida, v*a de regra, pela fa*tu*a, mais do que pela diversidad* gastro*ômica. 2.2 O Imaginário como potência simbólic* as*oc*ado à Alimentação Gilbert Durand (2001) afir*a que o imag*nário, o* *useu Imaginário, é o lugar "d* to*as as imagens p*s*adas, *os*íveis, pro*uzidas * a serem produ*i*as" (DURAND, **01, p. 6). *ele circul*m todas as i*a*ens qu* atu*m como dinamizad*ras da vida. *e acordo com * aut*r, museu imaginário impõe-se como uma educ*ção *stética, a qual diz respeito aos o simbolismo* que tocam *s *essoas e *e*mitem um* ordem por mei* dos sentid** (DURAD, 20*2, *. 430). N*ssa perspect*va Silva (2006, *.12) enfat*za que "o imaginário é uma dis*orção involuntár*a do *iv*do que se cristaliza *omo mar*a i*di*id*al ou grupal". Alimentar-se é um *i*o s*mbólico. * mito da busca pela terr* pro*eti*a *stá imbricad* na *deia de f*rtura a**mentar. A *e*crição da co*anha como lugar mític* *em carregad* pelas Rev. FSA, T*resin* PI, v. *5, n. 1, art. 4, p. 65-82, jan./fev. 2018 *w*4.fsan*t.co*.br/revista H. J. P. *ora*s, L. L. Bressan 7* image** da m*s* **rta, d* beb*d* em ab*ndância, da celebr*ção da *ida pelo alimento que sustenta e dá vigor. Ess* terr* da *ocanha mítica e* alimen*ação ab*nda*te *onstitui a figuraçã* do sen*ido, rito simbólico, sentido figurado "qu* é o verdadeiro sentido, o sentid* mais **evado enquanto verdade demiúr*ica" (CARVALHO, 1998, p.56). Ricouer (citado por CARVALHO, 1*98, p.67) comenta *obre a *erm*nêut**a d* sím**lo seu du*lo sentid*. e Para o pensador: O símbolo dá que pensar; esta sentença que *e encanta diz **as co*sas: o símbolo d*; eu não ponho o sentido, é ele que dá o *entid*, *as aquilo q*e ele *á, é "que **nsar", *e que pensar. A parti* da doação, a po*ição. A sentença sugere, portan**, *o mesmo temp*, *ue tudo está dito em enigma *, c*ntudo, *ue é semp*e p*eciso tudo começar e rec*meçar na dimensão do pensar. É esta *rticulaç*o do p**samento dado a e*e próprio no reino dos símbolos e *o pensamen*o ponente e pensant*, que eu queria su*pr**nder e compree*der (RICOEUR, 1990, p. 283). *oncor*ando *om Ric*uer (1990) o símbolo do ato *a *limentação expressa * articula o pensamento mítico *ar* além do sent*do deno*ativo do signo. Torna-*e p**ência de e*pr*ssão do bem-*star e *o encantamento prazeroso *o *ac*ar a fo*e, e*tá também si*bólica. E esse simb**ism* t*m uma estre*ta l*gação com os *egimes de imagem prop*sto *or Durand (201*). Para o *s*udioso francês, as ima*ens *e projetam em dois grandes reg*mes: o *iu*no e o not*rno. O primei*o é marcado pel*s a*tít*ses, pelo se*ti*o *eroi*o de vencer a morte. Nesse estu*o, o *ana*os é a *o*e com qu*m o imigrant* degladia*á para ve*c*r. o regim* *oturno, em que s* verifica uma tendê*cia progre*siv* *ara a eufemização dos ter*ores bru**is e morta*s (*UR*ND, 2012, *. 1*4), se*á dividido pelo *ntropólogo francês em dois grupos de s*mbo*os: o primeiro, denomina** *egi*e not*rno místico, car*c*er*zado essencialmente pelos símbolos da inver*ã* e da intimidade; o segundo, de*ominado reg*me no*urn* sintético, será represen*ado po* símb*los cícl*cos e p*r símbolos *rog**ssis*as. Assi*, o *eg*m* notur*o mís*ico c*racteriza-se por um esf**ço de e*f*mização dos m*les que a*solam o home* consiste e* mergulhar e numa intimida*e subst*nci*l e em ins*alar-s* pe*a negação *o negativo numa *uietude cósmica de va*ores *nverti*os, com os terror*s exorcizados pelo eufem*smo (DUR**D, 201*, p. 28*). O regime noturno **ntético, pela ambição fundamen*al de d*m*nar o devir pela repetiç** dos instante* temporais, vencer diretamente Cronos já nã* com figura* * em um simbolis*o e**ático, mas operan*o sobre a própr*a *ub*tâ**ia *o tem*o, do*est*cando o *evir (**RAND, 2012, *. 2*1). R*v. FSA, Teresina, *. 15, *. 1, ar*. 4, p. 65-82, jan./fe*. 2018 www4.fsanet.com.br/re*ista Tradiç*o e Anc*stralidade * M*sa: Símb*los da Imigração I*a*iana em uma Narrativ* L*terári* 73 Ao pens*rmos na ce*a des**ita *a n*rra*i**, os dois regimes pr*postos por Durand (*012) estão ali*hados n* narrativa, **is o herói que sai à caça par* busc*r o su*tento *a fam*lia é o mesmo que, em i*t*midade da cei* *arta, goza d* sa*iedade e domi*a o d*v*r, po**o-se a v*slumbrar o progresso. 3 ANÁLISES * DISCUSSÕES 3.* Algum*s *o*as sobre a liter*tur* *ro*uzida por imigrantes A produção *iterária sobre i*igrantes no Bra**l até m*ados do sécu*o X* se deu a partir *e dis*ursos r*latados por outr*m. I*úmeras person*gens **m os *ais dive*sos sotaq*es se **zer*m presentes na p*odução literá**a de autore* brasileiros que escreveram s*bre a p*es*nça d* grupos étn*cos *ue faziam pa*te da formaç*o do povo brasilei*o. Da segu*da met*de ** século XX em dian*e, s**ge um *lemento novo q** se relaciona *om a literatura sobre *migra*tes no Br*sil. Os desce*dentes de*ses imigr*ntes começa* a pro*uz*r uma *icção q*e te* *omo *e*tr* narrativ* o gr*po em que se si*uam, em cujas raízes se erguem como galhos *a fro*dosa árvore das correntes imi*rat***as. Em seus est*dos sobre a temática, Capela assim se manifesta: A recuperaçã* do passado d*s imi*rant*s *or *arte de descen*entes cons*itui, a**ás, uma *endên*ia ai*da presente. Para os italia*os, é o *ue atest*, *or exemplo, a ficção de *osé C*emente Poz*na*o, com O Quatrilho (1985) * A cocanha (200*), que *rocu*a preservar a memó*i* da imigração italian* para * Brasil. O est*anhamento, en**o, tem menos por objeto os re**m-ch*gados que o *mbi*nte e a po*ulação do p*ís que os receb*. T*ata-se d* um* tentativa de r*sga*ar, *e*o v*és de perso*agens de i*ig*ant*s, difi*ul*a*es que tiveram de enfrentar antes, dur*nt* * apó* a *ealização da tra*essia. A li*eratur* é, antes de tudo, um fato de linguagem. A represe*tação de estrangei*os na prosa de ficç*o coloca, po* i*so, o *r*blema da pertin**cia *u d* dem*nda de "traduz*r", pr*cisame**e no dom**i* da linguagem, diferenças culturais (CAPELA, 2001, p.152). **lar sobre u*a lit*ratura *e imigrantes i*alianos é *ov*r-se ** um terre*o pouco c**hecido ainda. A grande massa d* imigrantes itali*nos que veio para a re*ião *u* tinha po*ca cultura letrada e poucos ti**r*m cont*to co* * literatu*a esc*ita oficial do p*** de *rigem. P*ra * Novo M*ndo veio, prior*tari**ente, uma *iteratura ora*. "Por**nto, *ã* vei* com o imigrante italiano a tradiç*o li*er*ri* escrit*, * s**i*m necessários al*uns passos cultu*a** *a*a *ue a lit*ratura *scrita, com cunho do *migrante, vie*se * ser produzida aqui" (POZENATO, 197*, p.226). Rev. FSA, Teresin* PI, v. 15, n. 1, art. 4, p. 6*-8*, ja*./fev. 2018 www4.*sanet.com.br/revis*a H. J. P. Moraes, *. L. Bres*an 74 A nar**tiva A cocanha, *u*lica*a em *000, é de aut**i* de José Clem*nte Pozena*o, es*r*to* rio-grand**se, nasc*do em São *ra*cisco de Paul*, região s*rra*a do *io Grand* do Sul. Esse escritor nota*ilizou-se c*m romance "O qu*tr*lho" (198*), adaptado para * o cine*a, em fi*me *ir*gido p*r Fábio B**reto e in*icado para o *scar em 1996, na categori* de *elhor fi*me est*angei*o. A n*rrativa, q*e co*ta a saga do* imi*rant*s *tal*a**s q*e des*r**ara* o interio* *o R*o Grande do Sul, é dese*v*lvida em **ezent*s e set**ta e uma páginas, divi*idas em qua*ro partes. A *rimeira, consti*uíd* *or quinze capítulos, relata o moment* em **e as famílias sa*m de Ve*ona, de tr*m, em direção * Gênova para começar a lon** v*agem, em no*embro de 1883. *urante o percu*so, por *eio de pensamentos e *embran*a* das *ersonagens principais, * lei*or co*hece os m*tivo* da p*rtid* e a vida de cada um. *pós, as persona*ens e*barcam no nav*o- *a te*ceira classe - *um* ao Brasil, quand* passa* *o* *númeras dificulda*es, como acomodaçõ*s pre*ária*, doenças, pouca água, com "*osto *o ferro" dos canos e, incl*sive, risco de mor*e. * segunda pa*te - c*m vint* e qu*tro capí*ulos - inic*a quando os imigra*tes partem, por terra, de P*rto A*egre até Campo do* Bugres. A terceira ap*esenta deze*s*te capí*ulos, *ontando *speci*lmente sofri*entos e *ificuld*des enfrentadas p*los c*lonos, *omo a epidemia de *aríola. A quart* *arte, que encerra a *arrativa, descreve a pr*meir* lev* de imigrantes como pioneira na formação de uma família com laços b*m const*uídos e r*p*ssa o legado de continua* de*bravan*o o país *a coca*h* aos fil**s nascidos em *olo brasi*e*ro. Caber* a eles continu*r o trabalho iniciado p**os *io*eiros. Este est**o é apenas um re*orte so*re u* ritual *e alimentação descrito p*r Po*enat* e *ue il*s*ra, *oeticamente, um *omento privilegiado de f**tu*a no proce*so imi*rat*rio dos italia*os. A pa*tir da d*scr*ção d* uma refeiçã* co*etiva de t*do* os morad*res, proc*ra-se i*ent*ficar imagi*ári* que s* c*nstruiu a partir desta celebra*ão festiva preservad* o na *emória da imig*ação italiana no sul do Bra*il. *rata-se de uma tentati*a de resgatar, pelo v*és da celebração d* m*sa farta, difi*ul*ades que tive*am *e enfrentar a*t*s, d*ran*e * *pó* a reali*ação *a travessia. 3.2 A mitocrítica e * mi*análise c*mo *ategorias de análi** *a **oria *o *maginá*io *abe à H*rmen*utica Simból**a, r*mo ** Fi*osofia, a inte*pret*çã* de tex*os, buscando compree*der e inte*pretar o senti*o de uma obra. Tal qu*l Ferrei*a-Sa*tos * Almeida (2012, p. 120), estamos pensando pa*a este e outros estudos que temos *esen*o*vido Rev. FSA, *eresin*, v. 15, n. 1, *rt. 4, p. *5-82, jan./fev. **18 www4.fsanet.com.br/r*vista Tradiçã* e Ancest*alidade à Mesa: Símb*los da Imigração Italiana em *ma Narra*i*a *iterária 7* na M*tohe*menêutica: b*sca inter*r*tativa, de cunha an*ropológico, a*ravés *e símbolos e ima*ens ex*re*s*s n*s ob**s ** cultura e das ar*es, sobre o senti*o da exi*tência h*m**a. Reforçam os autores que "* a própria descrição de u*a dete*mi*ada estrutura de sensibilidade e de estados da alma que a e*p*cie human* des*nvo*ve e su* r*la*ão cons*go mesma, com o Outro e com * mun*o, des** que, descen*o das *rvo*es, c*meçou a fazer d* mundo um mundo huma*o". * continuam: "daí a importânci* também das m*táforas, *o** meta-p*oros, *m além sentido que i*preg** a imagem * **plode a sua s*mân*ica. Diferen*e, portanto, das conc*pções usuais de \mito\ como *lgo ilusório, fanta*i*so, falacioso" (FERREIRA- SA*TOS; ALMEIDA, 201*, p. 121). *s es*âncias *itohermenêuti*as apresentadas pelos pes**i*a*o*es do imagin*rio e* **us es*udos, são *s que se*uem: re*sonâ*cia (m*m*nto *ré-c*mpreensivo dos símbolos, dada ress**ância em nossa estrutura ** sensibilidade), estesia (arranjo estético narrativo das im*g*ns), d*acronia (fio cronológico da na*rativa pela *equê*cia de *ma**ns), etim*logia (ar*anj* sem*ntico nas n*me*ções) e núcleos **têmicos e arque*ipais (redundâncias e recorrênc*as da narr*tiva). Esta última equiv*le à m*t***logia, mitanálise e *itocrít*ca, de Dur*nd. Para fi*s m*todológ*cos, s*guiremos as est*ncias acima como ambien*ação d*/com a na*ra*iv* para, e*peci*icame*te, debruçarmo-no* na última, a *u*l nomearemos mitan**ise e mitocrítica, como técnicas de in**rpr*tação simb*li**. As redundânc*as e rec**rências serão percebidas, *s**m como as i*agens que *eforçam em *u*s estruturas de sensibilidade, dividi*as nos dois regimes de ima*ens j* mencion***s. A li*eratura é fonte desta expres*ão. Mat*rialização do devaneio poético, "lig*ção profunda entre mi*o, símbol* (*etáfora) e vida" (ALMEI*A, 2011, p. 31). D* ma*eira geral, a mitocrítica está ligada a* t**to cultu*al e a mi*a**lis*, a partir da*uela, *elaciona as recorrências mí*icas ao c*nt**to *ocioc*ltural, estudando o mito de um* sociedade ** de*erminad* tempo e espaço. *s regi*tr*s literár*o* estão anc*r*d*s em narrat*vas míticas, "perfazem u* *amp* significativo do amplo *ep*sitório de **a*ens **r*vés d* qua* a Hist*r*a se constrói, demarca e *ega, geraçã* apó* g*ração, a ri*ueza *a experiênc*a humana" (U*EDA, 2011, p. 39). *ss*m, traremos a mitocrítica da *ena esco**ida para análi*e, *specificamente pela s*a temáti** da alimentação *omo ato simbólico. E, ainda, discutir*mos a ambi*ncia h**tórico-c*ltural *o gru*o ** imigrantes ital*anos, * que *ara*teriza a mit*n*l*se. Rev. FSA, Teresina *I, v. 15, n. *, *r*. 4, p. 65-82, jan./fev. 2018 www4.fsanet.com.br/revista H. J. P. Mo*aes, L. L. Bres*an 7* 3.3 Um jantar à it*l*ana: * *el*b*ação d* conquista A cena de A cocan*a selecionada para a análise de*creve * chegada d* P**c*a e * e*s*jo de preparar uma grand* *est*. Um ano *á se pass*ra desde qu* foram m*rar em *uas proprieda*es. Assim, "espingardas no o*bro, bols*s abas*ecidas de pólvora *humbo, os e hom*ns sae* d* bodeg* do M*** para grande ca*ada" (POZENAT*, 2000, p. 252-2*3). a Inicia-se, aqui, o ri*ual de pr*paração *a ceia pascal. O her*i busca desbravar a mata, *ara*terizando o r*gime *iurno das *ma*en* "es*ruturado pela dominante po*tural, c*ncernente * tecnolo*ia das armas, * sociologia *o soberano mago e guerr*iro, aos rituais *e ele*ação e da pu*ificação". Sen*o assi*, o reg*me diurno c**porta *odos os sím*olos da a*ce**ão, aque*es que no* elevam e q*e nos direciona* *o alto (TURCHI, 2003, p.2*). * imigrante empunha arma como dom*nado* na tent*tiva de m*terial*za* *eu pod*r sobre o a Cro*o*, de*af**ndo o medo, a morte, o des*on*ecido qu* se apres*nta na mat* cerrada q*e vai desbravar, para empreender a caça aos *assarin**s que se alimentam *m s*as lavoura* de m i l ho. * caça fa*ta na*uele momento é a *xpr**são d* mes* po*ta, de **lebração da vida, conf**me comprovam as palavr*s de Pozen*to (20**, p.253): "*odos tr**em a* sacolas cheias, vai ser uma **ssarinhada memo*áve*, de c*nta* para os netos". Essas imagens qu e cons*gram o suce**o da caçada, m*mento **e a*te***e a passari*had* aparece, na narrati*a, *om todas as antítese*, *róp*ias d* *egime *iurno d* i*agem, pois as personagens pr**isa* enfrentar o medo para obter sucess* * na *is*ão, o qu* nos r*p*rt* * Pitta (200*) ao *ita* Duran*, qu*ndo diz qu* h* apena* três *aídas para sob**viver, qua*s sejam: emp*nhar as arm*s, destruir o m*nstro (a *orte) e criar um *os*o ch*io de harmonia em que a m*rte não o inv**a, compreenden** * tempo como um ciclo *o qual mo*rer é renascer. ** narrativ* d* P*z*nato, é p*e*iso que *s *migra*tes i*alianos deixem mo*rer * *edo pa*a que garanta* a passarinhada, símbolo que re*ete à ideia de sobrevivê*ci* ligada à alimentaçã* e à celeb**ção d* *itória. Venci*a a jornad* diu*na, cheg* à noite, traze*do c*m ela ** f*rças har*oni*ante* e unificadora* (regime noturno das imagens) e*pre*sas n*ssa des*rição de Pozena*o: À noite, o *heiro *a passarin*ada assand* *os *s*etos, *emperada *o* sál*ia e f*tias de t*u*inho, p*nga*do gordura nas fatias d*uradas d* polenta, deixa todo* inebriad*s. *o país da cocanha, **nta-*e, as *ves caem já *ssa*as do c*u. Estas cae m d o cé*, mas cabe a eles assá-las, sentind* o aroma que entra p*las narinas e invade o corpo até a profundeza da al*a. É ma*or que o *a cocanha ess* pr*zer de Rev. FSA, Teres*na, v. 15, *. 1, art. 4, p. 65-82, jan./fev. 201* *ww4.f*anet.com.br/revi*ta Tradição e A*c*strali*ade à Mesa: Símbolo* da I*igração Italiana *m uma Na*rativa Literária 77 estarem prepa*ando o banque** *om suas pr*pri*s mãos, tendo * sensação da fartura *e* *imites (*OZENA**, 2000, p.25*). As riquez*s de i**gen* presente* no **echo acima comprovam *s for*as que harmonizam e un*ficam os *migran*es. A *ocanha finalmente s* *ev*la em forma de banquete em que "a queda heroica se transforma em des*ida e o abismo e* receptáculo. Assim, asc*nder ao pod*r não é o objetiv* mai*r e *im descer à p*ocura do conhecimento. O regime noturno da imag*m estará constantemente sob o sign* *a conversão e d* *ufe**sm*" (DURAND, *012, p.197). Ao lado d*s d*as gr**de* configura*ões simb**icas *o im*g*n*rio *pr*senta*as *a *escri*ão da ceia em Pozenato (2000), o regim* diurno, com a *presen*ação do imig*ante como *erói (provedor de alimentos n* co*ônia), e o regime *otu*no q*e *os**a o momen*o d* ceia, harm*nizand* os contr*stes vividos *ela proc*ra do ali*e*to (à caça aos p*ssaros), um grupo *e outr** símbolos m*nifest*-se nas estruturas sintéti*a* q*e també* integram * regime noturno das **ag*ns. Ess*s s*m*olos se relacion*m c*m o rit**l que *nv*lve a pr*paração da c*ia, a**ntando para a inti*idade que ant*cede *o gr**de gozo de sa*iar a fom*. O* ho*ens riem * fa*a* alto [...] as *ulheres *exem as *ane*as de po*enta [...] Mas são tantas as mulheres qu* a ma*oria delas *ode f*ca* s*ntada e *a*or*ar o p*óprio *ansaço [...] As crianças de berço dormem dentro de casa. As outras e*t*o ali, r*deando o* preparativ*s, de olho* embevecidos, mudas, cheias de d**ejo (POZ*NATO, 20*0, p.255). Pela ***c*ição ac*ma, percebem*s o din*mismo interio* que move a *arrativa. Busca- se har*onizar a a*t*nomia subjacente ao que j* passou, no c*so, os *iscos na caçada e o devir. O *ontr*ste *nt*e as agruras da conquista do alimento para * ceia e o t**un*o da conquista, en*uanto * alimento é *repar*d*. Esta harmonização *onfi*ura-se nu*a ene*gia *óvel em que ada**açã* e a*sim*lação *e reú*em *e fo*ma ha*moniosa em que o contr**te do dualismo diurno * subst*tuíd* pela media**o dos con*rár*o*. *nteg*ando os sí*b*l** que se *efer** à in*imi*ade, componentes *ísticos d*randia*o*, temos o* ali*entos e s*b*tâncias. A su**tância é a *n*im*dad* da matéria e "toda alimentaçã* é *ra*s-s*bstan*iação", po*s o a*imento é transfo*mado em e*ergia ao *odificar sua *ssên*ia (*ITTA, 2005). Aqui, ta*bém são apresenta**s os *limentos arquetípicos com* o l**te, re*acionado ao afeto signif*cat**o da amamentação; o *el, às bebidas sag*adas; o sal. Este* component*s míst*cos do **aginário *ev. FSA, Teresina *I, v. 1*, n. 1, art. 4, p. 6*-82, j**./fev. **18 www4.fsanet.com.*r/revis*a H. J. *. Moraes, L. *. Bress*n *8 ameni*** * angústia exis*encial e * mort*, n*gando s**s exis*ências e *ossibilitando vislumbrar um universo ha*monios* no a*on**e*o e no íntimo de si me*m* e das coisas. Finalmente a ceia é servida, conforme relata Pozenato (2000, *.255): C*e*a *nfim a h**a *e sentar*m t*do* à *o*prida mesa *eita de tábuas, apoiadas em cavaletes. Os olhares c*nverge* n*m silêncio religioso pa*a a polenta fu*ega**e * para as tra*ess*s repletas de **urad*s *assarinhos. É tão **a*d* a com*ção que, se alguém n*o diss*r uma brincad*ira *ara prov*car o ri*o, as lágrim*s vão co*eçar a co*rer. É Bépi quem diz, vamos comer *ogo, a*tes que venha* o* *ugios. * comoção diante d* mesa farta, lu*a incessante dos primeir*s im*grantes que cheg*ram *er*a gaúcha, *onforme a narra*iva aqui a*al*sad*, empresta *m s*rr*so novo à à face de Crono*, abr*ndo, p*lo regi*e *oturno das imagens, as port*s da espe*an*a de u* d*vir venturoso c*mo outror* sonharam ao de*xar a *tália. E o rito de pass*gem da miséria * bonança, ain*a que mo*entânea, continu*. A fartu*a, ou o *esejo de *ua *anut*nção, é claro: "a* **lheres mexe* as pan*las de p*lenta, e não *ode faltar polenta, e *ntes *obra* *o que falt*r" (POZ*NATO, 2000, p. 255). Ainda per*ebe*os esta pr*t*ca no i*agi*á*io *talia*o ligado à alimen*a*ão. Enfim, vemos no t*xto o m*mento da reverência, da c*mun*ão: "chega, e*fim, a h*ra de se*tarem todo* à comprid* mesa feit* de tábuas, apo*adas em cavaletes. Os olhare* converg*m n*m silêncio re*igioso para po*enta fumegante e a para as travessas repletas de *ourados passarinhos. É tão *rande a comoção (POZENATO, *000, p. 255). Percebemos um ri*mo da alimenta*ã*: da fome à apr*c**ção. Do biológico ao si*bólico. E *s símbolos do pra*e* são **ocados n* nar*ativa, re*acionando o moment* da ceia e a pot*nc*a da **agi*a*ã*. E, ** *abor da tradi**o, colo*a*-se no paraíso p*las via* do im*ginário: As *ã*s a**n*am sobre o* pratos. Os *a*s*rinh*s são *ão *em ass*dos que *s den**s po*em moer até mesmo o* *s*os, * *omeçar pela *ab*ça, s** pe**er nada de nada. P*ra mais prove*t* de *anta *el*cia, *ambem os dedos, j*ntam *a pole*t* a *or*ura que esco*re, e ninguém diz uma palavra. S* dep*is de passada a *ofre*uidão é que percebem como estão e* silên*io. Sacia*a a *ome mais urgente, podem *nt*o em ritmo mais lento, *xplorar a fun*o os sabores e entornar *s copos *e *inho, vendo as estrel*s do céu, quem s*b* imag*nando-se no par*íso (POZ**ATO, 2*00, *. 255). Diant* da *eleb*a*ão d* me*a farta, o silênc*o, * in**midade e**res** o mergulho na p*ofundid*de, * *rimazi* dos se*tidos *aciados na sofreguidão com que comeram nessa Rev. FSA, Teresi*a, v. *5, n. 1, ***. 4, p. 65-8*, jan./fev. 2018 www4.fs*n**.com.b*/r*v*sta Tra*içã* e Ancest*alidade à Mesa: Símbolos d* I*i*ra*ão Italian* em uma Narrativa Lite**ria *9 *rime*ra et*pa da re*eição *ai aos poucos ceder espaço *o *eleite, * degu*tação do sa*or, d* aco*do c*m a narrativa *e P*zen*to (2000, p. 2*5-256): Só *ep*is de passada a *ome mais urgent*, podem então, e* *itmo mais len*o, explorar a fundo os sabores e entornar os copos de v**ho, vendo as estrelas do céu, q*em sa*e i*aginando-*e no paraíso. Dep*is do vinho, a *onversa se to*na solta, sem o freio das conve*ções. Os o*hare* se fazem ternos, são esq*ecidas eventu**s desaven*as e **quecidos t**os os dissabores de *m ano de luta * trab*lho. D*pois *e saciados, no *s*a*o em *ue p*rtilharam a al*menta*ão, Pozenat* (2000) descrev* as cant*rias italianas, *elebr**do a vida e a mesa farta. A noi** co*ria man*a, o *spaço *a mesa ganha contorno* míticos: lugar antes da p*rti*ha do *liment*, agora é cenário para os jo*os *e *o*a, tão recorrentes entre os imigrant*s ita*i*nos. Os ho*ens s* divertem e as mulher*s segre*am intimidades, enqua*t* fa**m a limpe*a dos pratos e *arfos, numa cumpl**idade ímpar de que* *e* saciada a necessidade de comer. Nesse m*mento, rein*va a harmonia, q*ase um deleite. N*tu*alidade do *ertenci*ento: "s*m que nin*u** con*ide, alguém entoa u* can*o" (POZENATO, 2000, *. *56). Momento de comunhão, ain*a qu* **o bem d*s*rita a força do gest*al ita*iano. N*o era difícil imaginar que a cocanha finalmente se revelara a eles. E, dep**s de toda empolgaç*o: *nfim, mais f*rte que a alegri*, o c*nsa*o t*ma conta de t*dos. As pál*ebras pes*m, os bocejo* são i*controláveis. C*da qual arrebanha os seus filhos e toma o rum* de *ua c*sa. Archotes aceso* esp**ham-*e em todas as di*eçõe*, pelas picadas, p*r entr* a escuridão das árvores. **s no r*sto de *odos, das c*ianç*s, das mu*heres, dos homens, junto a* *raves*eiro, continua o sorr*so, pres* ali c*mo five*a. Assim dormem, e quem os vê dormind* dirá que continuam a fe*ta d*ntro *os sonhos (P*ZENAT*, 2000, p. 257). E o sonho ama*heceria também, m** por ***a, a quietude do repouso depois da fart* ceia os deixar* saciados d* corp* e espírito. Um novo p*rvir est*va à espera *e*ses *erói* e heroínas, desafi*nd*-os na f*scinante aventura hu*ana de c*nstru*r, c*m suor * teimosia, a Méri*a, *erra d* fartura *e bona*ça, a terra prom*tida. Rev. **A, Te*esina PI, v. 15, n. 1, art. 4, p. 6*-82, jan./fev. 2018 ww*4.fsanet.c**.br/re*ista H. J. *. *ora*s, L. L. *ressan 80 4 **NSIDER*ÇÕES FIN**S Nest* texto, **ocuramos *efletir sobr* as manife*taçõ** do imaginár*o, *o*o par*e in*egrante de uma cult*ra, no ritual que en*olve uma refeiç*o, desde sua preparação até a degustação, obse*v*ndo que o processo hist*r*co do Brasil, em sua fase de ocupação te*rito*i**, tro*x* a* ce*ár*o b*asileiro uma profusã* d* et*ias. M*itas são as contribuições dessas etni*s à *astronomia que vão desde os portug*eses, afr**anos, holande**s, árabes, it*l*anos. To*os estes po*os q*e habitaram/*abitam r*giõe* *o nosso paí* e, com s*us saber*s típ*co*, cont*ibuí*am para a ex*stência ** uma ga*tronomia ím*ar de u* g*upo ou comunidade, cr*an*o uma es*rutur* sociocultur*l *rópria de onde se **ta*e*eceram. *ar*i*os da ref*rência simbólica, já d* outros estudos **e *imo* *e*liz*ndo, de *ue os im**rantes italianos se apr*sentam, nas na*ra*ivas literárias, ligados a* modelo mí*ic* desbravado*. Aq*ele *ue, em bu*ca da c*canha, tem que produzi-*a, po*s em *erras i*óspi*as, longe do* deva**ios qu* os trou*eram, o *mbie*t* era desaf*ad*r. A labu*a pela s*brevivência estava sempre permead* p*lo* *í*bolos *ue refo*çavam est* imaginário do imigrante e, a gastronomi*, potencial s*m*ó*ico *e pertenc*mento. De**a forma, as escolhas alimentare* passam a s*r p*rte de um s*stema simbólico m*is *b*an*ente; e a gast*on**i* passou a ser con*iderada u* patrimôn*o intangível, pela s*m*ologia q** o al*mento c*mpree*de, *o* *er um* fonte de identificação; p**tan*o, expressão de um col*t*vo *ue se harm*niza em tor*o *a ritualística do alimen*o. Assim, *s saberes e os sabores de uma passar*nhada * toda a criatividade na f*r*a de *reparar a iguar*a deixam transpar*cer o imag*nário. N* *ena descrit* na na*ra*iva, o hábito e a t*adição de um grupo q*e *abore*a uma ceia e sabe apreciá-*a de forma si*gular evoca uma c*l*u*a e imagi**rio veicula*os pela gastronomia. S*ntar-se ao red*r da *esa, con*empland* a prepara*ão d* ali*e*to, chei* de *radição, r*força os laço* de p*rtenciment* e a*cestral*d*de. *a mesa de tá*uas apoiad*s *m cavaletes, uma série de s*nsaçõ*s co*part*lhadas. O vínculo comem**a*o com vinho e polenta. *e*. FS*, Te*esina, v. 15, n. 1, art. 4, p. 65-*2, ja*./fev. 2018 www4.fsanet.com.b*/r*vista Tradição * A*cestr*lidade à Mesa: Símbolos da Imigração I*aliana *m um* Narrativa Literária 8* *E**RÊ*CIAS ABEL, B. Mircea Elia** e o mit*. Revi*ta Kalí*pe. Sã* Paul*, ano 1, *.1, 2005. ALM*IDA, R. Mitocrít*ca e mitanálise: no campo da *e*menêutica simbóli*a. In GOMES, Eunice Sim*es Lins (*rg). Em b*sca d* mi*o: a mitoc*ít*c* como métod* de *n*estigaçã* d* i*aginário. João Pessoa: Editora *niver**tária da *FPB, 2011. CAPELA, C. E. *. *t*lianos na **c*ão *rasileira: Modernidad* em *roc*sso. Fragment*s, **m*ro 21, p. 147/16* *lorian*p*lis/ jul - dez/ 2001. 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Como Referenciar este Artig*, conforme A*NT: MORAE*, *. J. P; L. L. BRESSA*, Tra*ição e *ncest*alidade à Mesa: Símbolos da *migraç*o I*aliana em uma Narra*iva Literária. Re*. FSA, Teresina, v.15, n.1, art. 4, p. *5-82, jan./fev. 2018. Contribuiçã* d*s Autores H. J. P. Morae* L. *. Br*ssan 1) *oncepção e planejamento. * X 2) análise e interp*e*ação *o* dados. X X 3) elab*ração do *ascunh* ou na r*v*são crítica do *on*e*do. X X *) participação n* apr*vação da ver*ão fina* d* manusc*it*. X X *ev. FSA, Tere*i*a, v. 15, n. *, a*t. *, p. 65-8*, jan./f*v. 2018 *ww4.f*anet.com.br/revi*ta

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