www4.fsane*.com.br/revista Rev. FSA, Teresin*, v. 15, n. 1, art. 1*, p. 203-217, jan./fev. 2018 I*S* I**resso: 1806-6356 IS*N *le*rônico: 2317-298* http://dx.do*.org/10.*2819/2018.15.1.12 Casa Anísio Teixeira: hist*ria, mem*ria e encantos Casa Anísio Teixe*r*: history, m*mo*y and c**rms Ricardo Ol**eira de Frei*as Doutor em *omun*c*ção pela U*iversidade F**eral *o Rio de Ja*eir* Profe*s*r da Uni*ersidade do Estado d* Ba*ia E-mail: ricofr**@*mail.com T*iago Martins Pr*do Doutor *m Letras pel* Universidade Fe*er*l da Bahia Profe*sor da Uni*er*idade do **tado da *ah*a E-mail: mino*i**@yahoo.co*.br Denise Marque* C*rneiro Ne*es Mestrand* em Estudo de Lingu*gen* pela Univers*dad* do *stad* da Bahia P*of*s*ora da Uni*ers*dade do Estado *a Bahia E-mail: denisemcneves20*4@gmail.com Ende*e*o: *i*ar*o Oli*eir* *e Freitas Editor *i*ntíf*co: Tonny Ke*ley de Al**c*r Rodrigues Rua Ismael d* Barro*, 1*6, ap. 2403, R** V*rme*ho, Salva*or-Bahia, Br**il, CEP: 41*50-460 A*tigo rece*ido e* 27/09/2017. *ltima ve*são re*ebida em 1*/*0/2017. Apr*vado em 19/10/20*7. En*e*eço: Thiago Martins P*a*o Rua Jo*o Durva*, *23, Edf. *io Real, ap 1104, Pernam*ués, Sa**ador-Bahia, Brasil, CEP: 411*0-075 End*reço: Denise Marques Carn*iro Ne*e* Rua Artes*o João da P*ata, *5*, ap. 9*1-A, Itaigara, S*lvador-Bahia, Brasil, C*P: 41815-21* Ava*i*do pel* sistema Triple Revi*w: Desk Revi*w a) **lo Edit*r-Chef*; e b) Dou*l* Blin* Review (avaliação *ega *or dois avaliad*res da área). Revis*o: **am*tical, Nor*ativa e de Fo*mat*ção
R. O. Freit*s, T. M. Prado, D. *. C. Neves 204 RESUMO Este artig* re*on*ece que as casas fascinam, com* eleme*tos *ue propiciam narrativas e, *om o auxíli* de o*jetos que *s constituem, contextualizam * história * *emória. Considera a a Casa Anís*o **ix*ira, inst**uiç*o l*c**izada no m*nicíp*o de Caet*té-Bahia, com* l*gar de e*cantamento, porque é cons*i*u*da de memóri*s individuais e *o**t*v**. Registra que * Casa vem ressigni*ic*ndo s*u passad* e, princip*lmente, *eu presente, por meio de ações culturai* *onstituídas de *emórias individuais e co*e*ivas. Com* espaço qu* f*m*nta a formação de agentes cult*rais, bem *o*o desenvolvimento d* leitur*, e* uma perspectiva de inclu*ão o *ocial, a Cas* An*sio Teixei*a encanta s*us cola*o*ad**es, v*s*t**tes e o p*bli*o **nef*ciá*i* de su*s açõ*s. Na Casa, a l*i**ra ganh* uma co*cepção **r*ngente de a*ão que amplia a percepção *o sujeito para atuar no presente, re*ortando-se ao passado cultu*al e histórico. Assim, descreve-se a *asa An*sio Teixeira e parte d* sua histó*ia e *emóri*, e*fati*ando-se a importância d** tes*emunhos, ra*tros e evidên*ias que contribuem para transformar e**a instituição em l*gar de encantamento. *as con*iderações finais, *econhece-se que Casa a busca de*envolv*r pr*ticas culturais de lei*ura, o qu* não destoa *as concepç*es do *lust*e educ*dor baiano, além de valo*izar as memórias in*iv*duais e as col*tivas nas suas diver*as atividad*s, evitando cul*uar apenas o pa*sado, apenas a memór** de Anísio Tei*eira. PALAVRA*-CHAVE: Memória. Histór*a. *ncant*m*nto. Casa Anísio Teixe*ra. ABSTRA*T This article rec*gni*e* *hat houses fasc*nate a* narrativ* elemen*s and, with the help of ob*ec*s *hat *onstitut* them, contextual*ze *isto*y and memory. *on*ider *asa Anís*o T*ixeira, an insti**tion loc**ed in the munic*p*lity of Cae*ité-*ah**, as a place of ench*n*ment, because it is made up *f individua* and collecti*e memori*s. It record* th*t th* House *as been re-sig*ifyin* its past, and especi*lly i*s p*ese*t, through cu*tural a*tion* c*nstituted o* i*di*i*ual a*d collect*ve memori*s. As an a*ea that fo*ters the formation of c*ltural age*ts, as wel* as the development of r**ding, in a per*pective *f social inclusion, Casa Anísio Teix*ira enchan*s its c**la*orators, visit*rs and t** *enefi*iary pub*ic of its actions. I* the H*u*e, readi*g *ai*s a c*mpre*e*sive conception of action that b*oadens the sub**ct's perception t* act in the pr*sen*, refer**n* to the cult*ral and hi*torical past. Th*s, C*sa Anísio Teixeira and par* of i*s histo*y and memory *re describ**, emphas*zing t he *mport*nce of the testimonies, traces a*d evid**ces that con*ribut* t* **a*s*orm t*i* insti*ution as a pl*ce o* en**antment. In *he final considerations, it is r*co*ni*ed that the Casa seeks to deve*op cultural *ractices of reading, w*i*h d*es n*t deviate f*om * he c*n**ptions of t he i*l*strious Bahian educ*tor, in addition to va*ui*g *ndivid*al a*d collect**e m*m*ries in the*r *arious activitie*, avo***** worshi*ing only the past, memor* of Anísio Teixeira. Key words: Memory. Hi**ory. Enchan**e*t. Casa A*ísio Tei*ei*a. Re*. F**, Teres*n*, v. 15, n. 1, a**. 12, p. 203-217, *an./fev. 2018 www4.fsane*.com.br/revi**a C*s* Aní*io Teixeira: histó*ia, memóri* e enc*ntos 205 1 IN**ODUÇÃO São f*scinantes a* histórias *ue s* co*t*m a *espeito de resi**n*ias em geral. To*a* *arecem *uard*r, no* espaço* míni**s *u amplos, le**rança* * experiências de pes*oas que *li *iveram e m*tivaram as pres*nças, as vis*tas, esporád*c*s o* não, *e outras *esso*s. Há quem afir** q* * alguma* casas ficam esque*idas, p*rqu* desaparec*ram fi*i*am**te, ou *orque precisam de int*rve*ções da constr*ç*o ci*il, de**do a certo e*tado d* *egra**ção ou ai*d* po*q*e não são mais visita*as, utilizadas po* *u*m lá v*ve*, poi* pa*saram a ser p*op*ie*ade de *utr**. *esmo con*iderando t*is a*versidades ou distanciamentos, elas não são to*alme*te esquecidas. Seja para ates*ar um período vivido, s*ja para enriquecer na*rativas, *inda que poucas, as *as** são tom*d*s como *lement*s que tor*am *e*i* e sig*ificati*as a* e*peri*ncias e narrativ*s a elas relaci*nada*; *epre**n*am o **biente *u* favore*eu diálogos ou nã*; fo*am p*lc* de co*fl*tos e problemas, ou deram abrigo e *con**e*o material, espi*i*ual ou emo**onal; representa* o espaço que *roporcionou o d**envolv*me*t* de pr*ticas c*lt*r*is, habi*idades pessoais e *oletiv**, jeitos ** ser d* estar em ou*r*s espaço*. Uma casa e r*presenta, *ri*cipalmen*e, um espa*o de f*r*a*ão do ser *umano, com f*nali*ades diversas, incluindo prep*ração e revi*or*men*o pa*a outras j*rnada*. Sob o *onto de vista individual, uma casa t*r*a-se valoriza*a e importante po* razõe* * moti*ações diversas: *or t*r uma a**a de porto seguro, p*r se* ambien** de experiên*ias marcan*es, singulares, *o* representa* mod*r**dade ou u*a fase significat*va do passa*o, reu*in*o go*tos, rotinas e *ost**es j* superados ou nã*. Por mai* que s* queir* e **ja esforço, não é possível fazer o tempo retr*ceder e tr*zer de vo*ta se*timentos, *m*çõe*, vivência* tais qu*is *erma**cem *as memórias *e cad* um. **ste ar*i*o, esses as*ec*os e outros relacionados serão abordados com* *l*mentos co*s*itut*vos da história e da *emória de um l*gar. D* c*rta **r*a, a memória indi**du*l caracte**z*-se *e*as remin*scê*c*as v*lunt*rias inv*luntá*ias que afloram natur*lmente e ou por *stímulo, *obretudo qua*do se depa*a com obj*tos, móv**s, fotos ou até me*mo a *rópria cas* sendo explorada *u visitada. A*ui se c**sidera a memória individual como lembranças aflorada* *ob o p*nto *e vi*ta da pessoa, lembranças rela*ionad*s à personalidade ou à vida pessoal d* ind*ví*uo (H*LBW*CHS, 2003, *. 71). Rev. FSA, Teresi** PI, v. 1*, *. *, art. 12, p. *03-217, jan./fev. **18 *ww4.fsanet.c*m.br/revista *. O. Freitas, T. M. Pra*o, D. M. C. Neves 206 T*ansformad* em mu*eu, centro de cu*tura ou af*ns, u*a casa torna-*e visível à *preciação alhe*a à remem*raç*o1 daqueles que poss*em algu* e v**cu*o com el*, em*ora promova a*os d* comemoração2 de da**s. Passa, então, a confi*ur*r ambientação de outras *rátic*s, mas jam*is *s mesmas, ainda *ue *nvolvam rotinas organização pa*tadas *or e *r*diçã*. *s pess*a* e o *empo não são ** mesmos, portanto cult*ra *uda. Ao discutir a sobr* o *ovo historicismo enq**n*o *endência **racte*izada como prá*ic*s teóric*s e interpr*tati*as que busquem recuperar circunstâncias históricas, r*la*iona*do-as c*m *s dos suj*it*s na atualidade, Gr*enblat* (*991, p. 251) afirma: O* m*seus f*ncionam, em pa*te por seu p*ojeto * em parte * despeito deles pr*pri*s, *om* monumentos * f*agilida*e das culturas, à queda *as instituições susten*ad*ras * da* casas nobr*s, ao colap*o de r*tuais, ao esvaziament* de m*tos, aos efeitos des*ru*ivos da in*úr*a das guerras e à dúvida cor*osiva. *reservar uma casa implica preserv*r alguns costu*e* e t*adições. Gagnebi* (20*9, p. 97) argu*en*a que estudar a *emór** é **a tarefa ética, não apenas a d*limitação de um *bjeto de estudo. É certo que sabe*es, *bjetos, s*jeitos não são eternos. Evoluem, t*ansfor*am-s*, desapa**cem *isicame*t*, mas pod*m s*rgi* nas lembra*ças e na*r*ti*as n* forma de represe*tação, que prové* da consciência do indivíd*o, *ant*ndo rel*ção *om as *oisas. É i*portant* c*nsiderar que forças pressionam * oc*s*ona* mudanças nos es*aços, mas há ta*bé* a *es*stê*cia **s c*stumes lo*ais, * que leva ao entendi*ento de que os espaços se **ansforma* no curso da his*óri* (**LBWACHS, *00*, p. 162). Para discutir *onceit*s de memóri* e hi*tór*a, a*ui se fa* uso d* aporte teórico a p*rtir de autores como *osbsba*n (2013), *agnebin (2009) e Halbwa*hs (2003); baseia-se em Greenbla*t (1991), par* falar em ressonân*ia e encantam*nto *e um *uga*; também dia**ga com Horello*-Lafarge (2010), ao tratar d* concepçõe* * mod*lidades *e práticas *ul*urais d* leitur*, pois estas constitu*m o principal ob*etivo *a **sa *nís*o Tei**ira, instituição *oca**zada em Caetité-Bahia, considerada ne*te artigo como luga* de encantam*nto. 1 Gagne*in (2009, p. 55) co*t*apõe come*oraç**, comum*n*e asso*iada a atos religiosos e *e*e****ões d*
Estado, ao conceito *e remem*ra*ão, caracterizando-* como "*e*surgências do passado no *re*ente". A re*em**açã* permite, assim, que o indi*íduo *ã* se esqueça do passado, *ossib*lita*do que este a*a *o p**sent*. 2 Co*emorar significa, muitas vezes, o ato de *epet*r o estabelec*do, o qu* foi classific**o d* maneira a aten*er interesses q*e se repetem a cada período, p*r iss* *elebrações comemorativas s*o *arc*das pe*a fidelidade ao passado, *or um disc*rso de memória enqu**to dever. Nã* implicam, portanto, a transformação d* presente (GAGNEBIN, 2009, p. 5*-55). Rev. FSA, Teresina, v. 15, n. *, art. 12, p. 203-217, jan./fev. 2*18 www*.fsanet.com.br/*e*i***
Cas* Aní*io Teixe*ra: história, memória e encantos 207 2 REFERENCIAL *EÓ*ICO 2.1 Casa Anísio Teix*ir*: Presente e Passado Ressigni**cados A **** A*ísio T*i*eir* é exemplo típ**o do tipo d* residê*cia que *on*ensa traços qu* dão base para suscitar e*canta*en*o dos que a visita*, a partir *e *odo um *mbiente no qual * visitante se insere, formado por hist*ria, t*adiç*es, cos*ume*, móveis, uten*ílios e c*so*, verídicos ou não, que *s levam a viver, pela imagi*açã* *etroativa, u* tem*o pas*ad* h* m*is d* u* século. Espec*ficamente a C**a, ao re*lça* * figura do fi*ho mais il*stre que lá nasc*u, o qual *e proj*tou nacionalmente como gra*d* *ducador, d*spert* também, a*é por *u*s realizações recentes, a imp*rt***ia da educação públi*a como promotora da d*m*cracia, c*rne do p*nsame*t* *ni*iano. A hi*tória d* Casa e papel o *o seu ***rono na *ducação brasileir* são as ba*es que conduzem * visit*n** a esse reencontr* encan*a*o com o passado d*stante. *obrado co*onial construído *a primeira década do século *IX, a Casa Anísio Teixeira lo*aliza-se na Praç* da Cate*ral da c*dad* de Caetité-BA. C*sa na*a* de Anísi* Teixeira, pertenceu a* D*. Deocle*iano *ir*s Teixeira, seu pa*, que a adquiriu, em 18*5, de Ma*oel José *on*alves Fraga, com todo o m*biliári*, que s*b*iste, em p*rte, at* hoj*. Em Caetité, essa casa é c*n*ec*da desde m*ito t*mpo co*o "O Sobrado". Nela, o Dr. Deocl*ci*no viveu 45 a*o*, até s*a morte *m 1*30. T*ndo sido proeminen*e chefe político, a *erta altura co*siderado "o gover*ador do sertão", *o*e-se calcular qu*nto de histó*ia p*ssou- se nas *epen**ncias do Sobrado. Casado s*cessivame*te com **ês ir*ãs Spínola, tev* o Doutor Deocl*ciano dezenove filhos, catorze do* quais depois qu* passou a morar no Sobrado. Seu 16º filho, aí nasc**o, fo* *nísio Teixeira. Com a mo*te ** Deoc*eciano, o Sobrado passa a ser a residência de sua filha Celsina Teixei*a L*d*ia a*é 1979, ano de se* f*leciment*. Des*e então, por quase vinte anos, o Sobr*do ficou desocupado e fechado, *ob a gu*r*a *e Ieda Teix*ir* de Castro Neves, bis*eta de Deocl**iano. Fec*a*o por tempo *rolo**ado, o Sobrado foi pau*a*inamente se deteriorand*. A ce*ta altura, ante ameaça de de*abam*nto que *oderia *correr frente às a fortes chuvas do sertão, Ieda e Haroldo Borges Rodri*ues Lima, outro bisn*to de De*cl*ciano, *a**ar*m er*uer uma grande plataforma que cob*ia to*a a casa, pro*ege*do-* d*s chuvas. O Sobrado foi recupe*ado * r*st*urad* *el* Governo da Ba*ia, em **ojeto e*ecutado *el* Insti*uto de Patrimônio Artí*t**o e Cultural - IPAC, * ina*gurada em f*vereiro de 1998. Rev. FSA, Te*es*na *I, v. 15, n. 1, art. 12, p. 203-217, j*n./fev. 2018 *ww4.fsanet.*om.br/revista R. O. Freitas, T. M. Prad*, D. M. C. N*ves 20* No s*u conjunto ar**itetôni*o, pa*saram a funcio*ar um Centro de M*mória, uma Bib*ioteca *ública, u* *ineteatr*, uma Sala de Cultura D*gita*, um *o*serv*tó*io de Música, além d* outros **paço* que des**volvem ativida*es *ult*ra*s de l*itu*a. As *ráticas c*ltu*ais de leitura *a Ca*a suscitam dif*re*tes reflexões a*erca da pr*dução, recepç*o, *ediação e soci*lização dos textos. *ão vár*os as condições * os contextos que def**em a for*ação ** leitor. Cad* um po*e es*abele*er a melhor (*u pi*r) re*ação com os textos de*e*de d* que **alog* co*sig* e com os out*os; d*pende **s ress*gnificaçõe* que co*segu* a**ibuir ao que leu e *** resu*tados. Par* *orellou-La*arge e Segré (2010, p. 1*5), As ma*ei*a* de ler d*p**dem das co*dições da *eitura, dos *omentos e do tempo que lhe são *onced*dos, do pap** simbó*ic* que lhe é atribuído. *pare*teme*te, as modalid*de* da leitura são tan*o unificadas - gene**lizou-se a leitura c*mo práti*a indi*idual, par*icular, que se ef*tua quase sempr* *o silêncio - qua*to di*e**ifi*a*a*, *evi*o à v***edade dos textos, *s múltiplas situações d* *eitura, às exper*ências anter*ores de le*tura qu* cada um tem. C*mo as referidas autoras d*fendem, há uma **rca de sociabilidade n* leitura, visto que pressu*õe t**cas. Por *er sido emprestado, d*do, sugerido, comentado p*r outra pessoa, o *ivr* inicia *ma comunicação, *m* *nteração co* o outro e com o meio, por*ue "leitura é uma fonte de diálogos, de discussões; l*i*ura e diálogo se *utrem e refor**m - * nã* ser q** revelem e ressaltem u* de*acordo, uma antinomia, uma i*comp*tibilidade - * ligaçã* e*istente entre as pessoas em ca*sa" (*ORELLOU-LAFA*GE; *E*RÉ, 2010, p. 1*6). Para a autor*, *ssoci**a * imagens, ao áu*io, a prática de leitura se *o*sol*da em m**s uma modalidade, a coletiva. De f*to, s*m subs*itui* as prá**c*s individuais, a televisão e a internet *s*imulam pe*soas a *o*ializar *p*niões e in*ormações; a d*finirem g*stos e arg*mentos, deixando-se co*duz** * *o mesmo t*mpo conduzin*o su*s e*colhas. A leitura oral * colet**a e a leitura silenciosa e ind*vidual são, assim, escolha* * adapta*ões a um* *i*u*ção. A forma de *iver, o lu*ar, as c*m*an*i*s, os obje**vos pessoais e p*of*ssionai*, as necessidades, tudo contri*ui p*ra a de*i*iç*o das práticas e m*d*lidades de *eitura. Perce**-se que a *epresen***ão da Casa Aní*i* *eix**ra p*ssa pelo reconhe*im*nto de que el* desenvolve di*erentes práticas de leitu** e por ab*i*ar m*mó*ias individuais e coletivas *e um passado que virou história d* o*trora e de *m passado r*cente que Rev. F*A, Teresina, v. **, n. 1, art. 12, p. 203-21*, jan./fev. 2018 www4.*sa*et.co*.br/revista Casa Anísio Teixei*a: *istória, memória e encantos 209 ressig*ifico* sua existênci* e **ntinua na pers*ec*iva de **m*reender a *ida soci*l do presen*e e reme**rar * p*ssado. Discor*end* so*re o sentido do pass**o, Hobsbawm (2013, p. 2*) reconhece que o d*mínio dele nã* implic* um* imagem de im*bili*ade social; mesmo *ra*icional, uma sociedade não é e*tática * imutável. As mudanças e as inovações podem oco*re* em *ualquer meio e necessariamente não espelh*m experiên*ias ant**iores. De fato, voltar no tem*o n*o restabelece * p*ssad*, ne* mesmo iss* se conf*gura como um a*s*io das nov** soci*dades. Pode-*e falar em s*u*ade, no*tal*ia, vontade de con*tituir o pr*sente com ma*cas *o passado, seja na forma de conhecimento, h*bit*s, valores, principalmente na perspectiva de *onstitui* o *resente * p*rtir das *ontribuiçõe* de diferen**s épocas, *a*a a su* importância, *ignificado e *tilidad*. Tratando da restauração de *difícios, por exem*lo, E*ic *obsbawm (2013, p. 30-31) c*nsider*-a u* me*o d* restabelecer o passado, o que *ã* se *erifica *uando se pretende rest*ura* cer*o* comportamen*os, *omo os qu* dizem r**peito à v*l*a moralidad* e à liberdade. Diferen**s são os aspe*tos seleciona*os par* as t*ntativas de restauração, q*e *ode se* efe*iva ou simbóli*a. Pa*a ele, certas a*ões qu* *ret*n***m ser *est*u*açõe* são verdadeirame*te "ino*ações que usam ou pretendem usar elementos d* um pa*sa*o real ou imagin*rio" (HOB*BAWM, 20*3, p. 3*). O a*tor afirma que a reje*ção ao *assado surge quando uma inovação é cons*derada como algo inevitável ou *ocia**ente desejável. O valor da inves*igação histórica sobre "o que de fato aconteceu" para * solução desse *u daqu*le p*oble** es*ecí**co do pre*ente e do f*turo é inquestionável, e tem dado novo alento a algumas ati*idades histó**cas u* tanto antiqua*as, desde que essas sejam associad*s a pro**emas bem mo*erno*. Após a **stau*ação da Casa Anísio *eixeira, o foc* das atividades lá desenvolvi*** sempre foi a **itura, considerada como co*j*nto de *ções que *is*m ao domínio de outros co*hecimentos intelectuais, emocio*ais e soci*is, a p**tir do desenvol*imento de habilidades como obse*vação, deci*ração, reflexão, ass*ciação, interpr*ta**o, representaç*o e crítica. A institui*ão sem*re es*imulo* e acolheu propostas açõ*s *e leitura, compreende*do que, e assim, estaria contrib*in*o para desen*olvime*to de habilidades in*iv**uais cole*iv*s, o e além de *emocr*tizar o saber, à luz do pensa*e*to *nisia*o. R*v. FSA, Teresi*a PI, v. 15, n. 1, art. 12, p. 2**-217, *a*./fev. 2018 ww*4.fs*net.com.br/re*ista R. O. Freitas, T. M. Pra*o, D. M. *. Neves 210 3 AN*LISES * D*SCUSSÕES 3.1 História * Mem*ria: Narrativas, Testemunhos, E*idên*ia* Ao disco*rer sobre me*ória coletiva * es*aço, *albwachs (2*03, *. 1*7-158) *eflete que: Nosso ambiente ma*er*al t*az ao *e*mo temp* a nossa marc* e a dos out*os. Nossa *a*a, nossos mó**is e a maneira c*mo são arrumados, to*o o arranjo *as p**as em que vivemos, nos lemb*am nossa **mília e os *m*go* que vem*s *om f*equência nesse *ontexto. Se vivemos sós, a região do espa*o qu* nos circunda de modo pe***nen*e e su*s diversas part*s *ão *efletem apenas o que nos distingue de todos os *u*ros. Nossa cultura e nossos g*stos aparen*es na *sco*ha e na disposição desses *bjeto* em gr*nde medi*a se ex*licam pelo* laç** que s*mpre no* l*ga* a *m núme*o eno*me de *ociedades sensíveis e **visív*i*. Halbwachs (20*3) consid*ra os indiví*uos insufi*ientes para se confirmar o* record*r um* lembran*a, cons*de*ada como "u* acontecimento *istante no tempo" (p. 55). I*diví*uos est*o ligados a dive*sos ambientes; distancia*-se e out**s vez*s ap*oximam-se das pes**as e do espaço em que aconteceu o *ue mot*v* recordação. A lembrança **itas vezes a s* dispersa entre os muitos ambientes, sujeit*ndo-se às in**uências do mei* so**al. Ele lembra com* "É muito comum a*r*bu*rm** a n*s mes*os, c*mo s* apenas *m nós ** originas*e*, as *deias, reflexõ*s, s*nti*entos e emoçõ*s que nos foram inspirada* pelo nosso g*upo" (HA*BWACHS, 2003, *. 6*), o que po*e gerar uma percep*ã* de maior força da mem*r*a indiv*dual. Para *sse autor, * lemb**nça, *o e*tan*o, **nstitui-se do emar*nhado formado pel*s muitos pens*mentos *oletivos. H**bwachs reconhece a existê*cia d* memó*ias in*ivid*ais e memórias cole*i*as; elas inter**netram-se. E*ta* contêm aquel*s, ma* n*o se **nfund*m com elas. Assim sendo, é oportuno *efletir que e*sa int*r*e*etração de memó*ias **ia *m ambiente favorável aos regist*os históricos, pe*mitindo, inclus**e, que s*jam reconta*os * alimentados c*m out*as perc*pções e ocorrênc*as. *ara Halbwachs (*003, p. **), A hi*tória nã* é todo o pa*sado * *amb*m não é tudo o que *esta do passad*. *u, por assim *izer, ao lado de uma história es*rita h* um* hist*ria viva, qu* se p*rpetua ou se *enova atrav*s do tempo, na qual s* pode enc*ntrar *ov**ente em grande nú*er* *essa* correntes ant**as que desapa*eceram apenas em apar*ncia. J*anne Mar*e Gagnebin (2*09) afirma *ue a histó*ia se apoder* do pa*sa*o pa r * entend*r e d** res*o*ta* no presen*e. De*ende que os fa*os são enxergados por meio do Rev. FSA, Tere*ina, v. *5, n. 1, art. 12, p. 203-217, jan./fev. 2018 *ww4.***net.com.br/rev*sta Casa Anísio Teixeira: história, memória e encantos 211 di*curso. Assim, *omo o *isto*i*do* possui uma ide*tidade e pe*tence * *m grup*, é váli*o diz*r que a história que ele con*a tra* marcas e **pressões pessoais. Ap*esen*a evidênci*3 , t*stemunho4, mas também * rastro5. Na Ca*a An*sio T*ixeira, é grande o a*e*vo de documentos manu*crit*s, de cartas e*viadas e rece**das pelos seus moradores q**, ao l*do de objet*s e m*biliári*, e também de *ecorações ant*g*s de par*de* restauradas, c*ntr*bu* p*ra *epor a pres*nça de seu *as*ado. *estem*nh*s * registros dos que lá viveram evidenc*am-** não *ó *m textos epistol*res, como e* móveis, *oupas, objetos pessoais fatos narrados, cont*ibuindo para que os *isitantes se e apr*priem da hi*t*ria *a *amília Teixeir*, *ons*de*ada *nfluente e im*ort*nte par* * desenv**v*mento da sociedade local e regional. Um registro de de**obramento *inda *endent* é o que se refer* a um gross* li*ro d* *notaçõe* anterio* *o Dr. Deocleciano. O livro em pa*ta foi iniciado po* Antônio José Teixei*a, pa* d* Deoclec*ano e outros. Durante anos, o Ant**i* José T*ixei** registro* no re*erido livro tod** *s c*sament*s, n*scime*tos ou mortes h*vida* *ntre seu* familiares. De*cle**ano, *u*ndo *orre seu pai, registra seu falecim*nto * es*re*e que co**i**a*á a feitura do liv*o, o que de fato aco*t***u. *s *egistr*s são ac*mpanhados de infor*ações relati*as *os fatos mencionados. Dos casame*tos, noticiavam-se, po* exemplo, os nome* d*s c*njuges, suas f*mílias, eventuais *argos ocupa*os pel*s parente* * os dotes entre*u*s aos *ube*tes. Quando **l*ceu Deoclec*ano Teixei*a, su* f*lh* Celsina T**xeira L*deia rel*ta * enterro e dec*ara que c*nti*uar* a confec*ão do livro. Todos os paren*es que tinh*m filhos ou se *as*vam env*avam os dados p*ra a D. C*lsina, *ue *s r*gistr*va, segui**o os mode*os do pai e av*. Quando Haroldo Lima, já r*fe*ido bisn*to de D*oclec*ano * filho de C*eti*é, esteve co*o pr*so po*í*ico *o **es*dio d* B**ro B*anco, em Sã* *au*o, escreveu a sua tia C*l*ina, em 19**, uma ca*ta sol**itando cópia do livr* para estud*s que desen*olvia no presíd*o co* *utros presos políticos. Para sua sur*re** recebeu o origi*al do l*vro, em pl*na cadeia. De*ois da anistia de 1979, o li**o *oi devolv*do por Harold* a dona Celsina. *om o fa*ecimento 3 Evidênci* é aquil* q*e co*prova a narrativa, o fato. *obs*awm (2*13, p. 371) c*nsid*ra a* evid*ncias como
fatos *erificáveis, o* quai* fundamentai* n* ato *e escrever hi*tó*ia. 4 Faz-se neces*ário t**a* * elucidação de Gagn*bin (2009, p. 57) para s* comp*eend*r o conceito de testemu*ha: nã* só aquele que viu com os *róprios olhos, ma* t*mbém aquel* que *uviu a *arr*ção de ou*ra pessoa, *assando a refleti* sobre o passado e podend* "ousa* esboçar uma outr* história". 5 É importa*te consider*r * rastro * luz d* pensame*to de G*gnebin (2009, p. *13): "quem *eixa ras*ros não o
faz com in*ençã* de tra*smissão ou signi*icação", portan** há que se consider*r rastro não só a escrit*, como *amb*m qualquer marca fruto do acaso, da negligência ou mesmo da violênc*a, visto *ue pode s*r *efinido como presença a*se*te, ou se*a, aquil* que nã* s* pode co**rovar, inclus*ve por ter *i*o apagad*, mas existiu. Re*. FSA, Teresina PI, v. 15, n. 1, a**. 12, *. 20*-217, jan./fev. 201* *ww4.fsanet.com.*r/revis*a
R. O. *reitas, *. M. Prado, D. M. C. Neves 212 dest*, o li*ro fo* l*vado *a*a o *io de Janeiro, es*ando em mãos de uma bisnet* *e D*oclecian*, subsi*tin*o a ideia de o me*mo vol*ar à Cas*. Ent*e as m*mórias que n*o s* escolhem, *as *ue se rea*ivam dia*te de l*gar*s, atos ou obj*tos, *u mes*o *m gesto, válido ressaltar os rel*tos acerca de aromas e *abo*es é típicos da* cozinhas da Casa, além dos m*vi*entados eventos reli*iosos favorecidos *ela capela intern* d* residência, i*cl*indo a hospit*li*ade oferecid* a *is*os e *u**os *eprese*tant*s da igreja. Registre-se, ainda, c*de*ra a de bal*nç* que deu assento a qu** *o**ndav* c*nversa* e n*rrati*as de *egócios e da v**a c*ti**an*, a saber, o velh* Deoc*ec*ano e, p*steriormente, sua fi*ha Celsin*, última herdei*a a habitar a Casa. E*tre outr*s re*emo*ações do passado, há aquelas que se esco*hem e as que surgem no pensamento, *em qu* t*nham sido re*omadas *u dire*iona*as por algu* *otivo. Sejam festivid*des realizada* na Casa, o* ainda os almoços e j*ntares diante da grande mesa *ue lá ain*a *e *ncontra na *ala *e ref*ições. Essas, *ertament*, s*o lembranças que p*dem, ou não tra*er fel*cidade, prazer, e *odem r*pr*s*nt*r o q** s* *retende fazer d*rar por muito te*po e, por *sso, norm*l**nte, são cultivadas, são co*entadas, tratadas para n*o sucu*bi* ao esquecimento. Por outro lado, há que se considerar que, em *a*o de lembr*nça *e va*or neg*t*vo, *ode pos*ibilitar ao indivíduo a *omp*eens** da própria *istó*ia, a *erc*pção dos fator*s que levaram a dete*m*nada condição de vida, entre *antos outro* pensame*t** e disc*ssõe*. A sociedade há muit* vem d**onstran** *er propensa * pre*ervar a memó*ia relativa a grupo*, costumes e i ndi ví duos co*siderados importa*t*s para o surgimento, desen*olvimento e exi*tênc*a de *m lugar, *e uma cultura. Sã* muitas as defesas para qu e **r*a* r*presentaçõ*s não ***am es*uecidas, * que tor*a a vid* huma*a sem*r* ass*cia*a ao passado, nunca desprovida dest*, *aí porque a história ganh* *mportância, visto que tem a função de explicar o presente, ou *e*mo r*sponder ao presente, apoderan*o-se do passa*o. Hal*wachs (*00*, *. 160) afi*ma que a m*mór*a co*etiva muda *ia*te de aconteci**ntos que trazem *onsigo mudanças nas relações do *rupo com o *ugar. Isso é perceptíve* à med*d* **e observamos a inte*relação *ue se est*belece en*re *s indiví*uos m*is velhos e os ma*s novos concomitanteme*te, e en*re os qu* co*vi*eram e* um da*o espa*o e momento, e outr*s que apare*e* de outro espaço e em **tro tempo, inclusive com intenções e v**ore* diferente*. Os **cantos da Cas* são des**rtados ainda que no seu ext*r**r. Narrati*as do hoje * do passado *a*ientam a vontade a curiosidade do pass*nte e observador. O que o mo*iva? e *ertamen** * supo*ição de que ali só é possível r*viver * passado em pensamento mas, Rev. FSA, Te*esina, v. 15, n. 1, art. 12, p. 20*-217, jan./f**. 2018 www4.fsanet.com.*r/revista C*sa *nísio Teixeira: história, memória e enc*n**s 213 cur*osamen*e, **ist* um present* trad*zido em ações e experiências *ue envol*em * *nc*ntam d*versos diferentes sujeitos; *s pessoas m**s s*mples e a* consideradas *a elit* e c*ltural, to*a* com igual *p*r*unidade de *cesso ao que a Casa Anís** Tei*eira oferece: práticas d* le*tura em cad* *a*to, p**t*cas d* lei*ura fo*m*tadas, testadas, desenv*lvidas e tr*nsf*r*adoras qu* conv*dam indivíd*os a narra* histórias, e* um *xercício de encantamento e *e acolhi**nto. 3.2 Olhares *e *ncantamento O que atra* e fixa o o**ar de alguém ao c*nhecer ou revisitar uma casa que po*sui uma au*a de pa**ado? Cômo*os, obje*os, ar*u**etura, tudo parec* pren*er a *ten*ão, compondo *n*e*samente a percepçã* de que **i *xperiências foram vividas, histórias que podem ser *etomadas o* rec*nstituídas. Sur*e * des**o d* s*ber ro*inas, funções e costumes da *asa. O observador atento não ape*as vê o *ue ali est* c**t*do; *e*s* e sente e por vezes é até c**az d* se sen*ir arreb*tado com o q*e está a*recia*do. Assim, se car*cterizam os olhares de en*antamen*o do vi*itante da Casa Aní*io Teixeira. M*smo sa*e*do que *la n** *ais abriga a ro*ina e o movim*nto da famí*ia de Anísio Teixeir* e que foi *rrumada *om o que sobrou apó* a passagem de muitos out*os f*miliares, o ob*erva*or ainda s* en*an*a, a* se deparar com o berço que ac*lheu o e*ucador ilu*tre, por e*emplo. Regis*re-se que as f*mílias tinham o costum* de utilizar o me*mo be*ço para tod*s os filhos, ne*os e so*rinh*s que nasce**em na m*sma casa, di*erente d*s d**s atuai* em que a c*da filho q*e nasce, a famíli* *m boas condições fin**ceiras monta um novo quarto. Cham* a ate*ção tam*ém a escr*vaninh* e a **ma que *ertenceram a* m*ni*o A**sio, segundo narrativ*s q*e se ouve* durante *isita à Ca*a. Convém o*servar expectativas relativas à proprie*ade dess* *asa. Até se referem * Ca*a de Anísio *eixeira. *ara mui*os, el* foi propriedad* de A**sio T*ixe*ra, *or i s** é comum observar pess**s supondo imaginando e*contrar m*rcas **nais *iverso* *a su* e e estada e/ou permanência **ssa moradia. Algu*as a*é de*ons*ram surpresa e estranhamento, que se *ransforma* *m encantame*to, ao c**st*ta* **e a Casa Aní*io T*ixeira contextual*z* como vivia a família ** Aní*io e e**õe, por *eio de c*r*azes, placas, vídeos e prátic** de l*itura, algumas ideias e sonhos do ed**ad*r b*iano. À* veze*, c*nh**er um luga* nã* é su*icien*e p*ra desper*a* o enca*tame*to de imediato. **itos aspe*tos passam *espercebi*os, logo ganha *mportâ*cia a conversa *e q*em a*erta e seduz para a obse*vação do lug**. Nas casas aber*** visitação em geral, *sso à é Re*. FSA, Teresina P*, *. 15, n. 1, art. 1*, p. *0*-2*7, jan./fe*. 2*18 www4.*s*net.co*.br/re*ista R. O. Freitas, T. M. *rad*, *. M. C. Nev*s 214 facilme*te verificável. Objetos e luga*es vistos às pressas ou m*sm* desprovidos de narr*tivas qu* *s mel**res contextu*lizem na c*sa n*o receb*m o valor e imp*rtâ*cia d**i*os de ime*iat*. É com* se não fosse po*sível despertar, sozinhos, a a*enç*o; não *videnc*am as experiênc*as que pro*orcio*aram. Como G*eenblatt (1**1, p. *5*-256) s*lienta, al*u*s tr*ços e *aracter*s*icas f*nci*nam como ressonância e, *ntão, atr*em a percepção 6 enc*ntamento. *u* leva ao
O olhar po** diz*r-se *ncantado q*and* o ato d* atenção fecha um *írculo ao redor de si mesmo, do qu*l, com exceção do ob*eto, tudo fica excluído, quando sua intensidade bl*quei* todas a* imagens circ*nd*ntes, silencia toda* as voz*s murmurantes. Para sua **rant*a, talvez o espec*ador tenha com*r*do um ca*álogo, lido uma ins*riç*o na parede, ligado * casset*. No momento de encantamento, porém, t*do esse apara** *implesme*te p*ra de funcio*ar. Por isso os olhare* d* *ncanta*ento d**envolve*-se e expre*sam-s* * cad* objeto e/o* cô**do conhecido; a cada aç*o que *e torna conhecida: na c*ntação, l*itura e *eat*alização de históri**, na* aulas e apresentações dos aprendizes de música, nas oficinas, ent*e outras. A narr*ção que se ouve do funci*nário, quan*o se visita a Cas*, env*lv* a atenção do *isitante, ao tempo em que ele próprio, no seu esfo*ço de teatralizar ou contar histór**s, age e fala, dei**ndo **an*parece* que gosta do que f*z a*i, com**ee*dendo a imp*rtância ** seu t*aba*h* n* Cas* An*sio Te*xe*r*. Acomp*nhando os visitantes, repetindo e *ssociando i*formaç*es e context*s, em uma cl*ra tentativa de satisfazer c*ri*sidades, o func*oná*io t*n*a d**pertar i*te*esse e pra*er de es*ar o o na C*sa Anísio Tei*eira. A se* modo, de a*o*do com suas es*olhas, quem aden*ra a Ca** também per*ebe dei*a-se e envolver pelo mudo di*l*g* que se e*tabelece: *omo tudo aquilo fun**on*va no p*ss*d*, que valores, roti*as * ideia* *ircu*av*m ali; qu* importânci* ess* *assado tem para o p*esente, o que c*muni*a, o q** desperta en*re os ind*v*du*s que só c*nh*c*m a Casa * partir d* restau*açã* em 1998, * entre os i ndi ví duos ainda vivos q*e tr*balharam, r*sidi*am *u *á se hos*e*ar*m enq*anto e*a morada da família Teixeira. Cada olhar, certamente, revela e*c*ntame*to na imp*rtância e du*ação da e*periência que teve. Na percepç** dos ves*ígios d* passado, pr***i*alment* pela precar*edade *o objeto, Green*latt argu*enta sobre o conceito *e ressonâ*c*a, que tem a função de exibi* vozes, de ev*car a* forças culturais e dinâm*cas d*s qu*is * objeto emergiu. 6 Greenblatt (1991, p. 250) esc*arece be* * qu* aqui se consider* resso*ância: "o pod*r do ob*e*o exibido de
alcanç*r um m*ndo maio* além *e se*s limites form**s, de *vo*are* quem o* vê as *or*as c*ltur*is complexas e dinâmi**s das quais emergiu"; a r*ssonâ*cia t*aduz a perc**ção da pr*car*e**de do *bjeto. Rev. *S*, T**esina, *. 15, n. 1, **t. 12, *. 203-*17, jan./fev. 2018 ww*4.fsanet.c*m.br/rev*s*a
Casa A*ísi* Teixeir*: h*stória, memó**a e encant*s *15 *ntr* os momentos mais ressonante* e*tã* aq*eles e* que obje*os s*postamente cont*xtuais a*sumem vi*a própria, pro*uzem *m a*elo que rivaliza *om o do objeto form**men*e privilegiado. Uma mesa, uma *ad**ra, um *apa, muitas vezes aparent*men** colocados apenas *ara compor uma de*oração ambien*al para uma *rande *bra, to**am-se sing*larmente expre*siv*s e signif*can**s, nã* *omo "pano de fundo", m*s como p*áti*as repre*entac*o*ais em s* ***mas instigado*as. (GREEN*LATT, *9*1, p. 252). V**e obse*var o quã* se torna relevante, na Casa Anísio Teixeir*, a prese*vaç*o d** o*jetos e móveis, além *o *spaço físico que os abriga, mesmo que dispostos à luz do olhar inovador d* quem *a*s*u orien**r * organiz*çã* do *u*a*. É certo que *ada sujeito pode a atribuir sentidos ao que vê e ou*e, confo*m* sua experiência e conhe*imento histó*ico, * *u* não altera *uit* as represent**ões p*e*endidas e cultiv**a* p*la Ca*a. As evidências e a* resso*âncias somam-*e co*stituin*o a hist*ria e a memó*ia do lu*ar, mistu*ando-se às leituras que o sujei*o faz. * CONSIDERAÇÕ*S **NAIS O*serva-se que a Cas* Anísio Teixe*ra contribui para que Cae*ité * região atuem no p*ese*te, *ransfor*ando-o cultural*ente, ress*gn*fic*ndo as açõ*s e *ar*as do passado. É uma casa *ue a*rai o* olhare* d* quem adentra a cidade, dada *ua local*za*ão, su*c*tando, assim, des*jos de con*ecê-la. Ao refle*ir so*re significados e ho*rores de Ausch*itz, durante * períod* nazista alemão, J*anne Ma*ie Ga*nebin (20*9. p. *00-10*) fala da impor***cia de se lut*r cont*a o esqu*cimento. Le*bra que Nietzsche ad*itiu *m esq**cer natur*l, con*iderado necessário à vi*a, e n*sse viés s* p*rcebe *ue o *e* hu*ano nã* consegue guarda* n* memória tudo que e*perim*ntou. Por outro lado, regi*tra *ue "existe* outra* formas *e esquecim*nto, duvid*sas: não sa*er, saber, mas n*o querer saber, fazer de cont* que não s* sa*e, denegar, rec*lcar" (GAGNEBIN, *009, p. 101). Passa, então, a defender que se lute contr* o esquecimento, a fim de que * passado nazista não se re*ita. Não propõe lembrar o p*ssado por lemb*a*, mas a consci*n**a dos fatos, a certeza d* que as ex*eriências e narr*t*vas **o foram i*ven*adas. Ess* é uma boa proposiçã*, pois remete à *on*epç** do q*ã* é *m***tante apoiar-** no pas*a*o para ressign*ficar o *rese*te. É oportu*o *bs**v*r que algu*as ações l*v*m *o esq*ecim*nt*, como o *to de ig*orar * *ue o *assado represent* (*o *as* *specífico d* Au*chw**z), s**a por medo, vergo*ha ou mesmo vo*t*de *e faz*r d*sap*recer o que não f*z mai* parte *o *r*se*te. Rev. FSA, Te*esina PI, v. 15, n. 1, art. 12, p. 203-217, *an./f*v. 2018 www4.fsa*et.co*.br/revista R. O. Freitas, T. M. Prado, D. M. *. Neves *16 Gagne*in *firma a importância de *em*rar o passado, o que nã* significa cu*tuá-lo; prefere, portant*, falar e* r*memoração e não em co*emoração ou c*l*braç*o. É oportuno di*er que o **o de e*cl*recer est* re*acio*a*o ao *to *onsciente e rac*o*al ** observa* * com**eender o prese*te media*te **álise d* acont*cimen*os passados, sabendo, inclusive, que o passado não se repetirá. *e o*tro ***o, é nec*ssário articular o *a**ado c*m *s *rgênci*s do *osso tem*o presente. Em se tratando *a* c*lt*ras que hoj* a Casa Anísio Teixeir* *epr*s*nta, b*m com* suas aç*es de f*mento à leitura e conseque*t* prepar*ção d* sujeitos, o*ser*a-se *ue e*a vai ganhand* es*aço * ampliand* sua his*ór*a, principalme*te porque vem co*tribuindo pa** o desenvolvi*ento de habilidades artísticas, para a formação de a**ntes de cultura, para o enten*imen*o a*ual de com* é participar de *olíticas cu*turais. Essa s*tuação leva a crer que a Casa a*ua forte *a com*reensão de educação co*o vida digna e i**lusiva, po*s el* *ão trabalh* *ão somente no senti*o de resgata* o pas*ado d* famí*ia Teixeira n*m *a *ida*e de *aetité; não viv* de cel*brações, em*ora realize a*gumas. A *asa encanta por*ue se t**duz como lugar de história * *e m*mórias, *br*ndo su*s portas e ações para q*em se interesse por mant*r vi*as al*umas pr*ticas culturais: conserv*r l*m*r*nças, cultivar e reconhecer o valor d* memó*i*, desenvo*vend* no presente ações qu* não per*item o esquecimento. A *r*nc**al preoc*pação da Casa *nísio Teixeira n** é o resgate do pass**o, *as o desenvolvimento de práticas cult*rais de lei*ura, a partir da *emória da própr*a a*ão educaci*nal de An*sio. Is*o tem pro*u**do r*sultados satisfa*óri*s no que diz resp**to ao desenvolvimento de h*bil***des ar*í*ticas diversas: mús*ca, con*ação d* histórias, teatralização de histórias, dança, leitura de histórias, art**anato, entre outra*. A* ações da Ca*a não destoam da *on*epç*o d* Anísio Teix*ira sobre * educação, * que pressu*õe re*peito às suas pr*ncipais ações em defesa de suas convicções, *ma *ele*ração do seu pensa*ent*, *ão u* culto a sua pes*oa. Co*o o presente e o f*turo s*o marcados por incertez**, apes*r do de*ejo e até m*smo d* ações h*manas no sentido de prev** ou mon*ar um modelo de futur*, é funda*enta* reconh*cer a memória coletiva como meio p*ra que os indivíduos pe*man*çam e* um tempo re*l, haja *ista sua função de ent*elaçamento das m**óri** *ndividuais. Assim, concretizam- se os e*cantos pessoa*s e a histór*a. Rev. *SA, Teresina, v. 15, n. 1, a*t. 12, p. 203-*17, jan./fev. 2*1* www*.fsan*t.com.br/revista Ca*a A*ísio T*ixeira: história, memó*ia e enc*ntos 2*7 R*FERÊN*IAS GAGNEBIN, J. M. *e*brar e*crever e*quece*. 2ed. São Paulo: E*itora 34, **09. G*EENBLATT, S. O novo hist*ricismo: ressonâ*cia e enca**amen*o. Estud** His*óri*os, Rio de Ja**iro, v. 4, n. *, p. 244-261, **91. HAL*WACHS, *. * memória c*letiva. Tradu*ão de Beat*iz Si**u. São Paulo: C*n*a*ro, 20*3. HO*SBAWM, E. Sobre histó*ia. Tradução de Cid *nipel Moreira. S*o Paulo: Companhia das Letras, 2013. HORELLOU-L*F*RGE, C; SEGRÉ, M. As modalid*d*s da leitura. In:______ . Sociologia da Leitura. *ão Pa*l*: *tel*ê *d*to*ia*, 20*0. Como Referenciar es*e *rt*go, co*forme ABNT: FREITAS, R. O.; PRADO, T. M.; NEVES, D. M. *. Ca*a Anísio Teixeira: história, memóri* e encant**. Rev. FSA, Teres**a, v.15, n.1, art. *2, *. 203-217, *an./fev. 2018. *ont*ibuição dos *utores R. *. Frei**s T. M. Prado D. *. C. Neve* 1) concep*ão e p*an*jame*to. X X * 2) análise e *nterpre**ção do* dados. X X X 3) e*abora*ã* do rascunho ou na rev*sã* crític* do con*eúdo. X X X 4) par*i*ipação na aprova**o d* v*rsão fi*al *o *anuscri*o. X X X Rev. FSA, Teresina *I, v. 15, n. 1, art. 12, p. 2**-2*7, ja*./*e*. 201* www4.f*anet.co*.*r/revista

Enlaces refback

  • No hay ningún enlace refback.


Ficheiro:Cc-by-nc-nd icon.svg

Atribuição (BY): Os licenciados têm o direito de copiar, distribuir, exibir e executar a obra e fazer trabalhos derivados dela, conquanto que deem créditos devidos ao autor ou licenciador, na maneira especificada por estes.
Não Comercial (NC): Os licenciados podem copiar, distribuir, exibir e executar a obra e fazer trabalhos derivados dela, desde que sejam para fins não-comerciais
Sem Derivações (ND): Os licenciados podem copiar, distribuir, exibir e executar apenas cópias exatas da obra, não podendo criar derivações da mesma.

 


ISSN 1806-6356 (Impresso) e 2317-2983 (Eletrônico)