www4.fsane*.com.br/revista Rev. FSA, Teresin*, v. 14, n. 6, art. 4, *. 72-94, nov./dez. 2017 ISSN *m*r**so: 1806-6356 ISSN E*e*rô*ico: 2317-2983 ht*p://dx.doi.or*/10.128*9/2017.14.6.4 Contato Cultural e Fronteiras *tnicas *o Litoral do Piauí: Problemática* e *ossibili*ad*s Cult**al Contact and **hnic Border* in the Coast *f Pia*í: *roblems a*d Possibilit**s Heb*rt Rogéri* do N*scime*t* Coutin*o Mestre em Arqueolo*ia *ela Universida** *ederal do *iauí Professor *a Univers*dade Federa* do Piauí Email: he*er*262@hotmail.com *lávio Riz*i C*lippo Do**or em Ar*ue*logia pela U*i**rsidade *e São Paulo Profe*s*r da Unive*sidade Fede*al do Piauí Email: c*lip*o@ufpi.edu.br E*der*ço: *eber* Rogério d* Na*c*mento Cou*inh* Editor Cientí*ico: Tonny Kerley de Alencar Rod*igues Campus Un*v*r*i*ár*o Min*str* *etrônio Portela - *a*rro I*inga - Teres*na/PI. Art**o *ecebido em 09/08/2017. Últ*ma ver*ã* recebida ** 1*/09/2*17. Aprov*do em 16/09/2**7. Endere*o: Flávi* Rizzi Cal*ppo C*mpus Univ*rsitári* Minis*ro Petrôn** Portela - B*irro Avaliado *elo *i*tema Triple Review: D*s* Review *) Ininga - **resin*/PI. pelo Editor-Chefe; e *) Doubl* *lind Review (avaliação ce*a por doi* avaliadores da área). Revi*ão: Gra*a*ical, Norm*tiva e de F*rma*a*ão C*ntato Cultur*l e Fronteiras Étnica* no Litora* do P*a*í: Prob*emáticas e Possibil*dades 73 RE*UM* *ssa pes*uisa t*m como *b*etiv* refletir sobre os *spe*tos culturais r*sponsáveis pela *r**çã* do contex*o arqueológ*co o*iundo das re*ações esta*elecidas entre o nativo e o co*on*za*or na costa piauiense. Para ta*to, for*m es*abelecidos como procedim*ntos metod*lóg*cos análi*es in situ de sítios arqueológ*cos prese**es na faixa costeira do Piauí, d*d** et*o-histór**os e *ev*n**mentos bi*liogr*ficos da *iteratura p*r*inente. *omo aparato teórico fora* e*e*cados autor*s que discorrem *o**e * A**ueologia do P*uralismo (LIGHTFO*T, 1*95; DE*TZ, 1963, 1*91; DEAGAN, *985) que *rata de contextos culturais particul**es, criados atra*és de interações multi-ét*i*as, assim *omo a Antr*p*l*gia Ambiental de Tim Ingold (20*0; 2002; 20*0). *ssa pesquisa tornou *ossíve* a *ercepção de que contexto* amb*entais esp*cí*icos foram *cupados em *etrime*t*s d* *str*t*g**s estab*lec*d** em c*nte*t*s cul*ural*ente const*u**os, fato *sse ob*ervado ** c*mposição e*pacial dos sítios arqueo*ógicos presentes nessa região. Pal*vras-chave: Litoral do Piauí. *ronteiras Étnicas no Litoral do P*auí. Ín*io na Costa Piauiense *BSTRACT T*is r*searc* a*ms to *eflect on the cultural **pec*s responsi*le for the cre*tion of the archaeological context ar**ing from the relat*ons established bet*een th* native and the col*nizer on the coast of Piauí in t*e first *ent*ries of colonization. F*r that, m*thodologi*al procedu*es we*e est*blish*d in situ analyzes of ar*haeological sites *re*ent in the coa*tal range of Piauí, et*no-historic*l data and bibl*ographical su*veys of the pertine** literature. A* a theoretica* apparatus, authors wh* d*scuss *h* Archeology of Plural*sm (LIGHTF*OT, 1995; DEETZ, 1963, *991; *E**AN, 1985) are addr*ssed, d*aling wit* partic*lar cultural contexts *re*t*d th*ough mult*-ethnic interact*on*, as we*l as Tim's Env*ro*ment*l Anthro*ol*gy Ingold (2000, 2**2, 2010). Th** research made *o*sible the p*rce*ti** that specific en*i*onmental contexts were o*cupied in de*riment of est*blished *trategies *n c*ltu*ally c*nstructed co*texts, *act observed in the *pati*l c*mpo*ition of the *rcheol*gica* s*tes present *n *hi* r*gion. *eywords: P*auí Coast*ine. Eth*ic Border* on the Coast of Piauí. on *he Coast of *iauí Rev. *SA, Teresina PI, v. 14, n. 6, ar*. *, p. 72-94, nov./de*. 2017 www*.fsanet.com.br/revista H. R. N. Coutinho, F. *. Calippo 74 * INTRO**ÇÃ* Os questionam*ntos qu* **m send* constru*dos sobre o contex*o arq*e*lógico *o* sí*ios *a cos*a *iauiense (COUTINHO, 2013, 2016), tro*xeram uma prob**mática teórica e *etodológic* qua*do ten**m*s indagar s*bre as rel*ções estabelec*da* entre os grupos que ocupav*m o l*toral d* Piauí e o col*nizador eu**peu. Sab*-se que, ap*s o con*ato com esses grupos, diversas f*rmas d* *e relaciona* (guerr*s, ***r*o*, etc.) o*o*reram *ntre ambos. P*rém, *ua**o tomamos a *ultura material como resultad* de*sa* relações, há uma distinção na *orma de anal*sá-las. Apesar do ainda *n*ip*ent* estudo sob*e a *ult*r* *aterial prese*t* nos sítios arqueoló*icos do litoral do Pi*uí, *s *ados et*o-hi*tóricos n** in*i*am a levant*r *lguns questionam*nto*. ****eiro, sa*e-se que os europeus que *entaram colonizar a costa do Piauí, tiv**am diversa* *i*iculda*es em efe*iv*r se*s **mínio* n*ssa reg**o. Uma das pr*ncipais causas para e*sa dificul**de, *e*und* Borges (2007, 2010), f*i a resist*ncia *ndígena à in**alação de nú*leos de ocup*ção coloni*l, al*ad* a *at*res naturais pa** d*ficultar a inv*s** dos col*niza*ore* intere*sado* *o *omínio do l**oral d* *iauí. Dessa forma, sab*ndo des*a r*sistênci*, pensa-se em arti*ulações cr*adas e em pos*í*ei* alt*rações s*ciai* e políticas d** g**pos cos*eiros nativos que *ivera* que *contecer, p*ra que *o*se **ssív*l combater a entrada d*s in*asores nas sua* t*rra*. Para * *ntendimen*o das d**ersa* *elações *s*ab*l*cidas na costa piaui*nse, alguns eleme**o* teór*co* for*a d*scutidos ao *on*o d*ssa pe*qui**. * contrib*ição da Ant*opo*ogia Ambiental proposta por Tim Ingold (2000, 20*0) res*de nas discussões sobre como * percepção do ambient* por parte desses grup*s influe*cia na ocupação de*sa* *reas e, p*i*cipal*ente, co*o essa re*aç*o *n*re cu*tura e am*ien*e *e ref*ete no universo s*mbólico de tai* grup** étni**s *ue o**param a *a*xa lito*ânea do Piauí no m*me*to d* co*oniz*çã* europeia. A Arqueologia do Plura*ism* *r*posta por Kent L*g*tfoot (199*) *raz um olhar inte*essante sob*e as relações es**beleci*as *n*re os *rupos n*ti*o* e o colo*izador. Esse autor *firma q** contex**s mul*i-étnicos s*o *erados a*ravés de re*ações ent*e o* grupos qu* habitav*m det*r*i*ada regi*o e sua conv*vênc*a com grupos colonizadores. As*im, pensando * co*tin*ida*e dessas r*laçõe* em te*mos temporais, questão a que se segu* é *omo analisar *ssas relações de *ontat*, *oman*o como base os sí*ios *rqueo**gicos, onde tais an*lis*s sofre* *ma ruptura c*nceitual e*tre história e *r*-história, Re*. FSA, *e**sina, v. 14, *. 6, art. 4, p. 72-94, nov./de*. 2017 www4.f*anet.*om.*r/re*ista Contato *ult**al e *ronteiras Étni*as no Li*oral *o Piau*: P**blemáticas e Possibilidades 75 ruptura es*a que reme*e a um pro*lema *ais amplo, * q*al e*ige novos *sforço* te*rico* * met*dológicos p*ra en*en**r os sí*i*s arqueol*gi*os do litoral do Piauí sem estratigrafia1 e em **l*mpsestos. * i*port*nte ressaltar que e*se debate epi*temo*ó*ico **o *erá o foco desse **ab*lho, porém, **b*nd* d* sua exis*ênc*a * ten*o na s*a resolu*ão uma *as alternativas para * andamento de t*abalhos *osteriores s*bre a temá*ica indí*ena na c**ta do Piauí, é de s*ma i*portância *niciar uma discu*são sobre es*a prob**mática. Para que seja iniciada essa discussão alguns co**eito* dev*m se* estabelecidos. 2 REFERENCIA* TEÓRI*O 2.1 Construindo o conceito de Front*ira *tn*ca A*gum*s mudanç*s aconteceram ao **ngo d* **cada de *980, período e* *ue * olhar dos hi*toriadores * antropólogos s*bre o papel do ín*io nas rela*ões c*m o colonizado* alterou a *orm* de inserir o *ndígena ne*sa discussão e, c*nsequen*eme*te, alterando alguns *onceit*s, c**o a *oção de *ro*teira. Boccar* (200*) aponta algumas per**ectivas que sofrera* mu*anças: [...] tomar en cuenta el *unto d* vista in*íg*na en la operac*ón *e reconstrucción de los proceso* histó*ico* c*loni**es; ana*i*ar *os procesos **mbinados de resistên*ia, *daptacion y cambio, de*a*do atrás la vieja dico**m*a *ntre pern**encia *e una tradició* in*emorial *or un lado y *iluc*ón de la entidad india vía un mecanismo de aculturación *mp*esta *or el o*t*o; presta* at*nción a la emergen*ia de nu**os grupos e ident*d*des o d* new peoples a *ravés de lo* múlti*lesproc*sos de mestizaje y *tno*é*es*s (p.48, grifos *o *utor). Des*a forma, as análises so*re o indígena em seu cont*xt* his*ór*co são cond*zidas a ro*per c*m o conjunto de dicoto*ias *ue distorcem suas r*al*dades, ass*m c*mo, buscar [...] en las reconfigu*acion*s étnicas y en las reformulaciones *ndetitarias, l*s *le*entos que permit*n d*r cuenta t*nt* de las concept*aliz**i**es nativas relativas al tre*endo choque que *epresentaron la conquista e co*lo*izacion *e América como de las capacidade* de adap*aci*n e refo**ula*ión de la* <<t*adicio*es>>*ue d*sembocaro* en la fo*m*ci*n de *undos nuevos en a* Nuevo Mundo (BOC*ARA, 2002, p. 48) Essas mudança* o*orr*das na a*tro*olog*a histór*ca troux*r*m profundas mudanças nos estudo* la*i*os a*ericanistas qu* estudam os fe*ôm*n*s d* des*str**ur*ção e 1 Est*ati*rafia é o ramo das ge*ciências que estuda a su**ssão e a id*de das rochas e *odo* ** seus car*ct*res,
propriedades, a*ributo* e paleoamb*ent*s (NO*AT*KI, 2005). *ev. FS*, Teresina PI, v. 14, n. 6, *rt. 4, p. 72-94, nov./dez. 201* www4.fs*net.co*.br/revista
H. R. N. Coutin*o, F. R. Calippo 76 reestruturaç*o inserid*s em um contexto de *ominação col*nia*. Seg*ndo *achtel (199* *pud BOCCARA, 20*5), por meio do estudo da pr*xis dos dom**ado* é que foi *ossível re*ti*uir par*e da age*cy das populações na*ivas demonstra*do, des*a **rm*, que * proc**so de aculturaçã* não * *inônimo de conversão nem tão pouco fo* percebido pelos me*mos agentes *ociais com* abandono das *r*dições ch*mada* *ncest*a*s. Port*nto, a resistência dos po*o* n****os nã* quer dizer que essa *eja uma *pe*ação negativa ou co*serv*d*ra de preservação tradic*on*l e dos mo*os ** org*nização pré-coloniais. A*sim, [...] p*r* aprehender las modal*dades *el co*tacto y sus e*e*to* *obre *as s*ciedades amerindias hace falta estud*ar la *raxis de los n*tivos, *ale decir "reco**ct*r los aconteci*ientos a las est*ucturas y restituirle sent*do a e**as últimas reubicándolas en *l *luj* de la h*storia (WACHTEL 1966: 93 a*ud BOCCAR*, 2005). Um conceito es**belecido n*sse trabalho para o andamento da prob*emática epistemológica s*pracitada é a noção de fr*nteiras étnicas. Esse c*nceit* está inserid* e* u** *isc*ssã* mais amp*a, cujas análises etnohistóricas relativas às di*âm*cas sócio-culturais do *ov* Mundo tratam desse conceito **mo uma f**** d* se des*e*cil*ar dos discur**s etnocên*ricos. P*ra Guil*au*e Boccara, a obr* de Nathan Wachtel, Los Ve*cidos, * ti*a como um divisor *e águas n* p*ocess* de investigaçã* dessa temática, onde a reflexão sobre * natu*eza d*s cont*tos *nter-étnico* e interc*lt*rais em zonas fronte*riças é tida como um dos pi*are* *essa reconf*gur*ção. A* an*l*s*r a n*ç*o de fronteir* em algumas pr**uções, * pos**vel percebe* seu carát*r etnocêntrico, *nde a hi*tória *o Novo Mundo somente distin*u** centros e *erife*ias. Dess* form*, B*ccara (2005, p. 32) coloca que a no*ão ** *ronteira aparece co*o "[...] un estado natural, o*j*tivo, com* una noc*ón que *d**er* perfect*mente a* fenômeno uni*ersa* **l conta*to entre dos entida*es polít*cas y culturalm*nte di*e**ntes". Assim, poder*a dize* q*e, em certos estu*os, a fro*teira é us*da como, literalme*te, um contato. Justamente ne*se ponto reside o problema p*is, sabendo que a *oção de *rontei*a é u* espaço ideoló*ico o* m*terialm*nte construído, o fato *e *onside*á-la c*mo *ma instituição o* fenômeno social im*ede qu*stionam*nt*s sobre a percepção, ou n*o do univ*rso i*d*gena que * mesma *mpl*ca (BOCCARA, 2005). Boccar* t*az *ssa ideia *omo u*a nece*sidade de conquista por p*rt* do coloniza*o* euro*eu que, a*ra*és d*s mecanismos de pod*r, os grupos indíge*as são vistos c*mo grupos homogê*eos, inseridos *m *m marco espaço-t*mporal espe*ífi*o, funciona*do em ** equilíbrio estável, dent*o de fronte*ras ét**cas e *olíticas bem d*finidas. Assim, *odos os grupos são tidos como dota*os de uma mesma c*ltura. Rev. FSA, Teresina, v. 14, n. 6, art. 4, p. 72-94, nov./de*. *017 **w4.fsanet.com.br/revist* Co**ato C*ltural e Fronteiras Étnicas no Litoral do Piauí: Problemáticas e Pos*ib*l*dad*s 77 Para esse a*t*r é fundam*nta* pensar a fronteira não como dada a *riori, pois a mesma é pensada e t*m func*o*a*o como espa*o t*ansicional. Portan*o, pensar e co**truir a f*o*teira como *spaç*-*empo de transição no* c*nduz a um pensamento inic*al o*de existem diferenças cul*urai* políti*as esse*ciais entre os grupos e que vivem em ambos os lados desse limite. Assim, B*ccara (2005, p. 33) afir*a que an*es *e ser c*n**de*ada *omo uma fronteira, nos seus aspect*s esp*cial e tran*ici*na*, c*m a possibilidade de circula*ão p*r*an*nte d* *uj*itos, objetos * idei**, a zona d* contato *oi *deali*ada como limite. Com a ad*ç** da noção dessa fr*nte*ra, algumas *onsiderações são pertin*nt*s. E*sa ideia nos dá a possib*lidade de *lhar para o* grupos indígenas de uma outra f*rma d*svenc*lha*a de um olhar e**ocêntri*o on*e, as relações e*tabelecidas no* espaços fron*eiriço* incluem **tros tipo* de relações, como, por *xemp*o, a* r*laçõ*s s*mbólicas. Como afi*ma Bocc**a (200*, p. 33) [...] Des** esta perspecti*a p*rec* má* pert*nen*e ha*lar de un l*mit* que tiende a tr*nsf*rmarse en fron*er* o de una fronter* cuyo hori*onte es no ten*r *ás límite a med*da que se van implem*ntand* los mecanismos *e inclusión e incorp**ación d* la al**ridad a tra*és de *a co*struc*ión de otro *ipo *e di*erencia; una diferen*i* soc*al y* *o pen*ad* en c*ave civili*aci*nal pe** sí nec*saria a la re*roduc*ión d* l** mecanismos de ex***taci*n y de extr**ción de tri*uto. Por lo tanto, la m*sión d* lo* i*termed*a**os consis*e en hacer *esaparece* ese límite con el fin de unir l*s nuev*s grupos s**re una *as* sana y realmente un*vers*l [...] 2.2 A*queologia do *lu*alismo e Contexto* Multi-Étnicos: est**elecendo um olhar n* costa pi*uiens* Sabendo q*e a construção d* discurso sobre ** relações esta*elec*d** ent*e *s **upo* ind***nas e o colonizad*r europeu se deu de forma **ntralizada no c*lono, e que ess* olhar não *ará par*e das anális*s desenvolvidas nessa pe*quisa, noção d** consequências desse a *ontato índio/europeu no l*tor** do Piau* será visto aqui como *ausa da criação de conte*tos particular*s qu*, possiv*lmente, tenham c*i**o dinâmicas *ulturais que resulta*am em situações peculiares. Porém, essas análises *ó *oderão ser feit*s depois de pe**u*sa* exau**ivas em torno da cultu*a m*terial presente nos sítio* do li*oral do Piau*. Ainda n*o *emos dados suficientes para p*rt*r para esta et*pa, *n*ão vejamo* a problemáti** segui**e: * relação temp*ral desse contato e suas c*n*equ*ncias ** surgimento de um contexto arqu*oló*ico. Co*o já s* sabe q** e*iste uma diferença epistemológica re*e*ente aos c*nceit*s *e histór*a *ré-histór*a em arqueol*gia, dúvid* que segue * seguinte: como analis*r es*** * a é Rev. FS*, Teresina PI, v. *4, n. 6, *rt. *, p. 72-94, nov./dez. 2017 www*.fsane*.*om.br/revista H. R. N. Coutinho, F. R. *alippo 78 sítios sendo qu* *s relaç*es que s* *s*a*eleceram nes*as áreas, *elaçõ*s *st*s *ue foram **sponsáveis pel* su* constru*ão, transcendem a noção de his*óri* e pré-h*s*ór*a? Existe uma mane*r* de estudar *ssas relaçõe* *em have* uma queb** *etodológica * t**ric*? *sse* questionamento* já *azem parte d* estudos desen*olvidos por antropólogos **stóric*s * etn*hi*toriadores que estudaram as *elações de contato cultural ent*e *s socieda*es colonia*s e os europeus. *sses pesqui**dores se depara*am com contextos *ar*icul*res criados partir dessas rel*ç*es, onde os grupos nativos passaram a se* a um do* agentes nessa* r**ações. No caso d* Pi*uí, com* *á *e sabe da p*rticipa*ão indígen* no proc**so d* r*tardamento d* ocu*aç*o do litoral leste-o**te, entender o cont*xto arqueológic* e a importânc*a de cad* ár*a para esses *rupo* passa a ser funda*en*al na construção do entendim*nto sob*e os grupos construtores desses sítios. Kent L*gh*fo*t coloca a Arqueologia em um patamar difere*ciado quan*o trata ** solução para suprir a nece*si*ade de entende* a* dinâ*ic*s cultura*s em con*extos multi- é*n*cos, justa**nte p*r poder con*ar com a cul*u*a mate*ial *esultante dessa* relações. P*ra esse auto*, mes*o na sua infância, a Arqueologia do Plural*smo *ode propor modelos teóricos e metodológico*, na tentat*v* de reali*a* análise* diacrônicas *a cultura m**erial de*i*ada d* contextos mu*ti-étnicos. Li*thfoot (1*95) coloca que, na medida em qu* os trabalhos dos a*que*lo*os pré- historiadore* e histo*ia*or*s f*ram se desenvolvendo e se dep*r*nd* com cont*xtos multi- étnicos, a co*sci*nci* d* pluralismo f*i a*mentand*, ocorre**o vários *c*ntecimento* como simpósios e even**s científic*s, onde alguns p*squis*dor*s expandiram seus horizon*e* de pes*uis* para além da cu*tur* material, com* J. Deet* (*963, *9**) * K. Dea*an (1*8*). Da me*ma forma que algun* pesqu*sadores defendem um corpo teórico e metodol*gico *as *nálises de síti*s arque*lógico* res*lt*ntes de contatos mul*i-étni*os, existem pesquisadores que defendem *anutenção de tais contextos so*iais * *ulturias. Robert Dunnel e Dobyn* argumentam que catástrofes de epidemias podem red*zir de maneira *rásti*a po*ulaç**s i*díg**as. Assim, *opulaçõe* indígenas, antes do contato com o europeu e a ausência de do*nças letais, a**esen*avam outros ní*eis populacionais, práticas econ*micas * *ráticas so*iopo*ítica* *ifer*nte dos grupos rema*escentes. Por*anto, para Dunnel (1991 apud LIG***OOT, 1995) os í**ios são muito mais um fenôm*n* resul*ante do c*nt*to e derivam somente de u*a pequena fração dos povos e da var*abilidad* cult**al do início do s*culo XVI. Para esses autores os mé*odos da arq*eologia pré-histór*ca são adotados *o e**udo das socied*des indígenas antes e *urant* o con*ato co* a cultura europeia, desc*r*ando o uso de fontes et*ográficas e a abordagem histó*ic*. Para Rev. FSA, *eresin*, v. 14, n. 6, art. 4, p. 72-94, nov./*ez. **17 www4.fs*ne*.com.br/revi*ta Con*ato Cultural e Fronteiras *t*ic*s no Li*or*l do Piauí: Pr*blemáticas e Poss**ili*a*es 79 Deaga* (198* apud LIGHTF*OT, 1995) e Beaudry (1988 *pud *IGHTFOOT, 199*) a arqu*o*ogia histórica deve s*r vi*ta como um campo separado da ar*ueol*gi* pré-hist*rica. Para es*es autores as d*as *e di*erem no toc*nt* a *doçã* de documentos históricos no *st*do d* proc*s*o de col*nização do "N*vo Mundo". D*sta form*, e*tendendo q** as fronteiras *tnicas ultrapassa* a noção esp*cia* *nde, tanto o indígena quan*o o colon**ador têm s*u *ap*l na con*t*uçã* desses context*s particulares, nesse trabalho, as anál*ses *oram desenvolvidas a p***ir d* uma n*ção temporal di*c*ôn*ca é, a partir dessa, não houve uma distinção ent*e *istória e pré-história enca*xada nos mol*es eu*ope*s ou norte-americanos. Par* dar su*sídi*s para an*lises *uturas, ind*gar**os so*re a per*e*çã* d* ambie*te qu* circ*nda esses sítios na ten**tiva d* e*tender como e*sas área* foram ocupa*as e para qu* foram ocupadas. É de fundam*ntal im*ort*ncia dis*utir s*br* como os oc*pantes desses s*tios compreendiam es*as ár*as e com* obtinham seus r*cursos, e ainda, porque per*anecer **quel* loc*l e ocupá-lo. 3 RESU**ADOS E DISCUSSÕES 3.1 Paisagem e *ercep*ã* Ambiental no litoral do **auí: olhares e *ossibilidades Uma das intenções de nossas *nálises é i**agar sobre a fo*ma **mo os grupos que h*bitavam o síti* a*qu*ol**ic* Três *ari*s se *elacio*avam **m ambient* e * pa*sagem do litor*l p*aui*nse. Essas aná*ises serão uma das altern*tivas com o i*tuito *e entender c*m* esses s*tios foram habita*o* e, consequentemente, *o*struíd*s. Pautado *a percepç*o amb**nta* pr*pos*a **r Ingold faremos, i*icialmente, uma an*lise do ambie*te. Para *ngold (2008, *. *797) a vida não se limita a um *roce*so de *cupar *m lug*r já existente "[...]but o*e *hat is inhabi**d is woven f*om *he strands of *hei* c*nti**al com*ng-into-being". A Antropologia Eco*ógica de Tim I*gold t*a* c*nsigo uma discu*são **ít*ca sobre o paradoxo estruturali*ta de separação e*tre cultura e na**reza, e*tabelecend* um* relação dialé*ica e*tre ess*s duas esferas, on*e u*a tem influênc*a sob** a ou*ra em uma *roca mútu*. Ingo** (200*) analisa a cultu*a, natureza e o a**iente, a par*ir de uma perspectiva onde ess*s três *sf*ras s*o interlig*das * complement*res. Para tan*o, esse autor suger* "[...] that hum*n bein*s i**abit discursive *or**s of c*lturally cons**ucted signif*cance is to imply that *hey ha*e alread* taken a step *ut of the w*rld of nat*re within wh*ch th* li*es of *ll othe* cre**ure* a*e c*nfined [...]" (p. 1*). Rev. *SA, Teresina P*, v. 14, n. 6, art. 4, p. 72-94, nov./dez. 2017 www4.fsanet.*om.br/*evista H. R. N. Coutinho, F. R. Calipp* 80 T***o em vista que *utros grupos estudados pelo autor sugerem o inverso, Ingold *ercebe o sis*ema c*ltur*l *om* uma cosmologi* que exige d* obser**dor um *asso f*ra do *undo cultural, onde todos o* outr*s seres h**anos estão confinado*. Isso *mplica uma *ná*ise totalmente fora d*s duas esfera* (Nat*ral e *ultural) onde o ent*n*imento de uma das duas *ossa *correr. Em se*s textos, Tim I**old tenta substituir a dic**omi* entre cult*ra e *atureza, *ela sinerg*a dinâmica de o*g*nismo e *mb*ente, na intenç*o de *ec*p*ra* uma verdad*ira ecolo*ia *a vi*a. O ter*o "e*o*ogia" utilizado por esse autor é basta*te **fer*n*e do conceito uti*izado pel* pensam*nto moderno. Está fundamentado nas discussõ*s críticas realiza*as por Gregory Bat*son (1973) so*r* a vi*ã* estruturalist* *e Cl*ud* Lév*-Strauss. Ingo*d (20*0) utili** o termo "**o*ogia da mente" empregado por Gregory Bateson (1973) par* *niciar um d*bate *obre a d*cotomia mente * natureza. *ar* Bat**on (1973) e*istem du** ecologias: um a ecologia de ma*eriais e trocas de *nergia e uma ecologi* das *d*ias, send* esta última conceituada como "**o*ogia d* ment*". *ara Lévi-S*raus* a mente é vista c*** um *rocess*do* de inf*rmações que es*á anc**ada no fu*cionamento do *ére**o, o q*a* fun*iona a partir de padrões de conhec*men*o d* mu*do exte**o*. *e*sa forma, o mundo a*reendido pela me*t* * *s*r*turado *or níve*s de intermédio de p*rcepção sens*ri*l para altos níveis de funcionam*nto intelectual. Ass*m, a mente proces*a *s d*dos empírico* que recebe previa*ente pelos s*ntido* e órgãos. P**tanto, para Lev* S*raus*, men*e e corpo fa**m *arte de uma ú*ica e mesma *eal*d*de (*NGOLD, 200*). *ara Bat*son (1973) *co*ogia e mente e*tão liga*as n* rel*ção entr* o cérebro e o meio circund*nte. Desse m*do, Ingold (201*, p. 1*) afirma *ue não existia *mport*ncia n* ag*up*mento *e dados r**ebidos d* forma estru*urada, passo a passo, "[...] but r*th*r as the u*foldi*g of th* who*e system o* rel*tions cons*itu*ed by *h* mul*i-**ns*ry in*o**eme*t of the pe**ei*er in his or her envir*n*ent". Dent** da abo*dagem **oposta por Tim Ingol* sobre o con*eito de "Eco*ogia", o qual foi u*ili**do nesse trabalho, um ponto chave foi *ol**ado pelo autor n*ssa di*cussão: p*ra Lévi-Stra*ss a mente decodifica as m**s*gens envi*das pelo ambi*nte, enquanto q*e, para *regory Bateson o mun*o se abr* p*ra m*nte através do processo * de r*vela*ão. Assim, *ngol* con*trói *ua abordagem pau*ada em uma prop*sta d* não separar a *e*te d* ecologia, pro*on*o uma discussão *oltad* *a** a relação entre for*a e processo (INGOL*, 2000). *arti*do dessas indagações s*prac*tadas, essa pesquisa co*struiu um olhar e*o*ógico simé*ric* onde a "*col*gia de fl*xos de ene*gia e intercâmbio *e matérias", juntamente c*m uma "*cologia da mente", *oloca que o indivídu*, ao se movime*t*r, obser*a seu *ntorno e, *ev. FSA, *eresina, v. 14, n. *, art. 4, p. 7*-94, nov./de*. 2017 www4.fsanet.c*m.br/r*vista *ontato Cultural * Fronteiras Ét**cas no Litoral do P*auí: Problemáticas e Po*sibi*ida*es 81 percebendo o ambiente circundante, este se revela em todos os *eus asp*ctos nat*r*is, culturais e sociais. D*st*rte, foi *elinea*a uma v*s*o socio**ltural, consi*erando, ta*b*m, todos o* seus aspectos *aturais de construção ** am*ie*te nas paisage** onde se encont*am os sí*ios *rqueol*gicos do litoral do Piauí. *ess* sent*d*, mesm* n*o t*ndo analisado o* artefatos arqueológico* *es*ltantes d*s cont*xto* sócio-cultura*s dos g*upos qu* hab*tara* os sítios ar*ue*lógicos d* li*oral do P*auí, o olh*r lanç*do s*bre estes gr*pos * de qu* a* relações estabelecidas entre *ativo e natureza prop*rci*naram uma ocup*ção dessas áreas de acordo *om *s necessidades polít*cas, sociais e cultu*ais, onde o ambient* a*rescentou pa*ti*ularidades n*ss*s grupos, rela*ã* es*a qu* s* *ef*ete no c*ntex*o arqueológico presente na co*ta *o Piauí. Em *um*, a disposição da cul***a **teri*l *m termo* es*aciai*, vem a *orroborar co* *ss* pe**pe*tiva, pois os s*tios *rq*eológ*cos foram vistos aqu* como área* de ocupação e n*o como "sambaquis"2, *nde essa* ocu*açõ*s se deram de forma oportuna dentro das *iversas dinâmicas políticas e c*ltur*i* concomitan*es às re*ações *stab*lecidas co* *s colonos europeus. 3.2 *ercebendo a pa*sagem do *itoral do Piauí: sít*os arqueológicos e sua inser*ão no amb*e*t* costeiro A *erc*pção *mbiental tr*z novas pe*s*ectivas sobre os g*upos que habi*aram e*ses sítios, e mai* um que*ti*n*me*to s**g*: *e que forma tais *rupos compreen*iam o am*iente do *i**ral do Piauí, qual sua rela*ão com os diversos ambie*tes qu* ci*cundam os sítios e como tais ambientes eram percebidos po* e*es? Dentro *a su* per*pecti*a *co*ômica d* relação entre o homem e a *bte*ção d** recursos n*tura*s pa*a su* subsistência, *ngold (2000) traz uma *i*cussão voltada para um olha* simétrico n*s relaçõ*s **cio-cu*tura*s estabelecidas en*re ho**m e a infl***cia o do ambi*nte *a racionali*ade dos grupos caça*ores-coletores. Esse auto* lança um olhar sobr* a* populações caçadoras-co*etoras, onde a ra*iona*ida*e desse* grupos é tida co*o o fator diferencial. Para **g*l* a *deia do "forr*gead** *deal" *ssume um *aráter *rátic*, quan*o se 2 *e*und* DeB*asis (et. al. 2007, p. 30) o termo "Sambaqui" * *onceituado como "[...] sítios a**ueológicos
monticulares distribuídos por toda a costa br*s*lei*a, ocupando principalmente zo*as de tons ec*lógi*os cam*ia**es, como *egiões l*gun*res * áreas reco*ta*as de baías e il**s". Nos últimos an*s, esses sítios vêm sendo conside*ados como *struturas intenciona*ment* c***truídas, imbuídas d* signifi*ação sim*ólica par* se*s constr*tore*. Scheel-Ybert (20*3, p. 130) afirma que Sambaq*is "era* locais *e h*bi*ação e *e sep*ltame*to, [...] onde teria hav*do uma espe*i*lização de alguns s**ios em locais funerários (FISH et al., 20** apu* SCHEEL-YBE*T, 2**3)". Assim como, t*mbém, fo**m construções monumentai* e**ficadas c*m a intenç*o de ser mar*o* paisagístico (DEBLASIS et al., 1998 apud *CHEEL-YBERT, 2003). Rev. FSA, T*resi*a PI, v. 14, n. *, **t. 4, p. 7*-94, nov./dez. 2017 www4.fsanet.co*.br/rev*sta
H. R. N. Coutinho, F. R. Calippo 82 pensa *a eficácia e eficiênc*a do seu t**balho. Os grupos caça*ores-colet*re* passam a ser vistos como forrageadore* i**ais, onde * objeti*o **imo*dial é maxi*izar * balanço entre energia de con*umo de re*ur**s c*ptura*os e custos de energias despr*ndidas (ING**D, 2*00). Dessa *orma, a distinç*o entr* o h*mem econô*i*o e o forra*e*d*r ideal, par* Ingold (2000, p. 29) reside ** fat* de que o [...]Economic man, sur*ly, *xercises h** r*aso* *n *he sp*ere *f soci*l *nteraction, and in so do*ng advance* in c*l*ure or civ*lisa*ion, against *he backgr*und of an int*in*ically resistant nature. Th* rationa**ty of the optim*l *orager, by contrast, is i*stalled ** the very heart o* nature, while the specifically hum*n domain o* socie** and cult*re is se*n as a *o**ce of external no*mati*e bi*s th*t may cause b*h*v*ourto deviate from *he opt**u*. Esse olhar proposto por Ingold abre um leque de poss*bilidades *ara *ue se possa ente*d*r de **e f*r*a os gr*pos do litoral do Piauí per*ebiam o ambiente. Por exemplo, um* das al*ernativa* é **e *at*r*s *ulturais e possibilida**s de *scolh* possam i*fluenciar *o proce*so de o*tenção dos rec*rsos. No caso da região da P*aia de Ca*naubi*ha, na qual se local*za o sítio Trê* Maria* e * Compl*xo d* **mbaquis de Car*aubinha, é um* região com *unas fixas e com ótim* visibil*dade das *reas adjacentes o*de se encontram áreas de *isp*sição de recu*sos a*imentare* (Ma*a 1). *ap* 1 - Localização da área arque*lógica *a Praia de C*rnaubin*a-PI. Fonte: Co*tinho (2016). R*v. FSA, Teresina, v. 14, n. 6, ar*. 4, p. 72-94, nov./dez. 2*17 ww*4.fsanet.co*.br/revista Co*tato C*ltur*l e Frontei**s Étni*as no Litor*l do Piau*: Pr**lemáti*as e Poss*bilidade* 83 Ingold (2010) t**z uma proposta volta** para a educação da atenção, onde a* habi*idades *umanas s*o tidas *om* *ropri*dades emerge*t*s d* si**emas dinâmicos, onde c*da *eração a*cança e u*trapassa * sabedori* de seus predecessores através de um proce*so de hab**itação (enskilmen*) e n*o de encult*ração, de*cartan*o a id*ia de uma transm*ssã* *ultu*al b*se*da ap**as no acúmulo de repre**ntações. Assim, como pen*ar na cria*ão de **ntex*os part**ula*es voltados para a relação **m o ambiente, cria*os a *art*r da *elação índio e colonizador? Essa res*osta é base**a nas observ*ções r**li*ad** *n situ do co*tex*o arqueológico dos *í*ios do litoral do Pia**. Por *xemp**, na reg*ão da Pr*i* de Carnaubinha, no sítio Trê* *ari*s, têm-se áreas de concentração de ma**ri*l m*lacol*gico* n* po**ão leste d* sí*io. E*tão, po* qu* esse mate*i*l ocor*e em g*ande concentr**ão nessa p*rção do sít*o? Será que e*tá ligado a um* ocupaç*o estratégica *el*cio*ada com períodos do ano, *nde é possív** se proteger do ***to mais intenso? Foi *bservad* que durante o s**undo seme*t*e *o *no os ve*t*s sopra* c*m mais *nten*idade. Logo, seria m*is c**venie*te ocupar a pa*te mais baixa do sítio para se p*oteger do vento. Nos arre*or*s dos sítios existem *reas de a**game**o sazonal, pod*ndo ser fo*te d* captaç*o de recursos *lim*ntíc**s. *ntão, qua* ser*a a re*ação estabele*ida entre esses grupos e o amb*ent* para *elhor a*roveitamento d* área e des*es rec*rsos? Essas *rimeiras i**ag*ç*es sã* base para *m *ues*iona*ento mai* d*stant*. Ten*o entendido qual a rela*ão desse* grupos com o ambien*e, a questã* m*is ampla seria en**nde* com* essa relaç*o am*ienta* foi passada para *erações posteriores contempo*âneas ao processo *e colonização do Piauí, e como essas relações ambi*ntai* foram m*dificadas ao *on*o do tempo, de acordo *om as n*cessidades políticas, **ciai* e culturais e, po*que não, ambien*a*s? Pela p*oposta de Ingold, o *equ* de possibilidade* é mais a*plo, pois essa dinâmica de relação a*biental pode *** pensada s*m es*ar vinculad* aos moldes já pré-est*b**ecidos *ara sí**os coste*ros, molde* esse* *m qu* foram enc*ix**os os sítios do litora* do Pi*uí. Para Ingold (2010), as *tapas de*sa tran*mis*ão ocorrem da seguin** fo*ma: quando uma transmissão de informação é efetuada cada etapa de *xternalizaçã* comportamental, etapa* estas que t*ansformam a rep*ese*ta*ão mental em *epresentação pública é complementada por mai* uma etapa de internalização perce**ual, transform**do a **pr*sentaç*o pública novame*te *m rep**se*tação ment*l. 3 Molus**s em g*ral (*o*l*y et. *l. 2*12).
Rev. *SA, *e*esina *I, v. 14, n. 6, art. 4, p. 72-94, nov./dez. 2017 www*.fsanet.com.b*/revist*
H. R. N. Coutinh*, F. R. Calipp* 84 Aplicando essa abordagem * pr*posta desse tr*bal*o, é p*s*ív** pensar e* um* transmis*ão de co*portame*to da seguint* forma: ex*stia uma *e*ação desses g*upos com o ambie*te, ao l**go do tempo *ssas re*ações foram alteradas de a*o*d* com as n*cessidad*s de cada geração, te**o c*mo bas* os *n*inamentos repas*ad*s dos s**s anc*st*ais. Dur*nte a tentat*va d* *olonização, esses *rupos altera*am se*s co**ortamentos *mbienta*s, *de*uando-os *s n*c*ssidad*s que lhe* aparec*am n* intenç*o de manter sua autonomia na área. E*sa p*rspectiva *os dá * po*s*bilida*e *e q*esti*nar se * contexto arqueológico da costa do Piauí se encaixa, ou não, no* m*ldes d*s sítios *osteiros, co*o, por exe*plo, a ideia de "sambaquis" ou sít**s de acu*ulados *onchífero*. **t*o, como p*nsar a relaç*o entr* o ambiente uti*izado pel*s indígenas e como tai* grupos in*e*agiam com esse ambiente? C*mo esses gr*pos o*tinham seus recursos? Par* Ingo*d (20*0) a *atureza é culturalmente construída. Esse *rocesso ** ba*eia na noção de qu* os ser*s humanos s*o os ún*c*s animais que ocupa* os ch*mados "mu*dos i*ten*ionais" (SHWEDE*, *990 *pu* ING*LD, 200*, grif*s d* aut*r). Por *onsequência, para ess** habitantes. [...] things do *ot exi*t \in t*emselves\, a* *ndiffer*nt o*j**ts, bu* only as th*y *r* *iven f*rm or **ani*g wi*hin systems of me*tal repre*entati*n*. Thus to *ndi*iduals w*o *elong to dif**rent inte*t*on*l wo*lds, the same objects in the sa*e *hy*ic*l surr*undings *ay m*an quite differe*t things. *nd when p*ople act towa*ds th*se *bjects, or with th*m in mind, their act**ns r*spond to the ways they are al*ea** appr*priated, categorised or v*lor**ed in terms of part*cular, pre-existe*t design. a That *esign, tran*mitte* acros* *he genera*ions in the form *f re*eived con*ept**l sc**mata, and manifest*d physi*all* in the ar*ifici*l *roduct* ** *heir implemen*ation, is *hat i* c*mmonly **own as \*ulture\[...] (I*GOLD, 2000, p. 4 0 ). Portanto, os ambientes dos se*es huma*os s*o c**t*ralmente construí*o* e, quando se fala em ambiente como parte da natureza, este, também, tem que s*r ent*n*i*o como u* *r*efato cu*tu*al *e *o*strução. As*im, segundo Ingold (2000) a cultura fornece o plano d* constr*ç*o e a natureza é o edifíci*. Então, tentan*o co**t*uir uma per*epç*o voltada par* * modo *o*o os habitantes p**c*b*m o am*iente que ocupam, e*se aut*r lança um olh*r on*e a inten*ão não é *e fazer uma *istinç*o entre o* "mundos intencionais" dos grup*s étn*cos com a visã* d** cient*stas ocidentais *umanistas, at* porque tal comparação ne* ser*a possível. A prop*sta *e f*ndament* na ideia de que "[...]a*prehendi*g t*e wo*ld is not a *at*er *f construction but of e*gag*ment, *ot of bu*l*ing but of dwelling, not of m*king a vi*w o* the w*r*d but of taking u* a view in i*" (INGOLD, 2000, p. 4*). Rev. F*A, Teresina, v. 14, n. 6, art. *, p. 72-94, nov./dez. 2*17 www4.fsan*t.com.br/*evista Contato C*ltural * Fron*eiras Ét*ic*s no L*toral do Piau*: **oblemática* e Poss*bilida*es 85 3.3 Con*truindo relações en*re o a*bien** e cultura *ssa p*rspectiva de Ingold nos *erm*te analis*r *sses g*upo* q*e h*bitar*m os sítios arque*l*gicos do litoral d* Piauí *omo grupos que mantiver*m re*ações com * ambie*te, de ta* forma que s*a vivênci* no cotidi*no com os dive*sos recursos naturais disp*níveis p*op*rcionou-lhes *m determinand* tipo de relação com o meio. Nesse sentido, voltand* à questão de como esses gru*os obtinham seus recurso* é possível fazer alguns l*vantamentos. P*i*eiro, nas áre*s **jacentes aos sítios d* litoral *o Piauí existe um* c*nsi**rável va*ied*de de eco*sistemas como alte*nativa para u*a a*ime**açã* d*v*r***icada, juntam**te com* m*r. Na área da Pra*a de Car*aubi*ha existem *u*s l**o*s próxima* que podem *e* u*iliz*das c*mo *reas d* pesca e *olet* *e ma*erial malacológi**. É *mp**tante lembr*r q*e no* *rr**ores dessas lag*as existem sí*i*s a*queo*óg*cos, *omo por exemplo, * síti* da Bai*a *r*a e * Seu Bode. O ma* é uma importante fonte de cap*açã* de recursos al*ment*res. Nos documentos históricos e*iste m*nção aos *nd*os Tremembé como exími*s n*dadores. Os trabalho* de F. Calippo (2*10) trazem contribuiçõ*s perti*e*tes no tocante à rela*ão dos povos q*e *cupa*am o litoral br*sileir* * o mar. *ua *roposta é *e q*e ess*s *rup*s s* estabeleceram *o *on** dos vale* *os r**s que, com o pass*r do temp*, fo**m sendo *bstru*dos co*o consequência da elevação do nível do mar. No contexto do lit*ra* do P***í são i*entificadas áreas *u*, *ossi*e*m*nte, tin*am c*nexões c*mo mar, mas o avanço das dun*s *b*tr*iu essas pa*sagens. Se as análises **nfi*m*rem e*ses p*leocan*is4, um* parte do contexto arqueol*g*co será *scla*ecida, pois *lgu*s sí*ios *parecem disp*st*s às *argens de *agoas s*zo*ais, lagoas est*s que fazem part* da continuid**e de paleocan*is que recortam o litoral do Piauí. Se essas áreas, no p**sado, faziam parte de áreas m*rgin*is *e paleoes*uários5, a possi*ilidade de e*ses grupos se *tilizarem desses espaços pa*a conseg*ir se*s recursos alimentare* é mais próxima. **iste, tamb*m, um* *egetação d* *estinga que pode te* servido com* área *e caç* e col*ta de aliment*. M*s*o nã* sen*o muito densa n*s dias *tuais, essa* áreas podem t*r tido u* papel importan*e na al**entação desses grupos, poi* *oc*mentos *tn*gráfi*os apontam essas área* como refúgios dos grupo* ind*gena*. Portan*o, para se 4 Antigos locais *e c*n*x*o das áreas de drenagem com o mar, os qu*is, ho*e, *e encont*am ob*truídos pelo caminh*mento d*s dunas móveis. 5 Antig*s *st**rios obs*ruídos pela a*ão das dunas móve**. Rev. FSA, Teresina P*, *. 1*, n. 6, art. 4, p. 72-94, nov./dez. 2017 www4.fsanet.c*m.br/revist* H. R. N. Coutinho, F. *. Calippo 86 abri*ar *m uma veget*ção e usá-*a como *rea estr*t**ica * necessário um con*eci*ento prévio da m**ma e que esta lhes ofereça c*ndi***s para *a* atividade. Então, co*o pens*r a rel*ção dos grupos indígenas que ocuparam a costa piauiense e sua relação c** a paisagem? Esse qu*s*ionamento *os conduzem a ou*ra* ind*ga*ões. Dentro d* realidad* que nos fo* apresenta*o na P*aia de Carnaubi*ha, o contexto arqueológico e ambiental dos *ít*os T*ês Marias e Comple*o de **mba*uis de Carnaub*nha n*s encaminha a se*uinte *ergunta: qual a necessid**e de o*upar a*uele loca* e, por *ue o mat*rial arqueológico some**e apar*ce sobre as dunas? 3.4 T*mporal*dade *as pais*gens costeiras do Piauí Em relaçã* à percepção ambiental *ess*s gru*os e sua rel*ção co* a paisagem, a intenção *qui é levantar as**cto* **e nos permitam entender qual a relaçã* dos grupos ind*genas com a* duna*. Ao observar as área* adjacen*es a partir *a* dun*s fix*s que encontram os *ít*os da P*aia de Carnaubinhas, é *ossíve* ter um* vi*ão pan*râmica de toda a *x*ensão *o litora* do Pia*í, assim como da *erra da I**apa*a. Tendo como pano de fu*do o contexto da c*lonizaçã* *essa *egião, e**as d*nas *oderiam te* *uncion*do como u** espéc*e de "mi**nte" por es*es grupos em u* contexto *stra**gico de auto*o*i* dess* reg*ão. Dessa forma, a ocu*ação desses sítio* seria estratég*ca nesse contexto. Observando a dispersão do *a*erial arqueológico, um *a*o que chama a atenção é a existência de *ma gr*n** con*e*t*aç*o d* ma*erial malacológico e *e*âm*co na *rista dessas dunas, bem como nas áreas i*te*-dunares abertas por deflação eóli*a6. Isso n** permite pens** em uma rela*ã* de perc*pção da áre* com* de fundamen*al estra*égia ** manutençã* desse* grupos. A*sim, n*s i*tere*sa sa*er como ess*s grupos **rcebe* os aspectos *ísico* d* paisagem e dentro do *eu *nivers* socia*, cultural e po*í*ico, é como esses a**ec*o* às suas *ec*s*idades c*tidianas. Ingold traz *lguns conceito* *e*tin**t*s pa*a essa* indaga**es. O conceito de tempora*idade e paisa*em *e Tim Ingold (1993) foi utili*ado nesse *ra*alho para da* su*síd*os às di*cussõ*s voltadas para paisa*em e* ter*os soci*cult*rais, não es*uece**o os se*s aspec*os nat*rais *u* têm influ*nc*a nas re*ações e*tabelecidas entre os grupos que hab*t*ra* * l*toral *o Piauí. *ste autor *e referiu à vida humana como um processo *ue envolve a *a*s*gem *o tempo, pr*cesso es** que está diretamente relacion*do com a fo*ma*ão das pai*agens em que as pes*oa* v*ve*. Essa noção d* te**o*alidade e 6 Ação *o vento qu* retira o s*dimento arenoso de *l*um local, **ndo *omo con*equên*ia * a**rtur* de
"corredores". Rev. FSA, Ter**ina, *. 14, n. 6, art. 4, p. 72-94, nov./d*z. *01* www4.fsan*t.com.br/rev*s*a
Contato Cultural e Fron*eiras É*nicas no Litoral do Piauí: Problemá*icas e *ossibilidades 87 paisa*e* de T*m Ingold foi aqu* utilizada, por per*itir tran*passar * *posição ent*e a vi*ão *aturalista da p*isagem alheia às at*v*dades *umanas e à visão cultura*ista, e a pais*gem é vista como s*n*o *e ordem c**nitiva ou si*bólica, particular de *spaço (INGOLD, *993). *ara sub*tituir e*sas duas n*çõe* sup*a*itadas *ng*ld (1993) pr*põe uma "persp*cit*a de habitaç*o", o*de, segun*o * au*or, "[...] the land*cape is con*t*tuted as an enduring reco*d of - an* tes*imon* to - the lives and works o* *a*t generations who ha*e *we*t w*thin it, and in so doin*, hav* left there something of t*e*selve [...]" (p. 152). Porq*a*to, a ex*eriência imediata passa a ser o foco d*s análi*es, p*r privilegiar a ideia d* *u* *s p*ssoas derivam da duraç** do seu *nvol*imento *odos *s dia* no mu*do. O conce*to de temporal*dade desenvolvido por Ing*l* (1993) não é cronolog*a e não é a história. As*im, é exc*uído q*alqu*r s*stema qu* es*a*elece inte*va*o* de tempo, o*d* o* eventos são inseridos, assim c*mo qua**uer séri* de eventos que pos**m *er datado* *o *em*o conforme sua ocorrên*ia *m ou*ro intervalo *r**o*ógico. Para T** Ingold (*9*3, p. 153, grifos do autor) *aisagem não é "terra", nã* é "n*tu*eza" e não * "es*aço". *ssas t*ê* noções e*clue* a possibilidade d* a paisag*m s*r vista como q*an*itativ* e homogên*a, anula * oposiç*o du*lista entre sujeito e ob*eto, como t*mbém a ideia *e que a paisagem é *m espaç* r**resent*do. Em suma, "[...] the ***ds*ap* is the world as *t is *no*n to those who dwell th*reing, who inhabit it* places and jou*ne* along the p*ths connecti*g them [...]" (ibid, p.1*6). O* conceitos est*be*ecidos **r *ngold sobre temporal*dade e pa*sag*m **s permite pensar em uma relaçã* ent*e i*dígena no l*toral do Piauí e pai*agem criada em cima *as relações estabelec*das no contato e, assim, s*po* que * função estratégica dos sít*os da Praia de Carnaubinha se *stabeleceu dent** das experiênci** *mediatas que foram surgindo ao longo *o processo de colonização. Tomando a pa*sagem em seus asp*ctos sociai* e c*ltu*ais de constr*ção, como pensar em um* habitação da P**ia de C*r**ubinha, consi**r*nd* *s dunas como uma ár*a estratégica? Qua* s*ria * nec*s*idad* de permanecer no mei* d*s dun*s? E*ses *ão questi*namentos ai*da distant*s de serem resolvid*s, ma* que se faze* pertin*ntes para o en*endi*e*to da construçã* dess*s sítios. As dinâmicas polít*c*s, sociais e cultur*is podem ter tido i*fluênc*a direta ** **ab*ração ** tais *ormas d* habitação. V*jamos a situaçã* em *u* os gru*os na*i*os se en*ontrav*m *urante *s incurs*es *urop*ia* na costa *o Piauí. *sses grupos *iveram que s* *r*aniz*r de tal forma q*e f*s*e man*ida su* *utonomia n* região. D*í a *mportância d* e*ta* e*tre as d*nas, d* oc*par as áre*s mais altas, a* *r***as das *unas, com* n* **so da Praia de C*rnaubinha, onde *uas dunas Rev. F*A, Ter*sina P*, v. 14, n. 6, a*t. 4, p. 72-94, n*v./*e*. 201* w*w4.fs**et.com.br/*evi*ta H. R. N. Coutinh*, *. R. Calippo *8 dão uma visibilidade privilegia*a do todo o litoral piauiense, se*d*, ainda, possível observa* o e**uário do Parn*í*a, e também o estuário do Timonha/Ubatuba. Isso dá uma vantagem *ara se artic*l*r contra pos**veis in*esti*a* *indas pelo mar, tor*ando a o*upação da Pr*i* de C*rnaubin*a d* extrema relevân*ia p*r* * m*nut****o de uma autono*i* desse litoral, po* parte desses gru*os. * CONSI*E*AÇÕES FINAIS Ret*mando os conc*it** supracitados sob*e paisagem, te*poralidade, c*iação de contex*os particulares, *riundos de co*tato* m*ltiét*icos e sepa*ação entre pré-his*ória e históri*, * ag*nte s*cial ativo ganha *estaque quando se pens* *m mudanç*s histó*icas, co* a possibilidade de "[...] interp*etar um epi*ód*o particular de m*danç* [...] repentina na cultura mate*i*l, o*** sua com*inaç*o com evidência doc*me*tal pode ser *s*da para lidar com questões *e estrutu*a e **rm*ç*o social [...]" (JOHNSO*, 2*10, *. 1*9). Trabalhando esses conceitos de fo*ma conjunt*, é possív** interpreta* os d*dos ar*ueoló*icos presentes nos sítios *o litor*l d* Piauí sob a perspec*iva de que, possív*is mudanças na estrutura *ociocultural, ocorridas pel* i*teração dos nativo* c*m g*upos d* colonos (europeus, mercad*res, corsários e pir*t*s) que *a*saram pelo lit*ral piau*ense, po*em ter *u*gido por meio d* in*e*cion*lidade do agent* soc*al, cuja comp*ovação *u *ão dess* "co*tr*buição" na e*t*utura*ã* s*cioc*ltur*l dess*s gru*os étnicos pode *er ve*ifi*ada por m*io d* estud*s que *onc**iam a combi*a*ão de dados arqueológic*s e fontes esc**tas (JOHNS*N, 2010). REFE*ÊN*IAS ALBUQUERQ*E, *. T. S; SP*NCE*, W. B. Projeto arq*eológico: o *o*em das *una* (*N). CL*O - série arqueológica. Reci**: UFPE, nº 10, *.1*6-1*8, 1994. APOLI*ÁRIO, J. R. Os Ak*oá * o**ros in*ígen*s nas fronteir*s do Sertão - As práticas das p*líticas *ndígena e indigenista no norte da *api*ania de Goias - Sécu*o XVII*. *eci**: UFPE, 2005. 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