www4.fsane*.com.br/revista Rev. FSA, Teresin*, v. 15, n. 2, art. 7, *. 125-140, mar./abr. 2018 IS*N *m**esso: 1806-6356 ISS* E*et*ônico: 2317-2983 *ttp://dx.doi.*rg/10.1*819/2018.15.2.7 Aleijadinho em Cristo de Lam*: Uma Lei*ura Possível do Passado Brasile*r* Aleijadi*ho *n Cris** de Lama: A Possi**e Reading of *he Brazilia* Past *e*nanda Apa*ecida Ribeir* *ós-Do*torado em *etr*s pela *n*versid*de Vale do Rio Verde D*ut*ra em Letras pel* **iversida*e Estadual Paul*sta Profe*sora da Univ*rsidade Federal *e A*fenas E-mail: fer_*ongresso*@ho*mail.com **dereço: *er*anda Aparec*d* *ibeiro E*itor-Chefe: Dr. Ton*y *erley de A*encar Ender*ço: Rua Gabriel Mon*eir* da Silva, 700.S*la R*dr*gues *107-B. Cent*o - A*f*nas/MG. Cep. *713*-001 Artigo rec*bido em 07/12/2017. Última versão *ecebida em 20/01/*0*8. *p*ov*do em *1/01/**18. Avaliado pelo *i*tema *riple Revi*w: Desk Re**e* a) pelo Editor-Chefe; e b) Do*ble Bl*n* Review (av**i*ção *ega por d*is avaliad**es da áre*). Revisã*: Gramatic*l, Nor*ativa e de *ormataç*o F. A. Ri*eiro 126 R**UMO Com ba*e nas relações *ntr* L*teratura e História, *s*e traba*ho obje**va inv*stigar a construção f*ccion** do personagem Antônio Fr*ncisco L*sboa, conhecido como Alei*adinh* (1*30/38-1814), *o romance *ris*o *e la*a: romance do A*eijadinho de Vila-Ric* (1964), do au*or J*ã* Felíc*o dos Santos. Nessa óp*ica, chama-n*s a **enção o *ato de *ue o es*r*tor b*asileiro, no ano do *olp* militar, recupe*a o personagem ar*e**o c*mo protag*nista de seu *ivr* e, assim, reme*ora, de cert* forma, as lutas pela liberdad*. Ne*sa *erspectiva, a análise demons*ra com* a fi*ura de Aleijadinho - um home* que apesar *e te* uma anoma*ia física que dificultava seu* moviment** e locomoção - é leitmotiv para f*l** de *iberdad* *m me*o a *m* *poca de re*ressã*, e também *ara apresen*a* uma nov* interpretação do passad* h*s*órico, evide*ciando, desta fo*m*, *o*o * *iteratura cu*pre o papel de leit*ra *rivi*egiada d* história. *alavra*-chave: Literatura e História. Romance H**tórico. Aleijad*nho. Cristo de Lama. João Fe*í*io dos Sa*tos. ABSTR*C* B*sed on the relationship betwe*n Litera*u*e and History, this st*dy aims *o *nvestigate the fictiona* con*truction o* th* character *ntonio Fra*cisco L*s*oa, **own *s *l**jadinh* (173*/3*-*814), *he n*v*l Cri*to de *ama: romanc* d* *leijad*nho de *ila Ric* (*9*4) by João Fe*ício dos Santos. To that en*, calls us the attention that the Bra*ilian writer, in the year of t*e military coup, recovers the arti*an cha*acter as the protagon*st of his b*ok a*d thus *e*alls, *n a way, the struggles fo* *ree*om. In this p*rspective, th* analysis demonstrates how the figure ** Aleijadinho - a man *ho despite having a p*ysica* abnormality whic* hindered their movements and *ocomot*on - i* is leitmotiv to speak o* freedo* in the mids* of a time of *epre*sion, *nd als* to present a new interp*etation of histori*al *ast, which hig*lights such as liter*ture plays t*e role of privi*eged reader of *istory. Key words: Li**rature and Hi*tory. Histori*al Novel. Aleijadinho. *r*sto de *a*a. João Felício dos San*os. Rev. FSA, *eresina, v. 15, n. 2, art. *, p. 12*-1**, mar./abr. 2018 www*.fsane*.com.br/rev*sta Ale*jadinho em Cristo de La*a: u*a *eit*ra Possív*l do Passado Bras*le*ro 12* 1 INTRODUÇÃ* Es*e tra*alho obj*ti*a investigar a c**strução **ccional do per*o*agem Antôn*o Fr*nc**co Lisboa, conhec*d* como Aleijadinho (1730/38-*814), no roman*e Cristo de la*a: romanc* do Aleijad*nh* de V*la-Ric* (1964), do autor *oão Fe*ício dos Santos a pa*tir d*s e*tud*s entre Lite*atura e *istó*i*, na segunda m*t*de *o *écul* XX, época n* qual hist*riador*s e crític*s literários evidenci*ram uma mai*r aproxi*ação de ambos os discur**s para uma le*tura do p*ssado histórico. A relação entre lit*ratura e hi*tória **mo*ta aos primórd*os. Aind* ** Idade *ntiga, Ar*stóteles já assin*lava, *m *rte Poé*i*a (c*. 200*), obra *u* é a base da teoria da literatura d* Ocidente, que a* *istoriador cabe*ia narrar aq*ilo *ue aco**e*eu e ao lite*ato, const*uir uma narrati*a d* que poderia ter ocorrido. A*sim, *ara ele, * literatura *staria no c**po do ve*ossímil, *emarc*da em um mundo objetivo que acar*eta um **mínio do pos*ível. C*n***m* o *rofe*s*r Antô*io Celso Fer*eir* (19**), assim como *ários estudiosos sobre o tema, f*i o *il*sofo grego que instaurou a an*inomia Lite*atura-História a qual, *o* o p*ssa* dos tempos, *oi *e ac*n**ando. Com o adve*t* do Iluminismo no séc*lo XVIII, ocorreu a "se*ar*ç*o" entre *rte * ciência, r**ul*a*do na disju*ç*o literatura e his*óri*, ** **e essa ú*tima havia sido elevad* à categoria de ciência. Contudo, no iníc** do seu text*, *e*reira j* aponta q*e a *mag*n**ão é in*r*nte à Li**ratura e é t*mbém uma via natural n* qual a Hist**ia *r*nsi*a, como campo de dis*urso que u*iliz* os mesmos in**rumentos da *arrativa li*erária. O hi*tor*ad*r *st*dunidense Whit* (*9*0) assevera que, *n**s do séc*lo XI*, a hi*tória e*a tid* *o*o arte narr**iva. Co* * avanço do racionali*mo e che*ad* do Ilumin*smo, iniciou-se u* processo d* identifica* a "*er*ade" *om o fato *istó*ico, delegand* * l**eratur* a "manifestação da *ossib*lid*de". O autor t*mbém a*i*ma **e cad* trabalho histórico n*ces*ita dos elemen*o* que *ompõ* * narrativa *iccio**l por **r essa um* f*rm* d* discurso ordenada, c*erente, apresent**d* os ev*nt*s de *od* sequencial. *u s*ja, *ssim c*mo o* **teratos *azem na fic*ão, o* historiadores conduzem a leitura conforme a i*terp*etação que eles possuem sobr* o fato passado. Nessa p*rspectiva, vários crí*icos do s*culo XX, tanto do ca*po **terári* c*mo his*órico, e*puseram *eu* q*e*tion*mentos s*bre *s*a opo*ição e discorrer*m que as narrat*vas d** duas **e*s tê* * mesma e*s*ncia, po*s, "ambas são const*tu*das *e m*teri*l d*scursivo, permeado pela organiz*ção **b*etiva da realid*d* feita por **da falante, o que R*v. FSA, Teresi*a PI, v. 15, n. 2, art. 7, p. **5-140, ma*./ab*. 2*18 ww*4.fsane*.co*.b*/revist* F. A. Ribeiro 128 pro*uz infi**ta prol**eraç*o de discur*o*" (ESTEVES, *010, p. 17). Nes*a mesma ve*te*te, encont*amos o fi*ósof* f*a*cês Rico*ur (1994) que, *m Tem*o e narrativa, também afirma qu* ambas são fo*ma* sim*óli*as, passív*is de s*r nar*adas, pois trabalham a unidade do te*p*. Hutcheon (199*, p. 141), uma crítica *iterá**a can*dense conhecid* por *ua obr* * Poética do Pós-Mod*rni*mo, ao an**isar romanc*s contempo*âneos que resg*t*m fatos hist*ric*s, **ngrega s*us estudos naquil* que as narr*ções *is*óri*as e literári*s tê* *m co*um, evidenciand* que amb*s são: [...] *denti*i**das como construtos lingüísticos, altamen*e convenc*onaliza*as em *uas forma* n*rra*ivas, e nad* transp*re*tes e* *erm*s de linguag*m ou d* es**utura; * p*recem ser *gu*lmente intertextuais, desenvolvendo os text** d* passado c*m *ua pr*pria textualidade *omplexa. Ness* mesm* e*tei**, a *rofessora Pesa**nt* (1999, p. 820) **s*ve*a *ue a tare*a do *i*tor*ador * buscar o* vestí*ios do passado, mas res*alta que o text* históri*o é construíd* a partir d* critéri*s de sel**ão, recorte e mon*age*, submetend*-se, [...] à capacidade d* imaginação *riado** de construir o passado e representá-lo. Há, e sempre houve, ** proc*sso *e in*enção e construção de um cont*údo, o q*e, contudo, não implica dizer que este *roc*ss* de c*iaç*o seja de *ma liberdade abs**uta. A ***ora che*a a usar o term* "*is*ória-ficção *ontrolada" p*ra se referir ao *rabalho histór*co, submeti*o aos *igores do méto*o durante * pro*esso de repr*sentação d* real. É o método c*entífic* o el*mento que distingue * Histór*a d* *it*ratura. *es*ringindo a di*cus*ão ao contexto lati**-americano, devemos r*ss*ltar que a relação ficçã* e hist*ria semp*e f*i estreita, e os *ri*eiros textos aqui escritos (por e*ropeu*) cos*u*am se* *studa*o* ta*to pela hist**iografia, quanto pela *it*ratura. Isso é, o víncul* e*tre ambos os discurso* *e*p*e foi mais **ident* e, mesmo com os i*ea*s do Ilum*nismo em ou*orga* cientificidade à História, o elo nunca foi rompido defi*it*vame*te. 2 RE*E*ENCIAL T*ÓR*CO A partir da segu*da meta** do século XX houv* u*a prol*feração de di*cursos híb*idos e*tre ficç*o e história; uma te*dên*i* un*versal que t*m *special *elevância nas narrat*vas escritas por autore* da *mér*ca *atina, prop*rcionado (*e)lei*uras críticas do Rev. F*A, Te*esina, v. 15, n. 2, art. 7, p. 1*5-1*0, mar./abr. 2*18 *ww4.fsanet.com.br/revista A*eijad*nho em Cristo de Lama: uma Leitura Po*sível do Passa*o *ra*ileiro 129 passa*o h*stórico, e*pe*ialmente por m*io de ** g**ero narrativo - o romance his*órico - que havia *urgido no começo do século XIX, n* Eu*opa, e gan*ou notoriedade entre o público l*itor oc*den*al. O esc**tor *scocês S*o*t (1771-1*32) *oi o *dealizado* do roma*c* hi*tór*co, narrativa na q*al a história ap*rece retratada como um pro*e*so c*ntínuo * col*tivo, *erando d*ferente* f*rmas de representação da experi*nc*a *ist*rica. Os países l*tino-america*os *a*sa*am, n*sse **me*to, pelo pr*ces*o de sua independên*ia e o gênero literário c**tivado po* Scott e teoriz*do p*** primeir* ve* por Lukács (1936-193*) também *eve sua res*onâ*cia *a l*teratu*a das *ovas nações. Para L*kács (1977), Scott esta*elece u* parad*gma para o romance his*órico - ao qual ele denomina "cl*ssico": a) a h*stória é resgatad* pelo enredo c*mo u* "tel*o de *undo"; é a amb**ntação da narr*tiva e seu tema principa*, do qual não ** pod* desvinc*lar-se; b) os p*rs*nagens *istóri*os conhecidos ficam *m segundo plano, *judan*o * *om*or e*redo * * ambientação his*óri**, e os personagens ficcionais, princip*lmente o que Lukács *lassifica d* herói medi*no, ocupam pri*e*ro plano, c*nduz**do a tr*m* ficci*nal; c) no o desenrolar da t*a*a, ****ece u*a história de amor e*tre os p*ot*gonistas do romanc*, que p*d* ou não ter final feliz. O me*mo *studios* de**aca *m sua pesquisa que, ao lon*o do s*c*lo XIX, vários escrito*es (com* Vict*r Hugo, Gusta*e *la**ert e *eón *olstoi) traçaram uma ou outra modifica*ão no *squema do rom*nce hi*tórico clássi**; as*im, podemos per*eber que as muda*ças abrem espaço para sua ev*luçã* *a narrativa. Esteves (2010, p. 34) *e*lar* que a f*cção é afetada todas as v*zes que se *uda a concepção de l**eratura, de *istória e da relação delas com a socie*ade. O professor revela tam*ém que, no início do sécul* XX, as vanguardas e o ent*ndime*to de discurs* h*s***ico *era* outra fe*ção ao romance histórico. Por isso, a partir da segu*da *etade do século XX, esse *ên*ro literário na América ganh* *ma nova ****n*ão e ou*r*s ca*acterística*, *ois passo* por uma *mporta*te *enovação conc*itual, adotando uma posi*ão crí*ic* e de resistência *rente ao *i*curso *istórico hegem*nico, propondo revisões e reescritur*s do p*ssad* histó*ico - *lgo que não o*orria no *od*lo clássico. Relatos *undadores de nacionalid*des **o problemat*zad*s, ass*m c*m* s*o in*o*poradas as vo*es dos que est**eram à *arg** do discurso *istórico *egemônico: os su*altern*s de cl*sses sociais e/ou de gênero s*x**l, assim co*o as et*ias venc*das. H* u*a vasta pesquisa e numerosos *st***s sobre o romance his*órico latino- americ*n*, especia*mente a*ós a dé*a** de *etenta, q*ando o g*nero ganha ca*acte***ticas q*e se distinguem do m*delo do s*culo anterior. C*ítico* c**o Echevarría et a*. (1984) d*s*utem Rev. FSA, Ter*sina PI, *. 15, n. 2, art. 7, *. 125-140, mar./abr. 201* www4.fsanet.com.br/revista F. *. Ribeiro 130 e teorizam as di*erenças do roma*ce hist*rico cl*ssi*o para o romanc* hist*r*co conte*porâneo. Muitas são as *a*acterí*tica* qu* os críticos leva*tam sobre o gênero - c*mo a me*aficção, * re*eitura crítica, a supre*são da di*tânc*a *istóric*, a paró*ia, a *obreposição de tempos, *t*. - po*ém, acredi*a-se q*e uma d*s principais seja aquela *ue *erkowska (20*8, *. 42) ap*nta na i*tr*duç*o de seu livro, Histo*ias híbridas: [] los n*velistas dibu*an un nuevo mapa p*ra el concepto *e *a historia y su d*scurso. Vist* des*e esta pers*ecti**, la novela histórica lati*oamerican* no can**la la *istoria sino q*e redefine el e*pacio declarado como "histórico" p*r la tradición, l* convención y el poder, postulando y configura**o en ** lugar las historias hí*ri**s que *ratan de imaginar otros tiempos, otras posibilidades, otras histori*s y *i*cur*os. Esse talvez *e*a o cerne d* rom*nce histórico contemporâneo na A*érica Latina: elucidar a sua re*ação c*m * h*storiogra*ia, *ão com o objetivo de *escindir di**urso da o *i*tória, mas s*m de r**olocá-lo em um espaço *o*o, em que se permitem diver*os t*mpos, várias versões e outr*s lin*uagens *ue indi*am novas interpretações do passado. Dentro desse contexto, encontram*s o livro Cristo de L*ma: roma*ce *o Alei*a**nh* de V*la Rica (1964), do escritor João Felí*io do* Santos (191*-198*), co*o *omance histórico escrito na *mér*c* La*ina q** re*gata a figura *istó**ca de An*ônio Fra*ci*co Lis*oa, mais conhecido como *l**jadinho (1730/38-1*14), f*moso escul*or e arquiteto de Minas Ge*ai*, cu*as obras são encontrad*s, princip*lmente, em O*ro Preto e Congonhas. Apesar de s*u tal*nto e d* sua* obras, Aleija**nho foi u*a pe*sonalidade ma*ginalizada pel* sociedade br*sileir* por caus* *e sua cond*ção social/racial po*s, con*or*e *escr*ve *liveira (2002, p. 19): "N*sceu ba**ardo * escrav*, *ois \filho natur*l\ d* arq*it*to po*tug*ês M*noel Fran*isc* Lisboa e de uma *e su*s escravas afr*ca*as". Além dessa co*dição, foi *cometido, aos *u*renta anos, por *ma enfermidade que * deixo* deformado - daí o *eu apelido. Por algum** vezes, f*i imp**ido de assi*ar su*s ob*as, por*ue a socied*de d* épo*a não aceitava que um *u*ato *rod**isse *rt*. São *árias as pe*qui*as sob** suas o*ras, cuja imp*rtânc*a rec*n**cimento vieram e ***s a su* morte. A pr**eira biogr*fia feita sobre Ale*jadin*o é *e *858, esc*i** por Rodri*o Ferreir* Bretas, um j*rista de Ouro Preto. Contudo, p*ucos s*o os docum**tos qu* se *em sobre Aleijadin*o - uns *ecib*s assinados - e *in*a existem pesquis*s que questionam a **ternidade e a enfer*idade at*ibuíd*s ao perso*agem (GRAMMONT, 2*08). Rev. FSA, Teres**a, v. 15, n. 2, art. 7, p. 1*5-140, *a*./*br. 2*1* w**4.fs*net.***.br/revista Aleij*dinho em Cristo de Lama: u** Leitura Possív*l do Passado B*asileiro *31 Ness*s circunstâ*cias, chama-nos a atenção o *ato de que o es**itor brasileiro, no ano *m que há um golpe de Estado *o pa**, recupe*a o personagem artes*o como protagonista de s*u livro e, com sua *ist*ria, rem*mora, de certa fo*m*, *s discussõe* pela liberdade, exemp*ificadas nas falas do protagonista ao longo da tr*m*. Assim, é possíve* delinear uma **p*te*e de q** o autor se utilizou da *ig*ra de Aleijadinho - um homem *om um* anomalia fí*ica que *i*icultava seus movimentos e lo*om*ção - para fala* de *i*erdade em *eio a uma époc* *e cont**r*edade, a fim de *ostrar que, mesmo em meio a *d*ers*dades **rias, é possível lutar por um mun*o me*hor e m*is be*o. Vale **s*altar que a nossa pesquisa não tem como *o*o constat*r quai* f*ram os fa*o* verídico* sobre Aleij*dinho, mas *im, descor*inar como a literatur* rec****a os fato* históricos p*ra d*sc*tir o passado e princi*almen** o presente. 3 RESULTADO E DISC*SSÕES 3.1 Análise da Obra L**erária *as prim**r*s *áginas do rom*nce, o nar*ador, o*i*ci*n*e, descre** a história da ci*ad* de Vila R*ca (que futuramente viria a se* cha*ada de *u*o P*eto), com a chegada *o* bandeiran*es de Taubaté, * *elato d* Guerra d** *mboabas até c*e**r à h**tór*a do protagonist*, fi*ho do arquit*to português M*nuel Francisco e de uma esc**va alfo*r*ada, *sa*el. Antônio Francisco Lisboa *oi o nome da criança que na vida ad*l*a seria co*hecido por *uas imagens re*igiosas e po* *eu apelido: Alei*adinho. O narrado* co*tinu* descrevendo a história da cid*d* enquanto relata as peripécias de seu p*rsona*em, destacando * p**el que Helena, s*a m*drinh*, *x*rce sobre *le. A mulh*r é retrata*a com su** qua*i*ades físicas - "*oni*a n*s gestos dos branco*, *o rude dos homens, n* cio dos negros, na *ome do sexo, no *ozo dos *ei*os, era a faze*ora d* mirongas para po*o s*frido" - e também laboriosas: "fa*ia puça*gas, cozia xaropes, fervia seus chás, seu mel, sua* fo*ha* e flor-de-coqueiro para dar machidão, seus sa*gues de bod* e mijo d* *orcegos, para esse pra aque*e; a *orte nas carta* d*zia" (S*NT*S, 2014, p. 33). * Helena *uem faz a prof*c*a de como s**á o se* afilhado n* vida adult*: "E*te não *ai s* afundar nas aven*uras do Des*ino, não! Meu a*ilh*do há de ser homem de mais consideração ai*da d* que o pai! [...] Se o arquiteto, comadre, riscou a nova *atriz da C*n*eição, es*e *ai fazer *oisa de maior *alia" (SANTO*, *014, p. 34). É *l* tamb*m, Rev. FSA, Tere*ina PI, v. 15, n. 2, a*t. 7, p. 125-1*0, mar./abr. 2018 www4.fsanet.co*.br/revista F. A. Ribe*ro 1*2 H*lena, quem nomeia, pel* primei*a v*z, o *ro*agonista de Aleijadinho, com* u*a f*rma cari*hosa e materna. Helena é *ma p*rso*a*em feminina m*lt*facetad*, uma com**nação de *n*o e demônio, s*ja em suas caracterís**cas físicas *u em seus dons m*dicin*is. E*se retrato múltiplo da mul*e* dialo*a co* a Crítica Lite*ári* Feminista qu* despo**a no* E***dos U*ido* e* mead*s de 1970. Segundo Z*lin (20*5), esse movimento literário surge entre outr*s, com * ob*etivo de anular * repres*ntação *a mu*he* dentro de três ester*ótipo* culturais básicos dentro do patriarca*o: a mulher sedutora, a mulher meg*ra e a **lher-anjo. Os dois primeiros tra*em uma conotação negativa da imagem feminina que, se*undo as concep*ões do *atr*arca**sm*, dev**ia ser re*haçado po* qualquer mulher, e o último reafirma uma visão positiva, qu* deveria ser s**uido *elas mulheres *a sociedade. Dessa forma, a Crítica *emini**a assume o p*pel d* desma**arar * opressão feminina *rente à ideol*gia patriarcal e à literatura ***ônica. Contu**, tal representação da mulh*r *ão aco*tece, em g*ra*, com as obras de Felício d*s Santos, conforme comenta Ribeir* (2011, p. 160) *obre * *ivro A Guerrilh*ira: [...] os autores canônicos repres*ntam figur* feminina como mulh*r sedutora, a mul*er **gera ou mulher-*njo. O romance de João F*lício *os Sa*tos, co*tudo, não perpetua boa pa*t* dos valores tradicio*almente presentes nas obras c*nô*icas de auto*ia masc*lina que reproduzem *s p**sonagens *em*ninas de mo*o bast*nte esquemático e estereo*i*ad*. Apesa* de *e referir ao *ivro que tem como p**tag*n*sta Anita G*rib*ldi, a afirma*ão anterior é também v*lid* para a person*gem He*e*a, de Cristo de Lama: uma *ers*nagem que divide opiniões den*ro do *ex*o e que é a *nspiração d* Aleijadinho p*ra *ua c*rreira de a*ti*t*, semp*e lhe dando incentivo e prote*ão. * lin*uage* a*otada p*r Santos na n*rrativa r*ssalta a *o*ina dos hab**antes de Vila R*ca e o suplício de Al*ijadinho c*m su* *oença e sua vontade de esc*lpir os p**fetas. A de*c*iç*o físic* d* pro*agonista, logo n* início da narrativa, é um exemplo da col*qui*lidade da narração: [...] per*** fin*s e ar*ueadas equilib*a*am *enosamente um tronco atarracado, sem prumo, oc*l*o numa capa larga de largos p*nos. O pescoç* de bo* vel*o amparava, com a mesma dif*culda*e, cab*çorra mu*ata e u*a fortíssi*a co** derr*mava-se, *e* li*i*es def*nido*, por s*bre b ar b a curta, mas int**cada c*m* um carrascal. (*ANTOS, 20*4, p. 05). Rev. FSA, *eresina, v. 1*, n. 2, art. 7, p. 125-140, mar./abr. 201* www4.fs*net.*om.br/rev*sta Al*ij*dinho em C*isto de Lama: uma *eitura Possível do Pa*sado *rasile*ro 133 A descriç*o anterior revela um pers*nagem h**ano, i*div*dualizado, que es** longe do ideal heroico. Se, para a *eoria *a *iteratura, o herói "é o pro**gonista com c*racterísticas superiores às de seu grupo", a*ti-herói pa**a a ser "protago*is** que tem caracter*sticas o iguai* o* in*er**re* às de *eu g*upo, *as que, p*r alg** motivo, es*á *a p*sição de herói, *ó q*e se* competência *ara tanto" (GANCHO, 2006, p.18). *o caso de Ale*jadin*o de Cristo d* L*ma, não s* pode compará-lo ao *o*ceito de herói das ep*p*ias, por*ue ele não * um modelo, *ma pe**oa d* al*a es*i**e social, que nasce *om um grande valor *oral e o repas*a ao seu *ovo, mas tam**m não é um anti-herói que não *e pre*cupa *om os m*ios q*e utiliza para atin*i* seu objetivo. **vamente, o a*to* não constrói *eu p*r*ona**m dent*o de uma ou outra qualificação; ao *ontrário, ele *sclar*c* q*e o "herói" de seu l*vro * *m s*r humano como qualquer outro, com *uas qualidades e *mperfeições. No **so de A*eijadinho, o *eu *specto físico, * cor d* sua pel* e, posteriorment*, a s*a doença fazem *om qu* *eu e*terior l*ve o leito* a pen**r em *le seja um anti-h*rói, um persona**m que não te* condições de ser sublime ou de *azer a*go *xtra*rdinário. N* ent*nto, na propo*ção que a sua *oença física avan*a, o seu la*o artí*ti** vai se aprimoran*o c**a vez *ais, até chegar ** patamar do su*lime, do contemplativ*. Assim, *leijadi*ho o de João F*lício dos *antos ser* um herói méd*o, típ*co *o rom*nce his*óri** que *u*ác* (1977) cara*ter*za em seu text*: como a maioria das narrativas histórica*, trat*-se de personagens ficcionais *édi**, *u seja, um home* (mulher) comum, do povo, que se sobressai na história em meio às d*versidades *ntri*adas *e*aç*es sociais, e re*nindo lado* marca**es, pos*tivos * nega*ivos. No início do romance, a* apre*entar a m**idade do personagem, e*e é re*ratado com* um *omem alegre e que enca*tava as mulhe*es c*m sor*ilégios de música * b*bida - elementos que se *ssoc*am ao profan* (e que vão se co**rastar, ao desenrolar da na**ati*a, com as ima*ens *agradas *eitas pelo *rotagonista): [...] m*l*to Anto*in*o, com seus dese*gon*ad*s *ez*ssete anos, *ra bem apr*ci*do p*r toda* as *a*arigas da redondeza, porque era alegr*, fa**dor, *a*ia sortes, cantav* modinhas, *ocava v*ola, dizia versos, dançava batuque e bebia pin*a noites seguidas, e*chendo qualquer r*canto com m*l *abi*i*ades (SANTOS, 201*, *. 51-5*). Ao* dez*ito anos, Alei*adi*ho inic** seus es**d*s de arte com o mestre João Gomes e começa a modelar sua* *rimeiras i*agen* sacras * a questionar a* dores que *en*e: "De**is, por qu*, com tama**a temperança, não aperfeiçoa*a das dores? Das mão*, volta e meia comidas *e úm*d*s e desag*adáveis eczemas? Por que não sa**v* dos pé*, semp** mais tort*s, mai* atrofiados [...]?" (SAN***, 20*4, p.80). E n* me*ida qu* as dores e a doe*ça av**çam, Rev. F*A, Teresina PI, v. *5, n. 2, **t. 7, p. *2*-140, *ar./abr. 2018 www4.fsanet.com.br/revi*ta F. *. Ri*ei*o 134 fa**n** c*m que ele perca os *edos dos pés e das *ã**, *e*d* que ser *arrega*o e ter as ferrament*s amarradas n* pu*ho, o protagonista vai aprimoran*o sua arte, especialm*nte as escultur*s *m p*dra sabão, e re*lizando trabalho* cada vez mai* com pe*ícia e riq**za de particul*r*dade* ext*aordinári**. S*gundo as bio*rafias do p*rso*a*em *istórico, * *oença d*generat*va *ue ele tinha a*arece de*ois *os 4* anos; por *sso, a afirmação anterior *ai de encon*ro com a histó*ia, *á que o r*mance opta por *izer q*e a enf*rm*da*e dá se*s primei**s sinais *inda na juve*tude do herói. Contudo, o a*to* João Fel*cio do* Santo* não *uer escre*er u*a mentira, m*s si*, cons*r*ir u*a **rr*tiva *o **al s* evidenci* * so*rimento do personag*m *m compar**ão com * belez* *e sua arte. Uma das obr*s relatada* no romance * justamente a es*ult**a de Cristo, feito de lama, que o person*ge* *ontribuiu ao fi*al de s*a vida - e q*e dá nome ao l*vro. Ela é o símbolo da uniã* *o *lemento s*grado, da repr*sentação máxi*a do Ca*olicismo, com um elem*nto mat*r*al, t*rra e a água. Segundo o Dic*oná*io de *ímbolos, * lama *em u*a sig*ificação a muito *special: Símbo*o da m*téria primor*i*l e f*cunda, da qual * ho*em, em especial, f*i tira**, s**undo a tradição bíb*ica. [...] une o princípi* rece*tivo * matriarcal (a terra) ao p*incí*io dinâmico da mutação * das transformaç*e* (a água). Toda*ia, s* tomar*os a *erra com* ponto de p*rtida, a lama passa*á a simbolizar o nascime*to de *ma evolução, a ter*a que se agita, que fer*enta, que se t*r*a plást*ca. Ma* se, ao con*rário, *onsiderarmo* como po*to de par*ida a água com sua p*reza *rigin*l, a lama se aprese*ta como um proc**so involutivo, um i*ício de degradação. [...] pas*a a se* ide*tificada com a escória da sociedade (e com seu meio ambiente), com a ra*é, ou sej*, com os ní*e*s inferiores do ser: uma á*ua *ontami*ada, cor*ompid* (C*EVALIE*; *HEERBRANT, 20*7, p. 533-534). *o *ivro de J*ão Felício dos *antos, o protagonista r**ne *m s* o elemento de e**lução e degrad*ção ao m*smo *empo: en*uanto seu físico - que repr*sen*a o ex*e*ior, a *a*te *eteriorada e fi*ita do ser humano - caminha **ra * decompos*ção e d*sap*recimento tot*l, a sua *rte - a re*res*ntaç*o do belo, do s*bl*me, do eter*o - p*rmanece*á para as *eraçõ*s fu*uras, levand* as p*ssoa* a *ontemplarem o sagrado (SANTOS, 2*14). Sobre uma de suas ob*as m*is conhecidas * belas - os doze profetas no S*nt*ário de Bom Jesus de Ma*osinho, em Congonha* - a ficção apresent* u*a leitura de s*a g*nese: em 1757, A*ei*adinho já ter*a *ár*os e*b**os *e image*s, mas *eu grande desejo era esculpir *s d*ze profet*s, t*dos eles "erguidos m***o **to, mu*t* longe, n*m d*scamp*do er*o onde só o ven** pu*es** ca*tar entre vel*as ca*ua*ias [...] Um *ugar onde houvesse u* planalto... *erras Rev. FSA, T*resina, v. 15, n. 2, art. 7, *. 125-140, m*r./ab*. 201* www4.fsanet.com.br/revista Aleijadinh* em Cristo de Lama: uma Leitura Pos*ível *o *assado Bras*leiro 1*5 em vo*ta... pe*has funest**..." (SANTOS, 2014, p. 90). Esse s*u sonho só será *ossível *o final de sua vida, q*ando seu corpo já está deform*do e sua a*t* a*rimorada. E*qua*to nã* chegava a op*rtunidad* p*ra realizar a sua o*ra máxima, Ale*jadin*o, ainda jovem, ac*mpanh*va *e* pa* nos **a**lhos das Igreja*. Um dia, ao ver o pa* trabal*ando na a*q**tetura de uma capela, o per*onagem refletiu: "É bonit* um hom*m q*e pode realizar o que idealiza! Bonito e livre! Um, que não ten*a *iberdade, *ode*á fa*er iss*? A*é u* escrav* pode, desde que seja livr* por *entr*... *riação é li*erda*e. É a *nic* liberdade! É me*mo!" (SANTOS, 2014, p. 55). M*s *essa época ele já começava a *entir as pri*eiras cã*b**s nos p*s, ain*a sem saber que se tr*tava ** uma doen** *ue lhe levar*a a s*r um aleijad*. É interessante not*r aqui que o autor utiliza * voz do seu personag*m *ara falar de liberdade em *m momento muito *ríti*o pa*a a Hist*ria do Brasil. O a*o de 1964, ano de publicação ** r*m*n*e, é marcado p*lo go*** mili*ar e a ins*auraçã* da dit*dura *o paí*. E *elí*io d*s Santos se vale da ficção para fala* *e vários tipos de liberda**. Primeiramente, o pai de Aleijadinho, Manuel Francisco expõ* s*a vi*ão de liberdade: Liberdade é o n*o seres nenh*m neg*o cati*o. É **res tra*alho sem*re à *ão e *uanto haja! * sa*de e que uma chu** não o derrube co* mil constipações e defluxos! [...] É po*eres come* bem... beber melhor...dormi* de um *o** *ó a noite inteira, mi*ar com ab*ndância * disposiç*o... (S*NTOS, 201*, p. 103-*04). Aqui o person*gem relata o que seria li*erdad*, digamo*, "ex*er*or", com* está *xpres*o no primeiro sig*ificado da *a*avra no Dicionário **rélio: a pessoa ter direito a proceder **mo l*e convém, se* re**rição. Esse se*ia a pri**ira crítica do autor do rom*n**, frente ao *ontexto p*lítico soc*a* que vivia na época em que publicou o liv*o. Contudo, o autor não se at*m ape*as nessa ***pção *rimeira, expandindo conceit* para u* sentido o mais profundo e menos visí*el, utilizando a voz do *eu prota**nista: Escravidão é a *o homem bra*co, *rincipalmente quando precisa apenas *i**r para fa*er os fi*h** viv*rem. Escrav*dão a*nda maior é a dos tímidos que s* dizem li*re* *es*a terr*. Livres, com efeito, mas infini*amente suj**to* a uma opi*ião pública ch*ia de t*ra*ia [...] Homens *i*res que ne* d*r*ito têm de r*mar contra a maré d\El Re*, *e di*cordar de um simples edi*al, *inda que a o**e* sej* *a*a lhe* ext*rquir *s *lmas. (SANTOS, 2014, 104-p. 1*5). Nessa per*pec*i*a, o romanc* leva *eu leitor a r*fletir so*re sua vivên*ia *o mundo atual, no qual já não h* mais a es**avidão (dos neg*o*), mas onde impera outros *eios de s**enciamento e pr*ibição de se manifestar, de opinar. T*lvez seja *ssa a p**r escrav*dão, poi* Rev. F*A, **resina PI, v. 15, n. 2, a*t. 7, p. 1*5-14*, mar./*br. 2018 www4.*s*n*t.com.br/revista F. A. R*beiro **6 *uitas vezes a pessoa não percebe seu aprisionament* e, por isso, n*o há *eivindicação d* l*ber**de. *i*toric*mente, Aleijadinho viveu d*rante a Inconfidência Mineira (*789), ma* não parti*i**u *el*, a*é *orque sua condição de mu**to, f*lho de *scrava, o *eixava for* do cont*xto po*ítico da época. *o romance Cristo de lama, o *utor apr*veita * fato para fazer o s*u personagem *xpres*a* sobre *ibe***de, quando conv*rsa com o ami*o Mesquita*a: Acredita vosmecê q*e a nação *icará me*hor uma vez livre d*ssa praga de mandões por*ugu*ses? E, quando a *átri* ficar liv*e d*s l*dr*es europeus, não cairá fatal*ente na* garras do e*plorado* nativo [...] Libe*dade, Mesqui*ana, é trem muito subjet*vo: não há liberd*de in*ividual, ne* de homem nem d* nação, *esde *ue haja mis**ias co*etivas. [...] O qu* é precis*, ma* *reciso *esmo, é qu* todos ten*am educação e sa**e para terem as mesma* *portunidades. Mas essas coisas s* serã* dadas a* povo pel* própri* po** [...]. (SANTO*, 2014, p. 159-160). * p*ss*ve* *erceber, pelas falas c*ta*as de Ale*jadinho, *ue o autor *em a inten*ão de trazer a reflexão, para seu leitor, sob*e o que é o **berdade e quais as *an*iras como u*a pessoa *ode s e r *pris*onada. Não poder *xpr**sar a *ua o*in*ão ou **r que obedecer a um gov**nante/soberano sem con*estar tam*ém sã* *orma* de escr**idã*, assim como foram os negros **azidos ao Brasil *ara *rab*lha* nas minas. Se esses últimos tinham o s*u exterior **risionado, o* demai* *êm * me*** escraviza*as p*r uma ideologia dom*n*dora. 4 CONSIDERAÇÕE* *INA*S Qua**o apar*ce o tem* d* Inconfidência Mineira no r**anc* de João Felício dos Santos, a discus**o s*br* liber*ade s* a*ar**. Todavia, o *ro*lem*, na épo*a d* Aleijadi*h* (e no te*po em *ue o autor escr**eu e supos*amente até *os dias atu*is), não é o simp*es fato *e libertar-se d* um *ove*no opressor, de derruba* um soberano * *olocar outra p***oa em seu lugar, mas s*m propic*ar a toda popul**ão condiç*e* d* b*ns inco*p*eensív*i*, como s*úde, e*ucação e o acesso à *ite**tura (C*NDIDO, 2004). E, s*gundo o personagem Aleijadin*o, em uma fala citada ante*io*mente, somente a popu*ação bra**leir* *ode dar ela me*ma essas c*ndi*ões. Não * preciso ter u* "her*i" a in**v*dual par* con*egui* a emancipação *a sociedade brasileira fren*e a t*ntos *asos de *estrição. É a uni*o do povo, i*depen*entemente *e raça ou cl**se *o*ial, q*e levará o *r*sil * ser u* país aut*n*mo. Des*a ma*eira, João Felício dos S*ntos se a*ropria de uma figur* Rev. FSA, Te*e*ina, v. 15, n. 2, art. 7, p. 1**-140, *ar./a*r. 2018 www4.*san*t.com.b*/revista Aleijad*nho em Cristo de Lama: uma Leitur* Possível do Passa*o Brasileiro 137 marginal na história do Brasil p*ra da* voz aos *primidos e, po*si*elmente, a sua própr*a voz a* proclamar a liberdade ** povo *rasileiro. À vis*a disso, podemo* d*zer que *risto de Lama é um r*man*e histórico conte*porâne*, porque é um leitor privilegiado do *assado e porq** *lustra um *ovo *iálogo com a *istória, no sentido d* p**piciar *ovas p**sibilid*des de dis*urso*, *ant* para o pas*ad* *omo para o presente da *istó*ia do Brasil. O livro de *elício d*s Santo* tam*ém se posiciona de ma**ir* crítica frente ao discurso histórico, ao trazer à tona um persona*em que esteve à *argem da História do Br*sil para re*riar o passado e *edi*cu*ir questões *igadas à identidade brasileira, especialment* o que se refere à liberdade e todos o* *eus liames. E a s** nar**ti*a não qu*r suplantar o dis*ur*o his**ri*o, ao contrá*io, ela pe**ite o*tro* t*m*s e i*te*preta*õe* q*e auxi*iam na compreensão do passado e le*am o leitor a *efleti* sobre o seu p*esente. RE*ERÊNCIAS AINSA, F. La nueva nov*la *istórica lati*oam*ric*n*. Pl**al. Méxic*, 24*, p.82-85, 199*. AINSA, F. *nvenció* literaria y \r*constru*ión\ hist*r*ca en la nueva *arrativa latin*ameri**na. In: KOHUT, *ARL (Ed.) L* invención del pasado. La no*e*a *istóri*a en el mar*o de la postmoderni**d. F*ankfu*t; M*d*id: Veveuert, 1997. *IN*A, F. Ree**ribi* el *asado. H*storia y Fic*ión ** América Latina. Ca*acas: Celarg, 2*03. AR*STÓ**LES. Arte Poé*ica. Trad. *i*tr* Nassett*. Sã* P*ulo: Mar*in Clare*, 2004. CA*DID*, A. O Dire*to à Literatura. In: Vários Escrito*. Rio *e Janeiro/S*o Pau*o: O*r* sobre A*u*/Du*s Cid*des, 20*4, p.169-191. CHEVALIER, J; GHEERBRANT, A. Dicionário de símbolos: m*t*s, sonh*s, costum*s, gestos, for*as, figur*s, cores, números. 21. ed. 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