www4.fsane*.com.br/revista Rev. FSA, Teresin*, v. 13, n. 5, art. 1*, p. 173-184, set./out. 2016 I*S* I**resso: 1806-6356 IS*N *le*rônico: 2317-298* http://dx.do*.org/10.*2819/2016.13.5.10 Ficcionando o Espaço Rura*: A Fanta*ia e o Imaginário na Invenção dos *i*angos Fic*io*alizi** Rural Space: Fa**asy and Imag*nary in the I*vent*o* of Didang*s Daniel Cont* *outo* em Litera*ura *rasil*i*a, Portu*uesa e Luso-africana *el* Universidade F***ral do Rio *rande do Sul Pro*essor em L*tras e do PPG *m Processos e Man*fe*tações Cultura*s da Unive*si*ade Feev**e E-mail: *an*elconte@fee*a**.br Josia*i Job Ribeiro Mes*r*do em Proc*ssos e Manif*stações Culturai* pel* Universidad* Fee*al*. Grad*ada em His*ór*a *ela Unive*sid*de Feevale. E-ma*l: josiani@feevale.br Marinês An*rea Kunz Doutor* e* L*t*as * Ling*íst**a pela Pontifíci* U*iver*idade Cató*ica do Ri* *r*nde do Sul Professora em *etras * d* PPG em Pro**s*os e *anifest*ções Cultu**is da Uni*ersida*e Feevale. *-mail: *arinesak@*eevale.b* Ender*ço: Daniel **nte Ender*ço: Universida*e Fe*v*le, ICHLA - Instituto d* C*ências *umanas, **tras e *rtes. ERS-239, 2755 | Novo *ambur**, RS | CEP 93525-075 Endereço: *osiani J*b Ribeiro Endereço: Rua Jo*o Anto*i* da Silvei*a, 851, cent*o / No*o *amb*rgo, RS/ CEP 935*0-300 Endereço: Marinê* Andrea Ku*z En*e*eço: Un*versidade Feevale, I*HLA - Instit*to ** Editor *ientí*ico: To*n* Kerl*y de Alencar Rodri*ues *rtigo recebido *m 29/062016. Últim* v**sã* recebida *m 15/07/2016. A*rov*do em 16/07/20*6. Avaliado *elo sistema Triple Review: a) D*sk *ev*ew pelo Editor-Chefe; e b) Doubl* Blind *evi*w (avaliação cega por dois a*aliadores *a ár*a).
Ciência* Humanas, Letras e Artes. ERS-239, *755 | Novo R**isão: Gramatical, Normativa e d* F**ma*ação Ham**rgo, *S | C*P **525-075 Ap*io e fi*anciame*to: Coordena*ã* de Aper*eiçoamento de Pessoal de *í*e* Superior (CA*ES), Fundação de A*p**o * P**quisa do Esta*o do Rio Grande do S*l (F*PERG*) e Fundo N*cional de *esenvo*vimento da Educação (FNDE).
D. Conte, J. J. Rib**ro, M. A. Kunz 174 RE*UMO A narrativa é essenci*l *o ser hum*no e, da nec*s*i*ade de seu registro, nasce a esc*ita que, p*r *ua vez dá origem à mat*rialid*d* ficcional. Ao construir u*a na*rativa lit*rá*ia, o escrit*r se apropr*a de dif*r*nt** ele*e*t** que pos*ibi*i**rão * com*r*ensã* do le*tor em rela*ã* * seu tex*o. Dest* modo, es** e*saio anali*ará como o espaço, um dos el*mentos da narrativa, apresenta-se n* conto Onde andam os Didango*, de José J. Veiga. Explorando os conc*itos d* imaginário, espaço am*ientação, *ntr* outro*, c*m o am*aro dos teóricos: e Terr* *agl*ton, Roland *arthes, Miche* Maffesoli, Osman Lins, Antonio Dimas, Ít**o Calvino e Bronis*aw Baczko. Na relação *ntre f*ntasia e realidad*, é explorada a perspectiva pue*il de um* fam*lia, com base na conjunt*ra camp*nesa. A imag*nação de um* cria*ça, os *ichos *or ela inventados e seu *emor ao desconheci*o c*nduzem a rura*ização do espaço e à c*ntextualiz*ção social. E, à m*dida que a cria*ça se afasta da fabu**ção e experiê*cia a vida, seu *undo é ressignificad*, c*ncede*d* serventia a seus medo* e ao que a c*rcunda. Palavras-c*ave: *a**ativa literári*. Fanta*ia. Espaço. *mbient*ção. Imaginário. ABSTRA*T N*r*ati*e is essen*ial to human bein*s, a*d the *eed for its r*gi*trat*on, gives *pa*e to writing tha* *ives ris* *o fictional ma*e*iality. Whe* des*gn**g a literary narr*t*ve, the writer appropriat*s himself of *ifferent ele*ents tha* will enabl* th* rea*er's un*erstanding i* relat*on to the text. This p*per w*ll *xam*ne how space, *ne of th* narr*t*ve\s element* , i* po*t*ayed *n the stor* Onde anda* os Dida*gos from J*sé J. Veiga. Exploring so*e concepts *f the ima*inary, space and ambian**, among other*, through *heories from: Terry Eagleton, Roland *arthes, Mic*el Maf**so*i, Osman Lins, An*onio Di***, Ítalo *alvino a*d Bronislaw Baczk*. In th* r*lation*h*p b*twe*n fan*a*y and reality, it is explored the p*erile perspec**ve of a family, bas*d on its peas*nt e*viron**n*. A child's im*gination, *he animals inve*te* by him and his fear of the un*now*, lead to *uralizatio* of space an* *ocial c*ntext. Mo*ing aw*y from the child\s confabulatio* and en** up experien*ing li*e, *** w*r*d ass*m* a new m*aning, grant*ng p*we* *o his fears *nd to what surrounds him. Keywor*s: L*te*ary narrative. Fantasy. Space. *mbience. Ima*inary. Rev. FSA, Teresin*, v. *3, n. *, art. *0, p. 173-184, s*t./o*t. 20*6 **w4.fsanet.com.b*/r*vista Ficcionando o *spaço Rural: A Fantas*a e * I*aginár*o na *nvenção d** Di*a*gos 175 1 IN*R*DUÇÃO 1.1 INSERÇÃO * NAR*****A Comun*car-se é a condição prim*va do sujeito histórico. Foi através da* *arrativas **e * vida em *rupo foi *fe*iva*a * *uncio*a*izada e* *uas mazela* do cotidiano. Barthes (*976, p. 19) obs**va *u* "a na*rativa começa com * própria h*stór*a da humanid**e", uma vez que *odos os grup*s humanos a*rec*am * n*rr*r e detêm suas na**a*ivas como estr*t**as fund*ntes *e su* ossatu*a ant**p*lógica. Com * *scrit*, * ato comunicacional *e ressi*ni*ica, pois é *or meio dela, e co*sequentem*nte da leitu*a, *ue *s gr*pos soci*is re*istram seus m**i**ntos de *ignificação. Sem a *ateri*lid*de discurs*va, a hi*t*ri* *ocia* seria olvidada. A escr*ta n*sce com o intui*o *e re*istr*, *as não demo*a, para **e adq**ra um for*a*o m*i* complexo, o literári*. A materialidade **c*iona*, a e*cri*a l*terária, não *ó s* en*olve c*m o r***stro das *ções dos at*res *ociais, mas, também, usa-as como inspiração para c*iar a*go novo, o campo literário. O es*ritor goza da liberda*e de se valer dos eleme*tos coti*ianos para constr*çã* *o texto *i*ciona*. Se, por u* lado, a na*ra*i*a *omeç* com a pró*ria *i*tóri* da humanidade, po* outro, a leitur* assi**e ao h**e* dur**te toda *s*a histó*ia. Narrador, pers*na*ens, *em*o, esp*ço * acontecimentos1 são elementos *ons**t*intes das narra*i*as literá**as. E cada um desse* elementos d*sempenha uma fu**ão na tr*ns*o*maçã* da ling*ag*m *m texto, *ma vez que, de acord* com Bar**es (2004), * *iter*tura faz us* d* linguag*m para expr*mir um a id*ia *, por conse*uinte, um *ampo *i*b*lico, se p*nsarmos em *ourd*eu (1989), possibilita a constru*ão, viabiliz*nd* os e*eit*s de senti*o que d* text* vão emergir. As intencionalidades *o *utor/escrito*/enunciador estã* pulve**zada* ao largo da estr*tur* do nar**do; os acontecimen*os, p*r exemp**, podem expor *ma alegori* de cunho moral *u *m conjunto d* ima*e** que cami*ham a uma mesma ale*oria signi*icat*va. *, par* que o leitor a* com**een*a, serão necessá*ios con*ecim*ntos p*e**xtuais à leitura, informações extratextua*s, que acom*anham o s*jeit* leitor em *u* for*ação disc*rsiva, o *ue *rece** o co*tato com o te*to. Ca*a s**eito, c*n*udo, const*ói *ua representação de mundo e, a partir dela, inte**r*ta e assim*l* o que *stá a sua volta, e não *e exclui dess*s efe*t*s de **n*ido a materiali**de *iccional. **s*a o*d*m, Eaglet*n (20*3, *. 17) a*irma *ue todas "*s obra* literárias, em outras *alavras, são <re*scritas>, *esmo que inco*scientem*nte, pela* socied**es que as leem; na *erd*de não há re*eitura de uma obr* que 1 FLORY; S*ely F. V. (**g.). Narrativas Ficcionais: da literatura as mídias ficci**ais. S*o Pa*lo: A*te e Ciência, 2005.p.21 Rev. FSA, T*resin* PI, v. 13, n. 5, art. 10, p. 173-184, set/out. 2016 w*w4.f*an*t.co*.br/r*vista D. C*nte, J. J. Ribeiro, M. A. **nz 17* **o seja t*mbém <reescri**ra>", *nfatizando * importânci* do contexto soc*al na composiçã* e valoriza*ão da *iteratura, bem *omo expli*ita*do que, para q*e os intent*s do escritor se*am assim*lad*s pelo leitor, os valo*es da so*ie**de *m que el* se *nsere são ind*spe*sáveis,criando uma **rmeabilidade do mun*o f*ctício com o mundo real. O *onto O*de andam *s D*dangos de José *. Ve*ga2 conduz o leitor a esta relaçã* inter*ret*t*va. Co**extua*i*ad* no cotidian* *a vida rural, conta a hi*tó*ia de uma família, pelo *l*ar da criança. Um menin* *m*g*nativo qu*, *nvolt* pelos mistéri*s d* rancho e *o mato que o *erca*, usa a fantasia para explicar o desconhecido. Assim, em um* na*rati*a ficc*o*al, imers* no *eal, o autor percor*e os lim**es entre fantasi* e *ealid*de. 2 FANTASIA * IMAGINÁRI* Ao art*cular re*ursos fantasioso* em s*a *it*ratura, Veig* s* dirige a *m campo simbólico ima*inário, contudo, tem como *as* o qu* é r*al. No mundo *iccional *udo o *ue é criado perpassa a *mag*nação do artista. E e*se *maginári* é c*nstruído a partir do que el* viven*ia através de seu cotidiano, de sua v*da e daqueles q*e * ci*cundam, construi*do *m seu imag*ná*io fantasias a *espe**o **s relações sociais e da vida *errestre. É Calv*no que observa que: A fantasia do *rt*sta é um m*ndo de potencialidades que nenh*m obra c*nse*uirá tr**sfo*mar em at*, o *undo em *ue *xer*emos nossa *xperiê*c*a d* vid* é um outro mundo, q*e corresponde a *utras formas de ordem e de d*s*rde*, os estr*tos *e pal*vras que *e acumul*m *obre a página como os estratos de *or*s *obr* a tela são ainda *m outro mundo, *am*é* de *nfi*ito, **ré* mais gove*náv*l, menos refratário * uma forma (CALVINO, 1990, p.**3). Para o au*or, a fantasia d* art***a não pod*rá *er reproduzida fid*dignam*nte, poi s ex*ste *pen*s e* seu ima*inár*o, em seu compêndio *e imagens subjetiva*as; assi*, não se *aracteriza na esfera *o concreto. É justamente as pa*avras, a li*guística em sua co*plexidade es*rut*ral, * for*a mais efic** de explicitar * fantasia. Nessa ordem, em *nde andam o* *ida*gos a fan*asia manif*st*da atra*és do im*ginário infantil, ac*ntuando uma vis*da é lú*i** do *oti*iano. * *rotagonista, um m*nin*, *em nome, de fértil imaginação, pouca 2 P*blicado originalm*nte na obra A *aquina Ext*aviada: Conto* d* editora C*vili**ção Br*s*leira *o ano de
1974. Rev. FSA, Tere*i*a, *. **, *. 5, art. *0, p. 173-184, set./out. 20*6 www4.f*an*t.com.br/revista
Fic*iona*d* o Espaço Rural: A Fantasia * o I*aginári* na **ven*ão dos Didangos 177 3 mat*rida*e *ognitiva e ingênuo, in*icand* esta* na faixa etá*i* fi**l da s*gun*a infância direciona a história a seus *edos * anseios da vi*a no ca*po (espaço cons**tu*ivo contextua*). Ao sonhar com a i*fância, voltamos à morada do* deva**ios, aos devaneios que nos abr*r*m o m*ndo. É e*se devaneio que nos faz p*imeiro ha*itante do mundo da s**idão. E habi*amos melhor o mundo quando o habitamo* como a criança solitária h*bita as imagens. Nos deva*eios da criança, a image* preva*ece acima de t*d*. A* **per*ênc*as só vêm *epois. Elas vão a contra-vento de todos os devaneio* de *ôo. A criança enxerga gr*nd*, a criança enxerga belo. O deva**io volt*** *a*a a inf*n*ia n*s restitui à b**eza das im*gens pr*meiras (*AC*ELARD, 1971, p.87). * infância materializa u* mundo *ep*eto de imagens si*nifican*e*, no qua* o sujeito pueri* é capaz de fantasiar o que o circunda, p*ovoc*ndo a *abula*ão d* realidade. P*rspecti*a d*sde a qual Bachelard *rofere a ideia de mundo da *oli**o, entendend* que * cria*ça, *m *m *arg* p*ríodo de sua i*fância, const**i uma c*smo**nese própri*, animada a*enas em seu cons*ructo p*íquic*-imagético, e a alcance somen*e ** seu criad*r. A cri*nça é cap*z de v*r *oda a beleza e os detalhes do r*al, * ** perpassa a seu mundo. *a infância, o ser huma*o *rimeiro *ive sua *magin*ç** pa*a, depois, *xperie*ciar a realid*de. Na* **imeira* linhas do conto, a pe*sonalid*de e as caracter*stica* d* *rotagonista são *xpost*s *o leitor: "A noite *ra feia, *erigosa n* rancho, muitos bic*os lá fora, alguns conhecido*, outros inventados, deduzid*s dos barulhos q*e vinha* da mata; *as e*costado no cor*o sad*o *a mãe ele *ão tinha medo de nada" (V*I*A, 1989, p.*01). O b*eu * os sons provocad*s pelos animais not*rnos f*ziam da n*it* um mistério, a alimenta* a fantas*a da i*f*ncia, "por*ue na c*ari*ade não há bicho perigo*o" (*EI*A, 1989, p.10*). A ine*periê*cia cotidiana faz a fanta*ia *florar e a im*g*naçã* cria no*os *und*s, materializando s*res imaginários q*e, através do me*o do desconhecid*, ganham forma e *t*ibuição, como os *idangos, os m*is e*quisitos d* toda * *ata e, claro, os mais perigo*os. Esse mun*o em mo**ment* encontra para*em na seguranç* que lhe oferece a figura materna. N*la, o menino enco*tra a segurança de que necessita e que o faz con**itu**or da própria psique. Os *aç** afet*vos entre o menino e a mãe são intransponíveis e, é nesta relação, que el* en*o*tra *stabilidade p*r* lidar com * des*onhecido. Ainda que ao lado da mãe e *o pai ele sinta medo, crê na prot*ção of*r*c*da por eles * re*ova o aspecto da seg*rança da cas*, *a infânc*a *dificada p*los p**s, consoante Bachela*d (*998). A vida no rancho faz do* pai* as únicas referências soc*ais d* menino, *s infor*ações do que está além de sua casa são fornecidas por eles. Imagina-se qu* em algum momento el* tenha t*do *ontat* c** ou*ras *essoas, mas o convívio diário é res*rito *os três int*gra*te* d* 3 De acordo com PAPÁLIA (2006) a *egu*d* in*ânci* *or*esponde a fai*a etá**a de 3 ao* 6 anos. Re*. FS*, Teres*na PI, v. 13, n. 5, art. 10, p. 173-1*4, **t/out. 2016 www4.fs*net.*om.br/revis*a D. Conte, J. J. Ribeiro, M. A. Kun* 17* fa*ília. Entretanto, o pouc* contato c*m outros in*ivíduos já fornece novos eleme*tos p*ra sua *ons*rução de mund*. *s restri*ões *e espaço impos*as à criança, uma *ez que o menin* acaba l*mitado a* *ue englob* a casa, o leva a imagin*r o qu* es*á *ora. A *ma*inação é parte da s*bjetiv**ão do *ujeito, **ntudo imaginár*o é *ons*ru*do o p*r um* red* de signos *oci*lmente coloca*a. Ao *maginar, o indi*íd*o replica eleme*tos que lh* foram passad*s *ela ordem soci*l. Nesse sentido, o pr*tagon*sta imagina ele*entos que, em algum mo**nto, lhe *oram **ansmitido* pelo* pai* e dema*s atores co* que* tev* contato. [...] o imaginári* c*let*vo r**ercu*e n* ind*víduo de ma*eir* parti**lar. Ca*a sujeito es*á apto * ler o *m**inário com certa ***onom*a, Porém, qu**do se exami*a o problema com ate*ção, re*it*, v*-se que o *m**inário de *m indivíd*o é muito po*co individual, mas sobretudo *rupal, *omunitár**, triba*, pa*tilhado. (MAFFESOLI, *001, p.*0). Os b*chos imagina*os *ela criança são pr*duzidos por uma or**m funcional do medo, *as estru*urado* desde os e*ementos e da inf*uência social. M**fesoli é categ*rico: * i**gin*r*o * *art*lha**, *ssim, o entendime*to da existência de anim**s incógnitos no *ato, que gera a *nvenção d* novos b*chos, pode te* sido transmitido pelos p*óprios pais, c**o manobra para evitar o *fastamento da criança da *asa, **las his*órias contadas pelo* caçadores, que visitava* a propriedade d* fam*lia de a*o em ano, pedindo *o**o ou, ainda, pe*os contos e canções in*antis, nos quais, quando agem em discordância às in*i*ações dos pais a* crianças são **r*eg*idas **r monstros e punidas p*r s*as ações, ao exemplo do cont* João * Maria, dos Ir*ãos Gri*m* e da canção de ninar Boi da Cara *re*a5. Neste sent*do, *a*zko (1985, p. *99) afirma que "[...] **nto o i**g*nário social *omo as técnicas do seu uso *ã* pro*uzido* *spontaneamente, confundindo-s* com *s mito* e os r*tos",se**o *ifícil para a criança diferenciar o re*l *o mito, cul*inand* e* mais inf*r*ações par* a construçã* de um imag*nário de t*mores. Um imaginário t*o co****xo e emar*nhado imaget*cam*nt*, que deu aos Didangos c*racte**sticas singulares: eram bich*s "sem pés nem cabeça, só um c**po comp*ido em f**m* d* canudo, um can*do gross* e mole, *s *ez*s, *iso; às ve**s, cabeludo (essa *ar*e ainda n*o estava esclarecida), largo n*s po*tas, fi*o *o m*io" 4 Publicada or*g*nalmente p*los Irmãos Gr**m em 181*, o conto p***ou por divers*s **apt**ões *om o passar do tem*o. O *onto origin*l pode ser lido *m GRIMM, Jacob; GRIMM, Wilhel*. *rimm\s F*i*y St*ri*s. Ilustrated by John and R. Emm*tt Owen. The Project Gutenberg, 20*4. *isponíve* em: http://www.*ominiopublic*.gov.br/downl**d/texto/gu01102*.pdf. 5 Literatura *e c*rdel *ue foi adaptada para uma cançã* d* ninar infantil. Mais informações ver o *rtigo *EIJÓ, Ivan L. C. Bo* d* *ara preta: tran*fi*uraçã* *o *scravo, hu*anizaçã* do boi. Huma*idades ** Diá*o*o (Impresso), v. 4, *. 135-*48, *011. Rev. FSA, Teresin*, *. 13, n. 5, art. 10, p. 173-18*, set./out. 2016 www4.*sanet.com.br/r*vista F*cc*onando o Esp*ço Ru*al: A Fantasia e o I*ag*nário na Invenção dos Didang*s 179 (VE*GA, 1989, p. 101), mas ele nunca viu um de verdade, mas *ab*a q*e rondavam o rancho à noite, pois, pela manhã v*a seus rast*os. Afir**, porém, ter visto um deles ma*ar *ma já onça. Para * m*nino, * di*ícil diss*ciar o i*aginário, o co*j*nto de sím**los q*e o conduz e* sua jornad* i*fante, *a re*lidade, o concret* aterroriz*nte e, mesmo s*ben*o que nunc a viu um didangozinho sequer, te* mat*rializado em sua memória a cena dele matando * onça e, con*e*uenteme*t*, tem cert*za de que o viu. *e acordo co* *achelar* (1*47, 23), *. "a imaginação *ão é, como suge*e a etimo*ogia, a faculdade de formar i*agens da realidad*; é a f*cu*dade de formar image*s que ul*ra*as*am * realidade, que cantam a reali*a*e [...]", i*plicand* na confusão entre aqui*o qu* é re*l *u imaginário. *st* embate é * repres**tação da *e*iculosidad* do bicho inventado, um* *ez que o feli*o é um animal mu*to per*gos* que costuma caçar animais *e *rande *ort*, como outros fe*ino* e gado. Ademai*, ambos **ssu*m ***itos *rep*s*ular*s e noturnos, indic*ndo a d* s put a territorial a superioridade de e sua c*iaçã* em *elação aos outr*s anima*s do mat*. Mas * ol*ar do menino com rela*ão aos *idangos começa a ser alterado com a cheg*da de Venâncio, que oferece outr* rede **aginária de significação. 3 O ES*AÇO RURAL A situacionalidade do leitor e, por conseq*ência, a produç*o dos e*eit*s de s**ti*o, se ** através *o espaço n*rrativo e da encenação que nele se desenvolve. Em algumas n*rrações, apre**ntar* um a valoração *ecundária e, em outras, será fundam*ntal p**a o desenro*ar da *istór**. De ac*rdo com Dimas (1978, p.*6) "[...] cabe ao leit*r descobrir onde se passa uma a*** narrativa, q**is os ingredientes desse e*p*ço e qu*l sua eve*tu*l função no desenvolvim*nto do enredo". No conto de Veiga, o es*aço em que*tão o **ral, que traz é co*sigo uma rede compósita de image*s, que condu*em o leitor às idios*incrasias daqu*le **cus. Não há difi*uldade em se chegar à c*nclus*o, uma *ez que * narrador deixa claro, na *r*meira linha do texto, q*e a história se passa em um ranc*o, e *ontinua tra*endo as *antasias do protago*is** que, por su* ve*, são alimen*adas p*los sustos da vida rural. [...] o e*p*ço *o roma*ce, *em sido - ou as*im pode entender-s* - *udo *u*, intencion*lme*te disposto, *nquadra a personagem * que, *nventariado, *anto p*d* ser absorvido como ac*esc*ntado pela personagem, sucede*do, in*lu*ive, ser c*nstituído p*r figuras huma*as, *ntã* coisifica*as *u *om a i*dividualidade tendendo par* ze*o (LI*S, 197*, p. *2). Rev. FS*, Teresina PI, *. 13, n. 5, art. 1*, p. 173-184, *e*/out. 2016 ww**.fsanet.com.br/r*vista D. Conte, J. J. Rib*iro, M. A. Kunz *80 O **paço no conto é determina*o pela in**nção dos D*d*ng*s e a par*i* da s*a criação, são ev*denciados os elementos da ruralizaçã* do e*paço em que a narrativa ** *nse*e. É de*de a coisificaç*o *as *iguras, que são apresentados os anseios da vid* n* campo - um mundo real e simult*neamente fa*tasi*do, n* desconhecimento da vida *elvag*m amb*enta-se o *nredo *m questão, p*rti**o de n*ções es*a*il*z*das de *arra*ão, te*po e espaço. Para isso, é f**damen*a* atentarmos, q*ando tra*emos ao text* Mainguene*u (2013, p.123): Chamaremos de c*nograf*a es*a situaç*o de en*nc*ação da ob*a, tomando o cuid*do de relacionar o ele*ento -*rafia n*o a uma oposição *mpírica entre suporte or*l e supo**e grá*ico, *as a um processo f**dador à inscrição legitimante *e um te*t* estabilizado. Ela defin* *s condições d* enunciador e de co-enunciador, mas também o e*paço (topog**fia) e o tempo (cr*no**afia) a partir dos *uais se desenv*l*e a *nu**ia*ão. Al*m do *spa*o, a narr*tiva **s apresen*a *ma *mbientação, qu* te* a fu*ção de mostra* ao leitor o meio social em *ue personag*m e nar*ador se envo*v*m, ou mel*or, o ambiente onde * p*rsonagem está inser*d* e que, po* sua vez, é e*posto pel* narr**or. P*ra *ins (*9**, p.77), a ambientação * "[...] o conjunto de proc*ssos conheci*os ou po*síveis, des**nados a provocar, na narrat*va a n*ção d* um det*rmin*do ambiente", tendo o *a*rador a funçã* *e expor est*s p*ocessos, expl*cit*m*nte ** não, pa*a que se conheça/compreenda o amb*ente do perso*agem. N* c*n*o de Veiga, são di*ers** os *omentos de ambientação, mas a mai*ria deles direci*nam às circunst**cias m*smas: a vida s*mp*es agrícola. O p*i est*va na ro*a limpando o feij*o e * milho, a mãe tin*a ido * *rot* lavar ro*pa, o menin* fico* *ozi*ho brincando co* um besouro, que**a fazer o be*ouro arrastar uma caixa de fós*oros c*ei* de pe*rinhas, est*va e*tretido nis*o quando a po*ta do rancho escur*ceu. Ele l*vanto* os **hos e não viu ning*ém, **s tev* a impressão de **e um vulto tin*a acabado de passar. Di*ango n*o era por*ue eles são m*ito altos * fazem um b*rulho fofo q*ando *ha*am o p* no chão. *eri* *apu*o? (*EI*A, 1989, p.10*) O am*iente aprese*tado é de uma família que trabalha para o s*sten*o de uma vida simples; o pai, no ex*rcí*** de suas funçõ*s cotidianas na roça; a mãe, envolvida com os afazeres domésti*os; o menino, e *cupa*do se* t*mp* com os brinque*os e as brin*adeir** dispo*íveis; *odos *nvoltos nas atividades co*idia*as. Ao se a**ustar com o vulto, cons*atar *ev. FSA, Tere*in*, v. 13, n. 5, art. 10, p. 173-184, s*t./out. 2016 www*.fsa*et.co*.br/revista Ficcio*a*do o Espaço Rural: A Fan*asia * o Imaginári* na Invenção d** Didangos 181 que não era Di**ngo, * cogitar se* um t*puio6, é a*resentado *ais um aspecto *a *mbient*çã*, uma pequena pr*pri*da*e *ur*l, simples e *solada, em *ue * vín*ulo fa*il*a* é imprescindível. Conhecer os tapuia* e a**ese*t*r medo por sua pre*ença indi*a a regi*o à qual a família do conto de Veiga pertence. N* cena que segue, o men*no ressalta: "O pai d*sse que naq*e*a ma*a *iveram tapuios **tig*me*te; e*tariam volta*do?" (V*IGA, 198*, *.102), dei**n*o claro que os tapuias já não habitam a região, mas que o **aginário a *eu re*peito f*z parte dos rec*ios infan*is, * pon** de pensa* que morr**ia e de nada adiantava recorr*r aos pais, dado que, *orreriam também. O vu*to n*o *ra um índ*o, como constatado pelos pais, e **m *enânc*o, o ún**o persona*em no*eado no conto, um ***az *om cerc* de *uator*e anos. Ferido, r*cebe* *s cuidad*s da família e u* lar. * *apa* r*ceb* alimento da mãe, mas tem receio de c*mer, * mã* po* sua vez **z * *l* "Come bobo. Tem ven*no não" (VEIGA, 1989, *.1**), *x*o*do a hos*ilidad* da região ou do perí*do. Não era com*m u* jovem perdido na mata, e quando o a*udam e oferecem comi*a, apresenta rec*i* em *omer. Assim co*o para o menino ima*inador de Di*angos, *enâncio v* *o outro o perig* a *ua es*abi*idade, a sua **n*ição de suje*to narrati*o. Ve*g* ad*ta a ambie**ação re*lexa em s*u c*nto que, de aco*do com Li*s, (19*6) at*nde a uma *mposição espacial, que é m*nter o foco *o personagem * ev*tar uma *emática vazia, *a narr*tiva e* te*ce*ra pes*oa. Duran** todo o co*to, foco perm*nece no menino, o são as su*s a*itudes e *eaçõe* em tor*o da *riação do* Did*ngos e da ch*gad* de um *o*o pe*s**ag*m que *a**êm o *nredo. A am**en*ação reflexa como qu* i*cide sob** a pers*nagem, **o implicando numa aç*o. A persona*em, na ambie*tação reflexa, t*nde * *ssumir uma atitude passiva a sua rea*ão, **ando registrad*, é semp*e interi*r (LINS, 1976, p.*3). O conto culmina em violê**i*, não no sen*ido de agress*o física à famí*ia, mas *om a invasão de um est*anho à p*o*rie*ade que, com ameaças e con*rol*, os im*ossibil*tou d* qua*quer *efesa. Esse estra*ho busca por Ve*ânci* e, ao chegar na *a*a, el* encontra ape*as * mãe e o menino, o p*i e o ra**z **tão na lavoura. O rap*z já é parte da famí*ia, e o* pais * 6 Os tapuias são uma tri*o ind*gena que atualmente vi*em na Terra Indíg*n* dos Tapuia, *oca*izada *o Va*e do
São P*trício, no *stado de Goiás, no B*asil. Durante o período c*loni*l, eles ocupavam o *nterior do norte bra*ileiro. De es*r*tura fí*ica r*busta e p*r apre*entarem resi*tência *o proces*o de colonização, f*ram c*amado* de "Bárbaros", pois *espondiam com **olência as invest*das dos colonizadores *m seu *err*tório. Estas características culminaram para um imaginário viol*nto em r*lação a t*i*o, na região que ocupavam. *ar* mais in*ormaçõ*s ver o *r*igo SIL**, Lorranne Gom*s da; VASCO*C*LOS, Edua*do Henrique Ba*bosa de. Os Tapuia: uma hi**ór*a d* resistência e **perança. Revis*a tarai*iú, v. *1, p. 64-78, *012. Rev. FSA, Teresina PI, v. 1*, n. 5, a*t. 10, p. *7*-184, s*t/*ut. *016 www4.fsanet.*om.br/revista
D. Conte, J. J. Ri**ir*, M. A. Kunz 18* trata* com* um filho. O home* é dife*ente de *utr*s que * menino conh*ce*, porta uma *ar*bina apa*enta ser *uim, fi*cal*zava e contr*lav* a ele * à *ãe. O menino sente medo, e pensa em *iferentes saídas, e ch*ga a *edir a Deus que *ma cobra morda homem, e se o p*ep*ra para a realização d* pedido, mas nada aco*tece. E, como ressal*a*o por Lins, sua* at*tudes são pas*iv*s e as reações *ã* in*eri*r**ad*s. O pai e * rapa* retornam da lida e são pegos de *ur*resa pelo *om*m que, usando sua arm* * *o**ilid*d*, faz o pa* am*rrar V*nânc*o e o leva mato **en*ro, "**mo* embora. Seu ti* está *sp*rando" (*EIGA, 1989, p.107), dando *ndícios d* uma possível f*ga do rapaz que, dev*do à arma, *ão r*sis*e à imagem do homem. O homem leva também a *spingarda do pai, e avisa que a dei*ará n* m*to, e leva jun*o um ped*ço da f*míli*, sem desped**as, expondo o ambiente *e violência, ho*tilidad* e rompimento. 4 CONS*DERAÇÕES FINAIS Em um mundo d* fantasi*, V*i*a incita o l*ito* a apr*ximar-se do r*al, atravé* d* coisificação das *iguras human*s, dos s*stos da roça, dos *edos a*se*o* co*idi**o* * da infância, o le*tor se depara co* as afli*ões e rom*i**ntos de um mundo real, enfi*, de todo um conjunto sign*fican*e d* estrutura social campesina, no conto representada. É natu*a* o homem se*tir *edo* recei*s *o d*sconhe*ido. O medo pode petrific*r o h*mem o* * o incentiv* a seg*ir e* fre*te. Em Onde anda* os Didangos, o menin* s* vê em situações de medo e opt* por negar a a*ão, deixa-*e **pacta* e esp*ra pelas resoluçõe* dos p**s. Mas ele * **a criança, e e* sit*ações de per*go é como as criança* são instruídas a agir. Con*udo, na medida em que *s *contecimentos ocorrem, e*e chega a consta*açõe*, as m*smas qu* o homem vivenci*rá quando adulto. Com a cheg**a *e *m *omem em busc* de Ve***cio, e*e se sent* descon*ortáv*l que*tion* "P*r qu* é e q*e existe gente ruim no mundo? Por que **o pode todo mundo ser como **nâncio?" (VEIGA, 1989, p.106), durante toda sua existência os home*s *rão *e deparar com situações maldo*as ou estran*as, qu* os far*o q**stiona* a essênc*a e o *omp*rtamento d*s s*res humanos. Em **rtos momentos p*r ações desumanas, e outras apena* por preco*ceito. As narrativas li*erár*a* **azem à tona aspecto* do cotid*ano, e o le*tor, capaz *e p*rceber a *nten*ionalidade do e*critor e os elementos ex*ra tex*uais, te*á n*va* persp*ctiv*s para *roblematizá-las. *ssim, Veiga *r*a uma linha tênue en**e a fantasia e o real, uma vez que a fanta**a é p*rte de seus *er**nagens Rev. FS*, Teresi**, v. 13, n. 5, art. 10, p. 173-184, set./ou*. 2**6 www4.fsa*et.com.br/r*vista Ficc*o*ando o Espaço Rural: A Fantasia e o Imagi*ário na Invenção dos Dida*gos 1*3 [...] há uma r***ura e*tre o verossímil antigo e o re*lismo *oderno; mas por isto mesmo também, um n*vo verossímil nasce, e *ue é prec**amente o realismo (en*endemos po* is*o todo o discurso que aceite enunciaçõ*s **editada* soment* p**o re*erente) (BAR*HES, 1*72, p.43). Consoante Barthes (197*), no que ta*ge * *it*ratur*, o real já não é mais necessári*. O mundo fic**on*l pode se* fantasioso, ma*, ainda *ss*m, trará el*m*ntos do re*l, *m* vez que sua *riação é baseada em alg* *xis*ente, uma imagem ou um con*ei*o, e o escrit** p*de e **v* se va*er d*sses e*e*entos para alcançar o l*itor. No con*o, qu*n*o Venânci* é lev*do, a família *recisa li*ar com a perd*. Na*uele momento, eles não sabem * que será ** rapaz, e precis*m *idar com a perda. A vida q*e eles co**ecem deixou de e*istir e precisam reaprender a vive* sem a sua p*esenç*. *este mom*nto, tud* pass* a **r um novo signifi*ado p*ra o *eni*o e, produzin*o *e*tido desde uma sens*ção de **p*tência, por não ter feito nada para impedir o rapaz de *er levado, e*e qu*stiona "E os dida*g*s, on** es*a*am que *ão tinham vindo?" (VEIGA, 1989, *.107). O menino altera as suas nece*sidad*s e, aquilo *u* *n*es *e*r*sentava o medo passa a re**ese*tar a s*lvação, a*inal de con*as, eles *oderi*m ter assustad* o homem ruim. E assim, o que e*e consid*rava d*sagradável passa * ser atraente, *ado qu* l*e é úti*. REF***NCIAS BACHELA*D, G. La poétiq*e de larêve*ie. 5. ed. Paris: P.U.F., 1971. ______. *\eau et le*rêves. Es*aisurl\imaginati*n de lamatière. Paris: Jos* Cor*i, 1947. BACZKO, *. "Aima*inação so*ia*" In: *EA*H, E. et al. Anthropos-Homem. Lis*oa, Impr*nsa Nacion*l/Casa da *oeda, 1985. BA*THES, R. Intro*ução à análise estrutu*al da narrativa. *n: BAR*HES, R. et al. 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ISSN 1806-6356 (Print) and 2317-2983 (Electronic)